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Raiva

Rabies lyssavirus — vírus RNA, gênero Lyssavirus, família Rhabdoviridae

Antropozoonose transmitida pela saliva de mamíferos infectados — sobretudo por mordedura, mais raramente por arranhadura ou lambedura de mucosas — que causa encefalite aguda progressiva com letalidade próxima de 100%. Depois dos sintomas quase não há o que fazer; antes deles, lavar a ferida e fazer a profilaxia pós-exposição correta evita praticamente todos os casos.

Lyssavirus neurotrópicoCães, gatos, morcegos e silvestresEncefalite quase sempre letalProfilaxia pós-exposição salva
20–25 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Encefalite viral aguda por Rabies lyssavirus; letalidade de aproximadamente 100% após os sintomas.
  2. Só mamíferos transmitem: no Brasil, os casos recentes vêm mais de morcegos e silvestres do que de cães.
  3. Incubação média de 45 dias, de dias a anos — e menor em crianças e em mordeduras próximas da cabeça.
  4. A prevenção funciona: lavagem da ferida + vacina ± soro no tempo certo.

O que é raiva

A raiva é uma antropozoonose: o vírus circula entre mamíferos e o ser humano é infectado de forma acidental, quando a saliva de um animal doente entra em contato com tecido lesado ou mucosa. Uma vez que os sintomas neurológicos começam, a doença evolui para coma e óbito em poucos dias na quase totalidade dos casos.

O paradoxo clínico é que se trata, ao mesmo tempo, da infecção mais letal conhecida e de uma das mais preveníveis. Quase todo o trabalho médico acontece antes da doença, no atendimento antirrábico: classificar a exposição, lavar a ferida e indicar vacina e soro corretamente.

Na raiva, a decisão que salva vidas é tomada no pronto-atendimento da mordedura, não na UTI: todo acidente com mamífero merece avaliação antirrábica no mesmo dia.

O agente

O gênero Lyssavirus reúne 16 espécies; a que circula no Brasil é o Rabies lyssavirus (RABV). Ele se divide em variantes antigênicas ligadas a reservatórios específicos — e a tipificação da variante, feita nos laboratórios de referência, é o que diz à vigilância de onde veio cada caso.

Agente etiológico

Rabies lyssavirus

Vírus envelopado em forma de projétil, com genoma de RNA de fita simples, sentido negativo, não segmentado (cerca de 12 kb). Altamente neurotrópico.

  • Ordem Mononegavirales, família Rhabdoviridae, gênero Lyssavirus.
  • Inclusões citoplasmáticas eosinofílicas nos neurônios (corpúsculos de Negri) são o achado histológico clássico.
Histologia do vírus da raiva — toque para ampliar.
VarianteReservatórioImportância
AgV1 e AgV2CãesCiclo urbano; último caso humano por variante canina no Brasil em 2015.
AgV3Morcego hematófago (Desmodus rotundus)Principal fonte de casos humanos recentes e da raiva dos herbívoros.
AgV4 e AgV6Morcegos insetívoros (Tadarida brasiliensis, Lasiurus cinereus)Circulação urbana em morcegos não hematófagos.
Variantes de silvestresCachorro-do-mato (Cerdocyon thous) e sagui-de-tufo-branco (Callithrix jacchus)Ciclo silvestre terrestre, sobretudo no Nordeste.

Fonte: Guia de Vigilância em Saúde, 6ª ed. rev., 2024; Nota Técnica 134/2022-CGZV.

Fisiopatologia: do músculo ao cérebro e de volta à saliva

Entender o trajeto do vírus explica toda a profilaxia. Ele se multiplica primeiro no local da inoculação e só depois entra nas terminações nervosas, subindo pelo axônio até o sistema nervoso central — fora do alcance dos anticorpos. Por isso o soro precisa ser infiltrado na ferida, onde o vírus ainda está, e a vacina precisa começar antes que ele alcance o nervo.

Fisiopatologia

Inoculação → nervo periférico → SNC → glândulas salivares

O vírus progride por transporte axonal retrógrado até o SNC e depois se dissemina de forma centrífuga para glândulas salivares e outros órgãos, sendo eliminado na saliva.

Fisiopatologia da raiva — toque para ampliar.
  1. Inoculação

    Saliva infectada entra por mordedura, arranhadura ou mucosa.

  2. Replicação local

    Multiplicação no ponto de inoculação (janela em que lavagem e soro infiltrado agem).

  3. Via neural

    Entrada nas terminações nervosas e ascensão pelo nervo periférico até a medula e o encéfalo.

  4. Encefalite

    Disfunção neuronal grave com pouca destruição visível; disautonomia e insuficiência respiratória matam.

  5. Disseminação centrífuga

    Do SNC para glândulas salivares e outros órgãos — o hospedeiro passa a transmitir.

Incubação e evolução

A incubação é extremamente variável — de dias a anos, com média de 45 dias no ser humano — e tende a ser menor em crianças. Ela encurta quanto maior o inóculo e quanto mais extensa, profunda e próxima da cabeça for a lesão, e varia com a cepa viral. É essa janela que torna a profilaxia possível, e é por ela que nunca se nega atendimento a quem chega dias ou semanas depois.

≈45 diasIncubação média no ser humano (dias a anos)
2–10 diasPródromos inespecíficos
2–7 diasDos sinais neurológicos ao óbito, em geral
≈100%Letalidade após o início dos sintomas

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O essencial de transmissão e risco

  1. Transmissão pela saliva: mordedura (principal), arranhadura e lambedura de mucosa ou de pele lesada.
  2. Quatro ciclos: urbano (cão/gato), rural (herbívoros), silvestre aéreo (morcegos) e silvestre terrestre.
  3. Cão e gato eliminam vírus 2–5 dias antes dos sinais e morrem em cerca de 5–7 dias: daí a observação por 10 dias.
  4. Ratos urbanos, camundongo, hamster, porquinho-da-índia e coelho são de baixo risco: não indicam profilaxia.

Como ocorre a transmissão

Apenas mamíferos adoecem e transmitem. O vírus está na saliva e nas secreções do animal doente e penetra principalmente pela mordedura; mais raramente, por arranhadura (a unha contaminada pela saliva) e por lambedura de mucosas ou de pele já lesada.

Contatos indiretos — tocar ou alimentar o animal, lambedura em pele íntegra, contato de pele íntegra com secreções ou excreções, mesmo de animal raivoso ou de caso humano — não são exposição de risco e não exigem profilaxia.

  • Mordedura: forma clássica; risco maior quanto mais profunda, múltipla e próxima da cabeça.
  • Arranhadura: exposição quando a unha carrega saliva; a do gato costuma ser mais profunda que a mordida.
  • Lambedura: de mucosas (mesmo íntegras) ou de pele lesada.
  • Raras: transplante de órgãos de doador infectado e exposição laboratorial a aerossóis.

Ciclos epidemiológicos e reservatórios

Por finalidade didática, a cadeia da raiva é dividida em quatro ciclos que se comunicam. O ciclo urbano é passível de eliminação pela vacinação de cães e gatos e, no Brasil, está praticamente controlado; os ciclos silvestres não, e é deles que vêm hoje a maioria dos casos humanos — entre 2015 e 2021 foram 25 casos, 20 deles transmitidos por animais silvestres.

Ciclos de transmissão

Urbano · rural · silvestre aéreo · silvestre terrestre

Morcegos mantêm o ciclo silvestre e alimentam o rural (herbívoros) e, ocasionalmente, o urbano.

CicloPrincipais animaisO que importa na prática
UrbanoCães e gatosControlado pela vacinação animal (meta de cobertura canina acima de 80%).
RuralBovinos, equinos e outros herbívorosInfectados por morcegos hematófagos; risco para quem manipula a boca do animal.
Silvestre aéreoMorcegos (hematófagos e não hematófagos)Qualquer contato é grave; mordedura pode passar despercebida.
Silvestre terrestreCachorro-do-mato, raposa, sagui, macacos, quati, gambá, guaxinimSempre grave, mesmo se domiciliado ou “domesticado”.

O animal agressor

A espécie do animal muda a conduta mais do que qualquer outro dado. Morcegos podem albergar o vírus por longos períodos sem adoecer e transmiti-lo antes de qualquer sinal, e a patogenia nos demais silvestres é pouco conhecida — por isso não há observação possível para eles. Já cães e gatos têm comportamento conhecido: eliminam vírus de 2 a 5 dias antes dos sinais e morrem em média de 5 a 7 dias depois.

Reservatório

Morcegos

Hematófagos ou não; encontrados em horário ou local não habitual são suspeitos.

Reservatório

Mamíferos silvestres

Saguis, macacos, cachorro-do-mato, raposa, quati, gambá: sempre de risco.

Cão ou gato vacinado

Animal que passa longos períodos na rua, sem controle, é considerado de risco mesmo que tenha dono ou tenha sido vacinado em campanha. A agressão espontânea (sem provocação) sugere alteração de comportamento.

Animais de baixo risco

Alguns roedores e lagomorfos urbanos ou de criação são considerados de baixo risco pelo Ministério da Saúde, e acidentes com eles não indicam profilaxia antirrábica. Isso não vale para roedores silvestres (como a capivara), que entram na categoria de silvestres. Lembre-se dos outros riscos dessas mordeduras: tétano, infecção bacteriana e febre por mordida de rato.

  • Ratazana de esgoto (Rattus norvegicus) e rato de telhado (Rattus rattus).
  • Camundongo (Mus musculus).
  • Cobaia ou porquinho-da-índia (Cavia porcellus) e hamster (Mesocricetus auratus).
  • Coelho (Oryctolagus cuniculus).

Epidemiologia e Saúde Única

No mundo, os cães respondem por até 99% das transmissões ao ser humano, e as mortes se concentram na Ásia e na África. No Brasil, o controle canino deslocou o risco para os ciclos silvestres, ao passo que o volume de atendimentos continua enorme: em média 651.500 atendimentos antirrábicos por ano entre 2015 e 2021, 96,8% por cães e gatos.

Saúde Única

Controle da raiva = vacinação de cães e gatos + vigilância de morcegos e herbívoros (com a agricultura) + bloqueio de foco + atendimento antirrábico humano oportuno + educação da população para não manipular morcegos.

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O essencial de quadro clínico

  1. Pródromos de 2–10 dias: febre baixa, mal-estar, cefaleia, ansiedade e parestesia ou dor no local da mordedura.
  2. Forma furiosa: hiperexcitabilidade, hidrofobia, aerofobia, sialorreia e espasmos; lucidez entre as crises.
  3. Forma paralítica (cerca de 20%; típica dos morcegos): paralisia flácida ascendente com consciência preservada.
  4. Disautonomia e insuficiência respiratória são as principais causas de morte.

Apresentação clínica

Depois da incubação, surgem pródromos inespecíficos: mal-estar, pequeno aumento de temperatura, anorexia, cefaleia, náuseas, dor de garganta, irritabilidade, inquietude e angústia. A pista mais específica dessa fase é local: dor, prurido, hiperestesia ou parestesia no trajeto do nervo próximo à antiga mordedura, às vezes com linfadenopatia dolorosa.

Em seguida, a encefalite se instala em uma de duas formas. A anamnese deve ser feita também com o acompanhante e bem documentada: sintomas prodrômicos, exposição a animais (inclusive morcegos em casa) e vacinação prévia.

Paciente com raiva furiosa ou paralítica deve ficar em isolamento, e a equipe deve usar EPI (avental de manga longa, máscara, luvas e óculos).

Formas e fases da doença

Pensar nas duas formas ajuda a não perder o diagnóstico. A furiosa, ligada sobretudo a variantes de canídeos, é a imagem clássica; a paralítica, associada na maioria das vezes ao vírus de morcegos, evolui de forma mais lenta e é confundida com doenças neuromusculares. Sem suporte, o óbito ocorre em 5–7 dias na forma furiosa e em até 14 dias na paralítica.

Forma furiosa

  • Ansiedade e hiperexcitabilidade crescentes, febre, delírios e alucinações.
  • Hidrofobia: espasmos de laringe, faringe e língua ao ver ou tentar ingerir líquido.
  • Sialorreia intensa, disfagia, aerofobia, hiperacusia, hiperosmia e fotofobia.
  • Espasmos generalizados e convulsões; períodos de lucidez.

Forma paralítica

  • Parestesia, dor e prurido no local da mordedura.
  • Paralisia muscular flácida precoce, em geral ascendente; sensibilidade preservada.
  • Febre elevada e intermitente; consciência preservada na maioria.
  • Hidrofobia pouco evidente; retenção urinária e obstipação.
  1. Pródromos

    2–10 dias, inespecíficos + sintomas no local da mordedura.

  2. Fase neurológica

    Furiosa ou paralítica.

  3. Coma e óbito

    Em geral 2–7 dias após os sinais.

Achados característicos

Diante da suspeita, observe atentamente o fácies e procure hidrofobia, aerofobia (espasmo provocado por um sopro de ar no rosto), hiperacusia, hiperosmia, fotofobia e alterações de comportamento. A hidrofobia resulta de espasmos dolorosos da musculatura faríngea e laríngea; a sialorreia vem da dificuldade de deglutir a própria saliva.

Sinal característico

Hidrofobia

Espasmo faríngeo e laríngeo ao tentar beber ou só ao ver o líquido.

Achado característico

Paralisia flácida ascendente

Começa no membro mordido; febre e consciência preservada.

Complicações

A progressão neurológica traz alterações autonômicas, respiratórias, metabólicas e intracranianas graves, que são o alvo do suporte intensivo. A raiva também pode mimetizar morte encefálica, com arreflexia e supressão do EEG — o que exige cautela antes de qualquer conclusão.

ComplicaçãoComo se apresenta
DisautonomiaBradi ou taquiarritmias, hipo ou hipertensão arterial; uma das principais causas de morte.
Insuficiência respiratóriaEspasmos, paralisia e hipersalivação; a outra grande causa de morte.
Hipertensão intracranianaEdema cerebral com risco de herniação.
Vasoespasmo cerebralVelocidades elevadas no Doppler transcraniano; risco de isquemia.
Distúrbios do sódioHipernatremia (desidratação, diabetes insipidus) e hiponatremia (SIADH, síndrome cerebral perdedora de sal).
Convulsões e infecçõesPensar em HIC/vasoespasmo; febre e leucocitose podem ser da própria raiva (poiquilotermia).

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O essencial de diagnóstico

  1. Caso suspeito: todo quadro sugestivo de encefalite, com ou sem exposição conhecida.
  2. Confirmação: IFD, prova biológica (isolamento) ou RT-PCR positivos; ou critério clínico-epidemiológico.
  3. Coletar saliva, biópsia de pele da nuca, LCR, soro e impressão de córnea — repetidamente.
  4. Negativo não exclui; após o óbito, a necropsia do encéfalo é decisiva.

Definições de caso

A definição de caso suspeito é propositalmente ampla: qualquer encefalite pode ser raiva, e a notificação é imediata. A confirmação pode ser laboratorial ou, quando não há como coletar material, clínico-epidemiológica. Se a suspeita surgir apenas após o óbito, a exumação deve ser considerada.

Caso suspeito

  • Quadro clínico sugestivo de encefalite.
  • Com ou sem antecedente de exposição ao vírus rábico.
  • Notificação compulsória e imediata (municipal, estadual e federal).

Caso confirmado

  • Laboratorial: suspeito com IFD, prova biológica ou RT-PCR positivos.
  • Clínico-epidemiológico: encefalite com hiperatividade seguida de síndrome paralítica e coma, sem diagnóstico laboratorial possível, com exposição a provável fonte.

Exames específicos em vida

Como nenhuma técnica isolada chega a 100% de sensibilidade, combine amostras e técnicas. A coleta é organizada pela vigilância estadual junto ao Lacen e ao laboratório de referência nacional (Instituto Pasteur-SP); a primeira amostra de cada material deve ser colhida em duplicidade.

TécnicaAmostraInterpretação
IFD (imunofluorescência direta)Folículo piloso (biópsia de pele da nuca), raspado de mucosa lingual, impressão de córneaSensibilidade limitada: negativa não exclui.
RT-PCRSaliva, folículo piloso, LCRDetecta e identifica o RNA viral; também usada para documentar clearance.
Prova biológicaInoculação em camundongo ou cultura de célulasIsolamento viral; permite tipificação antigênica.
SoroneutralizaçãoSoro e LCRNo soro, só vale em quem não foi vacinado; no LCR, indica infecção mesmo após vacina.
Coleta e conservação (Protocolo de Recife)
  • Saliva: 2 mL, antes da higiene oral, aspiração ou fisioterapia; congelar a −20 °C (ou −70 °C).
  • Folículo piloso: biópsia de pele de 0,5–1,0 cm² da nuca, junto ao couro cabeludo; bisturi descartável; frasco isolado e congelado.
  • Soro: 5 mL de sangue, separar o soro de imediato; congelar.
  • LCR: 2 mL por punção lombar; congelar.
  • Impressão de córnea: uma vez, apenas por profissional habilitado.
  • Saliva diária na primeira semana; LCR e soro às segundas e quintas; resultados em até 72 h após o recebimento.

Diagnóstico após o óbito

A necropsia tem extrema importância para confirmar o caso. Encaminhe cérebro, cerebelo, tronco e medula (fragmentos de córtex, hipocampo, tronco, cerebelo e medula) ao laboratório: refrigerado se chegar em até 24 horas, congelado após esse prazo, ou em solução salina com glicerina a 50% se não houver refrigeração. Nunca em formol para o laboratório de virologia — a formalina inviabiliza isolamento e técnicas imunológicas.

No Protocolo de Recife, o encéfalo é dividido em corte sagital: metade a fresco para o laboratório de raiva (IFD, isolamento) e metade em formol para a histopatologia.

Diagnósticos diferenciais

O quadro típico aparece em cerca de 80% dos pacientes com história de exposição. Na forma paralítica transmitida por morcego, o diagnóstico é muito mais incerto, e a lista de diferenciais ajuda a pedir os exames certos — sem que eles atrasem o isolamento e a notificação.

DiferencialO que ajuda a separar
Síndrome de Guillain-BarréSem febre nem alteração de consciência; dissociação proteinocitológica; ENMG. Principal confusão da forma paralítica.
Outras encefalites virais (arbovírus, herpes, enterovírus)Epidemiologia, PCR/sorologia no LCR, RM.
TétanoTrismo e espasmos com consciência preservada, sem hidrofobia nem encefalite; ferida contaminada.
Infecção por herpesvírus B (Macacine alphaherpesvirus 1)Mordedura de macaco; encefalomielite.
BotulismoParalisia descendente, simétrica, sem febre.
Encefalomielite aguda disseminada e encefalite pós-vacinalRM com lesões desmielinizantes; relação temporal com vacina.
Intoxicações (incluindo mercúrio) e quadros psiquiátricosHistória, exames toxicológicos, ausência de febre.
Pasteurelose, sodoku, febre da arranhadura do gato, tularemiaInfecção local e sistêmica após mordedura/arranhadura, sem encefalite rábica.

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O essencial de tratamento

  1. Toda exposição: lavar com água e sabão por cerca de 15 min, antisséptico, não suturar de rotina, tétano em dia e notificar.
  2. Cão ou gato sadio e observável: não iniciar profilaxia; observar 10 dias (vale para leve e grave).
  3. Vacina em 4 doses (D0, D3, D7, D14), IM ou ID; soro (SAR 40 UI/kg ou IGHAR 20 UI/kg) nos acidentes graves, até o 7º dia após a 1ª dose.
  4. Raiva suspeita: UTI e isolamento, sem vacina nem soro; Protocolo de Recife só com confirmação e orientação do Ministério da Saúde.

Classifique a exposição e escolha a rota

A profilaxia segue a Nota Técnica 8/2022-CGZV, incorporada ao Guia de Vigilância em Saúde (6ª ed. rev., 2024). Três dados definem tudo: a espécie e a condição do animal, o tipo de exposição (indireta, leve ou grave) e o histórico de vacinação do paciente.

A vacina nunca espera pelo soro: se o soro não estiver disponível, a vacina começa no mesmo dia e o soro é aplicado até o 7º dia após a 1ª dose. A ferramenta abaixo reproduz o Quadro 2 do Guia; depois, abra a rota correspondente.

Conduta pós-exposição (Quadro 2 do Guia de Vigilância, 2024)

Aplica o esquema oficial do Ministério da Saúde (NT 8/2022) à combinação animal × exposição × histórico vacinal. Não substitui a avaliação do serviço de referência nem as notas de contingência estaduais em vigor.

Selecione o animal, o tipo de exposição e a vacinação prévia.

Animais de produção: a indicação considera o tipo e a frequência do contato e o risco local (sobretudo quem manipulou a boca de animal positivo). Em períodos de escassez de soro, siga a nota técnica estadual vigente.

Rotas de tratamento

Cada rota é um cenário clínico. Abra só a rota em que o seu paciente está: a tabela mostra dose, frequência e duração de cada esquema, e o nome de cada medicamento abre a ficha completa. Opções do mesmo grupo são alternativas — escolha uma.

Situações frequentes no atendimento antirrábico

Boa parte das dúvidas do dia a dia não muda a rota, mas muda a execução. O princípio geral é que a raiva é letal: a profilaxia indicada não deve ser interrompida, e eventos adversos leves não a contraindicam.

SituaçãoConduta
Paciente chega dias ou semanas após a mordeduraAtender e indicar a profilaxia normalmente; a incubação longa justifica.
Faltou a uma doseNão reiniciar: aplicar no dia em que comparecer e manter os intervalos originais.
Animal agressor teve IFD negativaA critério médico, suspender o esquema aguardando a prova biológica — exceto equídeos, salvo se enviados tronco e medula.
Reação adversa leve à vacinaAINE ou antitérmico; manter o esquema.
Reação moderada/graveTrocar a vacina (sem albumina humana, no CRIE) e aplicar em ambiente hospitalar; notificar ESAVI.
Morcego dentro de casaContato ou dúvida (ex.: encontrado no quarto ao acordar): soro + vacina. Não matar nem manipular o animal; enviar para diagnóstico.

Erros que custam vidas

Os casos de falha da profilaxia quase sempre envolvem um destes deslizes. Eles são fáceis de evitar quando se lembra de que o soro age onde o vírus está — na ferida — e de que a vacina precisa de tempo para induzir anticorpos.

  • Classificar como leve a agressão por morcego ou outro silvestre.
  • Esperar o soro para iniciar a vacina.
  • Aplicar o soro só no glúteo, sem infiltrar a ferida.
  • Aplicar soro depois do 7º dia da 1ª dose (interfere na resposta à vacina).
  • Vacinar ou dar soro a paciente com suspeita de raiva clínica.
  • Aplicar a vacina no glúteo ou a ID em quem usa cloroquina ou é imunossuprimido.

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O essencial de cenários especiais

  1. Gestação, lactação e qualquer idade: a profilaxia pós-exposição não tem contraindicação.
  2. Criança menor de 2 anos: vacina e soro na coxa (vasto lateral), em coxas diferentes.
  3. Imunossuprimido ou em uso de cloroquina: vacina IM e sorologia de controle.
  4. Viajante para área com raiva canina: avaliar pré-exposição individualmente.

O que muda em cada cenário

Como a doença é letal, não existe contraindicação específica à profilaxia pós-exposição: as vacinas de cultivo celular são seguras em crianças de qualquer idade, gestantes, lactantes e imunocomprometidos, inclusive pessoas com HIV. O que muda entre os grupos é a via, o local de aplicação e a necessidade de sorologia.

CenárioParticularidadeO que fazer diferente
Gestação e lactaçãoSem contraindicação à vacina, ao SAR ou à IGHAR.Seguir a mesma rota indicada para o acidente.
CriançasIncubação tende a ser menor; mordeduras na face são mais comuns.Menores de 2 anos: vasto lateral da coxa para vacina; soro na outra coxa. Dose da vacina não depende de idade ou peso.
Imunossupressão / cloroquinaResposta à vacina pode ser inadequada.Somente via IM; sorologia após o 14º dia da última dose; na reexposição, soro + vacina sempre (Rota 6).
ViajantesRisco ocasional em áreas com raiva canina.Avaliar PrEP conforme atividades (contato com cães) e acesso à PEP no destino.
Profissionais de riscoExposição permanente.PrEP (Rota 7) e titulação periódica; reexposição só com D0 e D3.
Mordedura de macacoSilvestre: sempre grave para raiva.Soro + vacina e lembrar do herpesvírus B como diferencial.
Trabalhador rural com bovino positivoRisco sobretudo para quem manipulou a boca do animal (“desengasgar”); lesões de pele comuns.Avaliar a exposição e indicar a rota pela gravidade.

Adentramento de morcegos

A mordedura de morcego é pequena, indolor e pode passar despercebida, sobretudo durante o sono, em crianças e em pessoas com alteração de consciência. Por isso, quando um morcego entra em casa, o que importa é se o contato pode ser descartado — e, na dúvida, o paciente recebe soro e vacina.

  • Contato com o morcego, ou contato que não pode ser descartado: soro + vacina.
  • Nunca matar nem manipular o morcego com as mãos desprotegidas.
  • Se possível, isolá-lo com pano, caixa ou balde, ou fechá-lo no cômodo, e acionar o serviço municipal para captura e diagnóstico.
  • Morcego em horário ou local incomum é considerado suspeito.

Esquemas internacionais

Pacientes que iniciam a profilaxia no exterior chegam com esquemas diferentes. Em vez de reiniciar, verifique se o esquema recebido é reconhecido pela OMS e complete-o; a categoria III da OMS corresponde, grosso modo, à exposição grave brasileira.

ReferênciaPEP em não vacinadoReexposição
Brasil (NT 8/2022)4 doses IM ou ID: D0, D3, D7, D14 + SAR/IGHAR se graveD0 e D3, sem soro
OMS (2018)ID 2 sítios D0, D3, D7 (1 semana) ou IM D0, D3, D7 e D14–28; RIG na categoria IIID0 e D3 (ou 4 sítios ID no D0), sem RIG
CDC/ACIP (2010; 2022)IM D0, D3, D7, D14 + HRIG 20 UI/kg; imunocomprometido: + D28IM D0 e D3, sem HRIG

Na dúvida sobre a validade de um esquema iniciado fora do país, discuta com o CRIE ou a vigilância estadual.

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O essencial de seguimento e prevenção

  1. Raiva humana suspeita: notificação compulsória imediata; investigação em até 72 h.
  2. Todo atendimento antirrábico é notificado no Sinan, com ou sem vacina.
  3. Serviço faz busca ativa dos faltosos; interrupção indicada pela equipe não é abandono.
  4. Vacinar cães e gatos (cobertura acima de 80%) e não manipular morcegos.

Seguimento do paciente em profilaxia

O sucesso da profilaxia depende de o esquema ser completado. Agende todas as doses no primeiro atendimento, explique por que cada uma importa e acompanhe o desfecho da observação do animal quando for o caso.

Após o SAR, o paciente fica em observação por 2 horas no serviço e deve voltar se surgirem, sobretudo entre o 7º e o 12º dia, febre, urticária, dores musculares, aumento de gânglios ou dor intensa no local — sinais de doença do soro.

Retorno imediato

Febre com dor, parestesia ou prurido no local da mordedura, alteração de comportamento, dificuldade para engolir ou fraqueza: avaliação urgente e notificação.

Vigilância e notificação

Existem três notificações distintas: o caso humano suspeito de raiva (imediata, nas três esferas), o atendimento por acidente com animal potencialmente transmissor (Ficha de Atendimento Antirrábico Humano, sempre) e os eventos adversos graves, raros ou inusitados (ESAVI, no e-SUS Notifica). A investigação do caso humano começa imediatamente ou em até 72 horas, e o caso deve ser encerrado em até 60 dias.

Toda mordedura de mamífero é uma notificação e uma decisão de profilaxia no mesmo atendimento: lave, classifique, decida, agende e notifique.

Prevenção e controle

A prevenção combina medidas individuais e coletivas. No nível individual, educar para não manipular morcegos e animais silvestres, procurar atendimento após qualquer acidente e fazer PrEP quando houver risco ocupacional. No coletivo, vacinação de cães e gatos, bloqueio de foco e controle da raiva dos herbívoros com a agricultura.

  • Cães e gatos: vacinação anual em campanha; cobertura canina acima de 80% controla o ciclo urbano.
  • Bloqueio de foco: busca ativa de pessoas e animais expostos e vacinação casa a casa ao redor do caso animal.
  • Herbívoros: vacinação de rebanhos e controle de morcegos hematófagos (serviço de agricultura).
  • População: não matar nem tocar morcegos; não adotar animais silvestres; lavar a ferida e procurar atendimento.

Erros comuns

Os erros mais frequentes estão no atendimento da mordedura, não na UTI. A tabela resume os que mais aparecem na prática e nas provas.

ErroPor que é um problemaComo evitar
Vacinar todo cão sadio e observávelDesperdiça imunobiológico e expõe a eventos adversos sem benefício.Observar 10 dias; agir só se o animal adoecer, morrer ou sumir.
Subestimar morcego ou saguiSilvestres respondem pela maioria dos casos humanos recentes.Sempre grave: vacina + soro.
Dar soro na reexposiçãoNão há benefício e pode reduzir a resposta à vacina.Reexposição: D0 e D3, sem soro (exceto imunossuprimido).
Reiniciar esquema de faltosoAtrasa a proteção e gasta doses.Continuar de onde parou, mantendo os intervalos.
Suturar antes de infiltrarFecha a porta de entrada com o vírus dentro.Evitar sutura; se necessária, infiltrar soro 1 h antes.
Vacinar o paciente com raiva clínicaNão altera a evolução e confunde a sorologia.Na suspeita de raiva humana, não dar vacina nem soro.

Referências principais

  1. 1
    Documento oficial2024
    Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de vigilância em saúde. 6. ed. rev. Brasília: Ministério da Saúde; 2024. v. 3, Raiva; p. 1091-121.
  2. 2
    Documento oficial2022
    Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Nota Técnica nº 8/2022-CGZV/DEIDT/SVS/MS: informa sobre atualizações no Protocolo de Profilaxia pré, pós e reexposição da raiva humana no Brasil. Brasília: Ministério da Saúde; 2022.
  3. 3
    Documento oficial2022
    Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Nota Técnica nº 134/2022-CGZV/DEIDT/SVS/MS: orienta o uso do soro antirrábico humano e da imunoglobulina antirrábica humana no Brasil em período de escassez destes imunobiológicos. Brasília: Ministério da Saúde; 2022.
  4. 4
    Documento oficial2011
    Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Protocolo de tratamento da raiva humana no Brasil (Protocolo de Recife). Brasília: Ministério da Saúde; 2011. 40 p.
  5. 5
    Documento oficial2011
    Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Normas técnicas de profilaxia da raiva humana. Brasília: Ministério da Saúde; 2011.
  6. 6
    Diretriz2018
    World Health Organization. Rabies vaccines: WHO position paper – April 2018. Wkly Epidemiol Rec. 2018;93(16):201-20.
  7. 7
    Diretriz2018
    World Health Organization. WHO expert consultation on rabies: third report. Geneva: WHO; 2018. (WHO Technical Report Series, 1012).
  8. 8
    Artigo2010
    Use of a reduced (4-dose) vaccine schedule for postexposure prophylaxis to prevent human rabies: recommendations of the Advisory Committee on Immunization Practices. MMWR Recomm Rep. 2010;59(RR-2):1-9.
  9. 9
    Artigo2022
    Use of a modified preexposure prophylaxis vaccination schedule to prevent human rabies: recommendations of the Advisory Committee on Immunization Practices — United States, 2022. MMWR Morb Mortal Wkly Rep. 2022;71(18):619-27.
  10. 10
    Artigo2005
    Survival after treatment of rabies with induction of coma. N Engl J Med. 2005;352(24):2508-14.
  11. 11
    Artigo2016
    Critical appraisal of the Milwaukee protocol for rabies: this failed approach should be abandoned. Can J Neurol Sci. 2016;43(1):44-51.
  12. 12
    Artigo2017
    Rabies. Nat Rev Dis Primers. 2017;3:17091.
  13. 13
    Documento oficial2025
    Rio Grande do Sul. Secretaria Estadual da Saúde. Centro Estadual de Vigilância em Saúde. Nota Técnica Conjunta nº 07/2025-DVE/DVAS/CEVS: orientações provisórias de contingenciamento do uso de SAR e IGHAR na profilaxia pós-exposição da raiva humana. Porto Alegre: SES-RS; 2025.

Aviso importante

Material educacional de apoio à decisão clínica. Não substitui avaliação individualizada, protocolos institucionais, serviço de referência, infectologia, pediatria/obstetrícia nem consulta às bulas. Profilaxia antirrábica segue a Nota Técnica 8/2022 e o Guia de Vigilância em Saúde; em períodos de escassez de soro, prevalecem as notas técnicas estaduais vigentes. O Protocolo de Recife só deve ser aplicado em casos confirmados, com termo de consentimento e sob orientação da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde.

Conteúdo para educação médica. Condutas devem ser individualizadas e conferidas com protocolos oficiais, contexto epidemiológico e disponibilidade local.
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