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Influenza aviária

Alphainfluenzavirus influenzae (influenza A) — subtipos aviários A(H5N1), A(H7N9), A(H5N6), A(H9N2) e outros; família Orthomyxoviridae

Infecção humana esporádica por vírus influenza A de aves (e de mamíferos infectados por eles), adquirida no contato desprotegido com animais doentes, carcaças ou ambientes contaminados. Vai de conjuntivite e síndrome gripal leve a pneumonia viral fulminante com SDRA. A conduta não espera exame: oseltamivir imediato, isolamento e notificação em até 24 h.

Zoonose de aves e mamíferosPneumonia viral grave / SRAGOseltamivir sem esperar exameNotificação imediata
16–20 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Infecção humana por vírus influenza A de origem aviária — principalmente A(H5N1), A(H7N9), A(H5N6) e A(H9N2).
  2. Transmissão zoonótica por contato desprotegido com aves/mamíferos infectados ou ambientes contaminados; pessoa a pessoa é rara e não sustentada.
  3. Espectro amplo: conjuntivite e gripe leve (clado 2.3.4.4b nos EUA) até pneumonia fulminante (letalidade histórica de ~48% para H5N1).
  4. Oseltamivir imediato, isolamento respiratório e notificação imediata (até 24 h) já na suspeita.

O que é influenza aviária

Os vírus influenza A têm nas aves aquáticas silvestres o seu reservatório natural. Nas aves, são classificados como de alta patogenicidade (IAAP), que matam plantéis inteiros, ou de baixa patogenicidade (IABP), quase silenciosos — classificação que se refere às aves e não prediz a gravidade em humanos (o A(H7N9) de baixa patogenicidade matou cerca de 4 em cada 10 humanos infectados).

O humano é um hospedeiro acidental. A infecção é esporádica, quase sempre ligada a exposição intensa e desprotegida, e até hoje sem transmissão sustentada entre pessoas. A preocupação de saúde pública vai além do caso individual: cada infecção humana é uma oportunidade para o vírus se adaptar a mamíferos ou se rearranjar com a influenza sazonal.

Síndrome gripal, conjuntivite ou SRAG + contato com aves ou mamíferos doentes/mortos nos 10 dias anteriores = caso suspeito: oseltamivir, isolamento, coleta e notificação, tudo no mesmo atendimento.

O agente

O nome do subtipo vem das duas glicoproteínas de superfície: a hemaglutinina (H), que liga o vírus ao receptor celular, e a neuraminidase (N), que libera as novas partículas — e é o alvo do oseltamivir. Mutações pontuais (deriva) e o rearranjo de segmentos entre vírus diferentes (mudança antigênica) explicam o potencial pandêmico.

Agente etiológico

Vírus influenza A

Vírus envelopado, RNA de fita simples, sentido negativo, com 8 segmentos. Hemaglutinina (H1–H16 em aves) e neuraminidase (N1–N9) definem o subtipo.

  • Segmentação permite rearranjo (reassortment) quando dois vírus infectam a mesma célula.
  • A(H5N1) clado 2.3.4.4b: panzoótico desde 2020–2021, aves, mamíferos marinhos e bovinos leiteiros.

Subtipos de importância humana

SubtipoContextoCasos humanos (OMS)
A(H5N1)Ásia, Egito e, desde 2024, EUA (aves e gado leiteiro); clado 2.3.4.4b nas Américas.993 casos e 477 óbitos (2003 a jan/2026; letalidade 48%).
A(H7N9)China, 2013–2019; vírus de baixa patogenicidade em aves (depois também alta).1.568 casos e 616 óbitos (letalidade 39,3%); último caso em 2019.
A(H5N6)China e Laos, desde 2014.93 casos e 57 óbitos (Pacífico Ocidental).
A(H9N2)Endêmico em aves na Ásia; doença geralmente leve, sobretudo em crianças.Casos esporádicos (159 desde 2015 no Pacífico Ocidental; 2 óbitos).
OutrosA(H7N7), A(H10N3), A(H10N5), A(H3N8), A(H5N5)…Raros; geralmente após exposição a aves.

Fonte: OMS, Avian Influenza Weekly Update nº 1040 (abril de 2026). A letalidade histórica reflete sobretudo casos graves hospitalizados; casos leves são subdiagnosticados.

Fisiopatologia: por que pulmão profundo e olho

Os vírus aviários preferem receptores de ácido siálico em ligação α2,3, abundantes nas vias aéreas inferiores (bronquíolos e pneumócitos) e na conjuntiva humana, e escassos no nariz e na faringe, onde predominam os α2,6 usados pela influenza sazonal. Isso explica três coisas ao mesmo tempo: a pneumonia grave quando o vírus chega ao alvéolo, a conjuntivite após respingo no olho e a dificuldade de transmissão entre pessoas.

Fisiopatologia

Do receptor α2,3 à SDRA

Replicação nas vias aéreas inferiores, resposta inflamatória exuberante (hipercitocinemia) e dano alveolar difuso levam a SDRA e falência de múltiplos órgãos.

  1. Exposição

    Inalação de gotículas/poeira, respingo em mucosa ocular ou contato mão–mucosa com secreções e excretas de animais infectados.

  2. Ligação e replicação

    Hemaglutinina se liga a receptores α2,3 da conjuntiva e das vias aéreas inferiores; replicação viral alta e prolongada.

  3. Inflamação desproporcional

    Hipercitocinemia, linfopenia e lesão endotelial e epitelial.

  4. Dano alveolar difuso

    Pneumonia viral de progressão rápida, SDRA, choque e disfunção de múltiplos órgãos.

Incubação e evolução

A incubação costuma ser de poucos dias, e as vigilâncias brasileira e americana usam a janela de 10 dias após a última exposição para definir o exposto e encerrar o monitoramento. Nos casos graves por H5N1 e H7N9, a progressão da síndrome gripal à insuficiência respiratória pode ocorrer em poucos dias.

10 diasJanela de exposição e de monitoramento (MS/CDC)
48%Letalidade acumulada do A(H5N1) notificado à OMS
71Casos A(H5) nos EUA desde 2024 — maioria leve, com conjuntivite
0Casos humanos confirmados no Brasil (MS, até a última atualização)

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O essencial de transmissão e risco

  1. Aves aquáticas silvestres são o reservatório; aves domésticas e mamíferos amplificam o vírus.
  2. Humano se infecta por contato desprotegido com animais doentes/mortos, excretas, ambientes contaminados ou leite cru.
  3. Pessoa a pessoa: rara, limitada a contatos íntimos e prolongados, nunca sustentada.
  4. No Brasil: IAAP H5N1 em aves silvestres desde 2023 e o 1º foco em granja comercial em 2025; nenhum caso humano confirmado.

Como ocorre a transmissão

Quase todos os casos humanos tiveram contato direto ou próximo com aves doentes ou mortas — abate, depena, preparo, remoção de carcaças — ou com mercados de aves vivas. Na epidemia de H5N1 em gado leiteiro dos EUA (2024–2025), a via mais marcante foi o respingo de leite contaminado no olho durante a ordenha, o que explica a predominância de conjuntivite.

A transmissão entre pessoas foi descrita só em agrupamentos familiares, após cuidado íntimo e prolongado de um doente grave, sem cadeias sustentadas. Consumo de leite cru e de produtos de aves doentes é via possível; carne e ovos bem cozidos não transmitem.

Ciclo de transmissão

Aves silvestres → aves domésticas e mamíferos → humano

O humano é hospedeiro terminal na quase totalidade dos casos; a transmissão interpessoal é rara e não sustentada.

Reservatórios e fontes de exposição

O vírus circula silenciosamente em aves aquáticas migratórias e, ao alcançar aves de produção ou de quintal, causa mortalidade em massa. O clado 2.3.4.4b ampliou muito a lista de hospedeiros: leões-marinhos e elefantes-marinhos na América do Sul, gatos, raposas e, desde 2024, bovinos leiteiros nos EUA.

Reservatório

Aves aquáticas silvestres

Patos, gaivotas, trinta-réis: disseminam o vírus nas rotas migratórias.

Amplificação

Aves comerciais e de quintal

Alta mortalidade no plantel; principal fonte de exposição humana no mundo.

Novo hospedeiro

Bovinos leiteiros

H5N1 em rebanhos dos EUA desde 2024; leite com alta carga viral.

Situação no Brasil

Em maio de 2023 o MAPA notificou à OMSA as primeiras detecções de IAAP A(H5N1) em aves silvestres (Espírito Santo). Até fevereiro de 2024 eram 155 focos em oito estados, incluindo aves de subsistência e mamíferos marinhos no litoral sul. Em maio de 2025 ocorreu o primeiro foco em granja comercial (matrizeiro em Montenegro/RS), com emergência zoossanitária, abate sanitário e recuperação do status de país livre em junho de 2025.

Casos humanos

Até a última atualização consultada do Ministério da Saúde, nenhum caso humano de influenza aviária foi confirmado no Brasil; suspeitos investigados (como um trabalhador no RS em 2025) foram descartados. Consulte o painel do MS para a situação atual.

Quem é exposto (definição do MS)

A Nota Técnica nº 38/2023 do Ministério da Saúde define o exposto a partir de aves ou outros animais prováveis ou confirmados pelo serviço veterinário oficial, sempre sem uso adequado do EPI e nos 10 dias anteriores. Quem usou EPI corretamente não é exposto, mas deve fazer automonitoramento por 10 dias.

  • Contato direto com aves/animais: manipulação de vivos ou mortos, coleta de amostras, abate, depena, remoção de carcaças.
  • Contato com fômites, secreções ou dejetos: ninhos, ovos, excretas, água contaminada.
  • Proximidade (<2 m) e prolongada (>15 min) sem tocar no animal: transporte, mesmo ambiente fechado, feiras.
  • Exposição laboratorial a amostras suspeitas, prováveis ou confirmadas.

Triagem da exposição: monitorar, profilaxia ou tratar?

A conduta depende de duas perguntas: houve exposição desprotegida e há sintomas? A ferramenta resume os critérios do MS (NT 38/2023) e do CDC (2025). Não substitui a avaliação da vigilância local, que define o caso e o fluxo de notificação.

Exposição nos últimos 10 dias

Organiza a conduta inicial a partir das definições de exposto e de caso suspeito. Não é escore validado.

Selecione o tipo de exposição e os sintomas.

Baseado em MS, NT nº 38/2023 e CDC, orientações interinas de 2025.

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O essencial de quadro clínico

  1. Espectro: infecção assintomática, conjuntivite isolada, síndrome gripal, pneumonia grave, SDRA e falência de múltiplos órgãos.
  2. Clado 2.3.4.4b (EUA, 2024–2025): predominam conjuntivite e quadro leve em trabalhadores.
  3. H5N1 clássico e H7N9: febre alta, tosse, dispneia precoce, diarreia; SDRA em poucos dias.
  4. Linfopenia, plaquetopenia e transaminases elevadas sugerem gravidade.

Apresentação clínica

A gravidade varia muito com o vírus e com a exposição. Nos 46 primeiros casos americanos por A(H5N1) descritos no NEJM (2025), quase todos em trabalhadores de ordenha e de abate de aves, a apresentação mais comum foi conjuntivite, com ou sem febre e sintomas respiratórios leves, e nenhum precisou de UTI no período estudado.

Já os casos históricos de H5N1 na Ásia e no Egito, os atuais do Camboja e a epidemia de H7N9 na China mostram outro padrão: febre alta e tosse que evoluem em poucos dias para dispneia, pneumonia multilobar, SDRA e choque, com letalidade alta. Diarreia, vômitos e dor abdominal são mais comuns que na gripe sazonal; encefalite é rara.

Dispneia, SpO₂ <95% (ar ambiente), taquipneia, desconforto respiratório, hipotensão ou piora após melhora inicial = SRAG — internar.

Achados característicos

Nenhum achado distingue a influenza aviária da sazonal com segurança. O que muda a interpretação é o contexto: conjuntivite num trabalhador exposto, ou pneumonia rapidamente progressiva com linfopenia num paciente que manipulou aves mortas.

Achado característico

Conjuntivite

Hiperemia conjuntival, uni ou bilateral; forma dominante nos casos ocupacionais recentes.

Achado característico

Infiltrados multilobares

Consolidações bilaterais de progressão rápida na forma grave.

Achado característico

Vidro fosco e consolidação

Padrão de pneumonia viral com dano alveolar difuso na TC.

Achado característico

Linfopenia e plaquetopenia

Com ↑ AST/ALT, LDH e CK; marcadores de gravidade.

Do leve ao grave

Classificar a gravidade orienta o local de tratamento e a duração do antiviral, mas não decide se trata — todo caso suspeito recebe oseltamivir.

Não grave

  • Conjuntivite isolada ou síndrome gripal sem dispneia.
  • SpO₂ normal, sem sinais de desconforto.
  • Tratamento e isolamento domiciliar possíveis, com reavaliação diária ou a cada 2 dias.

Grave / SRAG

  • Dispneia, hipoxemia, infiltrado pulmonar.
  • Choque, alteração de consciência, piora de doença de base.
  • Internação em quarto privativo (idealmente pressão negativa); UTI conforme gravidade.

Complicações

As complicações graves derivam da pneumonia viral primária e da resposta inflamatória sistêmica. Coinfecção bacteriana pode ocorrer, mas antibiótico não substitui o antiviral e deve ser guiado por evidência de infecção bacteriana.

  • SDRA e insuficiência respiratória hipoxêmica refratária.
  • Choque e disfunção de múltiplos órgãos (renal, hepática, coagulopatia).
  • Pneumonia bacteriana secundária (S. aureus, pneumococo) e infecções associadas à ventilação.
  • Miocardite, encefalite (rara) e emergência de resistência ao oseltamivir durante o tratamento.

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O essencial de diagnóstico

  1. Caso suspeito = exposto (10 dias) + ≥2 sinais/sintomas; não espera exame para tratar nem notificar.
  2. Confirmação: RT-qPCR com subtipagem, isolamento viral ou soroconversão pareada.
  3. Influenza A positiva sem subtipo H1/H3 em exposto = alerta para subtipo novo.
  4. Amostras só nos laboratórios de referência (NIC): Fiocruz, IAL e IEC, via Lacen.

Definições de caso (MS, NT 38/2023)

As definições de vigilância organizam o raciocínio. O caso suspeito já basta para tratar, isolar, coletar e notificar; as categorias seguintes dependem do laboratório e da gravidade.

CategoriaCritérioImplicação
Suspeito primárioExposto (animal/ambiente/laboratório, 10 dias) com ≥2 entre: febre, sintomas respiratórios, GI, mialgia, cefaleia, conjuntivite.Oseltamivir, coleta, isolamento, notificação imediata.
Suspeito secundárioContato de caso suspeito primário com ≥2 dos mesmos sinais/sintomas.Mesma conduta; investigar cadeia de transmissão.
ProvávelSuspeito com influenza A sem subtipo definido, OU insuficiência respiratória com infiltrado/pneumonia, OU SRAG inexplicada com vínculo a caso provável/confirmado.Manejo como confirmado.
ConfirmadoRT-qPCR para subtipo aviário, isolamento viral ou soroconversão em sorologias pareadas.OMS é notificada via RSI; rastreamento de contatos.
DescartadoSuspeito com resultado negativo para influenza aviária.Se negativo para influenza A e B, o MS orienta suspender o oseltamivir.

Coleta e exames específicos

Colete o quanto antes, idealmente antes da primeira dose de oseltamivir, mas sem atrasá-la. A coleta exige EPI para aerossol (PFF2/N95 sem válvula, óculos ou protetor facial, avental de manga longa, luvas e gorro). No Brasil, as amostras seguem pelo Lacen para os NIC; o cadastro no GAL usa "Investigação" e "Gripe Aviária".

Amostra / exameQuandoPonto de interpretação
Aspirado de nasofaringe ou swab combinado (2 nasais + 1 orofaríngeo em 3 mL de meio de transporte viral)Todo caso suspeito.Refrigerar a 4–8 °C, até 72 h; swab de rayon com haste plástica.
Swab conjuntivalSe houver conjuntivite (CDC).Pode ser o único sítio positivo nos casos leves.
Aspirado traqueal ou LBAPaciente intubado / pneumonia.Maior rendimento; repetir em dias diferentes se negativo com alta suspeita.
RT-qPCR com subtipagemMétodo de confirmação.PCR comercial "influenza A" detecta, mas não subtipa H5/H7.
Teste rápido de antígenoNão recomendado para excluir.Sensibilidade baixa; negativo não descarta.
Sorologia pareadaInvestigação retrospectiva/epidemiológica.Soroconversão confirma, mas não ajuda na decisão aguda.

Exames de gravidade

Em paralelo à etiologia, avalie a gravidade com os mesmos exames da SRAG por qualquer influenza. Repita conforme a evolução: a piora pode ser rápida.

  • Respiratório: oximetria, gasometria arterial, RX ou TC de tórax.
  • Hematologia: hemograma (linfopenia, plaquetopenia), coagulograma.
  • Órgãos: função renal e hepática, LDH, CK, lactato, troponina se suspeita de miocardite.
  • Coinfecção: hemoculturas, cultura de secreção traqueal, procalcitonina conforme protocolo; testar SARS-CoV-2.

Diagnósticos diferenciais

O diferencial é o de qualquer síndrome gripal ou SRAG; a exposição a animais é o que coloca a influenza aviária na lista. Num trabalhador de granja, lembre também das outras zoonoses respiratórias de aves.

DiferencialPor que confundeO que ajuda a separar
Influenza sazonal A(H1N1)pdm09 / A(H3N2) / BQuadro clínico idêntico.Subtipagem por RT-PCR; sazonalidade; ausência de exposição a animais.
COVID-19 e outros vírus respiratóriosFebre, tosse, pneumonia viral, conjuntivite (adenovírus).Painel molecular respiratório.
Psitacose (Chlamydia psittaci)Zoonose de aves; pneumonia com cefaleia intensa.Contato com psitacídeos/pombos; PCR específica; resposta a doxiciclina.
Pneumonia bacteriana / LegionellaFebre e consolidação.Consolidação lobar, leucocitose com neutrofilia, antígeno urinário, culturas.
HantavirosePneumonia com edema e choque em área rural.Exposição a roedores, hemoconcentração, ELISA-IgM.
Conjuntivite viral/bacteriana comumOlho vermelho isolado.Sem exposição a animais infectados; se houver, colher swab conjuntival.

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O essencial de tratamento

  1. Oseltamivir para TODO caso suspeito, provável ou confirmado, o mais cedo possível, sem aguardar exame.
  2. No hospitalizado, iniciar mesmo após 48 h do início dos sintomas.
  3. Adulto: 75 mg 12/12 h por ≥5 dias; grave ou imunossuprimido: estender até melhora clínica.
  4. Contato e trabalhador exposto sem EPI: oseltamivir em dose de tratamento (12/12 h) por 5 ou 10 dias.

Princípios do tratamento

Diferentemente da influenza sazonal, em que a OMS (2024) restringe o antiviral a grupos de risco ou a casos graves, a infecção por vírus aviário associada a doença grave é tratada sempre, inclusive nos casos leves e na conjuntivite isolada. O inibidor da neuraminidase de referência é o oseltamivir, fornecido pelo SUS em cápsulas de 30, 45 e 75 mg, com prescrição em receituário simples.

Três ideias guiam as rotas: começar já (o benefício é maior nas primeiras 48 h, mas o hospitalizado ganha mesmo depois), prolongar quando o vírus persiste (grave, imunossuprimido) e vigiar resistência, porque o H5N1 já selecionou mutantes resistentes ao oseltamivir em pacientes tratados.

Biossegurança vem junto

Prescrever o antiviral e, no mesmo atendimento: isolar o paciente (máscara cirúrgica nele; PFF2/N95 sem válvula, óculos, avental e luvas na equipe), coletar a amostra e notificar imediatamente o CIEVS (0800-644-6645 / notifica@saude.gov.br) e a vigilância local.

Rotas de tratamento

Cada rota é um cenário clínico. Abra só a rota em que o seu paciente está: a tabela mostra dose, frequência e duração de cada esquema, e o nome de cada medicamento abre a ficha completa. Opções do mesmo grupo são alternativas — escolha uma.

Monitoramento durante o tratamento

O seguimento do caso tem duas frentes: a clínica (piora respiratória, complicações) e a de saúde pública (isolamento, contatos, resultado laboratorial). A decisão de suspender o antiviral e o isolamento depende das duas.

  • Reavaliação diária ou a cada 2 dias nos casos domiciliares; oximetria em todas as visitas.
  • RT-PCR negativo para influenza A e B: suspender oseltamivir (MS). Positivo: completar o esquema; no grave, prolongar até melhora.
  • Piora com tratamento: amostra respiratória inferior e pesquisa de resistência.
  • Isolamento até remissão dos sintomas ou RT-PCR negativo para influenza aviária.

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O essencial de cenários especiais

  1. Profissional de saúde exposto sem EPI a caso humano = contato: monitorar 10 dias e PEP.
  2. Trabalhadores de granjas, abatedouros e ordenha: EPI fornecido pelo empregador e vigilância ativa nos focos.
  3. Conjuntivite isolada em exposto é caso suspeito: tratar e colher swab conjuntival.
  4. Animais domésticos (cães/gatos) que tocaram carcaças suspeitas: tutores expostos também são monitorados.

O que muda em cada cenário

O antiviral é o mesmo em praticamente todos os grupos; o que muda é a dose (criança, rim), a duração (grave, imunossuprimido), o local de cuidado e o desenho da biossegurança. Alguns cenários são próprios desta zoonose, ligados ao trabalho com animais.

CenárioParticularidadeO que fazer diferente
Trabalhador de granja / abate sanitárioExposição intensa e repetida durante o foco.EPI completo (MS, NT 28/2023); monitoramento ativo 10 dias após a última exposição; PEP 10 dias se exposição desprotegida contínua.
Ordenha de rebanho com H5N1 (cenário EUA)Respingo de leite no olho; conjuntivite.Proteção ocular e facial; swab conjuntival; não consumir leite cru.
Profissional de saúdeCuidado de caso suspeito sem EPI adequado.Classificar como contato: monitoramento 10 dias e PEP; com EPI correto, só automonitoramento.
Exposição laboratorialAcidente com amostra suspeita.É exposto pela definição do MS: monitorar e avaliar PEP.
Tutor de cão/gato com contato com carcaçasCarnívoros domésticos podem se infectar (sinais respiratórios/neurológicos).Animal suspeito: notificar vigilância e serviço veterinário; humanos expostos monitorados por 10 dias (NT Conjunta 15/2024).
Gestante, criança pequena, idoso, comorbidadeAlto risco de forma grave.Internação com limiar baixo; oseltamivir sem demora (Rotas 3 e 4).
ImunossuprimidoReplicação prolongada e resistência.Tratamento estendido, considerar combinação, RT-PCR seriado (Rota 5).
Viajante de área com surtoVisita a mercados de aves vivas/granjas (Ásia, Camboja, Egito…).Perguntar ativamente; mesma definição de exposto.

Biossegurança no serviço de saúde

O risco de transmissão ao profissional é baixo, mas a consequência de um caso secundário é grande. Por isso, o MS e o CDC tratam o paciente suspeito com precauções ampliadas desde a triagem.

  • Máscara cirúrgica no paciente desde a recepção; triagem em área separada.
  • Quarto privativo, idealmente com pressão negativa; coorte se houver vários casos confirmados.
  • Equipe: luvas, avental de manga longa, óculos ou protetor facial, gorro; PFF2/N95 sem válvula (obrigatória em procedimentos geradores de aerossol).
  • Estetoscópio, termômetro e esfigmomanômetro exclusivos; limpeza e desinfecção a cada 24 h e entre pacientes.
  • Restringir visitas e transporte; paciente com PFF2/N95 fora do quarto.

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O essencial de seguimento e prevenção

  1. Notificação imediata (até 24 h) de suspeito, provável ou confirmado — CIEVS e vigilância local.
  2. Expostos e contatos: monitoramento por 10 dias após a última exposição.
  3. Ave doente ou morta: não tocar; comunicar o serviço veterinário oficial.
  4. Não há vacina humana contra H5 disponível na rotina do Brasil; vacina sazonal é recomendada aos expostos.

Notificação e vigilância

A "influenza humana produzida por novo subtipo viral" é de notificação compulsória imediata (Portaria GM/MS nº 217/2023). Além da vigilância municipal e estadual, a notificação ao CIEVS Nacional pode ser feita pelo telefone 0800-644-6645, pelo e-mail notifica@saude.gov.br ou pela ficha de notificação imediata, informando "Influenza A(H5N1)".

A notificação dispara o rastreamento de contatos, a investigação do local de exposição junto ao serviço veterinário (MAPA/órgãos estaduais) e, em caso confirmado, a comunicação à OMS pelo Regulamento Sanitário Internacional.

Exposição a aves ou mamíferos + sintomas = oseltamivir, isolamento, coleta e notificação em até 24 h. Contato desprotegido assintomático = PEP 12/12 h por 5 ou 10 dias e monitoramento por 10 dias.

Seguimento do paciente

Após a alta ou o fim do isolamento, o seguimento é o de qualquer pneumonia viral grave: função respiratória, tolerância ao esforço e complicações da internação (fraqueza adquirida na UTI, sequelas pulmonares). Nos casos leves, basta confirmar a resolução e encerrar o caso com a vigilância.

Retorno imediato

Dispneia, dor torácica, febre que volta após melhora ou sintomas em contatos domiciliares.

Proteção do trabalhador exposto

A Nota Técnica nº 28/2023 do MS orienta precauções e EPI para quem tem contato com aves ou ambientes contaminados. Os EPIs devem ser fornecidos pela instituição/empresa, e a atividade só deve ser feita com eles.

Prevenção

EPI para manejo de aves e carcaças

Respirador sem válvula de exalação, óculos com boa vedação, luvas, vestimenta de proteção e botas de borracha de cano alto.

  • Máscara PFF3 (ou superior) sem válvula para ambientes abertos ou fechados (MS, NT 28/2023).
  • Não tocar boca, olhos e nariz; lavar as mãos; trocar a roupa após o contato com animais.

Prevenção para a população

Para o público geral, o risco é baixo e a prevenção é simples: manter distância de aves doentes ou mortas, inclusive em praias e lagoas, e comunicar a ocorrência às autoridades em vez de recolher. Carne de frango e ovos bem cozidos são seguros; leite deve ser pasteurizado.

  • Não tocar, recolher ou alimentar aves doentes/mortas; manter cães e gatos longe de carcaças.
  • Comunicar aves mortas ou doentes ao serviço veterinário oficial (e-Sisbravet/órgão estadual de defesa agropecuária).
  • Não consumir leite cru nem produtos de animais doentes; cozinhar bem carnes e ovos.
  • Higiene das mãos, etiqueta respiratória e vacinação anual contra influenza sazonal (reduz coinfecção e o risco teórico de rearranjo).
Vacina contra H5

Existem vacinas H5 pré-pandêmicas licenciadas em alguns países e estoques estratégicos (alguns, como a Finlândia em 2024, vacinaram trabalhadores de alto risco). No Brasil, não há vacina contra influenza aviária disponível na rotina; a vacina sazonal não protege contra H5, mas é recomendada.

Erros comuns

A maioria dos erros vem de tratar o caso como gripe comum — e de aplicar à influenza aviária as restrições que a OMS fez para o oseltamivir na influenza sazonal não grave.

ErroPor que é um problemaComo evitar
Não perguntar sobre aves e animaisO quadro é indistinguível da gripe sazonal.Anamnese de exposição nos 10 dias em toda síndrome gripal/conjuntivite.
Esperar o RT-PCR para tratarPerde a janela de maior benefício.Oseltamivir no mesmo atendimento.
Não tratar caso leve ou só conjuntiviteVírus com potencial grave e de adaptação.Todo caso suspeito recebe antiviral.
PEP 1x/dia como na gripe sazonalSubdose para vírus aviário (CDC).Oseltamivir 12/12 h por 5 ou 10 dias.
Swab só de nariz no intubadoFalso-negativo.Aspirado traqueal/LBA; repetir.
Corticoide "para a SDRA viral"Sem benefício e com maior risco.Só em indicação específica (ex.: choque séptico refratário).
Atrasar a notificaçãoAtrasa rastreamento e controle do foco.CIEVS em até 24 h da suspeita.

Referências principais

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    Diretriz2024
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    Diretriz2025
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    Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Interim guidance on influenza antiviral post-exposure prophylaxis of persons exposed to birds or other animals with novel influenza A viruses associated with severe human disease or with the potential to cause severe human disease. Atlanta: CDC; 2025 [atualizado em 3 jul 2025].
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    Diretriz2025
    Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Interim guidance for follow-up of close contacts of persons infected with novel influenza A viruses associated with severe human disease and use of antiviral medications for post-exposure prophylaxis. Atlanta: CDC; 2025.
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    Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de manejo e tratamento de influenza 2023. Brasília: Ministério da Saúde; 2023.
  8. 8
    Documento oficial2023
    Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 38/2023-CGVDI/DPNI/SVSA/MS: orientações para a vigilância da influenza aviária em humanos. Brasília: Ministério da Saúde; 2023.
  9. 9
    Documento oficial2024
    Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica Conjunta nº 15/2024-CGVDI/DPNI/SVSA/MS: influenza aviária em carnívoros domésticos e vigilância em humanos expostos. Brasília: Ministério da Saúde; 2024.
  10. 10
    Documento oficial2023
    Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 28/2023-CGSAT/DSAST/SVSA/MS: recomendações sobre medidas de precaução direcionadas aos trabalhadores expostos ao vírus H5N1. Brasília: Ministério da Saúde; 2023.
  11. 11
    Documento oficial2023
    Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 217, de 1º de março de 2023: lista nacional de notificação compulsória. Diário Oficial da União; 2023.
  12. 12
    Documento oficial2025
    Brasil. Ministério da Agricultura e Pecuária. Influenza aviária: confirmação de IAAP em estabelecimento comercial em Montenegro (RS) e recuperação do status de país livre. Brasília: MAPA; 2025.
  13. 13
    Diretriz2026
    World Health Organization. Regional Office for the Western Pacific. Avian influenza weekly update number 1040. Manila: WHO WPRO; 10 abr 2026.
  14. 14
    Artigo2025
    Highly pathogenic avian influenza A(H5N1) virus infections in humans. N Engl J Med. 2025;392(9):843-54.
  15. 15
    Artigo2022
    Influenza. Lancet. 2022;400(10353):693-706.

Aviso importante

Material educacional de apoio à decisão clínica. Não substitui avaliação individualizada, protocolos institucionais, serviço de referência, infectologia, pediatria/obstetrícia nem consulta às bulas. Definições de caso, fluxo de coleta e indicação de quimioprofilaxia de expostos devem ser confirmados com a vigilância epidemiológica local/CIEVS, que pode atualizar as orientações conforme a situação da influenza aviária no país.

Conteúdo para educação médica. Condutas devem ser individualizadas e conferidas com protocolos oficiais, contexto epidemiológico e disponibilidade local.
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