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Malasseziose

Malassezia spp. — leveduras lipofílicas da pele humana e animal; M. pachydermatis é a espécie zoofílica, comensal do cão

Infecções por leveduras que vivem normalmente na pele. A maior parte da doença humana é endógena, por espécies antropofílicas (pitiríase versicolor, foliculite, dermatite seborreica e fungemia por cateter com emulsão lipídica). A dimensão zoonótica é a de M. pachydermatis, do cão, que já causou surto de fungemia em UTI neonatal levada pelas mãos de profissionais donos de cães.

Pele e folículoM. pachydermatis: cãoCateter + emulsão lipídicaUTI neonatal
15–18 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Malassezia é levedura lipofílica e comensal normal da pele humana e de animais.
  2. A maioria das doenças humanas é endógena, por espécies antropofílicas (M. furfur, M. globosa, M. restricta, M. sympodialis).
  3. A parte zoonótica é M. pachydermatis, comensal do cão, causa de fungemia nosocomial em neonatos com cateter e emulsão lipídica.
  4. Espectro: pitiríase versicolor, foliculite, dermatite seborreica e fungemia associada a cateter.

O que é malasseziose

Malasseziose é o nome genérico das doenças causadas por leveduras do gênero Malassezia. Elas vivem nas áreas ricas em sebo — couro cabeludo, face, tórax e dorso — e só causam doença quando o equilíbrio entre levedura e hospedeiro muda: calor e umidade, oleosidade, imunossupressão ou um cateter que oferece lipídio diretamente no sangue.

É importante ser preciso sobre o recorte: quase toda a doença humana vem da própria flora do paciente, e não de animais. A malasseziose entra no Guia de Zoonoses por causa de uma espécie, M. pachydermatis, a levedura do ouvido e da pele dos cães.

Pitiríase versicolor, foliculite e dermatite seborreica não são zoonoses. O risco zoonótico real é a fungemia por M. pachydermatis em neonatos e pacientes com cateter, trazida da casa para a UTI pelas mãos.

O agente

As espécies de Malassezia não produzem os próprios ácidos graxos e, por isso, dependem de lipídio externo. Quase todas são lipodependentes: não crescem em meio de cultura comum. M. pachydermatis é a exceção prática, porque cresce em Sabouraud sem suplementação graças aos traços de lipídio da peptona — o que facilita seu isolamento.

Agente etiológico

Malassezia spp.

Leveduras globosas ou ovais, de parede espessa, com brotamento unipolar em base larga. Na pitiríase versicolor, associam-se a hifas curtas e anguladas: o aspecto de “espaguete com almôndegas”.

  • Lipofílicas: colonizam áreas seborreicas a partir da puberdade.
  • Formam biofilme em cateteres, como Candida.
  • Teste de suscetibilidade sem método padronizado nem breakpoints.
EspécieHospedeiro principalLipídio para crescerDoença humana associada
M. globosa, M. restricta, M. sympodialisHumanoDependentePitiríase versicolor, dermatite seborreica, caspa, foliculite.
M. furfurHumanoDependentePitiríase versicolor, foliculite; espécie mais frequente na fungemia por cateter.
M. pachydermatisCão (e gato)Cresce sem suplementaçãoFungemia nosocomial, sobretudo neonatal — zoonótica.

Fisiopatologia

Na pele, a doença nasce de um desequilíbrio: a levedura comensal passa à fase de hifa (pitiríase versicolor), prolifera dentro do folículo ocluído (foliculite) ou desencadeia inflamação por seus metabólitos lipídicos (dermatite seborreica). No sangue, o mecanismo é mecânico e nutricional: o cateter oferece superfície para biofilme, e a emulsão lipídica fornece exatamente o que a levedura precisa.

Fisiopatologia

Comensal da pele → doença cutânea ou fungemia

Calor, umidade, sebo e imunidade definem a doença de pele; cateter e lipídio definem a doença invasiva.

  1. Colonização

    Levedura comensal nas áreas seborreicas (humano) ou no ouvido e pele do cão.

  2. Fator desencadeante

    Calor, umidade, oleosidade, oclusão, antibiótico ou corticoide, imunossupressão.

  3. Doença cutânea

    Fase de hifa na camada córnea, invasão folicular ou inflamação seborreica.

  4. Acesso ao sangue

    Mãos colonizadas manipulam cateter central; a levedura forma biofilme.

  5. Fungemia

    Emulsão lipídica favorece o crescimento; febre, piora clínica, trombocitopenia.

Frequência e prognóstico

As formas cutâneas são muito comuns. A pitiríase versicolor predomina em adultos jovens e em clima quente e úmido; em países nórdicos, a prevalência fica em 1–4%. A dermatite seborreica afeta 1–3% dos adultos imunocompetentes, com picos na adolescência e por volta dos 50 anos.

A fungemia é rara e concentrada em neonatos. Em revisão de 118 casos publicados, M. furfur respondeu por 82 e M. pachydermatis por 33; 82 eram neonatos. Em revisão sistemática de fungemia neonatal por leveduras raras, a mortalidade descrita foi de 25% com M. furfur e 4% com M. pachydermatis.

82 / 118Casos de fungemia em neonatos (revisão 2020)
33 / 118Fungemias por M. pachydermatis
47%Recidiva da dermatite seborreica em 6 meses sem manutenção

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O essencial de transmissão e risco

  1. Doença cutânea: endógena — a levedura já está na pele; não é contagiosa no sentido clínico.
  2. Zoonose: M. pachydermatis passa do cão para as mãos do dono e, no hospital, das mãos para o paciente.
  3. Surto em UTI neonatal (EUA, 1993–1995): 15 bebês, cães de profissionais com a mesma cepa.
  4. O fator decisivo no paciente é cateter central + emulsão lipídica + prematuridade.

O que é zoonótico e o que não é

Separar as duas situações evita dois erros: tratar o cão de um paciente com pitiríase versicolor (inútil) e ignorar o cão de um profissional de UTI neonatal (perigoso). As espécies humanas são adquiridas da mãe e do ambiente nos primeiros anos e ficam na pele por toda a vida; a espécie canina chega ao humano por contato.

Não zoonótico (maioria)

  • M. furfur, M. globosa, M. restricta, M. sympodialis.
  • Flora da própria pele: doença endógena.
  • Pitiríase versicolor, foliculite, dermatite seborreica.
  • Fungemia por M. furfur, ligada a cateter e lipídio.

Zoonótico

  • M. pachydermatis: comensal do ouvido e da pele do cão.
  • Causa otite externa e dermatite em cães.
  • Donos de cães carregam a levedura nas mãos.
  • Fungemia em neonatos e pacientes com cateter.

O surto da UTI neonatal (Chang et al., NEJM 1998)

Entre outubro de 1993 e janeiro de 1995, uma unidade de terapia intensiva neonatal nos EUA teve 15 bebês com M. pachydermatis: 8 infecções da corrente sanguínea, 2 infecções urinárias, 1 meningite e 4 colonizações. Todos pesavam 1.300 g ou menos; gravidade da doença, cateterização arterial por 9 dias ou mais e exposição a uma enfermeira específica foram fatores independentes.

Na investigação, 1 profissional de saúde e 12 cães de profissionais tinham a levedura; a cepa dos bebês, do profissional e de 3 cães era idêntica na tipagem molecular. A conclusão: a levedura foi levada de casa nas mãos e se manteve na unidade por transmissão entre pacientes.

Cadeia de transmissão

Cão → mãos do profissional → prematuro com cateter

Depois de introduzida, a levedura passa de bebê para bebê pelas mãos da equipe.

Donos de cães carregam a levedura

Estudos com pares de cães e donos mostram que o achado do surto não foi acaso. Por PCR, M. pachydermatis foi detectada nas mãos de cerca de 93% dos donos de cães avaliados (2005). Em estudo de 2026 com cultura, a levedura estava em 68,5% dos cães e em 21,9% dos donos, com cepas do mesmo subgrupo em vários pares; o focinho do cão foi o sítio de maior carga.

Carregar a levedura nas mãos não causa doença no dono saudável. O problema é levá-la, sem higiene adequada, até um prematuro com cateter recebendo lipídio.

Quem tem mais risco

O risco de doença invasiva é definido pelo paciente e pelos dispositivos; o de doença cutânea, pelo clima, pela oleosidade da pele e pela imunidade.

  • Prematuro de muito baixo peso com cateter central e nutrição parenteral com emulsão lipídica — grupo clássico da fungemia.
  • Crianças e adultos com nutrição parenteral lipídica prolongada (síndrome do intestino curto, por exemplo).
  • Imunossuprimidos com cateter de longa permanência: onco-hematologia, transplante.
  • Adulto jovem em clima quente e úmido, com sudorese intensa: pitiríase versicolor e foliculite.
  • Uso de antibiótico ou corticoide sistêmico, oclusão da pele, diabetes: foliculite.
  • HIV e doença de Parkinson: dermatite seborreica mais extensa e resistente.

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O essencial de quadro clínico

  1. Pitiríase versicolor: máculas hipo ou hipercrômicas, com descamação fina, no tronco e nos ombros.
  2. Foliculite: pápulas e pústulas foliculares monomórficas e pruriginosas, sem comedões.
  3. Dermatite seborreica: placas eritematosas com escamas oleosas em couro cabeludo, sulcos nasolabiais e sobrancelhas.
  4. Fungemia: febre e piora em paciente com cateter e lipídio; pode haver trombocitopenia.

Pitiríase versicolor

Manchas arredondadas que confluem no tórax, dorso e braços, às vezes no pescoço e na face. A cor varia — rosada, hipocrômica (mais comum em peles morenas) ou acastanhada — e o prurido, quando existe, é leve. Piora no verão e melhora no inverno.

Ao estirar a pele ou raspar a lesão, a descamação fina fica evidente (sinal de Zireli e sinal da unhada). A hipocromia pode durar meses depois da cura micológica.

Achado característico

Forma hipocrômica

Máculas claras confluentes no tronco, com descamação fina.

Variante

Forma hipercrômica

Máculas acastanhadas, mais vistas em pele clara.

Sinal semiológico

Sinal de Zireli

O estiramento da pele evidencia a descamação furfurácea.

Foliculite por Malassezia

Erupção de pápulas e pústulas de 2–3 mm, todas iguais, no dorso, tórax, ombros e pescoço, que coçam. É comum em adultos jovens, em clima quente, após antibiótico ou corticoide sistêmico e em imunossuprimidos. O erro clássico é tratá-la como acne, sem resposta.

Favorece Malassezia

  • Lesões monomórficas.
  • Prurido.
  • Sem comedões.
  • Piora com calor, sol e antibiótico.

Favorece acne

  • Lesões em estágios diferentes.
  • Comedões abertos e fechados.
  • Pouco prurido.
  • Face como sítio principal.
Achado característico

Pápulas e pústulas monomórficas no dorso

Erupção uniforme e pruriginosa, sem comedões.

Dermatite seborreica e outras formas

A dermatite seborreica é multifatorial, mas a Malassezia tem papel central — por isso responde a antifúngicos. Placas eritematosas mal delimitadas, com escamas amareladas e oleosas, no couro cabeludo, sobrancelhas, sulcos nasolabiais, orelhas e região pré-esternal. No lactente, aparece como crosta láctea.

  • Caspa: forma mínima da dermatite seborreica no couro cabeludo.
  • Dermatite seborreica do lactente: crosta láctea e áreas de dobra, em geral autolimitada.
  • Forma extensa ou de início abrupto: pensar em HIV; também é mais intensa na doença de Parkinson.
  • Dermatite atópica de cabeça e pescoço: a Malassezia pode agravar o quadro em adultos.

Fungemia e infecção de cateter

O quadro é inespecífico e se confunde com sepse bacteriana ou candidemia: febre, instabilidade, apneia e bradicardia no prematuro, intolerância alimentar e trombocitopenia. O que levanta a suspeita é o contexto — cateter central e emulsão lipídica — e uma hemocultura com levedura que cresce mal ou não cresce em subcultura comum.

  • Febre ou piora em prematuro com cateter recebendo lipídio.
  • Hemocultura persistentemente positiva apesar do antifúngico: cateter ainda no lugar.
  • Complicações descritas: meningite, infecção urinária, pneumonia, massa intracardíaca.
  • Casos agrupados na mesma unidade: suspeitar de surto.

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O essencial de diagnóstico

  1. Pele: diagnóstico clínico + exame direto (KOH ou calcofluor) da escama ou da pústula.
  2. Wood: fluorescência amarelo-esverdeada mostra a extensão, mas exame negativo não exclui.
  3. Fungemia: avisar o laboratório para suplementar o meio com lipídio; identificar por MALDI-TOF ou sequenciamento.
  4. Cultura de pele não serve para diagnóstico: a levedura é comensal.

Formas cutâneas: o exame direto

Como a Malassezia está em toda pele adulta, a cultura de escama não distingue doença de colonização. O exame que confirma é a microscopia direta: na pitiríase versicolor, leveduras em cacho com hifas curtas; na foliculite, leveduras com brotamento unipolar no conteúdo da pústula, obtido com agulha, ou por fita adesiva após remover o teto do folículo.

A dermatite seborreica é diagnóstico clínico. Biópsia fica para dúvida diagnóstica, como na foliculite atípica.

Achado característico

“Espaguete com almôndegas”

Leveduras globosas + hifas curtas na pitiríase versicolor.

Lâmpada de Wood

Fluorescência amarelo-esverdeada

Mostra a extensão; nem todas as espécies fluorescem.

Fungemia: como não perder o diagnóstico

A armadilha é laboratorial. As espécies lipodependentes podem não ser detectadas por sistemas automatizados ou não crescer na subcultura comum, e o laudo vem como “levedura não identificada” ou negativo. M. pachydermatis cresce em Sabouraud, mas a suplementação lipídica melhora o crescimento.

  1. Comunique a suspeita

    Informe ao laboratório: paciente com cateter e emulsão lipídica, suspeita de Malassezia.

  2. Colha pareado

    Hemocultura pelo cateter e periférica; envie a ponta do cateter se for retirado.

  3. Meio com lipídio

    Sabouraud com cobertura de azeite de oliva, ágar Dixon modificado ou Leeming-Notman.

  4. Identifique a espécie

    MALDI-TOF com base adequada ou sequenciamento: separa M. furfur de M. pachydermatis.

  5. Pense em surto

    Mais de um caso: tipagem molecular dos isolados e investigação com o controle de infecção.

M. pachydermatis na hemocultura de um neonato é um evento sentinela: avise o controle de infecção hospitalar.

Suscetibilidade antifúngica

Não há método de teste padronizado nem breakpoints clínicos para Malassezia, e o teste não é rotina para guiar o tratamento. Ainda assim, alguns padrões in vitro são consistentes e orientam a escolha empírica.

Em geral ativos

  • Anfotericina B.
  • Itraconazol, cetoconazol, posaconazol, voriconazol.
  • Fluconazol: ativo, mas com CIM mais alta e resistência descrita, sobretudo em M. pachydermatis.

Inativos

  • Equinocandinas: CIM muito elevadas.
  • Terbinafina oral: não funciona na pitiríase versicolor.

Diagnósticos diferenciais

No Brasil, toda mancha hipocrômica merece um diferencial obrigatório: a hanseníase. Teste a sensibilidade antes de rotular uma lesão como pitiríase versicolor.

DiferencialPor que confundeO que ajuda a separar
Hanseníase indeterminada ou tuberculoideMancha hipocrômica.Alteração de sensibilidade térmica, dolorosa e tátil; sem descamação; exame direto negativo.
VitiligoMancha clara.Acromia (branco-leite), sem descamação; Wood realça em branco-azulado.
Pitiríase albaHipocromia com descamação fina.Crianças, face, contexto atópico; exame direto negativo.
Pitiríase róseaMáculas descamativas no tronco.Medalhão inicial, colarete, disposição “em árvore de Natal”, curso autolimitado.
Tinha do corpoPlaca descamativa.Borda ativa e crescimento centrífugo; hifas longas no exame direto.
Acne vulgar / foliculite bacterianaPápulas e pústulas.Comedões e polimorfismo na acne; cocos no Gram na bacteriana; não responde a antifúngico.
Psoríase do couro cabeludoPlacas descamativas.Placas bem delimitadas, escama prateada, unhas e outras áreas acometidas.
CandidemiaLevedura na hemocultura de neonato com cateter.Cresce em meio comum; identificação de espécie; Candida responde a equinocandina.

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O essencial de tratamento

  1. Pitiríase versicolor localizada: tópico (cetoconazol 2%, sulfeto de selênio 2,5%, ciclopirox).
  2. Extensa ou refratária: fluconazol ou itraconazol orais. Terbinafina oral não funciona; cetoconazol oral não deve ser usado.
  3. Recidiva é a regra: manutenção tópica periódica ou itraconazol mensal.
  4. Fungemia: retirar o cateter (forte), suspender lipídio e iniciar anfotericina B lipossomal (ECMM/ISHAM/ASM 2021).

Princípios e escolha da rota

Nas formas cutâneas, o tratamento reduz a carga de levedura, mas não elimina um comensal: por isso a recidiva é esperada e a manutenção faz parte do plano. Tópico basta na maioria; o oral fica para doença extensa, refratária, recorrente ou para a foliculite, em que a levedura está dentro do folículo.

Na fungemia, a ordem é inversa: o antifúngico sozinho costuma falhar enquanto o cateter colonizado e a emulsão lipídica continuam. Retirar o cateter e suspender o lipídio vêm primeiro; o antifúngico completa o tratamento.

Não use

Terbinafina oral (ineficaz contra Malassezia), cetoconazol oral (hepatotoxicidade; desaconselhado para micoses superficiais) e equinocandinas na fungemia (inativas in vitro).

Rotas de tratamento

Cada rota é um cenário clínico. Abra só a rota em que o seu paciente está: a tabela mostra dose, frequência e duração de cada esquema, e o nome de cada medicamento abre a ficha completa. Opções do mesmo grupo são alternativas — escolha uma.

Controle de infecção: mãos de quem tem animais

A lição do surto de 1998 é simples: a levedura do cão chegou ao prematuro pelas mãos. Ter cão não impede ninguém de trabalhar em UTI neonatal; o que protege o paciente é a higiene das mãos bem feita, sempre, como para qualquer patógeno de contato.

  • Higiene das mãos nos 5 momentos, com atenção redobrada antes de manipular cateter e emulsão lipídica.
  • Unhas curtas, sem adornos nas mãos e antebraços.
  • Não levar animais nem objetos usados com eles para a unidade.
  • Diante de 2 ou mais casos: cultura das mãos da equipe, tipagem molecular dos isolados e reforço de práticas.
  • Donos de cães imunossuprimidos ou com cateter domiciliar: lavar as mãos após contato com o animal; otite e dermatite do cão tratadas pelo veterinário.

Monitoramento durante o tratamento

Nos tratamentos tópicos, basta reavaliar a pele. Nos orais curtos, a toxicidade é baixa, mas as interações dos azóis exigem revisão da lista de medicamentos. Na fungemia, o monitoramento é o do antifúngico e o da depuração das hemoculturas.

SituaçãoO que monitorar
Itraconazol / fluconazol oraisInterações (CYP3A4 e CYP2C9), QT em quem usa outros fármacos que o prolongam, sintomas de hepatite.
Anfotericina BCreatinina, potássio, magnésio, reações infusionais.
FungemiaHemoculturas seriadas até negativar; cultura da ponta do cateter; plaquetas.
TópicosIrritação local; reavaliar diagnóstico se não houver melhora em 2–4 semanas.

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O essencial de cenários especiais

  1. Neonato de muito baixo peso com cateter e lipídio: o cenário de maior gravidade e o único com dimensão zoonótica documentada.
  2. Nutrição parenteral domiciliar também é risco, inclusive em criança maior com cão em casa.
  3. HIV: dermatite seborreica extensa ou de início abrupto é sinal de alerta.
  4. Gestante: tópico apenas para doença de pele; anfotericina para doença invasiva.

O que muda em cada cenário

Os princípios se repetem — tópico na pele, retirada do cateter no sangue —, mas cada grupo tem uma particularidade que muda a conduta. A tabela reúne os ajustes práticos.

CenárioParticularidadeO que fazer diferente
Prematuro em UTI neonatalPeso ≤1.300 g, cateter, lipídio; risco de surto.Retirar cateter, suspender lipídio, anfotericina por peso; avisar controle de infecção.
Nutrição parenteral domiciliarFungemia por M. pachydermatis descrita em criança de 8 anos com cão em casa.Pensar em Malassezia em qualquer idade; tentativa de salvar o cateter falhou nesse caso.
Onco-hematologia / transplante com cateterFungemia por M. furfur associada a cateter.Mesma conduta; hemocultura com suplementação lipídica.
HIVDermatite seborreica mais extensa e refratária; foliculite.Oferecer teste de HIV em quadro abrupto ou grave; tratamento pode precisar ser sistêmico.
Uso de corticoide ou antibióticoGatilho clássico de foliculite.Pensar em Malassezia antes de escalar tratamento de acne.
GestanteAzóis orais devem ser evitados.Tópicos; adiar oral; anfotericina se doença invasiva.
LactenteCrosta láctea autolimitada.Emoliente e remoção mecânica; cetoconazol creme; corticoide muito fraco e breve.
Hepatopatia / polifarmáciaInterações e hepatotoxicidade dos azóis.Preferir tópico; revisar interações antes do itraconazol.

UTI neonatal: o cenário zoonótico

É o único contexto em que a origem animal da Malassezia tem consequência clínica documentada. O prematuro tem pele imatura, cateter de longa permanência e recebe exatamente o nutriente da levedura; a equipe circula entre os leitos.

  • Levedura na hemocultura com crescimento lento ou atípico: pedir suplementação lipídica e identificação de espécie.
  • M. pachydermatis identificada: comunicar o controle de infecção no mesmo dia.
  • Rever técnica de manipulação de cateter e de preparo da emulsão lipídica.
  • Não afastar profissionais por terem cães: reforçar higiene das mãos e investigar com cultura e tipagem, se houver surto.

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O essencial de seguimento e prevenção

  1. Pitiríase versicolor: a cor demora meses para normalizar — isso não é falha.
  2. Recidiva é esperada nas formas cutâneas; planeje a manutenção desde o início.
  3. Fungemia: hemoculturas até negativar e controle do cateter.
  4. Prevenção zoonótica = higiene das mãos.

Avaliação da resposta

Na pele, a resposta é avaliada pelo fim da descamação e, se houver dúvida, por exame direto negativo. A hipocromia residual da pitiríase versicolor pode durar semanas a meses e melhora com exposição solar gradual. Em estudo com fluconazol ou itraconazol, cerca de 23% recidivaram em 2 meses.

Na fungemia, repita hemoculturas até documentar a negativação; persistência com cateter já retirado pede busca de foco, como trombo infectado ou endocardite.

Retratar a mancha clara que persistiu, sem descamação e com exame direto negativo, é um erro comum: a doença já foi curada.

Prevenção

Não há vacina nem profilaxia pós-exposição. A prevenção da forma zoonótica está no hospital; a das formas cutâneas, na manutenção tópica e no controle dos fatores que favorecem a levedura.

  • Hospital: higiene das mãos, cuidados com cateter central, uso criterioso de emulsão lipídica e vigilância de casos agrupados.
  • Pitiríase versicolor recorrente: periódico, no início do verão ou mensal.
  • Foliculite e dermatite seborreica: manutenção tópica semanal; evitar oclusão e cosméticos muito oleosos.
  • Cão: otite e dermatite por Malassezia são tratadas pelo veterinário; para o dono, basta lavar as mãos.

Erros comuns

Os erros mais frequentes vêm de esquecer que a levedura é comensal (cultura de pele, tratamento sem manutenção) e de copiar condutas de dermatófitos ou de Candida.

ErroPor que é um problemaComo evitar
Terbinafina oral na pitiríase versicolorNão tem eficácia contra Malassezia.Fluconazol ou itraconazol orais.
Cetoconazol oralHepatotoxicidade grave e interações.Usar cetoconazol só em forma tópica.
Rotular mancha hipocrômica sem testar sensibilidadeHanseníase passa despercebida.Teste de sensibilidade e exame direto.
Tratar foliculite como acneAntibiótico piora a foliculite por Malassezia.Procurar monomorfismo e ausência de comedões; exame direto.
Manter o cateter e trocar só o antifúngicoBiofilme mantém a fungemia.Retirar o cateter e suspender lipídio.
Equinocandina para levedura não identificada em neonato com lipídioInativa contra Malassezia.Pensar em Malassezia e preferir anfotericina até a identificação.
Ignorar M. pachydermatis em hemoculturaPode ser o primeiro caso de um surto.Avisar controle de infecção e rastrear.

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    Teoh Z, Mortensen J, Schaffzin JK. Invasive Malassezia pachydermatis infection in an 8-year-old child on lipid parenteral nutrition. Case Rep Infect Dis. 2022;2022:8636582. doi:10.1155/2022/8636582.
  15. 15
    Diretriz2016
    Pappas PG, Kauffman CA, Andes DR, et al. Clinical practice guideline for the management of candidiasis: 2016 update by the Infectious Diseases Society of America. Clin Infect Dis. 2016;62(4):e1-e50.

Aviso importante

Material educacional de apoio à decisão clínica. Não substitui avaliação individualizada, protocolos institucionais, serviço de referência, infectologia, pediatria/obstetrícia nem consulta às bulas. Na fungemia, doses de fluconazol e de neonatos são extrapoladas da candidíase; retirada do cateter, suspensão do lipídio e dose por peso devem ser conferidas com infectologia e farmácia clínica antes da prescrição.

Conteúdo para educação médica. Condutas devem ser individualizadas e conferidas com protocolos oficiais, contexto epidemiológico e disponibilidade local.
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