Quatro grupos de serpentes têm importância médica no Brasil. Reconhecer a síndrome é mais confiável do que tentar identificar o animal pela descrição do paciente, porque cada veneno tem um conjunto próprio de ações — e as ações explicam o quadro clínico.
Botrópico — jararaca (Bothrops, o mais frequente)
Ações do veneno: proteolítica ou inflamatória aguda, coagulante e hemorrágica.
Quadro: dor e edema progressivos, equimose, bolhas, sangramento no local. Sistemicamente, gengivorragia, hematúria, epistaxe e hematêmese. Incoagulabilidade sanguínea é achado clássico.
Complicações: necrose, abscesso, infecção secundária, síndrome compartimental e lesão renal aguda.
Laquético — surucucu (Lachesis, Amazônia e Mata Atlântica)
Ações do veneno: as mesmas do botrópico mais uma ação neurotóxica vagal.
Quadro: local muito semelhante ao botrópico, acrescido de manifestações vagais — hipotensão, bradicardia, diarreia, dor abdominal, visão escurecida e sudorese.
Particularidade: é a maior serpente peçonhenta do país e inocula grande volume de veneno. Por isso não existe classificação leve: todo caso é moderado ou grave.
Crotálico — cascavel (Crotalus durissus, maior letalidade)
Ações do veneno: neurotóxica (crotoxina, com bloqueio pré-sináptico), miotóxica e coagulante.
Quadro: local discreto, apenas parestesia e eritema. Sistemicamente, fácies miastênica com ptose palpebral, diplopia, oftalmoplegia, mialgia intensa e urina escura por mioglobinúria.
Complicações: lesão renal aguda por rabdomiólise — a mais frequente e a mais temida — e insuficiência respiratória.
Elapídico — coral-verdadeira (Micrurus, raro e potencialmente grave)
Ação do veneno: neurotoxinas de baixo peso molecular, com difusão rápida e bloqueio pós-sináptico na maioria das espécies.
Quadro: local pobre, com dor e parestesia. Sistemicamente, ptose palpebral, fácies miastênica, disfagia, oftalmoplegia, sialorreia e fraqueza muscular progressiva.
Complicação: paralisia respiratória. É o acidente em que a via aérea pode ser necessária de forma abrupta.
Serpente jovem × adultaNo acidente botrópico, exemplares jovens (abaixo de 40 a 50 cm) associam-se mais a coagulopatia e hemorragia; adultos (acima de 50 a 60 cm), a mais edema, necrose, abscesso, bolhas e síndrome compartimental. O tamanho do animal, quando informado, ajuda a antecipar o tipo de complicação — não a dose.