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Animais peçonhentos

Acidentes ofídicos, escorpionismo, araneísmo e erucismo • soroterapia antiveneno

O tratamento cabe em uma frase: classificar a gravidade, escolher o soro certo e aplicar a dose inteira, o mais cedo possível, por via intravenosa. O que muda desfecho não é sofisticação — é o intervalo entre a picada e a primeira ampola. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas dos Acidentes Ofídicos do Ministério da Saúde (2026) consolidou as doses de uso racional, manteve o teste de sensibilidade fora da rotina e não preconiza pré-medicação.

Soro o mais precoce possívelMesma dose para criançaSem torniquete e sem incisãoDose inteira, sem fracionar
22 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Três perguntas resolvem a conduta: qual o tipo de acidente, qual a gravidade e qual soro em qual dose.
  2. Nenhuma depende de ver o animal — a identificação é pela síndrome clínica somada à epidemiologia da região.
  3. O soro é intravenoso, em dose inteira, sem teste de sensibilidade, sem pré-medicação e igual para adulto e criança.
  4. Torniquete, incisão, anti-inflamatório e antibiótico profilático não fazem parte do tratamento.

O princípio que organiza tudo

Diante de qualquer acidente por animal peçonhento, três perguntas resolvem a conduta: qual o tipo de acidente, qual a gravidade e qual soro em qual dose. O resto é suporte clínico e vigilância de complicações.

Nenhuma dessas perguntas depende de ver o animal. Na maioria dos atendimentos o bicho não é levado, e a identificação se faz pela síndrome clínica somada aos dados epidemiológicos da região. Esperar identificação para tratar é um erro que custa tempo — e tempo, aqui, é a variável que mais pesa no desfecho.

A soroterapia deve ser aplicada o mais precocemente possível, por via intravenosa, com a dose inteira de uma só vez. Não se fraciona, não se testa sensibilidade antes e não se faz pré-medicação de rotina. E a dose é a mesma para adulto e criança: o objetivo é neutralizar o veneno circulante, que independe do peso do paciente.

O que o PCDT de 2026 consolidou

O Ministério da Saúde publicou em 2026 o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas dos Acidentes Ofídicos, primeiro PCDT do SUS para o tema. Ele não inventou doses novas: a revisão de escopo não encontrou evidência para mudar o número de ampolas, e por isso o protocolo oficializou as doses de uso racional que o Ministério já recomendava em ofícios de 2014 e 2016 — no botrópico, 3, 6 e 12 frascos-ampola, no lugar das antigas faixas de 2 a 4, 4 a 8 e 12 do manual de 2001.

O valor do documento está em transformar em norma práticas que ainda variavam muito entre serviços. Os pontos que mais mudam a prática à beira do leito estão listados abaixo.

  • Doses do acidente botrópico fixadas em 3, 6 e 12 frascos-ampola nos casos leve, moderado e grave — o mesmo esquema para SABR, SABL ou SABC.
  • O tempo de coagulação não classifica gravidade. Ele confirma diagnóstico e monitora a resposta, mas a classificação é pela extensão do edema e pelas complicações.
  • Teste de sensibilidade cutânea fora da rotina — baixa sensibilidade e atraso do tratamento.
  • Pré-medicação não é preconizada. A síntese de evidências não mostrou benefício na prevenção de reações anafiláticas no acidente botrópico.
  • Anti-inflamatório não hormonal não é recomendado, pelo risco de lesão renal aguda. Analgesia com dipirona ou paracetamol.
  • Antibiótico profilático não é recomendado — apenas em infecção secundária estabelecida, dirigido ao sítio.
  • Elapídico com classificação de gravidade: leve em observação de 24 horas, moderado com 5 e grave com 10 frascos-ampola.
  • Fotobiomodulação (laser de baixa intensidade) é promissora para o dano local, mas ainda não é recomendada.
Divergência entre documentos

O Guia de Vigilância em Saúde (6ª edição revisada, 2024) ainda reproduz as faixas do manual de 2001 — botrópico 2–4, 4–8 e 12 ampolas; elapídico com 10 ampolas em todos os casos. Para os acidentes ofídicos, prevalece o PCDT de 2026, mais recente e específico. Para escorpiões vale o PCDT dos Acidentes Escorpiônicos (2026): 3 frascos-ampola no moderado e 6 no grave, sem ultrapassar 6. Para aranhas e lagartas, a referência continua sendo o Guia de Vigilância.

Como se conta o edema

A classificação do acidente botrópico usa a divisão do membro em três segmentos, o que torna a avaliação reprodutível entre examinadores e permite acompanhar a progressão do edema hora a hora. Quando a picada é em tórax ou cabeça, mede-se a circunferência da região.

Segmento 1

Mão e punho — ou pé e tornozelo.

Segmento 2

Antebraço e cotovelo — ou perna e joelho.

Segmento 3

Braço — ou coxa.

A presença de hemorragia grave, hipotensão, choque ou lesão renal aguda classifica o caso como grave independentemente da extensão do edema.

Primeiros socorros e conduta inicial

As primeiras medidas cabem em qualquer serviço e evitam boa parte das complicações iatrogênicas. Elas não substituem o soro: servem para chegar até ele sem piorar o membro, o rim ou a coagulação. A sequência abaixo vale para todos os acidentes ofídicos.

  1. Lave o local

    Com água e sabão e, em seguida, com soro fisiológico.

  2. Eleve e estenda o membro

    E retire anéis, pulseiras, relógio e roupas apertadas antes que o edema se instale.

  3. NÃO faça torniquete, garrote ou incisão

    Aumentam complicações e não reduzem a gravidade.

  4. Hidrate

    Água por demanda no paciente responsivo e sem vômitos, e hidratação venosa conforme o quadro, para prevenir lesão renal aguda.

  5. Avalie e trate a dor

    Com escala apropriada; trate com ou . Evite anti-inflamatórios não hormonais.

  6. Acesso venoso no membro oposto

    Periférico, em membro diferente do acometido. Evite a via intramuscular pelo risco de hematoma na coagulopatia.

  7. Classifique e aplique o soro

    Na dose correspondente à gravidade, sem aguardar exames.

  8. Atualize a antitetânica

    Conforme o tipo de ferimento e a situação vacinal.

  9. Notifique

    Acidentes por animais peçonhentos são de notificação compulsória, mesmo sem uso de soro.

Bloqueio anestésico e administração de medicamentos no local da picada são contraindicados nos acidentes ofídicos, pelo quadro inflamatório intenso. A exceção é o foneutrismo e o escorpionismo, em que a infiltração de é justamente o tratamento da dor.

Os soros disponíveis no Brasil

Os antivenenos são produzidos pelo Instituto Butantan, pela Fundação Ezequiel Dias e pelo Instituto Vital Brazil, e distribuídos de forma centralizada pelo SUS. Cada soro neutraliza o veneno de um gênero ou de dois; os combinados existem justamente para a dúvida diagnóstica e para a falta do específico.

SiglaSoroIndicação
SABRAntibotrópico pentavalenteAcidente botrópico (jararaca e afins)
SABLAntibotrópico pentavalente e antilaquéticoAcidente laquético; alternativa no botrópico e na dúvida entre os dois
SACAnticrotálicoAcidente crotálico (cascavel)
SABCAntibotrópico pentavalente e anticrotálicoAlternativa no botrópico e no crotálico, e na dúvida entre os dois
SAELAAntielapídico bivalenteAcidente elapídico (coral-verdadeira)
SAEscAntiescorpiônicoEscorpionismo moderado e grave
SAArAntiaracnídico trivalenteTityus, Phoneutria e Loxosceles; usado quando não se diferencia o agente ou falta o soro específico
SALoxAntiloxoscélico trivalenteLoxoscelismo moderado e grave
SALatrAntilatrodécticoLatrodectismo moderado e grave (via intramuscular)
SALonAntilonômicoAcidente por lagarta do gênero Lonomia

Todos são armazenados e transportados entre 2 e 8 °C, sem congelar, e usados imediatamente após a abertura do frasco. A distribuição é centralizada e nem toda unidade dispõe de todos os tipos — conheça o hospital de referência da sua região antes de precisar dele.

Os números que orientam

Alguns números resolvem a maior parte das decisões do plantão. Eles não substituem a classificação clínica, mas evitam os erros mais comuns: subdosar, infundir rápido demais e liberar o paciente antes da hora.

3 · 6 · 12Frascos-ampola no botrópico leve, moderado e grave
3 · 6Ampolas no escorpiônico moderado e grave; leve sem soro
8–12 mL/minInfusão, diluído em salina ou glicose a 5%
24 h · 6 hObservação mínima com soro · sem sintomas
0800 722 6001Disque-Intoxicação (CIATox): orientação e localização de soro

Se a unidade não tiver a dose total no momento, administre o que houver e complete assim que possível. Meia dose agora vale mais do que a dose inteira daqui a quatro horas.

Em 30 segundos

O essencial de serpentes

  1. Quatro gêneros têm importância médica: Bothrops, Lachesis, Crotalus e Micrurus.
  2. Edema progressivo com sangramento é botrópico; o mesmo com manifestação vagal é laquético; mialgia com urina escura é crotálico; paralisia sem quadro local é elapídico.
  3. O botrópico recebe 3, 6 ou 12 frascos-ampola; o laquético não tem forma leve; o crotálico recebe 5, 10 ou 20.
  4. O tempo de coagulação confirma e monitora, mas não classifica.

Os quatro acidentes ofídicos

Quatro grupos de serpentes têm importância médica no Brasil. Reconhecer a síndrome é mais confiável do que tentar identificar o animal pela descrição do paciente, porque cada veneno tem um conjunto próprio de ações — e as ações explicam o quadro clínico.

Botrópico — jararaca (Bothrops, o mais frequente)

Ações do veneno: proteolítica ou inflamatória aguda, coagulante e hemorrágica.
Quadro: dor e edema progressivos, equimose, bolhas, sangramento no local. Sistemicamente, gengivorragia, hematúria, epistaxe e hematêmese. Incoagulabilidade sanguínea é achado clássico.
Complicações: necrose, abscesso, infecção secundária, síndrome compartimental e lesão renal aguda.

Laquético — surucucu (Lachesis, Amazônia e Mata Atlântica)

Ações do veneno: as mesmas do botrópico mais uma ação neurotóxica vagal.
Quadro: local muito semelhante ao botrópico, acrescido de manifestações vagais — hipotensão, bradicardia, diarreia, dor abdominal, visão escurecida e sudorese.
Particularidade: é a maior serpente peçonhenta do país e inocula grande volume de veneno. Por isso não existe classificação leve: todo caso é moderado ou grave.

Crotálico — cascavel (Crotalus durissus, maior letalidade)

Ações do veneno: neurotóxica (crotoxina, com bloqueio pré-sináptico), miotóxica e coagulante.
Quadro: local discreto, apenas parestesia e eritema. Sistemicamente, fácies miastênica com ptose palpebral, diplopia, oftalmoplegia, mialgia intensa e urina escura por mioglobinúria.
Complicações: lesão renal aguda por rabdomiólise — a mais frequente e a mais temida — e insuficiência respiratória.

Elapídico — coral-verdadeira (Micrurus, raro e potencialmente grave)

Ação do veneno: neurotoxinas de baixo peso molecular, com difusão rápida e bloqueio pós-sináptico na maioria das espécies.
Quadro: local pobre, com dor e parestesia. Sistemicamente, ptose palpebral, fácies miastênica, disfagia, oftalmoplegia, sialorreia e fraqueza muscular progressiva.
Complicação: paralisia respiratória. É o acidente em que a via aérea pode ser necessária de forma abrupta.

Serpente jovem × adulta

No acidente botrópico, exemplares jovens (abaixo de 40 a 50 cm) associam-se mais a coagulopatia e hemorragia; adultos (acima de 50 a 60 cm), a mais edema, necrose, abscesso, bolhas e síndrome compartimental. O tamanho do animal, quando informado, ajuda a antecipar o tipo de complicação — não a dose.

Diferenciando à beira do leito

Na prática, três eixos separam os quatro acidentes: a intensidade do quadro local, a presença de coagulopatia e o tipo de manifestação neurológica. Um único achado costuma decidir — e é ele que a banca de prova cobra.

AchadoBotrópicoLaquéticoCrotálicoElapídico
Dor e edema localIntensos e progressivosIntensosDiscretosDiscretos
SangramentoFrequenteFrequenteRaroAusente
CoagulopatiaComumComumPossívelAusente
NeurológicoAusenteVagalFácies miastênica, mialgiaFácies miastênica, disfagia
Urina escuraHematúriaHematúriaMioglobinúriaRara
Achado que decideEdema progressivo com sangramentoManifestação vagalMialgia com urina escuraParalisia sem quadro local
Soro (ou SABL/SABC) (ou SABC)

Serpentes sem importância médica — Philodryas, Xenodon, Helicops, Clelia — podem causar dor, edema e até equimose, mas não alteram a coagulação. Por isso o tempo de coagulação ajuda a diferenciar esses acidentes dos botrópicos e laquéticos, e evita soroterapia desnecessária.

Classificação e frascos-ampola — botrópico e laquético

No botrópico, a faixa de gravidade é definida pela extensão do edema e pelas complicações sistêmicas; a coagulopatia pode estar presente ou ausente em qualquer faixa e não muda a dose. O soro é o , com ou como alternativas — sempre no mesmo número de frascos-ampola.

Leve — 3 frascos-ampola

Dor e edema de até um segmento; sangramento discreto ou ausente; coagulopatia presente ou ausente.

Moderado — 6 frascos-ampola

Dor e edema de dois segmentos; sangramento discreto ou ausente; coagulopatia presente ou ausente.

Grave — 12 frascos-ampola

Dor e edema de três segmentos; ou complicações como hemorragia grave, hipotensão ou choque, ou lesão renal aguda; coagulopatia presente ou ausente.

Acidente laquético — SABL

Moderado — 10 frascos-ampola

Quadro local presente, podendo haver sangramentos, sem manifestações vagais.

Grave — 20 frascos-ampola

Quadro local intenso, hemorragia intensa e/ou manifestações vagais.

Classificação e frascos-ampola — crotálico e elapídico

Nos acidentes neurotóxicos, a gravidade é lida pela intensidade da neuroparalisia e, no crotálico, pela miotoxicidade — mialgia, urina escura e oligúria. O (ou o ) trata o crotálico; o trata o elapídico, em que mesmo o caso leve exige vigilância de pelo menos 24 horas.

Crotálico leve — 5 FA

Alterações neuroparalíticas discretas, sem mialgia, sem escurecimento da urina e sem oligúria.

Crotálico moderado — 10 FA

Alterações neuroparalíticas evidentes, com mialgia e escurecimento da urina discretos.

Crotálico grave — 20 FA

Alterações neuroparalíticas evidentes, com mialgia e mioglobinúria intensas e, ainda, oligúria.

Elapídico leve — sem soro, observar

Parestesia e dor de intensidade variável, com ou sem irradiação. Observação clínica de pelo menos 24 horas, com soroterapia caso surja miastenia.

Elapídico moderado — 5 FA

Miastenia aguda, como ptose palpebral e diminuição objetiva da força muscular, sem sinais de paralisia.

Elapídico grave — 10 FA

Fraqueza intensa e paralisia evidente, com dificuldade para levantar e deambular, disfagia, sialorreia e respiração superficial até paralisia respiratória.

O soro antielapídico deve ser diluído em proporção de 1:2 a 1:5 para reduzir a frequência de reações adversas. Nos demais, a diluição é em salina ou glicose a 5%, com atenção à sobrecarga de volume. Nos casos leves e moderados de acidente elapídico, o acompanhamento deve ser ainda mais rigoroso que o habitual, com reclassificação diante de qualquer piora.

Exames e monitoramento

Os exames servem a três propósitos: confirmar o envenenamento quando o quadro é duvidoso, acompanhar a resposta ao soro e detectar cedo a lesão renal e a rabdomiólise. Nenhum deles deve atrasar a primeira ampola.

Tempo de coagulação

Confirma o diagnóstico nos acidentes botrópico, laquético e crotálico, e monitora a resposta ao soro. Não deve ser usado para classificar a gravidade. Se permanecer alterado 24 horas após o término da soroterapia no acidente botrópico, administre 2 frascos-ampola adicionais.

Hemograma com plaquetas

Trombocitopenia é frequente no botrópico. Auxilia também no acompanhamento de infecção secundária, junto da proteína C reativa.

Ureia, creatinina e eletrólitos

Na admissão e seriadas. A lesão renal aguda é a complicação sistêmica mais frequente nos acidentes botrópico, laquético e crotálico; potássio, cálcio e fósforo na rabdomiólise.

Creatinoquinase e desidrogenase láctica

Essenciais no acidente crotálico para avaliar rabdomiólise, e úteis no elapídico diante de manifestação miotóxica.

Urina tipo I

Identifica hematúria e mioglobinúria pela coloração característica, além de auxiliar na avaliação renal.

Tempo de observação

Mínimo de 24 horas para quem recebeu soro. No crotálico pode se estender de 48 a 72 horas pelo risco de lesão renal tardia; no elapídico, mínimo de 24 horas. Sem sintomas, em região de predomínio botrópico, mínimo de 6 horas.

O fibrinogênio não é a primeira escolha para monitorar a coagulopatia: sua correlação com sangramento clínico não está bem estabelecida. Prefira tempo de coagulação e coagulograma com atenção ao tempo de protrombina e ao tempo de tromboplastina parcial ativada.

Em 30 segundos

O essencial de escorpiões

  1. É o acidente peçonhento mais notificado do Brasil; Tityus serrulatus, o escorpião-amarelo, é o principal agente.
  2. O veneno libera catecolaminas e acetilcolina: dor imediata e, nos graves, tempestade autonômica com edema pulmonar e choque.
  3. Leve não recebe soro; moderado recebe 3 ampolas e grave 6 ampolas de SAEsc (ou SAAr), sem ultrapassar 6 (PCDT 2026).
  4. Criança pequena com vômitos, sudorese ou agitação já é caso moderado — soro sem esperar a piora.

Escorpionismo

É o acidente por animal peçonhento mais notificado do país e o que mais mata — não por letalidade individual alta, mas por volume de casos. As espécies de importância médica pertencem ao gênero Tityus, com destaque para T. serrulatus, o escorpião-amarelo.

O veneno atua sobre os canais de sódio das terminações nervosas, provocando liberação maciça de catecolaminas e de acetilcolina. Isso explica a apresentação: dor intensa imediata seguida, nos casos graves, de tempestade autonômica com vômitos, sudorese, arritmia, edema pulmonar e choque. O intervalo entre a picada e as manifestações sistêmicas graves é mais curto que nos acidentes ofídicos.

Criança pequena é outro paciente. Menores de 9 anos — sobretudo abaixo de 7 — concentram as complicações sistêmicas e os óbitos, especialmente nos acidentes por T. serrulatus. O quadro é dinâmico e pode deteriorar em poucas horas: toda criança picada por escorpião merece observação em unidade com condições de suporte.

Classificação e soroterapia

O soro está indicado apenas nos casos moderados e graves, e a classificação é feita pelas manifestações sistêmicas, não pela intensidade da dor. Use prioritariamente o ; o é a alternativa quando aquele falta ou quando não se consegue diferenciar do acidente por Phoneutria.

Leve — sem soro

Dor e parestesia locais, com ou sem eritema e sudorese local. Tratamento sintomático, analgesia e observação — em crianças, de 6 a 12 horas.

Moderado — 3 ampolas

Dor local intensa associada a uma ou mais manifestações sistêmicas: náuseas, vômitos, sudorese, sialorreia, agitação, taquipneia e taquicardia.

Grave — 6 ampolas

Além do acima, vômitos profusos e incoercíveis, sudorese profusa, sialorreia intensa, prostração, convulsão, coma, bradicardia, insuficiência cardíaca, edema pulmonar e choque.

Os sintomas locais e os vômitos melhoram rapidamente após o soro; as alterações cardiovasculares demoram mais para regredir. Não interprete a persistência de taquicardia como falha da soroterapia.

Conduta prática

Na maioria dos casos só há quadro local, e o tratamento é a analgesia — aqui, ao contrário do acidente ofídico, a infiltração no local da picada é a primeira medida. O trabalho do plantonista é tirar a dor e, ao mesmo tempo, vigiar a criança que pode virar caso moderado nas horas seguintes.

  1. Analgesia é a prioridade nos casos leves

    Infiltração local de sem vasoconstritor: 3 a 4 mL em adultos e 1 a 2 mL em crianças, repetível conforme necessidade.

  2. Analgesia sistêmica

    10 mg/kg a cada 6 horas quando a infiltração não for suficiente. Opioide pode ser necessário na dor refratária.

  3. Classifique

    Pela presença e intensidade das manifestações sistêmicas, não pela dor isolada.

  4. CRIANÇA COM VÔMITOS, SUDORESE OU AGITAÇÃO

    Já é caso moderado: administre o soro sem esperar a deterioração.

  5. Monitorização

    Cardioscopia, oximetria, pressão arterial e reavaliação frequente nos casos moderados e graves.

  6. ECG, radiografia de tórax e ecocardiograma

    Nos casos graves, para detecção de acometimento cardíaco.

  7. Insuficiência cardíaca e edema pulmonar

    Suporte com oxigênio, cautela na hidratação, diurético e, se necessário, inotrópico em infusão contínua.

  8. Observação

    De pelo menos 6 a 12 horas nos casos leves em crianças, pela possibilidade de evolução, e internação nos moderados e graves.

O que o ECG mostra

A descarga adrenérgica e colinérgica aparece no eletrocardiograma. A taquicardia sinusal é o achado mais comum; a bradicardia sinusal, por predomínio colinérgico, é sinal de gravidade. Também são descritos extrassístoles, alterações de repolarização com inversão de onda T, ondas U proeminentes, padrões que imitam infarto e distúrbios de condução, que podem persistir por dias.

Os dois extremos autonômicos

Compare a resposta adrenérgica com a colinérgica.

Adrenérgico

Taquicardia sinusal: a resposta mais frequente ao veneno do escorpião, que tende a regredir mais devagar que a dor após o soro.

  • Onda P antes de cada QRS
  • Ritmo regular
  • FC ≈ 125 bpm
  • QRS estreito

Traçados esquemáticos gerados por computador (25 mm/s, 10 mm/mV) para estudo e comparação. Confirme sempre no ECG de 12 derivações do paciente.

Diagnóstico diferencial

Sem história de picada ou sem o animal, o escorpionismo pode se disfarçar de outras emergências — sobretudo na criança que chega vomitando e suando. A marca da picada e a dor local desproporcional são as pistas que reorganizam o raciocínio.

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Foneutrismo
Achado-chaveQuadro local e sistêmico praticamente idêntico.
Como diferenciarO acidente pela aranha-armadeira não se distingue clinicamente. Na dúvida, o SAAr cobre os dois.
Abdome agudo
Achado-chaveDor abdominal, vômitos e sudorese em criança.
Como diferenciarPode ser confundido com quadro cirúrgico. Procure a marca da picada e a história.
Achado-chaveAgitação, taquicardia e hipertensão.
Como diferenciarTambém ocorrem com estimulantes. O contexto e a dor local desproporcional orientam.
Miocardite e edema pulmonar
Achado-chaveQuadro cardiovascular domina nos casos graves.
Como diferenciarPode ser confundido com causa primária. A história de picada é a chave.

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O essencial de aranhas e outros

  1. Três aranhas têm importância médica, com quadros opostos: Loxosceles (lesão tardia), Phoneutria (dor imediata) e Latrodectus (contraturas).
  2. A forma cutâneo-hemolítica do loxoscelismo é a que mata; o soro tem limite quando a necrose já está delimitada.
  3. Todo contato com Lonomia exige avaliação da coagulação, mesmo com quadro local trivial.
  4. Abelhas, peixes, lacraias e caranguejeiras não têm soro na rotina: o tratamento é de suporte.

Araneísmo e erucismo

Três gêneros de aranhas têm importância médica no Brasil, com quadros clínicos completamente diferentes entre si. O erro mais comum é tratar todos como se fossem o mesmo acidente. A lagarta Lonomia entra nesta aba porque, como a aranha-marrom, engana pelo quadro local discreto.

Loxosceles — aranha-marrom (a mais notificada; Sul e Sudeste)

Como acontece: a aranha é comprimida contra o corpo ao vestir roupa ou ao dormir. Tronco, abdome, coxas e braços são os locais mais atingidos.
Quadro cutâneo: dor pouco intensa e tardia, com lesão que evolui em dias para a placa marmórea — área de palidez alternada com equimose e eritema — e depois necrose seca de bordas bem delimitadas.
Forma cutâneo-hemolítica: hemólise intravascular, com anemia, icterícia, hemoglobinúria e risco de lesão renal aguda. É a forma que mata.

Phoneutria — armadeira (aranha-da-banana; quadro agudo)

Quadro: dor local intensa e imediata, com irradiação, edema, eritema e sudorese local. É o extremo oposto do loxoscelismo.
Sistêmico: taquicardia, hipertensão, agitação, sudorese, vômitos e, em crianças, sialorreia, priapismo, choque e edema pulmonar.
Importante: o quadro é praticamente indistinguível do escorpionismo, e o SAAr trata os dois.

Latrodectus — viúva-negra (rara; litoral do Nordeste)

Quadro: dor local seguida de contraturas musculares intensas, com rigidez abdominal que simula abdome agudo, tremores, sudorese, hipertensão, taquicardia e fácies latrodectísmica.
Tratamento: analgesia, benzodiazepínico para as contraturas e, nos casos moderados e graves, soro antilatrodéctico por via intramuscular.

Lonomia — taturana (lagarta; síndrome hemorrágica)

Como acontece: contato com as cerdas da lagarta agrupada em troncos de árvores. O quadro inicial é apenas dor em queimação, edema e eritema.
O perigo: horas depois pode instalar-se síndrome hemorrágica por consumo de fibrinogênio, com gengivorragia, equimoses, hematúria e risco de hemorragia intracraniana e lesão renal aguda.
Regra: todo contato com Lonomia exige avaliação da coagulação, mesmo com quadro local trivial.

Foneutrismo e loxoscelismo — classificação e soro

Os dois acidentes mais notificados entre as aranhas usam o mesmo raciocínio dos demais: soro só nos casos moderados e graves. No foneutrismo a decisão é feita em horas, pelas manifestações sistêmicas; no loxoscelismo, a dificuldade é o tempo — o diagnóstico costuma chegar quando a necrose já está definida.

AcidenteGravidadeQuadroSoro e ampolas
Foneutrismo (Phoneutria)LeveDor local, com ou sem edema, eritema, sudorese e piloereçãoSem soro; analgesia
FoneutrismoModeradoDor intensa, sudorese, vômitos ocasionais, agitação, hipertensão, 2 a 4 ampolas
FoneutrismoGraveSudorese profusa, sialorreia, vômitos profusos, priapismo, choque, edema pulmonar, 5 a 10 ampolas
Loxoscelismo (Loxosceles)LeveAranha identificada, lesão incaracterística, sem alterações sistêmicas; diagnóstico ainda incertoSem soro; reavaliar em 72 horas
LoxoscelismoModeradoLesão sugestiva ou característica, com ou sem manifestações sistêmicas inespecíficas (exantema, febre), sem hemólise ou SAAr, 5 ampolas +
LoxoscelismoGraveLesão característica com hemólise intravascular — forma cutâneo-hemolítica ou SAAr, 10 ampolas +

No loxoscelismo moderado e grave, recomenda-se associar prednisona — 40 mg por dia no adulto e 1 mg/kg por dia na criança, por 5 dias. A grande limitação do soro é o diagnóstico tardio: quando a necrose já está delimitada, o antiveneno acrescenta pouco, e o cuidado passa a ser da ferida — antissepsia, compressas com permanganato de potássio 1:40.000 e curativos até a remoção da escara, com cirurgia reparadora quando necessário.

Latrodectismo e erucismo — classificação e soro

São acidentes raros, mas com armadilhas próprias. No latrodectismo, o soro é o único antiveneno aplicado por via intramuscular e o quadro costuma ceder com suporte; no erucismo por Lonomia, a gravidade é definida pela coagulação e pelo sangramento, e a lagarta que parecia inofensiva pode causar hemorragia intracraniana.

AcidenteGravidadeQuadroConduta
Latrodectismo (Latrodectus)LeveDor local, edema discreto, sudorese localSem soro; analgesia, observação
LatrodectismoModeradoContraturas, tremores, dor abdominal, sudorese generalizada, agitação, mialgia, 1 ampola IM + sintomáticos
LatrodectismoGraveAlém do acima, taqui ou bradicardia, hipertensão, dispneia, vômitos, priapismo, retenção urinária, fácies latrodectísmica, 1 a 2 ampolas IM + sintomáticos
Erucismo (Lonomia)LeveQuadro local, sem sangramento e sem alteração da coagulaçãoSem soro; observar e repetir coagulação nas primeiras 24 horas
ErucismoModeradoTempo de coagulação alterado; sangramento ausente ou apenas em pele e mucosas, sem hemorragia visceral, 5 ampolas
ErucismoGraveAlteração da coagulação com hemorragia visceral ou lesão renal aguda, 10 ampolas
Soro antilatrodéctico

É produzido apenas pelo Instituto Vital Brazil, tem disponibilidade restrita e — diferentemente de todos os outros antivenenos — é aplicado por via intramuscular. O Guia de Vigilância em Saúde de 2024 descreve apenas tratamento sintomático (, , clorpromazina e analgésicos) e observação mínima de 24 horas. Na suspeita, acione o CIATox para indicação e localização do soro.

Outros animais

Abelhas, peixes, lacraias, caranguejeiras e lagartas comuns geram muitos atendimentos e nenhum soro de rotina. O tratamento é de suporte, mas cada um tem uma medida específica que muda a evolução — e um erro típico a evitar.

Himenópteros

Abelhas, vespas e formigas. Dois cenários distintos: anafilaxia por poucas picadas em indivíduo sensibilizado, tratada com intramuscular; e envenenamento maciço por centenas de picadas, com rabdomiólise, hemólise e lesão renal aguda. Não há antiveneno disponível no SUS — o soro antiapílico brasileiro ainda está em ensaio clínico, sem registro.

Peixes peçonhentos

Arraias, niquim e bagres. Dor desproporcional e intensa. O tratamento é imersão da área em água quente, entre 45 e 50 °C, por 30 a 90 minutos, que desnatura a toxina termolábil. Remova espinhos, faça imagem se suspeitar de corpo estranho e atualize a antitetânica.

Outras lagartas

Espécies fora do gênero Lonomia causam apenas dermatite urticante: dor em queimação, eritema e prurido, sem repercussão sistêmica. Compressa fria, analgesia e remoção das cerdas com fita adesiva.

Lacraias e aranhas caranguejeiras

Dor local, às vezes intensa, sem envenenamento sistêmico relevante. Analgesia e cuidados com a ferida. Não há indicação de soro. As caranguejeiras causam sobretudo irritação por cerdas urticantes.

No envenenamento maciço por abelhas, o número de ferroadas é o principal marcador de gravidade. Remova os ferrões por raspagem, hidrate vigorosamente, monitorize creatinoquinase, potássio e função renal, e antecipe a necessidade de terapia de substituição renal.

Em 30 segundos

O essencial de soroterapia

  1. Classifique pela clínica e aplique o soro sem esperar exames.
  2. Dilua em salina ou glicose a 5% (antielapídico 1:2 a 1:5) e infunda a 8–12 mL/min, sob vigilância direta.
  3. Dose inteira, de uma vez, igual para adulto e criança — sem teste de sensibilidade e sem pré-medicação.
  4. Piora após o soro obriga a reclassificar e complementar; no botrópico, TC alterado 24 h depois pede mais 2 frascos-ampola.

Como se aplica o soro

O soro antiveneno é feito de imunoglobulinas equinas que se ligam ao veneno ainda não fixado nos tecidos. Isso explica as regras: quanto antes, mais veneno é neutralizado; a dose acompanha a quantidade de veneno e não o tamanho do paciente; e, por ser heterólogo, exige vigilância durante a infusão. Pode ser feito mesmo após o paciente ter comido ou bebido, com cuidado redobrado pelo risco de aspiração se houver vômitos.

  1. Classifique a gravidade

    Pelo quadro clínico. Não espere resultado de exame para iniciar.

  2. Escolha o soro específico

    Conforme o tipo de acidente, ou o soro combinado disponível quando houver dúvida diagnóstica ou falta do específico.

  3. Dilua

    Em soro fisiológico ou glicosado a 5%. No antielapídico, a diluição recomendada é de 1:2 a 1:5.

  4. ADMINISTRE A DOSE INTEIRA DE UMA SÓ VEZ

    Por via intravenosa, sem fracionar, sob vigilância direta de profissional de saúde.

  5. Infunda a 8 a 12 mL por minuto

    Com atenção à sobrecarga de volume, sobretudo em criança, cardiopata e nefropata.

  6. Sem teste e sem pré-medicação

    Não faça teste de sensibilidade e não faça pré-medicação de rotina — nenhum dos dois é preconizado.

  7. Mantenha ao lado

    , material de via aérea e acesso venoso pérvio durante toda a infusão.

  8. Reavalie

    Após o término. Piora das manifestações sistêmicas exige reclassificar e complementar a dose conforme a nova gravidade.

A dose é a mesma para adulto e criança. Não existe cálculo por peso na soroterapia antiveneno: o alvo é a quantidade de veneno inoculada, e ela não é menor porque o paciente é menor. Ao contrário — em criança, a mesma carga de veneno se distribui em volume corporal menor.

Classificador do acidente botrópico

Marque quantos segmentos têm dor e edema e se há complicação sistêmica. A classificação segue o PCDT do Ministério da Saúde de 2026: a extensão do edema define a faixa, e qualquer complicação sistêmica classifica como grave.

Classificação e dose no acidente botrópico

Segmentos: 1) mão e punho ou pé e tornozelo; 2) antebraço e cotovelo ou perna e joelho; 3) braço ou coxa. Complicações: hemorragia grave (volumosa, em sítio nobre ou com repercussão hemodinâmica), hipotensão ou choque atribuível ao envenenamento, lesão renal aguda (elevação de creatinina, oligúria ou anúria).

Escolha o número de segmentos e se há complicação sistêmica.

Coagulopatia pode estar presente ou ausente em qualquer faixa e não muda a classificação. O tempo de coagulação serve para confirmar o diagnóstico e monitorar a resposta, não para definir a dose. Picada em cabeça e pescoço merece cautela adicional e avaliação em serviço de referência.

Soroterapia por tipo de acidente e gravidade

Selecione o tipo de acidente e a gravidade para obter o soro indicado, o número de frascos-ampola e as observações específicas. Serpentes e escorpiões seguem os PCDT de 2026; aranhas e lagartas seguem o Guia de Vigilância em Saúde de 2024 e o manual do Ministério da Saúde.

Soro e número de ampolas

Serpentes, aracnídeos e lagartas.

Escolha o tipo de acidente e a gravidade.

Ferramenta de apoio baseada nos protocolos do Ministério da Saúde. Diante de dúvida sobre classificação, disponibilidade de soro ou conduta, acione o Disque-Intoxicação, 0800 722 6001, e o hospital de referência da sua região.

Diluição e tempo de infusão

Estima o volume final e o tempo de infusão dos soros antiofídicos, em que cada frasco-ampola contém 10 mL. O diluente ajusta-se à tolerância volêmica do paciente: menos volume na criança pequena, no cardiopata e no nefropata.

Volume total e tempo de infusão

Frascos-ampola de 10 mL; velocidade recomendada de 8 a 12 mL/min.

Escolha o número de frascos-ampola e o volume de diluente.

Mantenha o paciente monitorizado durante todo o período, com adrenalina e material de via aérea imediatamente disponíveis. Reduza o diluente diante de risco de sobrecarga — criança pequena, cardiopata e nefropata. No soro antielapídico, use diluição de 1:2 a 1:5 em relação ao volume do soro (5 FA = 50 mL → 100 a 250 mL de diluente). Antivenenos de aracnídeos vêm em frascos de 5 mL: confira o rótulo.

Rotas de tratamento

Cada rota reúne um grupo de acidentes; o ícone ao lado de cada soro ou fármaco abre o detalhamento com indicação, dose, alvo e cuidados. As doses seguem os protocolos do Ministério da Saúde — confira sempre a disponibilidade e a rotina do seu serviço.

Em 30 segundos

O essencial de complicações

  1. Reação precoce ao soro é tratável: interrompa, dê adrenalina se houver anafilaxia e retome a infusão.
  2. Lesão renal aguda é a complicação sistêmica mais frequente; hidratação desde a admissão é a principal prevenção.
  3. Síndrome compartimental é temida e superdiagnosticada — fasciotomia não é rotina e nunca com coagulopatia não corrigida.
  4. Plasma e plaquetas não corrigem a coagulopatia enquanto houver veneno circulante: o tratamento é o antiveneno.

Reações ao soro

As reações são divididas por tempo de instalação. Os soros brasileiros atuais têm alto grau de purificação, e a frequência de reações graves é baixa — mas nunca zero. Por isso a vigilância acontece durante toda a infusão, e o paciente sai orientado sobre a reação tardia.

Precoces

Durante a infusão ou nas primeiras 2 horas: prurido, urticária, rubor facial, exantema morbiliforme, taquicardia, rinorreia, espirros, tosse, náuseas, cólica abdominal e diarreia. Raramente evoluem para quadro grave, com palidez, dispneia, edema de glote, broncoespasmo, bradicardia, hipotensão e choque.

Tardias

A chamada doença do soro, entre 5 e 24 dias após a aplicação: febre, urticária, erupções cutâneas, artralgia e enfartamento ganglionar. Mais raramente, vasculite e nefrite. Tratamento sintomático, com anti-histamínico e corticoide conforme a intensidade.

  1. Interrompa temporariamente

    A infusão, ao detectar qualquer evento adverso precoce.

  2. NA ANAFILAXIA, ADRENALINA É A PRIORIDADE

    intramuscular; e têm papel secundário.

  3. Expanda e oxigene

    Cristaloide e oxigenação adequada; broncoespasmo persistente responde a beta-2-agonista inalatório.

  4. Retome a soroterapia assim que possível

    Após a remissão do quadro — inclusive depois de eventos graves. O veneno continua agindo.

  5. Reação pirogênica recorrente

    Despreze a solução, prepare uma nova e continue o tratamento.

  6. Registre

    A reação e notifique como evento adverso pós-soro conforme a rotina institucional.

O medo da reação alérgica não justifica não aplicar o soro. A reação é tratável e reversível; o envenenamento não neutralizado não é. Prepare-se para tratar a reação e siga com a soroterapia.

Lesão renal aguda

É a complicação sistêmica mais frequente e a principal causa de óbito tardio nos acidentes ofídicos. Os mecanismos variam: hipoperfusão e microangiopatia no botrópico, rabdomiólise com mioglobinúria no crotálico, e hemólise no loxoscelismo cutâneo-hemolítico. O tratamento segue as diretrizes gerais de lesão renal aguda — não há recomendação específica para a de origem peçonhenta.

  • Hidratação precoce e adequada é a medida preventiva de maior impacto — comece na admissão, não quando a creatinina subir. Alvo prático de diurese: 30 a 40 mL/h no adulto e 1 a 2 mL/kg/h na criança.
  • Monitorize a diurese e o balanço hídrico de forma sistemática, com ureia e creatinina seriadas.
  • Evite anti-inflamatórios não hormonais, contraindicados justamente por esse risco.
  • Corrija distúrbios eletrolíticos, com atenção ao potássio na rabdomiólise.
  • Considere alcalinização urinária nos quadros com mioglobinúria, conforme protocolo institucional.
  • Acione a nefrologia diante de oligúria persistente, hipercalemia refratária ou acidose grave — a terapia de substituição renal pode ser necessária.
Rabdomiólise e potássio
Rabdomiólise e potássio

Na rabdomiólise do acidente crotálico e no envenenamento maciço por abelhas, a liberação de potássio muscular somada à lesão renal pode produzir hipercalemia — e o ECG costuma mostrá-la antes do laboratório.

  • Ondas T altas e apiculadas nas precordiais
  • Base estreita da onda T
  • Ritmo sinusal com QRS ainda estreito

Traçados esquemáticos gerados por computador (25 mm/s, 10 mm/mV) para estudo e comparação. Confirme sempre no ECG de 12 derivações do paciente.

Complicações locais

São mais comuns nos acidentes botrópico e laquético e devem ser procuradas cedo, para reduzir o risco de perda funcional do membro. Monitore os sinais flogísticos — calor, rubor e dor — e a extensão do edema pela contagem de segmentos, ou pela circunferência quando a picada é em tórax ou cabeça.

ComplicaçãoComo reconhecerConduta
Síndrome compartimentalEdema endurecido em todo o membro, dor intensa e persistente desproporcional, parestesia e déficit de perfusão distal.Avaliação cuidadosa — o quadro local do envenenamento já é muito intenso e pode simular. A fasciotomia não é rotina e sua indicação deve ser avaliada por equipe multiprofissional.
NecroseColoração escurecida no local ou região próxima, redução da perfusão, odor fétido e dor intensa persistente.Desbridamento de tecido desvitalizado com indicação individualizada; avaliação de cirurgia plástica nos casos extensos.
Infecção secundáriaDor persistente localizada, rubor, flutuação, secreção purulenta e eventualmente febre.Antibiótico somente na infecção estabelecida, dirigido ao sítio. Profilaxia não é recomendada — estudos com amoxicilina com clavulanato e com cloranfenicol não mostraram benefício.
AbscessoColeção flutuante e dolorosa, geralmente após alguns dias.Drenagem cirúrgica associada a antibioticoterapia dirigida.
BolhasConteúdo seroso ou hemorrágico, que pode conter veneno residual ainda ativo.Aspiração e desbridamento são descritos, mas não são preconizados como rotina por ausência de evidência robusta. Curativo e observação.
Déficit funcionalPerda de mobilidade ou de força após a fase aguda, sobretudo em acidentes botrópicos extensos.Reabilitação precoce com fisioterapia; em casos extremos pode haver necessidade de amputação.

Complicações respiratórias e hemorrágicas

Quando o veneno atinge a junção neuromuscular ou a coagulação, o suporte sistêmico passa a disputar importância com o soro. Duas armadilhas dominam: subestimar a fraqueza respiratória de quem parece bem e tentar corrigir a coagulopatia com hemoderivados antes de neutralizar o veneno.

Insuficiência respiratória

Típica dos acidentes elapídico e crotálico, por paralisia da musculatura respiratória. Garanta ventilação — bolsa-válvula-máscara e, nos casos graves, intubação com ventilação mecânica.

Anticolinesterásico

No acidente elapídico, a pode reverter manifestações neuroparalíticas causadas por veneno de ação pós-sináptica: teste com 0,05 mg/kg na criança ou 0,5 mg no adulto, IV, com resposta em até 10 minutos. Administre antes, para antagonizar os efeitos muscarínicos.

Coagulopatia persistente

Se o tempo de coagulação não normalizar 24 horas após o término da soroterapia no acidente botrópico, administre 2 frascos-ampola adicionais.

Hemoderivados

Transfusão de plasma ou de plaquetas isoladamente não corrige a coagulopatia enquanto houver veneno circulante. O tratamento é o antiveneno; hemoderivados ficam para sangramento ativo com repercussão.

Piora das manifestações sistêmicas depois da soroterapia obriga a reclassificar a gravidade e complementar a dose conforme a nova classificação. Não interprete automaticamente como falha do soro nem como reação alérgica.

Rotas de tratamento

Três situações que aparecem depois da decisão inicial e mudam completamente a condução do caso.

Em 30 segundos

O essencial de cenários especiais

  1. Criança recebe a mesma dose de soro do adulto; gestante e lactante recebem soro normalmente.
  2. Picada seca e serpente sem importância médica não recebem soro — o tempo de coagulação normal sustenta a decisão.
  3. Atendimento tardio não contraindica soro: é justamente o cenário de maior risco.
  4. Falta de soro: aplique o que houver, complete depois e acione a regulação e o CIATox.

Criança, gestante e lactante

Esses grupos parecem evoluir com mais gravidade, mas nenhum deles muda a lógica da soroterapia. Na criança, a mesma quantidade de veneno se distribui em menos massa corporal — e não há relato que justifique dose diferente. Na gestante, o melhor tratamento para o feto é neutralizar o veneno da mãe.

Criança

Menor massa corporal e mesmo volume de veneno inoculado: tende a maior gravidade. No escorpionismo, menores de 9 anos concentram os óbitos. Mesma dose de soro do adulto — não existe cálculo por peso. Atenção à sobrecarga de volume na diluição e observação mais prolongada.

Gestante

Risco de hemorragia uterina, descolamento prematuro de placenta, hipóxia fetal, aborto, prematuridade e óbito fetal. A soroterapia não é contraindicada e deve ser feita normalmente. Informe a equipe, associe avaliação obstétrica e monitorização fetal conforme a idade gestacional.

Lactante

Literatura escassa, mas sem sinal de risco relevante. Não há contraindicação ao soro durante a amamentação. Informe a equipe para avaliação clínica adequada.

Doses pediátricas dos adjuvantes

O soro não se calcula por peso, mas os medicamentos de suporte sim. A calculadora abaixo reúne as doses pediátricas descritas pelo Ministério da Saúde para os adjuvantes mais usados nesses acidentes, sempre limitadas à dose do adulto.

Adjuvantes por peso

Digite o peso da criança.

Prednisona (loxoscelismo)1 mg/kg/dia por 5 dias
—
Neostigmina (teste, elapídico)0,05 mg/kg IV, após atropina
—
Atropina (antes da neostigmina)0,05 mg/kg IV
—
Adrenalina (anafilaxia)0,01 mg/kg IM (1 mg/mL)
—
Dipirona10 mg/kg a cada 6 h
—
Meperidina (foneutrismo refratário)1 mg/kg IM
—

Doses do Manual de Diagnóstico e Tratamento e do Guia de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde. Confira apresentação e protocolo do serviço.

Paciente etilizado e picada seca

Duas situações em que o risco é errar a indicação do soro: no etilizado, por confundir intoxicação com neuroparalisia; na picada seca, por tratar quem não foi envenenado. Em ambas, a resposta é observar e reavaliar com critério antes de decidir.

Paciente etilizado

As manifestações do álcool podem imitar o quadro neurológico dos acidentes crotálico e elapídico, dificultando a classificação. Infusão de soro glicosado ajuda a regredir os efeitos do álcool e permite reavaliar as manifestações do envenenamento.

Picada seca

Parcela relevante das picadas por serpente de importância médica não inocula veneno suficiente para causar manifestações. Sem sintomas, não indique soro. Observe por no mínimo 6 horas em regiões de predomínio botrópico, com reavaliação clínica e do tempo de coagulação.

Serpente sem importância médica e atendimento tardio

Philodryas, Xenodon, Helicops e Clelia causam dor, edema e às vezes equimose — sem alterar a coagulação. Cuidados gerais, analgesia e observação bastam, e não há indicação de soro: o tempo de coagulação normal ajuda a sustentar a decisão.

Chegada após 24, 48 ou mais horas

Situação comum em áreas rurais e ribeirinhas. A soroterapia ainda é indicada quando há manifestações clínicas ou alterações de coagulação. Atraso não é contraindicação — é justamente o cenário de maior risco de complicação.

Falta de soro, sobreposição geográfica e cascavel de Roraima

Fora dos centros de referência, a realidade raramente é a do protocolo: falta o soro específico, a região abriga mais de um gênero ou a serpente tem comportamento clínico próprio. Nesses cenários, o soro combinado e o contato precoce com a regulação e o CIATox — que o Ministério recomenda como segunda opinião na prescrição do soro — fazem a diferença.

Falta de soro na unidade

Administre o estoque disponível no momento e complete depois; acione a regulação e o hospital de referência simultaneamente. Considere o soro combinado disponível quando o específico faltar.

Área de sobreposição geográfica

Regiões onde Bothrops e Lachesis coexistem, com quadros locais quase idênticos. Use o , que cobre os dois. A manifestação vagal é o achado que aponta o acidente laquético.

Crotalus durissus ruruima

Subespécie de Roraima, com quadro que inclui edema, dor local, sangramento e incoagulabilidade — parecido com o botrópico. Evidências incipientes sugerem melhor resposta hemorrágica ao . Avalie caso a caso, com cautela e apoio especializado.

Erros comuns

Quase todos os erros abaixo têm a mesma raiz: tratar o acidente peçonhento como uma intoxicação qualquer, em que se espera o diagnóstico, se ajusta a dose ao peso e se age por precaução. Aqui é o contrário — age-se cedo, com dose fixa, e muitas precauções antigas fazem mal.

  • Esperar a identificação do animal para iniciar a soroterapia.
  • Fazer torniquete, garrote ou incisão no local da picada.
  • Sugar o veneno, cauterizar ou aplicar substâncias caseiras sobre a ferida.
  • Calcular a dose do soro por peso e subdosar a criança.
  • Fracionar a dose de soro ao longo de horas em vez de aplicá-la de uma vez.
  • Fazer teste de sensibilidade cutânea antes do soro, prática abolida por baixa sensibilidade e atraso do tratamento.
  • Fazer pré-medicação de rotina com corticoide e anti-histamínico, sem benefício demonstrado.
  • Usar o tempo de coagulação para classificar a gravidade do acidente botrópico.
  • Prescrever anti-inflamatório não hormonal para a dor, aumentando o risco de lesão renal aguda.
  • Prescrever antibiótico profilático em todo acidente ofídico.
  • Aplicar medicação por via intramuscular em paciente com coagulopatia.
  • Fazer bloqueio anestésico no local da picada em acidente ofídico.
  • Puncionar acesso venoso no próprio membro acometido.
  • Interromper definitivamente a soroterapia após uma reação precoce, em vez de tratar e retomar.
  • Transfundir plasma ou plaquetas para corrigir a coagulopatia sem antes neutralizar o veneno.
  • Dar alta antes de 24 horas em paciente que recebeu soro.
  • Não reavaliar o tempo de coagulação 24 horas após o término da soroterapia botrópica.
  • Aplicar o soro antilatrodéctico por via intravenosa — é o único antiveneno de uso intramuscular.
  • Deixar de notificar o caso quando não houve uso de soro.

Resumo do fluxo

O atendimento inteiro cabe em dez passos, do primeiro contato à orientação de alta. Use-os como checklist no plantão: a maior parte das complicações graves nasce de um passo esquecido, não de uma decisão difícil.

  1. Primeiros socorros

    Lave o local, eleve e estenda o membro, retire anéis e acessórios, e nunca faça torniquete ou incisão.

  2. Acesso e hidratação

    Puncione acesso venoso em membro diferente do acometido e inicie hidratação.

  3. CLASSIFIQUE A GRAVIDADE

    Pela clínica, e administre o soro específico na dose correspondente, sem esperar exames.

  4. Infunda com segurança

    Dilua em salina ou glicose a 5%, infunda a 8 a 12 mL por minuto e mantenha adrenalina e via aérea disponíveis.

  5. Trate a dor

    Com dipirona ou paracetamol, e evite anti-inflamatórios não hormonais.

  6. Colha exames

    Tempo de coagulação, hemograma, ureia, creatinina e, no crotálico, creatinoquinase e urina.

  7. Antitetânica e antibiótico

    Atualize a profilaxia antitetânica e reserve antibiótico apenas para infecção estabelecida.

  8. Monitorize ≥ 24 h

    Diurese, coagulação, força muscular e sinais de complicação local por pelo menos 24 horas.

  9. Reclassifique se piorar

    Complemente a dose se houver piora sistêmica; repita 2 ampolas se a coagulação não normalizar em 24 horas no botrópico.

  10. Notifique e oriente

    Notifique o caso e programe seguimento, incluindo orientação sobre a doença do soro entre 5 e 24 dias.

Classificar pela clínica, aplicar a dose inteira cedo e vigiar o rim: é isso que separa o acidente que passa do acidente que mata.

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Aviso importante

Ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. Doses, diluições e velocidades de infusão devem ser conferidas antes da administração. Acidentes por animais peçonhentos são de notificação compulsória. Em caso de acidente, acione o Centro de Informação e Assistência Toxicológica de referência pelo Disque-Intoxicação, 0800 722 6001. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.

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