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SDRA — Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo

SARA • Acute Respiratory Distress Syndrome (ARDS) • ventilação protetora

O pulmão da SDRA não é rígido por inteiro: é um baby lung pequeno e complacente cercado de tecido colapsado. Ventilá-lo como se fosse um pulmão normal é o que mata. Quase tudo que reduziu mortalidade nesta síndrome — volume corrente baixo, posição prona, menos pressão de distensão — funciona fazendo menos, e não fazendo mais.

6 mL/kg de peso preditoPlatô ≤ 30, driving ≤ 15Prona ≥ 16 hECMO em centro de referência
24 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. SDRA é uma síndrome inflamatória de aumento da permeabilidade alvéolo-capilar, com hipoxemia por shunt, queda da complacência e aumento do espaço morto.
  2. O pulmão funcional é pequeno (o baby lung): é ele que recebe todo o volume corrente e é ele que o ventilador lesa.
  3. Nenhuma terapia trata a SDRA em si — reduz mortalidade tratar a causa e não lesar mais o pulmão enquanto ele se recupera.
  4. A síndrome é frequente e subdiagnosticada: no LUNG SAFE, cerca de 40% dos casos não foram reconhecidos.

O que é SDRA

A síndrome do desconforto respiratório agudo é uma resposta inflamatória pulmonar difusa, desencadeada por um insulto direto ou indireto, que resulta em aumento da permeabilidade da barreira alvéolo-capilar. O alvéolo se enche de líquido rico em proteína, o surfactante é inativado e o pulmão colapsa em áreas dependentes.

A consequência funcional é hipoxemia grave por shunt intrapulmonar, queda acentuada da complacência e aumento do espaço morto. Não é um diagnóstico etiológico: é uma síndrome, e por trás dela sempre existe uma causa que precisa ser tratada.

Nenhuma terapia trata a SDRA em si. O que reduz mortalidade é tratar a causa e não lesar mais o pulmão enquanto ele se recupera. Toda a ventilação protetora existe para isso.

O conceito do baby lung

É a ideia que organiza todo o tratamento. Na tomografia, o pulmão da SDRA não é uniformemente rígido: ele tem três compartimentos. Se você entrega 500 mL a um pulmão funcionalmente do tamanho de 1,5 litro, está aplicando um volume corrente relativo enorme sobre a área sadia — e é justamente ela que sofre a lesão induzida pelo ventilador.

  • Área aerada e complacente — pequena, frequentemente equivalente ao pulmão de uma criança. É ela que recebe todo o volume corrente.
  • Área recrutável — colapsada, mas passível de reabertura com pressão adequada. É o alvo racional da PEEP.
  • Área consolidada — não recrutável em nenhuma pressão. Insistir nela só transfere pressão para o resto.

Os quatro mecanismos de lesão pelo ventilador

O ventilador salva o paciente e, ao mesmo tempo, pode lesar o pulmão por quatro caminhos que se somam. Cada meta da ventilação protetora existe para bloquear um deles: o volume corrente baixo contra o volutrauma, o limite de platô contra o barotrauma, a PEEP contra o atelectrauma — e todos juntos contra o biotrauma.

Volutrauma

Distensão excessiva do baby lung por volume corrente alto. É o mecanismo dominante.

Barotrauma

Pressão transpulmonar elevada, com risco de pneumotórax e pneumomediastino.

Atelectrauma

Abertura e fechamento cíclicos de alvéolos instáveis, gerando forças de cisalhamento. É o que a PEEP evita.

Biotrauma

A lesão mecânica libera mediadores inflamatórios que atingem a circulação sistêmica e contribuem para disfunção de múltiplos órgãos.

Por que isso importa na prática

Pacientes com SDRA raramente morrem de hipoxemia refratária. Morrem de disfunção de múltiplos órgãos — e a ventilação inadequada é uma das fontes dessa disfunção. Proteger o pulmão é proteger o resto do organismo.

As três fases histológicas

A SDRA evolui em fases que se sobrepõem, e reconhecer em qual delas o paciente está muda a expectativa e algumas decisões. A janela em que as intervenções têm mais impacto é a primeira semana; depois de duas a três semanas, parte dos pacientes entra em remodelamento fibrótico.

  1. Exsudativa — 0 a 7 dias

    Dano alveolar difuso, membranas hialinas, edema rico em proteína e influxo de neutrófilos. É a fase de maior hipoxemia e de maior queda da complacência — e a janela em que a ventilação protetora, a prona e o bloqueio neuromuscular têm maior impacto.

  2. Proliferativa — 7 a 21 dias

    Proliferação de pneumócitos tipo II, organização do exsudato e início do reparo. A maioria dos pacientes começa a melhorar aqui; o espaço morto costuma aumentar antes de a complacência melhorar.

  3. Fibrótica — após 2 a 3 semanas

    Deposição de colágeno, remodelamento e formação de cistos. Nem todos chegam a esta fase. Associa-se a ventilação mecânica prolongada, dependência de oxigênio e sequela funcional persistente.

A fase importa para o corticoide: as diretrizes recomendam iniciar dentro dos primeiros 14 dias. Começar corticoide muito tarde, na fase fibrótica estabelecida, associa-se a piores desfechos.

Números que importam

Os dados epidemiológicos mais citados vêm do LUNG SAFE, estudo observacional em 50 países. Eles mostram uma síndrome comum, letal e, sobretudo, pouco reconhecida e tratada abaixo do padrão.

Frequência

Cerca de 10% das admissões em terapia intensiva e aproximadamente 23% dos pacientes ventilados no LUNG SAFE.

Mortalidade

Aproximadamente 35% na leve, 40% na moderada e 46% na grave, conforme a definição de Berlim.

Subdiagnóstico

No LUNG SAFE, cerca de 40% dos casos não foram reconhecidos pela equipe assistente.

Subtratamento

Boa parte dos pacientes recebia volume corrente acima de 8 mL/kg de peso predito, e a prona era pouco utilizada.

Sequelas

Fraqueza adquirida, comprometimento cognitivo e sintomas psiquiátricos são frequentes um ano após a alta.

O dado mais acionável não é a mortalidade: é o subdiagnóstico. Reconhecer a síndrome é o passo que desbloqueia todas as intervenções que efetivamente funcionam.

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O essencial de diagnóstico

  1. Quatro critérios: tempo (≤ 7 dias), imagem bilateral, edema não explicado integralmente por causa cardíaca e hipoxemia.
  2. Intubado: P/F ≤ 300 com PEEP ≥ 5; a definição global aceita S/F ≤ 315 (com SpO₂ ≤ 97%), alto fluxo ≥ 30 L/min e ultrassom pulmonar.
  3. Gravidade (só no intubado): leve P/F 201–300 (S/F 236–315), moderada 101–200 (S/F 149–235), grave ≤ 100 (S/F ≤ 148).
  4. A pergunta central do diferencial é sempre a mesma: este edema é inflamatório ou hidrostático?

Critérios diagnósticos

A definição de Berlim, de 2012, segue sendo a referência mais conhecida. A Nova Definição Global, publicada em 2023 e 2024, mantém os quatro pilares e amplia os critérios para incorporar oxigênio nasal de alto fluxo, oximetria de pulso, ultrassom pulmonar e cenários de recursos limitados — reconhecendo a síndrome antes da intubação e onde não há gasometria.

Berlim 2012 — os quatro critérios clássicos

  • Tempo: início em até 7 dias de um insulto conhecido ou de piora dos sintomas respiratórios.
  • Imagem: opacidades bilaterais na radiografia ou na tomografia, não explicadas totalmente por derrame, atelectasia ou nódulos.
  • Origem do edema: insuficiência respiratória não explicada integralmente por insuficiência cardíaca ou hipervolemia; ecocardiograma pode ser necessário para afastar.
  • Oxigenação: PaO₂/FiO₂ ≤ 300 mmHg, com PEEP ou CPAP de pelo menos 5 cmH₂O.

Definição global — o que acrescenta

  • Não intubados: inclui pacientes em oxigênio nasal de alto fluxo com fluxo de pelo menos 30 L/min, além de ventilação não invasiva e CPAP com pelo menos 5 cmH₂O.
  • Oximetria: aceita SpO₂/FiO₂ ≤ 315 como critério de hipoxemia, desde que a SpO₂ seja ≤ 97%, sem alteração de hemoglobina e com boa perfusão periférica.
  • Ultrassom: reconhece o ultrassom pulmonar como modalidade de imagem válida para identificar as opacidades bilaterais.
  • Recursos limitados: dispensa PEEP mínima, fluxo de oxigênio e dispositivo específico — incorporando o espírito da definição de Kigali.

A relação SpO₂/FiO₂ perde confiabilidade quando a saturação está acima de 97%, porque a curva de dissociação da hemoglobina achata e pequenas variações de SpO₂ correspondem a grandes variações de PaO₂. Use apenas com SpO₂ ≤ 97%.

Gravidade e o que muda em cada faixa

No paciente intubado, a gravidade é dada pela PaO₂/FiO₂ ou, na definição global, pelos equivalentes de SpO₂/FiO₂: 315 corresponde aproximadamente a P/F de 300, 235 a 200 e 148 a 100. Na SDRA não intubada (alto fluxo, VNI ou CPAP), a definição global não estratifica gravidade: o diagnóstico é feito, mas a classificação fica reservada a quem está em ventilação invasiva.

A classificação pressupõe PEEP de pelo menos 5 cmH₂O e varia com a PEEP e a FiO₂. A medida feita logo após otimizar a PEEP prediz melhor o desfecho do que a colhida na admissão — parte dos casos leves é reclassificada depois da estabilização ventilatória.

Gravidade (intubado)PaO₂/FiO₂SpO₂/FiO₂ (SpO₂ ≤ 97%)Próxima ação
Sem critério de oxigenação> 300> 315Não há critério de oxigenação para SDRA; reavalie se houver piora. Tempo, imagem e origem do edema também precisam ser preenchidos.
Leve201 a 300236 a 315Ventilação protetora completa (4–8 mL/kg de peso predito, platô < 30, driving ≤ 15), PEEP titulada, tratar a causa e balanço hídrico conservador após a estabilização. Reavaliar a relação após otimizar a ventilação.
Moderada101 a 200149 a 235Manter a proteção e considerar PEEP mais alta. Abaixo de 150 (S/F ≈ 190): prona por 16 h ou mais. Avaliar bloqueio neuromuscular na fase precoce e corticoide dentro de 14 dias.
Grave≤ 100≤ 148Prona precoce e prolongada, PEEP otimizada, bloqueio na fase precoce, corticoide se dentro de 14 dias; verificar driving pressure e potência mecânica. Acionar cedo o centro de ECMO e checar os critérios do EOLIA.

Equivalências de S/F segundo a Nova Definição Global (Matthay et al., 2024). Com SpO₂ acima de 97%, reduza a FiO₂ até a SpO₂ ficar em 97% ou menos e recalcule, ou colha gasometria arterial.

Calculadora — oxigenação e gravidade

Informe a gasometria ou a oximetria e a fração inspirada de oxigênio. A ferramenta calcula a PaO₂/FiO₂, a SpO₂/FiO₂ e — no paciente em alto fluxo — o índice ROX; leia o resultado na tabela de gravidade acima para saber quais intervenções passam a ser recomendadas naquela faixa.

PaO₂/FiO₂ • SpO₂/FiO₂ • índice ROX

No ventilador ou na cânula de alto fluxo, informe a FiO₂ exata. A relação S/F só é válida com SpO₂ ≤ 97%. O índice ROX = (SpO₂/FiO₂) ÷ frequência respiratória ajuda a prever falha do alto fluxo no paciente ainda não intubado.

PaO₂/FiO₂—
SpO₂/FiO₂—
Índice ROX—
Leitura rápida—

A classificação de Berlim pressupõe PEEP de pelo menos 5 cmH₂O. A relação P/F varia com a PEEP e com a FiO₂ e deve ser reavaliada após a estabilização ventilatória.

O diferencial que mais importa

A pergunta central do diagnóstico é sempre a mesma: este edema é inflamatório ou hidrostático? Errar aqui leva a tratar SDRA com diurético e congestão cardíaca com PEEP alta. Nenhum achado isolado decide — a combinação de história, imagem, ecocardiograma e resposta ao tratamento é que fecha a questão.

AchadoFavorece SDRAFavorece edema cardiogênico
HistóriaSepse, pneumonia, aspiração, trauma, pancreatite, transfusão.Cardiopatia conhecida, dor torácica, arritmia, má adesão a diurético.
Distribuição na imagemOpacidades periféricas, heterogêneas e gravidade-dependentes.Distribuição central, em asa de borboleta, com linhas B de Kerley.
Área cardíaca e derramesÁrea cardíaca normal; derrames pequenos.Cardiomegalia, derrames volumosos e congestão hilar.
EcocardiogramaFunção ventricular preservada, sem elevação de pressões de enchimento.Disfunção sistólica ou diastólica, pressões de enchimento elevadas.
Ultrassom pulmonarLinhas B heterogêneas, com áreas poupadas, pleura irregular e consolidações subpleurais.Linhas B homogêneas e bilaterais, pleura lisa, com derrame associado.
Peptídeo natriuréticoValores baixos apoiam SDRA, mas não excluem sobreposição.Valores muito elevados apoiam origem cardíaca.
Resposta ao diuréticoMelhora limitada, sobretudo da oxigenação.Melhora clínica e radiológica rápida.

As duas condições coexistem com frequência. A definição atual não exige ausência de causa cardíaca: exige que o quadro não seja explicado integralmente por ela. Paciente cardiopata com sepse pode ter, e frequentemente tem, as duas coisas.

Outros diagnósticos a considerar

Algumas doenças preenchem os critérios de SDRA, mas têm tratamento próprio — e às vezes respondem de forma dramática a uma intervenção específica. Desconfie quando a evolução é subaguda, quando não há insulto clássico ou quando o paciente não melhora como esperado.

Hemorragia alveolar difusa

Queda de hemoglobina, hemoptise (que pode faltar) e lavado broncoalveolar progressivamente hemorrágico. Considerar vasculites e síndromes pulmão-rim.

Pneumonia em organização e pneumonite intersticial aguda

Evolução subaguda, padrão tomográfico característico e resposta a corticoide. Frequentemente exigem biópsia ou avaliação especializada.

Pneumonite por fármaco

Amiodarona, bleomicina, nitrofurantoína, metotrexato e inibidores de checkpoint imunológico. Revisar toda a prescrição e o histórico oncológico.

Pneumonia eosinofílica aguda

Eosinofilia no lavado broncoalveolar, história de tabagismo recente e resposta rápida e marcante ao corticoide.

TRALI

Lesão pulmonar relacionada à transfusão, com início em até 6 horas do hemocomponente. É uma causa de SDRA e não um diferencial excludente.

Edema pulmonar de altitude e neurogênico

O contexto clínico define: exposição a grande altitude ou lesão neurológica aguda grave, como hemorragia subaracnóidea.

Considere lavado broncoalveolar quando a causa não é evidente: ele diferencia hemorragia alveolar, pneumonia eosinofílica e infecções oportunistas, e pode mudar completamente a conduta.

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O essencial de causas e fenótipos

  1. Pneumonia e sepse respondem pela maior parte dos casos; tratar a causa é parte do tratamento da SDRA.
  2. Causas diretas (pulmonares) tendem a gerar consolidação focal e menos recrutável; indiretas, edema difuso e mais recrutável.
  3. Os fenótipos hipo e hiperinflamatório ainda são ferramenta de pesquisa e não guiam decisões individuais.
  4. O fenótipo útil à beira do leito é a recrutabilidade: suba a PEEP e veja se a driving pressure cai ou sobe.

Causas diretas e indiretas

A distinção entre insulto pulmonar e extrapulmonar não muda os alvos de ventilação protetora, mas ajuda a antecipar o comportamento mecânico do pulmão e, sobretudo, a não esquecer de tratar a causa. Colher culturas e iniciar antimicrobiano precoce é parte do tratamento da SDRA, não algo à parte.

TipoCausasComportamento típico
Direta (pulmonar)Pneumonia bacteriana e viral, aspiração de conteúdo gástrico, contusão pulmonar, quase afogamento, inalação de fumaça e de gases tóxicos, embolia gordurosa.Consolidação mais focal e assimétrica, com menor recrutabilidade e complacência da parede torácica preservada. Costuma responder menos à PEEP alta.
Indireta (extrapulmonar)Sepse de foco não pulmonar, pancreatite aguda grave, politrauma, transfusão maciça e TRALI, grande queimado, circulação extracorpórea, overdose.Edema mais difuso e homogêneo, com maior recrutabilidade e frequente aumento da pressão intra-abdominal. Costuma responder melhor à PEEP e à prona.
Causa mais frequentePneumonia e sepse respondem pela maior parte dos casos em qualquer série.Colher culturas e iniciar antimicrobiano precoce é parte do tratamento da SDRA.

Diante de SDRA sem causa evidente, procure ativamente: foco infeccioso oculto, pancreatite, transfusão recente, fármaco novo, exposição inalatória, aspiração não presenciada e doença autoimune. SDRA sem causa identificada é diagnóstico incompleto.

Fenótipos inflamatórios

Análises de agrupamento de grandes ensaios identificaram, de forma reprodutível, dois fenótipos biológicos com prognóstico e resposta ao tratamento distintos. É a base do movimento em direção à medicina de precisão na SDRA — e ajuda a explicar por que tantos ensaios terminaram neutros.

Fenótipo 1 — hipoinflamatório

Cerca de dois terços dos pacientes. Marcadores inflamatórios menos elevados, menor incidência de choque e de disfunção orgânica, com mortalidade menor. Nas reanálises, pareceu se beneficiar de estratégias com PEEP mais baixa e de manejo hídrico conservador.

Fenótipo 2 — hiperinflamatório

Cerca de um terço dos pacientes. Interleucina-6 e receptor solúvel de fator de necrose tumoral elevados, acidose, choque com vasopressor e mortalidade substancialmente maior. Nas reanálises, pareceu responder melhor a PEEP mais alta e mostrou sinal favorável com estratégias anti-inflamatórias.

Os fenótipos ainda são ferramenta de pesquisa: dependem de biomarcadores não disponíveis à beira do leito e não devem, hoje, guiar decisões individuais. Servem para entender por que ensaios com resultado neutro podem esconder subgrupos com benefício real.

Recrutabilidade — o fenótipo que importa hoje

Muito mais útil na prática diária do que o fenótipo inflamatório. A pergunta é simples: este pulmão abre com pressão, ou só se distende? A resposta define se vale subir a PEEP ou se ela só vai hiperdistender o baby lung e deprimir o ventrículo direito.

Sugerem alta recrutabilidade

  • SDRA de causa extrapulmonar, com edema difuso e homogêneo.
  • Melhora da oxigenação e da complacência ao aumentar a PEEP.
  • Queda da relação entre espaço morto e volume corrente com o aumento da PEEP.
  • Grande proporção de área colapsada gravidade-dependente na tomografia.
  • Boa resposta à posição prona.

Sugerem baixa recrutabilidade

  • SDRA de causa pulmonar, com consolidação focal e assimétrica.
  • PEEP alta que melhora a oxigenação mas piora a complacência — sinal de hiperdistensão, não de recrutamento.
  • Aumento da driving pressure ao subir a PEEP.
  • Queda da pressão arterial e do débito cardíaco com PEEP elevada.
  • Fase fibrótica tardia.

O teste prático de recrutabilidade é gratuito: suba a PEEP em 2 a 4 cmH₂O e observe a complacência estática e a driving pressure. Se a driving pressure cai, você recrutou. Se sobe, você hiperdistendeu — volte.

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O essencial de ventilação protetora

  1. Volume corrente de 6 mL/kg de peso predito (faixa 4–8), calculado pela altura medida e pelo sexo — nunca pela balança.
  2. Platô ≤ 30 cmH₂O e driving pressure ≤ 15 cmH₂O, medidos em pausa com o paciente passivo.
  3. PEEP pela tabela do ARDSNet ou pela menor driving pressure; PEEP mais alta nos casos graves e recrutáveis.
  4. SpO₂ 88–95% (PaO₂ 55–80 mmHg) e hipercapnia permissiva com pH ≥ 7,20.

As metas que reduzem mortalidade

A ventilação protetora é a única intervenção com benefício de mortalidade demonstrado em ensaio clínico de grande porte para a SDRA em geral. Tudo o mais é adjuvante ou de resgate. No ARMA, do ARDS Network, 6 mL/kg reduziu a mortalidade em comparação a 12 mL/kg — um dos maiores efeitos já demonstrados em terapia intensiva.

4–8 mL/kgVolume corrente de peso predito, alvo inicial 6 mL/kg
≤ 30 cmH₂OPlatô, em pausa inspiratória de 0,5 a 2 s
≤ 15 cmH₂ODriving pressure (platô − PEEP): a variável que melhor prediz mortalidade
pH ≥ 7,20Hipercapnia permissiva aceitável para proteger o pulmão
88–95%SpO₂ alvo (PaO₂ 55–80 mmHg); hiperóxia não traz benefício
< 17 J/minPotência mecânica — alvo exploratório, sem validação prospectiva

O volume corrente é calculado sobre o peso predito, derivado da altura e do sexo — nunca sobre o peso real. Usar o peso da balança em um paciente obeso pode significar entregar o dobro do volume corrente adequado.

Calculadora — peso predito e volume corrente

O peso predito depende apenas de altura e sexo: homens 50 + 0,91 × (altura em cm − 152,4); mulheres 45,5 + 0,91 × (altura em cm − 152,4). Calcule-o (ou leia na tabela abaixo) e informe-o na calculadora para obter a faixa completa de volume corrente. Reduza em direção a 4 mL/kg se o platô ultrapassar 30 cmH₂O ou a driving pressure ultrapassar 15 cmH₂O.

A 6 mL/kg com frequência de 25 irpm, o volume minuto fica em torno de 6 L/min num adulto de 70 kg de peso predito. Ajuste a frequência (até 35 irpm) pelo pH, vigiando auto-PEEP na curva de fluxo expiratório. A conta completa, com altura e sexo, está na calculadora Volume Corrente e Peso Predito.

Volume corrente pelo peso predito

No campo "Peso", digite o peso predito (não o peso real).

Volume corrente inicial6 mL/kg de peso predito
—
Limite inferior4 mL/kg — se platô > 30 ou driving > 15
—
Limite superior8 mL/kg — teto da faixa protetora
—

Meça a altura de verdade — a estimativa visual erra com frequência e, na SDRA, esse erro se traduz diretamente em volume corrente inadequado.

AlturaPeso predito — homemVC 6 mL/kg — homemPeso predito — mulherVC 6 mL/kg — mulher
150 cm47,8 kg287 mL43,3 kg260 mL
155 cm52,4 kg314 mL47,9 kg287 mL
160 cm56,9 kg341 mL52,4 kg314 mL
165 cm61,5 kg369 mL57,0 kg342 mL
170 cm66,0 kg396 mL61,5 kg369 mL
175 cm70,6 kg423 mL66,1 kg396 mL
180 cm75,1 kg451 mL70,6 kg424 mL
185 cm79,7 kg478 mL75,2 kg451 mL
190 cm84,2 kg505 mL79,7 kg478 mL

Exemplo: homem de 175 cm → 50 + 0,91 × (175 − 152,4) = 70,6 kg; VC de 6 mL/kg ≈ 423 mL, faixa protetora de 282 a 565 mL.

Tabelas PEEP/FiO₂ do ARDSNet

São o método mais usado e mais reprodutível de titulação. A tabela de baixa PEEP foi a do estudo original de volume corrente baixo e é razoável na SDRA leve e no pulmão pouco recrutável; a de alta PEEP é a sugerida pela American Thoracic Society de 2024 na SDRA moderada a grave, sem manobras de recrutamento associadas. As diretrizes divergem, e a estratégia mais aceita é usar PEEP mais alta nos casos mais graves e recrutáveis.

FiO₂PEEP — tabela baixaPEEP — tabela alta
0,3055 a 14
0,405 a 814 a 16
0,508 a 1016 a 20
0,601020
0,7010 a 1420
0,801420 a 22
0,9014 a 1822
1,0018 a 2422 a 24

Valores em cmH₂O. Estas tabelas titulam a PEEP pela oxigenação; a titulação pela menor driving pressure é uma alternativa fisiologicamente mais racional e cada vez mais usada à beira do leito.

Como decidir entre as duas

Suba a PEEP em 2 a 4 cmH₂O e meça a driving pressure: se ela cai, houve recrutamento e a PEEP mais alta é adequada; se sobe, houve hiperdistensão e você deve voltar. Avalie também a repercussão hemodinâmica, sobretudo em pacientes com disfunção de ventrículo direito. Com FiO₂ de 80% ou mais, reavalie prona, PEEP, recrutabilidade e terapias de resgate.

Como montar o ventilador na prática

A sequência abaixo transforma as metas em ajustes concretos. O ponto de partida é sempre o mesmo número — o peso predito —, e a partir dele tudo é titulado pelo que se mede: platô, driving pressure, pH e oxigenação. Reavalie ao menos a cada 4 a 6 horas.

  1. Meça a altura e calcule o peso predito

    Anote no prontuário e no ventilador. Todo o resto depende desse número.

  2. Escolha o modo

    Controlado a volume ou a pressão; não há superioridade demonstrada de um sobre o outro. O que importa é o volume entregue e a pressão gerada.

  3. Volume corrente de 6 mL/kg de peso predito

    Ponto de partida, ajustável entre 4 e 8 conforme platô, driving pressure e pH.

  4. Frequência respiratória

    20 a 35 por minuto para compensar o volume minuto, vigiando auto-PEEP com a curva de fluxo expiratório.

  5. PEEP inicial

    Pela tabela correspondente à FiO₂, com alvo de SpO₂ entre 88% e 95%.

  6. Meça platô e driving pressure

    Pausa inspiratória com o paciente passivo. Platô acima de 30 ou driving acima de 15 exigem reduzir o volume corrente.

  7. Teste a recrutabilidade

    Varie a PEEP em 2 a 4 cmH₂O e observe a driving pressure: se cai, mantenha; se sobe, volte.

  8. Reduza a FiO₂ assim que possível

    Hiperóxia não traz benefício e pode ser deletéria.

  9. Reavalie

    Ao menos a cada 4 a 6 horas e após qualquer mudança clínica, de posição ou de sedação.

Se ao reduzir o volume corrente para 6 mL/kg o paciente ficar taquipneico e assincrônico, o caminho é otimizar sedação e analgesia — e, na SDRA moderada a grave precoce, considerar bloqueio neuromuscular. Não é motivo para voltar a volumes altos.

Alvo de oxigenação: nem hiperóxia, nem economia extrema

O alvo de SpO₂ de 88% a 95% (PaO₂ de 55 a 80 mmHg) vem dos protocolos do ARDSNet e continua sendo o padrão. Perseguir 100% não traz benefício e mantém FiO₂ alta sem necessidade. No sentido oposto, apertar ainda mais o alvo também não ajudou: no UK-ROX (2025), com mais de 16 mil adultos ventilados, a estratégia conservadora (SpO₂ alvo em torno de 90%, 88–92%) não reduziu a mortalidade em 90 dias em comparação ao cuidado habitual.

Na prática: reduza a FiO₂ até a menor fração que mantém a SpO₂ dentro de 88–95%, sem tentar "economizar" oxigênio abaixo dessa faixa. Gestantes e pacientes com hipertensão intracraniana ou isquemia miocárdica têm alvos próprios (veja Cenários especiais).

Em 30 segundos

O essencial de mecânica

  1. Platô e driving pressure só valem com o paciente passivo e somando a auto-PEEP à PEEP programada.
  2. Pico alto com platô normal é problema de resistência (tubo, secreção, broncoespasmo), não de parênquima.
  3. Complacência estática = volume corrente ÷ driving pressure; abaixo de 30 mL/cmH₂O indica doença grave.
  4. Hipercapnia permissiva é aceitável (pH ≥ 7,20), exceto em hipertensão intracraniana; esforço vigoroso do paciente também lesa (P-SILI).

As pressões que você precisa medir

Monitorar SDRA sem medir platô e driving pressure é como tratar hipertensão sem aferir a pressão. As medidas exigem apenas uma pausa inspiratória, uma pausa expiratória e um paciente passivo — e informam, em minutos, se o ventilador está protegendo ou lesando o pulmão.

VariávelComo se obtémO que significa
Pressão de picoLeitura direta no ventilador durante a inspiração.Reflete resistência das vias aéreas mais complacência. Isoladamente, informa pouco sobre lesão pulmonar.
Pressão de platôPausa inspiratória de 0,5 a 2 segundos, com o paciente passivo.Pressão alveolar no fim da inspiração. Alvo ≤ 30 cmH₂O. Pico alto com platô normal aponta para resistência, não para o pulmão.
Driving pressurePlatô menos PEEP total (inclua a auto-PEEP quando presente).Volume corrente normalizado pela complacência. Alvo ≤ 15 cmH₂O. É a variável ventilatória que melhor se associa a mortalidade.
Complacência estáticaVolume corrente dividido pela driving pressure.Reflete o tamanho funcional do baby lung. Valores abaixo de 30 mL/cmH₂O indicam doença grave.
Auto-PEEPPausa expiratória, com o paciente passivo.PEEP oculta que se soma à programada. Ignorá-la superestima a driving pressure real e mascara hiperinsuflação.
Potência mecânicaCalculada a partir de volume, frequência, pico e driving pressure.Energia total entregue ao pulmão por minuto. Integra volume, pressão e frequência em um número só. Alvo exploratório abaixo de 17 J/min.
Pressão transpulmonarRequer cateter de balão esofágico.Separa o que é pressão do pulmão do que é pressão da parede torácica. Útil em obesidade e hipertensão intra-abdominal.

Platô e driving pressure só são válidos com o paciente passivo. Esforço inspiratório durante a pausa falseia a medida — em geral para menos, criando falsa sensação de segurança.

Calculadora — mecânica ventilatória

Com os parâmetros medidos no paciente passivo, faça as contas: driving pressure = platô − PEEP total; complacência estática = volume corrente ÷ driving pressure; potência mecânica (equação simplificada de Gattinoni, volume controlado com fluxo constante) = 0,098 × FR × VC (L) × [pico − (driving pressure ÷ 2)]. Depois, selecione as faixas abaixo para a leitura interpretativa.

Leitura da driving pressure e da complacência

Exemplo: VC 420 mL, platô 26, PEEP total 12, pico 32, FR 24 → driving 14 cmH₂O, complacência 30 mL/cmH₂O, potência ≈ 25 J/min.

Selecione a faixa da driving pressure e da complacência.

A potência mecânica é uma ferramenta de pesquisa promissora, com limiar de dano ainda não validado prospectivamente — use como tendência, não como meta rígida.

Como ler os demais resultados

Além da driving pressure, três números completam a leitura da mecânica: a potência mecânica, o volume corrente por quilo de peso predito e a diferença entre pico e platô. Todos pressupõem paciente passivo e PEEP total (programada mais auto-PEEP).

ResultadoFaixaLeitura
Potência mecânica< 12 J/minBaixa, com perfil favorável de energia entregue ao pulmão.
Potência mecânica12 a 17 J/minIntermediária, dentro da faixa habitualmente considerada aceitável.
Potência mecânica> 17 J/minFaixa associada a maior risco em estudos observacionais. Considere reduzir volume corrente, frequência ou PEEP, conforme o que mais contribui.
VC por peso predito> 8 mL/kgAcima da faixa protetora: reduza o volume corrente.
VC por peso predito< 4 mL/kgVigie hipercapnia grave e atelectasia; confira se o peso predito está correto.
Pico − platô> 15 cmH₂OComponente resistivo elevado: secreção, tubo dobrado ou de calibre pequeno, broncoespasmo, mordedura do tubo. Não é problema do parênquima.
Pico − platô11 a 15 cmH₂OLimite superior: considere aspirar e checar o circuito. Até 10 cmH₂O é normal.

Hipercapnia permissiva

Reduzir o volume corrente eleva a PaCO₂ — e isso é aceitável e esperado. Proteger o pulmão vale mais do que normalizar a gasometria. O que muda a decisão são os limites do pH e os pacientes em que o CO₂ alto cobra um preço maior.

Limite tolerável

pH acima de 7,20 é geralmente bem tolerado. Alguns protocolos aceitam até 7,15 em situações limitadas, com monitorização estrita.

Como manejar

Aumentar a frequência respiratória até 35 por minuto (vigiando auto-PEEP), reduzir espaço morto do circuito e tratar febre, agitação e sepse, que aumentam a produção de CO₂.

Contraindicações relativas

Hipertensão intracraniana, isquemia miocárdica aguda, hipertensão pulmonar grave com disfunção de ventrículo direito e acidose metabólica grave já instalada.

Bicarbonato

Não é rotina. Pode aumentar a produção de CO₂ e piorar a acidose intracelular. Reserve para acidose metabólica concomitante grave, conforme protocolo.

Antes de aceitar hipercapnia progressiva, exclua causas corrigíveis de aumento do espaço morto: auto-PEEP, tubo parcialmente obstruído, embolia pulmonar e hiperdistensão por PEEP excessiva.

Lesão pulmonar autoinfligida pelo paciente

O conceito de P-SILI descreve a lesão causada pelo esforço respiratório vigoroso do próprio paciente, em ventilação espontânea ou assistida. O paciente com drive elevado gera pressões transpulmonares altas mesmo com o ventilador programado de forma protetora. A magnitude clínica do fenômeno ainda é debatida, e ele não deve justificar intubação precoce indiscriminada em quem responde bem ao suporte não invasivo.

  • Sinais de alerta — volume corrente espontâneo elevado, uso de musculatura acessória, frequência respiratória alta persistente, oscilação exagerada da pressão de vias aéreas e assincronia com duplo disparo.
  • Pressão de oclusão (P 0.1) — valores muito elevados sugerem drive respiratório excessivo; muito baixos sugerem sedação profunda demais.
  • Pressão de oclusão expiratória — a manobra de oclusão ao fim da expiração estima o esforço muscular e a pressão de platô dinâmica.
  • O que fazer — otimizar analgesia e sedação, corrigir causas de drive elevado (dor, febre, acidose, ansiedade, hipoxemia), ajustar o ventilador e, na SDRA moderada a grave precoce, considerar bloqueio neuromuscular.

Em 30 segundos

O essencial de conduta e resgate

  1. Base para todos: tratar a causa, ventilação protetora, PEEP titulada, analgossedação adequada e balanço hídrico conservador após o choque.
  2. P/F < 150: prona ≥ 16 h por sessão, iniciada cedo; considerar bloqueio neuromuscular na fase precoce e corticoide dentro de 14 dias.
  3. Refratária: ECMO venovenosa em centro de referência pelos critérios do EOLIA — acionar cedo; óxido nítrico só como ponte.
  4. Não fazer: recrutamento prolongado, ventilação oscilatória, remoção isolada de CO₂, hiperóxia e balanço positivo após o choque.

Escalonamento por gravidade

A sequência é a mesma em qualquer serviço: primeiro o que tem benefício demonstrado e custo baixo, depois o que exige mais recurso e tem evidência mais frágil. Pular etapas não acelera nada — e quase todo paciente "refratário" deve ser reexaminado à luz da primeira etapa.

  1. Base — todos os pacientes (sempre)

    Tratar a causa, ventilação protetora com 4 a 8 mL/kg de peso predito, platô ≤ 30, driving pressure ≤ 15, PEEP titulada, sedação e analgesia adequadas, e balanço hídrico conservador após a estabilização hemodinâmica.

  2. Moderada a grave — P/F < 150 (precoce)

    Posição prona por 16 horas ou mais por sessão, iniciada cedo. Considerar bloqueio neuromuscular na fase precoce e corticoide sistêmico dentro dos primeiros 14 dias. Reavaliar PEEP e recrutabilidade.

  3. Refratária — resgate (centro especializado)

    ECMO venovenosa em centro de referência, segundo os critérios do EOLIA. Vasodilatador inalatório apenas como ponte. Contato precoce com o serviço de ECMO — transferir cedo é melhor que transferir tarde.

  4. Suporte e prevenção (em paralelo)

    Nutrição, profilaxias, pacote de prevenção de pneumonia associada à ventilação, mobilização precoce quando possível, prevenção de delirium e planejamento do desmame e da reabilitação.

Antes de escalonar para ECMO, as diretrizes pedem que se esgote o que é menos invasivo: ventilação protetora bem feita, PEEP otimizada, bloqueio neuromuscular e prona adequada. Muitos pacientes "refratários" na verdade nunca foram pronados por 16 horas.

Onde as diretrizes divergem

As atualizações da American Thoracic Society (2024) e da European Society of Intensive Care Medicine (2023) concordam no essencial e divergem em três pontos — PEEP alta, bloqueio neuromuscular e corticoide — que vale conhecer antes de discutir um caso. Sobre o corticoide, a atualização de 2024 da Society of Critical Care Medicine também sugere o uso na SDRA (recomendação condicional) e recomenda fortemente na pneumonia comunitária bacteriana grave.

IntervençãoATS 2024ESICM 2023
Volume corrente baixoRecomendação forte a favor.Concordante — recomendação forte a favor.
Posição pronaRecomendação forte a favor na SDRA grave.Concordante — recomendação forte a favor na moderada a grave.
Manobras de recrutamento prolongadasRecomendação forte contra.Concordante — recomendação forte contra.
PEEP mais altaSugere PEEP mais alta sem manobras de recrutamento na moderada a grave (condicional).Não emite recomendação, por resultados inconsistentes entre os estudos.
Bloqueio neuromuscularSugere uso na SDRA grave precoce (condicional a favor).Recomendação forte contra o uso rotineiro em infusão contínua.
Corticoide sistêmicoSugere uso (condicional a favor), iniciado em até 14 dias.Não aborda o tema nesta diretriz.
ECMO venovenosaSugere em pacientes selecionados com SDRA grave (condicional).Recomendação forte a favor, pelos critérios do EOLIA, em centro especializado.
Ventilação oscilatória de alta frequênciaRecomendação forte contra.Concordante — não recomendada.

A divergência sobre o bloqueio neuromuscular vem da diferença entre o ACURASYS, favorável, e o ROSE, neutro — que usaram estratégias de sedação e de PEEP distintas. Na prática, a leitura mais aceita é reservá-lo para a SDRA grave precoce com assincronia ou drive elevado, e não usá-lo de rotina em todos.

Tratar a causa

SDRA é síndrome, não diagnóstico. Nenhuma estratégia ventilatória compensa uma causa não tratada — e a causa mais frequente, de longe, é infecciosa. Se o paciente não melhora como esperado, a primeira pergunta é sobre a causa: ela está tratada? Existe um segundo foco? Surgiu infecção nova?

  • Prioridade absoluta: identificar e tratar o insulto — pneumonia, sepse de qualquer foco, aspiração, pancreatite, trauma, transfusão, fármaco ou exposição.
  • Infecção: culturas antes do antimicrobiano quando isso não atrasar, antibiótico empírico precoce e adequado ao foco, e controle cirúrgico ou percutâneo do foco quando aplicável.
  • Descalonamento: reavalie o esquema com as culturas em 48 a 72 horas — antibiótico desnecessário prolongado gera resistência e disfunção adicional.
  • Aspiração: não há indicação de antibiótico profilático na aspiração de conteúdo gástrico estéril; trate se houver evidência de infecção subsequente.
  • Fármacos: revise a prescrição inteira — amiodarona, bleomicina, nitrofurantoína, metotrexato e inibidores de checkpoint imunológico.
  • Sem causa evidente: considere lavado broncoalveolar, tomografia de tórax, sorologias, painel autoimune e avaliação da pneumologia. Hemorragia alveolar e pneumonia eosinofílica mudam completamente a conduta.

SDRA sem causa identificada é diagnóstico incompleto. Vale reservar tempo da visita diária especificamente para essa pergunta.

Ventilação protetora e titulação da PEEP

A ventilação protetora (detalhada na aba própria) é a base de tudo: 4 a 8 mL/kg de peso predito, platô ≤ 30, driving pressure ≤ 15, frequência de 20 a 35 irpm, SpO₂ 88–95% e pH acima de 7,20. O erro mais comum continua sendo calcular o volume pelo peso real; anote o peso predito no prontuário e no próprio ventilador — ele não muda ao longo da internação.

A PEEP mantém alvéolos instáveis abertos e evita atelectrauma, mas em excesso hiperdistende o baby lung e compromete o ventrículo direito. Não existe PEEP ideal universal: existe a PEEP que, neste paciente e neste momento, dá a menor driving pressure sem comprometer a hemodinâmica.

Sinais de PEEP excessiva

Queda da complacência, aumento da driving pressure, hipotensão, aumento do espaço morto e disfunção de ventrículo direito ao ecocardiograma.

Sinais de PEEP insuficiente

Hipoxemia refratária, colapso expiratório visível na tomografia e melhora franca da oxigenação e da complacência ao aumentá-la.

Métodos de titulação

Tabela PEEP/FiO₂ do ARDSNet (baixa ou alta, conforme gravidade e recrutabilidade); titulação pela menor driving pressure, variando a PEEP em 2 a 4 cmH₂O; e métodos avançados — pressão transpulmonar por balão esofágico (obesidade, hipertensão intra-abdominal) e tomografia de impedância elétrica, onde disponíveis. Sempre meça a auto-PEEP em pausa expiratória e some à PEEP programada.

Manejo hídrico

Balanço hídrico positivo aumenta o edema pulmonar e prolonga a ventilação. No FACTT, a estratégia conservadora aumentou os dias livres de ventilação mecânica sem aumentar a necessidade de diálise, embora não tenha reduzido mortalidade. A regra é de tempo: durante a ressuscitação da sepse, a prioridade é a perfusão; depois da resolução do choque, o alvo passa a ser balanço neutro ou negativo.

Alvo prático

Balanço neutro ou negativo, com atenção diária ao acumulado desde a admissão — o balanço cumulativo é o que mais importa.

Diurético

em bolus ou infusão contínua, titulada pela resposta, desde que a hemodinâmica permita. Albumina pode ser associada em hipoalbuminemia significativa, com evidência limitada.

Monitorização

Débito urinário, função renal, eletrólitos, lactato e parâmetros dinâmicos de responsividade a volume.

Volume escondido

Some o volume de dietas, diluições e infusões contínuas ao balanço — muitas vezes é aí que está o excesso.

Depleção excessiva causa hipotensão, lesão renal e hipoperfusão: o alvo é euvolemia, não desidratação. Revisite o balanço acumulado na visita diária — alguns litros positivos ao longo de uma semana explicam boa parte da piora inexplicada da oxigenação.

Suporte e profilaxias

O paciente com SDRA morre mais frequentemente de complicações e de disfunção de múltiplos órgãos do que de hipoxemia. O pacote de suporte é parte do tratamento — e é comum a equipe dedicar toda a atenção ao ventilador e negligenciá-lo. Uma checagem estruturada na visita diária resolve isso.

  • Nutrição: enteral precoce, nas primeiras 24 a 48 horas, começando com aporte trófico e progredindo conforme a tolerância. Nutrição hipocalórica inicial é aceitável.
  • Profilaxia de tromboembolismo: farmacológica quando não houver contraindicação — o risco trombótico é elevado, especialmente na SDRA por COVID-19.
  • Profilaxia de úlcera de estresse: em ventilação mecânica prolongada e coagulopatia, conforme protocolo institucional.
  • Prevenção de pneumonia associada à ventilação: cabeceira a 30–45 graus, higiene oral, aspiração subglótica quando disponível e avaliação diária de extubação.
  • Controle glicêmico: alvo habitual entre 140 e 180 mg/dL, evitando hipoglicemia.
  • Delirium: rastreio com CAM-ICU ou ICDSC a cada turno, higiene do sono, reorientação e mobilização — pacote ABCDEF.
  • Mobilização precoce: assim que a estabilidade permitir, mesmo sob ventilação mecânica, com a fisioterapia.
  • Lesão por pressão: risco alto, sobretudo durante a prona — mudança de decúbito, proteção de proeminências e inspeção sistemática da face.
  • Comunicação com a família: atualizações regulares, expectativas realistas e discussão de objetivos de cuidado desde cedo.

Posição prona

É a intervenção com maior benefício de mortalidade depois da própria ventilação protetora, custa praticamente nada e continua sendo a mais subutilizada do mundo. Ela homogeneíza a pressão transpulmonar, recruta regiões dorsais, melhora a relação ventilação/perfusão, reduz a compressão pelo coração e pelo abdome e diminui a lesão induzida pelo ventilador. No PROSEVA, a prona prolongada reduziu de forma expressiva a mortalidade em 28 e em 90 dias na SDRA grave.

Indicação: P/F abaixo de 150, com FiO₂ ≥ 0,6 e PEEP ≥ 5, após período de estabilização com ventilação protetora, idealmente nas primeiras 36 a 48 horas, em sessões de 16 horas ou mais. Suspenda quando houver melhora sustentada — P/F acima de 150 em supino, com PEEP ≤ 10 e FiO₂ ≤ 0,6, mantida por pelo menos 4 horas após o retorno.

Contraindicações

Instabilidade hemodinâmica grave não corrigida, hipertensão intracraniana não monitorizada, fratura instável de coluna ou pelve, abdome aberto; relativas: gestação avançada e esternotomia recente.

Equipe

Mínimo de 3 a 5 pessoas, uma dedicada exclusivamente à via aérea. Checklist e treinamento reduzem complicações de forma marcante.

Complicações

Lesão por pressão em face e tórax, edema facial e periorbitário, perda de dispositivos, extubação acidental, obstrução do tubo, plexopatia braquial e regurgitação.

Prevenção

Proteção de proeminências, mudança da posição da cabeça a cada 2 horas, pausa da dieta antes do giro, olhos protegidos e conferência de todos os dispositivos antes e depois.

A prona vigil pode ser considerada na insuficiência respiratória hipoxêmica aguda em não intubados, sobretudo em COVID-19, sem substituir a intubação quando ela está indicada. Se o seu serviço não prona por dificuldade logística, esse é provavelmente o ponto com maior potencial de ganho em desfecho — vale um protocolo formal e treinamento da equipe.

Manobras de recrutamento

A ideia de abrir o pulmão com pressão alta e mantê-lo aberto é fisiologicamente atraente e clinicamente perigosa. No ART, ensaio brasileiro publicado em 2017, a manobra de recrutamento com titulação decremental de PEEP aumentou a mortalidade em 28 dias em comparação à estratégia de baixa PEEP — por hiperdistensão do baby lung, hipotensão por queda do retorno venoso, barotrauma e piora do ventrículo direito. Ambas as diretrizes fazem recomendação forte contra as manobras prolongadas.

O que ainda é aceitável

  • Aumentos modestos e sustentados de PEEP, avaliados pela driving pressure.
  • Insuflação sustentada breve para reverter desrecrutamento após aspiração ou desconexão acidental, conforme protocolo.
  • A posição prona, que recruta regiões dorsais sem os riscos das manobras de alta pressão.

O que não fazer

  • Manobras de pressão elevada por tempo prolongado, de forma sistemática.
  • Interpretar a melhora transitória da oxigenação durante a manobra como benefício — oxigenação não é desfecho; mortalidade é.

O ART é brasileiro e continua sendo uma das contribuições mais importantes do país à medicina intensiva mundial. Vale citá-lo em aula — e em prova.

Rotas de tratamento

Cada rota corresponde a uma etapa do escalonamento. Abra a rota para ver doses, diluições e velocidades; o botão "Ver detalhes" abre a ficha completa de cada medicamento.

ECMO venovenosa

Substitui temporariamente a função pulmonar e permite ventilação ultraprotetora — volume corrente muito baixo, driving pressure mínima, frequência reduzida e PEEP mantida para evitar colapso total — enquanto o pulmão se recupera. Exige centro com volume, indicação criteriosa e, sobretudo, acionamento precoce: muitos centros têm equipe móvel que canula no hospital de origem.

O EOLIA não atingiu significância no desfecho primário, mas a análise bayesiana e metanálises posteriores sugerem benefício em pacientes selecionados. A janela ideal são os primeiros 7 dias de ventilação mecânica, com causa reversível identificada. Escores como RESP e PRESERVE ajudam a estimar sobrevida; a prona durante a ECMO é possível e cada vez mais praticada em centros experientes.

Critérios do EOLIA

Apesar de ventilação otimizada: P/F < 50 por mais de 3 h; ou < 80 por mais de 6 h; ou pH < 7,25 com PaCO₂ ≥ 60 mmHg por mais de 6 h.

Contraindicações

Ventilação mecânica prolongada (geralmente acima de 7 a 10 dias), doença de base sem reversibilidade, neoplasia avançada, lesão neurológica grave irreversível, contraindicação absoluta a anticoagulação e falência de múltiplos órgãos estabelecida.

Complicações

Sangramento, trombose, hemólise, infecção de cânula, isquemia de membro e complicações neurológicas.

Antes de indicar

Esgotar o menos invasivo: ventilação protetora bem feita, PEEP otimizada, bloqueio neuromuscular e prona por 16 horas ou mais.

O erro mais comum com ECMO não é indicar mal: é acionar tarde. Uma ligação precoce ao centro de referência não compromete nada e frequentemente muda o desfecho — ligue antes de o paciente entrar em falência de múltiplos órgãos.

Escore de Murray (Lung Injury Score)

O Lung Injury Score de Murray quantifica a gravidade da lesão pulmonar e é uma das referências históricas para indicação de ECMO: um escore ≥ 3,0 foi critério de inclusão do CESAR. Pontue cada um dos quatro componentes de 0 a 4, some e divida por 4 — ou selecione a soma abaixo.

PontosRadiografia (quadrantes)PaO₂/FiO₂PEEP (cmH₂O)Complacência (mL/cmH₂O)
0Nenhum≥ 300≤ 5≥ 80
11 quadrante225 a 2996 a 860 a 79
22 quadrantes175 a 2249 a 1140 a 59
33 quadrantes100 a 17412 a 1420 a 39
44 quadrantes< 100≥ 15≤ 19
Escore de Murray — interpretação

Some os pontos dos 4 componentes da tabela; o escore é a soma ÷ 4.

Selecione a soma dos pontos.

Interpretação: 0 = sem lesão; 0,1 a 2,5 = leve a moderada; acima de 2,5 = grave. O escore isolado não indica ECMO — a decisão depende dos critérios do EOLIA, da reversibilidade, das contraindicações e da avaliação do centro de referência.

Cor pulmonale agudo

Ocorre em parcela relevante da SDRA grave e é subdiagnosticado. Quase tudo o que fazemos pelo pulmão — PEEP elevada, driving pressure alta, hipercapnia, hipoxemia grave, acidose — piora a pós-carga do ventrículo direito, e a pneumonia como causa da SDRA também aumenta o risco. O ecocardiograma mostra relação entre as áreas de VD e VE aumentada, septo paradoxal e disfunção sistólica do VD.

Estratégia protetora do VD

  • Limitar a driving pressure e evitar PEEP excessiva.
  • Evitar hipercapnia extrema — manter PaCO₂ abaixo de aproximadamente 60 mmHg.
  • Considerar prona: melhora a oxigenação, permite reduzir PEEP e FiO₂ e frequentemente melhora o VD.

Manejo hemodinâmico

  • Evitar sobrecarga volêmica, que distende ainda mais o VD.
  • para a pressão de perfusão coronariana; inotrópico se disfunção significativa.
  • Vasodilatador inalatório para reduzir a pós-carga do VD neste contexto específico.

Disfunção grave de VD com hipoxemia ou hipercapnia refratárias é um dos cenários em que a ECMO tende a ser mais benéfica. Vale incorporar ecocardiograma seriado à rotina da SDRA grave: o ventrículo direito é o órgão mais frequentemente esquecido nessa síndrome.

Terapias sem benefício demonstrado

Saber o que não fazer é parte substancial do tratamento da SDRA. A história desta síndrome é feita de intervenções promissoras que não se confirmaram — conhecê-las evita gastar tempo, recurso e risco com o que não funciona.

  • Ventilação oscilatória de alta frequência — não recomendada; no OSCILLATE e no OSCAR foi neutra ou prejudicial na SDRA moderada a grave.
  • Remoção extracorpórea de CO₂ isolada — não recomendada para permitir volumes ultrabaixos; o REST foi interrompido sem benefício e com mais eventos adversos.
  • Óxido nítrico inalatório de rotina — melhora a oxigenação sem reduzir mortalidade, com risco de lesão renal; apenas como resgate individualizado.
  • Surfactante exógeno — sem benefício no adulto, ao contrário do recém-nascido.
  • Beta-agonista endovenoso ou inalatório de rotina — ALTA e BALTI-2 negativos, com sinal de dano no segundo.
  • Estatinas — SAILS e HARP-2 neutros na população geral de SDRA.
  • Ômega-3 e antioxidantes — OMEGA negativo, com sinal de dano.
  • Manobras de recrutamento prolongadas — recomendação forte contra, após o ART.
  • Balanço hídrico liberal após o choque — prolonga a ventilação mecânica (FACTT).
  • Hiperóxia — perseguir SpO₂ de 100% não traz benefício e pode ser deletério.

Desmame da ventilação

O desmame começa antes do que se imagina: triagem diária de prontidão, acoplada à interrupção da sedação, desde a fase de estabilização reduz tempo de ventilação e complicações. Muitos pacientes com SDRA ficam ventilados além do necessário porque ninguém aplicou a triagem naquele dia — um checklist diário resolve boa parte disso.

Critérios de prontidão

Causa em resolução, PEEP ≤ 8 cmH₂O, FiO₂ ≤ 0,4 a 0,5 com SpO₂ adequada, hemodinâmica estável com pouco ou nenhum vasopressor, consciência adequada e tosse eficaz.

Teste de respiração espontânea

30 a 120 minutos em tubo T ou pressão de suporte baixa (5 a 8 cmH₂O), com PEEP de 0 a 5. Falha: FR > 35, musculatura acessória, queda da saturação, taquicardia, hipertensão, agitação ou sudorese.

Índice de respiração rápida e superficial

Frequência ÷ volume corrente em litros; abaixo de 105 sugere maior chance de sucesso, mas não decide isoladamente.

O que atrasa

Fraqueza adquirida, delirium, disfunção diafragmática, sobrecarga hídrica e desnutrição. Após extubar, alto fluxo ou VNI profilática nos pacientes de risco — reintubação piora o prognóstico.

Traqueostomia

Reduz sedação, facilita a higiene brônquica, melhora o conforto, permite fala e deglutição e facilita a reabilitação — mas a traqueostomia precoce de rotina não demonstrou reduzir mortalidade. Considere quando há expectativa de ventilação prolongada, geralmente após 10 a 14 dias, com falha ou previsão de falha do desmame; a técnica (percutânea à beira do leito ou cirúrgica) depende de anatomia, coagulação e experiência.

As complicações incluem sangramento, falso trajeto, pneumotórax, infecção do estoma e estenose traqueal tardia. A decanulação vem após estabilidade respiratória, tosse eficaz, deglutição segura e via aérea pérvia confirmada.

Na SDRA, evite o procedimento durante hipoxemia grave, PEEP alta ou instabilidade: ele exige desconexão e pode causar desrecrutamento. Costuma ficar mais bem posicionado depois da resolução da fase aguda.

Reabilitação e síndrome pós-terapia intensiva

Sobreviver à SDRA está longe de ser o fim. Fraqueza, comprometimento cognitivo e sintomas psiquiátricos persistem por meses a anos em boa parte dos sobreviventes. A maioria recupera função pulmonar próxima do normal em 6 a 12 meses: a limitação predominante costuma ser muscular e sistêmica, não pulmonar.

Fraqueza adquirida

Polineuropatia e miopatia do doente crítico, ligadas a imobilidade, sedação profunda, corticoide, bloqueador neuromuscular e hiperglicemia.

Cognição

Déficit de memória, atenção e função executiva, correlacionado à duração do delirium e da hipoxemia.

Saúde mental

Ansiedade, depressão e estresse pós-traumático, em pacientes e também em familiares.

Na UTI

Mobilização precoce com fisioterapia diária, pacote ABCDEF e diário de UTI (associado a menos estresse pós-traumático).

Após a alta

Ambulatório pós-terapia intensiva, reabilitação pulmonar e motora, avaliação nutricional e suporte psicológico.

Família

Também adoece: informe, envolva no cuidado e ofereça suporte estruturado.

Converse com a família sobre a recuperação esperada desde a fase aguda: a expectativa de que a alta da UTI signifique retorno imediato ao normal gera muito sofrimento.

Prognóstico e comunicação

A mortalidade é alta — aproximadamente 35% na leve, 40% na moderada e 46% na grave —, mas a maioria dos pacientes não morre de hipoxemia: predominam a disfunção de múltiplos órgãos e a doença de base. O fator mais importante é a etiologia: SDRA por causa reversível em paciente jovem tem prognóstico muito diferente da SDRA em doença de base avançada.

Pior prognóstico

  • Idade avançada e comorbidades.
  • Causa não reversível e disfunção de outros órgãos.
  • Driving pressure elevada persistente.
  • Ausência de melhora da oxigenação nas primeiras 24 a 48 horas.

Comunicação e objetivos

  • Atualizações regulares e honestas, com linguagem acessível e espaço para perguntas.
  • Discussão precoce de objetivos de cuidado na doença de base avançada ou refratária.
  • Cuidados paliativos integrados quando indicados, sem abandonar o tratamento ativo.

P/F, escore de Murray ou qualquer escore único não devem, sozinhos, fundamentar decisões de limitação terapêutica. Uma frase útil com a família: sobreviver à SDRA é possível na maioria dos casos, mas a recuperação é longa e não termina na alta da UTI.

Em 30 segundos

O essencial de cenários especiais

  1. Obesidade e hipertensão intra-abdominal: o platô superestima a lesão — volume pelo peso predito, PEEP mais alta e, se possível, pressão esofágica.
  2. Hipertensão intracraniana e cor pulmonale: hipercapnia permissiva deixa de ser inofensiva.
  3. Gestação: SpO₂ ≥ 95% e menor tolerância à hipercapnia; prona possível com equipe treinada.
  4. Recursos limitados: SpO₂/FiO₂, ultrassom, volume baixo, prona e balanço conservador não dependem de tecnologia cara.

Obesidade e hipertensão intra-abdominal

Nas duas situações, a parede torácica pesada ou o abdome tenso elevam a pressão de platô sem que a pressão transpulmonar esteja alta: o platô superestima a lesão pulmonar. Na hipertensão intra-abdominal o problema é o mesmo, com um componente reversível — a complacência da parede cai e o diafragma é deslocado.

Obesidade — o que fazer

Volume corrente sempre pelo peso predito. Considere PEEP mais alta e, quando disponível, manometria esofágica para separar pulmão de parede. Cabeceira elevada.

Hipertensão intra-abdominal — o que fazer

Meça a pressão intravesical, trate a causa (distensão, ascite, íleo), evite conclusões pelo platô isolado e considere pressão transpulmonar.

Hipertensão intracraniana

Aqui o conflito entre proteção pulmonar e proteção cerebral é direto. A hipercapnia permissiva é contraindicada, porque o CO₂ dilata os vasos cerebrais e eleva a pressão intracraniana, e PEEP alta pode reduzir o retorno venoso cerebral.

Priorize normocapnia, use a menor PEEP eficaz, mantenha cabeceira elevada e discuta caso a caso o conflito entre proteção pulmonar e cerebral — de preferência com monitorização da pressão intracraniana.

Cor pulmonale agudo

Ocorre em parcela relevante da SDRA grave. PEEP alta, hipercapnia e hipoxemia aumentam a pós-carga do ventrículo direito, que dilata e empurra o septo — e o ajuste ventilatório passa a ser também um ajuste hemodinâmico.

Ecocardiograma seriado, limitar driving pressure, evitar hipercapnia extrema, considerar prona (que costuma melhorar o ventrículo direito) e evitar sobrecarga volêmica. Detalhes na aba Conduta e resgate.

Gestação

A gestante tem elevação diafragmática, menor capacidade residual funcional e alcalose respiratória fisiológica — e a hipoxemia materna afeta o feto rapidamente. Por isso os alvos mudam: oxigenação mais generosa e menos tolerância à hipercapnia, que atravessa a placenta e acidifica o feto.

Alvos de oxigenação mais generosos (SpO₂ ≥ 95%), atenção ao pH (a hipercapnia permissiva é menos tolerada), decúbito lateral esquerdo e prona possível com equipe treinada e apoio obstétrico.

Imunossuprimido e SDRA por COVID-19

No imunossuprimido, o espectro etiológico é muito mais amplo — infecções oportunistas, toxicidade de fármacos e envolvimento da doença de base. Na COVID-19, a mecânica comporta-se como SDRA clássica na maioria dos casos, mas com alta incidência de trombose.

Imunossuprimido

Baixo limiar para lavado broncoalveolar e tomografia. Ajuste a cobertura antimicrobiana e reveja a lista de fármacos pneumotóxicos.

COVID-19

Ventilação protetora habitual, conforme protocolo vigente, atenção redobrada a eventos tromboembólicos e prona também em não intubados quando indicado.

Trauma torácico com contusão

A contusão pulmonar dá um componente assimétrico à SDRA, a dor limita a mecânica e o risco de barotrauma é elevado. Subir PEEP sobre um pneumotórax não drenado é receita para pneumotórax hipertensivo.

Analgesia agressiva, incluindo bloqueio regional; drenar o pneumotórax antes de subir a PEEP; e vigilância contínua para barotrauma.

Recursos limitados

Sem gasometria, sem tomografia e, por vezes, sem ventilador disponível de imediato. A nova definição global foi construída para este cenário: permite diagnosticar pela oximetria e pelo ultrassom, sem exigir PEEP mínima ou dispositivo específico.

Use SpO₂/FiO₂ e ultrassom pulmonar, e aplique o que é factível — volume corrente baixo, prona e manejo hídrico conservador não dependem de tecnologia cara.

Erros comuns

Quase todos os erros na SDRA vêm de três fontes: não reconhecer a síndrome, ventilar sem medir e adiar o que funciona. A lista abaixo serve como checklist de visita — se algum item estiver acontecendo, há ganho fácil de desfecho.

  • Calcular o volume corrente pelo peso real em vez do peso predito.
  • Estimar a altura no olho em vez de medi-la, errando o peso predito e todo o resto.
  • Não reconhecer a síndrome — o subdiagnóstico é o erro mais frequente de todos.
  • Nunca medir pressão de platô nem driving pressure.
  • Medir platô em paciente com esforço inspiratório ativo e confiar no valor.
  • Esquecer de somar a auto-PEEP ao calcular a driving pressure.
  • Aumentar a PEEP olhando apenas a oxigenação, ignorando que a driving pressure subiu.
  • Fazer manobras de recrutamento prolongadas, que aumentaram a mortalidade no ART.
  • Adiar a prona ou fazer sessões curtas de 4 a 6 horas em vez de 16 horas ou mais.
  • Considerar o paciente refratário sem nunca tê-lo pronado adequadamente.
  • Manter balanço hídrico positivo depois que o choque já foi resolvido.
  • Perseguir SpO₂ de 100% e manter FiO₂ alta desnecessariamente.
  • Tratar a hipercapnia permissiva com bicarbonato de rotina.
  • Iniciar corticoide muito tardiamente, já na fase fibrótica.
  • Não procurar e não tratar a causa da SDRA.
  • Acionar o centro de ECMO apenas quando o paciente já está em falência de múltiplos órgãos.
  • Esquecer as profilaxias, a nutrição e a prevenção de delirium enquanto se foca no ventilador.

Resumo do fluxo

O fluxo resume o artigo inteiro em doze passos, na ordem em que acontecem à beira do leito: reconhecer, tratar a causa, proteger o pulmão, escalonar pela gravidade e, em paralelo, cuidar de tudo o que não é o ventilador.

  1. Reconheça

    Hipoxemia aguda com opacidades bilaterais em até 7 dias de um insulto, não explicada apenas por causa cardíaca. Calcule P/F ou S/F.

  2. Procure e trate a causa

    Pneumonia, sepse, aspiração, pancreatite, transfusão, fármaco.

  3. Peso predito

    Meça a altura e calcule o peso predito. Anote no prontuário.

  4. Ventilação protetora

    Volume corrente de 4 a 8 mL/kg de peso predito, platô ≤ 30 e driving pressure ≤ 15 cmH₂O.

  5. PEEP

    Pela tabela correspondente à FiO₂ ou pela menor driving pressure; SpO₂ entre 88% e 95%.

  6. Sedação e assincronia

    Otimize sedação e analgesia; corrija a assincronia antes de aumentar o volume corrente.

  7. Reclassifique

    Reavalie a P/F após a estabilização ventilatória e reclassifique a gravidade.

  8. P/F abaixo de 150

    Prona por 16 horas ou mais, iniciando precocemente.

  9. Bloqueio e corticoide

    Considere bloqueio neuromuscular na fase precoce da SDRA grave e corticoide sistêmico dentro dos primeiros 14 dias.

  10. Balanço conservador

    Após a estabilização hemodinâmica.

  11. Refratariedade

    Acione precocemente o centro de ECMO e avalie os critérios do EOLIA.

  12. Em paralelo

    Nutrição, profilaxias, prevenção de delirium e mobilização; planeje desmame e reabilitação desde cedo.

P/F abaixo de 150: prona por 16 horas ou mais, iniciada cedo — antes de qualquer terapia de resgate.

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Aviso importante

Ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. Doses, diluições e velocidades de infusão devem ser conferidas antes da administração. Parâmetros ventilatórios, doses e metas devem ser sempre conferidos e individualizados, considerando o paciente, o equipamento disponível e o contexto assistencial. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.

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