SARA • Acute Respiratory Distress Syndrome (ARDS) • ventilação protetora
O pulmão da SDRA não é rígido por inteiro: é um baby lung pequeno e complacente cercado de tecido colapsado. Ventilá-lo como se fosse um pulmão normal é o que mata. Quase tudo que reduziu mortalidade nesta síndrome — volume corrente baixo, posição prona, menos pressão de distensão — funciona fazendo menos, e não fazendo mais.
6 mL/kg de peso preditoPlatô ≤ 30, driving ≤ 15Prona ≥ 16 hECMO em centro de referência
24 min de leitura Atualizado em outubro de 2026
Em 30 segundos
O essencial de visão geral
SDRA é uma síndrome inflamatória de aumento da permeabilidade alvéolo-capilar, com hipoxemia por shunt, queda da complacência e aumento do espaço morto.
O pulmão funcional é pequeno (o baby lung): é ele que recebe todo o volume corrente e é ele que o ventilador lesa.
Nenhuma terapia trata a SDRA em si — reduz mortalidade tratar a causa e não lesar mais o pulmão enquanto ele se recupera.
A síndrome é frequente e subdiagnosticada: no LUNG SAFE, cerca de 40% dos casos não foram reconhecidos.
O que é SDRA
A síndrome do desconforto respiratório agudo é uma resposta inflamatória pulmonar difusa, desencadeada por um insulto direto ou indireto, que resulta em aumento da permeabilidade da barreira alvéolo-capilar. O alvéolo se enche de líquido rico em proteína, o surfactante é inativado e o pulmão colapsa em áreas dependentes.
A consequência funcional é hipoxemia grave por shunt intrapulmonar, queda acentuada da complacência e aumento do espaço morto. Não é um diagnóstico etiológico: é uma síndrome, e por trás dela sempre existe uma causa que precisa ser tratada.
Nenhuma terapia trata a SDRA em si. O que reduz mortalidade é tratar a causa e não lesar mais o pulmão enquanto ele se recupera. Toda a ventilação protetora existe para isso.
O conceito do baby lung
É a ideia que organiza todo o tratamento. Na tomografia, o pulmão da SDRA não é uniformemente rígido: ele tem três compartimentos. Se você entrega 500 mL a um pulmão funcionalmente do tamanho de 1,5 litro, está aplicando um volume corrente relativo enorme sobre a área sadia — e é justamente ela que sofre a lesão induzida pelo ventilador.
Área aerada e complacente — pequena, frequentemente equivalente ao pulmão de uma criança. É ela que recebe todo o volume corrente.
Área recrutável — colapsada, mas passível de reabertura com pressão adequada. É o alvo racional da PEEP.
Área consolidada — não recrutável em nenhuma pressão. Insistir nela só transfere pressão para o resto.
Os quatro mecanismos de lesão pelo ventilador
O ventilador salva o paciente e, ao mesmo tempo, pode lesar o pulmão por quatro caminhos que se somam. Cada meta da ventilação protetora existe para bloquear um deles: o volume corrente baixo contra o volutrauma, o limite de platô contra o barotrauma, a PEEP contra o atelectrauma — e todos juntos contra o biotrauma.
Volutrauma
Distensão excessiva do baby lung por volume corrente alto. É o mecanismo dominante.
Barotrauma
Pressão transpulmonar elevada, com risco de pneumotórax e pneumomediastino.
Atelectrauma
Abertura e fechamento cíclicos de alvéolos instáveis, gerando forças de cisalhamento. É o que a PEEP evita.
Biotrauma
A lesão mecânica libera mediadores inflamatórios que atingem a circulação sistêmica e contribuem para disfunção de múltiplos órgãos.
Por que isso importa na prática
Pacientes com SDRA raramente morrem de hipoxemia refratária. Morrem de disfunção de múltiplos órgãos — e a ventilação inadequada é uma das fontes dessa disfunção. Proteger o pulmão é proteger o resto do organismo.
As três fases histológicas
A SDRA evolui em fases que se sobrepõem, e reconhecer em qual delas o paciente está muda a expectativa e algumas decisões. A janela em que as intervenções têm mais impacto é a primeira semana; depois de duas a três semanas, parte dos pacientes entra em remodelamento fibrótico.
Exsudativa — 0 a 7 dias
Dano alveolar difuso, membranas hialinas, edema rico em proteína e influxo de neutrófilos. É a fase de maior hipoxemia e de maior queda da complacência — e a janela em que a ventilação protetora, a prona e o bloqueio neuromuscular têm maior impacto.
Proliferativa — 7 a 21 dias
Proliferação de pneumócitos tipo II, organização do exsudato e início do reparo. A maioria dos pacientes começa a melhorar aqui; o espaço morto costuma aumentar antes de a complacência melhorar.
Fibrótica — após 2 a 3 semanas
Deposição de colágeno, remodelamento e formação de cistos. Nem todos chegam a esta fase. Associa-se a ventilação mecânica prolongada, dependência de oxigênio e sequela funcional persistente.
A fase importa para o corticoide: as diretrizes recomendam iniciar dentro dos primeiros 14 dias. Começar corticoide muito tarde, na fase fibrótica estabelecida, associa-se a piores desfechos.
Números que importam
Os dados epidemiológicos mais citados vêm do LUNG SAFE, estudo observacional em 50 países. Eles mostram uma síndrome comum, letal e, sobretudo, pouco reconhecida e tratada abaixo do padrão.
Frequência
Cerca de 10% das admissões em terapia intensiva e aproximadamente 23% dos pacientes ventilados no LUNG SAFE.
Mortalidade
Aproximadamente 35% na leve, 40% na moderada e 46% na grave, conforme a definição de Berlim.
Subdiagnóstico
No LUNG SAFE, cerca de 40% dos casos não foram reconhecidos pela equipe assistente.
Subtratamento
Boa parte dos pacientes recebia volume corrente acima de 8 mL/kg de peso predito, e a prona era pouco utilizada.
Sequelas
Fraqueza adquirida, comprometimento cognitivo e sintomas psiquiátricos são frequentes um ano após a alta.
O dado mais acionável não é a mortalidade: é o subdiagnóstico. Reconhecer a síndrome é o passo que desbloqueia todas as intervenções que efetivamente funcionam.
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O essencial de diagnóstico
Quatro critérios: tempo (≤ 7 dias), imagem bilateral, edema não explicado integralmente por causa cardíaca e hipoxemia.
Intubado: P/F ≤ 300 com PEEP ≥ 5; a definição global aceita S/F ≤ 315 (com SpO₂ ≤ 97%), alto fluxo ≥ 30 L/min e ultrassom pulmonar.
A pergunta central do diferencial é sempre a mesma: este edema é inflamatório ou hidrostático?
Critérios diagnósticos
A definição de Berlim, de 2012, segue sendo a referência mais conhecida. A Nova Definição Global, publicada em 2023 e 2024, mantém os quatro pilares e amplia os critérios para incorporar oxigênio nasal de alto fluxo, oximetria de pulso, ultrassom pulmonar e cenários de recursos limitados — reconhecendo a síndrome antes da intubação e onde não há gasometria.
Berlim 2012 — os quatro critérios clássicos
Tempo: início em até 7 dias de um insulto conhecido ou de piora dos sintomas respiratórios.
Imagem: opacidades bilaterais na radiografia ou na tomografia, não explicadas totalmente por derrame, atelectasia ou nódulos.
Origem do edema: insuficiência respiratória não explicada integralmente por insuficiência cardíaca ou hipervolemia; ecocardiograma pode ser necessário para afastar.
Oxigenação: PaO₂/FiO₂ ≤ 300 mmHg, com PEEP ou CPAP de pelo menos 5 cmH₂O.
Definição global — o que acrescenta
Não intubados: inclui pacientes em oxigênio nasal de alto fluxo com fluxo de pelo menos 30 L/min, além de ventilação não invasiva e CPAP com pelo menos 5 cmH₂O.
Oximetria: aceita SpO₂/FiO₂ ≤ 315 como critério de hipoxemia, desde que a SpO₂ seja ≤ 97%, sem alteração de hemoglobina e com boa perfusão periférica.
Ultrassom: reconhece o ultrassom pulmonar como modalidade de imagem válida para identificar as opacidades bilaterais.
Recursos limitados: dispensa PEEP mínima, fluxo de oxigênio e dispositivo específico — incorporando o espírito da definição de Kigali.
A relação SpO₂/FiO₂ perde confiabilidade quando a saturação está acima de 97%, porque a curva de dissociação da hemoglobina achata e pequenas variações de SpO₂ correspondem a grandes variações de PaO₂. Use apenas com SpO₂ ≤ 97%.
Gravidade e o que muda em cada faixa
No paciente intubado, a gravidade é dada pela PaO₂/FiO₂ ou, na definição global, pelos equivalentes de SpO₂/FiO₂: 315 corresponde aproximadamente a P/F de 300, 235 a 200 e 148 a 100. Na SDRA não intubada (alto fluxo, VNI ou CPAP), a definição global não estratifica gravidade: o diagnóstico é feito, mas a classificação fica reservada a quem está em ventilação invasiva.
A classificação pressupõe PEEP de pelo menos 5 cmH₂O e varia com a PEEP e a FiO₂. A medida feita logo após otimizar a PEEP prediz melhor o desfecho do que a colhida na admissão — parte dos casos leves é reclassificada depois da estabilização ventilatória.
Gravidade (intubado)
PaO₂/FiO₂
SpO₂/FiO₂ (SpO₂ ≤ 97%)
Próxima ação
Sem critério de oxigenação
> 300
> 315
Não há critério de oxigenação para SDRA; reavalie se houver piora. Tempo, imagem e origem do edema também precisam ser preenchidos.
Leve
201 a 300
236 a 315
Ventilação protetora completa (4–8 mL/kg de peso predito, platô < 30, driving ≤ 15), PEEP titulada, tratar a causa e balanço hídrico conservador após a estabilização. Reavaliar a relação após otimizar a ventilação.
Moderada
101 a 200
149 a 235
Manter a proteção e considerar PEEP mais alta. Abaixo de 150 (S/F ≈ 190): prona por 16 h ou mais. Avaliar bloqueio neuromuscular na fase precoce e corticoide dentro de 14 dias.
Grave
≤ 100
≤ 148
Prona precoce e prolongada, PEEP otimizada, bloqueio na fase precoce, corticoide se dentro de 14 dias; verificar driving pressure e potência mecânica. Acionar cedo o centro de ECMO e checar os critérios do EOLIA.
Equivalências de S/F segundo a Nova Definição Global (Matthay et al., 2024). Com SpO₂ acima de 97%, reduza a FiO₂ até a SpO₂ ficar em 97% ou menos e recalcule, ou colha gasometria arterial.
Calculadora — oxigenação e gravidade
Informe a gasometria ou a oximetria e a fração inspirada de oxigênio. A ferramenta calcula a PaO₂/FiO₂, a SpO₂/FiO₂ e — no paciente em alto fluxo — o índice ROX; leia o resultado na tabela de gravidade acima para saber quais intervenções passam a ser recomendadas naquela faixa.
PaO₂/FiO₂ • SpO₂/FiO₂ • índice ROX
No ventilador ou na cânula de alto fluxo, informe a FiO₂ exata. A relação S/F só é válida com SpO₂ ≤ 97%. O índice ROX = (SpO₂/FiO₂) ÷ frequência respiratória ajuda a prever falha do alto fluxo no paciente ainda não intubado.
PaO₂/FiO₂—
SpO₂/FiO₂—
Índice ROX—
Leitura rápida—
A classificação de Berlim pressupõe PEEP de pelo menos 5 cmH₂O. A relação P/F varia com a PEEP e com a FiO₂ e deve ser reavaliada após a estabilização ventilatória.
O diferencial que mais importa
A pergunta central do diagnóstico é sempre a mesma: este edema é inflamatório ou hidrostático? Errar aqui leva a tratar SDRA com diurético e congestão cardíaca com PEEP alta. Nenhum achado isolado decide — a combinação de história, imagem, ecocardiograma e resposta ao tratamento é que fecha a questão.
Cardiopatia conhecida, dor torácica, arritmia, má adesão a diurético.
Distribuição na imagem
Opacidades periféricas, heterogêneas e gravidade-dependentes.
Distribuição central, em asa de borboleta, com linhas B de Kerley.
Área cardíaca e derrames
Área cardíaca normal; derrames pequenos.
Cardiomegalia, derrames volumosos e congestão hilar.
Ecocardiograma
Função ventricular preservada, sem elevação de pressões de enchimento.
Disfunção sistólica ou diastólica, pressões de enchimento elevadas.
Ultrassom pulmonar
Linhas B heterogêneas, com áreas poupadas, pleura irregular e consolidações subpleurais.
Linhas B homogêneas e bilaterais, pleura lisa, com derrame associado.
Peptídeo natriurético
Valores baixos apoiam SDRA, mas não excluem sobreposição.
Valores muito elevados apoiam origem cardíaca.
Resposta ao diurético
Melhora limitada, sobretudo da oxigenação.
Melhora clínica e radiológica rápida.
As duas condições coexistem com frequência. A definição atual não exige ausência de causa cardíaca: exige que o quadro não seja explicado integralmente por ela. Paciente cardiopata com sepse pode ter, e frequentemente tem, as duas coisas.
Outros diagnósticos a considerar
Algumas doenças preenchem os critérios de SDRA, mas têm tratamento próprio — e às vezes respondem de forma dramática a uma intervenção específica. Desconfie quando a evolução é subaguda, quando não há insulto clássico ou quando o paciente não melhora como esperado.
Hemorragia alveolar difusa
Queda de hemoglobina, hemoptise (que pode faltar) e lavado broncoalveolar progressivamente hemorrágico. Considerar vasculites e síndromes pulmão-rim.
Pneumonia em organização e pneumonite intersticial aguda
Evolução subaguda, padrão tomográfico característico e resposta a corticoide. Frequentemente exigem biópsia ou avaliação especializada.
Pneumonite por fármaco
Amiodarona, bleomicina, nitrofurantoína, metotrexato e inibidores de checkpoint imunológico. Revisar toda a prescrição e o histórico oncológico.
Pneumonia eosinofílica aguda
Eosinofilia no lavado broncoalveolar, história de tabagismo recente e resposta rápida e marcante ao corticoide.
TRALI
Lesão pulmonar relacionada à transfusão, com início em até 6 horas do hemocomponente. É uma causa de SDRA e não um diferencial excludente.
Edema pulmonar de altitude e neurogênico
O contexto clínico define: exposição a grande altitude ou lesão neurológica aguda grave, como hemorragia subaracnóidea.
Considere lavado broncoalveolar quando a causa não é evidente: ele diferencia hemorragia alveolar, pneumonia eosinofílica e infecções oportunistas, e pode mudar completamente a conduta.
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O essencial de causas e fenótipos
Pneumonia e sepse respondem pela maior parte dos casos; tratar a causa é parte do tratamento da SDRA.
Causas diretas (pulmonares) tendem a gerar consolidação focal e menos recrutável; indiretas, edema difuso e mais recrutável.
Os fenótipos hipo e hiperinflamatório ainda são ferramenta de pesquisa e não guiam decisões individuais.
O fenótipo útil à beira do leito é a recrutabilidade: suba a PEEP e veja se a driving pressure cai ou sobe.
Causas diretas e indiretas
A distinção entre insulto pulmonar e extrapulmonar não muda os alvos de ventilação protetora, mas ajuda a antecipar o comportamento mecânico do pulmão e, sobretudo, a não esquecer de tratar a causa. Colher culturas e iniciar antimicrobiano precoce é parte do tratamento da SDRA, não algo à parte.
Tipo
Causas
Comportamento típico
Direta (pulmonar)
Pneumonia bacteriana e viral, aspiração de conteúdo gástrico, contusão pulmonar, quase afogamento, inalação de fumaça e de gases tóxicos, embolia gordurosa.
Consolidação mais focal e assimétrica, com menor recrutabilidade e complacência da parede torácica preservada. Costuma responder menos à PEEP alta.
Indireta (extrapulmonar)
Sepse de foco não pulmonar, pancreatite aguda grave, politrauma, transfusão maciça e TRALI, grande queimado, circulação extracorpórea, overdose.
Edema mais difuso e homogêneo, com maior recrutabilidade e frequente aumento da pressão intra-abdominal. Costuma responder melhor à PEEP e à prona.
Causa mais frequente
Pneumonia e sepse respondem pela maior parte dos casos em qualquer série.
Colher culturas e iniciar antimicrobiano precoce é parte do tratamento da SDRA.
Diante de SDRA sem causa evidente, procure ativamente: foco infeccioso oculto, pancreatite, transfusão recente, fármaco novo, exposição inalatória, aspiração não presenciada e doença autoimune. SDRA sem causa identificada é diagnóstico incompleto.
Fenótipos inflamatórios
Análises de agrupamento de grandes ensaios identificaram, de forma reprodutível, dois fenótipos biológicos com prognóstico e resposta ao tratamento distintos. É a base do movimento em direção à medicina de precisão na SDRA — e ajuda a explicar por que tantos ensaios terminaram neutros.
Fenótipo 1 — hipoinflamatório
Cerca de dois terços dos pacientes. Marcadores inflamatórios menos elevados, menor incidência de choque e de disfunção orgânica, com mortalidade menor. Nas reanálises, pareceu se beneficiar de estratégias com PEEP mais baixa e de manejo hídrico conservador.
Fenótipo 2 — hiperinflamatório
Cerca de um terço dos pacientes. Interleucina-6 e receptor solúvel de fator de necrose tumoral elevados, acidose, choque com vasopressor e mortalidade substancialmente maior. Nas reanálises, pareceu responder melhor a PEEP mais alta e mostrou sinal favorável com estratégias anti-inflamatórias.
Os fenótipos ainda são ferramenta de pesquisa: dependem de biomarcadores não disponíveis à beira do leito e não devem, hoje, guiar decisões individuais. Servem para entender por que ensaios com resultado neutro podem esconder subgrupos com benefício real.
Recrutabilidade — o fenótipo que importa hoje
Muito mais útil na prática diária do que o fenótipo inflamatório. A pergunta é simples: este pulmão abre com pressão, ou só se distende? A resposta define se vale subir a PEEP ou se ela só vai hiperdistender o baby lung e deprimir o ventrículo direito.
Sugerem alta recrutabilidade
SDRA de causa extrapulmonar, com edema difuso e homogêneo.
Melhora da oxigenação e da complacência ao aumentar a PEEP.
Queda da relação entre espaço morto e volume corrente com o aumento da PEEP.
Grande proporção de área colapsada gravidade-dependente na tomografia.
Boa resposta à posição prona.
Sugerem baixa recrutabilidade
SDRA de causa pulmonar, com consolidação focal e assimétrica.
PEEP alta que melhora a oxigenação mas piora a complacência — sinal de hiperdistensão, não de recrutamento.
Aumento da driving pressure ao subir a PEEP.
Queda da pressão arterial e do débito cardíaco com PEEP elevada.
Fase fibrótica tardia.
O teste prático de recrutabilidade é gratuito: suba a PEEP em 2 a 4 cmH₂O e observe a complacência estática e a driving pressure. Se a driving pressure cai, você recrutou. Se sobe, você hiperdistendeu — volte.
Em 30 segundos
O essencial de ventilação protetora
Volume corrente de 6 mL/kg de peso predito (faixa 4–8), calculado pela altura medida e pelo sexo — nunca pela balança.
Platô ≤ 30 cmH₂O e driving pressure ≤ 15 cmH₂O, medidos em pausa com o paciente passivo.
PEEP pela tabela do ARDSNet ou pela menor driving pressure; PEEP mais alta nos casos graves e recrutáveis.
SpO₂ 88–95% (PaO₂ 55–80 mmHg) e hipercapnia permissiva com pH ≥ 7,20.
As metas que reduzem mortalidade
A ventilação protetora é a única intervenção com benefício de mortalidade demonstrado em ensaio clínico de grande porte para a SDRA em geral. Tudo o mais é adjuvante ou de resgate. No ARMA, do ARDS Network, 6 mL/kg reduziu a mortalidade em comparação a 12 mL/kg — um dos maiores efeitos já demonstrados em terapia intensiva.
4–8 mL/kgVolume corrente de peso predito, alvo inicial 6 mL/kg
≤ 30 cmH₂OPlatô, em pausa inspiratória de 0,5 a 2 s
≤ 15 cmH₂ODriving pressure (platô − PEEP): a variável que melhor prediz mortalidade
pH ≥ 7,20Hipercapnia permissiva aceitável para proteger o pulmão
88–95%SpO₂ alvo (PaO₂ 55–80 mmHg); hiperóxia não traz benefício
< 17 J/minPotência mecânica — alvo exploratório, sem validação prospectiva
O volume corrente é calculado sobre o peso predito, derivado da altura e do sexo — nunca sobre o peso real. Usar o peso da balança em um paciente obeso pode significar entregar o dobro do volume corrente adequado.
Calculadora — peso predito e volume corrente
O peso predito depende apenas de altura e sexo: homens 50 + 0,91 × (altura em cm − 152,4); mulheres 45,5 + 0,91 × (altura em cm − 152,4). Calcule-o (ou leia na tabela abaixo) e informe-o na calculadora para obter a faixa completa de volume corrente. Reduza em direção a 4 mL/kg se o platô ultrapassar 30 cmH₂O ou a driving pressure ultrapassar 15 cmH₂O.
A 6 mL/kg com frequência de 25 irpm, o volume minuto fica em torno de 6 L/min num adulto de 70 kg de peso predito. Ajuste a frequência (até 35 irpm) pelo pH, vigiando auto-PEEP na curva de fluxo expiratório. A conta completa, com altura e sexo, está na calculadora Volume Corrente e Peso Predito.
Volume corrente pelo peso predito
No campo "Peso", digite o peso predito (não o peso real).
Volume corrente inicial6 mL/kg de peso predito
—
Limite inferior4 mL/kg — se platô > 30 ou driving > 15
—
Limite superior8 mL/kg — teto da faixa protetora
—
Meça a altura de verdade — a estimativa visual erra com frequência e, na SDRA, esse erro se traduz diretamente em volume corrente inadequado.
Altura
Peso predito — homem
VC 6 mL/kg — homem
Peso predito — mulher
VC 6 mL/kg — mulher
150 cm
47,8 kg
287 mL
43,3 kg
260 mL
155 cm
52,4 kg
314 mL
47,9 kg
287 mL
160 cm
56,9 kg
341 mL
52,4 kg
314 mL
165 cm
61,5 kg
369 mL
57,0 kg
342 mL
170 cm
66,0 kg
396 mL
61,5 kg
369 mL
175 cm
70,6 kg
423 mL
66,1 kg
396 mL
180 cm
75,1 kg
451 mL
70,6 kg
424 mL
185 cm
79,7 kg
478 mL
75,2 kg
451 mL
190 cm
84,2 kg
505 mL
79,7 kg
478 mL
Exemplo: homem de 175 cm → 50 + 0,91 × (175 − 152,4) = 70,6 kg; VC de 6 mL/kg ≈ 423 mL, faixa protetora de 282 a 565 mL.
Tabelas PEEP/FiO₂ do ARDSNet
São o método mais usado e mais reprodutível de titulação. A tabela de baixa PEEP foi a do estudo original de volume corrente baixo e é razoável na SDRA leve e no pulmão pouco recrutável; a de alta PEEP é a sugerida pela American Thoracic Society de 2024 na SDRA moderada a grave, sem manobras de recrutamento associadas. As diretrizes divergem, e a estratégia mais aceita é usar PEEP mais alta nos casos mais graves e recrutáveis.
FiO₂
PEEP — tabela baixa
PEEP — tabela alta
0,30
5
5 a 14
0,40
5 a 8
14 a 16
0,50
8 a 10
16 a 20
0,60
10
20
0,70
10 a 14
20
0,80
14
20 a 22
0,90
14 a 18
22
1,00
18 a 24
22 a 24
Valores em cmH₂O. Estas tabelas titulam a PEEP pela oxigenação; a titulação pela menor driving pressure é uma alternativa fisiologicamente mais racional e cada vez mais usada à beira do leito.
Como decidir entre as duas
Suba a PEEP em 2 a 4 cmH₂O e meça a driving pressure: se ela cai, houve recrutamento e a PEEP mais alta é adequada; se sobe, houve hiperdistensão e você deve voltar. Avalie também a repercussão hemodinâmica, sobretudo em pacientes com disfunção de ventrículo direito. Com FiO₂ de 80% ou mais, reavalie prona, PEEP, recrutabilidade e terapias de resgate.
Como montar o ventilador na prática
A sequência abaixo transforma as metas em ajustes concretos. O ponto de partida é sempre o mesmo número — o peso predito —, e a partir dele tudo é titulado pelo que se mede: platô, driving pressure, pH e oxigenação. Reavalie ao menos a cada 4 a 6 horas.
Meça a altura e calcule o peso predito
Anote no prontuário e no ventilador. Todo o resto depende desse número.
Escolha o modo
Controlado a volume ou a pressão; não há superioridade demonstrada de um sobre o outro. O que importa é o volume entregue e a pressão gerada.
Volume corrente de 6 mL/kg de peso predito
Ponto de partida, ajustável entre 4 e 8 conforme platô, driving pressure e pH.
Frequência respiratória
20 a 35 por minuto para compensar o volume minuto, vigiando auto-PEEP com a curva de fluxo expiratório.
PEEP inicial
Pela tabela correspondente à FiO₂, com alvo de SpO₂ entre 88% e 95%.
Meça platô e driving pressure
Pausa inspiratória com o paciente passivo. Platô acima de 30 ou driving acima de 15 exigem reduzir o volume corrente.
Teste a recrutabilidade
Varie a PEEP em 2 a 4 cmH₂O e observe a driving pressure: se cai, mantenha; se sobe, volte.
Reduza a FiO₂ assim que possível
Hiperóxia não traz benefício e pode ser deletéria.
Reavalie
Ao menos a cada 4 a 6 horas e após qualquer mudança clínica, de posição ou de sedação.
Se ao reduzir o volume corrente para 6 mL/kg o paciente ficar taquipneico e assincrônico, o caminho é otimizar sedação e analgesia — e, na SDRA moderada a grave precoce, considerar bloqueio neuromuscular. Não é motivo para voltar a volumes altos.
Alvo de oxigenação: nem hiperóxia, nem economia extrema
O alvo de SpO₂ de 88% a 95% (PaO₂ de 55 a 80 mmHg) vem dos protocolos do ARDSNet e continua sendo o padrão. Perseguir 100% não traz benefício e mantém FiO₂ alta sem necessidade. No sentido oposto, apertar ainda mais o alvo também não ajudou: no UK-ROX (2025), com mais de 16 mil adultos ventilados, a estratégia conservadora (SpO₂ alvo em torno de 90%, 88–92%) não reduziu a mortalidade em 90 dias em comparação ao cuidado habitual.
Na prática: reduza a FiO₂ até a menor fração que mantém a SpO₂ dentro de 88–95%, sem tentar "economizar" oxigênio abaixo dessa faixa. Gestantes e pacientes com hipertensão intracraniana ou isquemia miocárdica têm alvos próprios (veja Cenários especiais).
Em 30 segundos
O essencial de mecânica
Platô e driving pressure só valem com o paciente passivo e somando a auto-PEEP à PEEP programada.
Pico alto com platô normal é problema de resistência (tubo, secreção, broncoespasmo), não de parênquima.
Hipercapnia permissiva é aceitável (pH ≥ 7,20), exceto em hipertensão intracraniana; esforço vigoroso do paciente também lesa (P-SILI).
As pressões que você precisa medir
Monitorar SDRA sem medir platô e driving pressure é como tratar hipertensão sem aferir a pressão. As medidas exigem apenas uma pausa inspiratória, uma pausa expiratória e um paciente passivo — e informam, em minutos, se o ventilador está protegendo ou lesando o pulmão.
Variável
Como se obtém
O que significa
Pressão de pico
Leitura direta no ventilador durante a inspiração.
Reflete resistência das vias aéreas mais complacência. Isoladamente, informa pouco sobre lesão pulmonar.
Pressão de platô
Pausa inspiratória de 0,5 a 2 segundos, com o paciente passivo.
Pressão alveolar no fim da inspiração. Alvo ≤ 30 cmH₂O. Pico alto com platô normal aponta para resistência, não para o pulmão.
Driving pressure
Platô menos PEEP total (inclua a auto-PEEP quando presente).
Volume corrente normalizado pela complacência. Alvo ≤ 15 cmH₂O. É a variável ventilatória que melhor se associa a mortalidade.
Complacência estática
Volume corrente dividido pela driving pressure.
Reflete o tamanho funcional do baby lung. Valores abaixo de 30 mL/cmH₂O indicam doença grave.
Auto-PEEP
Pausa expiratória, com o paciente passivo.
PEEP oculta que se soma à programada. Ignorá-la superestima a driving pressure real e mascara hiperinsuflação.
Potência mecânica
Calculada a partir de volume, frequência, pico e driving pressure.
Energia total entregue ao pulmão por minuto. Integra volume, pressão e frequência em um número só. Alvo exploratório abaixo de 17 J/min.
Pressão transpulmonar
Requer cateter de balão esofágico.
Separa o que é pressão do pulmão do que é pressão da parede torácica. Útil em obesidade e hipertensão intra-abdominal.
Platô e driving pressure só são válidos com o paciente passivo. Esforço inspiratório durante a pausa falseia a medida — em geral para menos, criando falsa sensação de segurança.
Calculadora — mecânica ventilatória
Com os parâmetros medidos no paciente passivo, faça as contas: driving pressure = platô − PEEP total; complacência estática = volume corrente ÷ driving pressure; potência mecânica (equação simplificada de Gattinoni, volume controlado com fluxo constante) = 0,098 × FR × VC (L) × [pico − (driving pressure ÷ 2)]. Depois, selecione as faixas abaixo para a leitura interpretativa.
Selecione a faixa da driving pressure e da complacência.
A potência mecânica é uma ferramenta de pesquisa promissora, com limiar de dano ainda não validado prospectivamente — use como tendência, não como meta rígida.
Como ler os demais resultados
Além da driving pressure, três números completam a leitura da mecânica: a potência mecânica, o volume corrente por quilo de peso predito e a diferença entre pico e platô. Todos pressupõem paciente passivo e PEEP total (programada mais auto-PEEP).
Resultado
Faixa
Leitura
Potência mecânica
< 12 J/min
Baixa, com perfil favorável de energia entregue ao pulmão.
Potência mecânica
12 a 17 J/min
Intermediária, dentro da faixa habitualmente considerada aceitável.
Potência mecânica
> 17 J/min
Faixa associada a maior risco em estudos observacionais. Considere reduzir volume corrente, frequência ou PEEP, conforme o que mais contribui.
VC por peso predito
> 8 mL/kg
Acima da faixa protetora: reduza o volume corrente.
VC por peso predito
< 4 mL/kg
Vigie hipercapnia grave e atelectasia; confira se o peso predito está correto.
Pico − platô
> 15 cmH₂O
Componente resistivo elevado: secreção, tubo dobrado ou de calibre pequeno, broncoespasmo, mordedura do tubo. Não é problema do parênquima.
Pico − platô
11 a 15 cmH₂O
Limite superior: considere aspirar e checar o circuito. Até 10 cmH₂O é normal.
Hipercapnia permissiva
Reduzir o volume corrente eleva a PaCO₂ — e isso é aceitável e esperado. Proteger o pulmão vale mais do que normalizar a gasometria. O que muda a decisão são os limites do pH e os pacientes em que o CO₂ alto cobra um preço maior.
Limite tolerável
pH acima de 7,20 é geralmente bem tolerado. Alguns protocolos aceitam até 7,15 em situações limitadas, com monitorização estrita.
Como manejar
Aumentar a frequência respiratória até 35 por minuto (vigiando auto-PEEP), reduzir espaço morto do circuito e tratar febre, agitação e sepse, que aumentam a produção de CO₂.
Contraindicações relativas
Hipertensão intracraniana, isquemia miocárdica aguda, hipertensão pulmonar grave com disfunção de ventrículo direito e acidose metabólica grave já instalada.
Bicarbonato
Não é rotina. Pode aumentar a produção de CO₂ e piorar a acidose intracelular. Reserve para acidose metabólica concomitante grave, conforme protocolo.
Antes de aceitar hipercapnia progressiva, exclua causas corrigíveis de aumento do espaço morto: auto-PEEP, tubo parcialmente obstruído, embolia pulmonar e hiperdistensão por PEEP excessiva.
Lesão pulmonar autoinfligida pelo paciente
O conceito de P-SILI descreve a lesão causada pelo esforço respiratório vigoroso do próprio paciente, em ventilação espontânea ou assistida. O paciente com drive elevado gera pressões transpulmonares altas mesmo com o ventilador programado de forma protetora. A magnitude clínica do fenômeno ainda é debatida, e ele não deve justificar intubação precoce indiscriminada em quem responde bem ao suporte não invasivo.
Sinais de alerta — volume corrente espontâneo elevado, uso de musculatura acessória, frequência respiratória alta persistente, oscilação exagerada da pressão de vias aéreas e assincronia com duplo disparo.
Pressão de oclusão (P 0.1) — valores muito elevados sugerem drive respiratório excessivo; muito baixos sugerem sedação profunda demais.
Pressão de oclusão expiratória — a manobra de oclusão ao fim da expiração estima o esforço muscular e a pressão de platô dinâmica.
O que fazer — otimizar analgesia e sedação, corrigir causas de drive elevado (dor, febre, acidose, ansiedade, hipoxemia), ajustar o ventilador e, na SDRA moderada a grave precoce, considerar bloqueio neuromuscular.
Em 30 segundos
O essencial de conduta e resgate
Base para todos: tratar a causa, ventilação protetora, PEEP titulada, analgossedação adequada e balanço hídrico conservador após o choque.
P/F < 150: prona ≥ 16 h por sessão, iniciada cedo; considerar bloqueio neuromuscular na fase precoce e corticoide dentro de 14 dias.
Refratária: ECMO venovenosa em centro de referência pelos critérios do EOLIA — acionar cedo; óxido nítrico só como ponte.
Não fazer: recrutamento prolongado, ventilação oscilatória, remoção isolada de CO₂, hiperóxia e balanço positivo após o choque.
Escalonamento por gravidade
A sequência é a mesma em qualquer serviço: primeiro o que tem benefício demonstrado e custo baixo, depois o que exige mais recurso e tem evidência mais frágil. Pular etapas não acelera nada — e quase todo paciente "refratário" deve ser reexaminado à luz da primeira etapa.
Base — todos os pacientes (sempre)
Tratar a causa, ventilação protetora com 4 a 8 mL/kg de peso predito, platô ≤ 30, driving pressure ≤ 15, PEEP titulada, sedação e analgesia adequadas, e balanço hídrico conservador após a estabilização hemodinâmica.
Moderada a grave — P/F < 150 (precoce)
Posição prona por 16 horas ou mais por sessão, iniciada cedo. Considerar bloqueio neuromuscular na fase precoce e corticoide sistêmico dentro dos primeiros 14 dias. Reavaliar PEEP e recrutabilidade.
Refratária — resgate (centro especializado)
ECMO venovenosa em centro de referência, segundo os critérios do EOLIA. Vasodilatador inalatório apenas como ponte. Contato precoce com o serviço de ECMO — transferir cedo é melhor que transferir tarde.
Suporte e prevenção (em paralelo)
Nutrição, profilaxias, pacote de prevenção de pneumonia associada à ventilação, mobilização precoce quando possível, prevenção de delirium e planejamento do desmame e da reabilitação.
Antes de escalonar para ECMO, as diretrizes pedem que se esgote o que é menos invasivo: ventilação protetora bem feita, PEEP otimizada, bloqueio neuromuscular e prona adequada. Muitos pacientes "refratários" na verdade nunca foram pronados por 16 horas.
Onde as diretrizes divergem
As atualizações da American Thoracic Society (2024) e da European Society of Intensive Care Medicine (2023) concordam no essencial e divergem em três pontos — PEEP alta, bloqueio neuromuscular e corticoide — que vale conhecer antes de discutir um caso. Sobre o corticoide, a atualização de 2024 da Society of Critical Care Medicine também sugere o uso na SDRA (recomendação condicional) e recomenda fortemente na pneumonia comunitária bacteriana grave.
Intervenção
ATS 2024
ESICM 2023
Volume corrente baixo
Recomendação forte a favor.
Concordante — recomendação forte a favor.
Posição prona
Recomendação forte a favor na SDRA grave.
Concordante — recomendação forte a favor na moderada a grave.
Manobras de recrutamento prolongadas
Recomendação forte contra.
Concordante — recomendação forte contra.
PEEP mais alta
Sugere PEEP mais alta sem manobras de recrutamento na moderada a grave (condicional).
Não emite recomendação, por resultados inconsistentes entre os estudos.
Bloqueio neuromuscular
Sugere uso na SDRA grave precoce (condicional a favor).
Recomendação forte contra o uso rotineiro em infusão contínua.
Corticoide sistêmico
Sugere uso (condicional a favor), iniciado em até 14 dias.
Não aborda o tema nesta diretriz.
ECMO venovenosa
Sugere em pacientes selecionados com SDRA grave (condicional).
Recomendação forte a favor, pelos critérios do EOLIA, em centro especializado.
Ventilação oscilatória de alta frequência
Recomendação forte contra.
Concordante — não recomendada.
A divergência sobre o bloqueio neuromuscular vem da diferença entre o ACURASYS, favorável, e o ROSE, neutro — que usaram estratégias de sedação e de PEEP distintas. Na prática, a leitura mais aceita é reservá-lo para a SDRA grave precoce com assincronia ou drive elevado, e não usá-lo de rotina em todos.
Tratar a causa
SDRA é síndrome, não diagnóstico. Nenhuma estratégia ventilatória compensa uma causa não tratada — e a causa mais frequente, de longe, é infecciosa. Se o paciente não melhora como esperado, a primeira pergunta é sobre a causa: ela está tratada? Existe um segundo foco? Surgiu infecção nova?
Prioridade absoluta: identificar e tratar o insulto — pneumonia, sepse de qualquer foco, aspiração, pancreatite, trauma, transfusão, fármaco ou exposição.
Infecção: culturas antes do antimicrobiano quando isso não atrasar, antibiótico empírico precoce e adequado ao foco, e controle cirúrgico ou percutâneo do foco quando aplicável.
Descalonamento: reavalie o esquema com as culturas em 48 a 72 horas — antibiótico desnecessário prolongado gera resistência e disfunção adicional.
Aspiração: não há indicação de antibiótico profilático na aspiração de conteúdo gástrico estéril; trate se houver evidência de infecção subsequente.
Fármacos: revise a prescrição inteira — amiodarona, bleomicina, nitrofurantoína, metotrexato e inibidores de checkpoint imunológico.
Sem causa evidente: considere lavado broncoalveolar, tomografia de tórax, sorologias, painel autoimune e avaliação da pneumologia. Hemorragia alveolar e pneumonia eosinofílica mudam completamente a conduta.
SDRA sem causa identificada é diagnóstico incompleto. Vale reservar tempo da visita diária especificamente para essa pergunta.
Ventilação protetora e titulação da PEEP
A ventilação protetora (detalhada na aba própria) é a base de tudo: 4 a 8 mL/kg de peso predito, platô ≤ 30, driving pressure ≤ 15, frequência de 20 a 35 irpm, SpO₂ 88–95% e pH acima de 7,20. O erro mais comum continua sendo calcular o volume pelo peso real; anote o peso predito no prontuário e no próprio ventilador — ele não muda ao longo da internação.
A PEEP mantém alvéolos instáveis abertos e evita atelectrauma, mas em excesso hiperdistende o baby lung e compromete o ventrículo direito. Não existe PEEP ideal universal: existe a PEEP que, neste paciente e neste momento, dá a menor driving pressure sem comprometer a hemodinâmica.
Sinais de PEEP excessiva
Queda da complacência, aumento da driving pressure, hipotensão, aumento do espaço morto e disfunção de ventrículo direito ao ecocardiograma.
Sinais de PEEP insuficiente
Hipoxemia refratária, colapso expiratório visível na tomografia e melhora franca da oxigenação e da complacência ao aumentá-la.
Métodos de titulação
Tabela PEEP/FiO₂ do ARDSNet (baixa ou alta, conforme gravidade e recrutabilidade); titulação pela menor driving pressure, variando a PEEP em 2 a 4 cmH₂O; e métodos avançados — pressão transpulmonar por balão esofágico (obesidade, hipertensão intra-abdominal) e tomografia de impedância elétrica, onde disponíveis. Sempre meça a auto-PEEP em pausa expiratória e some à PEEP programada.
Manejo hídrico
Balanço hídrico positivo aumenta o edema pulmonar e prolonga a ventilação. No FACTT, a estratégia conservadora aumentou os dias livres de ventilação mecânica sem aumentar a necessidade de diálise, embora não tenha reduzido mortalidade. A regra é de tempo: durante a ressuscitação da sepse, a prioridade é a perfusão; depois da resolução do choque, o alvo passa a ser balanço neutro ou negativo.
Alvo prático
Balanço neutro ou negativo, com atenção diária ao acumulado desde a admissão — o balanço cumulativo é o que mais importa.
Diurético
em bolus ou infusão contínua, titulada pela resposta, desde que a hemodinâmica permita. Albumina pode ser associada em hipoalbuminemia significativa, com evidência limitada.
Monitorização
Débito urinário, função renal, eletrólitos, lactato e parâmetros dinâmicos de responsividade a volume.
Volume escondido
Some o volume de dietas, diluições e infusões contínuas ao balanço — muitas vezes é aí que está o excesso.
Depleção excessiva causa hipotensão, lesão renal e hipoperfusão: o alvo é euvolemia, não desidratação. Revisite o balanço acumulado na visita diária — alguns litros positivos ao longo de uma semana explicam boa parte da piora inexplicada da oxigenação.
Suporte e profilaxias
O paciente com SDRA morre mais frequentemente de complicações e de disfunção de múltiplos órgãos do que de hipoxemia. O pacote de suporte é parte do tratamento — e é comum a equipe dedicar toda a atenção ao ventilador e negligenciá-lo. Uma checagem estruturada na visita diária resolve isso.
Nutrição: enteral precoce, nas primeiras 24 a 48 horas, começando com aporte trófico e progredindo conforme a tolerância. Nutrição hipocalórica inicial é aceitável.
Profilaxia de tromboembolismo: farmacológica quando não houver contraindicação — o risco trombótico é elevado, especialmente na SDRA por COVID-19.
Profilaxia de úlcera de estresse: em ventilação mecânica prolongada e coagulopatia, conforme protocolo institucional.
Prevenção de pneumonia associada à ventilação: cabeceira a 30–45 graus, higiene oral, aspiração subglótica quando disponível e avaliação diária de extubação.
Controle glicêmico: alvo habitual entre 140 e 180 mg/dL, evitando hipoglicemia.
Delirium: rastreio com CAM-ICU ou ICDSC a cada turno, higiene do sono, reorientação e mobilização — pacote ABCDEF.
Mobilização precoce: assim que a estabilidade permitir, mesmo sob ventilação mecânica, com a fisioterapia.
Lesão por pressão: risco alto, sobretudo durante a prona — mudança de decúbito, proteção de proeminências e inspeção sistemática da face.
Comunicação com a família: atualizações regulares, expectativas realistas e discussão de objetivos de cuidado desde cedo.
Posição prona
É a intervenção com maior benefício de mortalidade depois da própria ventilação protetora, custa praticamente nada e continua sendo a mais subutilizada do mundo. Ela homogeneíza a pressão transpulmonar, recruta regiões dorsais, melhora a relação ventilação/perfusão, reduz a compressão pelo coração e pelo abdome e diminui a lesão induzida pelo ventilador. No PROSEVA, a prona prolongada reduziu de forma expressiva a mortalidade em 28 e em 90 dias na SDRA grave.
Indicação: P/F abaixo de 150, com FiO₂ ≥ 0,6 e PEEP ≥ 5, após período de estabilização com ventilação protetora, idealmente nas primeiras 36 a 48 horas, em sessões de 16 horas ou mais. Suspenda quando houver melhora sustentada — P/F acima de 150 em supino, com PEEP ≤ 10 e FiO₂ ≤ 0,6, mantida por pelo menos 4 horas após o retorno.
Contraindicações
Instabilidade hemodinâmica grave não corrigida, hipertensão intracraniana não monitorizada, fratura instável de coluna ou pelve, abdome aberto; relativas: gestação avançada e esternotomia recente.
Equipe
Mínimo de 3 a 5 pessoas, uma dedicada exclusivamente à via aérea. Checklist e treinamento reduzem complicações de forma marcante.
Complicações
Lesão por pressão em face e tórax, edema facial e periorbitário, perda de dispositivos, extubação acidental, obstrução do tubo, plexopatia braquial e regurgitação.
Prevenção
Proteção de proeminências, mudança da posição da cabeça a cada 2 horas, pausa da dieta antes do giro, olhos protegidos e conferência de todos os dispositivos antes e depois.
A prona vigil pode ser considerada na insuficiência respiratória hipoxêmica aguda em não intubados, sobretudo em COVID-19, sem substituir a intubação quando ela está indicada. Se o seu serviço não prona por dificuldade logística, esse é provavelmente o ponto com maior potencial de ganho em desfecho — vale um protocolo formal e treinamento da equipe.
Manobras de recrutamento
A ideia de abrir o pulmão com pressão alta e mantê-lo aberto é fisiologicamente atraente e clinicamente perigosa. No ART, ensaio brasileiro publicado em 2017, a manobra de recrutamento com titulação decremental de PEEP aumentou a mortalidade em 28 dias em comparação à estratégia de baixa PEEP — por hiperdistensão do baby lung, hipotensão por queda do retorno venoso, barotrauma e piora do ventrículo direito. Ambas as diretrizes fazem recomendação forte contra as manobras prolongadas.
O que ainda é aceitável
Aumentos modestos e sustentados de PEEP, avaliados pela driving pressure.
Insuflação sustentada breve para reverter desrecrutamento após aspiração ou desconexão acidental, conforme protocolo.
A posição prona, que recruta regiões dorsais sem os riscos das manobras de alta pressão.
O que não fazer
Manobras de pressão elevada por tempo prolongado, de forma sistemática.
Interpretar a melhora transitória da oxigenação durante a manobra como benefício — oxigenação não é desfecho; mortalidade é.
O ART é brasileiro e continua sendo uma das contribuições mais importantes do país à medicina intensiva mundial. Vale citá-lo em aula — e em prova.
Rotas de tratamento
Cada rota corresponde a uma etapa do escalonamento. Abra a rota para ver doses, diluições e velocidades; o botão "Ver detalhes" abre a ficha completa de cada medicamento.
Quando esta rota entraTodo paciente com SDRA em ventilação invasiva. Diurético só depois da resolução do choque.
Comece pela analgesia (analgossedação): boa parte da agitação é dor não tratada. O alvo é sedação leve, com RASS entre −2 e 0, sempre que a estratégia ventilatória permitir; na fase inicial da SDRA grave, alvos mais profundos podem ser necessários. Antes de aprofundar a sedação por assincronia, ajuste o ventilador — sensibilidade, fluxo, tempo inspiratório e frequência: duplo disparo frequentemente responde a ajuste, não a mais droga.
Analgesia e sedação contínuas4 esquemas
Indicação
Dose
Via / velocidade
Duração
Observações
1ª escolhaFentanil
Bolus 1–2 mcg/kg; infusão 0,5–2 mcg/kg/h
BIC; 1.000 mcg em 100 mL = 10 mcg/mL → 7 mL/h para 1 mcg/kg/h em 70 kg
Reavaliar diariamente
Analgesia primeiro: base da analgossedação.
PreferencialPropofol
5–50 mcg/kg/min (≈ 0,3–3 mg/kg/h)
BIC, puro a 1% (10 mg/mL) → 8,4 mL/h para 20 mcg/kg/min em 70 kg
Despertar diário quando possível
Despertar rápido; atenção a hipotensão, triglicérides e aporte calórico.
AlternativaDexmedetomidina
0,2–1,4 mcg/kg/h
BIC; 200 mcg em 50 mL = 4 mcg/mL
Fase de desmame da sedação
Sedação cooperativa, menos delirium; insuficiente isolada na fase aguda da SDRA grave.
ReservaMidazolam
0,02–0,1 mg/kg/h
BIC; 150 mg em 150 mL = 1 mg/mL
O menor tempo possível
Quando as demais falham ou há instabilidade grave; mais delirium e acúmulo.
Balanço conservador (após o choque)1 esquema
Indicação
Dose
Via / velocidade
Duração
Observações
Após estabilizarFurosemida
20–40 mg em bolus; ou 5–20 mg/h
IV em bolus ou BIC (100 mg em 100 mL = 1 mg/mL)
Até balanço neutro/negativo
Titular pela diurese e pela hemodinâmica; alvo euvolemia.
Erro comum
Voltar a volumes correntes altos porque o paciente está assincrônico. O caminho é ajustar sedação e ventilador, não abandonar a proteção pulmonar. Retome o despertar diário assim que a fase aguda permitir, acoplado ao teste de respiração espontânea — sedação profunda prolongada aumenta delirium, fraqueza e tempo de ventilação. Confira diluições e faixas de dose no protocolo do seu serviço.
Quando esta rota entraP/F abaixo de 150 após otimização da ventilação protetora; bloqueio nas primeiras 48 h com assincronia ou drive elevado; corticoide em até 14 dias do início.
O bloqueio neuromuscular abole o esforço do paciente, elimina a assincronia e reduz a lesão autoinfligida. A ATS 2024 sugere o uso na SDRA grave e precoce; a ESICM 2023 recomenda fortemente contra o uso rotineiro — o ACURASYS mostrou benefício e o ROSE, com sedação mais leve no controle e PEEP mais alta, foi neutro. O cisatracúrio é preferido por ser metabolizado pela via de Hofmann, independente de rim e fígado. Pré-requisito absoluto: sedação profunda garantida antes do bloqueador — paciente paralisado e consciente é evento adverso grave.
O corticoide sistêmico é sugerido pela ATS 2024 (condicional) e pela atualização da SCCM 2024 (condicional na SDRA; forte na pneumonia comunitária bacteriana grave). O benefício parece maior quando iniciado cedo e em etiologias específicas — COVID-19, pneumonia comunitária grave e pneumonia eosinofílica aguda, esta com resposta dramática. A evidência é mais frágil na SDRA não viral: individualize.
Só com sedação profunda; monitorar sequência de quatro estímulos.
Cisatracúrio (besilato)37,5 mg/h
BIC; 150 mg em 150 mL = 1 mg/mL → 37,5 mL/h
48 horas; não prolongar sem reavaliar
Corticoide sistêmico (iniciar em até 14 dias)4 esquemas
Indicação
Dose
Via / velocidade
Duração
Observações
PreferencialDexametasona — DEXA-ARDS
Dexametasona (fosfato dissódico)20 mg 1x/dia
IV
Dias 1 a 5
SDRA moderada a grave em geral.
Dexametasona (fosfato dissódico)10 mg 1x/dia
IV
Dias 6 a 10
COVID-19Dexametasona — COVID-19
6 mg 1x/dia
IV ou VO
Até 10 dias
Esquema do RECOVERY; doses maiores foram estudadas em casos mais graves.
PAC graveHidrocortisona — PAC grave
200 mg/dia
IV (infusão contínua ou 50 mg 6/6 h)
4 dias, depois redução (total 8 ou 14 dias)
Esquema do CAPE COD; o estudo excluiu choque séptico e influenza.
AlternativaMetilprednisolona
1–2 mg/kg/dia
IV
Redução gradual conforme protocolo
Conforme protocolo institucional.
Antes do corticoide (área endêmica)1 esquema
Indicação
Dose
Via / velocidade
Duração
Observações
ProfilaxiaIvermectina
200 mcg/kg
VO ou por sonda, 1x/dia
1 a 2 dias
Previne a hiperinfecção por Strongyloides; relevante em boa parte do Brasil.
Cuidados com bloqueio e corticoide
Bloqueio: monitorize com estimulador de nervo periférico (sequência de quatro estímulos) e vigie úlcera de córnea, lesão por pressão e trombose; uso além de 48 horas associa-se a fraqueza adquirida. Otimizar sedação, analgesia e ventilador resolve boa parte das assincronias sem bloqueio. Corticoide: contraindicações relativas são infecção fúngica ou parasitária não tratada, tuberculose ativa não tratada, sangramento digestivo ativo e imunossupressão profunda; monitore glicemia, infecção secundária, delirium e sangramento digestivo, e reavalie diariamente a manutenção. Começar depois de 14 dias, na fase fibrótica, associa-se a piores desfechos.
Quando esta rota entraHipoxemia refratária apesar de prona, PEEP otimizada e bloqueio; disfunção grave de VD com hipertensão pulmonar.
Trate a resposta ao vasodilatador como um teste com prazo: avalie em 15 a 30 minutos e, se não houver ganho relevante da oxigenação, suspenda — ele não vai aparecer depois. A retirada deve ser gradual, pelo risco de hipoxemia e hipertensão pulmonar de rebote. Não é recomendado de rotina, apenas como resgate individualizado.
Vasodilatador inalatório (ponte)2 esquemas
Indicação
Dose
Via / velocidade
Duração
Observações
ResgateÓxido nítrico inalatório
5–20 ppm
Inalatório, no ramo inspiratório do circuito
Teste de 15–30 min; retirada gradual
Sem redução de mortalidade; mais lesão renal aguda.
Efeito semelhante, sem equipamento específico de óxido nítrico; custo menor em alguns serviços.
Cor pulmonale agudo — suporte ao VD2 esquemas
Indicação
Dose
Via / velocidade
Duração
Observações
1ª escolhaNoradrenalina
0,05–0,5 mcg/kg/min
BIC; 16 mg em 250 mL = 64 mcg/mL → 6,6 mL/h para 0,1 mcg/kg/min em 70 kg
Titular pela PAM
Mantém a pressão de perfusão coronariana do VD.
Se disfunção significativaInotrópico (dobutamina)
2,5–10 mcg/kg/min
BIC
Pela resposta
Quando há disfunção sistólica importante do VD com baixo débito.
Monitore metemoglobina e dióxido de nitrogênio no uso de óxido nítrico e a função renal em ambos os vasodilatadores. No cor pulmonale, evite sobrecarga volêmica, que distende ainda mais o ventrículo direito.
Quando esta rota entraCausa em resolução, PEEP ≤ 8 cmH₂O, FiO₂ ≤ 0,4–0,5, hemodinâmica estável e consciência adequada.
Etapas do desmame3 esquemas
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
PadrãoTeste de respiração espontânea
Tubo T ou PS 5–8 cmH₂O com PEEP 0–5
Diário, acoplado ao despertar
30 a 120 minutos
Falha: FR > 35, musculatura acessória, queda de SpO₂, taquicardia, hipertensão, agitação ou sudorese.
Pacientes de riscoSuporte pós-extubação
Cânula nasal de alto fluxo ou VNI profilática
Logo após a extubação
Individualizada
Reduz reintubação em pacientes de risco.
IndividualizadaTraqueostomia
Percutânea ou cirúrgica
Fora da fase de hipoxemia grave
Em geral após 10–14 dias
Precoce de rotina não reduz mortalidade.
ECMO venovenosa
Substitui temporariamente a função pulmonar e permite ventilação ultraprotetora — volume corrente muito baixo, driving pressure mínima, frequência reduzida e PEEP mantida para evitar colapso total — enquanto o pulmão se recupera. Exige centro com volume, indicação criteriosa e, sobretudo, acionamento precoce: muitos centros têm equipe móvel que canula no hospital de origem.
O EOLIA não atingiu significância no desfecho primário, mas a análise bayesiana e metanálises posteriores sugerem benefício em pacientes selecionados. A janela ideal são os primeiros 7 dias de ventilação mecânica, com causa reversível identificada. Escores como RESP e PRESERVE ajudam a estimar sobrevida; a prona durante a ECMO é possível e cada vez mais praticada em centros experientes.
Critérios do EOLIA
Apesar de ventilação otimizada: P/F < 50 por mais de 3 h; ou < 80 por mais de 6 h; ou pH < 7,25 com PaCO₂ ≥ 60 mmHg por mais de 6 h.
Contraindicações
Ventilação mecânica prolongada (geralmente acima de 7 a 10 dias), doença de base sem reversibilidade, neoplasia avançada, lesão neurológica grave irreversível, contraindicação absoluta a anticoagulação e falência de múltiplos órgãos estabelecida.
Complicações
Sangramento, trombose, hemólise, infecção de cânula, isquemia de membro e complicações neurológicas.
Antes de indicar
Esgotar o menos invasivo: ventilação protetora bem feita, PEEP otimizada, bloqueio neuromuscular e prona por 16 horas ou mais.
O erro mais comum com ECMO não é indicar mal: é acionar tarde. Uma ligação precoce ao centro de referência não compromete nada e frequentemente muda o desfecho — ligue antes de o paciente entrar em falência de múltiplos órgãos.
Escore de Murray (Lung Injury Score)
O Lung Injury Score de Murray quantifica a gravidade da lesão pulmonar e é uma das referências históricas para indicação de ECMO: um escore ≥ 3,0 foi critério de inclusão do CESAR. Pontue cada um dos quatro componentes de 0 a 4, some e divida por 4 — ou selecione a soma abaixo.
Pontos
Radiografia (quadrantes)
PaO₂/FiO₂
PEEP (cmH₂O)
Complacência (mL/cmH₂O)
0
Nenhum
≥ 300
≤ 5
≥ 80
1
1 quadrante
225 a 299
6 a 8
60 a 79
2
2 quadrantes
175 a 224
9 a 11
40 a 59
3
3 quadrantes
100 a 174
12 a 14
20 a 39
4
4 quadrantes
< 100
≥ 15
≤ 19
Escore de Murray — interpretação
Some os pontos dos 4 componentes da tabela; o escore é a soma ÷ 4.
Selecione a soma dos pontos.
Interpretação: 0 = sem lesão; 0,1 a 2,5 = leve a moderada; acima de 2,5 = grave. O escore isolado não indica ECMO — a decisão depende dos critérios do EOLIA, da reversibilidade, das contraindicações e da avaliação do centro de referência.
Cor pulmonale agudo
Ocorre em parcela relevante da SDRA grave e é subdiagnosticado. Quase tudo o que fazemos pelo pulmão — PEEP elevada, driving pressure alta, hipercapnia, hipoxemia grave, acidose — piora a pós-carga do ventrículo direito, e a pneumonia como causa da SDRA também aumenta o risco. O ecocardiograma mostra relação entre as áreas de VD e VE aumentada, septo paradoxal e disfunção sistólica do VD.
Estratégia protetora do VD
Limitar a driving pressure e evitar PEEP excessiva.
Evitar hipercapnia extrema — manter PaCO₂ abaixo de aproximadamente 60 mmHg.
Considerar prona: melhora a oxigenação, permite reduzir PEEP e FiO₂ e frequentemente melhora o VD.
Manejo hemodinâmico
Evitar sobrecarga volêmica, que distende ainda mais o VD.
para a pressão de perfusão coronariana; inotrópico se disfunção significativa.
Vasodilatador inalatório para reduzir a pós-carga do VD neste contexto específico.
Disfunção grave de VD com hipoxemia ou hipercapnia refratárias é um dos cenários em que a ECMO tende a ser mais benéfica. Vale incorporar ecocardiograma seriado à rotina da SDRA grave: o ventrículo direito é o órgão mais frequentemente esquecido nessa síndrome.
Terapias sem benefício demonstrado
Saber o que não fazer é parte substancial do tratamento da SDRA. A história desta síndrome é feita de intervenções promissoras que não se confirmaram — conhecê-las evita gastar tempo, recurso e risco com o que não funciona.
Ventilação oscilatória de alta frequência — não recomendada; no OSCILLATE e no OSCAR foi neutra ou prejudicial na SDRA moderada a grave.
Remoção extracorpórea de CO₂ isolada — não recomendada para permitir volumes ultrabaixos; o REST foi interrompido sem benefício e com mais eventos adversos.
Óxido nítrico inalatório de rotina — melhora a oxigenação sem reduzir mortalidade, com risco de lesão renal; apenas como resgate individualizado.
Surfactante exógeno — sem benefício no adulto, ao contrário do recém-nascido.
Beta-agonista endovenoso ou inalatório de rotina — ALTA e BALTI-2 negativos, com sinal de dano no segundo.
Estatinas — SAILS e HARP-2 neutros na população geral de SDRA.
Ômega-3 e antioxidantes — OMEGA negativo, com sinal de dano.
Manobras de recrutamento prolongadas — recomendação forte contra, após o ART.
Balanço hídrico liberal após o choque — prolonga a ventilação mecânica (FACTT).
Hiperóxia — perseguir SpO₂ de 100% não traz benefício e pode ser deletério.
Desmame da ventilação
O desmame começa antes do que se imagina: triagem diária de prontidão, acoplada à interrupção da sedação, desde a fase de estabilização reduz tempo de ventilação e complicações. Muitos pacientes com SDRA ficam ventilados além do necessário porque ninguém aplicou a triagem naquele dia — um checklist diário resolve boa parte disso.
Critérios de prontidão
Causa em resolução, PEEP ≤ 8 cmH₂O, FiO₂ ≤ 0,4 a 0,5 com SpO₂ adequada, hemodinâmica estável com pouco ou nenhum vasopressor, consciência adequada e tosse eficaz.
Teste de respiração espontânea
30 a 120 minutos em tubo T ou pressão de suporte baixa (5 a 8 cmH₂O), com PEEP de 0 a 5. Falha: FR > 35, musculatura acessória, queda da saturação, taquicardia, hipertensão, agitação ou sudorese.
Índice de respiração rápida e superficial
Frequência ÷ volume corrente em litros; abaixo de 105 sugere maior chance de sucesso, mas não decide isoladamente.
O que atrasa
Fraqueza adquirida, delirium, disfunção diafragmática, sobrecarga hídrica e desnutrição. Após extubar, alto fluxo ou VNI profilática nos pacientes de risco — reintubação piora o prognóstico.
Traqueostomia
Reduz sedação, facilita a higiene brônquica, melhora o conforto, permite fala e deglutição e facilita a reabilitação — mas a traqueostomia precoce de rotina não demonstrou reduzir mortalidade. Considere quando há expectativa de ventilação prolongada, geralmente após 10 a 14 dias, com falha ou previsão de falha do desmame; a técnica (percutânea à beira do leito ou cirúrgica) depende de anatomia, coagulação e experiência.
As complicações incluem sangramento, falso trajeto, pneumotórax, infecção do estoma e estenose traqueal tardia. A decanulação vem após estabilidade respiratória, tosse eficaz, deglutição segura e via aérea pérvia confirmada.
Na SDRA, evite o procedimento durante hipoxemia grave, PEEP alta ou instabilidade: ele exige desconexão e pode causar desrecrutamento. Costuma ficar mais bem posicionado depois da resolução da fase aguda.
Reabilitação e síndrome pós-terapia intensiva
Sobreviver à SDRA está longe de ser o fim. Fraqueza, comprometimento cognitivo e sintomas psiquiátricos persistem por meses a anos em boa parte dos sobreviventes. A maioria recupera função pulmonar próxima do normal em 6 a 12 meses: a limitação predominante costuma ser muscular e sistêmica, não pulmonar.
Fraqueza adquirida
Polineuropatia e miopatia do doente crítico, ligadas a imobilidade, sedação profunda, corticoide, bloqueador neuromuscular e hiperglicemia.
Cognição
Déficit de memória, atenção e função executiva, correlacionado à duração do delirium e da hipoxemia.
Saúde mental
Ansiedade, depressão e estresse pós-traumático, em pacientes e também em familiares.
Na UTI
Mobilização precoce com fisioterapia diária, pacote ABCDEF e diário de UTI (associado a menos estresse pós-traumático).
Após a alta
Ambulatório pós-terapia intensiva, reabilitação pulmonar e motora, avaliação nutricional e suporte psicológico.
Família
Também adoece: informe, envolva no cuidado e ofereça suporte estruturado.
Converse com a família sobre a recuperação esperada desde a fase aguda: a expectativa de que a alta da UTI signifique retorno imediato ao normal gera muito sofrimento.
Prognóstico e comunicação
A mortalidade é alta — aproximadamente 35% na leve, 40% na moderada e 46% na grave —, mas a maioria dos pacientes não morre de hipoxemia: predominam a disfunção de múltiplos órgãos e a doença de base. O fator mais importante é a etiologia: SDRA por causa reversível em paciente jovem tem prognóstico muito diferente da SDRA em doença de base avançada.
Pior prognóstico
Idade avançada e comorbidades.
Causa não reversível e disfunção de outros órgãos.
Driving pressure elevada persistente.
Ausência de melhora da oxigenação nas primeiras 24 a 48 horas.
Comunicação e objetivos
Atualizações regulares e honestas, com linguagem acessível e espaço para perguntas.
Discussão precoce de objetivos de cuidado na doença de base avançada ou refratária.
Cuidados paliativos integrados quando indicados, sem abandonar o tratamento ativo.
P/F, escore de Murray ou qualquer escore único não devem, sozinhos, fundamentar decisões de limitação terapêutica. Uma frase útil com a família: sobreviver à SDRA é possível na maioria dos casos, mas a recuperação é longa e não termina na alta da UTI.
Em 30 segundos
O essencial de cenários especiais
Obesidade e hipertensão intra-abdominal: o platô superestima a lesão — volume pelo peso predito, PEEP mais alta e, se possível, pressão esofágica.
Hipertensão intracraniana e cor pulmonale: hipercapnia permissiva deixa de ser inofensiva.
Gestação: SpO₂ ≥ 95% e menor tolerância à hipercapnia; prona possível com equipe treinada.
Recursos limitados: SpO₂/FiO₂, ultrassom, volume baixo, prona e balanço conservador não dependem de tecnologia cara.
Obesidade e hipertensão intra-abdominal
Nas duas situações, a parede torácica pesada ou o abdome tenso elevam a pressão de platô sem que a pressão transpulmonar esteja alta: o platô superestima a lesão pulmonar. Na hipertensão intra-abdominal o problema é o mesmo, com um componente reversível — a complacência da parede cai e o diafragma é deslocado.
Obesidade — o que fazer
Volume corrente sempre pelo peso predito. Considere PEEP mais alta e, quando disponível, manometria esofágica para separar pulmão de parede. Cabeceira elevada.
Hipertensão intra-abdominal — o que fazer
Meça a pressão intravesical, trate a causa (distensão, ascite, íleo), evite conclusões pelo platô isolado e considere pressão transpulmonar.
Hipertensão intracraniana
Aqui o conflito entre proteção pulmonar e proteção cerebral é direto. A hipercapnia permissiva é contraindicada, porque o CO₂ dilata os vasos cerebrais e eleva a pressão intracraniana, e PEEP alta pode reduzir o retorno venoso cerebral.
Priorize normocapnia, use a menor PEEP eficaz, mantenha cabeceira elevada e discuta caso a caso o conflito entre proteção pulmonar e cerebral — de preferência com monitorização da pressão intracraniana.
Cor pulmonale agudo
Ocorre em parcela relevante da SDRA grave. PEEP alta, hipercapnia e hipoxemia aumentam a pós-carga do ventrículo direito, que dilata e empurra o septo — e o ajuste ventilatório passa a ser também um ajuste hemodinâmico.
Ecocardiograma seriado, limitar driving pressure, evitar hipercapnia extrema, considerar prona (que costuma melhorar o ventrículo direito) e evitar sobrecarga volêmica. Detalhes na aba Conduta e resgate.
Gestação
A gestante tem elevação diafragmática, menor capacidade residual funcional e alcalose respiratória fisiológica — e a hipoxemia materna afeta o feto rapidamente. Por isso os alvos mudam: oxigenação mais generosa e menos tolerância à hipercapnia, que atravessa a placenta e acidifica o feto.
Alvos de oxigenação mais generosos (SpO₂ ≥ 95%), atenção ao pH (a hipercapnia permissiva é menos tolerada), decúbito lateral esquerdo e prona possível com equipe treinada e apoio obstétrico.
Imunossuprimido e SDRA por COVID-19
No imunossuprimido, o espectro etiológico é muito mais amplo — infecções oportunistas, toxicidade de fármacos e envolvimento da doença de base. Na COVID-19, a mecânica comporta-se como SDRA clássica na maioria dos casos, mas com alta incidência de trombose.
Imunossuprimido
Baixo limiar para lavado broncoalveolar e tomografia. Ajuste a cobertura antimicrobiana e reveja a lista de fármacos pneumotóxicos.
COVID-19
Ventilação protetora habitual, conforme protocolo vigente, atenção redobrada a eventos tromboembólicos e prona também em não intubados quando indicado.
Trauma torácico com contusão
A contusão pulmonar dá um componente assimétrico à SDRA, a dor limita a mecânica e o risco de barotrauma é elevado. Subir PEEP sobre um pneumotórax não drenado é receita para pneumotórax hipertensivo.
Analgesia agressiva, incluindo bloqueio regional; drenar o pneumotórax antes de subir a PEEP; e vigilância contínua para barotrauma.
Recursos limitados
Sem gasometria, sem tomografia e, por vezes, sem ventilador disponível de imediato. A nova definição global foi construída para este cenário: permite diagnosticar pela oximetria e pelo ultrassom, sem exigir PEEP mínima ou dispositivo específico.
Use SpO₂/FiO₂ e ultrassom pulmonar, e aplique o que é factível — volume corrente baixo, prona e manejo hídrico conservador não dependem de tecnologia cara.
Erros comuns
Quase todos os erros na SDRA vêm de três fontes: não reconhecer a síndrome, ventilar sem medir e adiar o que funciona. A lista abaixo serve como checklist de visita — se algum item estiver acontecendo, há ganho fácil de desfecho.
Calcular o volume corrente pelo peso real em vez do peso predito.
Estimar a altura no olho em vez de medi-la, errando o peso predito e todo o resto.
Não reconhecer a síndrome — o subdiagnóstico é o erro mais frequente de todos.
Nunca medir pressão de platô nem driving pressure.
Medir platô em paciente com esforço inspiratório ativo e confiar no valor.
Esquecer de somar a auto-PEEP ao calcular a driving pressure.
Aumentar a PEEP olhando apenas a oxigenação, ignorando que a driving pressure subiu.
Fazer manobras de recrutamento prolongadas, que aumentaram a mortalidade no ART.
Adiar a prona ou fazer sessões curtas de 4 a 6 horas em vez de 16 horas ou mais.
Considerar o paciente refratário sem nunca tê-lo pronado adequadamente.
Manter balanço hídrico positivo depois que o choque já foi resolvido.
Perseguir SpO₂ de 100% e manter FiO₂ alta desnecessariamente.
Tratar a hipercapnia permissiva com bicarbonato de rotina.
Iniciar corticoide muito tardiamente, já na fase fibrótica.
Não procurar e não tratar a causa da SDRA.
Acionar o centro de ECMO apenas quando o paciente já está em falência de múltiplos órgãos.
Esquecer as profilaxias, a nutrição e a prevenção de delirium enquanto se foca no ventilador.
Resumo do fluxo
O fluxo resume o artigo inteiro em doze passos, na ordem em que acontecem à beira do leito: reconhecer, tratar a causa, proteger o pulmão, escalonar pela gravidade e, em paralelo, cuidar de tudo o que não é o ventilador.
Reconheça
Hipoxemia aguda com opacidades bilaterais em até 7 dias de um insulto, não explicada apenas por causa cardíaca. Calcule P/F ou S/F.
Meça a altura e calcule o peso predito. Anote no prontuário.
Ventilação protetora
Volume corrente de 4 a 8 mL/kg de peso predito, platô ≤ 30 e driving pressure ≤ 15 cmH₂O.
PEEP
Pela tabela correspondente à FiO₂ ou pela menor driving pressure; SpO₂ entre 88% e 95%.
Sedação e assincronia
Otimize sedação e analgesia; corrija a assincronia antes de aumentar o volume corrente.
Reclassifique
Reavalie a P/F após a estabilização ventilatória e reclassifique a gravidade.
P/F abaixo de 150
Prona por 16 horas ou mais, iniciando precocemente.
Bloqueio e corticoide
Considere bloqueio neuromuscular na fase precoce da SDRA grave e corticoide sistêmico dentro dos primeiros 14 dias.
Balanço conservador
Após a estabilização hemodinâmica.
Refratariedade
Acione precocemente o centro de ECMO e avalie os critérios do EOLIA.
Em paralelo
Nutrição, profilaxias, prevenção de delirium e mobilização; planeje desmame e reabilitação desde cedo.
P/F abaixo de 150: prona por 16 horas ou mais, iniciada cedo — antes de qualquer terapia de resgate.
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21
Diretriz
Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) e Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT). Diretrizes brasileiras de ventilação mecânica e recomendações vigentes sobre SDRA.
Aviso importante
Ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. Doses, diluições e velocidades de infusão devem ser conferidas antes da administração. Parâmetros ventilatórios, doses e metas devem ser sempre conferidos e individualizados, considerando o paciente, o equipamento disponível e o contexto assistencial. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.
Ver os critérios
Diagnosticar
A definição de Berlim exige quatro critérios simultâneos. Tempo: instalação em até sete dias de um insulto conhecido ou de piora dos sintomas respiratórios. Imagem: opacidades bilaterais na radiografia ou na tomografia, não explicadas integralmente por derrame pleural, atelectasia ou nódulos. Origem do edema: insuficiência respiratória não explicada apenas por insuficiência cardíaca ou hipervolemia — o ecocardiograma pode ser necessário para afastar. Oxigenação: PaO₂/FiO₂ ≤ 300 mmHg com PEEP ou CPAP de pelo menos 5 cmH₂O.
A nova definição global, publicada em 2023 e 2024, amplia esses critérios: inclui pacientes em oxigênio nasal de alto fluxo com pelo menos 30 L/min, aceita SpO₂/FiO₂ ≤ 315 quando a SpO₂ está em 97% ou menos, reconhece o ultrassom pulmonar como método de imagem e dispensa a PEEP mínima em cenários de recursos limitados.
≤ 7 diasDo insulto ao quadro
P/F ≤ 300Ou S/F ≤ 315 (SpO₂ ≤ 97%)
≥ 30 L/minAlto fluxo aceito na definição global
Ver as metas
Ventilar protegendo
A ventilação protetora é a única intervenção com benefício de mortalidade demonstrado para a SDRA em geral. O volume corrente fica entre 4 e 8 mL/kg de peso predito, com alvo inicial de 6. O peso predito vem só da altura e do sexo: 50 + 0,91 × (altura em cm − 152,4) para homens e 45,5 + 0,91 × (altura em cm − 152,4) para mulheres. Usar o peso da balança em um paciente obeso pode significar entregar o dobro do volume adequado.
A pressão de platô, medida em pausa inspiratória com o paciente passivo, deve permanecer abaixo de 30 cmH₂O. A driving pressure (platô menos PEEP total) tem alvo de 15 cmH₂O ou menos e é a variável ventilatória que melhor se associa a mortalidade. A SpO₂ alvo é de 88% a 95%, e a hipercapnia permissiva é aceitável enquanto o pH se mantiver acima de 7,20.
6 mL/kgPeso predito (faixa 4–8)
≤ 30Platô (cmH₂O)
≤ 15Driving pressure (cmH₂O)
Ver a prona
Pronar cedo
A posição prona redistribui a ventilação, homogeneíza a pressão transpulmonar, melhora a relação ventilação/perfusão e reduz a lesão induzida pelo ventilador. É indicada com PaO₂/FiO₂ abaixo de 150, FiO₂ de pelo menos 60% e PEEP de pelo menos 5, após um período de estabilização com ventilação protetora. O ponto crítico é a duração: sessões de 16 horas ou mais, e não as 4 a 6 horas que muitos serviços praticam. O PROSEVA demonstrou redução expressiva de mortalidade com essa estratégia, iniciada nas primeiras 36 a 48 horas.
As complicações mais frequentes — lesão por pressão em face e tórax, edema facial, perda de dispositivos e obstrução do tubo — são reduzíveis com protocolo, equipe treinada e proteção sistemática dos pontos de apoio. É a intervenção com melhor relação custo-benefício de toda a SDRA, e também a mais subutilizada no mundo.
Muitos pacientes chamados de "refratários" nunca foram pronados por 16 horas. Antes de pensar em resgate, confira a prona.
Ver o que evitar
O que não fazer
Algumas intervenções aparentemente lógicas mostraram-se neutras ou francamente prejudiciais. Manobras de recrutamento prolongadas com titulação decremental de PEEP aumentaram a mortalidade no estudo brasileiro ART, e as diretrizes atuais recomendam fortemente contra elas. A ventilação oscilatória de alta frequência não é recomendada após o OSCILLATE e o OSCAR, e a remoção extracorpórea de CO₂ isolada, para permitir volumes ultrabaixos, não demonstrou benefício.
O óxido nítrico inalatório melhora a oxigenação de forma transitória, sem reduzir mortalidade e com mais lesão renal — serve apenas como ponte. Manter balanço hídrico positivo após a resolução do choque prolonga a ventilação (FACTT), perseguir SpO₂ de 100% não traz benefício e iniciar corticoide tarde, na fase fibrótica estabelecida, associa-se a piores desfechos.
Manobras de recrutamento prolongadas (ART)
Ventilação oscilatória de alta frequência (OSCILLATE, OSCAR)
Remoção extracorpórea de CO₂ isolada (REST)
Balanço hídrico positivo após o choque (FACTT)
Analgésico opioide (agonista mu)
Fentanil (citrato de fentanila)
Ampolas de 50 mcg/mL (2 mL, 5 mL e 10 mL)
Ataque1–2 mcg/kg · Dose única, lenta · —
Papel no tratamento
Base da analgossedação na SDRA: tratar a dor primeiro reduz agitação e assincronia e torna possível o volume corrente baixo.
Quando usar
Analgossedação de todo paciente com SDRA em ventilação invasiva.
Ficha de consulta rápida
Classe
Analgésico opioide (agonista mu)
Apresentação
Ampolas de 50 mcg/mL (2 mL, 5 mL e 10 mL)
Posologia principal
1–2 mcg/kg · Dose única, lenta · —
Outros esquemas
1 — ver aba Posologia
Atenção neste contexto
Confira a diluição padronizada no seu serviço — ela varia entre instituições.
Antes de prescrever, confira
Uso sem via aérea protegida em doses altas.
Efeitos adversos mais relevantes
Depressão respiratória e hipotensão.
Íleo e constipação.
Rigidez torácica com bolus rápido.
Tolerância e abstinência após uso prolongado.
IV em bolus1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Ataque
1–2 mcg/kg
Dose única, lenta
—
—
Infusão contínua1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Manutenção
0,5–2 mcg/kg/h
Infusão contínua (BIC)
Reavaliar diariamente
Titular por escala de dor (BPS ou CPOT) e pelo RASS.
Como administrar
Diluição
1.000 mcg (20 mL) + 80 mL de SF 0,9% = 100 mL a 10 mcg/mL.
Cálculo rápido
70 kg a 1 mcg/kg/h = 70 mcg/h = 7 mL/h (10 mcg/mL).
Administração
Bolus lento (rigidez torácica com bolus rápido de dose alta).
Antes de prescrever, confira
Uso sem via aérea protegida em doses altas.
Contraindicações e quando evitar
Uso sem via aérea protegida em doses altas.
Efeitos adversos
Depressão respiratória e hipotensão.
Íleo e constipação.
Rigidez torácica com bolus rápido.
Tolerância e abstinência após uso prolongado.
Monitoramento
Monitoramento
Dor, RASS, hipotensão, íleo; acúmulo em infusões prolongadas (tecido adiposo).
Como administrar
Diluição
1.000 mcg (20 mL) + 80 mL de SF 0,9% = 100 mL a 10 mcg/mL.
Cálculo rápido
70 kg a 1 mcg/kg/h = 70 mcg/h = 7 mL/h (10 mcg/mL).
Administração
Bolus lento (rigidez torácica com bolus rápido de dose alta).
Papel neste contexto
Base da analgossedação na SDRA: tratar a dor primeiro reduz agitação e assincronia e torna possível o volume corrente baixo.
Hipnótico/sedativo de ação curta
Propofol
Emulsão a 1% (10 mg/mL) — frascos/ampolas de 20, 50 e 100 mL; também a 2% (20 mg/mL)
Bradicardia ou bloqueio atrioventricular avançado.
Necessidade de sedação profunda (ex.: bloqueio neuromuscular).
Efeitos adversos mais relevantes
Bradicardia.
Hipotensão (ou hipertensão transitória com bolus).
Infusão contínua1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Manutenção
0,2–1,4 mcg/kg/h
Infusão contínua (BIC)
Conforme alvo de RASS
Evitar bolus no paciente instável.
Como administrar
Diluição
200 mcg (2 mL) + 48 mL de SF 0,9% = 50 mL a 4 mcg/mL.
Cálculo rápido
70 kg a 0,5 mcg/kg/h = 35 mcg/h = 8,75 mL/h.
Antes de prescrever, confira
Bradicardia ou bloqueio atrioventricular avançado.
Necessidade de sedação profunda (ex.: bloqueio neuromuscular).
Contraindicações e quando evitar
Bradicardia ou bloqueio atrioventricular avançado.
Necessidade de sedação profunda (ex.: bloqueio neuromuscular).
Efeitos adversos
Bradicardia.
Hipotensão (ou hipertensão transitória com bolus).
Monitoramento
Monitoramento
Bradicardia e hipotensão.
Como administrar
Diluição
200 mcg (2 mL) + 48 mL de SF 0,9% = 50 mL a 4 mcg/mL.
Cálculo rápido
70 kg a 0,5 mcg/kg/h = 35 mcg/h = 8,75 mL/h.
Papel neste contexto
Sedação cooperativa, com menos delirium; útil no desmame da sedação, mas insuficiente isoladamente na fase aguda da SDRA grave.
Benzodiazepínico
Midazolam
Ampolas de 5 mg/mL (3 mL e 10 mL) e de 1 mg/mL (5 mL)
Bolus0,01–0,05 mg/kg · Se necessário · —
Papel no tratamento
Reserva: quando as demais opções falham ou há instabilidade grave. Associa-se a mais delirium e a despertar prolongado por acúmulo.
Ficha de consulta rápida
Classe
Benzodiazepínico
Apresentação
Ampolas de 5 mg/mL (3 mL e 10 mL) e de 1 mg/mL (5 mL)
Posologia principal
0,01–0,05 mg/kg · Se necessário · —
Outros esquemas
1 — ver aba Posologia
Antes de prescrever, confira
Uso de primeira linha quando propofol ou dexmedetomidina são possíveis.
Efeitos adversos mais relevantes
Delirium.
Acúmulo e despertar prolongado.
Hipotensão.
IV em bolus1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Bolus
0,01–0,05 mg/kg
Se necessário
—
—
Infusão contínua1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Manutenção
0,02–0,1 mg/kg/h
Infusão contínua (BIC)
O menor tempo possível
—
Como administrar
Diluição
150 mg (30 mL a 5 mg/mL) + 120 mL de SF 0,9% = 150 mL a 1 mg/mL.
Cálculo rápido
70 kg a 0,05 mg/kg/h = 3,5 mg/h = 3,5 mL/h.
Antes de prescrever, confira
Uso de primeira linha quando propofol ou dexmedetomidina são possíveis.
Contraindicações e quando evitar
Uso de primeira linha quando propofol ou dexmedetomidina são possíveis.
Efeitos adversos
Delirium.
Acúmulo e despertar prolongado.
Hipotensão.
Monitoramento
Monitoramento
RASS, delirium (CAM-ICU); acúmulo na insuficiência renal e hepática e no obeso.
Como administrar
Diluição
150 mg (30 mL a 5 mg/mL) + 120 mL de SF 0,9% = 150 mL a 1 mg/mL.
Cálculo rápido
70 kg a 0,05 mg/kg/h = 3,5 mg/h = 3,5 mL/h.
Papel neste contexto
Reserva: quando as demais opções falham ou há instabilidade grave. Associa-se a mais delirium e a despertar prolongado por acúmulo.
Bloqueador neuromuscular não despolarizante (benzilisoquinolínico)
Cisatracúrio (besilato)
Ampolas de 2 mg/mL (5 mL = 10 mg e 10 mL = 20 mg)
Bolus (ACURASYS)15 mg · Dose única · —
Papel no tratamento
Bloqueio neuromuscular na SDRA grave precoce com assincronia ou drive elevado (esquema do ACURASYS). Tema controverso entre as diretrizes.
Quando usar
SDRA grave nas primeiras 48 h com assincronia importante, drive elevado ou dificuldade de manter a ventilação protetora.
Mecanismo
Eliminação de Hofmann, independente de rim e fígado, com menos acúmulo que os aminoesteroides.
Ficha de consulta rápida
Classe
Bloqueador neuromuscular não despolarizante (benzilisoquinolínico)
Apresentação
Ampolas de 2 mg/mL (5 mL = 10 mg e 10 mL = 20 mg)
Posologia principal
15 mg · Dose única · —
Outros esquemas
1 — ver aba Posologia
Atenção neste contexto
ATS 2024 sugere o uso na SDRA grave precoce; ESICM 2023 recomenda contra o uso rotineiro. Alinhe com a rotina da sua UTI.
IV em bolus1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Bolus (ACURASYS)
15 mg
Dose única
—
—
Infusão contínua1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Infusão (ACURASYS)
37,5 mg/h
Infusão contínua (BIC)
48 horas
Não prolongar além de 48 h sem reavaliar.
Como administrar
Diluição
150 mg (75 mL a 2 mg/mL) + 75 mL de SF 0,9% = 150 mL a 1 mg/mL.
Cálculo rápido
Bolus de 15 mg = 15 mL; infusão de 37,5 mg/h = 37,5 mL/h (1 mg/mL). Confira a apresentação disponível antes de prescrever.
Administração
Sedação profunda garantida antes do bloqueador — paciente paralisado e consciente é evento adverso grave.
Antes de prescrever, confira
Uso rotineiro em todos os pacientes moderados a graves.
Sedação insuficiente.
Contraindicações e quando evitar
Uso rotineiro em todos os pacientes moderados a graves.
Sedação insuficiente.
Efeitos adversos
Fraqueza adquirida na UTI com uso prolongado.
Úlcera de córnea.
Consciência sob paralisia se a sedação for inadequada.
Monitoramento
Monitoramento
Sequência de quatro estímulos (estimulador de nervo periférico); proteção ocular, lesão por pressão e trombose.
Como administrar
Diluição
150 mg (75 mL a 2 mg/mL) + 75 mL de SF 0,9% = 150 mL a 1 mg/mL.
Cálculo rápido
Bolus de 15 mg = 15 mL; infusão de 37,5 mg/h = 37,5 mL/h (1 mg/mL). Confira a apresentação disponível antes de prescrever.
Administração
Sedação profunda garantida antes do bloqueador — paciente paralisado e consciente é evento adverso grave.
Corticoide sistêmico
Dexametasona (fosfato dissódico)
Ampolas de 4 mg/mL (1 mL e 2,5 mL); comprimidos de 0,5, 0,75 e 4 mg
SDRA (DEXA-ARDS) — dias 1 a 520 mg 1x/dia · 1x/dia · 5 dias
Papel no tratamento
Corticoide de referência na SDRA moderada a grave (DEXA-ARDS) e na COVID-19 com necessidade de oxigênio (RECOVERY), iniciado dentro de 14 dias.
Quando usar
SDRA moderada a grave, iniciando dentro dos primeiros 14 dias (ATS 2024 e SCCM 2024, condicional).
Ficha de consulta rápida
Classe
Corticoide sistêmico
Apresentação
Ampolas de 4 mg/mL (1 mL e 2,5 mL); comprimidos de 0,5, 0,75 e 4 mg
Posologia principal
20 mg 1x/dia · 1x/dia · 5 dias
Outros esquemas
2 — ver aba Posologia
Atenção neste contexto
Em área endêmica de estrongiloidíase, considere antes do corticoide.
Antes de prescrever, confira
Início após 14 dias (fase fibrótica).
Infecção fúngica ou parasitária não tratada, tuberculose ativa não tratada, sangramento digestivo ativo (relativas).
IV2 esquemas
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
SDRA (DEXA-ARDS) — dias 1 a 5
20 mg 1x/dia
1x/dia
5 dias
—
SDRA (DEXA-ARDS) — dias 6 a 10
10 mg 1x/dia
1x/dia
5 dias
—
IV ou VO1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
COVID-19 (RECOVERY)
6 mg 1x/dia
1x/dia
Até 10 dias
—
Como administrar
Administração
IV em bolus lento ou diluída em 50–100 mL de SF 0,9%.
Antes de prescrever, confira
Início após 14 dias (fase fibrótica).
Infecção fúngica ou parasitária não tratada, tuberculose ativa não tratada, sangramento digestivo ativo (relativas).
Contraindicações e quando evitar
Início após 14 dias (fase fibrótica).
Infecção fúngica ou parasitária não tratada, tuberculose ativa não tratada, sangramento digestivo ativo (relativas).
Efeitos adversos
Hiperglicemia.
Fraqueza adquirida na UTI.
Infecção secundária.
Delirium.
Sangramento digestivo.
Monitoramento
Monitoramento
Glicemia capilar seriada, infecção secundária, delirium e sangramento digestivo.
Como administrar
Administração
IV em bolus lento ou diluída em 50–100 mL de SF 0,9%.
Papel neste contexto
Corticoide de referência na SDRA moderada a grave (DEXA-ARDS) e na COVID-19 com necessidade de oxigênio (RECOVERY), iniciado dentro de 14 dias.
Corticoide sistêmico
Metilprednisolona (succinato sódico)
Frasco-ampola de 40 mg, 125 mg e 500 mg
SDRA1–2 mg/kg/dia · 1x/dia ou fracionada · Redução gradual
Papel no tratamento
Alternativa à dexametasona na SDRA, em esquemas com redução gradual conforme protocolo institucional.
Quando usar
Alternativa ao esquema de dexametasona, dentro de 14 dias.
Ficha de consulta rápida
Classe
Corticoide sistêmico
Apresentação
Frasco-ampola de 40 mg, 125 mg e 500 mg
Posologia principal
1–2 mg/kg/dia · 1x/dia ou fracionada · Redução gradual
Antes de prescrever, confira
Infecção não tratada (fúngica, parasitária, tuberculose).
Efeitos adversos mais relevantes
Hiperglicemia.
Infecção secundária.
Fraqueza adquirida.
IV1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
SDRA
1–2 mg/kg/dia
1x/dia ou fracionada
Redução gradual
—
Antes de prescrever, confira
Infecção não tratada (fúngica, parasitária, tuberculose).
Contraindicações e quando evitar
Infecção não tratada (fúngica, parasitária, tuberculose).
Efeitos adversos
Hiperglicemia.
Infecção secundária.
Fraqueza adquirida.
Monitoramento
Monitoramento
Glicemia, infecção secundária, delirium.
Papel neste contexto
Alternativa à dexametasona na SDRA, em esquemas com redução gradual conforme protocolo institucional.
Corticoide sistêmico
Hidrocortisona (succinato sódico)
Frasco-ampola de 100 mg e 500 mg
PAC grave (CAPE COD)200 mg/dia · Infusão contínua ou 50 mg de 6/6 h · 4 dias, depois redução gradual (total de 8 ou 14 dias)
Papel no tratamento
Na pneumonia comunitária bacteriana grave — causa frequente de SDRA —, a hidrocortisona reduziu mortalidade no CAPE COD; a SCCM 2024 recomenda corticoide nesse cenário.
Quando usar
Pneumonia comunitária bacteriana grave internada em UTI.
Ficha de consulta rápida
Classe
Corticoide sistêmico
Apresentação
Frasco-ampola de 100 mg e 500 mg
Posologia principal
200 mg/dia · Infusão contínua ou 50 mg de 6/6 h · 4 dias, depois redução gradual (total de 8 ou 14 dias)
Antes de prescrever, confira
Influenza (sem evidência de benefício; possível dano).
Efeitos adversos mais relevantes
Hiperglicemia.
Infecção secundária.
IV1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
PAC grave (CAPE COD)
200 mg/dia
Infusão contínua ou 50 mg de 6/6 h
4 dias, depois redução gradual (total de 8 ou 14 dias)
A duração total dependeu da evolução no 4º dia.
Como administrar
Limitações
O CAPE COD excluiu choque séptico em uso de vasopressor e influenza.
Antes de prescrever, confira
Influenza (sem evidência de benefício; possível dano).
Contraindicações e quando evitar
Influenza (sem evidência de benefício; possível dano).
Efeitos adversos
Hiperglicemia.
Infecção secundária.
Monitoramento
Monitoramento
Glicemia e infecção secundária.
Como administrar
Limitações
O CAPE COD excluiu choque séptico em uso de vasopressor e influenza.
Papel neste contexto
Na pneumonia comunitária bacteriana grave — causa frequente de SDRA —, a hidrocortisona reduziu mortalidade no CAPE COD; a SCCM 2024 recomenda corticoide nesse cenário.
Antiparasitário
Ivermectina
Comprimidos de 6 mg
Profilaxia antes do corticoide200 mcg/kg · 1x/dia · 1 a 2 dias
Papel no tratamento
Profilaxia da síndrome de hiperinfecção por Strongyloides antes do corticoide em pacientes de área endêmica — como boa parte do Brasil.
Quando usar
Paciente de área endêmica que vai receber corticoide sistêmico.
Ficha de consulta rápida
Classe
Antiparasitário
Apresentação
Comprimidos de 6 mg
Posologia principal
200 mcg/kg · 1x/dia · 1 a 2 dias
Atenção neste contexto
Ressalva frequentemente esquecida no contexto brasileiro. Confira o protocolo do seu serviço.
Antes de prescrever, confira
Gestação (avaliar risco-benefício).
Efeitos adversos mais relevantes
Geralmente bem tolerada; náusea e tontura.
VO ou por sonda1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Profilaxia antes do corticoide
200 mcg/kg
1x/dia
1 a 2 dias
—
Como administrar
Cálculo rápido
70 kg → 14 mg ≈ 2 comprimidos e meio de 6 mg (arredondar para 15 mg).
Antes de prescrever, confira
Gestação (avaliar risco-benefício).
Contraindicações e quando evitar
Gestação (avaliar risco-benefício).
Efeitos adversos
Geralmente bem tolerada; náusea e tontura.
Como administrar
Cálculo rápido
70 kg → 14 mg ≈ 2 comprimidos e meio de 6 mg (arredondar para 15 mg).
Papel neste contexto
Profilaxia da síndrome de hiperinfecção por Strongyloides antes do corticoide em pacientes de área endêmica — como boa parte do Brasil.
Diurético de alça
Furosemida
Ampola de 10 mg/mL (2 mL = 20 mg); comprimido de 40 mg
Bolus20–40 mg · Repetir conforme diurese · Até balanço neutro/negativo
Papel no tratamento
Instrumento da estratégia hídrica conservadora, após a resolução do choque, para balanço neutro ou negativo.
Quando usar
Depois da estabilização hemodinâmica, com balanço acumulado positivo.
Ficha de consulta rápida
Classe
Diurético de alça
Apresentação
Ampola de 10 mg/mL (2 mL = 20 mg); comprimido de 40 mg
Posologia principal
20–40 mg · Repetir conforme diurese · Até balanço neutro/negativo
Outros esquemas
1 — ver aba Posologia
Atenção neste contexto
O alvo é euvolemia, não desidratação.
Antes de prescrever, confira
Choque ou hipoperfusão em curso.
Efeitos adversos mais relevantes
Hipocalemia e hipomagnesemia.
Hipovolemia e lesão renal se houver depleção excessiva.
Ototoxicidade em doses altas e rápidas.
IV em bolus1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Bolus
20–40 mg
Repetir conforme diurese
Até balanço neutro/negativo
—
Infusão contínua1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Infusão contínua
5–20 mg/h
BIC
Titular pela resposta
—
Como administrar
Diluição
100 mg (10 mL) + 90 mL de SF 0,9% = 100 mL a 1 mg/mL (10 mg/h = 10 mL/h).
Antes de prescrever, confira
Choque ou hipoperfusão em curso.
Contraindicações e quando evitar
Choque ou hipoperfusão em curso.
Efeitos adversos
Hipocalemia e hipomagnesemia.
Hipovolemia e lesão renal se houver depleção excessiva.
Ototoxicidade em doses altas e rápidas.
Monitoramento
Monitoramento
Diurese, função renal, potássio, magnésio, sódio, lactato e perfusão.
Como administrar
Diluição
100 mg (10 mL) + 90 mL de SF 0,9% = 100 mL a 1 mg/mL (10 mg/h = 10 mL/h).
Papel neste contexto
Instrumento da estratégia hídrica conservadora, após a resolução do choque, para balanço neutro ou negativo.
Vasodilatador pulmonar seletivo (inalatório)
Óxido nítrico inalatório
Gás medicinal em cilindro, administrado por sistema dedicado acoplado ao ventilador
Hipoxemia refratária (ponte)5–20 ppm · Contínuo · Avaliar resposta em 15–30 min
Papel no tratamento
Melhora transitória da oxigenação ao redistribuir fluxo para áreas ventiladas, sem reduzir mortalidade e com mais lesão renal: apenas ponte.
Quando usar
Ponte para ECMO ou enquanto outras medidas fazem efeito; disfunção grave de VD com hipertensão pulmonar.
Ficha de consulta rápida
Classe
Vasodilatador pulmonar seletivo (inalatório)
Apresentação
Gás medicinal em cilindro, administrado por sistema dedicado acoplado ao ventilador
Posologia principal
5–20 ppm · Contínuo · Avaliar resposta em 15–30 min
Antes de prescrever, confira
Uso de rotina na SDRA.
Efeitos adversos mais relevantes
Lesão renal aguda.
Metemoglobinemia.
Rebote na suspensão abrupta.
Inalatório1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Hipoxemia refratária (ponte)
5–20 ppm
Contínuo
Avaliar resposta em 15–30 min
Sem ganho relevante: suspender.
Como administrar
Administração
Retirada gradual, pelo risco de hipoxemia e hipertensão pulmonar de rebote.
Antes de prescrever, confira
Uso de rotina na SDRA.
Contraindicações e quando evitar
Uso de rotina na SDRA.
Efeitos adversos
Lesão renal aguda.
Metemoglobinemia.
Rebote na suspensão abrupta.
Monitoramento
Monitoramento
Metemoglobina, dióxido de nitrogênio e função renal.
Como administrar
Administração
Retirada gradual, pelo risco de hipoxemia e hipertensão pulmonar de rebote.
Papel neste contexto
Melhora transitória da oxigenação ao redistribuir fluxo para áreas ventiladas, sem reduzir mortalidade e com mais lesão renal: apenas ponte.
Vasopressor (agonista alfa-1 predominante)
Noradrenalina (hemitartarato)
Ampola 4 mg/4 mL (1 mg/mL)
Hipotensão / cor pulmonale0,05–0,5 mcg/kg/min · Infusão contínua (BIC) · Titular a cada 5 min pela PAM
Papel no tratamento
No cor pulmonale agudo da SDRA grave, mantém a pressão de perfusão coronariana do ventrículo direito; também é o vasopressor da sepse associada.
Ficha de consulta rápida
Classe
Vasopressor (agonista alfa-1 predominante)
Apresentação
Ampola 4 mg/4 mL (1 mg/mL)
Posologia principal
0,05–0,5 mcg/kg/min · Infusão contínua (BIC) · Titular a cada 5 min pela PAM
Antes de prescrever, confira
Hipovolemia não corrigida como terapia isolada.
Efeitos adversos mais relevantes
Isquemia periférica e mesentérica.
Arritmias.
Necrose por extravasamento.
Infusão contínua1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Hipotensão / cor pulmonale
0,05–0,5 mcg/kg/min
Infusão contínua (BIC)
Titular a cada 5 min pela PAM
—
Como administrar
Diluição
16 mg (16 mL) + 234 mL de SG 5% = 250 mL a 64 mcg/mL.
Cálculo rápido
mL/h = dose (mcg/kg/min) × peso × 60 ÷ 64. Ex.: 0,1 mcg/kg/min em 70 kg ≈ 6,6 mL/h.
Administração
Preferir acesso central e PA invasiva; pode iniciar em periférico calibroso por tempo limitado.
A banca cobra os quatro critérios de Berlim, a classificação pela relação P/F e o cálculo do volume corrente pelo peso predito.
Decore: 6 mL/kg de peso predito, platô abaixo de 30, driving pressure até 15, prona com P/F menor que 150 por 16 horas ou mais. Pegadinhas: volume pelo peso real; recrutamento prolongado (ART aumentou mortalidade); ventilação oscilatória; S/F só vale com SpO₂ ≤ 97%.
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