Ritmos da PCR
São quatro ritmos e apenas uma pergunta na checagem: choca ou não choca? Fibrilação ventricular e taquicardia ventricular sem pulso pedem desfibrilação imediata; atividade elétrica sem pulso e assistolia pedem causa reversível. Esta é a biblioteca dos quatro, com traçado e conduta passo a passo para cada um.
Fibrilação ventricular
- Ondulações caóticas, sem QRS identificável
- Ritmo chocável — desfibrilação imediata
- Adrenalina após o segundo choque
- Amiodarona após o terceiro choque
TV sem pulso
- QRS largo, regular e rápido, sem pulso
- Ritmo chocável — mesma conduta da FV
- Checar pulso é o que define a conduta
- Torsades pede sulfato de magnésio
AESP
- Ritmo organizado no monitor, sem pulso
- Não chocável — adrenalina imediata
- Tudo gira em torno da causa reversível
- Ultrassom à beira do leito ajuda muito
Assistolia
- Linha isoelétrica, sem atividade elétrica
- Não chocável — adrenalina imediata
- Confirme o protocolo da linha reta
- Pior prognóstico entre os quatro ritmos
Quatro ritmos, duas condutas
A parada cardiorrespiratória se apresenta em quatro ritmos, e a primeira decisão à beira do leito não é qual deles é — é a qual dos dois grupos ele pertence.
Chocáveis
- Fibrilação ventricular — grossa ou fina.
- Taquicardia ventricular sem pulso — monomórfica ou polimórfica.
- O tratamento definitivo é a desfibrilação, e cada minuto de atraso reduz a sobrevida.
- Melhor prognóstico entre os quatro, especialmente quando o ritmo inicial é chocável.
Não chocáveis
- Atividade elétrica sem pulso — qualquer ritmo organizado sem pulso.
- Assistolia — ausência de atividade elétrica.
- O tratamento é adrenalina imediata e busca ativa de causa reversível.
- Prognóstico pior, mas potencialmente reversível quando a causa é identificada.
Comparação rápida dos quatro ritmos
| Ritmo | No monitor | Choca? | Ação imediata |
|---|---|---|---|
| Fibrilação ventricular | Ondulações caóticas, irregulares, sem QRS, P ou T identificáveis. | Sim | Desfibrilar imediatamente e retomar compressões por 2 minutos sem checar pulso. |
| TV sem pulso | QRS largo, rápido e regular, com morfologia uniforme ou em fuso. | Sim | Desfibrilar imediatamente — conduta idêntica à da fibrilação ventricular. |
| AESP | Qualquer ritmo organizado — sinusal, juncional, bradicardia, ritmo agônico. | Não | Adrenalina o quanto antes e busca sistemática dos 5 H e 5 T. |
| Assistolia | Linha praticamente isoelétrica, sem complexos. | Não | Confirmar com o protocolo da linha reta, adrenalina e causas reversíveis. |
A base comum: RCP de alta qualidade
Antes de qualquer decisão sobre ritmo, fármaco ou energia, existe o que sustenta todo o resto. Estes parâmetros valem para os quatro ritmos.
100 a 120 compressões por minuto, sem acelerar além disso — velocidade excessiva reduz o enchimento diastólico.
5 a 6 cm no adulto, permitindo o retorno completo do tórax entre as compressões.
Minimizar ao máximo; a fração de compressão deve ser superior a 60%, idealmente acima de 80%.
Trocar o compressor a cada 2 minutos, aproveitando a checagem de ritmo, para evitar queda de qualidade pela fadiga.
30:2 sem via aérea avançada; com via aérea avançada, 1 ventilação a cada 6 segundos, sem pausar as compressões.
Monitoriza a qualidade da RCP e detecta o retorno da circulação — alvo de dióxido de carbono expirado acima de 10 mmHg.
Calculadora — Identificação do ritmo
Responda ao que você está vendo no monitor e sentindo no paciente. A ferramenta identifica o ritmo e devolve a ação imediata correspondente.
A sequência que vale para todos
- Reconheça a parada: irresponsivo, sem respiração normal e sem pulso em até 10 segundos. Chame ajuda e peça o desfibrilador.
- INICIE COMPRESSÕES IMEDIATAMENTE — 100 a 120 por minuto, 5 a 6 cm de profundidade, com retorno completo do tórax.
- Instale as pás ou os eletrodos assim que o desfibrilador chegar, sem parar as compressões enquanto isso.
- Faça a primeira checagem de ritmo e decida: chocável ou não chocável.
- Chocável: desfibrile e retome as compressões imediatamente, sem checar pulso.
- Não chocável: retome as compressões e administre adrenalina o quanto antes.
- Mantenha ciclos de 2 minutos, com checagem de ritmo e troca de compressor ao final de cada um.
- Em paralelo, garanta acesso venoso ou intraósseo, considere via aérea avançada e procure ativamente as causas reversíveis.
Fibrilação ventricular
Ritmo chocável
É a despolarização caótica e desorganizada de múltiplos focos ventriculares. O miocárdio treme, mas não contrai — não há débito cardíaco. É o ritmo inicial mais frequente na parada súbita presenciada de origem cardíaca e o de melhor prognóstico, desde que a desfibrilação seja precoce.
O que ver: ondulações amplas, totalmente irregulares em amplitude e frequência, sem QRS, onda P ou onda T identificáveis. A linha de base nunca se estabiliza. Amplitude habitualmente acima de 3 mm.
O que ver: mesmo padrão caótico, porém de baixa amplitude, abaixo de 3 mm. Traduz FV mais prolongada, com miocárdio já depletado de energia. Cuidado: pode ser confundida com assistolia.
A armadilha da FV fina
A fibrilação ventricular fina é o principal diagnóstico diferencial da assistolia, e confundi-las muda completamente a conduta: uma é chocável, a outra não.
- Aumente o ganho do monitor antes de concluir que é assistolia.
- Confira o traçado em duas derivações diferentes.
- Verifique cabos, eletrodos e conexões — artefato é causa comum de "linha reta".
- Na dúvida entre FV fina e assistolia, a orientação atual é tratar como não chocável: compressão de qualidade e adrenalina, que podem converter a FV fina em grossa.
- Chocar assistolia não traz benefício e interrompe a compressão sem necessidade.
Conduta passo a passo na FV
- Confirme a parada e inicie compressões imediatamente, enquanto alguém traz o desfibrilador e o carrinho de emergência.
- Instale as pás ou pás adesivas sem interromper as compressões; posicione em ântero-lateral ou ântero-posterior.
- RITMO CHOCÁVEL IDENTIFICADO: CARREGUE O DESFIBRILADOR ENQUANTO AS COMPRESSÕES CONTINUAM e desfibrile assim que estiver carregado.
- Energia: bifásico de 120 a 200 J conforme o fabricante — na dúvida, use a energia máxima; monofásico, 360 J.
- Aplicado o choque, retome as compressões imediatamente, sem checar pulso nem monitor, por 2 minutos completos.
- Garanta acesso venoso ou intraósseo e considere via aérea avançada — sem interromper as compressões.
- Ao final do ciclo, cheque o ritmo em menos de 10 segundos. Persistindo a FV: segundo choque e, em seguida, adrenalina 1 mg, repetida a cada 3 a 5 minutos.
- Persistindo após o terceiro choque: amiodarona 300 mg em bolus, com segunda dose de 150 mg se necessário; a lidocaína é alternativa.
- Entre os ciclos, procure ativamente as causas reversíveis — sobretudo hipóxia, hipocalemia, hipomagnesemia e isquemia coronariana.
- FV refratária após três choques: considere desfibrilação com vetor duplo sequencial, reposicionamento das pás, e discuta suporte extracorpóreo em serviços com essa disponibilidade.
Ordem dos eventos por ciclo
| Ciclo | Ao final do ciclo | O que fazer |
|---|---|---|
| 1º | Choque 1 | Desfibrilar e retomar compressões por 2 minutos. Obter acesso venoso ou intraósseo. |
| 2º | Choque 2 + adrenalina | Desfibrilar, retomar compressões e administrar adrenalina 1 mg, repetindo a cada 3 a 5 minutos. |
| 3º | Choque 3 + amiodarona | Desfibrilar, retomar compressões e administrar amiodarona 300 mg em bolus. |
| 4º | Choque 4 + adrenalina | Manter o intervalo de 3 a 5 minutos da adrenalina; reavaliar causas reversíveis. |
| 5º | Choque 5 + amiodarona | Segunda dose de amiodarona, 150 mg. Considerar estratégias para FV refratária. |
Erros específicos na FV
- Interromper as compressões para carregar o desfibrilador — carregue com as compressões em curso.
- Checar pulso logo após o choque, em vez de retomar as compressões imediatamente.
- Fazer pausas longas para "ver se voltou" antes de completar os 2 minutos.
- Atrasar a desfibrilação para obter acesso venoso ou intubar.
- Usar energia abaixo da recomendada pelo fabricante por receio de lesão.
- Não aumentar o ganho do monitor antes de classificar como assistolia.
- Esquecer a amiodarona após o terceiro choque na FV refratária.
- Não investigar isquemia coronariana como causa após o retorno da circulação.
Taquicardia ventricular sem pulso
Ritmo chocável
É a taquicardia de origem ventricular — QRS largo, rápido e habitualmente regular — que ocorre sem gerar débito cardíaco. No monitor pode ser indistinguível de uma taquicardia ventricular com pulso: o que define a conduta é a checagem de pulso, não o traçado.
O que ver: complexos largos, regulares e todos com a mesma morfologia, em frequência habitualmente entre 150 e 250 por minuto. Não se identificam ondas P dissociadas com facilidade durante a parada.
O que ver: complexos largos com amplitude variável em fuso, girando em torno da linha de base — o aspecto de "torção das pontas". Associa-se a QT longo, e o tratamento inclui sulfato de magnésio.
Conduta passo a passo na TV sem pulso
- CHEQUE O PULSO CENTRAL EM ATÉ 10 SEGUNDOS — é isso que separa a TV sem pulso da TV com pulso, e as duas condutas são completamente diferentes.
- Sem pulso: inicie compressões imediatamente e trate exatamente como fibrilação ventricular.
- Instale o desfibrilador em modo não sincronizado. Em ritmo polimórfico, a sincronização pode simplesmente falhar por não reconhecer a onda R.
- Carregue com as compressões em curso e desfibrile: bifásico de 120 a 200 J, ou 360 J no monofásico.
- Retome as compressões imediatamente após o choque, sem checar pulso, por 2 minutos completos.
- Após o segundo choque: adrenalina 1 mg, repetida a cada 3 a 5 minutos.
- Após o terceiro choque: amiodarona 300 mg em bolus, com segunda dose de 150 mg se necessário; lidocaína como alternativa.
- Se o padrão for torsades de pointes: acrescente sulfato de magnésio 1 a 2 g por via intravenosa, diluído, e corrija potássio e cálcio.
- Revise os fármacos que prolongam o intervalo QT e suspenda-os; investigue distúrbio eletrolítico e bradicardia como substrato.
- Após o retorno da circulação, mantenha antiarrítmico conforme o caso e investigue isquemia, cardiopatia estrutural e canalopatia.
TV com pulso × TV sem pulso
| Situação | Como reconhecer | Conduta |
|---|---|---|
| TV sem pulso | Paciente irresponsivo, sem pulso central palpável. | Desfibrilação não sincronizada e algoritmo de parada, idêntico ao da fibrilação ventricular. |
| TV com pulso e instável | Pulso presente com hipotensão, dor torácica, congestão ou rebaixamento. | Cardioversão sincronizada imediata, com sedação se possível. |
| TV com pulso e estável | Pulso presente, sem sinais de instabilidade. | Antiarrítmico endovenoso, como amiodarona ou procainamida, com preparo para cardioversão. |
| Torsades com pulso | Complexos largos em fuso com QT longo, habitualmente autolimitados e recorrentes. | Sulfato de magnésio, correção eletrolítica, suspensão dos fármacos implicados e tratamento da bradicardia. |
Erros específicos na TV sem pulso
- Perder tempo tentando sincronizar o choque em paciente sem pulso.
- Tentar diferenciar TV de taquicardia supraventricular com aberrância durante a parada — irrelevante nesse contexto.
- Prolongar a checagem de pulso além de 10 segundos.
- Administrar antiarrítmico antes de desfibrilar.
- Não reconhecer o padrão de torsades e deixar de administrar magnésio.
- Não revisar os fármacos que prolongam o QT após o retorno da circulação.
- Esquecer de corrigir potássio e magnésio, que são substrato frequente.
Atividade elétrica sem pulso
Ritmo não chocável
Não é um ritmo específico, e sim uma situação clínica: existe atividade elétrica organizada no monitor — que pode ser sinusal, juncional, bradicardia ou ritmo agônico — mas não há pulso palpável. Por isso a AESP não se define pelo traçado, e sim pela dissociação entre o que se vê no monitor e o que se sente no paciente.
O que ver: traçado aparentemente normal ou quase normal — aqui um ritmo sinusal de frequência preservada. O monitor não distingue AESP de perfusão adequada: é a ausência de pulso que faz o diagnóstico.
O que ver: complexos largos, bizarros, lentos e espaçados, com frequência muito baixa. É uma forma de AESP com prognóstico especialmente reservado, embora ainda passível de reversão se a causa for tratável.
Conduta passo a passo na AESP
- Confirme a ausência de pulso em até 10 segundos e inicie ou mantenha as compressões de alta qualidade.
- Identifique o ritmo como não chocável e retome as compressões imediatamente — não perca tempo com o desfibrilador.
- ADMINISTRE ADRENALINA 1 mg O QUANTO ANTES: em ritmos não chocáveis, a administração precoce se associa a melhor desfecho. Repita a cada 3 a 5 minutos.
- Garanta acesso venoso ou intraósseo e considere via aérea avançada com capnografia.
- Inicie expansão volêmica empírica — hipovolemia é uma das causas mais frequentes e mais tratáveis.
- PERCORRA SISTEMATICAMENTE OS 5 H E OS 5 T, com alguém da equipe designado apenas para isso.
- Use o ultrassom à beira do leito nas pausas de checagem de ritmo: ele identifica tamponamento, pneumotórax, hipovolemia grave, disfunção ventricular direita e ausência de contratilidade.
- Mantenha ciclos de 2 minutos com checagem breve de ritmo e pulso, revezando o compressor.
- Trate a causa identificada de imediato — punção de alívio, pericardiocentese, volume, cálcio, bicarbonato, trombolítico ou antídoto, conforme o caso.
- Reavalie a decisão de manter ou encerrar os esforços considerando a causa, o tempo de parada e a resposta ao tratamento.
Calculadora — Checklist dos 5 H e 5 T
Marque as causas que você suspeita ou identificou. A ferramenta devolve a intervenção específica de cada uma, para que a equipe execute em paralelo às compressões. Vale para AESP e para assistolia.
Os 5 H
Os 5 T
Erros específicos na AESP
- Chocar um ritmo organizado por parecer "quase normal" no monitor.
- Atrasar a adrenalina — em ritmos não chocáveis, ela deve ser administrada o quanto antes.
- Não percorrer os 5 H e 5 T de forma sistemática, ficando apenas nos ciclos de compressão.
- Prolongar a checagem de pulso e o uso do ultrassom além de 10 segundos, prejudicando a fração de compressão.
- Não expandir volume empiricamente diante de suspeita de hipovolemia.
- Esquecer causas farmacológicas tratáveis com antídoto específico.
- Confundir pseudo-AESP — contratilidade presente ao ultrassom sem pulso palpável — com AESP verdadeira, o que muda o prognóstico e a conduta.
Assistolia
Ritmo não chocável
É a ausência completa de atividade elétrica ventricular, representada por uma linha praticamente isoelétrica. Costuma ser o ponto final da deterioração de outros ritmos, e é o de pior prognóstico entre os quatro — o que não significa que a reanimação deva ser menos vigorosa, sobretudo quando há causa reversível identificável.
O que ver: linha praticamente reta, com apenas pequenas oscilações da linha de base, sem qualquer complexo identificável. Uma linha absolutamente perfeita e sem qualquer ruído sugere artefato — cheque cabos e eletrodos.
Referência: onda P, complexo QRS estreito e onda T, em sequência regular. Este mesmo traçado, na ausência de pulso, caracteriza AESP — o que reforça que o monitor sozinho não fecha o diagnóstico.
Protocolo da linha reta
Sequência rápida de confirmação, executada sem interromper as compressões e em poucos segundos, antes de assumir a assistolia.
Confira se os eletrodos estão aderidos, se os cabos estão conectados ao monitor e se as pás têm contato adequado com a pele.
Aumente a amplitude do traçado — uma fibrilação ventricular fina pode desaparecer no ganho baixo.
Troque a derivação e confirme o traçado em pelo menos duas — a assistolia deve ser vista em ambas.
Ausência de pulso central e de respiração, com capnografia compatível quando disponível.
Conduta passo a passo na assistolia
- Confirme a parada e mantenha compressões de alta qualidade — elas são a intervenção mais importante aqui.
- EXECUTE O PROTOCOLO DA LINHA RETA: cabos, ganho do monitor e segunda derivação, sem parar as compressões.
- Confirmada a assistolia, classifique como ritmo não chocável e não desfibrile.
- Adrenalina 1 mg o quanto antes, repetida a cada 3 a 5 minutos — não há antiarrítmico indicado neste ritmo.
- Garanta acesso venoso ou intraósseo e considere via aérea avançada com capnografia contínua.
- PROCURE ATIVAMENTE OS 5 H E OS 5 T: a assistolia raramente reverte sem que a causa seja tratada.
- Considere expansão volêmica, correção de distúrbios eletrolíticos e antídotos conforme a suspeita.
- Mantenha ciclos de 2 minutos, com checagem breve de ritmo e revezamento do compressor.
- Se surgir ritmo organizado, cheque o pulso: com pulso, cuidados pós-parada; sem pulso, algoritmo de AESP.
- Reavalie periodicamente a decisão de manter os esforços, considerando causa, tempo de parada, capnografia e contexto clínico.
Erros específicos na assistolia
- Assumir assistolia sem executar o protocolo da linha reta.
- Desfibrilar assistolia — não há benefício e interrompe a compressão.
- Instalar marca-passo transcutâneo, sem indicação nesse ritmo.
- Atrasar a adrenalina, que deve ser administrada o quanto antes nos ritmos não chocáveis.
- Encerrar os esforços precocemente sem considerar causas reversíveis, hipotermia e intoxicação.
- Não checar cabos e eletrodos diante de uma linha absolutamente perfeita, sem ruído algum.
- Reduzir a qualidade das compressões por considerar o prognóstico ruim.
O que entra, quando e em qual ritmo
| Intervenção | Dose no adulto | Quando | Em qual ritmo |
|---|---|---|---|
| Desfibrilação | Bifásico 120 a 200 J conforme o fabricante; monofásico 360 J | Imediata, e a cada 2 minutos se persistir | Apenas FV e TV sem pulso |
| Adrenalina | 1 mg em bolus, seguido de 20 mL de soro e elevação do membro | Chocáveis: após o 2º choque. Não chocáveis: o quanto antes. Repetir a cada 3 a 5 min | Todos os quatro ritmos |
| Amiodarona | 300 mg em bolus; segunda dose de 150 mg | Após o 3º choque, e após o 5º para a segunda dose | Apenas FV e TV sem pulso refratárias |
| Lidocaína | 1 a 1,5 mg/kg; doses adicionais de 0,5 a 0,75 mg/kg | Alternativa à amiodarona | Apenas FV e TV sem pulso refratárias |
| Sulfato de magnésio | 1 a 2 g diluídos, em 1 a 2 minutos | Assim que o padrão for reconhecido | Apenas torsades de pointes, não de rotina |
| Cálcio | Gluconato de cálcio 10%, 10 a 30 mL, ou cloreto 10 mL | Diante da suspeita | Hipercalemia, hipocalcemia e intoxicação por bloqueador de canal de cálcio |
| Bicarbonato de sódio | Conforme o protocolo, tipicamente 1 mEq/kg | Diante da suspeita | Hipercalemia, acidose grave prévia e intoxicação por tricíclico — não de rotina |
| Trombolítico | Conforme o protocolo institucional | Durante a reanimação | Tromboembolismo pulmonar confirmado ou fortemente suspeito |
Calculadora — Doses e energia por peso
Informe os dados e a ferramenta devolve as doses e as energias correspondentes ao ritmo e à faixa etária, com o resumo pronto para ser lido em voz alta pela equipe.
Cada card abre o detalhamento: indicação, dose, momento de administração e cuidados. Confira sempre o protocolo institucional e a bula vigente antes de prescrever.
Energia e fármacos
O que se administra durante a parada, com a indicação vinculada ao ritmo. Nenhum deles substitui a compressão de qualidade.
Suporte durante a parada
O que sustenta o algoritmo: qualidade da compressão, acesso, via aérea e as ferramentas que ajudam a decidir.
Retorno da circulação espontânea
Reconhecer o retorno da circulação é tão importante quanto a reanimação em si: continuar comprimindo um coração que voltou também causa dano.
Aumento abrupto do dióxido de carbono expirado, tipicamente acima de 35 a 40 mmHg — o sinal mais precoce e que não exige parar as compressões.
Pulso central palpável e pressão arterial mensurável; curva arterial pulsátil se houver linha invasiva.
Aparecimento de ritmo organizado no monitor durante a checagem programada.
Movimento espontâneo, respiração, tosse ou abertura ocular.
Cuidados pós-parada
- Otimize a ventilação e a oxigenação: evite hiperóxia, titulando a saturação para 92% a 98%, e mantenha normocapnia.
- Estabilize a hemodinâmica: alvo de pressão arterial média acima de 65 mmHg, com volume e vasopressor conforme necessário.
- ELETROCARDIOGRAMA DE 12 DERIVAÇÕES IMEDIATO — a doença coronariana é a causa mais frequente da parada de origem cardíaca.
- Encaminhe à coronariografia de urgência diante de supradesnivelamento do segmento ST ou de forte suspeita de causa coronariana.
- Institua controle direcionado de temperatura, evitando ativamente a febre, conforme o protocolo do serviço.
- Corrija glicemia, eletrólitos e distúrbios ácido-base; trate a causa identificada durante a reanimação.
- Adie a prognosticação neurológica — ela exige avaliação multimodal e tempo adequado, tipicamente não antes de 72 horas.
- Comunique a família com clareza e acione a equipe assistencial conforme a evolução.
Cenários especiais
| Cenário | Particularidade | O que fazer diferente |
|---|---|---|
| Hipotermia grave | O miocárdio frio responde mal a choques e a fármacos; a sobrevida neurológica pode ser boa apesar da parada prolongada. | Reaquecer ativamente e prolongar a reanimação. Máxima de referência: ninguém está morto até estar aquecido e morto. |
| Gestação | O útero gravídico comprime a veia cava e reduz o retorno venoso. | Deslocamento uterino manual para a esquerda e preparo para cesariana perimortem em até 5 minutos se não houver retorno da circulação. |
| Intoxicação exógena | Betabloqueador, bloqueador de canal de cálcio, tricíclico, digital e anestésico local têm antídoto ou tratamento específico. | Antídoto dirigido, emulsão lipídica no caso do anestésico local, bicarbonato no tricíclico, e reanimação prolongada. |
| Trauma | As causas dominantes são hipovolemia, pneumotórax hipertensivo e tamponamento. | Controle de hemorragia, toracostomia bilateral, transfusão maciça e toracotomia de reanimação em casos selecionados. |
| Renal crônico dialítico | Hipercalemia é a causa a ser presumida até prova em contrário. | Cálcio endovenoso, bicarbonato, insulina com glicose e acionamento precoce da nefrologia para diálise. |
| Tromboembolismo pulmonar | AESP com sobrecarga de ventrículo direito ao ultrassom e contexto compatível. | Considerar trombolítico durante a reanimação e prolongar os esforços por 60 a 90 minutos após a administração. |
| Parada refratária | FV persistente após múltiplos choques, ou parada prolongada com causa potencialmente reversível. | Reposicionar as pás, considerar desfibrilação com vetor duplo sequencial e discutir suporte extracorpóreo em serviços habilitados. |
| Afogamento | A parada é primariamente hipóxica. | Priorizar ventilação desde o início, começando com 5 ventilações de resgate antes das compressões. |
Erros comuns em qualquer ritmo
- Interromper as compressões por tempo excessivo em qualquer momento do atendimento.
- Prolongar a checagem de pulso ou de ritmo além de 10 segundos.
- Interromper as compressões para carregar o desfibrilador, intubar ou obter acesso.
- Checar pulso logo após o choque, em vez de retomar imediatamente as compressões.
- Comprimir com profundidade insuficiente ou sem permitir o retorno completo do tórax.
- Hiperventilar o paciente, o que reduz o retorno venoso e piora o débito gerado.
- Não revezar o compressor a cada 2 minutos, deixando a qualidade cair pela fadiga.
- Chocar ritmo não chocável, ou deixar de chocar um ritmo chocável por dúvida no traçado.
- Não percorrer os 5 H e os 5 T de forma sistemática.
- Atrasar a adrenalina nos ritmos não chocáveis.
- Não usar capnografia quando disponível, perdendo o melhor monitor de qualidade da RCP.
- Não designar um líder claro, gerando ordens sobrepostas e perda de tempo.
Resumo do fluxo
- Reconheça a parada, chame ajuda e peça o desfibrilador.
- COMPRESSÕES DE ALTA QUALIDADE IMEDIATAMENTE — 100 a 120 por minuto, 5 a 6 cm, com retorno completo do tórax.
- Instale o monitor e faça a primeira checagem: choca ou não choca.
- Chocável — desfibrile, retome as compressões por 2 minutos, adrenalina após o 2º choque e amiodarona após o 3º.
- Não chocável — retome as compressões e administre adrenalina o quanto antes, repetindo a cada 3 a 5 minutos.
- Mantenha ciclos de 2 minutos com checagem breve e revezamento do compressor.
- Percorra sistematicamente os 5 H e os 5 T, usando o ultrassom nas pausas quando disponível.
- Reconheceu o retorno da circulação: inicie os cuidados pós-parada, com eletrocardiograma de 12 derivações e definição da causa.
Referências bibliográficas
Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.
- American Heart Association. Guidelines for Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care — Suporte Avançado de Vida Cardiovascular em adultos, edição vigente.
- Panchal AR, Bartos JA, Cabañas JG, et al. Part 3: Adult Basic and Advanced Life Support: 2020 American Heart Association Guidelines for CPR and ECC. Circulation. 2020;142(16_suppl_2):S366-S468.
- European Resuscitation Council. Guidelines: Adult Advanced Life Support, edição vigente.
- European Resuscitation Council. Guidelines: Special Circumstances in Resuscitation, edição vigente — hipotermia, gestação, intoxicações, hipercalemia e trauma.
- Sociedade Brasileira de Cardiologia. Diretriz de Ressuscitação Cardiopulmonar e Cuidados Cardiovasculares de Emergência, atualização vigente.
- Kudenchuk PJ, Brown SP, Daya M, et al. Amiodarone, lidocaine, or placebo in out-of-hospital cardiac arrest (ALPS). N Engl J Med. 2016;374(18):1711-1722.
- Perkins GD, Ji C, Deakin CD, et al. A randomized trial of epinephrine in out-of-hospital cardiac arrest (PARAMEDIC2). N Engl J Med. 2018;379(8):711-721.
- Andersen LW, Berg KM, Saindon BZ, et al. Time to epinephrine and survival after pediatric in-hospital cardiac arrest. JAMA. 2015;314(8):802-810 — administração precoce em ritmos não chocáveis.
- Cheskes S, Verbeek PR, Drennan IR, et al. Defibrillation strategies for refractory ventricular fibrillation (DOSE VF). N Engl J Med. 2022;387(21):1947-1956.
- Gaspari R, Weekes A, Adhikari S, et al. Emergency department point-of-care ultrasound in out-of-hospital and in-ED cardiac arrest. Resuscitation. 2016;109:33-39.
- Nolan JP, Sandroni C, Böttiger BW, et al. European Resuscitation Council and European Society of Intensive Care Medicine Guidelines: Post-resuscitation care. Intensive Care Med. 2021;47(4):369-421.
- Bulas vigentes de adrenalina, amiodarona, lidocaína, sulfato de magnésio, gluconato de cálcio e bicarbonato de sódio registradas na Anvisa.
Aviso importante
Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Os traçados são representações esquemáticas didáticas, geradas graficamente para ilustrar os padrões descritos, e não registros de pacientes reais. Este conteúdo não substitui a avaliação médica presencial, o treinamento formal em suporte avançado de vida, o julgamento clínico individualizado nem os protocolos da sua instituição.
Informações rápidas
Resumo do artigo e referências de bolso, reunidos em um só lugar.
Os quatro ritmos
Fibrilação ventricular
Ondulações caóticas, sem QRS identificável. Chocável. Desfibrile imediatamente e retome as compressões sem checar pulso. Adrenalina 1 mg após o 2º choque, repetida a cada 3 a 5 minutos, e amiodarona 300 mg após o 3º choque. Cuidado com a FV fina, que pode ser confundida com assistolia — aumente o ganho do monitor.
TV sem pulso
QRS largo, rápido e regular. Chocável, com conduta idêntica à da FV e choque não sincronizado. O que separa da TV com pulso é a checagem de pulso, não o traçado. No padrão de torsades de pointes, acrescente sulfato de magnésio 1 a 2 g.
AESP
Ritmo organizado no monitor sem pulso palpável. Não chocável. Adrenalina 1 mg o quanto antes e busca sistemática dos 5 H e 5 T. Expanda volume empiricamente e use o ultrassom nas pausas de checagem para identificar tamponamento, pneumotórax e hipovolemia.
Assistolia
Linha praticamente isoelétrica. Não chocável. Confirme com o protocolo da linha reta — cabos, ganho e segunda derivação — antes de aceitar o diagnóstico. Adrenalina precoce e causas reversíveis. Não desfibrile e não instale marca-passo.
Números rápidos
Compressão: 100 a 120 por minuto, 5 a 6 cm, com retorno completo do tórax.
Desfibrilação: bifásico 120 a 200 J; monofásico 360 J. Só em FV e TV sem pulso.
Adrenalina: 1 mg a cada 3 a 5 minutos; precoce nos ritmos não chocáveis.
Amiodarona: 300 mg após o 3º choque; 150 mg na segunda dose.
Ciclos: 2 minutos, com checagem de ritmo em menos de 10 segundos.
Capnografia: alvo acima de 10 mmHg; salto acima de 35 sugere retorno da circulação.
5 H e 5 T
H: hipovolemia, hipóxia, hidrogênio (acidose), hipo ou hipercalemia, hipotermia.
T: pneumotórax hipertensivo, tamponamento cardíaco, toxinas, trombose pulmonar, trombose coronariana.
Não esqueça
Primeira pergunta diante do monitor: choca ou não choca.
Após o choque, retome as compressões sem checar pulso.
Ritmo organizado sem pulso é AESP, e não retorno da circulação.
Confirme a assistolia antes de aceitá-la: cabos, ganho e segunda derivação.
Carregue o desfibrilador com as compressões em curso.
Artigos relacionados
Em provas / residência
A banca cobra a divisão entre chocáveis e não chocáveis, o momento da adrenalina e da amiodarona, o protocolo da linha reta e os 5 H e 5 T.
Decore: adrenalina após o 2º choque nos chocáveis e imediata nos não chocáveis; amiodarona 300 mg após o 3º choque; assistolia não choca e não usa marca-passo.
