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Emergência & UTI • RCP e Código Azul

Ritmos da PCR

São quatro ritmos e apenas uma pergunta na checagem: choca ou não choca? Fibrilação ventricular e taquicardia ventricular sem pulso pedem desfibrilação imediata; atividade elétrica sem pulso e assistolia pedem causa reversível. Esta é a biblioteca dos quatro, com traçado e conduta passo a passo para cada um.

FV e TVSP: choque agora AESP: procure a causa Assistolia: confirme antes Compressão de qualidade
Tempo de leitura: 22 min
Atualizado em: 06/09/2026

Fibrilação ventricular

  • Ondulações caóticas, sem QRS identificável
  • Ritmo chocável — desfibrilação imediata
  • Adrenalina após o segundo choque
  • Amiodarona após o terceiro choque

TV sem pulso

  • QRS largo, regular e rápido, sem pulso
  • Ritmo chocável — mesma conduta da FV
  • Checar pulso é o que define a conduta
  • Torsades pede sulfato de magnésio

AESP

  • Ritmo organizado no monitor, sem pulso
  • Não chocável — adrenalina imediata
  • Tudo gira em torno da causa reversível
  • Ultrassom à beira do leito ajuda muito

Assistolia

  • Linha isoelétrica, sem atividade elétrica
  • Não chocável — adrenalina imediata
  • Confirme o protocolo da linha reta
  • Pior prognóstico entre os quatro ritmos

Quatro ritmos, duas condutas

A parada cardiorrespiratória se apresenta em quatro ritmos, e a primeira decisão à beira do leito não é qual deles é — é a qual dos dois grupos ele pertence.

Chocáveis

  • Fibrilação ventricular — grossa ou fina.
  • Taquicardia ventricular sem pulso — monomórfica ou polimórfica.
  • O tratamento definitivo é a desfibrilação, e cada minuto de atraso reduz a sobrevida.
  • Melhor prognóstico entre os quatro, especialmente quando o ritmo inicial é chocável.

Não chocáveis

  • Atividade elétrica sem pulso — qualquer ritmo organizado sem pulso.
  • Assistolia — ausência de atividade elétrica.
  • O tratamento é adrenalina imediata e busca ativa de causa reversível.
  • Prognóstico pior, mas potencialmente reversível quando a causa é identificada.
Em todos os quatro, o que mais determina a sobrevida não é o fármaco: é a compressão torácica de alta qualidade com mínima interrupção. O ritmo define o que se acrescenta a ela, nunca o que a substitui.

Comparação rápida dos quatro ritmos

Ritmo No monitor Choca? Ação imediata
Fibrilação ventricular Ondulações caóticas, irregulares, sem QRS, P ou T identificáveis. Sim Desfibrilar imediatamente e retomar compressões por 2 minutos sem checar pulso.
TV sem pulso QRS largo, rápido e regular, com morfologia uniforme ou em fuso. Sim Desfibrilar imediatamente — conduta idêntica à da fibrilação ventricular.
AESP Qualquer ritmo organizado — sinusal, juncional, bradicardia, ritmo agônico. Não Adrenalina o quanto antes e busca sistemática dos 5 H e 5 T.
Assistolia Linha praticamente isoelétrica, sem complexos. Não Confirmar com o protocolo da linha reta, adrenalina e causas reversíveis.
A checagem de ritmo ocorre a cada 2 minutos, ao final de cada ciclo, e deve durar menos de 10 segundos. Fora desses momentos, a compressão não para para "ver o monitor".

A base comum: RCP de alta qualidade

Antes de qualquer decisão sobre ritmo, fármaco ou energia, existe o que sustenta todo o resto. Estes parâmetros valem para os quatro ritmos.

Frequência

100 a 120 compressões por minuto, sem acelerar além disso — velocidade excessiva reduz o enchimento diastólico.

Profundidade

5 a 6 cm no adulto, permitindo o retorno completo do tórax entre as compressões.

Interrupções

Minimizar ao máximo; a fração de compressão deve ser superior a 60%, idealmente acima de 80%.

Revezamento

Trocar o compressor a cada 2 minutos, aproveitando a checagem de ritmo, para evitar queda de qualidade pela fadiga.

Ventilação

30:2 sem via aérea avançada; com via aérea avançada, 1 ventilação a cada 6 segundos, sem pausar as compressões.

Capnografia

Monitoriza a qualidade da RCP e detecta o retorno da circulação — alvo de dióxido de carbono expirado acima de 10 mmHg.

Um salto abrupto do dióxido de carbono expirado acima de 35 a 40 mmHg durante a RCP é forte indício de retorno da circulação espontânea — e permite confirmar sem interromper as compressões.

Calculadora — Identificação do ritmo

Fluxo de decisão Choca ou não choca

Responda ao que você está vendo no monitor e sentindo no paciente. A ferramenta identifica o ritmo e devolve a ação imediata correspondente.

Ritmo identificado
—
—
Ferramenta educacional de apoio ao raciocínio. Durante uma parada real, a identificação deve levar menos de 10 segundos e não depende de nenhuma ferramenta: veja o monitor, decida se choca ou não, e retome as compressões.

A sequência que vale para todos

  1. Reconheça a parada: irresponsivo, sem respiração normal e sem pulso em até 10 segundos. Chame ajuda e peça o desfibrilador.
  2. INICIE COMPRESSÕES IMEDIATAMENTE — 100 a 120 por minuto, 5 a 6 cm de profundidade, com retorno completo do tórax.
  3. Instale as pás ou os eletrodos assim que o desfibrilador chegar, sem parar as compressões enquanto isso.
  4. Faça a primeira checagem de ritmo e decida: chocável ou não chocável.
  5. Chocável: desfibrile e retome as compressões imediatamente, sem checar pulso.
  6. Não chocável: retome as compressões e administre adrenalina o quanto antes.
  7. Mantenha ciclos de 2 minutos, com checagem de ritmo e troca de compressor ao final de cada um.
  8. Em paralelo, garanta acesso venoso ou intraósseo, considere via aérea avançada e procure ativamente as causas reversíveis.

Fibrilação ventricular

Ritmo chocável

É a despolarização caótica e desorganizada de múltiplos focos ventriculares. O miocárdio treme, mas não contrai — não há débito cardíaco. É o ritmo inicial mais frequente na parada súbita presenciada de origem cardíaca e o de melhor prognóstico, desde que a desfibrilação seja precoce.

A sobrevida cai de forma acentuada a cada minuto sem desfibrilação. O desfibrilador é o tratamento; a compressão mantém o miocárdio viável até que ele chegue.
Fibrilação ventricular grossa

O que ver: ondulações amplas, totalmente irregulares em amplitude e frequência, sem QRS, onda P ou onda T identificáveis. A linha de base nunca se estabiliza. Amplitude habitualmente acima de 3 mm.

Fibrilação ventricular fina

O que ver: mesmo padrão caótico, porém de baixa amplitude, abaixo de 3 mm. Traduz FV mais prolongada, com miocárdio já depletado de energia. Cuidado: pode ser confundida com assistolia.

A armadilha da FV fina

A fibrilação ventricular fina é o principal diagnóstico diferencial da assistolia, e confundi-las muda completamente a conduta: uma é chocável, a outra não.

  • Aumente o ganho do monitor antes de concluir que é assistolia.
  • Confira o traçado em duas derivações diferentes.
  • Verifique cabos, eletrodos e conexões — artefato é causa comum de "linha reta".
  • Na dúvida entre FV fina e assistolia, a orientação atual é tratar como não chocável: compressão de qualidade e adrenalina, que podem converter a FV fina em grossa.
  • Chocar assistolia não traz benefício e interrompe a compressão sem necessidade.
O conceito prático mudou: não se choca "por via das dúvidas". A compressão de alta qualidade com adrenalina é o que melhora o substrato miocárdico e pode transformar uma FV fina em FV grossa, aí sim chocável com chance real de sucesso.

Conduta passo a passo na FV

  1. Confirme a parada e inicie compressões imediatamente, enquanto alguém traz o desfibrilador e o carrinho de emergência.
  2. Instale as pás ou pás adesivas sem interromper as compressões; posicione em ântero-lateral ou ântero-posterior.
  3. RITMO CHOCÁVEL IDENTIFICADO: CARREGUE O DESFIBRILADOR ENQUANTO AS COMPRESSÕES CONTINUAM e desfibrile assim que estiver carregado.
  4. Energia: bifásico de 120 a 200 J conforme o fabricante — na dúvida, use a energia máxima; monofásico, 360 J.
  5. Aplicado o choque, retome as compressões imediatamente, sem checar pulso nem monitor, por 2 minutos completos.
  6. Garanta acesso venoso ou intraósseo e considere via aérea avançada — sem interromper as compressões.
  7. Ao final do ciclo, cheque o ritmo em menos de 10 segundos. Persistindo a FV: segundo choque e, em seguida, adrenalina 1 mg, repetida a cada 3 a 5 minutos.
  8. Persistindo após o terceiro choque: amiodarona 300 mg em bolus, com segunda dose de 150 mg se necessário; a lidocaína é alternativa.
  9. Entre os ciclos, procure ativamente as causas reversíveis — sobretudo hipóxia, hipocalemia, hipomagnesemia e isquemia coronariana.
  10. FV refratária após três choques: considere desfibrilação com vetor duplo sequencial, reposicionamento das pás, e discuta suporte extracorpóreo em serviços com essa disponibilidade.

Ordem dos eventos por ciclo

Ciclo Ao final do ciclo O que fazer
1ºChoque 1Desfibrilar e retomar compressões por 2 minutos. Obter acesso venoso ou intraósseo.
2ºChoque 2 + adrenalinaDesfibrilar, retomar compressões e administrar adrenalina 1 mg, repetindo a cada 3 a 5 minutos.
3ºChoque 3 + amiodaronaDesfibrilar, retomar compressões e administrar amiodarona 300 mg em bolus.
4ºChoque 4 + adrenalinaManter o intervalo de 3 a 5 minutos da adrenalina; reavaliar causas reversíveis.
5ºChoque 5 + amiodaronaSegunda dose de amiodarona, 150 mg. Considerar estratégias para FV refratária.
Esta é a sequência clássica de referência, e não uma regra rígida: o essencial é que a adrenalina entre após o segundo choque e o antiarrítmico após o terceiro, mantendo a compressão praticamente ininterrupta entre eles.

Erros específicos na FV

  • Interromper as compressões para carregar o desfibrilador — carregue com as compressões em curso.
  • Checar pulso logo após o choque, em vez de retomar as compressões imediatamente.
  • Fazer pausas longas para "ver se voltou" antes de completar os 2 minutos.
  • Atrasar a desfibrilação para obter acesso venoso ou intubar.
  • Usar energia abaixo da recomendada pelo fabricante por receio de lesão.
  • Não aumentar o ganho do monitor antes de classificar como assistolia.
  • Esquecer a amiodarona após o terceiro choque na FV refratária.
  • Não investigar isquemia coronariana como causa após o retorno da circulação.

Taquicardia ventricular sem pulso

Ritmo chocável

É a taquicardia de origem ventricular — QRS largo, rápido e habitualmente regular — que ocorre sem gerar débito cardíaco. No monitor pode ser indistinguível de uma taquicardia ventricular com pulso: o que define a conduta é a checagem de pulso, não o traçado.

Mesma família da fibrilação ventricular e mesma conduta: desfibrilação imediata, não sincronizada, seguida de compressões. Com pulso, o caminho é outro — cardioversão sincronizada ou antiarrítmico, conforme a estabilidade.
TV monomórfica

O que ver: complexos largos, regulares e todos com a mesma morfologia, em frequência habitualmente entre 150 e 250 por minuto. Não se identificam ondas P dissociadas com facilidade durante a parada.

TV polimórfica (torsades de pointes)

O que ver: complexos largos com amplitude variável em fuso, girando em torno da linha de base — o aspecto de "torção das pontas". Associa-se a QT longo, e o tratamento inclui sulfato de magnésio.

Conduta passo a passo na TV sem pulso

  1. CHEQUE O PULSO CENTRAL EM ATÉ 10 SEGUNDOS — é isso que separa a TV sem pulso da TV com pulso, e as duas condutas são completamente diferentes.
  2. Sem pulso: inicie compressões imediatamente e trate exatamente como fibrilação ventricular.
  3. Instale o desfibrilador em modo não sincronizado. Em ritmo polimórfico, a sincronização pode simplesmente falhar por não reconhecer a onda R.
  4. Carregue com as compressões em curso e desfibrile: bifásico de 120 a 200 J, ou 360 J no monofásico.
  5. Retome as compressões imediatamente após o choque, sem checar pulso, por 2 minutos completos.
  6. Após o segundo choque: adrenalina 1 mg, repetida a cada 3 a 5 minutos.
  7. Após o terceiro choque: amiodarona 300 mg em bolus, com segunda dose de 150 mg se necessário; lidocaína como alternativa.
  8. Se o padrão for torsades de pointes: acrescente sulfato de magnésio 1 a 2 g por via intravenosa, diluído, e corrija potássio e cálcio.
  9. Revise os fármacos que prolongam o intervalo QT e suspenda-os; investigue distúrbio eletrolítico e bradicardia como substrato.
  10. Após o retorno da circulação, mantenha antiarrítmico conforme o caso e investigue isquemia, cardiopatia estrutural e canalopatia.

TV com pulso × TV sem pulso

Situação Como reconhecer Conduta
TV sem pulso Paciente irresponsivo, sem pulso central palpável. Desfibrilação não sincronizada e algoritmo de parada, idêntico ao da fibrilação ventricular.
TV com pulso e instável Pulso presente com hipotensão, dor torácica, congestão ou rebaixamento. Cardioversão sincronizada imediata, com sedação se possível.
TV com pulso e estável Pulso presente, sem sinais de instabilidade. Antiarrítmico endovenoso, como amiodarona ou procainamida, com preparo para cardioversão.
Torsades com pulso Complexos largos em fuso com QT longo, habitualmente autolimitados e recorrentes. Sulfato de magnésio, correção eletrolítica, suspensão dos fármacos implicados e tratamento da bradicardia.
Se houver dúvida real sobre a presença de pulso em paciente irresponsivo, a orientação é tratar como parada e iniciar compressões: o risco de comprimir quem tem pulso é muito menor que o de não comprimir quem não tem.

Erros específicos na TV sem pulso

  • Perder tempo tentando sincronizar o choque em paciente sem pulso.
  • Tentar diferenciar TV de taquicardia supraventricular com aberrância durante a parada — irrelevante nesse contexto.
  • Prolongar a checagem de pulso além de 10 segundos.
  • Administrar antiarrítmico antes de desfibrilar.
  • Não reconhecer o padrão de torsades e deixar de administrar magnésio.
  • Não revisar os fármacos que prolongam o QT após o retorno da circulação.
  • Esquecer de corrigir potássio e magnésio, que são substrato frequente.

Atividade elétrica sem pulso

Ritmo não chocável

Não é um ritmo específico, e sim uma situação clínica: existe atividade elétrica organizada no monitor — que pode ser sinusal, juncional, bradicardia ou ritmo agônico — mas não há pulso palpável. Por isso a AESP não se define pelo traçado, e sim pela dissociação entre o que se vê no monitor e o que se sente no paciente.

A AESP é, essencialmente, um problema mecânico ou de causa reversível — e não um problema elétrico. Chocar não ajuda. O que muda o desfecho é encontrar e tratar a causa.
AESP com ritmo organizado

O que ver: traçado aparentemente normal ou quase normal — aqui um ritmo sinusal de frequência preservada. O monitor não distingue AESP de perfusão adequada: é a ausência de pulso que faz o diagnóstico.

Ritmo agônico

O que ver: complexos largos, bizarros, lentos e espaçados, com frequência muito baixa. É uma forma de AESP com prognóstico especialmente reservado, embora ainda passível de reversão se a causa for tratável.

Conduta passo a passo na AESP

  1. Confirme a ausência de pulso em até 10 segundos e inicie ou mantenha as compressões de alta qualidade.
  2. Identifique o ritmo como não chocável e retome as compressões imediatamente — não perca tempo com o desfibrilador.
  3. ADMINISTRE ADRENALINA 1 mg O QUANTO ANTES: em ritmos não chocáveis, a administração precoce se associa a melhor desfecho. Repita a cada 3 a 5 minutos.
  4. Garanta acesso venoso ou intraósseo e considere via aérea avançada com capnografia.
  5. Inicie expansão volêmica empírica — hipovolemia é uma das causas mais frequentes e mais tratáveis.
  6. PERCORRA SISTEMATICAMENTE OS 5 H E OS 5 T, com alguém da equipe designado apenas para isso.
  7. Use o ultrassom à beira do leito nas pausas de checagem de ritmo: ele identifica tamponamento, pneumotórax, hipovolemia grave, disfunção ventricular direita e ausência de contratilidade.
  8. Mantenha ciclos de 2 minutos com checagem breve de ritmo e pulso, revezando o compressor.
  9. Trate a causa identificada de imediato — punção de alívio, pericardiocentese, volume, cálcio, bicarbonato, trombolítico ou antídoto, conforme o caso.
  10. Reavalie a decisão de manter ou encerrar os esforços considerando a causa, o tempo de parada e a resposta ao tratamento.

Calculadora — Checklist dos 5 H e 5 T

Causas reversíveis Conduta específica

Marque as causas que você suspeita ou identificou. A ferramenta devolve a intervenção específica de cada uma, para que a equipe execute em paralelo às compressões. Vale para AESP e para assistolia.

Os 5 H

Os 5 T

Causas marcadas
0
Nenhuma causa marcada
Marque as causas suspeitas para ver a conduta específica de cada uma
Condutas correspondentes
—
Ferramenta de apoio. Na prática, designe um membro da equipe para percorrer a lista em voz alta enquanto os demais mantêm as compressões — isso reduz a chance de uma causa tratável passar despercebida no meio da parada.

Erros específicos na AESP

  • Chocar um ritmo organizado por parecer "quase normal" no monitor.
  • Atrasar a adrenalina — em ritmos não chocáveis, ela deve ser administrada o quanto antes.
  • Não percorrer os 5 H e 5 T de forma sistemática, ficando apenas nos ciclos de compressão.
  • Prolongar a checagem de pulso e o uso do ultrassom além de 10 segundos, prejudicando a fração de compressão.
  • Não expandir volume empiricamente diante de suspeita de hipovolemia.
  • Esquecer causas farmacológicas tratáveis com antídoto específico.
  • Confundir pseudo-AESP — contratilidade presente ao ultrassom sem pulso palpável — com AESP verdadeira, o que muda o prognóstico e a conduta.

Assistolia

Ritmo não chocável

É a ausência completa de atividade elétrica ventricular, representada por uma linha praticamente isoelétrica. Costuma ser o ponto final da deterioração de outros ritmos, e é o de pior prognóstico entre os quatro — o que não significa que a reanimação deva ser menos vigorosa, sobretudo quando há causa reversível identificável.

Antes de aceitar o diagnóstico, confirme. Uma proporção relevante das "assistolias" é artefato técnico — cabo solto, eletrodo mal aderido, ganho baixo ou derivação inadequada.
Assistolia

O que ver: linha praticamente reta, com apenas pequenas oscilações da linha de base, sem qualquer complexo identificável. Uma linha absolutamente perfeita e sem qualquer ruído sugere artefato — cheque cabos e eletrodos.

Comparação: ritmo sinusal normal

Referência: onda P, complexo QRS estreito e onda T, em sequência regular. Este mesmo traçado, na ausência de pulso, caracteriza AESP — o que reforça que o monitor sozinho não fecha o diagnóstico.

Protocolo da linha reta

Sequência rápida de confirmação, executada sem interromper as compressões e em poucos segundos, antes de assumir a assistolia.

Cabos e conexões

Confira se os eletrodos estão aderidos, se os cabos estão conectados ao monitor e se as pás têm contato adequado com a pele.

Ganho do monitor

Aumente a amplitude do traçado — uma fibrilação ventricular fina pode desaparecer no ganho baixo.

Duas derivações

Troque a derivação e confirme o traçado em pelo menos duas — a assistolia deve ser vista em ambas.

Confirmação clínica

Ausência de pulso central e de respiração, com capnografia compatível quando disponível.

Se o aumento do ganho revelar fibrilação ventricular grossa, mude imediatamente de algoritmo e desfibrile. Se revelar apenas FV fina, mantenha o algoritmo não chocável com compressões e adrenalina.

Conduta passo a passo na assistolia

  1. Confirme a parada e mantenha compressões de alta qualidade — elas são a intervenção mais importante aqui.
  2. EXECUTE O PROTOCOLO DA LINHA RETA: cabos, ganho do monitor e segunda derivação, sem parar as compressões.
  3. Confirmada a assistolia, classifique como ritmo não chocável e não desfibrile.
  4. Adrenalina 1 mg o quanto antes, repetida a cada 3 a 5 minutos — não há antiarrítmico indicado neste ritmo.
  5. Garanta acesso venoso ou intraósseo e considere via aérea avançada com capnografia contínua.
  6. PROCURE ATIVAMENTE OS 5 H E OS 5 T: a assistolia raramente reverte sem que a causa seja tratada.
  7. Considere expansão volêmica, correção de distúrbios eletrolíticos e antídotos conforme a suspeita.
  8. Mantenha ciclos de 2 minutos, com checagem breve de ritmo e revezamento do compressor.
  9. Se surgir ritmo organizado, cheque o pulso: com pulso, cuidados pós-parada; sem pulso, algoritmo de AESP.
  10. Reavalie periodicamente a decisão de manter os esforços, considerando causa, tempo de parada, capnografia e contexto clínico.
O marca-passo transcutâneo não é indicado na assistolia: não há evidência de benefício e ele consome tempo e atenção que deveriam estar na compressão e na busca da causa.

Erros específicos na assistolia

  • Assumir assistolia sem executar o protocolo da linha reta.
  • Desfibrilar assistolia — não há benefício e interrompe a compressão.
  • Instalar marca-passo transcutâneo, sem indicação nesse ritmo.
  • Atrasar a adrenalina, que deve ser administrada o quanto antes nos ritmos não chocáveis.
  • Encerrar os esforços precocemente sem considerar causas reversíveis, hipotermia e intoxicação.
  • Não checar cabos e eletrodos diante de uma linha absolutamente perfeita, sem ruído algum.
  • Reduzir a qualidade das compressões por considerar o prognóstico ruim.

O que entra, quando e em qual ritmo

Intervenção Dose no adulto Quando Em qual ritmo
Desfibrilação Bifásico 120 a 200 J conforme o fabricante; monofásico 360 J Imediata, e a cada 2 minutos se persistir Apenas FV e TV sem pulso
Adrenalina 1 mg em bolus, seguido de 20 mL de soro e elevação do membro Chocáveis: após o 2º choque. Não chocáveis: o quanto antes. Repetir a cada 3 a 5 min Todos os quatro ritmos
Amiodarona 300 mg em bolus; segunda dose de 150 mg Após o 3º choque, e após o 5º para a segunda dose Apenas FV e TV sem pulso refratárias
Lidocaína 1 a 1,5 mg/kg; doses adicionais de 0,5 a 0,75 mg/kg Alternativa à amiodarona Apenas FV e TV sem pulso refratárias
Sulfato de magnésio 1 a 2 g diluídos, em 1 a 2 minutos Assim que o padrão for reconhecido Apenas torsades de pointes, não de rotina
Cálcio Gluconato de cálcio 10%, 10 a 30 mL, ou cloreto 10 mL Diante da suspeita Hipercalemia, hipocalcemia e intoxicação por bloqueador de canal de cálcio
Bicarbonato de sódio Conforme o protocolo, tipicamente 1 mEq/kg Diante da suspeita Hipercalemia, acidose grave prévia e intoxicação por tricíclico — não de rotina
Trombolítico Conforme o protocolo institucional Durante a reanimação Tromboembolismo pulmonar confirmado ou fortemente suspeito
A vasopressina foi retirada dos algoritmos como alternativa à adrenalina por não trazer benefício adicional. Atropina não tem mais indicação na assistolia nem na AESP.

Calculadora — Doses e energia por peso

Adulto e pediátrico Energia do choque Resumo para copiar

Informe os dados e a ferramenta devolve as doses e as energias correspondentes ao ritmo e à faixa etária, com o resumo pronto para ser lido em voz alta pela equipe.

Energia do choque
—
Adrenalina
—
Antiarrítmico
—
Ritmo e estratégia
—
—
Resumo da conduta
—
Ferramenta de apoio à decisão, não prescrição automática. As energias variam conforme o fabricante do desfibrilador — na dúvida, use a energia máxima disponível no aparelho. Doses pediátricas devem ser conferidas com a fita de reanimação ou o protocolo do serviço.
Condutas — como usar os cards

Cada card abre o detalhamento: indicação, dose, momento de administração e cuidados. Confira sempre o protocolo institucional e a bula vigente antes de prescrever.

Energia e fármacos

O que se administra durante a parada, com a indicação vinculada ao ritmo. Nenhum deles substitui a compressão de qualidade.

Suporte durante a parada

O que sustenta o algoritmo: qualidade da compressão, acesso, via aérea e as ferramentas que ajudam a decidir.

Retorno da circulação espontânea

Reconhecer o retorno da circulação é tão importante quanto a reanimação em si: continuar comprimindo um coração que voltou também causa dano.

Salto na capnografia

Aumento abrupto do dióxido de carbono expirado, tipicamente acima de 35 a 40 mmHg — o sinal mais precoce e que não exige parar as compressões.

Pulso e pressão

Pulso central palpável e pressão arterial mensurável; curva arterial pulsátil se houver linha invasiva.

Ritmo organizado

Aparecimento de ritmo organizado no monitor durante a checagem programada.

Sinais de vida

Movimento espontâneo, respiração, tosse ou abertura ocular.

Ritmo organizado no monitor não é sinônimo de retorno da circulação: sem pulso, isso é AESP e a compressão continua. A checagem de pulso permanece obrigatória.

Cuidados pós-parada

  1. Otimize a ventilação e a oxigenação: evite hiperóxia, titulando a saturação para 92% a 98%, e mantenha normocapnia.
  2. Estabilize a hemodinâmica: alvo de pressão arterial média acima de 65 mmHg, com volume e vasopressor conforme necessário.
  3. ELETROCARDIOGRAMA DE 12 DERIVAÇÕES IMEDIATO — a doença coronariana é a causa mais frequente da parada de origem cardíaca.
  4. Encaminhe à coronariografia de urgência diante de supradesnivelamento do segmento ST ou de forte suspeita de causa coronariana.
  5. Institua controle direcionado de temperatura, evitando ativamente a febre, conforme o protocolo do serviço.
  6. Corrija glicemia, eletrólitos e distúrbios ácido-base; trate a causa identificada durante a reanimação.
  7. Adie a prognosticação neurológica — ela exige avaliação multimodal e tempo adequado, tipicamente não antes de 72 horas.
  8. Comunique a família com clareza e acione a equipe assistencial conforme a evolução.

Cenários especiais

Cenário Particularidade O que fazer diferente
Hipotermia grave O miocárdio frio responde mal a choques e a fármacos; a sobrevida neurológica pode ser boa apesar da parada prolongada. Reaquecer ativamente e prolongar a reanimação. Máxima de referência: ninguém está morto até estar aquecido e morto.
Gestação O útero gravídico comprime a veia cava e reduz o retorno venoso. Deslocamento uterino manual para a esquerda e preparo para cesariana perimortem em até 5 minutos se não houver retorno da circulação.
Intoxicação exógena Betabloqueador, bloqueador de canal de cálcio, tricíclico, digital e anestésico local têm antídoto ou tratamento específico. Antídoto dirigido, emulsão lipídica no caso do anestésico local, bicarbonato no tricíclico, e reanimação prolongada.
Trauma As causas dominantes são hipovolemia, pneumotórax hipertensivo e tamponamento. Controle de hemorragia, toracostomia bilateral, transfusão maciça e toracotomia de reanimação em casos selecionados.
Renal crônico dialítico Hipercalemia é a causa a ser presumida até prova em contrário. Cálcio endovenoso, bicarbonato, insulina com glicose e acionamento precoce da nefrologia para diálise.
Tromboembolismo pulmonar AESP com sobrecarga de ventrículo direito ao ultrassom e contexto compatível. Considerar trombolítico durante a reanimação e prolongar os esforços por 60 a 90 minutos após a administração.
Parada refratária FV persistente após múltiplos choques, ou parada prolongada com causa potencialmente reversível. Reposicionar as pás, considerar desfibrilação com vetor duplo sequencial e discutir suporte extracorpóreo em serviços habilitados.
Afogamento A parada é primariamente hipóxica. Priorizar ventilação desde o início, começando com 5 ventilações de resgate antes das compressões.

Erros comuns em qualquer ritmo

  • Interromper as compressões por tempo excessivo em qualquer momento do atendimento.
  • Prolongar a checagem de pulso ou de ritmo além de 10 segundos.
  • Interromper as compressões para carregar o desfibrilador, intubar ou obter acesso.
  • Checar pulso logo após o choque, em vez de retomar imediatamente as compressões.
  • Comprimir com profundidade insuficiente ou sem permitir o retorno completo do tórax.
  • Hiperventilar o paciente, o que reduz o retorno venoso e piora o débito gerado.
  • Não revezar o compressor a cada 2 minutos, deixando a qualidade cair pela fadiga.
  • Chocar ritmo não chocável, ou deixar de chocar um ritmo chocável por dúvida no traçado.
  • Não percorrer os 5 H e os 5 T de forma sistemática.
  • Atrasar a adrenalina nos ritmos não chocáveis.
  • Não usar capnografia quando disponível, perdendo o melhor monitor de qualidade da RCP.
  • Não designar um líder claro, gerando ordens sobrepostas e perda de tempo.

Resumo do fluxo

  1. Reconheça a parada, chame ajuda e peça o desfibrilador.
  2. COMPRESSÕES DE ALTA QUALIDADE IMEDIATAMENTE — 100 a 120 por minuto, 5 a 6 cm, com retorno completo do tórax.
  3. Instale o monitor e faça a primeira checagem: choca ou não choca.
  4. Chocável — desfibrile, retome as compressões por 2 minutos, adrenalina após o 2º choque e amiodarona após o 3º.
  5. Não chocável — retome as compressões e administre adrenalina o quanto antes, repetindo a cada 3 a 5 minutos.
  6. Mantenha ciclos de 2 minutos com checagem breve e revezamento do compressor.
  7. Percorra sistematicamente os 5 H e os 5 T, usando o ultrassom nas pausas quando disponível.
  8. Reconheceu o retorno da circulação: inicie os cuidados pós-parada, com eletrocardiograma de 12 derivações e definição da causa.

Referências bibliográficas

Fontes utilizadas na construção deste artigo. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.

  1. American Heart Association. Guidelines for Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care — Suporte Avançado de Vida Cardiovascular em adultos, edição vigente.
  2. Panchal AR, Bartos JA, Cabañas JG, et al. Part 3: Adult Basic and Advanced Life Support: 2020 American Heart Association Guidelines for CPR and ECC. Circulation. 2020;142(16_suppl_2):S366-S468.
  3. European Resuscitation Council. Guidelines: Adult Advanced Life Support, edição vigente.
  4. European Resuscitation Council. Guidelines: Special Circumstances in Resuscitation, edição vigente — hipotermia, gestação, intoxicações, hipercalemia e trauma.
  5. Sociedade Brasileira de Cardiologia. Diretriz de Ressuscitação Cardiopulmonar e Cuidados Cardiovasculares de Emergência, atualização vigente.
  6. Kudenchuk PJ, Brown SP, Daya M, et al. Amiodarone, lidocaine, or placebo in out-of-hospital cardiac arrest (ALPS). N Engl J Med. 2016;374(18):1711-1722.
  7. Perkins GD, Ji C, Deakin CD, et al. A randomized trial of epinephrine in out-of-hospital cardiac arrest (PARAMEDIC2). N Engl J Med. 2018;379(8):711-721.
  8. Andersen LW, Berg KM, Saindon BZ, et al. Time to epinephrine and survival after pediatric in-hospital cardiac arrest. JAMA. 2015;314(8):802-810 — administração precoce em ritmos não chocáveis.
  9. Cheskes S, Verbeek PR, Drennan IR, et al. Defibrillation strategies for refractory ventricular fibrillation (DOSE VF). N Engl J Med. 2022;387(21):1947-1956.
  10. Gaspari R, Weekes A, Adhikari S, et al. Emergency department point-of-care ultrasound in out-of-hospital and in-ED cardiac arrest. Resuscitation. 2016;109:33-39.
  11. Nolan JP, Sandroni C, Böttiger BW, et al. European Resuscitation Council and European Society of Intensive Care Medicine Guidelines: Post-resuscitation care. Intensive Care Med. 2021;47(4):369-421.
  12. Bulas vigentes de adrenalina, amiodarona, lidocaína, sulfato de magnésio, gluconato de cálcio e bicarbonato de sódio registradas na Anvisa.

Aviso importante

Este artigo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Os traçados são representações esquemáticas didáticas, geradas graficamente para ilustrar os padrões descritos, e não registros de pacientes reais. Este conteúdo não substitui a avaliação médica presencial, o treinamento formal em suporte avançado de vida, o julgamento clínico individualizado nem os protocolos da sua instituição.

Informações rápidas

Resumo do artigo e referências de bolso, reunidos em um só lugar.

Os quatro ritmos

Fibrilação ventricular

Ondulações caóticas, sem QRS identificável. Chocável. Desfibrile imediatamente e retome as compressões sem checar pulso. Adrenalina 1 mg após o 2º choque, repetida a cada 3 a 5 minutos, e amiodarona 300 mg após o 3º choque. Cuidado com a FV fina, que pode ser confundida com assistolia — aumente o ganho do monitor.

TV sem pulso

QRS largo, rápido e regular. Chocável, com conduta idêntica à da FV e choque não sincronizado. O que separa da TV com pulso é a checagem de pulso, não o traçado. No padrão de torsades de pointes, acrescente sulfato de magnésio 1 a 2 g.

AESP

Ritmo organizado no monitor sem pulso palpável. Não chocável. Adrenalina 1 mg o quanto antes e busca sistemática dos 5 H e 5 T. Expanda volume empiricamente e use o ultrassom nas pausas de checagem para identificar tamponamento, pneumotórax e hipovolemia.

Assistolia

Linha praticamente isoelétrica. Não chocável. Confirme com o protocolo da linha reta — cabos, ganho e segunda derivação — antes de aceitar o diagnóstico. Adrenalina precoce e causas reversíveis. Não desfibrile e não instale marca-passo.

Números rápidos

Compressão: 100 a 120 por minuto, 5 a 6 cm, com retorno completo do tórax.

Desfibrilação: bifásico 120 a 200 J; monofásico 360 J. Só em FV e TV sem pulso.

Adrenalina: 1 mg a cada 3 a 5 minutos; precoce nos ritmos não chocáveis.

Amiodarona: 300 mg após o 3º choque; 150 mg na segunda dose.

Ciclos: 2 minutos, com checagem de ritmo em menos de 10 segundos.

Capnografia: alvo acima de 10 mmHg; salto acima de 35 sugere retorno da circulação.

5 H e 5 T

H: hipovolemia, hipóxia, hidrogênio (acidose), hipo ou hipercalemia, hipotermia.

T: pneumotórax hipertensivo, tamponamento cardíaco, toxinas, trombose pulmonar, trombose coronariana.

Não esqueça

Primeira pergunta diante do monitor: choca ou não choca.

Após o choque, retome as compressões sem checar pulso.

Ritmo organizado sem pulso é AESP, e não retorno da circulação.

Confirme a assistolia antes de aceitá-la: cabos, ganho e segunda derivação.

Carregue o desfibrilador com as compressões em curso.

Em provas / residência

A banca cobra a divisão entre chocáveis e não chocáveis, o momento da adrenalina e da amiodarona, o protocolo da linha reta e os 5 H e 5 T.

Decore: adrenalina após o 2º choque nos chocáveis e imediata nos não chocáveis; amiodarona 300 mg após o 3º choque; assistolia não choca e não usa marca-passo.

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