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Atlas de Oftalmologia • Retina

Atenuação arterial

Estreitamento arteriolar retiniano • arteríolas afiladas • arteriolar narrowing

Redução do calibre das arteríolas retinianas em relação às veias. Pode ser generalizada (hipertensão crônica, envelhecimento, retinose pigmentar, isquemia antiga) ou focal (espasmo, esclerose, êmbolos). É um dos poucos lugares do corpo onde se vê diretamente a microcirculação — e o achado acompanha risco cardiovascular.

Tipo
Sinal vascular retiniano
Relação A/V
Normal ≈ 2:3; menor = atenuação
Mecanismo
Vasoconstrição, esclerose, menor demanda
Pista no exame
Hipertensão, RP, isquemia prévia
8–10 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça o achado

As arteríolas são mais claras e finas que as veias; o normal é uma relação de calibre de cerca de 2 para 3. Compare artéria e veia do mesmo par, perto do disco, e procure segmentos com estreitamento abrupto.

Imagem clínica

Figura 1. Retinopatia hipertensiva crônica: arteríolas difusamente finas, reflexo luminoso aumentado e cruzamentos arteriovenosos com compressão venosa.

Roteiro de observação
  1. 1
    CalibreArteríola bem mais fina que a veia correspondente (relação A/V menor que 2:3).
  2. 2
    PadrãoGeneralizado (todas finas) × focal (segmentos estreitados, "contas").
  3. 3
    ReflexoReflexo dorsal alargado: "fio de cobre"; vaso esbranquiçado: "fio de prata".
  4. 4
    CruzamentosVeia comprimida ou desviada sob a artéria (cruzamento AV patológico).

O que é atenuação arterial

É a diminuição do calibre das arteríolas retinianas. Como não há referência absoluta à oftalmoscopia, usa-se a comparação com as veias. Estudos populacionais com medida digital (equivalente do calibre arteriolar central) mostraram que arteríolas mais finas se associam a hipertensão atual e futura e a maior risco cardiovascular.

O mesmo sinal tem significados diferentes conforme o contexto: num hipertenso, reflete a doença vascular; em jovem com cegueira noturna, sugere retinose pigmentar; num olho com perda visual antiga, sequela de oclusão arterial ou de neuropatia óptica.

Sinal subjetivo

A estimativa clínica da relação A/V varia entre examinadores. Valorize o achado quando é evidente, assimétrico entre os olhos ou acompanhado de outros sinais (cruzamentos, hemorragias, palidez de disco, pigmento).

Generalizada ou focal?

Generalizada

  • Todas as arteríolas finas, nos dois olhos
  • Hipertensão crônica, envelhecimento
  • Retinose pigmentar, isquemia difusa antiga

Focal

  • Segmentos estreitados alternando com normais
  • Espasmo na hipertensão aguda ou grave
  • Pós-neuropatia óptica isquêmica; êmbolos

Quatro contextos de atenuação arterial

O que acompanha a artéria fina é o que define a causa: cruzamentos e hemorragias, pigmento periférico, disco pálido ou palidez retiniana.

Hipertensão crônica

Arteríolas finas e retificadas, reflexo em fio de cobre e cruzamentos AV com estreitamento venoso (sinal de Gunn). Indica doença hipertensiva de longa data.

HipertensãoFio de cobreCruzamento AV

Retinose pigmentar

Atenuação arteriolar marcada, disco pálido-céreo e pigmento em espículas ósseas na média periferia: a tríade clássica. Paciente com cegueira noturna e campo visual tubular.

RPDisco céreoEspículas

Sequela de oclusão arterial

Semanas a meses após uma oclusão da artéria central: artérias em fio, às vezes embainhadas, disco pálido e retina interna fina. A palidez retiniana aguda já desapareceu.

OACR antigaAtrofia óptica

Estreitamento focal

Segmentos arteriolares estreitados intercalados com trechos normais, em hipertensão grave. Avalie hemorragias, manchas algodonosas e edema de disco.

FocalEspasmoHipertensão grave

Examine o polo posterior com magnificação (oftalmoscópio direto ou lente de 78/90 D) e compare os pares artéria-veia a cerca de meio a um diâmetro de disco da borda do disco.

Exame passo a passo

  1. Identificar artérias e veias

    Artérias: mais claras, mais finas, com reflexo dorsal; veias: mais escuras e largas.

  2. Estimar a relação A/V

    Normal ≈ 2:3; 1:2 ou menos indica atenuação significativa.

  3. Padrão

    Difuso, focal, simétrico ou assimétrico entre os olhos.

  4. Sinais associados

    Cruzamentos AV, hemorragias, manchas algodonosas, exsudatos, edema de disco, pigmento periférico, palidez de disco.

  5. Pressão arterial e história

    Medir a PA no consultório; perguntar sobre cegueira noturna, perda visual prévia, uso de medicamentos tóxicos.

Classificação da retinopatia hipertensiva

A classificação de Wong e Mitchell, mais simples que a de Keith-Wagener-Barker, liga os sinais ao risco sistêmico.

GrauSinaisAssociação
NenhumaSem sinais—
LeveEstreitamento arteriolar generalizado ou focal, cruzamento AV, opacidade da parede (fio de cobre)Associação modesta com AVC, doença coronariana e morte
ModeradaHemorragias (chama de vela, pontos), microaneurismas, manchas algodonosas, exsudatos durosAssociação forte com AVC, declínio cognitivo e morte cardiovascular
MalignaSinais moderados + edema de discoEmergência hipertensiva: tratar imediatamente

Wong TY, Mitchell P. N Engl J Med 2004.

Modelo de registro

AO: arteríolas difusamente atenuadas (relação A/V ≈ 1:2), reflexo arteriolar aumentado, cruzamentos AV com compressão venosa em ambas as arcadas temporais. Sem hemorragias, exsudatos ou edema de disco. Impressão: retinopatia hipertensiva leve (Wong-Mitchell). PA 168×102 mmHg — encaminhado ao clínico.

Registre a PA medida e o grau de retinopatia.

Causas de atenuação arterial

Hipertensão arterial

Generalizada (crônica) ou focal (grave/aguda); com cruzamentos AV.

Envelhecimento e arteriosclerose

Esclerose da parede com reflexo alterado.

Retinose pigmentar e distrofias

Atenuação marcada com espículas e disco céreo; também em outras distrofias de bastonetes e cones.

Isquemia prévia

Oclusão da artéria central ou de ramo antiga; arterite de células gigantes.

Neuropatias ópticas

Atrofia óptica (glaucoma avançado, NOIA): estreitamento focal peripapilar.

Tóxicas

Quinina, entre outras retinopatias tóxicas.

Pré-eclâmpsia

Espasmo arteriolar focal; pode haver descolamento seroso.

Síndrome isquêmica ocular

Artérias finas com veias dilatadas mas pouco tortuosas; unilateral.

Diferencial

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Achado-chaveAtenuação + cruzamentos ± hemorragias
Como diferenciarPA elevada; bilateral e simétrica.
Achado-chaveAtenuação + espículas + disco céreo
Como diferenciarNictalopia, campo tubular, ERG reduzido.
Achado-chaveAtenuação unilateral + disco pálido
Como diferenciarHistória de perda visual súbita; retina interna fina na OCT.
Achado-chaveEstreitamento distal a êmbolo
Como diferenciarPlaca brilhante na bifurcação.

O sinal não se trata: ele aponta para uma doença sistêmica ou ocular que precisa ser investigada.

Para onde cada cenário leva

CenárioConduta
Atenuação generalizada em adultoMedir PA; encaminhar ao clínico para avaliação cardiovascular.
Atenuação + hemorragias, exsudatos e edema de discoEmergência hipertensiva: redução controlada da PA em ambiente hospitalar.
Atenuação + espículas + nictalopiaInvestigar distrofia: campo visual, OCT, ERG, teste genético.
Atenuação unilateral com disco pálidoRever história de oclusão arterial ou neuropatia; investigar fonte embólica e arterite.

Referências bibliográficas

  1. 1
    Artigo2004
    Wong TY, Mitchell P. Hypertensive retinopathy. N Engl J Med. 2004;351(22):2310–2317.
  2. 2
    Artigo2007
    Wong TY, Mitchell P. The eye in hypertension. Lancet. 2007;369(9559):425–435.
  3. 3
    Artigo2002
    Wong TY, Klein R, Sharrett AR, et al. Retinal arteriolar narrowing and risk of coronary heart disease in men and women: the Atherosclerosis Risk in Communities Study. JAMA. 2002;287(9):1153–1159.
  4. 4
    Artigo
    Keith NM, Wagener HP, Barker NW. Some different types of essential hypertension: their course and prognosis. Am J Med Sci. 1939;197(3):332–343.
  5. 5
    Livro-texto2025
    American Academy of Ophthalmology. Basic and Clinical Science Course (BCSC), Section 12: Retina and Vitreous. San Francisco: AAO; 2024–2025.
  6. 6
    Livro-texto2020
    Bowling B. Kanski’s Clinical Ophthalmology: A Systematic Approach. 9. ed. Elsevier; 2020.

Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de referências clínicas reais e de representações anatômicas didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui a avaliação oftalmológica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas.

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