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Guia de Zoonoses • Fungos

Candidíase zoonótica

Candida spp. (incluindo Candidozyma auris, antiga Candida auris) — leveduras comensais e oportunistas

Infecção por leveduras do gênero Candida, que fazem parte da microbiota humana e animal. A candidíase humana é essencialmente endógena: a transmissão animal → humano é pouco documentada. O interesse de saúde única está no compartilhamento de genótipos entre espécies, em C. auris detectada em animais e no ambiente e na resistência a azóis ligada a fungicidas agrícolas.

Oportunista endógenaInterface de saúde únicaC. auris: alerta hospitalarResistência a azóis
16–20 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Candida é comensal de humanos e animais; a candidíase humana é, na imensa maioria, endógena.
  2. Transmissão animal → humano é pouco documentada: não é uma zoonose clássica.
  3. O elo de saúde única está em genótipos compartilhados, C. auris em animais e ambiente e resistência a azóis.
  4. O que define a doença é o hospedeiro: antibiótico, cateter, diabetes, HIV, neutropenia, UTI.

Por que “zoonótica” entre aspas

A candidíase não se encaixa no modelo clássico de zoonose, em que um animal reservatório transmite o agente ao ser humano. Candida albicans e outras espécies colonizam boca, intestino, vagina e pele de grande parte das pessoas, e a doença surge quando o equilíbrio entre levedura e hospedeiro se rompe. Animais também são colonizados e adoecem, mas casos humanos atribuíveis a um animal são raros e mal documentados.

O tema entra no Guia de Zoonoses pela perspectiva de saúde única. Estudos genéticos mostram que humanos e animais compartilham os mesmos genótipos de C. albicans; C. auris, levedura multirresistente que causa surtos hospitalares, já foi isolada de cães e de ambientes naturais; e fungicidas azólicos usados na agricultura podem selecionar resistência cruzada aos azóis de uso clínico.

Diante de um paciente com candidíase, procure o fator do hospedeiro (antibiótico, cateter, imunossupressão) — e não o animal de estimação.

O agente

Candida é um grupo de leveduras que se multiplicam por brotamento e, em várias espécies, formam pseudo-hifas; C. albicans também forma hifas verdadeiras, o que favorece a invasão tecidual. A capacidade de produzir biofilme em cateteres e próteses explica por que o dispositivo precisa ser retirado na candidemia.

A taxonomia mudou: C. glabrata passou a Nakaseomyces glabratus, C. krusei a Pichia kudriavzevii e C. auris a Candidozyma auris. Os laudos e as diretrizes ainda usam os nomes antigos, e o que importa na prática é o perfil de sensibilidade de cada espécie.

Agente etiológico

Candida albicans e espécies não albicans

Leveduras ovais em brotamento, com pseudo-hifas e, em C. albicans, hifas verdadeiras.

  • C. albicans segue como a espécie mais comum, mas as não albicans crescem em pacientes expostos a azóis.
  • C. krusei: resistência intrínseca ao fluconazol. C. glabrata: sensibilidade reduzida aos azóis.
  • C. auris: multirresistente, persiste em superfícies e causa surtos.
Colonização

Forma leveduriforme

Blastoconídios em brotamento — predominam na colonização e no sangue.

Invasão

Pseudo-hifas e hifas

Associadas à invasão de mucosas e tecidos; vistas no KOH de raspados.

Fisiopatologia: da colonização à candidemia

O ponto de partida é a colonização. Antibióticos de amplo espectro eliminam bactérias competidoras e permitem que a levedura se multiplique; umidade e atrito na pele, hiperglicemia e corticoide inalado nas mucosas, e queda da imunidade celular no HIV completam o cenário das formas mucocutâneas.

Na forma invasiva há duas portas principais: o cateter venoso central, colonizado pela pele e recoberto por biofilme, e a translocação intestinal após cirurgia abdominal, mucosite por quimioterapia ou neutropenia. Da corrente sanguínea a levedura pode semear olho, valvas cardíacas, ossos, fígado e baço.

Fisiopatologia

Microbiota × hospedeiro

Imunidade celular protege as mucosas; neutrófilos protegem contra a invasão. Por isso HIV favorece candidíase orofaríngea e esofágica, e neutropenia favorece candidemia e candidíase hepatoesplênica.

Defeito de imunidade celular

HIV, corticoide, diabetes → candidíase de mucosas (oral, esofágica, vulvovaginal), raramente invasiva.

Defeito de neutrófilos / barreira

Neutropenia, cateter, cirurgia abdominal, UTI → candidemia e candidíase invasiva.

Por que importa

A candidíase de mucosas é muito frequente e quase sempre benigna, mas a candidemia está entre as principais infecções da corrente sanguínea em UTI e tem mortalidade elevada. A Organização Mundial da Saúde incluiu C. albicans e C. auris no grupo de prioridade crítica de sua lista de fungos patogênicos (2022), e o Brasil registra surtos de C. auris desde dezembro de 2020.

CríticaPrioridade OMS para C. albicans e C. auris
Dez/20201º caso confirmado de C. auris no Brasil (Salvador-BA)

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O essencial de transmissão e risco

  1. Fonte habitual: a própria microbiota do paciente (endógena).
  2. Transmissão exógena relevante é hospitalar: mãos, superfícies e dispositivos — sobretudo C. auris.
  3. Animais compartilham genótipos com humanos, mas transmissão animal → humano não foi demonstrada de forma consistente.
  4. Fungicidas azólicos agrícolas podem selecionar resistência cruzada a azóis clínicos.

De onde vem a Candida que infecta o paciente

Na quase totalidade dos casos, a levedura que causa a infecção é a mesma que já colonizava o paciente. A transmissão exógena que tem peso clínico é a hospitalar: mãos de profissionais, superfícies e equipamentos compartilhados, especialmente com C. parapsilosis, ligada à pele e a cateteres, e com C. auris, capaz de causar surtos.

Também existe transmissão entre pessoas em contextos específicos, como a vertical para o recém-nascido e a sexual na balanite. Nenhuma dessas vias depende de animais.

Saúde única

Humanos, animais e ambiente

Os três compartimentos compartilham espécies e genótipos de Candida, mas as trocas entre eles são pouco documentadas; o elo mais sólido é a resistência a azóis.

Candida em animais

Animais domésticos e de produção também são colonizados e, sob fatores semelhantes aos humanos (antibióticos, imunossupressão, umidade, lesão de barreira), desenvolvem candidíase. Esses quadros têm importância veterinária, mas não há registro consistente de infecção humana adquirida a partir deles.

Aves

Candidíase do inglúvio

Em galinhas, perus, pombos e psitacídeos; ligada a antibióticos, má higiene de bebedouros e filhotes.

Cães e gatos

Otite, pele e trato urinário

Otite externa, dermatite e infecção urinária, sobretudo em animais diabéticos ou imunossuprimidos.

Bovinos

Mastite micótica

Predomínio de espécies não albicans; associada a antibióticos intramamários e contaminação na ordenha.

Estudo com 428 amostras de leite de vacas com mastite em quatro estados brasileiros isolou Candida em 12,8%, com predomínio de C. krusei, seguida de C. parapsilosis, C. tropicalis e C. albicans (Sartori et al., 2014).

Genótipos compartilhados e C. auris em animais

Estudos de tipagem molecular não encontram linhagens de C. albicans exclusivas de animais: isolados de aves, javalis, cães e outros animais caem nos mesmos complexos clonais de isolados humanos, inclusive de pacientes hospitalizados. Isso indica circulação entre espécies em algum momento, mas não define direção nem frequência da transmissão.

Com C. auris, a evidência é recente e escassa: isolamento no conduto auditivo de cães com otite na Índia, na cavidade oral de um cão nos Estados Unidos e relato em gato. As cepas caninas indianas agruparam-se com isolados clínicos humanos locais, o que sugere, se algo, transmissão de humanos para animais. Não há caso humano atribuído a animal.

AchadoO que mostraO que não mostra
Genótipos de C. albicans iguais em humanos e animaisCirculação da mesma população de leveduras entre hospedeiros.Que animais sejam fonte de infecção humana.
C. auris em 4 de 87 cães com otite/dermatite (Índia, 2023)Animais de companhia podem albergar a levedura.Transmissão para tutores ou profissionais.
C. auris na cavidade oral de cão (EUA, 2024)Presença fora do hospital, sem caso humano associado.Reservatório animal estabelecido.
C. auris em pântanos salinos e praias (Índia, 2021)Nicho ambiental fora do hospital.Rota de chegada ao paciente.

Resistência a azóis e fungicidas agrícolas

Triazóis agrícolas, como tebuconazol e difenoconazol, atuam na mesma enzima que os azóis médicos (lanosterol 14α-desmetilase, gene ERG11). Em laboratório, a exposição de C. tropicalis a esses fungicidas induziu instabilidade genômica e resistência cruzada a fluconazol e voriconazol (Hu et al., 2025), e efeito semelhante foi descrito para C. auris.

A relação é mais bem estabelecida para Aspergillus fumigatus; para Candida, a evidência ainda é sobretudo experimental. Mesmo assim, é o argumento mais concreto para tratar a candidíase como problema de saúde única.

A hipótese de que o aquecimento global e o uso de azóis no ambiente tenham contribuído para a emergência de C. auris (Casadevall et al., 2019) é plausível, mas não comprovada.

Risco ocupacional e quem adoece

Veterinários, trabalhadores de granjas e de ordenha e tutores de animais com candidíase não têm risco aumentado demonstrado de doença. A higiene habitual (luvas no manejo de lesões e secreções, lavagem das mãos) é suficiente. O risco real de candidíase invasiva está no hospital e no hospedeiro.

  • UTI: cateter venoso central, nutrição parenteral, ventilação, hemodiálise.
  • Antibióticos de amplo espectro e internação prolongada.
  • Cirurgia abdominal, especialmente com deiscência ou pancreatite necrosante.
  • Neutropenia, transplante, quimioterapia, corticoide.
  • Prematuridade e baixo peso ao nascer.
  • Colonização por C. auris ou internação em serviço com surto.

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O essencial de quadro clínico

  1. Espectro: colonização → doença mucocutânea → candidemia e candidíase invasiva.
  2. Mucocutâneas: orofaríngea, esofágica, vulvovaginal, intertrigo, dermatite de fralda, paroníquia.
  3. Invasiva: febre persistente em hospitalizado com cateter, antibiótico, cirurgia ou neutropenia.
  4. Candidemia pode semear olho, coração, osso, fígado e baço.

As grandes formas clínicas

O tipo de candidíase reflete o defeito do hospedeiro. Umidade e atrito causam doença de pele; queda da imunidade celular, doença de mucosas; perda de barreira e de neutrófilos, doença invasiva. Uma mesma pessoa pode ter mais de uma forma ao mesmo tempo.

Cutânea

  • Intertrigo: placa eritematosa úmida com pústulas satélites.
  • Dermatite de fralda com lesões satélites.
  • Paroníquia e onicomicose por Candida.

Mucosa

  • Orofaríngea: placas brancas removíveis, queilite angular.
  • Esofágica: odinofagia e disfagia retroesternal.
  • Vulvovaginal: prurido, ardor, corrimento grumoso.

Invasiva

  • Candidemia, com ou sem choque.
  • Candidíase intra-abdominal.
  • Hepatoesplênica (crônica disseminada) após neutropenia.

Achados característicos

Nas formas mucocutâneas, a inspeção costuma bastar: placas que se removem com espátula deixando base eritematosa, ou lesões satélites ao redor de uma placa em dobra, são muito sugestivas. Na candidemia, o achado que mais muda conduta é a lesão ocular, procurada ativamente pela fundoscopia.

Achado característico

Placas orais removíveis

Forma pseudomembranosa; deixam base eritematosa ao raspar.

Achado característico

Lesões satélites

Pápulas e pústulas ao redor da placa do intertrigo ou da dermatite de fralda.

Achado de endoscopia

Placas esofágicas

Placas esbranquiçadas aderidas à mucosa esofágica.

Complicação

Coriorretinite

Lesões branco-amareladas, ± vitreíte, na candidemia.

Formas complicadas e invasivas

Quando a candidemia não é tratada a tempo, ou o foco persiste, surgem complicações metastáticas que prolongam o tratamento e às vezes exigem cirurgia. Hemocultura persistentemente positiva apesar do antifúngico é o sinal de alerta para procurá-las.

  • Endoftalmite / coriorretinite: pode ser assintomática no início; risco de perda visual.
  • Endocardite: próteses valvares, usuários de drogas injetáveis; muitas vezes cirúrgica.
  • Tromboflebite séptica no sítio do cateter.
  • Osteomielite e espondilodiscite, às vezes meses após a candidemia.
  • Candidíase hepatoesplênica: febre e lesões em “olho de boi” após recuperação de neutropenia.
  • Candidúria: geralmente colonização em sondado; pielonefrite e bola fúngica são raras.

Sinais de gravidade

Qualquer isolamento de Candida em hemocultura é doença grave até prova em contrário. Os sinais abaixo indicam necessidade de antifúngico imediato, avaliação de foco e, muitas vezes, terapia intensiva.

  • Hemocultura positiva para levedura — nunca considerar contaminação.
  • Choque séptico ou disfunção orgânica em paciente com fatores de risco.
  • Hemoculturas persistentemente positivas após 48–72 h de tratamento.
  • Neutropenia febril sem resposta a antibacterianos.
  • Isolamento de C. auris em qualquer sítio.

Levedura na hemocultura = iniciar antifúngico, retirar cateter, fundoscopia e repetir hemoculturas.

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O essencial de diagnóstico

  1. Mucocutâneas: clínico, com exame direto (KOH) quando há dúvida; cultura nas recorrências.
  2. Candidemia: hemoculturas, espécie e antifungigrama; controle diário ou em dias alternados.
  3. Isolamento em escarro ou urina de sondado geralmente é colonização.
  4. C. auris: suspeitar diante de leveduras mal identificadas; confirmar por MALDI-TOF.

Estratégia diagnóstica

A primeira pergunta é se a levedura isolada representa doença ou colonização. Em pele e mucosas, a lesão típica com exame direto positivo basta. Em escarro, secreção traqueal e urina de paciente sondado, o isolamento quase sempre é colonização e não deve ser tratado de rotina.

Em sítios estéreis o raciocínio inverte: sangue, líquor, líquido peritoneal obtido em cirurgia ou punção e tecido com invasão confirmam doença. Hemoculturas detectam apenas parte das candidíases invasivas, por isso exames não culturais ajudam a reforçar ou afastar o diagnóstico em pacientes de alto risco.

  1. Sítio

    Estéril (sangue, tecido) ou não estéril (escarro, urina, mucosa)?

  2. Espécie

    Identificação por MALDI-TOF ou método equivalente.

  3. Sensibilidade

    Antifungigrama em isolados invasivos e em falhas.

  4. Extensão

    Fundoscopia, ecocardiograma e imagem conforme o caso.

Principais testes

Cada exame tem papel próprio. O exame direto e a cultura servem às formas superficiais, a hemocultura e a identificação da espécie à candidemia, e os biomarcadores ajudam sobretudo pelo valor preditivo negativo em UTI.

TesteOnde ajuda maisLimitações / interpretação
Exame direto (KOH, Gram, calcofluor)Pele, unhas, mucosas; leveduras e pseudo-hifas.Não identifica espécie; colonização também é positiva.
Cultura com identificaçãoRecorrência, falha terapêutica, vulvovaginite complicada.Isolamento em sítio não estéril não prova doença.
HemoculturaCandidemia; repetir diariamente ou em dias alternados até negativar.Sensibilidade limitada para candidíase invasiva profunda.
MALDI-TOF / sequenciamentoIdentificação rápida e confiável, inclusive de C. auris.Depende da biblioteca do equipamento.
AntifungigramaTodo isolado de sangue ou sítio estéril; falha clínica.Pontos de corte específicos por espécie.
β-D-glucana séricaApoio em UTI e hematologia; negativa ajuda a afastar.Não específica de Candida; falso-positivos com hemodiálise, albumina, imunoglobulina.
Endoscopia digestiva altaEsofagite sem resposta ao fluconazol.Biópsia e cultura para espécie e sensibilidade.
Laboratório

Meio cromogênico

Cores diferentes sugerem a espécie; confirmação por MALDI-TOF.

C. auris: como não deixar passar

Sistemas bioquímicos automatizados podem identificar C. auris erroneamente como C. haemulonii, C. duobushaemulonii, C. famata ou C. lusitaniae. A nota técnica da Anvisa orienta tratar esses resultados como suspeitos e enviar o isolado ao Lacen para confirmação por MALDI-TOF.

Na investigação de surto, o rastreamento de colonização é feito com swab de axila e virilha. A colonização é prolongada, por isso pacientes positivos permanecem identificados no prontuário em internações futuras.

Notificação imediata

Caso suspeito ou confirmado de C. auris: comunicar a CCIH e notificar à Anvisa no formulário nacional de surtos infecciosos em serviços de saúde, com envio do isolado ao Lacen.

Diagnósticos diferenciais

O diferencial depende da forma. Placas orais podem ser leucoplasia; intertrigo pode ser dermatofitose ou eritrasma; vulvovaginite pode ser vaginose bacteriana ou tricomoníase; e odinofagia no HIV pode ser esofagite por herpes ou citomegalovírus.

DiferencialPor que confundeO que ajuda a separar
Leucoplasia / leucoplasia pilosa oralPlacas brancas orais.Não se removem com espátula; leucoplasia pilosa em bordas laterais da língua (EBV).
Dermatofitose (tinha crural)Lesão em dobra pruriginosa.Borda ativa descamativa, centro claro, sem lesões satélites; poupa a bolsa escrotal.
EritrasmaPlaca em dobra.Coloração acastanhada e fluorescência vermelho-coral à lâmpada de Wood.
Vaginose bacteriana e tricomoníaseCorrimento vaginal.pH vaginal >4,5, teste das aminas, microscopia; na candidíase o pH costuma ser normal.
Esofagite herpética / por CMVOdinofagia no imunossuprimido.Endoscopia com biópsia; úlceras em vez de placas.
Bacteremia / outras fungemiasFebre em paciente com cateter.Hemocultura com identificação; considerar Cryptococcus, Fusarium, Trichosporon.

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O essencial de tratamento

  1. Formas mucocutâneas leves: tópicos (nistatina, clotrimazol, miconazol); moderadas e esofágica: fluconazol.
  2. Candidemia: equinocandina inicial, retirada do cateter, fundoscopia, hemoculturas de controle.
  3. Step-down para fluconazol em 5–7 dias se estável, sensível e hemoculturas negativas; total de 14 dias após negativar.
  4. C. auris: equinocandina, controle de infecção e notificação imediata à Anvisa.

Como escolher a rota

A escolha começa pelo sítio: pele e mucosas acessíveis aceitam tratamento tópico; esôfago e mucosas extensas pedem antifúngico sistêmico oral; sangue e órgãos profundos exigem tratamento intravenoso, controle do foco e seguimento estruturado. Depois vêm a espécie e a sensibilidade, que podem invalidar o fluconazol.

O hospedeiro ajusta tudo: neutropenia, gestação, prematuridade e colonização por C. auris têm rotas próprias abaixo. As doses por peso estão na ficha de cada medicamento, aberta pelo botão “Ver detalhes” de cada linha das tabelas.

O sítio define a via; a espécie e a sensibilidade definem o fármaco; o controle do foco define a cura.

Rotas de tratamento

Cada rota é um cenário clínico. Abra só a rota em que o seu paciente está: a tabela mostra dose, frequência e duração de cada esquema, e o nome de cada medicamento abre a ficha completa. Opções do mesmo grupo são alternativas — escolha uma.

Monitoramento durante o tratamento

Na candidemia, o tratamento é guiado por um pacote de cuidados, não só pelo fármaco: hemoculturas até negativar, retirada do cateter, fundoscopia e revisão da espécie e da sensibilidade antes do step-down. Os fármacos também pedem vigilância própria.

O queComo monitorar
HemoculturasDiárias ou em dias alternados até a primeira negativa — ela marca o início da contagem dos 14 dias.
FundoscopiaNa 1ª semana (no neutropênico, após recuperar neutrófilos); por oftalmologista.
FluconazolAjuste renal (ClCr <50 mL/min: metade da dose de manutenção), QT e interações via CYP2C9/2C19/3A4.
EquinocandinasFunção hepática; caspofungina exige redução na insuficiência hepática moderada.
AnfotericinaCreatinina, potássio e magnésio frequentes; pré-hidratação com SF.

Erros que custam caro

Os erros mais frequentes na candidíase são tratar colonização e subtratar infecção. O primeiro gera resistência e toxicidade sem benefício; o segundo, recaída e complicações metastáticas.

  • Considerar Candida em hemocultura como contaminante.
  • Tratar Candida em escarro ou urina de sondado assintomático.
  • Manter o cateter venoso central na candidemia sem justificativa.
  • Contar os 14 dias a partir do início do antifúngico, e não da 1ª hemocultura negativa.
  • Fazer step-down para fluconazol sem conhecer espécie e sensibilidade.
  • Tratar paciente apenas colonizado por C. auris.

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O essencial de cenários especiais

  1. Candidúria assintomática não se trata, salvo neutropenia, RN de muito baixo peso ou procedimento urológico.
  2. HIV: candidíase orofaríngea e esofágica são marcadores de imunossupressão; TARV evita recorrência.
  3. Neutropenia e transplante: profilaxia antifúngica conforme protocolo do serviço.
  4. Contato com animais doentes: risco baixo; higiene habitual.

O que muda em cada cenário

A mesma levedura pede condutas muito diferentes conforme o paciente. A tabela reúne os cenários em que o raciocínio padrão precisa ser ajustado, incluindo a pergunta frequente sobre contato com animais.

CenárioParticularidadeO que fazer diferente
CandidúriaQuase sempre colonização em sondado.Trocar ou retirar a sonda. Tratar só se sintomática, neutropênico, RN de muito baixo peso ou antes de procedimento urológico; cistite: 200 mg/dia por 2 semanas.
HIVOrofaríngea e esofágica refletem CD4 baixo. oral; TARV; supressão crônica só em recorrências frequentes.
Neutropenia / transplanteCandidemia e hepatoesplênica.Equinocandina; profilaxia antifúngica conforme protocolo; fundoscopia após recuperar neutrófilos.
GestaçãoFluconazol oral evitado.Azol tópico por 7 dias na vulvovaginite; na invasiva.
PrematurosCandidíase invasiva com meningite e acometimento renal. ou ; punção lombar, fundoscopia e ultrassom renal.
Surto de C. aurisTransmissão entre pacientes.Precaução de contato, rastreamento de contatos, desinfecção eficaz, notificação imediata.
Tutores, veterinários, ordenhadoresContato com animais com candidíase.Risco de infecção baixo; luvas no manejo de lesões e lavagem das mãos. Imunossuprimidos: cuidado reforçado.

Saúde única na prática

Para o médico, a utilidade da perspectiva de saúde única é sobretudo a resistência. Paciente com Candida resistente a azóis sem exposição prévia a antifúngicos levanta a hipótese de seleção ambiental, e o uso racional de azóis na medicina humana, na veterinária e na agricultura é parte da mesma estratégia.

Diante de um animal de estimação com otite ou dermatite por levedura em casa de paciente imunossuprimido, a orientação é higiene e tratamento veterinário do animal. Não há indicação de rastrear o tutor nem de profilaxia.

Lavar as mãos após manipular o animal e usar luvas ao aplicar medicação em lesões são medidas suficientes.

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O essencial de seguimento e prevenção

  1. Mucocutâneas: reavaliar em 1–2 semanas; recorrência → cultura, espécie e fatores do hospedeiro.
  2. Candidemia: hemoculturas até negativar e 14 dias de tratamento a partir daí.
  3. C. auris: paciente segue identificado como colonizado em futuras internações.
  4. Prevenção: antimicrobianos racionais, cuidado com cateter, controle de infecção.

Como acompanhar

Nas formas superficiais, a resposta clínica guia o seguimento; recidivas frequentes pedem cultura com espécie e busca de diabetes, HIV, uso de corticoide ou antibióticos. Na candidemia, o seguimento continua após a alta: osteomielite e lesões oculares podem se manifestar semanas depois.

  • Recorrência de candidíase oral sem causa aparente: investigar HIV e diabetes.
  • Vulvovaginite recorrente: cultura com espécie antes da supressão de 6 meses.
  • Candidemia: confirmar a 1ª hemocultura negativa e a fundoscopia antes da alta.
  • Dor lombar ou óssea após candidemia: investigar espondilodiscite.
  • C. auris: sinalizar o prontuário e informar o serviço de destino em transferências.

Prevenção

Não há vacina contra candidíase. A prevenção da forma invasiva é a mesma das infecções relacionadas à assistência: menos antibiótico desnecessário, menos dias de cateter e higiene de mãos. Profilaxia antifúngica se restringe a grupos selecionados, como transplantados de alto risco, neutropênicos em protocolos específicos e prematuros extremos em unidades com alta incidência.

No hospital

  • Higiene de mãos e bundle de cateter.
  • Gestão de antimicrobianos e antifúngicos.
  • C. auris: contato, quarto privativo, hipoclorito ou peróxido de hidrogênio.

Saúde única

  • Uso prudente de fungicidas azólicos na agricultura.
  • Antifúngicos veterinários com indicação.
  • Vigilância de resistência em humanos, animais e ambiente.

Resumo do fluxo prático

Identifique a forma clínica e o fator do hospedeiro. Nas formas superficiais, trate com , ou tópicos, e use oral na orofaríngea moderada, na esofágica e na vulvovaginal quando preferido. Separe colonização de infecção antes de tratar isolados de escarro e urina.

Na candidemia, inicie , retire o cateter, faça fundoscopia, repita hemoculturas até negativar, faça step-down para fluconazol quando estável e sensível e conte 14 dias a partir da 1ª hemocultura negativa. Diante de C. auris, acrescente controle de infecção e notificação imediata.

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Aviso importante

Material educacional de apoio à decisão clínica. Não substitui avaliação individualizada, protocolos institucionais, serviço de referência, infectologia, pediatria/obstetrícia nem consulta às bulas. Espécie e antifungigrama, retirada de cateter, fundoscopia, ajuste renal do fluconazol, doses pediátricas e neonatais e a notificação imediata de C. auris devem ser conferidos antes da prescrição.

Conteúdo para educação médica. Condutas devem ser individualizadas e conferidas com protocolos oficiais, contexto epidemiológico e disponibilidade local.
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