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Atlas de Oftalmologia • Órbita

Celulite orbitária

Celulite pós-septal • orbital cellulitis

Infecção dos tecidos da órbita atrás do septo orbitário, quase sempre a partir de uma sinusite (etmoidal). Proptose, dor à movimentação ocular e oftalmoplegia a separam da celulite pré-septal. É uma urgência: exige internação, antibiótico venoso, tomografia e vigilância do nervo óptico.

InfecciosaUrgênciaSinusite etmoidalAntibiótico IV
16–20 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça o achado

Imagem clínica

Celulite orbitária: edema e eritema palpebral com proptose e limitação dos movimentos oculares. Toque para ampliar.

Principais achados
  1. 1
    Edema e eritema palpebral, muitas vezes com ptose mecânica
  2. 2
    Proptose (axial ou com deslocamento do globo)
  3. 3
    Dor à movimentação ocular e oftalmoplegia
  4. 4
    Quemose e hiperemia conjuntival
  5. 5
    Febre, leucocitose e sinusite associada
  6. 6
    Sinais de alarme: baixa visual, discromatopsia, DPAR

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Infecção posterior ao septo orbitário: gordura, músculos extraoculares e espaço subperiosteal.
  2. Origem mais comum: sinusite etmoidal, pela lâmina papirácea fina e porosa.
  3. Sinais orbitários: proptose, dor à movimentação, oftalmoplegia, quemose, baixa visual e DPAR.
  4. Urgência: internação, antibiótico IV, TC com contraste e exame seriado do nervo óptico.

O que é celulite orbitária

Celulite orbitária é a infecção aguda dos tecidos moles da órbita situados atrás do septo. É menos frequente que a celulite pré-septal, mas muito mais grave: compromete a motilidade ocular, pode comprimir o nervo óptico e tem acesso direto ao seio cavernoso pelas veias oftálmicas, que não têm válvulas.

Em crianças e adultos jovens a causa dominante é a rinossinusite, sobretudo etmoidal. Outras fontes são infecção dentária, trauma com corpo estranho, cirurgia orbitária ou palpebral, dacriocistite e extensão de uma celulite pré-septal.

Pálpebra inchada com proptose, dor ao mover o olho ou limitação dos movimentos é celulite orbitária até prova em contrário — tomografia e antibiótico venoso.

Classificação de Chandler

A classificação de Chandler (1970) organiza as infecções orbitárias de origem sinusal em estágios anatômicos de gravidade crescente. Apesar de antiga, ainda é usada para comunicar a extensão e orientar a conduta.

GrupoNomeO que acontece
ICelulite pré-septal (edema inflamatório)Edema palpebral; sem proptose, motilidade e visão normais
IICelulite orbitáriaInfiltração difusa da gordura orbitária; proptose, dor e limitação dos movimentos
IIIAbscesso subperiostealColeção entre o periósteo e a parede óssea (em geral medial); deslocamento do globo
IVAbscesso orbitárioColeção dentro da gordura orbitária; proptose grave, oftalmoplegia, risco visual
VTrombose do seio cavernosoExtensão posterior; sinais bilaterais, paralisias de nervos cranianos, sepse

Chandler JR, Langenbrunner DJ, Stevens ER. Laryngoscope. 1970. O grupo I não é, rigorosamente, uma infecção orbitária.

Quem tem e por quê

É mais comum em crianças, em que geralmente há uma única bactéria aeróbia; em adolescentes e adultos as infecções tendem a ser polimicrobianas, com anaeróbios, e os abscessos respondem menos ao antibiótico isolado.

Rinossinusite

Etmoidal principalmente; inverno e infecções virais de vias aéreas.

Origem dentária

Abscessos de molares superiores via seio maxilar; flora anaeróbia.

Trauma

Ferida penetrante, fratura orbitária, corpo estranho retido.

Pós-operatória

Cirurgias de órbita, pálpebra, vias lacrimais, seios e estrabismo.

Diabetes / imunossupressão

Pensar em fungos (mucormicose, aspergilose).

Dacriocistite e pele

Extensão de dacriocistite, hordéolo ou impetigo.

Em 30 segundos

O essencial de quadro clínico

  1. Edema palpebral doloroso + febre + sinusite: comum nas duas formas.
  2. Proptose, dor à movimentação, oftalmoplegia e quemose: típicos da forma pós-septal.
  3. Baixa visual, discromatopsia e DPAR: o nervo óptico está sofrendo.
  4. Sinais bilaterais, cefaleia intensa e rebaixamento: pensar em trombose do seio cavernoso.

Sinais e sintomas

O quadro costuma começar com sintomas de sinusite ou de infecção de vias aéreas e evolui em horas a poucos dias para edema palpebral importante. A dor é profunda, piora ao mover o olho e se acompanha de mal-estar e febre.

Edema e eritema palpebral

Pálpebras tensas, quentes e violáceas; a ptose mecânica dificulta abrir o olho.

Proptose e deslocamento

Abscesso medial empurra o globo para lateral e para baixo.

Oftalmoplegia dolorosa

Limitação dos movimentos por edema muscular, abscesso ou neuropatia.

Diplopia

Queixa importante em crianças maiores e adultos.

Quemose

Edema conjuntival; pode prolapsar pela fenda palpebral.

Baixa visual

Com DPAR e discromatopsia = neuropatia óptica; descomprimir.

Pré-septal × orbitária

Na criança muito edemaciada, abrir as pálpebras com afastadores ou com os dedos é essencial: só assim se avaliam a motilidade, a pupila e a visão. Se o exame não for possível, a tomografia decide.

Celulite pré-septal

  • Edema e eritema palpebral
  • Sem proptose
  • Motilidade ocular normal e indolor
  • Visão e pupilas normais
  • Muitas vezes tratada por via oral

Celulite orbitária

  • Edema e eritema palpebral
  • Proptose
  • Dor à movimentação e oftalmoplegia
  • Pode haver baixa visual, DPAR e quemose
  • Internação e antibiótico IV

Formas especiais

Mucormicose rino-órbito-cerebral

Diabético em cetoacidose, neutropênico, transplantado ou em corticoide: necrose negra do palato ou da mucosa nasal, oftalmoplegia, síndrome do ápice orbitário e perda visual rápida. Exige debridamento cirúrgico e anfotericina B lipossomal.

Crianças pequenas

Abscessos subperiosteais mediais pequenos, sem comprometimento visual, em menores de 9 anos, frequentemente respondem só ao antibiótico, sob vigilância.

Pós-traumática

Pensar em corpo estranho orgânico (madeira) retido, que pode ser pouco visível na TC; RM ajuda.

Odontogênica

Anaeróbios e flora mista; evolução mais agressiva; tratar o foco dentário.

Em 30 segundos

O essencial de diagnóstico

  1. Diagnóstico clínico, confirmado por TC de órbitas e seios com contraste.
  2. Exame do nervo óptico (acuidade, cores, DPAR) repetido a cada poucas horas nos primeiros dias.
  3. Hemoculturas e cultura de material drenado guiam o ajuste do antibiótico.
  4. RM quando há suspeita de complicação intracraniana ou de trombose do seio cavernoso.

Avaliação à beira do leito

A avaliação inicial estabelece uma linha de base que será comparada nas horas seguintes. Piora da visão, da motilidade ou da proptose muda a conduta mais do que qualquer exame laboratorial.

  1. História

    Sinusite, dor dentária, trauma, cirurgia recente, diabetes, imunossupressão, uso de corticoide.

  2. Função do nervo óptico

    Acuidade visual, visão de cores (tabela de Ishihara ou saturação do vermelho) e teste da lanterna alternante (DPAR).

  3. Motilidade e posição do globo

    Ductions nas 9 posições; exoftalmometria (Hertel) e deslocamento vertical/horizontal.

  4. Biomicroscopia, PIO e fundo

    Quemose, exposição corneana, PIO elevada, edema de disco, pregas de coroide, oclusão vascular.

  5. Nervos cranianos e estado neurológico

    Sensibilidade V1–V2, sinais meníngeos, nível de consciência, achados no olho contralateral.

Exames de imagem e laboratório

A TC com contraste em cortes axiais e coronais é o exame de escolha: mostra a sinusite, a infiltração da gordura orbitária (densificação, "stranding"), o espessamento muscular e as coleções. O abscesso subperiosteal aparece como coleção em forma de lente (biconvexa) junto à parede medial, com o músculo reto medial deslocado.

TC com contraste

Indicada em toda suspeita de celulite orbitária, quando o exame é impossível, ou se não houver melhora em 24–48 h. Repetir se houver piora clínica.

RM com contraste / venografia

Trombose do seio cavernoso, empiema, abscesso cerebral, meningite; corpo estranho orgânico.

Sangue

Hemograma, PCR, hemoculturas (antes do antibiótico, sem atrasá-lo), glicemia e função renal.

Culturas locais

Material do abscesso ou dos seios na cirurgia; secreção conjuntival tem pouco valor.

Achado característico

Abscesso subperiosteal medial

Coleção biconvexa com realce periférico junto à lâmina papirácea, sinusite etmoidal adjacente e proptose do globo.

TC axial com contraste — toque para ampliar.

Diagnóstico diferencial

Febre, leucocitose e sinusite favorecem infecção. Quando faltam, ou quando o quadro não responde ao antibiótico, pense em inflamação não infecciosa e em tumores que simulam celulite.

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Celulite pré-septal
Achado-chaveEdema palpebral sem sinais orbitários
Como diferenciarMotilidade e visão normais; sem proptose.
Achado-chaveDor, proptose, sem febre nem sinusite
Como diferenciarResposta rápida ao corticoide; TC sem sinusite.
Achado-chaveDor intensa à movimentação
Como diferenciarMúsculo espessado incluindo o tendão; sem infecção.
Orbitopatia tireoidiana
Achado-chaveRetração palpebral, proptose
Como diferenciarEvolução subaguda; músculos espessados poupando os tendões.
Achado-chaveVasos em saca-rolhas, sopro
Como diferenciarVeia oftálmica superior dilatada; sem febre.
Rabdomiossarcoma / tumores
Achado-chaveCriança com proptose rápida
Como diferenciarMassa na imagem; biópsia. Não responde ao antibiótico.

Galeria clínica e de imagem

Observe a posição do globo, a quemose e o que a tomografia mostra atrás do septo. Toque para ampliar e use as setas para navegar.

Celulite orbitária em criança

Edema e eritema palpebral intensos com proptose do lado acometido. Repare que o globo está deslocado e a fenda quase fechada: é obrigatório abrir as pálpebras para avaliar motilidade, pupila e visão.

CriançaProptoseEdema palpebral

Quemose e oftalmoplegia

Conjuntiva edemaciada e hiperemiada; o olho não acompanha o contralateral na mirada solicitada. A combinação de quemose e limitação dolorosa dos movimentos indica infecção pós-septal.

QuemoseMotilidadePós-septal

TC: sinusite etmoidal e infiltração orbitária

Velamento das células etmoidais e densificação da gordura orbitária adjacente. Compare com o lado sadio: a gordura normal é escura e homogênea.

TCSinusite etmoidalGordura orbitária

Mucormicose rino-órbito-cerebral

Paciente diabético com oftalmoplegia, ptose e escara necrótica escura na mucosa nasal ou no palato. Qualquer área negra em mucosa de imunossuprimido com celulite orbitária exige endoscopia e biópsia imediatas.

FungoDiabetesNecrose

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O essencial de tratamento

  1. Internar; antibiótico IV empírico de amplo espectro iniciado sem demora.
  2. Tratar a sinusite: descongestionante, lavagem nasal e avaliação da otorrinolaringologia.
  3. Exame do nervo óptico várias vezes ao dia; TC repetida se houver piora.
  4. Cirurgia para abscesso grande, neuropatia óptica, extensão intracraniana ou falha em 24–48 h.

Clínico ou cirúrgico?

A maioria das celulites orbitárias sem abscesso, e parte dos abscessos subperiosteais pequenos em crianças, melhora apenas com antibiótico. A cirurgia — drenagem do abscesso, geralmente por via endoscópica nasal ou externa, junto com a cirurgia dos seios — entra quando o antibiótico não basta ou o nervo óptico está ameaçado.

Tratamento clínico com vigilância

  • Celulite sem abscesso
  • Abscesso subperiosteal medial pequeno
  • Criança menor de 9 anos
  • Visão e pupilas normais
  • Sem extensão intracraniana

Indicações de cirurgia

  • Baixa visual, DPAR ou discromatopsia
  • Abscesso grande, orbitário ou não medial
  • Extensão intracraniana
  • Piora ou ausência de melhora após 24–48 h
  • Suspeita de anaeróbios/fungo; corpo estranho

Medidas gerais

  • Cabeceira elevada; analgesia e antitérmico.
  • Descongestionante nasal tópico por poucos dias e lavagem nasal com soro fisiológico.
  • Lubrificação ocular se houver exposição corneana pela proptose.
  • Controle glicêmico rigoroso em diabéticos.
  • Atualizar a vacinação (Hib e pneumococo) em crianças.

Rotas de tratamento

Esquemas empíricos de referência (CHOP Clinical Pathway; Wills Eye Manual; diretrizes locais). Ajuste à flora e à resistência locais, à função renal e às culturas. O nome de cada medicamento abre a ficha.

Seguimento

Na internação, o exame da visão, das pupilas, da motilidade e da proptose é repetido várias vezes por dia. Após a alta, revisão em poucos dias para confirmar a resolução e, depois, controle do fator de origem (sinusite crônica, foco dentário).

Reavaliar imediatamente se

A visão cair, aparecer DPAR, a proptose ou a dor aumentarem, surgir cefaleia intensa, vômitos, rebaixamento ou sinais no outro olho.

Em 30 segundos

O essencial de complicações

  1. Neuropatia óptica (compressiva, isquêmica ou inflamatória) é a principal causa de perda visual.
  2. Trombose do seio cavernoso: sinais bilaterais, nervos cranianos e sepse.
  3. Meningite, empiema e abscesso cerebral são raros, porém graves.
  4. Exposição corneana e oclusão arterial retiniana podem complicar a proptose intensa.

Complicações oculares e intracranianas

ComplicaçãoPistasConduta
Neuropatia ópticaBaixa visual, discromatopsia, DPAR, edema ou palidez do discoDrenagem/descompressão urgente
Abscesso subperiosteal/orbitárioPiora da proptose e da motilidade apesar do antibióticoTC repetida; drenagem
Trombose do seio cavernosoSinais bilaterais, oftalmoplegia, hipoestesia facial, rebaixamentoRM/venografia; antibiótico em dose de SNC; anticoagulação a critério
Meningite, empiema, abscesso cerebralCefaleia intensa, vômitos, rigidez de nuca, convulsãoNeurocirurgia e infectologia
Ceratopatia de exposiçãoProptose com lagoftalmo, epitélio coradoLubrificação intensiva, câmara úmida
Oclusão de artéria central da retinaPerda visual súbita, mancha vermelho-cerejaTratar a compressão; prognóstico ruim

Prognóstico

Com diagnóstico rápido, antibiótico adequado e drenagem quando indicada, a maioria recupera a visão e a motilidade sem sequelas. O prognóstico piora com atraso no tratamento, infecção fúngica, imunossupressão e comprometimento já instalado do nervo óptico.

Referências bibliográficas

  1. 1
    Livro-texto2025
    American Academy of Ophthalmology. Basic and Clinical Science Course (BCSC), Section 7: Oculofacial Plastic and Orbital Surgery. San Francisco: AAO; 2024–2025.
  2. 2
    Livro-texto2020
    Bowling B. Kanski’s Clinical Ophthalmology: A Systematic Approach. 9. ed. Elsevier; 2020.
  3. 3
    Livro-texto2022
    The Wills Eye Manual: Office and Emergency Room Diagnosis and Treatment of Eye Disease. 8. ed. Wolters Kluwer; 2022.
  4. 4
    Artigo1970
    Chandler JR, Langenbrunner DJ, Stevens ER. The pathogenesis of orbital complications in acute sinusitis. Laryngoscope. 1970;80(9):1414–1428.
  5. 5
    Artigo2000
    Garcia GH, Harris GJ. Criteria for nonsurgical management of subperiosteal abscess of the orbit: analysis of outcomes 1988–1998. Ophthalmology. 2000;107(8):1454–1458.
  6. 6
    Artigo2026
    Children’s Hospital of Philadelphia. Clinical Pathway: Cellulitis (Preseptal or Orbital) — Pathogens and Antibiotic Recommendations. Acesso em 2026.
  7. 7
    Revisão online2026
    EyeWiki — American Academy of Ophthalmology. Orbital Cellulitis. Atualizado em 2026.

Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de referências clínicas reais e de representações anatômicas didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui a avaliação oftalmológica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. Esquemas antimicrobianos são de referência e devem ser ajustados à flora local, às culturas, à função renal e ao protocolo da instituição.

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