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Guia de Zoonoses • Parasitas

Larva migrans cutânea

Ancylostoma braziliense, A. caninum e outros ancilostomídeos de cães e gatos — larvas que penetram a pele humana e migram na epiderme

O bicho-geográfico: trajeto serpiginoso, elevado e intensamente pruriginoso após contato da pele com areia ou solo contaminados por fezes de cães e gatos. O ser humano é hospedeiro acidental — a larva não completa o ciclo e morre na pele. O diagnóstico é clínico; tiabendazol tópico resolve lesões únicas e ivermectina ou albendazol orais tratam as formas múltiplas, extensas e foliculares.

Ancilostomídeos de cães e gatosPraia e areiaPrurido intensoTópico ou dose oral curta
14–17 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Dermatose causada por larvas de ancilostomídeos de cães e gatos, sobretudo Ancylostoma braziliense.
  2. O ser humano é hospedeiro acidental: a larva não chega ao intestino e morre na pele em semanas.
  3. Lesão típica: trajeto serpiginoso, elevado e intensamente pruriginoso, em geral nos pés.
  4. É a dermatose mais comum em viajantes que retornam dos trópicos; no Brasil, é endêmica em comunidades litorâneas.

O que é a larva migrans cutânea

Também chamada de bicho-geográfico, dermatite serpiginosa ou creeping eruption, é uma zoonose cutânea em que larvas de ancilostomídeos de animais penetram a pele humana e passam a migrar dentro da epiderme. Como o ser humano não é o hospedeiro definitivo, a larva não consegue completar o ciclo: vagueia na pele produzindo um trajeto inflamatório até morrer. O resultado é uma doença benigna e autolimitada, mas com prurido que pode ser incapacitante.

Doença benigna, diagnóstico clínico e tratamento simples: o trabalho do médico é reconhecer o trajeto, separar dos diferenciais que mudam a conduta (sobretudo larva currens) e escolher entre tratamento tópico ou oral.

O agente

Os agentes são nematódeos da família Ancylostomatidae que parasitam o intestino de cães e gatos. Eles não são vetores: são os próprios parasitas — o cão e o gato são os hospedeiros definitivos (reservatórios), e a areia contaminada é o meio onde a larva se torna infectante. Um ancilostomídeo humano também pode, raramente, produzir trajeto cutâneo transitório no ponto de entrada.

Agente etiológico

Ancylostoma braziliense

Ancilostomídeo de cães e gatos, principal causa do bicho-geográfico nas Américas.

  • A forma infectante é a larva filarioide (L3), que vive na areia e no solo.
  • Na pele humana, a larva não tem as enzimas para atravessar a membrana basal com eficiência e fica restrita à epiderme.
  • A. braziliense é a espécie que produz os trajetos mais longos e duradouros.
EspécieHospedeiro definitivoPapel na doença humana
Ancylostoma brazilienseCães e gatosPrincipal agente; trajetos clássicos e persistentes.
Ancylostoma caninumCãesTrajetos mais curtos; raramente enterite eosinofílica.
Uncinaria stenocephalaCães (clima temperado)Causa menos frequente.
A. ceylanicum e A. tubaeformeCães e gatos / gatosCausas ocasionais.
Necator americanus e A. duodenaleSer humanoRaramente, prurido e trajeto curto no ponto de entrada (ground itch) — completam o ciclo e causam ancilostomose intestinal.

Gnathostoma spp. não é ancilostomídeo: causa gnatostomíase (larva migrans profunda), um diferencial à parte.

Ciclo e fisiopatologia

O ciclo normal acontece entre o animal e o ambiente; o ser humano entra por acaso, ao encostar a pele na areia onde as larvas esperam um hospedeiro. A lesão é, em essência, uma reação inflamatória ao trajeto da larva e às suas secreções.

Ciclo biológico

Cão/gato → fezes → areia → pele humana (beco sem saída)

No hospedeiro animal a larva chega ao intestino; no ser humano, fica presa na epiderme até morrer.

  1. Ovos nas fezes

    Vermes adultos no intestino de cães e gatos eliminam ovos nas fezes depositadas em areia ou solo.

  2. Larva infectante

    Em ambiente quente, úmido e sombreado, os ovos eclodem em 1–2 dias e a larva vira L3 infectante em cerca de 5–10 dias.

  3. Penetração

    A L3 atravessa a pele íntegra (folículos, fissuras) usando enzimas como hialuronidase e proteases.

  4. Migração na epiderme

    Sem conseguir chegar à circulação, a larva vagueia entre epiderme e junção dermoepidérmica, abrindo o trajeto.

  5. Inflamação e morte

    Reação com eosinófilos, edema e prurido intenso; a larva morre em semanas, raramente meses.

Epidemiologia

A doença é mais frequente em regiões tropicais e subtropicais, nas estações quentes e chuvosas, e em praias e comunidades com muitos cães e gatos soltos e sem vermifugação. No Brasil, estudos em comunidades pobres do litoral nordestino mostram transmissão endêmica, com maior carga em crianças.

Em viajantes, é o diagnóstico dermatológico mais comum no retorno de áreas tropicais — com destaque para Caribe, Sudeste Asiático, América Latina e África. Mudanças climáticas e viagens têm levado casos autóctones a regiões temperadas.

9,8%Das dermatoses em viajantes retornados (GeoSentinel, CDC Yellow Book)
CriançasGrupo mais afetado em áreas endêmicas
Calor e chuvaEstação de maior transmissão

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O essencial de transmissão e risco

  1. Contato direto da pele com areia ou solo contaminados por fezes de cães e gatos.
  2. Não há transmissão pessoa a pessoa, nem pelo contato direto com o animal.
  3. Areia úmida, sombreada e quente (acima da linha da maré, sob quiosques e casas) concentra larvas.
  4. Andar descalço, sentar/deitar na areia e brincar no chão são as exposições típicas.

Como ocorre a transmissão

A transmissão é ambiental. O cão ou gato parasitado defeca na areia; dias depois, as larvas infectantes estão prontas para penetrar qualquer pele que encostar ali. Não é o contato com o animal — nem com a pessoa doente — que transmite, e a larva não se multiplica na pele humana.

Ciclo de transmissão

Fezes de animais → areia → pele

Areia de praia acima da linha da maré, caixas de areia de parquinhos, quintais de terra e espaços sob casas elevadas são os locais clássicos.

Quem tem mais risco

O risco é proporcional ao tempo de pele em contato com o solo contaminado e à densidade de animais não tratados no local. Por isso crianças pequenas, banhistas e trabalhadores que lidam com solo arenoso concentram os casos.

  • Crianças que brincam, engatinham ou sentam na areia — lesões em nádegas, coxas e mãos.
  • Banhistas e turistas que andam descalços ou deitam diretamente na areia.
  • Trabalhadores: pescadores, jardineiros, encanadores e eletricistas que entram sob casas, trabalhadores da construção.
  • Comunidades com muitos cães e gatos soltos e sem vermifugação, sobretudo na estação chuvosa.

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O essencial de quadro clínico

  1. Pápula pruriginosa no ponto de entrada que evolui para trajeto linear ou serpiginoso, elevado e eritematoso.
  2. Avança devagar (milímetros a 1–2 cm por dia), em geral em pés, nádegas e mãos.
  3. Formas variantes: foliculite ancilostomótica, vesicobolhosa e lesões múltiplas.
  4. Complicações: impetiginização, eczema de contato e, raramente, síndrome de Löffler.

A lesão clássica

Horas após a penetração pode surgir prurido ou pápula no local. Depois de uma incubação mediana de 10–15 dias (às vezes semanas ou meses), aparece um trajeto eritematoso, elevado, de cerca de 3 mm de largura, linear ou serpiginoso, que avança alguns milímetros a poucos centímetros por dia. Pode haver vários trajetos, cada um correspondendo a uma larva.

O prurido é o sintoma dominante, costuma piorar à noite e prejudica o sono. Sem tratamento, a doença dura em média 5–6 semanas, mas há relatos de persistência por meses.

10–15 diasIncubação mediana (CDC)
~3 mmLargura do trajeto
4–6 semanasDuração habitual sem tratamento

Formas clínicas

Reconhecer as variantes importa porque elas mudam o tratamento. A foliculite ancilostomótica — muitas pápulas e pústulas foliculares com trajetos curtos ou ausentes, típica de nádegas — responde pior ao tratamento tópico e à dose única de ivermectina. A forma bolhosa assusta, mas segue a mesma lógica da clássica.

Forma clássica

Trajeto serpiginoso

Linha eritematosa elevada e pruriginosa, mais comum no pé (planta, dorso, espaços interdigitais).

Variante

Foliculite ancilostomótica

Pápulas/pústulas foliculares numerosas, sobretudo em nádegas; trajetos curtos de poucos milímetros.

Variante

Forma vesicobolhosa

Vesículas ou bolhas tensas sobre o trajeto, por reação inflamatória intensa.

Localização

Nádegas, coxas e mãos

Frequentes em crianças; mucosa oral, genitália e couro cabeludo são raros.

Complicações

A maior parte das complicações vem da coçadura e dos tratamentos caseiros, não da larva. As manifestações sistêmicas são raras e associadas a infecções maciças, quando larvas alcançam a circulação e os pulmões.

ComplicaçãoComo reconhecerConduta
Infecção bacteriana secundáriaCrostas melicéricas, pústulas, dor, calor, eritema em expansão (impetigo/celulite). Cerca de 8% em série de viajantes.Antibiótico tópico ou oral conforme extensão (veja Tratamento).
Eczematização / dermatite de contatoPlaca eczematosa sobre o trajeto, muitas vezes após produtos caseiros ou tópicos irritantes.Suspender o irritante; corticoide tópico de curta duração junto com o antiparasitário.
Síndrome de LöfflerTosse, sibilância, infiltrados pulmonares migratórios e eosinofilia, dias a semanas após infestação intensa.Antiparasitário oral; suporte respiratório; avaliação médica (veja Tratamento).
Enterite eosinofílica (A. caninum)Dor abdominal e eosinofilia, rara.Investigação e tratamento com anti-helmíntico oral.
Eritema multiformeLesões em alvo, rara.Tratar a infestação; manejo dermatológico.

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O essencial de diagnóstico

  1. O diagnóstico é clínico: lesão característica + exposição compatível.
  2. Não existe sorologia; exames de rotina não são necessários.
  3. Biópsia raramente encontra a larva, que fica à frente do trajeto visível.
  4. Diferencial mais importante: larva currens (Strongyloides), que muda a conduta.

Como fechar o diagnóstico

O raciocínio cabe em uma consulta: confirme a morfologia, ancore na exposição e procure o que não se encaixa. Exames só entram quando a apresentação foge do padrão, quando não há resposta ao tratamento adequado ou quando há sintomas respiratórios ou abdominais.

  1. Morfologia

    Trajeto linear/serpiginoso, elevado, eritematoso, pruriginoso; ou pápulas foliculares com trajetos curtos.

  2. Exposição

    Praia, areia, quintal de terra ou viagem a área tropical nas semanas anteriores.

  3. Velocidade e duração

    Avanço lento ao longo de dias; lesão persistente. Avanço de cm por hora e lesão fugaz sugerem larva currens.

  4. Procure complicações

    Impetiginização, celulite, eczema, sintomas respiratórios.

Exames: quando e para quê

Nenhum exame é necessário no caso típico. A dermatoscopia é a ferramenta mais útil no consultório e pode mostrar o corpo da larva na extremidade ativa; os demais exames servem para casos atípicos ou complicados.

ExameO que mostraLimitação / uso
DermatoscopiaEstrutura linear segmentada, translúcida, branco-amarelada ou acastanhada (possível corpo da larva) sobre fundo eritematoso; pontos vasculares e escamas no trajeto vazio.Útil para reforçar o diagnóstico e localizar a extremidade ativa; depende de experiência.
Biópsia de peleLarva em canal intraepidérmico, espongiose, vesículas e infiltrado com eosinófilos na derme.Frequentemente não encontra a larva; reservar para casos atípicos.
HemogramaEosinofilia periférica.Inconstante e inespecífica; útil se houver sintomas pulmonares.
Sorologia—Não existe teste sorológico para ancilostomídeos zoonóticos (CDC).
Radiografia de tóraxInfiltrados migratórios na síndrome de Löffler.Somente se houver tosse, sibilância ou dispneia.

Larva migrans cutânea × larva currens

Os dois nomes confundem, mas são doenças diferentes. A larva currens é a manifestação cutânea da autoinfecção por Strongyloides stercoralis, um parasita humano que pode persistir por décadas e causar hiperinfecção sob corticoide. Confundi-las significa tratar só a pele de quem precisava de investigação e erradicação.

Larva migrans cutânea

  • Ancilostomídeos de cães e gatos (zoonose).
  • Pés, nádegas, mãos — onde tocou a areia.
  • Avança mm a poucos cm por dia.
  • Trajeto persiste dias a semanas.
  • Episódio único, ligado a exposição recente.

Larva currens

  • Strongyloides stercoralis (parasita humano).
  • Região perianal, nádegas, coxas e abdome inferior.
  • Avança vários cm por hora.
  • Faixa urticariforme que some em horas.
  • Recorrente; exposição pode ter sido há anos.

Outros diagnósticos diferenciais

A maioria dos diferenciais não tem um trajeto que se move. Quando o paciente traz uma lesão linear, pergunte se ela mudou de lugar; quando traz pústulas em nádegas após praia, lembre que a foliculite ancilostomótica imita foliculite bacteriana.

DiferencialPor que confundeO que ajuda a separar
Foliculite bacterianaPápulas e pústulas foliculares em nádegas e coxas.Na foliculite ancilostomótica há exposição à areia, prurido intenso e pequenos trajetos saindo das pústulas; não responde a antibiótico isolado.
GnatostomíaseLesão migratória após viagem.Edema ou nódulo migratório mais profundo e intermitente; ingestão de peixe cru; eosinofilia marcada.
Miíase e tungíaseLesão pruriginosa em pés após praia/solo.Nódulo com orifício central (miíase) ou pápula com ponto escuro central (tungíase), sem trajeto.
EscabiosePrurido noturno e lesões lineares (túneis).Túneis curtos e múltiplos em interdígitos, punhos e genitais; contactantes com prurido.
Tinea corporisPlaca eritematosa de borda ativa.Lesão anular com borda descamativa; exame micológico positivo.
Dermatite de contato e fitofotodermatoseLesões lineares e bizarras.Desenhos fixos que não migram; relação com planta, limão ou produto aplicado.
Lesão por água-vivaLesões lineares após banho de mar.Início imediato com dor/queimação, padrão em “chicotada”, sem migração.
Dermatite cercariana (esquistossomose) e loíasePrurido após água; edema migratório.Pápulas após água doce; edemas de Calabar e epidemiologia africana na loíase.

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O essencial de tratamento

  1. Doença autolimitada, mas tratar é a regra: alivia o prurido e reduz a infecção secundária.
  2. Lesão única ou poucas: tiabendazol 5% pomada 2–3x/dia por 3–5 dias na extremidade ativa.
  3. Múltiplas, extensas ou foliculite: ivermectina 200 mcg/kg VO dose única ou albendazol 400 mg/dia por 3–7 dias.
  4. Mebendazol oral (pouca absorção) e crioterapia não são recomendados.

Princípios do tratamento

O objetivo é matar a larva mais cedo do que a evolução natural mataria, encurtando o prurido e o risco de impetiginização. Em geral o prurido melhora em 24–72 h e o trajeto para de avançar em poucos dias; a marca inflamatória pode demorar mais a sumir e não significa falha.

A escolha da via depende do número e do tipo de lesão. O tópico funciona bem em poucas lesões, mas exige várias aplicações por dia e é pouco prático em lesões numerosas ou foliculares, nas quais a via oral é superior (CDC; Caumes).

Tópico

  • Lesão única ou poucos trajetos.
  • Criança pequena, gestante, contraindicação à via oral.
  • Exige 2–3 aplicações ao dia e adesão.

Oral

  • Lesões múltiplas ou extensas.
  • Foliculite ancilostomótica.
  • Falha do tópico ou sintomas sistêmicos.

Situação regulatória no Brasil

O tiabendazol 50 mg/g (pomada e loção) e o tiabendazol oral em comprimidos têm a larva migrans cutânea em bula e estão disponíveis em farmácias, mas não fazem parte da RENAME. O albendazol também traz a indicação em bula (400 mg/dia por 1–3 dias). A ivermectina oral não tem larva migrans cutânea entre as indicações de bula no Brasil (uso off-label, apoiado pelo CDC), e a ivermectina 1% creme é registrada apenas para rosácea.

Rotas de tratamento

Cada rota é um cenário clínico. Abra só a rota em que o seu paciente está: a tabela mostra dose, frequência e duração de cada esquema, e o nome de cada medicamento abre a ficha completa. Opções do mesmo grupo são alternativas — escolha uma.

O que não fazer

Boa parte das complicações vem de tentativas de “matar o bicho” por conta própria ou de esquemas sem eficácia. Oriente o paciente explicitamente.

  • Mebendazol oral: pouca absorção sistêmica, resultado insatisfatório.
  • Crioterapia (nitrogênio líquido, cloretila): dolorosa e pouco eficaz, porque a larva está à frente do trajeto visível.
  • Produtos caseiros (querosene, álcool, gelo, pomadas irritantes): causam queimadura química e dermatite de contato.
  • Corticoide tópico isolado: alivia, mas não trata a infestação.
  • Antibiótico isolado na foliculite ancilostomótica: trata só a infecção secundária, se houver.

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O essencial de cenários especiais

  1. Criança pequena e gestante: preferir tópico; orais fora da bula exigem decisão individualizada.
  2. Foliculite ancilostomótica responde pior: via oral, curso mais longo ou repetição.
  3. Viajante retornado: diagnóstico frequentemente atrasado fora das áreas endêmicas.
  4. Antes de corticoide sistêmico, lembre de Strongyloides em quem tem exposição a solo.

O que muda em cada cenário

A doença é a mesma em todos os pacientes; o que muda é a segurança dos fármacos e a forma clínica. Os cenários abaixo resumem as decisões que mais geram dúvida na prática.

CenárioParticularidadeO que fazer diferente
Criança <15 kgIvermectina oral contraindicada em bula.Tópico; se lesões múltiplas, discutir oral ou ivermectina fora da bula com pediatria.
Criança <2 anosAlbendazol para LMC só a partir de 2 anos em bula. tópico ou albendazol 10% manipulado; albendazol oral individualizado (CDC: seguro a partir de 1 ano).
GestaçãoAlbendazol contraindicado em bula; ivermectina sem segurança estabelecida.Tópico ou conduta expectante com controle do prurido.
LactaçãoIvermectina passa ao leite em baixa concentração; albendazol com cautela.Preferir tópico; oral se o benefício materno superar o risco.
Foliculite ancilostomóticaMenor resposta ao tópico e à dose única.Via oral: albendazol 7 dias ou ivermectina com repetição.
Lesões muito numerosas / LöfflerInfestação maciça; possível acometimento pulmonar.Tratamento oral; avaliar sintomas respiratórios e eosinofilia.
Exposição a áreas de Loa loa (África Central)Ivermectina pode precipitar encefalopatia com alta microfilaremia.Preferir albendazol ou tópico; excluir loíase antes de ivermectina.
Imunossuprimido / corticoide planejadoLMC não se agrava, mas a exposição ao solo também expõe a Strongyloides.Considerar triagem de estrongiloidíase; a ivermectina trata ambas.

Viajante retornado

Fora das áreas endêmicas, o bicho-geográfico costuma ser confundido com dermatite, micose ou picada, e o paciente chega após semanas de prurido e cursos de corticoide ou antifúngico. Pergunte sempre por praia ou areia nas semanas anteriores.

Em séries de viajantes, a maioria adquiriu a infecção em praias do Caribe, Sudeste Asiático e América Latina, com lesões nos pés e nádegas. A incubação pode ultrapassar o retorno: a lesão pode aparecer já em casa.

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O essencial de seguimento e prevenção

  1. Esperado: prurido melhora em 1–3 dias e trajeto para de avançar em até 1 semana.
  2. Reavaliar se o trajeto continuar avançando após 1–2 semanas.
  3. Não precisa de exame de controle: a resposta é clínica.
  4. Prevenção: cães e gatos vermifugados e fora das praias e areias; calçados.

Como acompanhar

O seguimento é clínico. Oriente o paciente a marcar com caneta a extremidade do trajeto no dia do tratamento: se a linha parou de avançar e o prurido cedeu, a larva morreu. A mancha residual pode levar semanas para clarear e não exige novo tratamento.

Reavaliar em 1–2 semanas se o trajeto continuar avançando, se surgirem lesões novas, sinais de infecção secundária ou sintomas respiratórios. Lesões novas após o tratamento costumam indicar reexposição.

  1. 24–72 h

    Melhora do prurido.

  2. Até 1 semana

    Trajeto para de avançar.

  3. Semanas

    Clareamento da marca residual.

Prevenção individual e coletiva

A prevenção depende de interromper o ciclo no animal e no ambiente e de reduzir o contato da pele com areia contaminada. Medidas de saúde pública — controle de cães e gatos soltos, vermifugação e restrição de animais nas praias — têm impacto maior que qualquer medida individual.

No animal

Vermifugação periódica de cães e gatos orientada pelo veterinário; recolher as fezes em passeios.

Na praia e no parquinho

Respeitar a proibição de cães na areia onde houver; cobrir caixas de areia quando fora de uso.

Na pele

Calçados em areia e solo; evitar sentar ou deitar direto na areia — a toalha protege pouco.

Na comunidade

Controle populacional de animais soltos e educação em saúde, sobretudo em comunidades litorâneas.

Vigilância e notificação no Brasil

A larva migrans cutânea não é de notificação compulsória (não consta na Lista Nacional vigente em 2026, Portaria GM/MS nº 11.211/2026). Surtos — por exemplo, vários casos ligados a uma mesma praia, creche ou escola — devem ser comunicados à vigilância municipal para ação ambiental e de controle animal.

Referências principais

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    Documento oficial2026
    Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 11.211, de 13 de maio de 2026. Lista Nacional de Notificação Compulsória vigente.

Aviso importante

Material educacional de apoio à decisão clínica. Não substitui avaliação individualizada, protocolos institucionais, serviço de referência, infectologia, pediatria/obstetrícia nem consulta às bulas. Uso de ivermectina oral (off-label no Brasil para esta indicação), doses pediátricas de albendazol abaixo de 2 anos, tratamento na gestação e antibiótico para infecção secundária devem ser conferidos antes da prescrição.

Conteúdo para educação médica. Condutas devem ser individualizadas e conferidas com protocolos oficiais, contexto epidemiológico e disponibilidade local.
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