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Atlas de Oftalmologia • Conjuntiva

Hemorragia subconjuntival

Sangue sob a conjuntiva bulbar: mancha vermelho-viva, plana e bem delimitada, que assusta mas em geral é indolor, não afeta a visão e some sozinha em 1–3 semanas. A tarefa do examinador é reconhecer as exceções: trauma com risco de rotura do globo, recorrência e distúrbio de coagulação.

Tipo
Achado vascular conjuntival
Estrutura
Entre conjuntiva e Tenon
Mecanismo
Ruptura de vaso conjuntival
Pista no exame
Visão normal, sem dor
7–9 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça o achado

Compare a foto com o esquema. O sangue fica num espaço virtual entre a conjuntiva e a cápsula de Tenon; por isso a mancha é plana, homogênea e de bordas nítidas, e os vasos conjuntivais passam por cima dela.

Imagem clínica

Figura 1. Hemorragia subconjuntival: área vermelho-viva homogênea na conjuntiva bulbar, com bordas bem definidas e córnea transparente.

Roteiro de observação
  1. 1
    Cor e limitesVermelho vivo, uniforme, bordas nítidas; sem vasos dilatados isolados como na conjuntivite.
  2. 2
    ExtensãoSetorial ou em 360°; plana ou bolhosa (elevada).
  3. 3
    Limite posteriorConsegue ver onde termina? Hemorragia sem limite posterior após trauma craniano sugere fratura de base de crânio/órbita.
  4. 4
    Resto do olhoCórnea clara, pupila normal, visão preservada.

O que é

É a ruptura de um vaso no espaço subconjuntival. Responde por cerca de 3% das consultas de urgência oftalmológica e é mais comum após os 50 anos, quando a hipertensão, o diabetes e o uso de antitrombóticos são mais frequentes. Em até 40% dos casos não se encontra causa.

O paciente costuma descobrir a mancha no espelho ou porque alguém comenta. Pode haver leve sensação de corpo estranho, mas dor, baixa visual ou fotofobia não fazem parte do quadro e apontam para outro diagnóstico.

Sinais de alerta

Trauma com hemorragia em 360° e bolhosa, baixa visual, pupila irregular ou câmara anterior rasa (rotura do globo); episódios recorrentes; hemorragia bilateral em criança (pensar em maus-tratos); sangramentos em outros locais.

Hemorragia ou conjuntivite?

Os dois "deixam o olho vermelho", mas o padrão é diferente: na hemorragia o vermelho é uma mancha uniforme; na conjuntivite são vasos dilatados, com secreção.

Hemorragia subconjuntival

  • Mancha plana, homogênea, bordas nítidas
  • Sem secreção
  • Indolor; visão normal
  • Unilateral, em geral

Conjuntivite

  • Vasos dilatados difusos
  • Secreção aquosa ou purulenta
  • Ardor, prurido ou areia
  • Frequentemente bilateral

Exceção: a conjuntivite hemorrágica aguda (enterovírus, coxsackie) e a adenoviral podem causar petéquias e hemorragias subconjuntivais junto com secreção e folículos.

Apresentações

Observe extensão, elevação e cor. A cor conta o tempo: vermelho vivo é recente; bordas amareladas indicam reabsorção.

Hemorragia setorial típica

Mancha vermelho-viva em um setor da conjuntiva bulbar, bordas nítidas, córnea clara. Quadro clássico após tosse, espirro ou esforço.

SetorialValsalvaBenigna

Hemorragia extensa em 360°

Sangue circundando todo o limbo. Sem trauma, é benigna mesmo extensa; com trauma, avalie rotura do globo (visão, pupila, câmara anterior, PIO baixa).

360°Trauma?Alerta

Hemorragia bolhosa

Conjuntiva elevada pelo sangue, podendo fazer prolapso entre as pálpebras. Lubrificante protege a superfície exposta.

BolhosaExposiçãoLubrificar

Em reabsorção

Bordas amarelo-esverdeadas e centro mais claro: degradação da hemoglobina após 1–2 semanas. Útil para datar o evento.

EvoluçãoCorTempo

Confirme três coisas: visão normal, ausência de dor e mancha com bordas nítidas. Depois procure a causa e os sinais de alerta.

Avaliação passo a passo

  1. História

    Trauma, esforço, tosse, vômitos, coçar o olho, lente de contato, cirurgia/injeção ocular, antitrombóticos, hipertensão, episódios prévios, sangramentos em gengiva/pele.

  2. Acuidade visual

    Deve ser normal. Baixa visual muda o raciocínio.

  3. Inspeção e biomicroscopia

    Extensão, elevação, limite posterior; córnea, câmara anterior, pupila.

  4. Pressão arterial

    Medir sempre, sobretudo no idoso.

  5. Se trauma

    Pesquisar laceração, Seidel, corpo estranho, PIO baixa; não comprimir o olho.

  6. Se recorrente

    Hemograma, coagulograma; INR se varfarina; avaliar hematologia.

Modelo de registro

OD: hemorragia subconjuntival temporal, plana, de bordas nítidas, ocupando cerca de 1/4 da conjuntiva bulbar, com limite posterior visível. Córnea transparente, câmara anterior formada, pupila isocórica e fotorreagente. AV 20/20 em AO. PA 150 x 95 mmHg. Nega trauma; relata tosse intensa na véspera.

Modelo didático: registre o que foi medido.

Causas

No jovem predomina o trauma; acima dos 50 anos, a hipertensão e os antitrombóticos.

Valsalva

Tosse, espirro, vômito, constipação, levantamento de peso, parto.

Trauma

Coçar, lente de contato, trauma contuso ou penetrante, cirurgia e injeção intravítrea.

Hipertensão e diabetes

Fragilidade vascular; medir a PA em todo paciente.

Antitrombóticos

AAS, clopidogrel, varfarina (checar INR), anticoagulantes diretos.

Infecções

Conjuntivite adenoviral e hemorrágica aguda; leptospirose; febres hemorrágicas.

Distúrbios hematológicos

Plaquetopenia, leucemia, coagulopatias — suspeitar se recorrente ou com outros sangramentos.

Recém-nascido

Comum após parto vaginal; resolve sozinha.

Idiopática

Sem causa identificada em boa parte dos casos.

Diagnóstico diferencial

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Achado-chaveHemorragias + secreção + folículos
Como diferenciarBilateral, epidêmica, contagiosa.
Achado-chaveTrauma + hemorragia bolhosa em 360°
Como diferenciarBaixa visual, pupila em gota, PIO baixa, Seidel.
Sarcoma de Kaposi / tumor vascular
Achado-chaveLesão vermelho-violácea elevada e persistente
Como diferenciarNão reabsorve; imunossupressão (HIV).
Episclerite / esclerite
Achado-chaveVasos dilatados, dor
Como diferenciarVasos individuais visíveis; esclerite dói muito.
Achado-chaveVasos finos e tortuosos
Como diferenciarVasos individualizados, persistentes.

Na grande maioria, a conduta é tranquilizar e esperar. Nenhum colírio acelera a reabsorção.

Para onde cada achado leva

CenárioConduta
Episódio isolado, sem traumaExplicar a evolução (1–3 semanas, mudança de cor); lubrificante se irritação; medir PA.
Hipertensão detectadaEncaminhar para controle clínico da PA.
Em uso de varfarinaChecar INR; não suspender anticoagulante por conta própria.
Recorrente ou com outros sangramentosHemograma e coagulograma; avaliação clínica/hematológica.
TraumaExame oftalmológico completo; hemorragia em 360° bolhosa com baixa visual = suspeita de rotura do globo: proteger o olho e encaminhar com urgência.
Criança com hemorragia bilateral sem explicaçãoAvaliar maus-tratos e coqueluche; exame de fundo de olho.
  • Evitar coçar o olho.
  • Não há necessidade de suspender AAS em episódio isolado.
  • Retornar se dor, baixa visual ou aumento após 1 semana.

Referências bibliográficas

  1. 1
    Revisão online2026
    EyeWiki — American Academy of Ophthalmology. Subconjunctival Hemorrhage. Atualizado em 2026.
  2. 2
    Livro-texto2025
    American Academy of Ophthalmology. Basic and Clinical Science Course (BCSC), Section 8: External Disease and Cornea. San Francisco: AAO; 2024–2025.
  3. 3
    Livro-texto2020
    Bowling B. Kanski’s Clinical Ophthalmology: A Systematic Approach. 9. ed. Elsevier; 2020.
  4. 4
    Livro-texto2017
    Bagheri N, Wajda BN, eds. The Wills Eye Manual: Office and Emergency Room Diagnosis and Treatment of Eye Disease. 7. ed. Wolters Kluwer; 2017.
  5. 5
    Artigo2013
    Tarlan B, Kiratli H. Subconjunctival hemorrhage: risk factors and potential indicators. Clin Ophthalmol. 2013;7:1163–1170.

Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de referências clínicas reais e de representações anatômicas didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui a avaliação oftalmológica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas.

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