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Blastomicose

Blastomyces dermatitidis, B. gilchristii e B. helicus — fungos termodimórficos do solo

Micose sistêmica norte-americana, adquirida pela inalação de conídios de solo úmido e rico em matéria orgânica. Começa no pulmão e pode disseminar para pele, osso, trato geniturinário e SNC. No Brasil é doença importada — e não deve ser confundida com a paracoccidioidomicose, antigamente chamada de “blastomicose sul-americana”.

Endêmica na América do NorteImportada no BrasilPulmão → pele e ossoItraconazol ou anfotericina
16–20 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Micose sistêmica por Blastomyces spp., fungos termodimórficos: micélio no solo, levedura no corpo.
  2. Endêmica na América do Norte; no Brasil é doença importada.
  3. Não confundir com paracoccidioidomicose (“blastomicose sul-americana”, nome antigo).
  4. Cerca de metade das infecções é assintomática; incubação de 3 semanas a 3 meses.

O que é blastomicose

Blastomicose é a micose sistêmica causada por fungos termodimórficos do gênero Blastomyces, adquirida pela inalação de conídios presentes em solo úmido. A resposta tecidual é piogranulomatosa — neutrófilos e granulomas ao mesmo tempo —, o que explica os microabscessos da pele e o aspecto purulento das lesões. O pulmão é a porta de entrada; pele, osso, trato geniturinário e SNC são os destinos da disseminação hematogênica.

Cães adoecem com frequência e servem de sentinela, mas a fonte é o solo: não há transmissão habitual animal → humano nem pessoa a pessoa.

Blastomicose não é paracoccidioidomicose

Durante décadas, a paracoccidioidomicose foi chamada de “blastomicose sul-americana” (doença de Lutz-Splendore-Almeida), e o termo ainda aparece em livros antigos, laudos e provas. São doenças diferentes: agente, geografia, morfologia e tratamento não coincidem. Outro nome antigo que confunde é “blastomicose queloidiana”, que designava a doença de Jorge Lobo (lobomicose).

Na prática brasileira, um paciente com lesão oral granulosa, tosse arrastada e trabalho rural tem paracoccidioidomicose até prova em contrário. Blastomicose verdadeira exige exposição norte-americana (ou, raramente, africana) e mostra levedura com um único broto de base larga.

Blastomicose

  • Blastomyces spp.; América do Norte (raro na África e Índia).
  • Levedura 8–15 µm, parede espessa, brotamento único de base larga.
  • Pulmão, pele verrucosa, osso, próstata, SNC.
  • Itraconazol 200 mg 1–2x/dia após ataque; anfotericina na grave.

Paracoccidioidomicose

  • Paracoccidioides spp.; América Latina — endêmica no Brasil.
  • Levedura com brotamento múltiplo (“roda de leme”).
  • Pulmão, mucosa oral (estomatite moriforme), laringe, linfonodos, adrenal.
  • Itraconazol 200 mg/dia ou SMX-TMP; critérios de cura sorológicos.
Achado característico

Um broto largo × muitos brotos

A morfologia da levedura no tecido é o que separa as duas doenças ao microscópio.

O agente

O gênero foi reorganizado pela genômica. B. dermatitidis e B. gilchristii (descrita em 2013) causam a doença clássica na América do Norte e são indistinguíveis na clínica e no laboratório de rotina. B. helicus, descrita em 2019 no oeste do Canadá e dos EUA, acomete sobretudo imunossuprimidos e tende a doença disseminada grave; outras espécies, como B. percursus e B. emzantsi, foram descritas na África.

À temperatura ambiente o fungo cresce como micélio, que produz os conídios infectantes; a 37 °C converte-se em levedura grande, de parede espessa e refringente. Culturas exigem biossegurança, porque a fase micelial volta a liberar conídios.

Agente etiológico

Blastomyces spp.

Fungo termodimórfico: filamentoso no solo, leveduriforme no tecido.

  • Levedura de 8–15 µm (até ~20 µm), parede dupla refringente.
  • Brotamento único, unido à célula-mãe por base larga.
Ambiente (25 °C)

Forma filamentosa

Hifas com conídios — a forma infectante no solo e na cultura.

Hospedeiro (37 °C)

Forma leveduriforme

Levedura grande com broto único de base larga — o que se vê no tecido.

Fisiopatologia: do alvéolo à pele

Os conídios inalados chegam ao alvéolo e, à temperatura corporal, convertem-se em leveduras grandes, difíceis de fagocitar e de matar. A adesina BAD-1 e outros fatores de virulência ajudam o fungo a modular a resposta inflamatória. Neutrófilos e macrófagos formam uma reação piogranulomatosa que pode conter a infecção — ou não.

Quando o controle falha, a levedura cai na circulação e se instala sobretudo na pele, no osso e na próstata. A imunidade celular pesa no desfecho: a doença é mais grave e mais disseminada em transplantados, pessoas com aids e usuários de imunossupressores, mas boa parte dos casos ocorre em imunocompetentes.

Fisiopatologia

Inalação → levedura → piogranuloma → disseminação

A resposta mista, neutrofílica e granulomatosa, define o aspecto supurativo das lesões e o padrão de disseminação para pele, osso e trato geniturinário.

Incubação e evolução

Cerca de metade das pessoas infectadas não tem sintomas. Entre as sintomáticas, o quadro aparece de 3 semanas a 3 meses após a exposição, e a doença extrapulmonar pode surgir com ou sem pneumonia evidente. Como o atraso diagnóstico é comum, o paciente que chega ao Brasil pode apresentar doença já crônica ou disseminada meses após a viagem.

3 sem – 3 mesesIncubação nos sintomáticos
~50%Infecções assintomáticas
4–22%Letalidade relatada, conforme a série e o hospedeiro

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O essencial de transmissão e risco

  1. Via respiratória: conídios de solo úmido e orgânico revolvido.
  2. Áreas endêmicas: vales do Ohio e Mississippi, Grandes Lagos, São Lourenço, Canadá central.
  3. Sem transmissão pessoa a pessoa ou animal → humano (exceções raríssimas).
  4. No Brasil: pergunte por viagem ou residência na América do Norte.

Como ocorre a exposição

Blastomyces vive em solo úmido, ácido e rico em madeira e folhas em decomposição, sobretudo às margens de rios e lagos e em áreas de mata. A infecção ocorre quando esse solo é revolvido e os conídios são inalados — em obras, escavações, desmatamento, caça, pesca, canoagem e acampamento. Surtos já foram descritos em grupos que compartilharam a mesma atividade ao ar livre.

Cães de caça que frequentam as mesmas áreas adoecem muito mais que humanos e funcionam como sentinelas: um cão doente na família indica exposição ambiental comum, não contágio.

Ciclo ambiental

Solo úmido revolvido → conídios → inalação

O risco se concentra em atividades que movimentam solo e matéria orgânica perto de água.

  • Inalação: via de regra; responde pela quase totalidade dos casos.
  • Inoculação cutânea direta: rara — acidente de laboratório, mordedura de cão infectado, necropsia. Causa lesão local com linfangite.
  • Sexual e perinatal: relatos isolados; não mudam a conduta habitual.

Onde a doença existe

A área endêmica clássica é a América do Norte: vales dos rios Ohio e Mississippi, estados do sudeste e do centro-sul dos EUA, região dos Grandes Lagos e do rio São Lourenço, e províncias canadenses como Ontário, Manitoba, Quebec e Saskatchewan. O norte de Wisconsin e de Minnesota é considerado hiperendêmico. Há casos esporádicos na África e na Índia, e B. helicus ocorre mais a oeste.

Não há transmissão autóctone documentada no Brasil. Por isso, o dado epidemiológico decisivo é a viagem: o atraso entre exposição e doença pode ser de meses, e a pergunta deve cobrir pelo menos os últimos anos.

Distribuição geográfica

Áreas endêmicas na América do Norte

Concentração ao longo de grandes rios e lagos do centro-leste dos EUA e do Canadá.

Quem tem maior risco de doença grave

A blastomicose acomete muitos imunocompetentes, mais homens adultos que mulheres, possivelmente por maior exposição ocupacional e recreativa. A gravidade, porém, cresce com a imunossupressão celular, e a mortalidade é maior em idosos e em quem desenvolve insuficiência respiratória.

  • Transplante de órgão sólido, aids, corticoterapia prolongada, anti-TNF e outros imunobiológicos.
  • Gestação: relatos de doença mais grave e de transmissão perinatal.
  • Grande inóculo em surtos ambientais, mesmo em imunocompetentes.
  • B. helicus: associado a imunossupressão e doença disseminada grave.

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O essencial de quadro clínico

  1. Pulmão é o sítio mais comum: pneumonia aguda, doença crônica tipo TB/câncer ou SDRA.
  2. Pele é o sítio extrapulmonar mais comum: lesão verrucosa ou ulcerada.
  3. Depois vêm osso/articulação, trato geniturinário (próstata, epidídimo) e SNC.
  4. SDRA por blastomicose tem mortalidade de 50% ou mais.

Blastomicose pulmonar

A forma pulmonar é um grande imitador. A apresentação aguda parece pneumonia bacteriana — febre, tosse, dor torácica, mialgia — e é tratada com antibióticos sem resposta. A crônica, com tosse produtiva, emagrecimento, sudorese noturna e hemoptise, lembra tuberculose ou carcinoma, e a imagem pode mostrar massa, consolidação, cavitação ou padrão miliar.

Aguda

  • Febre, tosse, dor pleurítica, mialgia, artralgia.
  • Consolidação lobar ou infiltrado.
  • Pode ser autolimitada, mas deve ser tratada se sintomática.

Crônica

  • Semanas a meses de tosse, perda de peso, sudorese.
  • Massa (simula câncer), cavitação (simula TB).
  • Frequente associação com lesões de pele.

SDRA

  • Infiltrado difuso ou miliar, hipoxemia grave.
  • Mortalidade de 50–89% nas séries.
  • Anfotericina imediata e terapia intensiva.
Achado de imagem

Massa ou consolidação

Pode simular pneumonia bacteriana ou carcinoma brônquico.

Pele: o sítio extrapulmonar mais comum

As lesões cutâneas resultam de disseminação hematogênica e podem ser a primeira manifestação percebida, mesmo com o pulmão já curado ou pouco sintomático. A forma verrucosa tem bordas elevadas e irregulares, cor acinzentada a violácea e microabscessos na periferia; a ulcerada tem bordas bem definidas e base granulosa. Ambas são confundidas com carcinoma espinocelular, ceratoacantoma ou pioderma gangrenoso.

Linfadenopatia regional não é típica da disseminação hematogênica. Quando há lesão única com linfangite ascendente após trauma, pense em inoculação direta.

Achado característico

Lesão verrucosa

Placa de bordas elevadas, irregulares, com microabscessos periféricos.

Achado característico

Lesão ulcerada

Úlcera de bordas nítidas e base granulosa; biópsia mostra a levedura.

Osso, trato geniturinário e SNC

Depois da pele, o osso é o destino extrapulmonar mais frequente, seguido do trato geniturinário masculino. O SNC é incomum, mas grave, e aparece sobretudo em imunossuprimidos. Em todos esses sítios, a pista é a mesma: infecção que parece bacteriana, com culturas bacterianas negativas e sem resposta ao antibiótico.

Osteoarticular

Osteomielite lítica de vértebras, costelas, crânio e ossos longos; abscesso paravertebral; artrite por contiguidade. Tratamento ≥12 meses.

Geniturinário

Prostatite e epididimite no homem; endometrite e abscesso tubo-ovariano na mulher, raros. Piúria estéril.

SNC

Abscesso cerebral (inclusive cerebelar), abscesso epidural ou meningite crônica. Exige indução longa.

Achado de imagem

Lesão óssea lítica

Vértebra, costela ou osso longo; pode simular metástase.

Sinais de gravidade

A gravidade decide entre itraconazol oral e anfotericina venosa, e por isso deve ser avaliada em todo caso. A IDSA separa a doença “leve a moderada” da “moderadamente grave a grave” sem um escore formal; na prática, os critérios abaixo indicam internação e indução com anfotericina.

  • Hipoxemia, infiltrado difuso ou miliar, SDRA ou necessidade de ventilação.
  • Instabilidade hemodinâmica ou disfunção orgânica.
  • Acometimento do SNC (cefaleia, déficit focal, convulsão, meningismo).
  • Imunossupressão importante (transplante, aids, imunobiológicos).
  • Gestação — anfotericina por obrigatoriedade, não só por gravidade.
  • Progressão apesar de itraconazol com nível sérico adequado.

SDRA, SNC, imunossupressão e gestação = anfotericina B lipídica desde o início.

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O essencial de diagnóstico

  1. Suspeita depende de viagem/residência na América do Norte.
  2. Exame direto e histologia: levedura de parede espessa com broto único de base larga.
  3. Cultura é padrão-ouro, mas lenta; PCR e sondas confirmam o gênero.
  4. Antígeno urinário: sensível, porém cruza com Histoplasma e Paracoccidioides.

Estratégia diagnóstica

Comece pela epidemiologia: sem exposição em área endêmica, a probabilidade pré-teste no Brasil é muito baixa. Com exposição compatível, procure o fungo no sítio mais acessível — escarro ou lavado broncoalveolar, pus, biópsia de pele ou osso, urina ou secreção prostática.

Peça ao laboratório pesquisa direta com KOH ou calcoflúor, colorações para fungos (Grocott, PAS) e cultura micológica, informando a suspeita. Isolados devem ser manipulados em cabine de biossegurança.

  1. Exposição

    Viagem ou residência em EUA/Canadá; atividade com solo úmido.

  2. Material do sítio

    Escarro/BAL, pus, biópsia de pele ou osso, urina pós-massagem prostática, líquor.

  3. Microscopia

    KOH/calcoflúor, Grocott ou PAS: broto único de base larga.

  4. Cultura e molecular

    Cultura em meio para fungos; PCR ou sonda de DNA confirmam.

  5. Antígeno

    Urina/soro/BAL como apoio; interpretar com morfologia.

Como bater o martelo

Não há colonização por Blastomyces: cultura positiva sempre significa doença. A morfologia típica em tecido, com exposição compatível, já permite tratar enquanto a cultura cresce. O antígeno isolado, por outro lado, não diferencia blastomicose de histoplasmose ou paracoccidioidomicose.

Confirmado

  • Cultura positiva para Blastomyces, identificada por sonda de DNA, PCR ou espectrometria de massa.
  • PCR específica positiva em tecido ou secreção.

Provável

  • Levedura de base larga em exame direto ou histologia, com exposição compatível.
  • Antígeno positivo com quadro e exposição compatíveis — lembrando a reação cruzada.

Paciente brasileiro com antígeno de Blastomyces positivo e sem viagem à América do Norte: pense antes em histoplasmose ou paracoccidioidomicose, que cruzam no teste.

Principais testes

Cada exame tem um papel. A microscopia é rápida e muitas vezes suficiente para iniciar o tratamento; a cultura é definitiva, mas lenta; o antígeno é sensível e útil no seguimento, mas pouco específico. A sorologia clássica tem baixo rendimento e não deve ser usada para excluir.

TesteOnde ajuda maisLimitações / interpretação
Exame direto (KOH/calcoflúor)Escarro, BAL, pus, raspado de pele.Rápido e barato; sensibilidade depende da amostra e do examinador.
HistopatologiaPele, osso, pulmão, próstata.Grocott/PAS mostram a levedura; pele pode ter hiperplasia pseudoepiteliomatosa que imita carcinoma.
CulturaQualquer material.Padrão-ouro; leva de 1 a 4 semanas ou mais; risco biológico para o laboratório.
Antígeno (EIA)Urina, soro e BAL; doença disseminada e seguimento.Sensibilidade de ~93% na urina, mas reação cruzada em ~96% das histoplasmoses (Durkin, 2004).
AnticorposApoio epidemiológico.Imunodifusão e fixação de complemento têm baixa sensibilidade e especificidade; EIA para BAD-1 é mais promissor, pouco disponível.
PCR / sonda de DNAConfirmação de cultura ou tecido.Disponibilidade limitada no Brasil; centros de referência.
Achado característico

Broto único de base larga

Levedura de 8–15 µm, parede dupla refringente, em KOH ou calcoflúor.

Investigação de extensão

Confirmado o diagnóstico, procure ativamente outros sítios, porque a extensão muda a duração e, às vezes, o fármaco. Examine toda a pele, investigue dor óssea com imagem, peça exame de urina e avalie próstata e epidídimo no homem.

Cefaleia, alteração neurológica, imunossupressão ou doença disseminada extensa justificam neuroimagem (RM) e, se não houver contraindicação, líquor com celularidade, bioquímica, cultura e antígeno — a cultura do líquor tem rendimento baixo.

Diagnósticos diferenciais

O diferencial é amplo porque a blastomicose imita infecções e neoplasias. No Brasil, o primeiro passo é separar das micoses endêmicas locais, sobretudo paracoccidioidomicose e histoplasmose, que cruzam no antígeno e podem coexistir com tuberculose.

DiferencialPor que confundeO que ajuda a separar
ParacoccidioidomicosePulmão + pele/mucosa; antigo nome “blastomicose sul-americana”.Exposição rural latino-americana; brotamento múltiplo (“roda de leme”); lesão oral moriforme.
HistoplasmosePulmonar ou disseminada; antígeno cruzado.Leveduras pequenas (2–4 µm) intracelulares; antígeno de Histoplasma geralmente mais alto.
TuberculoseTosse crônica, emagrecimento, cavitação.Baciloscopia, teste molecular e cultura para micobactéria.
Pneumonia bacterianaForma aguda idêntica.Falta de resposta ao antibiótico + exposição na América do Norte.
Carcinoma brônquicoMassa pulmonar com perda de peso.Biópsia com histologia e cultura para fungos.
Carcinoma espinocelular / ceratoacantomaLesão verrucosa crônica.Biópsia com Grocott/PAS; microabscessos e leveduras.
Pioderma gangrenosoÚlcera de bordas violáceas.Biópsia e cultura antes de imunossuprimir.
Coccidioidomicose / criptococoseOutras micoses pulmonares e disseminadas.Esférulas com endósporos / levedura capsulada; antígeno criptocócico.
Osteomielite bacteriana / metástaseLesão óssea lítica.Biópsia óssea com cultura para fungos.

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O essencial de tratamento

  1. Toda blastomicose sintomática deve ser tratada (IDSA 2008).
  2. Leve/moderada: itraconazol 200 mg 3x/dia por 3 dias, depois 200 mg 1–2x/dia, 6–12 meses.
  3. Grave: anfotericina B lipídica 3–5 mg/kg/dia por 1–2 semanas → itraconazol.
  4. SNC: anfotericina lipídica 5 mg/kg/dia por 4–6 semanas → azol ≥12 meses. Gestação: só anfotericina.

Como escolher a rota

Três perguntas organizam o tratamento. A primeira é a gravidade: leve a moderada trata-se com itraconazol oral; moderadamente grave a grave começa com anfotericina B e passa ao itraconazol após melhora, em geral em 1–2 semanas.

A segunda é o sítio: osso exige pelo menos 12 meses, e o SNC exige indução de 4–6 semanas e azol com boa penetração no sistema nervoso. A terceira é o hospedeiro: imunossuprimido, gestante e criança têm regras próprias. As doses por peso estão na ficha de cada medicamento, aberta pelo botão “Ver detalhes”.

A gravidade decide entre itraconazol e anfotericina; o sítio e o hospedeiro decidem a duração.

Não use o esquema da paracoccidioidomicose

SMX-TMP não é tratamento de blastomicose, e o itraconazol 200 mg 1x/dia sem dose de ataque e sem nível sérico pode ser insuficiente. Equinocandinas não têm atividade útil contra fungos dimórficos.

Rotas de tratamento

Cada rota é um cenário clínico. Abra só a rota em que o seu paciente está: a tabela mostra dose, frequência e duração de cada esquema, e o nome de cada medicamento abre a ficha completa. Opções do mesmo grupo são alternativas — escolha uma.

Monitoramento durante o tratamento

O itraconazol tem absorção irregular e muitas interações, e a IDSA recomenda dosar o nível sérico depois de pelo menos 2 semanas de uso. A anfotericina exige vigilância renal e eletrolítica durante toda a indução. A resposta é clínica e radiológica; o antígeno quantitativo pode ajudar no seguimento quando disponível.

O queComo monitorar
Nível sérico do itraconazolApós ≥2 semanas. Meta: itraconazol + hidroxi-itraconazol >1,0 µg/mL; evitar >10 µg/mL.
FígadoTransaminases antes e durante o itraconazol e o voriconazol.
InteraçõesItraconazol inibe fortemente o CYP3A4; rifampicina, carbamazepina e fenitoína reduzem muito seus níveis.
CoraçãoItraconazol pode causar ou agravar insuficiência cardíaca.
Anfotericina BCreatinina, potássio e magnésio a cada 24–48 h; reposição ativa.
RespostaFebre, peso, lesões de pele, imagem torácica/óssea; líquor e RM no SNC.

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O essencial de cenários especiais

  1. Viajante que volta ao Brasil: história de viagem é o dado que abre o diagnóstico.
  2. Gestação: anfotericina B lipídica; azóis contraindicados.
  3. Imunossuprimido: anfotericina inicial, ≥12 meses e supressão se não reverter.
  4. Criança: itraconazol 10 mg/kg/dia, máx. 400 mg/dia.

O que muda em cada cenário

Alguns pacientes mudam o raciocínio padrão. No Brasil, o primeiro cenário especial é o próprio viajante: a doença é rara aqui e costuma ser diagnosticada tarde. Na gestação, os azóis saem de cena; no imunossuprimido, a indução venosa é a regra e o tratamento é mais longo.

CenárioParticularidadeO que fazer diferente
Viajante / imigrante da América do NorteDoença importada; atraso diagnóstico frequente.Perguntar ativamente por viagens; enviar material para micologia com a suspeita escrita no pedido.
GestaçãoDoença possivelmente mais grave; risco de transmissão perinatal. 3–5 mg/kg/dia; sem azóis; avaliar o recém-nascido.
Recém-nascido infectadoTransmissão perinatal rara. 1 mg/kg/dia, com neonatologia.
CriançaMesmo espectro do adulto. 10 mg/kg/dia (máx. 400 mg/dia) por 6–12 meses; grave: anfotericina → itraconazol, 12 meses.
Transplante / imunobiológicosDoença mais grave e disseminada; interações com imunossupressores.Anfotericina inicial, itraconazol ≥12 meses, supressão se a imunossupressão persistir.
HIV avançadoDoença disseminada e SNC mais frequentes.Como imunossuprimido; revisar interações com a TARV.
SDRAMortalidade de 50–89%.Anfotericina lipídica imediata e UTI; corticoide sem benefício comprovado.
LaboratórioFase micelial libera conídios infectantes.Cultura em cabine de biossegurança; acidentes podem causar inoculação cutânea.

O caso importado no Brasil

O perfil típico é o de alguém que morou, estudou, trabalhou ou fez turismo de natureza nos EUA ou no Canadá — pesca, caça, canoagem, acampamento, obras — e adoece semanas a meses depois. Como a doença não existe no país, o diagnóstico costuma ser tardio e o paciente pode ter recebido vários cursos de antibiótico ou até tratamento empírico para tuberculose.

A confusão com paracoccidioidomicose é o erro clássico: o termo antigo “blastomicose sul-americana” ainda circula, e as duas compartilham pulmão e pele. A morfologia da levedura e a história de viagem resolvem a dúvida.

Blastomicose não consta da lista nacional de notificação compulsória. Casos confirmados merecem contato com o laboratório de referência em micologia para identificação da espécie.

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O essencial de seguimento e prevenção

  1. Reavalie clínica, adesão, nível sérico, fígado e interações ao longo de 6–12 meses ou mais.
  2. Recaída é possível, sobretudo com cursos curtos, osso e imunossupressão.
  3. SNC: ≥12 meses e até normalizar o líquor.
  4. Sem vacina e sem profilaxia pós-exposição.

Como acompanhar

O seguimento combina resposta clínica, imagem e segurança dos fármacos. Lesões de pele melhoram em semanas e são um bom marcador visível; lesões pulmonares e ósseas regridem mais devagar. Recaídas ocorrem principalmente quando o tratamento é curto ou o nível de itraconazol é baixo, e podem aparecer meses após a suspensão.

  • Nível sérico do após 2 semanas e após mudanças de dose ou de interações.
  • Transaminases periódicas com azóis; função renal e eletrólitos com anfotericina.
  • Imagem pulmonar ou óssea durante e ao fim do tratamento.
  • SNC: RM e líquor seriados; manter azol até normalizar o líquor.
  • Orientar retorno se sintomas reaparecerem após a suspensão.

Prevenção

Não há vacina para humanos nem profilaxia pós-exposição. Como o fungo está em solo úmido de áreas extensas e a infecção vem de atividades corriqueiras, a prevenção individual é limitada; o maior ganho é reconhecer a doença cedo.

  • Imunossuprimidos em área endêmica: evitar escavação e manejo de solo úmido e madeira em decomposição.
  • Viajantes: saber que sintomas respiratórios ou lesões de pele nos meses seguintes devem ser relatados com a história de viagem.
  • Laboratório: cultura com biossegurança adequada.
  • Supressão com 200 mg/dia em imunossupressão irreversível ou recaída.

Armadilhas

Os erros mais comuns vêm de três fontes: o nome antigo que confunde com paracoccidioidomicose, a confiança excessiva no antígeno e o uso de esquemas incompletos de itraconazol.

ErroPor que é um problemaComo evitar
Chamar PCM de “blastomicose”São doenças diferentes, com agentes e tratamentos diferentes.Usar “paracoccidioidomicose”; reservar “blastomicose” para Blastomyces.
Confirmar só pelo antígenoReação cruzada com Histoplasma e Paracoccidioides.Buscar morfologia, cultura ou PCR.
Esquecer a viagemSem a epidemiologia, a hipótese não aparece.Perguntar por viagens à América do Norte em pneumonia arrastada.
Itraconazol sem ataque e sem nívelNíveis baixos favorecem falha e recaída.Ataque de 3 dias e nível sérico após 2 semanas.
Usar azol na gestaçãoPotencial teratogênico.Anfotericina B lipídica.
Encurtar osso e SNCRecaída.Osso ≥12 meses; SNC ≥12 meses e até normalizar o líquor.
Tratar com SMX-TMP ou equinocandinaSem eficácia confiável contra Blastomyces.Itraconazol ou anfotericina B.

Referências principais

  1. 1
    Diretriz2008
    Chapman SW, Dismukes WE, Proia LA, et al. Clinical Practice Guidelines for the Management of Blastomycosis: 2008 Update by the Infectious Diseases Society of America. Clin Infect Dis. 2008;46(12):1801–1812.
  2. 2
    Diretriz
    Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Clinical Overview of Blastomycosis e Testing Algorithm for Blastomycosis. Epidemiologia, diagnóstico e tratamento.
  3. 3
    Artigo2023
    Linder KA, Kauffman CA, Miceli MH. Blastomycosis: A Review of Mycological and Clinical Aspects. J Fungi. 2023;9(1):117.
  4. 4
    Artigo2022
    Pullen MF, Alpern JD, Bahr NC. Blastomycosis — Some Progress but Still Much to Learn. J Fungi. 2022;8(8):824.
  5. 5
    Artigo2017
    McBride JA, Gauthier GM, Klein BS. Clinical Manifestations and Treatment of Blastomycosis. Clin Chest Med. 2017;38(3):435–449.
  6. 6
    Artigo2010
    Bariola JR, Perry P, Pappas PG, et al. Blastomycosis of the Central Nervous System: A Multicenter Review of Diagnosis and Treatment in the Modern Era. Clin Infect Dis. 2010;50(6):797–804.
  7. 7
    Artigo2004
    Durkin M, Witt J, LeMonte A, Wheat B, Connolly P. Antigen Assay with the Potential To Aid in Diagnosis of Blastomycosis. J Clin Microbiol. 2004;42(10):4873.
  8. 8
    Artigo2019
    Schwartz IS, Wiederhold NP, Hanson KE, Patterson TF, Sigler L. Blastomyces helicus, a New Dimorphic Fungus Causing Fatal Pulmonary and Systemic Disease in Humans and Animals in Western Canada and the United States. Clin Infect Dis. 2019;68(2):188–195.
  9. 9
    Artigo2013
    Brown EM, McTaggart LR, Zhang SX, et al. Phylogenetic Analysis Reveals a Cryptic Species Blastomyces gilchristii, sp. nov. within the Human Pathogenic Fungus Blastomyces dermatitidis. PLoS One. 2013;8(3):e59237.
  10. 10
    Documento oficial2018
    Shikanai-Yasuda MA, Mendes RP, Colombo AL, et al. II Consenso Brasileiro em Paracoccidioidomicose — 2017. Epidemiol Serv Saúde. 2018;27(nesp):e0500001. Referência para o diagnóstico diferencial no Brasil.
  11. 11
    Manual2026
    Vergidis P. Blastomicose. Manual MSD — Versão para Profissionais de Saúde. Revisado em 2026.

Aviso importante

Material educacional de apoio à decisão clínica. Não substitui avaliação individualizada, protocolos institucionais, serviço de referência, infectologia, pediatria/obstetrícia nem consulta às bulas. No Brasil, confirme a exposição na América do Norte e a morfologia do fungo antes de tratar como blastomicose; doses por peso, nível sérico do itraconazol, gestação, pediatria e acometimento do SNC devem ser conferidos antes da prescrição.

Conteúdo para educação médica. Condutas devem ser individualizadas e conferidas com protocolos oficiais, contexto epidemiológico e disponibilidade local.
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