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Coccidioidomicose

Coccidioides immitis e C. posadasii — fungos termodimórficos do solo árido

Micose sistêmica adquirida pela inalação de artroconídios de Coccidioides presentes no solo de regiões secas das Américas. No Brasil, o agente é C. posadasii e a exposição típica é a caça ao tatu no semiárido nordestino. A maioria das infecções é assintomática ou autolimitada, mas pneumonia difusa, doença disseminada e meningite exigem tratamento prolongado — na meningite, por toda a vida.

Porta de entrada pulmonarSolo árido do semiáridoCaça ao tatuMeningite: azol por toda a vida
18–22 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Micose sistêmica por Coccidioides, fungo termodimórfico: hifas com artroconídios no solo, esférulas no tecido.
  2. Adquirida pela inalação de artroconídios — é sapronose, não há transmissão pessoa a pessoa nem animal → humano.
  3. Cerca de 60% das infecções são assintomáticas; a disseminação ocorre em cerca de 1%.
  4. No Brasil: C. posadasii, semiárido nordestino, caça ao tatu.

O que é coccidioidomicose

Coccidioidomicose é a micose sistêmica causada por Coccidioides immitis e C. posadasii, fungos que vivem no solo de regiões áridas e semiáridas das Américas. Nos EUA é chamada de “febre do vale” (Valley fever). A infecção começa no pulmão e, na maioria das pessoas, termina ali — como infecção silenciosa ou pneumonia autolimitada. Uma minoria evolui para pneumonia difusa, doença pulmonar crônica ou disseminação para pele, ossos e meninges.

O tatu e o cão são marcadores do risco, não fontes de contágio: a infecção vem da poeira do solo inalada.

As duas espécies causam o mesmo espectro clínico e recebem o mesmo tratamento; no Brasil, só C. posadasii foi isolado.

O agente

No solo, Coccidioides cresce como bolor: as hifas se fragmentam em artroconídios em forma de barril, leves o bastante para ficar suspensos na poeira. Inalado, o artroconídio se transforma em esférula — estrutura grande, de parede espessa, que se enche de endósporos e se rompe, liberando cada um deles para formar uma nova esférula.

A esférula é o que se procura no escarro e na biópsia. Já a cultura volta à forma de bolor e produz artroconídios infectantes, o que faz de Coccidioides um risco real para o laboratório.

Agente etiológico

Esférula de Coccidioides

Estrutura de parede espessa, de 20 a 80 µm, repleta de endósporos de 2–4 µm.

  • Não brota como levedura: multiplica-se por endosporulação.
  • Endósporos livres podem ser confundidos com leveduras pequenas.
Ambiente

Hifas com artroconídios

Artroconídios em barril alternados com células vazias — a forma infectante.

Hospedeiro

Esférula com endósporos

Forma tecidual: rompe-se e libera endósporos que perpetuam a infecção.

Fisiopatologia: do alvéolo à disseminação

Bastam poucos artroconídios para infectar. No alvéolo, eles se convertem em esférulas grandes demais para serem fagocitadas; quando se rompem, centenas de endósporos são liberados de uma vez e atraem neutrófilos, o que explica a pneumonia supurativa e granulomatosa. Antes que a imunidade celular se organize, o fungo pode chegar aos linfonodos hilares e à corrente sanguínea.

O controle depende da resposta Th1 com formação de granulomas. Quando ela falha — HIV avançado, transplante, corticoide, anti-TNF, gestação avançada —, a infecção progride ou se dissemina, e pode reativar anos depois.

Fisiopatologia

Esférula × imunidade celular

Inalação do artroconídio, formação da esférula, ruptura com liberação de endósporos e o confronto com a resposta Th1 definem se a infecção será contida, pulmonar progressiva ou disseminada.

Resposta celular eficaz

Granulomas, eritema nodoso, teste cutâneo reativo e títulos de FC baixos → contenção e imunidade duradoura.

Resposta celular falha

Anergia, títulos de FC altos e crescentes → pneumonia progressiva ou disseminação para pele, osso e meninges.

Incubação e evolução

Os sintomas aparecem em 1–3 semanas; nos surtos brasileiros, entre 4 e 30 dias após a caçada. A pneumonia primária costuma melhorar em semanas, mas a fadiga pode durar meses. Quem se recupera fica, em geral, imune a nova infecção — o risco passa a ser reativação se houver imunossupressão futura.

1–3 semanasIncubação habitual após a exposição
~60%Infecções assintomáticas
~1%Evoluem para doença disseminada

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O essencial de transmissão e risco

  1. Via respiratória: poeira de solo árido com artroconídios.
  2. No Brasil, cerca de 9 em cada 10 casos seguem a caça ao tatu com escavação da toca.
  3. Sem transmissão pessoa a pessoa nem por contato com animais.
  4. Risco de forma grave: imunossupressão, gestação, diabetes, ascendência africana ou filipina.

Como ocorre a exposição

O fungo vive nos primeiros centímetros de solos secos e se dispersa quando a terra é revolvida ou levantada pelo vento. Uma exposição curta, de poucas horas, pode bastar. Os casos se concentram nos períodos secos, quando os artroconídios ficam mais tempo no ar.

Não há transmissão entre pessoas. Exceções raras são a infecção do receptor por órgão transplantado de doador infectado e a inoculação acidental no laboratório.

Ciclo ambiental

Toca de tatu → poeira → inalação

Escavar a toca levanta uma nuvem de poeira com artroconídios, inalada pelo caçador e pelos cães — por isso os surtos atingem grupos inteiros.

  • Caça ao tatu: escavação de tocas no semiárido — principal exposição no Brasil.
  • Obras e escavações: terraplanagem, construção, arqueologia e trabalho agrícola em área endêmica.
  • Viagem: estada no sudoeste dos EUA (Arizona, Califórnia) ou no norte do México.
  • Laboratório: abertura de placas de cultura fora de cabine de biossegurança.

Contexto brasileiro

O Nordeste é reconhecido como área endêmica, com casos no Piauí, Ceará, Maranhão, Bahia e Pernambuco, na transição entre cerrado e caatinga. A maior série nacional, com 292 casos do Piauí e do Maranhão entre 1978 e 2021, mostrou um perfil bem definido: homens jovens, caça ao tatu em 91% dos casos e microepidemias em grupos de caçadores. A forma pulmonar aguda predominou, mas a letalidade chegou a 8%.

Os cães que acompanham a caçada adoecem junto e são considerados o melhor indicador epidemiológico da doença. As micoses endêmicas não estão na lista nacional de notificação compulsória; o Ministério da Saúde estrutura a vigilância e fornece antifúngicos pelo SUS, e alguns estados têm notificação própria.

Distribuição geográfica

Áreas endêmicas nas Américas

Sudoeste dos EUA e norte do México, áreas da América Central e do Sul e o semiárido do Nordeste brasileiro.

Quem tem maior risco de doença grave

Infecção é comum entre os expostos; doença grave depende do hospedeiro. Esses fatores pesam na decisão de tratar a pneumonia primária e na vigilância de disseminação, e devem ser perguntados em toda consulta.

  • Imunossupressão celular: HIV com CD4 <250, transplante, corticoide, anti-TNF e outros biológicos, linfoma.
  • Gestação, sobretudo no 3º trimestre e no pós-parto imediato.
  • Diabetes, idade avançada, fragilidade e doença cardiopulmonar prévia.
  • Ascendência africana ou filipina: maior risco de disseminação.
  • Grande inóculo: exposição intensa, como nas escavações de tocas.

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O essencial de quadro clínico

  1. Pneumonia primária: febre, tosse, dor torácica e fadiga intensa — parece pneumonia comunitária.
  2. Eritema nodoso, eritema multiforme e artralgias marcam a infecção primária.
  3. Sequelas pulmonares: nódulo e cavidade de paredes finas.
  4. Disseminação: pele, partes moles, osso/articulação e meninges.

As formas principais

A coccidioidomicose é um espectro. Na ponta benigna, a infecção é silenciosa ou se apresenta como gripe ou pneumonia comunitária que melhora sozinha; no meio, ficam a pneumonia difusa e as formas pulmonares crônicas; na ponta grave, a disseminação hematogênica, que pode surgir semanas a meses — às vezes anos — depois da infecção primária.

Pulmonar primária

  • Febre, tosse, dor pleurítica, cefaleia, fadiga.
  • Infiltrado unilateral com adenopatia hilar ipsilateral; derrame pleural possível.
  • Eritema nodoso/multiforme e artralgias.

Pulmonar progressiva/crônica

  • Pneumonia difusa (reticulonodular, miliar) com hipoxemia.
  • Pneumonia persistente >2 meses ou fibrocavitária.
  • Nódulos e cavidades residuais.

Disseminada

  • Pele e partes moles: pápulas, placas verrucosas, abscessos.
  • Osso, articulação e coluna vertebral.
  • Meningite basilar crônica, com risco de hidrocefalia.

Achados característicos

Nenhum sinal é exclusivo, mas alguns achados, somados à exposição, tornam a hipótese muito provável. O eritema nodoso, curiosamente, é sinal de boa resposta imune e se associa a menor risco de disseminação.

Achado característico

Eritema nodoso

Nódulos dolorosos nas pernas na infecção primária — “reumatismo do deserto” com febre e artralgia.

Achado de imagem

Cavidade de paredes finas

Periférica, muitas vezes assintomática; pode romper e causar piopneumotórax.

Doença disseminada

Lesão cutânea

Pápula, placa verrucosa, úlcera ou abscesso — a face é sítio clássico. Biópsia mostra esférulas.

Doença disseminada

Meningite basilar

Realce meníngeo basilar e hidrocefalia na RM; cefaleia arrastada é o sintoma-chave.

Formas pulmonares crônicas e residuais

Após a pneumonia primária, parte dos pacientes fica com lesões residuais. Em geral são silenciosas e não exigem tratamento, mas entram no diferencial de câncer e tuberculose e podem complicar.

  • Nódulo: achado incidental que imita neoplasia; muitas vezes leva à biópsia.
  • Cavidade de paredes finas: pode fechar espontaneamente; complica com hemoptise, colonização por Aspergillus ou ruptura para a pleura (piopneumotórax).
  • Pneumonia persistente: sintomas e infiltrados por mais de 2 meses.
  • Fibrocavitária crônica: cavidades, fibrose e sintomas por anos, semelhante à tuberculose.

Marcadores de gravidade

São esses marcadores, listados pela IDSA 2016, que transformam uma pneumonia “para observar” em pneumonia “para tratar”. Procure-os ativamente na primeira consulta e nas reavaliações.

  • Perda de peso >10% ou sudorese noturna intensa por >3 semanas.
  • Infiltrado em mais da metade de um pulmão ou em ambos os pulmões; adenopatia hilar proeminente ou persistente.
  • Título de fixação de complemento >1:16.
  • Incapacidade para o trabalho ou sintomas por >2 meses.
  • Hipoxemia, pneumonia difusa, sinais de disseminação ou cefaleia persistente.

Pneumonia difusa, disseminação e meningite exigem tratamento imediato e avaliação especializada.

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O essencial de diagnóstico

  1. Pense em coccidioidomicose em pneumonia com >1 semana após exposição em área endêmica.
  2. Esférula com endósporos ou cultura positiva confirmam.
  3. Sorologia (EIA, imunodifusão, fixação de complemento) é o exame mais usado; repita se negativa.
  4. Título de FC alto ou crescente sugere doença extensa ou disseminada.

Estratégia diagnóstica

O primeiro passo é lembrar da doença: pneumonia que dura mais de uma semana em quem esteve exposto, sobretudo com artralgias, eritema nodoso ou eosinofilia. Hemograma e VHS ajudam pouco — o VHS costuma estar elevado e a eosinofilia aparece em parte dos casos.

Em seguida, combine sorologia e busca direta do fungo. No Brasil, onde a sorologia é pouco disponível, o diagnóstico costuma vir do exame direto e da cultura de escarro ou lavado. Avise o laboratório da suspeita: a cultura cresce em poucos dias e deve ser manipulada em biossegurança nível 3.

Achar Coccidioides em qualquer amostra é diagnóstico: o fungo não coloniza.

Principais testes

Cada exame tem um papel. A sorologia é sensível, mas pode demorar a positivar e é menos útil no imunossuprimido; a microscopia é específica e pouco sensível; a cultura confirma, com risco biológico. A fixação de complemento serve também para graduar e acompanhar.

TestePara que serveLimitações / interpretação
EIA (IgM e IgG)Triagem rápida e sensível.Falso-positivo de IgM isolada; confirmar com imunodifusão e FC.
ImunodifusãoConfirmação, com especificidade muito alta.Sensibilidade moderada.
Fixação de complemento (FC)IgG com título: extensão da doença e seguimento.Título >1:16 sugere doença extensa ou disseminação; no líquor, FC positiva indica meningite.
Exame direto (KOH/calcoflúor) e histopatologiaEsférula com endósporos em escarro, lavado, pus ou biópsia.Baixa sensibilidade no escarro; histologia com GMS ou PAS.
CulturaConfirmação definitiva; cresce em dias.Risco de infecção laboratorial: NB-3 e aviso prévio.
PCR e antígenoComplementares onde disponíveis; antígeno útil no imunossuprimido grave.Disponibilidade limitada no Brasil.
Achado característico

Esférula no exame direto

KOH ou calcoflúor de escarro/lavado com esférula repleta de endósporos.

Laboratório

Colônia em cultura

Bolor branco algodonoso em poucos dias — perigoso: abrir só em cabine NB-3.

Teste cutâneo (esferulina/coccidioidina)

A intradermorreação mede hipersensibilidade tardia: indica infecção prévia e imunidade celular preservada, mas não confirma doença ativa. Costuma ser negativa justamente na doença disseminada, por anergia. Seu uso é sobretudo em inquéritos epidemiológicos — foi assim que se mediu a prevalência de infecção no Piauí e no Ceará — e o reagente não está disponível na rotina assistencial brasileira.

Investigação de disseminação e SNC

Título de FC alto ou crescente, hospedeiro de risco ou sintomas extrapulmonares pedem busca ativa: exame da pele, dor óssea ou articular (imagem e biópsia) e avaliação neurológica.

Cefaleia persistente, alteração mental ou meningismo indicam punção lombar. O líquor mostra pleocitose linfocitária (eosinófilos podem aparecer), proteína alta e glicose baixa; a cultura raramente cresce, e o diagnóstico vem da sorologia no líquor. Faça RM de encéfalo para avaliar hidrocefalia, vasculite e infartos.

Diagnósticos diferenciais

Na fase aguda, o diferencial é a pneumonia comunitária comum; nas formas crônicas, tuberculose e neoplasia; na meningite, tuberculose meníngea e criptococose. No Nordeste, vale lembrar que histoplasmose e paracoccidioidomicose também ocorrem.

DiferencialPor que confundeO que ajuda a separar
Pneumonia bacteriana ou viralFebre, tosse e infiltrado na fase aguda.Caça ao tatu, falta de resposta ao antibiótico, eritema nodoso, eosinofilia.
TuberculoseCavidade, nódulos, febre e emagrecimento; meningite basilar.Baciloscopia, teste molecular e cultura; esférulas e sorologia para Coccidioides.
HistoplasmosePneumonia aguda após poeira, adenopatia hilar, formas disseminadas.Exposição a fezes de aves/morcegos; leveduras pequenas intracelulares; antígeno de Histoplasma.
ParacoccidioidomicoseMicose endêmica pulmonar e cutânea no Brasil.Levedura com brotamento múltiplo (roda de leme); perfil rural crônico.
CriptococoseLesões pulmonares e meningite crônica.Antígeno criptocócico no soro/líquor; tinta da China.
Neoplasia pulmonar / linfomaNódulo, massa, adenopatia e sintomas constitucionais.Biópsia com histologia e cultura.
SarcoidoseAdenopatia hilar, eritema nodoso e artralgias.Exposição, sorologia e culturas; excluir infecção antes de imunossuprimir.

Em lesão óssea ou cutânea crônica, sempre pedir cultura micológica e para micobactéria do material da biópsia.

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O essencial de tratamento

  1. Pneumonia primária leve sem fatores de risco: observar e reavaliar, sem antifúngico de rotina (IDSA 2016).
  2. Com fatores de risco ou doença debilitante: fluconazol ≥400 mg/dia ou itraconazol 200 mg 12/12 h por 3–6 meses.
  3. Pneumonia difusa e disseminada grave: anfotericina B até estabilizar, depois azol por ≥1 ano.
  4. Meningite: fluconazol 400–1.200 mg/dia por toda a vida.

Como escolher a rota

A primeira decisão é se o paciente precisa de antifúngico. Não há ensaio clínico que mostre benefício em tratar a pneumonia primária não complicada; por isso, no imunocompetente sem marcadores de gravidade, a IDSA 2016 recomenda observar. Fatores de risco do hospedeiro ou doença debilitante mudam a conduta.

Depois, a forma clínica define o esquema e a duração. Os azóis orais — fluconazol, ou itraconazol, que parece melhor no osso — são a base; a anfotericina B entra na doença grave ou rapidamente progressiva e no 1º trimestre da gestação. As doses por peso ficam na ficha de cada medicamento, aberta pelo botão “Ver detalhes”.

A gravidade decide entre azol e anfotericina; a forma clínica decide a duração — de meses a toda a vida.

Rotas de tratamento

Cada rota é um cenário clínico. Abra só a rota em que o seu paciente está: a tabela mostra dose, frequência e duração de cada esquema, e o nome de cada medicamento abre a ficha completa. Opções do mesmo grupo são alternativas — escolha uma.

Monitoramento durante o tratamento

Tratamentos de um ano ou mais exigem vigilância de toxicidade e de adesão. Os azóis em dose alta e por muito tempo têm efeitos próprios — ressecamento de pele e lábios e queda de cabelo com o fluconazol, por exemplo — que levam o paciente a abandonar se não forem antecipados.

O queComo monitorar
RespostaSintomas, peso, imagem e título de FC a cada 1–3 meses no início.
FígadoTransaminases antes e periodicamente com qualquer azol.
RimAjustar o fluconazol à depuração de creatinina; creatinina, K e Mg durante a anfotericina.
CoraçãoECG se outros fármacos que prolongam o QT; itraconazol pode piorar insuficiência cardíaca.
Níveis séricosItraconazol, voriconazol e posaconazol: dosar quando disponível, sobretudo em doença grave, falha ou interação.
InteraçõesAzóis inibem o CYP3A4: revisar tacrolimo, ciclosporina, estatinas, antirretrovirais; rifampicina derruba os níveis.

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O essencial de cenários especiais

  1. Gestação: anfotericina B no 1º trimestre; azol depois, se necessário.
  2. Transplante: profilaxia com fluconazol e supressão por toda a vida após doença ativa.
  3. HIV com CD4 <250: tratar toda doença sintomática; fluconazol preemptivo se sorologia positiva.
  4. Crianças: mesmas indicações, dose por peso.

O que muda em cada cenário

Em alguns grupos, a regra de “observar a pneumonia leve” não vale: imunossuprimidos, gestantes e pessoas com diabetes têm mais chance de progressão e devem ser tratados. Os detalhes de dose estão nas rotas; a tabela mostra o que muda no raciocínio.

CenárioParticularidadeO que fazer diferente
GestaçãoMais disseminação no 3º trimestre e no pós-parto; azóis teratogênicos no 1º trimestre.Tratar quando houver doença ativa; no 1º trimestre, azol depois. Sem doença ativa: só sorologia seriada.
Transplante de órgão sólidoReativação e infecção grave; transmissão pelo órgão doado.Rastreio sorológico antes; profilático conforme sorologia; supressão por toda a vida após doença.
HIV avançadoPneumonia difusa e disseminação com CD4 baixo.Tratar todo caso sintomático; manter azol enquanto CD4 <250; não adiar a TARV.
Biológicos (anti-TNF e outros)Maior risco de progressão.Sorologia antes; doença ativa: suspender o biológico e tratar com azol.
DiabetesMais pneumonia cavitária e progressiva.Baixar o limiar para tratar a pneumonia primária.
CriançasMesmo espectro clínico. 6–12 mg/kg/dia (máx. 400 mg); meningite 12 mg/kg/dia (máx. 800 mg).
Surto entre caçadoresVários doentes após a mesma caçada; cães doentes.Busca ativa entre os participantes e contato com a vigilância local.
LaboratórioCultura produz artroconídios infectantes.Avisar a suspeita; manipulação em NB-3.

Gestação em destaque

A gestação, sobretudo no 3º trimestre e logo após o parto, reduz a imunidade celular e favorece a disseminação. Ao mesmo tempo, o fluconazol em dose alta no 1º trimestre está associado a malformações craniofaciais e esqueléticas, o que faz da a escolha nesse período.

Depois do 1º trimestre, ou podem ser considerados. Mulher já em uso de azol que engravida deve ter o caso reavaliado imediatamente com especialista.

História antiga de coccidioidomicose sem doença ativa não exige antifúngico na gestação: o risco de reativação é baixo. Basta sorologia a cada 6–12 semanas.

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O essencial de seguimento e prevenção

  1. Siga clínica, imagem e título de fixação de complemento — tratado ou não.
  2. Título em queda = resposta; título em alta = progressão ou recidiva.
  3. Recidiva após suspender é comum nas formas crônicas e disseminadas.
  4. Meningite: azol por toda a vida, com líquor e RM seriados.

Seguimento sorológico (fixação de complemento)

O título de IgG por fixação de complemento acompanha a carga de doença. Colha um título basal no diagnóstico e repita em intervalos que, segundo a IDSA, raramente precisam ser menores que 2 semanas e em geral vão de 1 a vários meses. A queda progressiva confirma a resposta; a subida, mesmo sem sintomas, pede reavaliação.

Mesmo quem não recebeu antifúngico deve ser seguido: a IDSA considera resolvida a pneumonia primária não tratada que permanece estável por cerca de 2 anos.

Título caindo

  • Resposta ao tratamento ou resolução espontânea.
  • Manter o plano e espaçar as consultas.

Título subindo ou >1:16

  • Doença extensa, progressão ou disseminação.
  • Buscar sítios extrapulmonares; colher líquor se houver cefaleia.
  • Após suspender: sinal precoce de recidiva.

Quando suspender

A suspensão é decidida por critérios, não só por calendário. Nas formas crônicas e disseminadas, cerca de um terço recidiva após parar, então o seguimento continua depois da última dose.

  • Sintomas resolvidos e imagem estável ou residual.
  • Título de FC baixo e estável.
  • Duração mínima da forma clínica cumprida (3–6 meses na pneumonia primária tratada; ≥1 ano na difusa, crônica e disseminada).
  • Imunossuprimido: imunidade recuperada (HIV com CD4 ≥250) ou supressão mantida (transplante).
  • Meningite: nunca suspender.

Prevenção ambiental e ocupacional

Não há vacina para humanos, e a quimioprofilaxia primária não é indicada para a população geral. A prevenção é reduzir a poeira inalada — no semiárido, isso significa sobretudo desestimular a escavação de tocas de tatu, prática ligada à maioria dos casos brasileiros.

  • Caça ao tatu: evitar escavar tocas, sobretudo nos meses secos; não levar cães.
  • Controle de poeira: umedecer o solo em obras e escavações.
  • Proteção respiratória: PFF2/N95 em atividades com poeira em área endêmica.
  • Grupos de risco: imunossuprimidos e gestantes devem evitar essas atividades.
  • Laboratório: aviso da suspeita e manipulação de culturas em NB-3.

Resumo do fluxo prático

Suspeite diante de pneumonia ou síndrome gripal arrastada após exposição à poeira em área endêmica — no Brasil, a caça ao tatu. Peça sorologia (com título de FC), exame direto e cultura de escarro ou lavado, avisando o laboratório. Procure marcadores de gravidade e sinais de disseminação; com cefaleia persistente, colha líquor.

Sem fatores de risco e sem gravidade, observe e reavalie. Com indicação, use ≥400 mg/dia ou ; na pneumonia difusa e na disseminada grave, comece com . Meningite pede fluconazol por toda a vida. Siga todos com clínica, imagem e título de FC.

Armadilhas

Os erros mais comuns vêm de não perguntar pela exposição e de tratar a coccidioidomicose como uma pneumonia qualquer — ou, no extremo oposto, de suspender cedo demais formas que exigem anos de azol.

ErroPor que é um problemaComo evitar
Não perguntar por caça ao tatuA exposição é a principal pista diagnóstica no Brasil.Incluir caça, escavação e viagens na anamnese.
Excluir com sorologia negativa precoceAnticorpos podem demorar semanas.Repetir em 2–6 semanas e buscar o fungo.
Não avisar o laboratórioCultura produz artroconídios infectantes.Informar a suspeita no pedido.
Ignorar cefaleia persistenteMeningite tratada tarde evolui com hidrocefalia.Puncionar o líquor com sorologia.
Suspender o azol na meningiteRecidiva na maioria.Tratamento por toda a vida.
Azol no 1º trimestreRisco de malformação.Anfotericina B no 1º trimestre.

Referências principais

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    Diretriz2016
    Galgiani JN, Ampel NM, Blair JE, et al. 2016 Infectious Diseases Society of America (IDSA) Clinical Practice Guideline for the Treatment of Coccidioidomycosis. Clin Infect Dis. 2016;63(6):e112–e146.
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    Diretriz2005
    Galgiani JN, Ampel NM, Blair JE, et al. Coccidioidomycosis. Clin Infect Dis. 2005;41(9):1217–1223. Diretriz anterior da IDSA, com doses de anfotericina B.
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    Diretriz
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    Diretriz2019
    Miller R, Assi M; AST Infectious Diseases Community of Practice. Endemic fungal infections in solid organ transplant recipients — Guidelines from the American Society of Transplantation. Clin Transplant. 2019;33(9):e13553.
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    Artigo2000
    Galgiani JN, Catanzaro A, Cloud GA, et al. Comparison of oral fluconazole and itraconazole for progressive, nonmeningeal coccidioidomycosis: a randomized, double-blind trial. Ann Intern Med. 2000;133(9):676–686.
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    Artigo2011
    Kim MM, Vikram HR, Kusne S, Seville MT, Blair JE. Treatment of refractory coccidioidomycosis with voriconazole or posaconazole. Clin Infect Dis. 2011;53(11):1060–1066.
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    Artigo2024
    Eulálio KD, et al. Epidemiological, clinical, and genomic landscape of coccidioidomycosis in northeastern Brazil. Nat Commun. 2024;15. Série de 292 casos do Piauí e do Maranhão (1978–2021).
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    Documento oficial2009
    Deus Filho A. Capítulo 2: coccidioidomicose. J Bras Pneumol. 2009;35(9). Epidemiologia e clínica no Nordeste brasileiro.
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    Documento oficial
    Brasil. Ministério da Saúde. Coccidioidomicose — Saúde de A a Z e Situação epidemiológica. Conteúdo oficial sobre transmissão, diagnóstico, tratamento no SUS e vigilância das micoses endêmicas.

Aviso importante

Material educacional de apoio à decisão clínica. Não substitui avaliação individualizada, protocolos institucionais, serviço de referência, infectologia, pediatria/obstetrícia nem consulta às bulas. Indicação de tratar a pneumonia primária, doses por peso, função renal, interações dos azóis, gestação (sobretudo o 1º trimestre), profilaxia em transplante e o manejo da meningite devem ser conferidos com especialista antes da prescrição.

Conteúdo para educação médica. Condutas devem ser individualizadas e conferidas com protocolos oficiais, contexto epidemiológico e disponibilidade local.
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