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Dermatofitose zoonótica

Microsporum canis, Trichophyton benhamiae, T. mentagrophytes, T. verrucosum, Nannizzia gypsea — dermatófitos zoofílicos e geofílicos

Tinhas de pele adquiridas pelo contato com gatos, cães, cobaias, coelhos, bovinos, cavalos ou solo. Os dermatófitos de origem animal costumam causar lesões muito mais inflamatórias que os humanos, e o corticoide tópico transforma o quadro em tinha incógnita. A maioria responde a antifúngico tópico; formas extensas, foliculares ou inflamatórias pedem tratamento oral — e o animal também precisa ser tratado.

Gatos, cães e roedoresInflamação intensaPele, pelos e folículosSaúde única
15–18 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

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O essencial de visão geral

  1. Dermatófitos são fungos queratinofílicos: infectam só camada córnea, pelos e unhas.
  2. Zoofílicos vêm de animais; geofílicos, do solo; antropofílicos, de outras pessoas.
  3. Os de origem animal causam inflamação mais intensa e lesões mais agudas.
  4. Tratamento do paciente sem tratamento do animal e do ambiente favorece recidiva.

O que é dermatofitose zoonótica

Dermatofitose é a infecção da camada córnea, dos pelos ou das unhas por fungos filamentosos queratinofílicos, os dermatófitos. Pelo habitat preferencial, eles se dividem em antropofílicos (adaptados ao ser humano), zoofílicos (adaptados a animais) e geofílicos (vivem no solo). Este artigo trata das tinhas adquiridas de animais e do solo — as que fazem da dermatofitose uma zoonose.

Antropofílicos

  • T. rubrum, T. tonsurans, T. interdigitale, T. indotineae.
  • Passam de pessoa a pessoa.
  • Inflamação discreta, evolução crônica.

Zoofílicos

  • M. canis, T. benhamiae, T. mentagrophytes, T. verrucosum, T. equinum.
  • Vêm do animal, doente ou portador.
  • Inflamação intensa, evolução aguda.

Geofílicos

  • Nannizzia gypsea (antigo M. gypseum).
  • Vêm do solo, às vezes via animais.
  • Lesões inflamatórias em áreas expostas.

Os agentes

Microsporum canis é o zoofílico clássico, transmitido por gatos e cães — filhotes e gatos de pelo longo podem carregá-lo sem lesões. Na Europa e já com casos no Brasil, Trichophyton benhamiae, adquirido de cobaias, tornou-se causa importante de tinha muito inflamatória em crianças e adolescentes.

O complexo T. mentagrophytes inclui genótipos zoofílicos de roedores, coelhos e outros pequenos mamíferos, além de T. erinacei, de ouriços. T. verrucosum vem de bovinos jovens e acomete trabalhadores rurais; T. equinum, raro, vem de cavalos; e Nannizzia gypsea é adquirido do solo em jardinagem e brincadeiras na terra.

Agente etiológico

Microsporum canis

Principal dermatófito zoofílico no mundo; na cultura, macroconídios fusiformes de parede espessa e rugosa.

  • Parasita o pelo por fora (ectotrix) e costuma fluorescer em verde à lâmpada de Wood.
  • Causa tinea corporis em quem convive com o animal e tinha do couro cabeludo em crianças (ver Microsporia).
Gatos e cães

M. canis

Filhotes e gatos de pelo longo, muitas vezes portadores assintomáticos.

Cobaias e roedores

T. benhamiae / T. mentagrophytes

Cobaias, coelhos, hamsters e ouriços; lesões muito inflamatórias.

Bovinos e cavalos

T. verrucosum / T. equinum

Bezerros e equinos; tinha da barba e quérion no meio rural.

Solo

Nannizzia gypsea

Geofílico; jardinagem, agricultura e crianças brincando na terra.

Fisiopatologia: por que a origem animal inflama mais

O artroconídio adere à camada córnea, germina e produz queratinases e outras proteases que digerem a queratina; as hifas crescem de forma centrífuga, o que explica a borda ativa com centro mais claro. Microtraumas, umidade e oclusão facilitam a entrada.

O ser humano é um hospedeiro acidental para os zoofílicos e geofílicos, que não estão adaptados a ele. A resposta imune é vigorosa — eritema, edema, vesículas, pústulas e, no folículo, quérion —, e por isso a infecção tende a ser aguda e às vezes autolimitada, mas pode deixar cicatriz quando é profunda.

Fisiopatologia

Adaptação ao hospedeiro × inflamação

Quanto menos adaptado ao ser humano é o fungo, maior a inflamação; quanto mais adaptado, mais discreta e crônica a infecção.

Incubação e evolução

As lesões costumam surgir de 1 a 2 semanas após o contato. Sem tratamento, a tinha zoofílica pode regredir espontaneamente em semanas a meses, mas nesse período o paciente sofre com prurido e inflamação, e lesões foliculares profundas podem cicatrizar com alopecia. O uso de corticoide tópico altera o aspecto e prolonga a doença.

4–14 diasInício habitual dos sintomas após a exposição (CDC)
PortadorAnimais sem lesões visíveis também transmitem

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O essencial de transmissão e risco

  1. Contato direto com o animal ou indireto com pelos e escamas no ambiente.
  2. Geofílicos: contato da pele com solo, em jardinagem, agricultura e brincadeiras.
  3. Transmissão entre pessoas é possível, mas menos eficiente que a do animal.
  4. Risco maior em crianças, donos de filhotes, veterinários, tratadores e trabalhadores rurais.

Como ocorre a transmissão

A infecção começa quando artroconídios presentes em pelos e escamas do animal chegam à pele humana. Isso acontece no contato direto — segurar, abraçar, dormir junto — ou de forma indireta, por sofás, camas, escovas, mantas e gaiolas contaminados, onde os esporos permanecem viáveis por muitos meses.

O animal pode estar doente, com placas de alopecia e crostas, ou ser portador assintomático. Por isso, “o gato não tem nada” não exclui a fonte animal: a cultura de pelos pelo veterinário é que esclarece.

Ciclo de transmissão

Animal → ambiente → pele humana

O animal infecta a pessoa diretamente e contamina o ambiente, que mantém a reinfecção se não for limpo.

Agente, fonte e quadro típico

Identificar a espécie na cultura orienta a investigação da fonte: cada dermatófito zoofílico tem seus hospedeiros preferenciais e um padrão clínico mais frequente. A tabela ajuda a ligar o resultado do laboratório à anamnese.

AgenteFonte principalQuadro mais típico
Microsporum canisGatos (sobretudo filhotes) e cãesPlacas anulares múltiplas em áreas de contato; tinha do couro cabeludo em crianças
Trichophyton benhamiaeCobaias; também outros roedoresTinea faciei e corporis muito inflamatória em crianças e adolescentes; quérion
Complexo T. mentagrophytes (genótipos zoofílicos) e T. erinaceiCoelhos, roedores, chinchilas; ouriçosPlacas inflamatórias, pustulosas; tinea manuum e faciei
Trichophyton verrucosumBovinos jovensTinea barbae pustulosa, quérion, lesões em antebraços de trabalhadores rurais
Trichophyton equinumCavalos e equipamentos de montariaTinea corporis em cavaleiros e tratadores (rara)
Nannizzia gypseaSolo; ocasionalmente cães e gatosPlaca única inflamatória em área exposta; quérion

Quem tem maior risco

A exposição define o risco. Crianças têm mais contato físico com os animais e a pele mais suscetível; profissionais que lidam com animais se expõem repetidamente. Imunossupressão e uso de corticoide favorecem formas extensas, foliculares e atípicas.

  • Crianças e adolescentes que convivem com filhotes de gato, cão ou cobaias.
  • Ocupacional: veterinários, tratadores, pet shops, criadores, ordenhadores e trabalhadores rurais.
  • Abrigos e gatis: alta circulação de filhotes e portadores.
  • Imunossupressão e corticoide (tópico ou sistêmico): formas extensas, profundas e incógnitas.

Contexto brasileiro

M. canis é o dermatófito zoofílico mais isolado no Brasil, acompanhando a grande população de gatos e cães domiciliados. Casos de T. benhamiae transmitidos por cobaias já foram descritos no país, e em 2025 foi publicado o primeiro caso de T. indotineae resistente à terbinafina em paciente brasileiro. Dermatofitose não é doença de notificação compulsória nacional.

No Brasil, lesão em quem convive com gato exige separar dermatofitose de esporotricose: nódulos que ulceram e seguem o trajeto linfático, após arranhadura, apontam para Sporothrix.

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O essencial de quadro clínico

  1. Placa anular com borda ativa descamativa e centro mais claro — muitas vezes múltipla.
  2. Origem animal: mais eritema, edema, vesículas e pústulas; prurido intenso.
  3. Folículo acometido: granuloma de Majocchi, tinea barbae, quérion — sempre oral.
  4. Corticoide tópico apaga a borda e espalha a lesão: tinha incógnita.

Formas clínicas por localização

A lesão clássica é uma placa anular, eritematosa, com borda elevada e descamativa que cresce para fora e centro mais claro. Nas tinhas de origem animal, as placas tendem a ser múltiplas, nas áreas de contato com o bicho, e mais inflamadas, com vesículas e pústulas na borda. O nome da tinha segue o local acometido.

FormaLocalParticularidades na origem animal
Tinea corporisTronco, membros, pescoçoPlacas múltiplas em antebraços e pescoço de quem carrega o animal; borda vesicopustulosa.
Tinea facieiFace (exceto barba)Frequente com T. benhamiae e M. canis em crianças; pode simular dermatite, lúpus ou rosácea.
Tinea barbaeBarba e bigodeTípica de T. verrucosum em trabalhadores rurais; folicular, pustulosa, por vezes quérion.
Tinea manuumPalma e dorso das mãosZoofílica: placa inflamatória após manipular o animal; antropofílica: hiperceratose difusa com tinea pedis.
Tinea crurisVirilha e raiz das coxasGeralmente antropofílica; placas muito inflamadas na região pubiana pedem pensar em T. indotineae ou TMVII.
Tinea capitisCouro cabeludoPrincipalmente M. canis em crianças, com placas de alopecia e quérion — tema do artigo Microsporia.

Achados característicos

Alguns aspectos ajudam a suspeitar de dermatófito de origem animal antes da cultura: a intensidade da inflamação, a multiplicidade em áreas de contato e o acometimento folicular. O aspecto modificado pelo corticoide é a principal armadilha.

Achado característico

Placas inflamatórias múltiplas

Borda vesicopustulosa em antebraço e pescoço de quem segura o animal.

Achado característico

Tinea faciei

Placa edemaciada e pustulosa na face de criança com cobaia.

Forma profunda

Granuloma de Majocchi

Pápulas e nódulos foliculares; não responde a tópico.

Armadilha

Tinha incógnita

Extensa, borda pouco definida e pouca descamação após corticoide.

Formas profundas e reações associadas

Quando o fungo atinge o folículo, a doença deixa de ser superficial e o creme não alcança o local da infecção. Essas formas, além das reações à distância, precisam ser reconhecidas porque mudam o tratamento.

  • Granuloma de Majocchi: foliculite e perifoliculite granulomatosa, com pápulas, pústulas e nódulos; favorecido por corticoide, depilação e imunossupressão.
  • Quérion: placa elevada, dolorosa, com pústulas e drenagem de pus pelos óstios foliculares; é inflamação e não abscesso, mas pode cicatrizar com alopecia.
  • Tinea barbae: forma folicular da barba, frequentemente por T. verrucosum.
  • Reação “ide” (dermatofítide): erupção papulovesicular estéril à distância, às vezes após iniciar o antifúngico; não é alergia ao medicamento.
  • Infecção bacteriana secundária: crostas melicéricas e dor crescente pedem avaliação.

Sinais de alerta

A dermatofitose zoonótica não ameaça a vida, mas alguns sinais indicam que o tópico não vai bastar, que o diagnóstico pode estar errado ou que há risco de sequela. Diante deles, confirme o fungo e indique tratamento oral ou encaminhamento.

  • Nódulos, pústulas foliculares ou quérion: forma profunda com risco de cicatriz.
  • Lesões extensas ou muito numerosas, sobretudo em imunossuprimido.
  • Falha após tratamento adequado, ou viagem recente ao sul da Ásia: pense em T. indotineae.
  • Nódulos em trajeto linfático após arranhadura de gato: investigar esporotricose.

Acometimento folicular — Majocchi, barba, quérion — não se trata com creme: exige antifúngico oral.

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O essencial de diagnóstico

  1. O diagnóstico clínico erra com frequência: confirme com exame micológico direto.
  2. Colher escamas da borda ativa, de preferência antes de qualquer antifúngico.
  3. Cultura identifica a espécie (e o animal-fonte); demora semanas.
  4. Falha terapêutica: cultura, identificação molecular e teste de sensibilidade.

Estratégia diagnóstica

Muitas dermatoses anulares imitam a tinha, e a tinha modificada por corticoide imita outras dermatoses. A confirmação micológica antes de iniciar tratamento é considerada boa prática pelas revisões de especialistas, especialmente quando o tratamento será oral ou prolongado.

Raspe escamas da borda ativa com lâmina ou bisturi; em lesões pustulosas, colha o teto das pústulas; em áreas pilosas, arranque pelos acometidos. Quando possível, colha antes de iniciar antifúngico, porque o tratamento prévio reduz a positividade.

Exame direto confirma o dermatófito; a cultura nomeia a espécie — e a espécie aponta o animal.

Principais exames

Cada exame responde a uma pergunta diferente. O exame direto é rápido e barato, mas não identifica a espécie; a cultura identifica, mas demora; os métodos moleculares são rápidos e necessários para espécies como T. indotineae, que a morfologia não separa do complexo T. mentagrophytes.

ExameO que mostraLimitações
Exame micológico direto (KOH)Hifas hialinas septadas e artroconídios nas escamas.Não identifica a espécie; negativo não exclui, sobretudo após tratamento ou em lesão folicular.
Cultura (ágar Sabouraud com cicloheximida)Espécie do dermatófito: orienta a busca da fonte animal.Resultado em 2–4 semanas ou mais; menor rendimento após antifúngico.
Lâmpada de WoodFluorescência verde-amarelada em pelos parasitados por M. canis.Útil no couro cabeludo; pele glabra não fluoresce; Trichophyton zoofílicos em geral não fluorescem.
DermatoscopiaEscamas na borda; nos pelos, achados sugestivos de tinea capitis.Apoio; não substitui a micologia.
Biópsia (PAS ou Grocott)Hifas no folículo e na derme: Majocchi, quérion, formas atípicas.Invasiva; indicada quando o exame direto é negativo e a suspeita persiste.
PCR / sequenciamento / MALDI-TOFIdentificação rápida e precisa, inclusive de T. indotineae.Disponível em laboratórios de referência.
Teste de sensibilidadeResistência à terbinafina (mutações da esqualeno epoxidase).Centros de referência; indicado na falha terapêutica.
Achado característico

Hifas septadas no KOH

Filamentos hialinos ramificados entre as escamas.

Achado característico

Fluorescência verde

Pelos com M. canis sob lâmpada de Wood.

Diagnósticos diferenciais

Nem toda lesão anular é tinha, e nem toda tinha é anular. A inflamação intensa da origem animal faz a lesão lembrar infecção bacteriana ou eczema, e a localização muda o diferencial: na face, dermatoses fotossensíveis; na virilha, candidíase e eritrasma.

DiferencialPor que confundeO que ajuda a separar
Eczema numular / dermatite de contatoPlacas eritematosas, pruriginosas, descamativas.Sem borda ativa nítida; KOH negativo.
PsoríasePlacas descamativas bem delimitadas.Escama prateada, sem clareamento central; locais típicos; KOH negativo.
Pitiríase róseaPlacas ovais com colarete descamativo.Medalhão inicial, distribuição em “árvore de Natal”, colarete voltado para dentro.
Granuloma anularLesão anular de borda elevada.Borda papulosa sem escama; KOH negativo.
Impetigo / foliculite bacteriana / abscessoPústulas, crostas e lesões dolorosas — como no quérion.Bacterioscopia e cultura bacteriana; quérion não deve ser drenado.
EsporotricoseLesão após contato com gato, frequente no Brasil.Nódulos que ulceram e seguem o trajeto linfático; cultura para Sporothrix.
Candidíase intertriginosaPlacas na virilha e nas dobras.Lesões satélites, acometimento da bolsa escrotal; pseudo-hifas e leveduras no exame.
EritrasmaPlaca acastanhada na virilha.Fluorescência vermelho-coral à lâmpada de Wood.
Lúpus cutâneo / dermatite seborreica / rosáceaDiferenciais da tinea faciei.Fotodistribuição, história e KOH; biópsia se necessário.

Lesão anular que não melhora: refaça o exame direto antes de trocar o tratamento às cegas.

Antropofílico resistente: o alerta do T. indotineae

Trichophyton indotineae não é zoofílico: é um dermatófito antropofílico do complexo T. mentagrophytes, epidêmico no sul da Ásia e hoje descrito em vários países, inclusive em paciente brasileiro. Entra no diferencial porque produz placas extensas e inflamadas no tronco, na virilha, nas nádegas e na face — que lembram uma tinha zoofílica —, mas sem contato com animal.

Muitos isolados carregam mutações na esqualeno epoxidase e são resistentes à terbinafina. Como a morfologia não o distingue de T. mentagrophytes, a identificação exige métodos moleculares. O uso de cremes que associam corticoide e antifúngico é apontado como fator para sua disseminação.

Tinha zoofílica

  • Contato com animal; outros casos ligados ao mesmo bicho.
  • Inflamação aguda; responde ao tratamento habitual.
  • Terbinafina e itraconazol eficazes.

T. indotineae

  • Sem animal; viagem ou contato com caso do sul da Ásia; familiares acometidos.
  • Placas extensas, recorrentes, pruriginosas.
  • Falha da terbinafina; itraconazol é a opção.

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O essencial de tratamento

  1. Lesão localizada e superficial: tópico 1–2x/dia por 2–4 semanas, além da borda.
  2. Extensa, múltipla, folicular, imunossuprimido ou falha do tópico: antifúngico oral.
  3. Terbinafina e itraconazol são a 1ª linha oral; griseofulvina e fluconazol, alternativas.
  4. Suspender corticoide tópico; tratar o animal e o ambiente para evitar recidiva.

Como escolher a rota

A primeira pergunta é se o tratamento tópico alcança a infecção. Ele funciona em lesões superficiais e em número limitado; não alcança o folículo nem dá conta de lesões disseminadas. Por isso, extensão, profundidade (folicular ou não), estado imune e resposta prévia definem a via.

A segunda é o paciente: criança, gestante e lactante mudam a escolha do fármaco. A terceira é a resposta: falha após tratamento adequado não se resolve aumentando o tempo do mesmo remédio — pede cultura e, conforme o contexto, investigação de T. indotineae. As doses detalhadas estão nas fichas, no botão “Ver detalhes”.

Superficial e localizada → tópico. Extensa, folicular ou refratária → oral. Em todos os casos, sem corticoide e com o animal tratado.

Rotas de tratamento

Cada rota é um cenário clínico. Abra só a rota em que o seu paciente está: a tabela mostra dose, frequência e duração de cada esquema, e o nome de cada medicamento abre a ficha completa. Opções do mesmo grupo são alternativas — escolha uma.

Saúde única: animal, ambiente e contactantes

Tratar só o paciente é a causa mais comum de recidiva na tinha zoofílica. O animal-fonte deve ser avaliado e tratado pelo veterinário — em gatos e cães, o consenso veterinário combina antifúngico sistêmico com banhos ou loções tópicas e só suspende após culturas negativas. Enquanto isso, o ambiente precisa de limpeza repetida, e quem divide a casa deve ser examinado.

Animal

  • Encaminhar ao veterinário, mesmo sem lesões visíveis.
  • Cultura de pelos (técnica da escova) identifica portadores.
  • Tratar todos os animais em contato até cura micológica.
  • Reduzir contato próximo (colo, cama) durante o tratamento.

Ambiente

  • Aspirar e remover pelos com frequência; descartar o resíduo.
  • Lavar roupas de cama, mantas e capas em ciclo comum.
  • Limpar e desinfetar superfícies, gaiolas, escovas e caixas de transporte.
  • Não compartilhar toalhas, pentes e bonés.

Contactantes

  • Examinar pele e couro cabeludo de toda a família.
  • Tratar quem tiver lesão.
  • Em tinea capitis, xampu antifúngico para os contactantes.
  • Criança em tratamento pode frequentar a escola.

Monitoramento e segurança dos orais

Os antifúngicos orais são seguros em cursos curtos, mas não são inócuos. A hepatotoxicidade é rara e grave com terbinafina e itraconazol; as interações do itraconazol e do fluconazol são numerosas; e a griseofulvina tem restrições na gestação e na contracepção. Revisar fígado, medicamentos em uso e gestação antes de prescrever faz parte do tratamento.

FármacoO que vigiar
TerbinafinaTransaminases antes de iniciar; suspender se icterícia, colúria, anorexia ou fadiga. Alteração do paladar e do olfato. Reações cutâneas graves. Inibe o CYP2D6.
ItraconazolInibidor potente do CYP3A4 (estatinas, alguns antiarrítmicos e benzodiazepínicos). Evitar na insuficiência cardíaca. Transaminases em cursos longos. Absorção da cápsula cai com IBP e antiácidos.
GriseofulvinaIndutor enzimático: reduz contraceptivos hormonais e varfarina. Fotossensibilidade, efeito tipo dissulfiram com álcool. Contraindicada na gestação, porfiria e insuficiência hepática.
FluconazolProlongamento do QT; inibe CYP2C9, 2C19 e 3A4 (varfarina, fenitoína, sulfonilureias).

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O essencial de cenários especiais

  1. Crianças: tópico se localizada; oral por peso se extensa, folicular ou no couro cabeludo.
  2. Gestação: tópicos; griseofulvina contraindicada, azóis orais evitados.
  3. Imunossuprimidos: formas extensas e profundas; limiar baixo para o oral.
  4. Profissionais com animais: reinfecção frequente; proteção e triagem dos animais.

O que muda em cada cenário

A base do tratamento é a mesma, mas alguns pacientes mudam a escolha do fármaco, a via ou o limiar para tratar por via oral. A tabela resume o que fazer de diferente em cada situação.

CenárioParticularidadeO que fazer diferente
CriançaMaior contato com filhotes e cobaias; couro cabeludo acometido com frequência.Tópico na lesão localizada; oral por peso se extensa ou folicular — por faixa de peso ou . Couro cabeludo: ver Microsporia.
GestanteRestrição aos orais. por tempo prolongado; contraindicada; adiar oral sempre que possível.
LactanteTerbinafina passa para o leite.Preferir tópicos fora da mama; oral só se indispensável, com avaliação individual.
Imunossuprimido / transplantadoFormas extensas, Majocchi, disseminação local.Oral precoce; preferir pelo menor risco de interação com imunossupressores; biópsia se atípico.
Diabetes, idoso, polifarmáciaInterações e onicomicose associada.Revisar interações do e do ; examinar pés e unhas.
Veterinários, tratadores, ruraisExposição repetida.Luvas e higiene ao manipular animais com lesão; triagem micológica dos animais; tratar cedo.
Viajante do sul da Ásia ou contato de casoRisco de T. indotineae.Cultura e identificação molecular antes de tratar; em vez de terbinafina empírica.

Tinha incógnita em destaque

O corticoide tópico reduz a inflamação e alivia o prurido, mas também reduz a defesa local: o fungo cresce, a borda típica desaparece, a descamação diminui e a lesão se espalha ou atinge o folículo. O resultado é uma dermatose de aspecto eczematoso, rosáceo ou lúpico que engana o próximo examinador.

A conduta é suspender o corticoide, colher exame micológico — que costuma ser positivo — e tratar conforme extensão e profundidade, frequentemente por via oral com ou .

Pergunte ativamente por cremes de farmácia: associações de corticoide com antifúngico e antibiótico são muito usadas sem receita.

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O essencial de seguimento e prevenção

  1. Reavaliar em 2–4 semanas: resposta clínica, adesão e tolerância.
  2. Tratar até a cura clínica — idealmente micológica nas formas extensas e refratárias.
  3. Recidiva: procurar o animal ou o ambiente antes de suspeitar de resistência.
  4. Sem vacina humana; prevenção é controle da fonte animal e higiene.

Como acompanhar

A melhora do prurido e da inflamação costuma aparecer na primeira semana, e a descamação e a pigmentação residual demoram mais. Nas formas extensas, foliculares ou refratárias, as revisões de especialistas recomendam tratar até a cura e, quando possível, documentar exame micológico negativo antes de suspender.

  • Retorno em 2–4 semanas para avaliar resposta e adesão.
  • Oral: transaminases conforme o fármaco e sintomas; revisar interações a cada nova prescrição.
  • Lesão persistente: repetir exame direto e colher cultura antes de trocar o tratamento.
  • Confirmar com a família se o animal foi avaliado e está em tratamento.
  • Hiperpigmentação pós-inflamatória não indica falha.

Prevenção

Não há vacina humana. A prevenção atua na fonte: animais com lesões de pele devem ir ao veterinário antes de contato próximo com crianças, e novos animais — sobretudo filhotes de abrigo, cobaias e coelhos — merecem avaliação ao chegar. Em alguns países há vacina para bovinos contra T. verrucosum, usada no controle da tinha do gado.

  • Animais: avaliar lesões de pele (alopecia, crostas) e tratar antes do convívio próximo.
  • Higiene: lavar as mãos após manipular animais, gaiolas e camas.
  • Ocupacional: luvas e roupas de proteção ao lidar com animais com lesão.
  • Solo: luvas na jardinagem e lavar a pele após contato com terra.
  • Uso racional: evitar cremes com corticoide em lesões anulares sem diagnóstico.

Resumo do fluxo prático

Suspeite diante de placas anulares inflamadas, múltiplas, em áreas de contato, em quem convive com animais ou mexe com solo. Confirme com exame micológico direto e, nas formas extensas, foliculares ou refratárias, com cultura. Suspenda qualquer corticoide.

Trate com tópico a lesão localizada e com ou oral as formas extensas e foliculares, ajustando para criança, gestante e lactante. Encaminhe o animal ao veterinário, oriente a limpeza do ambiente e examine os contactantes. Na falha, investigue fonte não tratada e T. indotineae.

Armadilhas

A maior parte dos erros na dermatofitose zoonótica vem de tratar a lesão sem pensar na fonte, ou de confiar no aspecto clínico sem exame. A tabela reúne os mais frequentes.

ErroPor que é um problemaComo evitar
Usar creme com corticoideMascara a tinha e favorece formas extensas, foliculares e resistentes.Antifúngico isolado; confirmar antes de tratar.
Tratar Majocchi ou quérion com cremeO tópico não alcança o folículo.Antifúngico oral por 4–6 semanas.
Esquecer o animalO animal e o ambiente reinfectam a família.Veterinário, limpeza ambiental, exame dos contactantes.
“O gato não tem nada”Portadores assintomáticos transmitem.Cultura de pelos pelo veterinário.
Drenar quérion como abscessoÉ inflamação fúngica; drenar não cura e piora a cicatriz.Antifúngico oral; antibiótico só com infecção secundária.
Insistir em terbinafina na falhaPode ser T. indotineae resistente.Cultura, identificação molecular, itraconazol.
Griseofulvina sem orientar contracepçãoTeratogênica e reduz eficácia de contraceptivos.Excluir gestação e orientar método adicional.

Referências principais

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Aviso importante

Material educacional de apoio à decisão clínica. Não substitui avaliação individualizada, protocolos institucionais, serviço de referência, infectologia, pediatria/obstetrícia nem consulta às bulas. Confirme o dermatófito antes de cursos orais prolongados, revise fígado, gestação e interações (itraconazol, fluconazol, griseofulvina) antes de prescrever e lembre que, sem tratamento do animal e do ambiente, a recidiva é a regra.

Conteúdo para educação médica. Condutas devem ser individualizadas e conferidas com protocolos oficiais, contexto epidemiológico e disponibilidade local.
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