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Histoplasmose

Histoplasma capsulatum — fungo termodimórfico intramacrofágico

Micose sistêmica adquirida pela inalação de microconídios de Histoplasma presentes em solo e material orgânico contaminados. A maioria das infecções é assintomática ou autolimitada, mas imunossupressão, grande inóculo e doença pulmonar estrutural aumentam o risco de formas graves, crônicas ou disseminadas.

Porta de entrada pulmonarFungo dimórficoIntramacrofágicoRisco na imunossupressão
15–18 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Micose sistêmica por Histoplasma, fungo termodimórfico: mofo no ambiente, levedura no corpo.
  2. Adquirida pela inalação de microconídios — é micose ambiental, não zoonose estrita.
  3. A imunidade celular decide entre infecção contida, doença pulmonar ou disseminação.
  4. Incubação de 3–17 dias após exposição reconhecida; a maioria é assintomática.

O que é histoplasmose

Histoplasmose é a micose sistêmica causada por fungos termodimórficos do gênero Histoplasma, classicamente H. capsulatum. A infecção é adquirida no ambiente, pela inalação de microconídios aerossolizados de solo e material orgânico contaminados — por isso é melhor entendida como micose ambiental do que como zoonose estrita. O que decide entre infecção contida, doença pulmonar ou disseminação é a imunidade celular do hospedeiro.

Animais adoecem e dejetos de aves e morcegos enriquecem o solo, mas não há transmissão animal → humano nem pessoa a pessoa.

Pneumonia sem resposta ao antibiótico após cavernas, galinheiros, demolições ou solo revolvido: inclua histoplasmose no diferencial.

O agente

Histoplasma é termodimórfico: muda de forma conforme a temperatura. No solo cresce como fungo filamentoso, que produz os microconídios infectantes; à temperatura corporal converte-se em pequenas leveduras que vivem dentro de macrófagos — e é isso que se vê na histologia e nos esfregaços.

Essa dualidade tem consequência prática no laboratório. Culturas e isolados exigem biossegurança adequada, porque a fase micelial volta a produzir conídios aerossolizáveis e infectantes.

Agente etiológico

Histoplasma capsulatum

Fungo termodimórfico: filamentoso no ambiente, leveduriforme à temperatura corporal.

  • No tecido: pequenas leveduras dentro de macrófagos e outras células do sistema mononuclear fagocitário.
  • Taxonomia refinada por genômica, mas a clínica e as diretrizes seguem usando H. capsulatum.
Histologia da histoplasmose — toque para ampliar.
Ambiente

Forma filamentosa

Cresce no solo e produz os microconídios infectantes.

Hospedeiro

Forma leveduriforme

Pequenas leveduras intracelulares — o que se vê na histologia e nos esfregaços.

Fisiopatologia: do alvéolo à disseminação

Tudo começa no alvéolo. Microconídios ou fragmentos miceliais inalados com a poeira transformam-se em leveduras à temperatura corporal e são fagocitados pelos macrófagos alveolares, dentro dos quais sobrevivem e se multiplicam. Antes que a imunidade assuma o controle, as vias linfática e hematogênica já levam o fungo a fígado, baço, medula, adrenais e SNC.

O desfecho depende do equilíbrio entre o inóculo e a imunidade celular. Essa dependência explica por que a forma disseminada se associa a HIV avançado, transplante, corticoide e bloqueadores de TNF.

Fisiopatologia

Inóculo × imunidade celular

A conversão em levedura, a interação com macrófagos e a resposta imune celular definem se o quadro será assintomático, pulmonar localizado ou disseminado.

Fisiopatologia da histoplasmose — toque para ampliar.

Controle celular

Th1, IFN-γ e TNF ativam macrófagos e formam granulomas → contenção e possível latência.

Doença progressiva

Grande inóculo ou imunidade celular deficiente → alta carga fúngica, disseminação e falência orgânica.

Incubação e evolução

O pulmão é a porta de entrada e o sítio inicial, mas a maioria das infecções é assintomática ou autolimitada. A evolução depende da intensidade do inóculo, da imunidade celular e de doença pulmonar prévia. A reativação pode ocorrer anos depois, sobretudo com imunossupressão.

3–17 diasJanela típica após exposição reconhecida
CD4 <150Risco importante de doença sintomática no HIV

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O essencial de transmissão e risco

  1. Via respiratória: poeira de solo ou material orgânico contaminado revolvido.
  2. Fezes de aves e morcegos enriquecem o solo, mas os animais não transmitem a doença.
  3. Sem transmissão pessoa a pessoa.
  4. Doença grave: HIV avançado, imunossupressores, grande inóculo, pulmão estrutural.

Como ocorre a exposição

A fonte da histoplasmose é o solo, não o animal. Fezes de aves e morcegos enriquecem o substrato onde o fungo cresce, e o risco surge quando esse material é revolvido e produz poeira com microconídios — por isso a anamnese deve buscar atividades, e não contato com bichos.

Cães, gatos e outros mamíferos também adoecem, mas não são fonte habitual de transmissão para humanos.

Ciclo ambiental

Solo contaminado → poeira → inalação

O risco aumenta quando solo ou material orgânico contaminado é revolvido e produz poeira com microconídios.

  • Cavernas e grutas: colônias de morcegos podem concentrar material contaminado.
  • Galinheiros e pombais: fezes de aves favorecem o substrato; as aves não transmitem diretamente.
  • Obras e escavações: demolição, terraplanagem, limpeza e movimentação de solo geram aerossóis.

Quem tem maior risco de doença grave

Exposição é comum; doença grave, não. O que separa um quadro autolimitado de uma forma grave é a combinação entre o tamanho do inóculo, a imunidade celular e o estado prévio do pulmão. Uma exposição intensa pode causar doença sintomática mesmo em imunocompetentes.

  • HIV avançado: o risco cresce com a queda do CD4, especialmente <150 células/mm³.
  • Imunossupressores: corticoterapia prolongada, anti-TNF, transplante e outras terapias celulares.
  • Grande inóculo: exposição intensa, mesmo em imunocompetentes.
  • Doença pulmonar estrutural: enfisema e outras alterações favorecem a forma crônica cavitária.

Contexto brasileiro

Há surtos e microepidemias no Brasil associados a cavernas, galinheiros, pombais e outros ambientes contaminados. Micoses sistêmicas não estão na lista nacional de notificação compulsória, de modo que a magnitude real é provavelmente subestimada; estados ou municípios podem ter regras locais.

Vários sintomáticos após a mesma atividade ambiental: considere investigação epidemiológica e contato com a vigilância local.

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O essencial de quadro clínico

  1. Espectro: infecção subclínica → pneumonia → doença disseminada com choque.
  2. Três formas-chave: pulmonar aguda, pulmonar crônica cavitária e disseminada progressiva.
  3. Febre prolongada + citopenias + hepatoesplenomegalia no imunossuprimido = pense em disseminação.
  4. Hipoxemia, choque, SNC ou imunossupressão importante = gravidade.

As três formas principais

A histoplasmose é um espectro que vai da infecção subclínica à doença disseminada com choque. A forma que o paciente desenvolve reflete a carga inalada, a resposta imune e a presença de doença pulmonar prévia: o pulmão com enfisema tende à forma crônica cavitária, e a imunidade celular deficiente abre caminho para a disseminação progressiva.

Pulmonar aguda

  • Febre, tosse, mal-estar, cefaleia, mialgia.
  • Dor torácica e dispneia.
  • Pode haver adenopatia hilar/mediastinal.

Pulmonar crônica cavitária

  • Tosse produtiva, dispneia, febre, sudorese, perda de peso.
  • Cavitações, frequentemente com enfisema.

Disseminada progressiva

  • Febre prolongada e emagrecimento.
  • Hepatoesplenomegalia e citopenias.
  • Acometimento GI, cutâneo, adrenal ou neurológico.

Achados característicos

Não há sinal patognomônico. Os achados abaixo, porém, quando aparecem junto de uma exposição compatível, devem fazer pensar em histoplasmose — e a cavitação com enfisema, em particular, obriga a separar de tuberculose.

Achado característico

Adenopatia hilar/mediastinal

Com infiltrado pulmonar na forma aguda; pode causar dor e compressão.

Achado característico

Cavitação com enfisema

Forma crônica cavitária — principal diferencial é tuberculose.

Achado característico

Lesões mucocutâneas

Pele e mucosas na forma disseminada; biópsia mostra as leveduras.

Achado de imagem

Histoplasmoma

Nódulo pulmonar incidental, frequentemente calcificado após infecção antiga.

Síndromes e complicações

Além das três formas principais, a infecção pode se expressar por síndromes localizadas ou inflamatórias. Algumas são benignas e achadas por acaso, como o histoplasmoma; outras são raras, mas potencialmente graves, e exigem reconhecimento rápido.

  • Histoplasmoma: nódulo pulmonar, muitas vezes incidental e calcificado.
  • Adenite / granuloma mediastinal: dor e sintomas compressivos por aumento linfonodal.
  • Mediastinite fibrosante: rara e potencialmente grave, com fibrose exuberante no mediastino.
  • Pericardite e quadros reumatológicos: resposta inflamatória associada à infecção pulmonar.
  • SNC: meningite subaguda/crônica, lesões focais, vasculite ou encefalite.
  • Síndrome hemofagocítica: sobretudo na disseminada e na imunossupressão.

Sinais de gravidade

Reconhecer gravidade cedo muda a conduta: é ela que separa o paciente que pode receber itraconazol oral daquele que precisa de internação e anfotericina. Procure ativamente estes sinais em todo caso suspeito.

  • Hipoxemia, insuficiência respiratória ou infiltrado pulmonar difuso.
  • Hipotensão, choque, coagulopatia ou disfunção de múltiplos órgãos.
  • Suspeita de disseminação: citopenias, hepatoesplenomegalia, lesões mucocutâneas, disfunção adrenal.
  • Alteração do estado mental, meningismo, déficit focal ou convulsões (SNC).
  • Imunossupressão importante: HIV avançado, transplante, bloqueador de TNF.

Disseminada progressiva e SNC exigem avaliação especializada e tratamento sistêmico imediato.

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O essencial de diagnóstico

  1. Síndrome clínica + exposição + teste adequado à forma clínica.
  2. Disseminada/HIV: priorize antígeno em urina e soro.
  3. Cultura e histopatologia confirmam; cultura pode levar semanas.
  4. Sorologia demora 2–6 semanas e rende menos na imunossupressão.

Estratégia diagnóstica

O diagnóstico começa pela clínica. Defina a síndrome — pulmonar aguda, crônica cavitária, disseminada, SNC ou complicação mediastinal — e estime o risco do hospedeiro, porque a imunossupressão aumenta a chance de disseminação e reduz a sensibilidade da sorologia.

Com isso definido, priorize o antígeno: urina e soro na disseminada e no HIV, BAL na doença pulmonar. Em paralelo, colha amostras do sítio acometido (escarro/BAL, sangue, medula, pele, linfonodo, tecido ou líquor) para cultura e histopatologia, que confirmam e diferenciam de outras micoses.

Escolha o teste pela forma clínica: antígeno onde a carga fúngica é alta, sorologia no imunocompetente com forma pulmonar.

Como bater o martelo

O diagnóstico raramente depende de um único exame. Cultura e histopatologia dão certeza, mas demoram ou exigem tecido; antígeno e sorologia são mais rápidos, porém sujeitos a reação cruzada e a janelas. Daí a distinção prática entre caso confirmado e provável.

Confirmado

  • Cultura positiva para Histoplasma (sangue, medula, secreção respiratória, tecido, líquor).
  • Histopatologia/citologia com leveduras pequenas intracelulares, correlacionada com cultura ou antígeno.

Provável

  • Antígeno positivo em urina/soro/BAL/líquor em síndrome e exposição compatíveis.
  • Sorologia positiva em forma pulmonar de imunocompetente com quadro compatível.
  • Lembrar reação cruzada do antígeno com outras micoses.

Nenhum teste tem o mesmo desempenho em todas as formas. Combine métodos e amostras: um negativo isolado não exclui com probabilidade clínica alta.

Principais testes

Cada teste tem seu cenário de melhor rendimento. O antígeno funciona melhor onde há muita carga fúngica, a sorologia depende de o hospedeiro produzir anticorpos, e cultura e histologia exigem amostra do sítio certo. Os métodos moleculares entram como complemento onde estão disponíveis.

TesteOnde ajuda maisLimitações / interpretação
Antígeno de HistoplasmaUrina e soro na disseminada; BAL na pulmonar.Reação cruzada com outras micoses; níveis ajudam no seguimento da disseminada.
SorologiaFormas pulmonares em imunocompetentes.Surge em 2–6 semanas e pode persistir após a infecção; rende menos na imunossupressão.
CulturaSangue, medula, secreção respiratória e tecido nas formas graves.Confirmatória, mas pode levar várias semanas.
Histopatologia / citologiaPele, mucosas, linfonodos, medula e outros tecidos.Leveduras pequenas intracelulares sugerem; correlacionar com cultura/antígeno.
PCR / molecularesComplementar em centros com o teste.Disponibilidade e padronização variam; não substitui os métodos convencionais.
Achado característico

Leveduras intracelulares

Pequenas leveduras dentro de fagócitos em esfregaço, medula ou biópsia.

Investigação de disseminação e SNC

Diante de suspeita de disseminação, a avaliação inicial inclui hemograma com plaquetas, função renal e hepática, eletrólitos e LDH, além de imagem torácica e investigação dirigida dos órgãos acometidos.

No SNC, o líquor costuma mostrar pleocitose linfocitária, proteína elevada e glicose baixa. Como a cultura do líquor é pouco sensível, a pesquisa de antígeno e anticorpos no líquor aumenta o rendimento.

Diagnósticos diferenciais

O diferencial muda com a forma clínica. Na crônica cavitária, tuberculose é o primeiro diagnóstico a excluir; no HIV avançado com infiltrado difuso, pneumocistose; na disseminada com febre, citopenias e hepatoesplenomegalia, leishmaniose visceral e outras micoses endêmicas.

DiferencialPor que confundeO que ajuda a separar
TuberculosePrincipal diferencial da forma crônica cavitária: febre, sudorese, perda de peso, cavitação.Baciloscopia, teste molecular e cultura para micobactéria; cultura/antígeno para Histoplasma.
Pneumonias bacterianas/viraisFebre, tosse e infiltrado na forma aguda.Exposição ambiental, falta de resposta ao antibiótico e adenopatia hilar sugerem histoplasmose.
PneumocistoseInfiltrado difuso e hipoxemia no HIV avançado.Pesquisa de Pneumocystis em escarro induzido/BAL; antígeno de Histoplasma.
CriptococoseMicose oportunista com doença pulmonar, disseminada ou meníngea.Antígeno criptocócico em soro/líquor; cultura e tinta da China.
ParacoccidioidomicoseMicose endêmica com doença pulmonar e mucocutânea no Brasil.Leveduras com brotamento múltiplo na histologia; atenção à reação cruzada do antígeno.
Coccidioidomicose / blastomicoseDoença pulmonar e disseminada semelhantes.Epidemiologia geográfica, morfologia na histologia e cultura.
SarcoidoseAdenopatia hilar, granulomas, quadro sistêmico.Culturas e pesquisas fúngicas negativas; excluir infecção antes de imunossuprimir.
Neoplasias pulmonares / linfomaNódulo, massa mediastinal, febre, perda de peso.Biópsia com histologia e cultura.
Leishmaniose visceralFebre prolongada, hepatoesplenomegalia e citopenias na forma disseminada.Amastigotas no aspirado de medula; sorologia/teste rápido para leishmaniose.

Na forma disseminada do imunossuprimido, considerar também outras infecções oportunistas — a coexistência é possível.

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O essencial de tratamento

  1. Pulmonar aguda leve em imunocompetente: não tratar rotineiramente (IDSA 2025).
  2. Itraconazol é a terapia oral e de consolidação; ataque de 3 dias, depois 12/12 h.
  3. Anfotericina B lipossomal na pulmonar grave, disseminada moderada/grave e SNC.
  4. Disseminada, crônica cavitária e SNC: tratamento ≥12 meses, com nível sérico do itraconazol.

Como escolher a rota

A escolha passa por três decisões. A primeira é se há indicação de tratar: na pulmonar aguda leve do imunocompetente, a conduta é observar, sem antifúngico rotineiro. A segunda é classificar a forma — pulmonar, crônica cavitária, disseminada ou SNC — e a gravidade, o que aponta a rota abaixo.

A terceira é a estrutura do esquema. Anfotericina B lipossomal faz a indução nas formas graves, e itraconazol é a terapia oral e de consolidação, por semanas a 12 meses ou mais. As doses por peso estão na ficha de cada medicamento, aberta pelo botão “Ver detalhes” de cada linha das tabelas.

A gravidade decide entre anfotericina e itraconazol; a forma clínica decide a duração.

Rotas de tratamento

Cada rota é um cenário clínico. Abra só a rota em que o seu paciente está: a tabela mostra dose, frequência e duração de cada esquema, e o nome de cada medicamento abre a ficha completa. Opções do mesmo grupo são alternativas — escolha uma.

Monitoramento durante o tratamento

Os dois pilares do tratamento pedem vigilâncias diferentes. O itraconazol tem absorção variável e muitas interações, então dosar o nível sérico e revisar a prescrição fazem parte do tratamento, não são opcionais. A anfotericina, por sua vez, exige acompanhar função renal e eletrólitos durante toda a indução.

O queComo monitorar
Nível sérico do itraconazolApós estado de equilíbrio; meta depende do método e da formulação. Essencial em doença grave, tratamento longo, imunossupressão, má absorção ou interações.
FígadoTransaminases e sinais de hepatotoxicidade durante o itraconazol.
InteraçõesItraconazol é forte inibidor do CYP3A4; rifampicina reduz muito sua exposição.
CoraçãoItraconazol pode causar ou agravar disfunção ventricular — avaliar risco antes de manter.
Anfotericina B lipossomalFunção renal, potássio e magnésio durante a indução.

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O essencial de cenários especiais

  1. HIV com CD4 baixo: pense em disseminada e peça antígeno em urina/soro.
  2. Gestação: anfotericina B lipossomal; evitar azóis no 1º trimestre.
  3. Crianças: itraconazol 5 mg/kg/dose quando houver indicação.
  4. Imunossupressão não-HIV: limiar mais baixo para tratar e vigiar.

O que muda em cada cenário

Alguns pacientes mudam o raciocínio padrão. Na imunossupressão, a doença tende a ser disseminada e o limiar para tratar e internar cai; na gestação, a restrição aos azóis no 1º trimestre faz da anfotericina a base; na criança, a dose passa a ser calculada por peso. A tabela reúne o que fazer de diferente em cada caso.

CenárioParticularidadeO que fazer diferente
HIV avançadoDisseminada com febre, perda de peso, citopenias, hepatoesplenomegalia, sintomas GI ou pulmonares.Antígeno urina/soro. Grave: 3 mg/kg/dia ≥2 sem → ≥12 meses; leve/moderada: itraconazol direto. TARV precoce se sem SNC.
GestaçãoAzóis evitados no 1º trimestre. quando há indicação de terapia sistêmica; conduzir com infectologia e medicina fetal.
CriançasDecisão segue gravidade e risco de progressão. 5 mg/kg/dose (máx. 200 mg) 3x/dia por 3 dias → 2x/dia (máx. 400 mg/dia), 6–12 semanas; individualizar com pediatria.
Transplante, anti-TNF, corticoideMaior risco de progressão e disseminação.Baixar o limiar para tratar e internar; em histoplasmoma, discutir terapia ou vigilância estreita.
Doença pulmonar estrutural (enfisema)Favorece forma crônica cavitária. ≥12 meses (18–24), imagem seriada e exclusão de tuberculose/neoplasia.
Exposição coletivaVários sintomáticos após a mesma atividade ambiental.Investigação epidemiológica e contato com a vigilância local.
LaboratórioFase micelial gera conídios aerossolizáveis.Manipular isolados com biossegurança e cabine apropriada.

HIV em destaque

No HIV avançado, a histoplasmose costuma se apresentar já disseminada: febre, emagrecimento e citopenias em quem tem CD4 baixo devem levar ao pedido de antígeno em urina e soro.

Nas formas graves, induz-se com e mantém-se por pelo menos 12 meses; nas leves/moderadas, o itraconazol entra direto. A TARV deve começar o mais cedo possível quando não há acometimento do SNC.

Suspender profilaxia ou terapia supressiva só após critérios imunológicos e virológicos específicos.

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O essencial de seguimento e prevenção

  1. Reavalie clínica, tolerância, adesão, fígado/rim e imagem conforme a forma.
  2. Na disseminada, antígeno seriado ajuda a documentar resposta e recaída.
  3. SNC: ≥12 meses e até normalizar o líquor.
  4. Sem vacina e sem PEP ambiental: prevenção é reduzir poeira e usar respirador.

Como acompanhar

O seguimento combina clínica e laboratório. Na disseminada, o antígeno seriado é o melhor marcador objetivo: a queda dos níveis documenta resposta, e a subida sugere recaída. Na forma crônica cavitária, a regressão radiológica é lenta, o que exige paciência na leitura das imagens de controle.

  • Melhora de febre, sintomas respiratórios e manifestações extrapulmonares.
  • Interações e nível sérico sempre que houver .
  • Forma crônica cavitária: imagem pulmonar durante o tratamento prolongado.
  • SNC: terapia por pelo menos 12 meses e até resolução das alterações liquóricas.
  • HIV: critérios imunológicos/virológicos antes de suspender profilaxia ou terapia supressiva.

Prevenção ambiental e ocupacional

Não há vacina contra histoplasmose e não se recomenda profilaxia pós-exposição ambiental rotineira. A prevenção, portanto, é física: reduzir a quantidade de poeira contaminada que chega às vias aéreas, com mais rigor para imunossuprimidos e para quem manipula isolados no laboratório.

  • Controle de poeira: umedecer e planejar atividades que revolvem muito material contaminado.
  • Proteção respiratória: respiradores adequados, como N95/PFF2, em atividades de risco.
  • Imunossuprimidos: evitar cavernas, limpeza de galinheiros e exposições intensas.
  • Laboratório: biossegurança específica e cabine apropriada para isolados.

Profilaxia em HIV

A profilaxia primária com não é indicada para toda pessoa com CD4 baixo. Ela se reserva a quem soma imunossupressão importante a um risco de exposição particularmente alto, e é suspensa quando a TARV restaura a imunidade de forma sustentada.

Quando indicar

  • 200 mg/dia.
  • CD4 <150 células/mm³ e risco particularmente alto: exposição ocupacional ou comunidade hiperendêmica.

Quando suspender

  • Após recuperação imune sustentada em TARV, conforme critérios.
  • Reconsiderar se o CD4 voltar a <150.

Resumo do fluxo prático

Tudo começa pela suspeita: síndrome clínica compatível com exposição ambiental plausível. Classifique a forma (pulmonar, disseminada, SNC) e a gravidade, priorize o antígeno em urina e soro no imunossuprimido e na disseminada, e confirme com cultura, histopatologia, sorologia e amostras do sítio conforme o fenótipo.

Depois, decida se trata — a pulmonar aguda leve do imunocompetente não exige antifúngico rotineiro. Use quando a terapia for oral e na forma grave ou disseminada, vigie níveis e interações do primeiro e a toxicidade da segunda, e mantenha seguimento prolongado na disseminada, na crônica cavitária e no SNC.

Armadilhas

Os erros mais comuns na histoplasmose vêm de aplicar regras gerais a uma doença que muda muito conforme a forma e o hospedeiro. Quase todos se resumem a confiar em um único dado — o animal, o teste, a sorologia — em vez de juntar exposição, clínica e o exame certo.

ErroPor que é um problemaComo evitar
Achar que aves ou morcegos transmitemA fonte é o solo contaminado, não o animal.Perguntar por atividades que revolvem poeira.
Excluir com um teste negativoCada teste rende de forma diferente conforme a forma clínica.Combinar antígeno, cultura, histologia e sorologia.
Confiar na sorologia no imunossuprimidoBaixa sensibilidade e janela de 2–6 semanas.Priorizar antígeno e amostra do sítio.
Tratar toda forma pulmonar leveA maioria é autolimitada no imunocompetente.Observar e reavaliar (IDSA 2025).
Ignorar interações do itraconazolInibidor forte do CYP3A4; rifampicina derruba os níveis.Revisar prescrição e dosar nível sérico.
Encurtar o tratamento do SNCRisco de recaída.≥12 meses e até resolução do líquor.

Referências principais

  1. 1
    Documento oficial
    Brasil. Ministério da Saúde. Histoplasmose — Saúde de A a Z. Conteúdo oficial sobre clínica, diagnóstico, tratamento, prevenção e situação epidemiológica no Brasil.
  2. 2
    Documento oficial
    Brasil. Ministério da Saúde. PCDT para Manejo da Infecção pelo HIV em Adultos — Módulo 2. Recomendações brasileiras para histoplasmose em pessoas vivendo com HIV.
  3. 3
    Diretriz2025
    Infectious Diseases Society of America (IDSA). 2025 Clinical Practice Guideline Update on Histoplasmosis. Atualização para histoplasmomas e histoplasmose pulmonar aguda leve/moderada.
  4. 4
    Diretriz
    Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Clinical Overview of Histoplasmosis. Diagnóstico, epidemiologia, fatores de risco e tratamento.
  5. 5
    Diretriz2026
    NIH / CDC / HIVMA. Guidelines for the Prevention and Treatment of Opportunistic Infections in Adults and Adolescents With HIV — Histoplasmosis. Revisado em março de 2026.
  6. 6
    Diretriz
    World Health Organization (WHO). Guidelines for diagnosing and managing disseminated histoplasmosis among people living with HIV.
  7. 7
    Diretriz2025
    Wheat LJ, Freifeld AG, Kleiman MB, et al. Clinical Practice Guidelines for the Management of Patients with Histoplasmosis: 2007 Update by the IDSA. Clin Infect Dis. 2007;45:807–825. Recomendações ainda utilizadas para formas não abrangidas pela atualização de 2025.

Aviso importante

Material educacional de apoio à decisão clínica. Não substitui avaliação individualizada, protocolos institucionais, serviço de referência, infectologia, pediatria/obstetrícia nem consulta às bulas. Doses por peso, nível sérico e interações do itraconazol, função renal durante a anfotericina, gestação, pediatria e acometimento do SNC devem ser conferidos antes da prescrição.

Conteúdo para educação médica. Condutas devem ser individualizadas e conferidas com protocolos oficiais, contexto epidemiológico e disponibilidade local.
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