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Cowpox

Orthopoxvirus cowpox (cowpox virus) e, no Brasil, Orthopoxvirus vaccinia (vírus vaccinia) — vírus DNA, família Poxviridae

Infecções cutâneas zoonóticas por orthopoxvírus. Na Europa, o cowpox virus chega ao humano por gatos e roedores; no Brasil, a “varíola bovina” é causada pelo vírus vaccinia e atinge ordenhadores de rebanhos leiteiros. A lesão costuma ser localizada e autolimitada: o tratamento é local e de suporte, com antivirais para orthopoxvírus reservados a formas graves, oculares ou em imunossuprimidos.

OrthopoxvírusOrdenha / gatos / roedoresLesão cutânea localizadaAntiviral só em casos graves
14–17 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Cowpox e vaccínia bovina são orthopoxvírus diferentes que causam quadros cutâneos parecidos.
  2. Europa: cowpox virus, reservatório em roedores silvestres; humano infectado por gatos ou ratos de estimação.
  3. Brasil: a “varíola bovina” é causada pelo vírus vaccinia e é doença ocupacional de ordenhadores.
  4. Em geral localizada e autolimitada; grave em atopia, imunossupressão, olho e gestação.

Cowpox e vaccínia bovina: o que é cada um

Apesar do nome, o cowpox virus raramente vem da vaca: ele circula em roedores silvestres da Europa e da Ásia ocidental, e o humano costuma se infectar por gatos que caçam esses roedores ou por ratos de estimação. Os casos humanos são esporádicos, quase sempre com lesão única na mão ou no rosto.

No Brasil, não há registro de cowpox autóctone em humanos. A doença que o produtor chama de “varíola bovina” é causada pelo vírus vaccinia — o mesmo gênero e parente próximo do vírus usado na vacina contra a varíola — e é chamada de vaccínia bovina. Desde 1999, surtos em rebanhos leiteiros acometem as mãos de ordenhadores, sobretudo no Sudeste.

No Brasil, “varíola bovina” em ordenhador quase sempre significa vírus vaccinia, não cowpox. O manejo clínico é praticamente o mesmo; o que muda é a epidemiologia e a vigilância.

O agente

Os orthopoxvírus são vírus DNA grandes, que se replicam no citoplasma e produzem reatividade cruzada sorológica entre si — por isso a vacina antivariólica protege parcialmente contra todos eles. O que hoje se chama “cowpox virus” é, na verdade, um conjunto heterogêneo de linhagens (polifilético); o vaccinia brasileiro se divide em dois grupos genéticos com virulência diferente em modelos animais.

Agente etiológico

Orthopoxvirus — família Poxviridae

Vírion grande, envelopado, em forma de “tijolo”, com DNA de fita dupla; replicação no citoplasma, com corpúsculos de inclusão visíveis na histologia.

  • Mesmo gênero: varíola (erradicada), mpox, cowpox, vaccinia, borealpox.
  • Vaccinia brasileiro: grupo 1 (menos virulento) e grupo 2 (mais virulento em camundongos).
  • Anticorpos de um orthopoxvírus reagem com os demais (base da proteção vacinal cruzada).

Três vírus, três nomes parecidos

VírusOnde e quemLesão humana típica
Cowpox virus (Orthopoxvirus)Europa e Ásia ocidental; roedores → gatos, ratos de estimação, zoológicos; raramente vacas.Em geral única, dolorosa, com escara negra; cicatrização em 6–8 semanas ou mais.
Vírus vaccinia — vaccínia bovina (Orthopoxvirus)Brasil (e América do Sul); vacas leiteiras, equinos, roedores e animais silvestres → ordenhadores.Frequentemente múltipla em mãos e antebraços; resolução em cerca de 3–4 semanas.
Pseudovaríola — “nódulo dos ordenhadores” (Parapoxvirus)Mundial; vacas leiteiras e bezerros.Nódulo firme, pouco doloroso, sem escara negra; outro gênero (não é orthopoxvírus).

Os três podem coexistir no mesmo rebanho; a confirmação é laboratorial.

Fisiopatologia: da microlesão à escara

O vírus entra por pequenas soluções de continuidade na pele — arranhão de gato, fissura nas mãos do ordenhador — e se replica na epiderme. A sequência de pápula, vesícula e pústula umbilicada reflete a destruição dos queratinócitos; a necrose central forma a escara, e a drenagem linfática explica a linfangite e o linfonodo regional. Na pele com barreira alterada (dermatite atópica) ou sem resposta imune celular eficaz, o vírus se espalha.

Fisiopatologia

Inoculação → replicação epidérmica → escara → linfonodo

Lesão localizada no imunocompetente; disseminação cutânea ou sistêmica quando a barreira ou a imunidade falham.

Incubação e evolução

A lesão evolui devagar, e isso ajuda no diagnóstico: no cowpox, a fase de mácula a vesícula dura 7–12 dias, a escara surge em 2–3 semanas e a cicatrização completa leva 6–8 semanas (às vezes 12 ou mais). Na vaccínia bovina, as descrições brasileiras mostram curso mais curto, de cerca de 3–4 semanas, com afastamento temporário do trabalho.

7–12 diasCowpox: mácula → vesícula
2–3 semCowpox: surge a escara negra
6–8 semCowpox: cicatrização (pode passar de 12)
≈3–4 semVaccínia bovina: duração habitual

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O essencial de transmissão e risco

  1. Entrada por pele lesionada: arranhão, mordida, fissuras das mãos.
  2. Cowpox: roedor silvestre → gato caçador ou rato de estimação → humano.
  3. Vaccínia bovina: vaca com lesão nos tetos → mãos do ordenhador → outras vacas e familiares.
  4. Transmissão entre pessoas é incomum, mas descrita no domicílio (vaccinia).

Cowpox na Europa: roedores, gatos e ratos de estimação

O reservatório do cowpox são roedores silvestres (arganazes e alguns camundongos). Gatos que caçam se infectam e desenvolvem lesões crostosas na cabeça e nos membros; o tutor se infecta ao tocar essas lesões ou ao ser arranhado. Ratos vendidos como animais de estimação causaram agrupamentos de casos humanos.

A vaca é hospedeiro acidental, e o “cowpox de Jenner” hoje é raro em bovinos. Também há infecções em cães, cavalos e animais de zoológico (elefantes, primatas).

Ciclo de transmissão

Roedor → gato / rato de estimação → humano

O humano é hospedeiro terminal; a infecção entra por pele lesionada, quase sempre na mão ou no rosto.

Vaccínia bovina no Brasil: a ordenha

Nos surtos brasileiros, as vacas em lactação desenvolvem lesões dolorosas nos tetos, e o vírus passa às mãos de quem ordenha — sobretudo na ordenha manual sem luvas. As mãos do ordenhador e as teteiras levam o vírus de uma vaca para outra; bezerros se infectam ao mamar. Em propriedades afetadas, a taxa de ataque entre ordenhadores pode ser muito alta.

Em Minas Gerais, epicentro da doença, a circulação foi registrada em pelo menos 149 municípios entre 2000 e 2023, com predomínio de homens, em idade produtiva e na zona rural.

Fonte de exposição

Tetos com lesões

Vesículas, úlceras e crostas nos tetos de vacas em lactação.

Fonte de exposição

Gato com cowpox

Lesões crostosas na cabeça e patas; fonte clássica na Europa.

Ciclo de transmissão

Ciclo da vaccínia bovina

Silvestre/peridomicílio → rebanho → ordenhador → domicílio.

Rotas alternativas e reservatórios

O reservatório do vaccinia brasileiro ainda não está definido: há evidência do vírus em roedores silvestres e peridomésticos, gambás, quatis, capivaras, cães e equinos, o que sugere um ciclo silvestre que transborda para o rebanho. Além da ordenha, a literatura brasileira documenta:

  • Pessoa a pessoa no domicílio: familiares sem contato com o gado infectados a partir do ordenhador.
  • Fômites: o vírus permanece infeccioso no ambiente doméstico durante surtos.
  • Leite cru e queijo artesanal: DNA viral detectado; transmissão clínica ainda não comprovada — mais um motivo para leite pasteurizado.
  • Ambiente hospitalar: transmissão nosocomial já relatada; precauções de contato.

Triagem educativa da exposição

A pergunta útil é “qual animal e qual contato”. Esta ferramenta organiza a hipótese mais provável a partir da exposição, mas a lesão em si não diferencia com segurança os orthopoxvírus entre si nem de mpox: quem decide é a PCR.

Exposição × hipótese etiológica

Raciocínio epidemiológico simplificado. Não é escore validado e não substitui o teste laboratorial nem a avaliação de mpox.

Selecione a exposição e o aspecto da lesão.

Epidemiologia e Saúde Única

O fim da vacinação antivariólica (no Brasil, em 1978) deixou gerações sem imunidade cruzada contra orthopoxvírus, e isso é parte da explicação para a emergência do cowpox na Europa e da vaccínia bovina no Brasil. Ainda assim, vacinados no passado também se infectam, em geral com quadros mais leves. A subnotificação é grande: a vaccínia bovina não é agravo de notificação nacional em humanos.

Saúde Única

Controle depende de vigilância veterinária dos rebanhos, higiene de ordenha, manejo de roedores e animais silvestres no peridomicílio, notificação dos casos humanos e educação de produtores e ordenhadores.

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O essencial de quadro clínico

  1. Lesão em mão, dedo, antebraço ou rosto: mácula → pápula → vesícula → pústula umbilicada → úlcera/escara.
  2. Dor intensa, edema, linfangite e linfonodo regional; febre e mal-estar são comuns.
  3. Cowpox: lesão em geral única; vaccínia bovina: frequentemente múltiplas lesões nas mãos.
  4. Alerta: olho, lesões disseminadas, atopia, imunossupressão e gestação.

Apresentação clínica

A lesão começa no ponto de inoculação como mácula inflamada e evolui por pápula, vesícula e pústula com umbilicação central. Em seguida ulcera e forma crosta — no cowpox, uma escara negra endurecida com edema e eritema ao redor, que pode lembrar antraz cutâneo.

É desproporcionalmente dolorosa para o tamanho, e é comum haver linfangite ascendente, linfonodo axilar, epitroclear ou cervical aumentado, febre, cefaleia, mialgia e mal-estar por alguns dias. Nos ordenhadores brasileiros, as lesões costumam ser múltiplas, em dedos, mãos e antebraços, às vezes com lesões secundárias na face por autoinoculação.

Lesão próxima ao olho, conjuntivite, lesões a distância ou rapidamente progressivas e paciente com dermatite atópica, imunossupressão ou gestação mudam a conduta: ver Rotas 3 e 4 do Tratamento.

Evolução da lesão

Reconhecer o estágio ajuda a orientar o paciente sobre o tempo de recuperação e a contagiosidade: a lesão é infecciosa enquanto houver vesícula, pústula, úlcera ou crosta, e só deixa de ser quando a crosta cai e a pele reepiteliza.

Achado característico

Da mácula à escara

Evolução em semanas, não em dias — diferente de uma piodermite bacteriana.

  1. Mácula / pápula inflamada

    Ponto de inoculação; dor local.

  2. Vesícula → pústula umbilicada

    Cowpox: ao longo de 7–12 dias. Pode ser hemorrágica.

  3. Úlcera e crosta / escara negra

    Cowpox: escara dura em 2–3 semanas, com edema e linfadenite.

  4. Queda da crosta e cicatriz

    Cowpox: 6–8 semanas (pode ultrapassar 12). Vaccínia bovina: em geral ≈3–4 semanas. Cicatriz deprimida é comum.

Achados característicos

Nenhum achado isolado é patognomônico, e a lesão de orthopoxvírus pode ser idêntica à de mpox. O conjunto — lesão que amadurece até escara, dor e linfadenite regional, e contato com vaca, gato ou roedor — é o que sustenta a hipótese.

Achado característico

Escara negra (cowpox)

Crosta negra endurecida com halo eritematoso e edema, em geral lesão única.

Achado característico

Mãos do ordenhador

Pústulas umbilicadas e crostas múltiplas em dedos e mãos (vaccínia bovina).

Achado característico

Linfangite e linfonodo

Estria ascendente e adenopatia axilar dolorosa — muitas vezes viral, não bacteriana.

Complicação

Acometimento ocular

Pálpebra, conjuntiva ou córnea por autoinoculação: urgência oftalmológica.

Complicações e gravidade

Óbitos são raros e se concentram em pessoas com dermatite atópica, imunossupressão ou uso prolongado de corticoide, que podem evoluir com doença cutânea generalizada semelhante ao eczema vaccinatum. Também há relato de morte fetal por cowpox em gestante no primeiro trimestre.

  • Ocular: blefaroconjuntivite e ceratite, com risco de cicatriz corneana e perda visual.
  • Generalizada: múltiplas lesões em pele atópica ou em imunossuprimido, com toxemia; pode levar ao óbito.
  • Gestação: infecção fetal e perda gestacional descritas (cowpox e vaccinia).
  • Infecção bacteriana secundária (sobretudo Staphylococcus aureus), desidratação e necessidade de internação nas formas extensas.
  • Sequelas: cicatriz extensa, afastamento prolongado do trabalho e, raramente, encefalite.

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O essencial de diagnóstico

  1. Suspeita clínico-epidemiológica: lesão evolutiva + contato com vaca, gato ou roedor.
  2. Confirmação: PCR para orthopoxvírus em swab da lesão ou crosta; sequenciamento define a espécie.
  3. PCR de mpox negativa não descarta cowpox nem vaccinia.
  4. Não excise a lesão para diagnóstico; o swab basta na maioria dos casos.

Como chegar ao diagnóstico

O diagnóstico começa na anamnese: profissão, ordenha, vacas com lesões, gatos que caçam, ratos de estimação, viagem à Europa e contatos com lesões semelhantes. Sem essa pergunta, a lesão é tratada como piodermite, picada de inseto ou até tumor — e o paciente recebe antibióticos e cirurgias desnecessários.

A confirmação é feita por PCR em material da lesão. Como hoje lesões vesiculopustulares entram no fluxo de mpox, é importante deixar claro no pedido que se suspeita de outro orthopoxvírus zoonótico.

Coleta

Swab da lesão e crosta

Esfregue com firmeza a base da vesícula/pústula ou a úlcera com swab seco; colete crostas em frasco estéril seco. Siga o fluxo do LACEN.

Exames específicos

A PCR é o centro do diagnóstico; os demais métodos têm papel complementar ou de pesquisa. Na prática brasileira, a caracterização de vaccinia é feita por laboratórios de referência (como o Laboratório de Vírus da UFMG) e pela rede de LACEN.

ExameUtilidadePonto de interpretação
PCR genérica de orthopoxvírusConfirma o gênero em swab de lesão ou crosta.Exame de escolha. Alvos usados no Brasil incluem genes C11R, A56R e E9L.
PCR específica de mpoxExclui ou confirma mpox.Negativa não exclui cowpox ou vaccinia.
SequenciamentoDiferencia cowpox, vaccinia e outras espécies.Útil para vigilância e investigação de surtos.
Sorologia (neutralização, ELISA IgM/IgG)Apoio diagnóstico e inquéritos.Reação cruzada entre orthopoxvírus; vacinação antiga confunde a IgG.
Isolamento viral / microscopia eletrônicaLaboratório de referência.ME mostra vírion de poxvírus, sem definir a espécie.
HistopatologiaQuando foi feita biópsia por outro motivo.Degeneração balonizante e inclusões citoplasmáticas eosinofílicas; não diferencia a espécie.

Diagnósticos diferenciais

Os diferenciais mais importantes são os que mudam a conduta de saúde pública (mpox, antraz) e os que levariam a tratamento errado (piodermite tratada indefinidamente, herpes). A exposição e o tempo de evolução costumam separar.

DiferencialPor que confundeO que ajuda a separar
MpoxPústula umbilicada, linfadenopatia, febre.Contato íntimo/sexual, lesões genitais/perianais e múltiplas; PCR específica.
Pseudovaríola (nódulo dos ordenhadores) e orfMesma exposição a vacas, ovinos e caprinos.Nódulo pouco doloroso, sem escara negra; Parapoxvirus por PCR.
Antraz cutâneoEscara negra com edema extenso.Lesão indolor com edema gelatinoso; contato com carcaça/couro; Gram e cultura.
Piodermite / celulite bacterianaDor, eritema, pus, linfangite.Evolução em dias; resposta a antibiótico; sem estágios vesículo-pustulares.
Herpes simples (panarício herpético)Vesículas dolorosas no dedo.Vesículas agrupadas, recorrência; PCR para HSV.
EsporotricoseLesão em mão após gato, com linfangite nodular.Nódulos em cadeia, evolução lenta; cultura para Sporothrix.
Tularemia, doença da arranhadura do gatoÚlcera e linfadenite após contato animal.Epidemiologia e sorologia/PCR específicas.

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O essencial de tratamento

  1. Imunocompetente com lesão localizada: curativo oclusivo, analgesia, prevenção de autoinoculação — sem antiviral.
  2. Não puncionar, excisar, desbridar nem usar corticoide tópico sobre a lesão.
  3. Antibiótico apenas se houver infecção bacteriana secundária; linfangite e edema costumam ser virais.
  4. Olho, doença generalizada, imunossupressão, atopia extensa ou gestação: discutir tecovirimat ± VIGIV ± brincidofovir/cidofovir com infectologia e Ministério da Saúde.

Princípios do tratamento

Não há antiviral aprovado no Brasil especificamente para cowpox ou vaccínia bovina, e a imensa maioria dos pacientes não precisa de um: a infecção é autolimitada. O tratamento tem três objetivos — proteger a lesão (curativo, dor, infecção secundária), conter o vírus (autoinoculação no olho, transmissão à família e ao rebanho) e reconhecer quem precisa de mais.

Os antivirais para orthopoxvírus foram desenvolvidos para varíola e usados em mpox. O tecovirimat tem indicação europeia (EMA) para cowpox e complicações da vacina vaccinia, mas a evidência em humanos vem de modelos animais e relatos de caso — e, em mpox, ensaios randomizados (STOMP, PALM007) não mostraram benefício na doença não grave. Por isso o uso é reservado a cenários graves.

Rotas de tratamento

Cada rota é um cenário clínico. Abra só a rota em que o seu paciente está: a tabela mostra dose, frequência e duração de cada esquema, e o nome de cada medicamento abre a ficha completa. Opções do mesmo grupo são alternativas — escolha uma.

Acesso aos antivirais no Brasil

Tecovirimat, VIGIV e brincidofovir não são comercializados no Brasil. Em 2022, a Anvisa autorizou a importação de tecovirimat exclusivamente pelo Ministério da Saúde, para casos graves de mpox com critérios definidos (autorização renovada em 2023). Para um caso grave de cowpox ou vaccínia bovina, o caminho é discutir com a infectologia e o CIEVS estadual, que acionam o Ministério da Saúde. O cidofovir IV, quando disponível no hospital, é a opção mais acessível — com toda a sua nefrotoxicidade.

Paciente grave não deve esperar o antiviral para receber suporte: internação, hidratação, analgesia, cuidado de pele e tratamento de infecção secundária vêm primeiro.

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O essencial de cenários especiais

  1. Dermatite atópica: risco de doença generalizada — limiar baixo para internar e para antiviral.
  2. Imunossuprimidos: lesões maiores, mais lentas e disseminação; considerar combinação de antivirais.
  3. Gestação: morte fetal descrita; avaliação especializada mesmo com lesão localizada.
  4. Profissionais de saúde e familiares: precauções de contato com a lesão.

O que muda em cada cenário

Os grupos de risco são os mesmos que tinham complicações graves com a vacina antivariólica: pele com barreira alterada, imunidade celular deficiente, gestação e olho. Neles, a mesma lesão que se resolve sozinha num ordenhador saudável pode se espalhar.

CenárioParticularidadeO que fazer diferente
Dermatite atópica / eczemaMetade dos casos de cowpox generalizado descritos ocorreu em atópicos; quadro semelhante ao eczema vaccinatum.Inspecionar toda a pele; internar se lesões a distância; considerar tecovirimat ± VIGIV (Rota 4). Evitar corticoide tópico na área afetada.
ImunossupressãoLesões maiores, necróticas, persistentes; disseminação e óbito descritos.Rota 4 precoce; reduzir imunossupressão quando possível; combinação de antivirais em casos graves.
GestaçãoMorte fetal por cowpox no 1º trimestre (França, 2017); vaccinia fetal descrita.Acompanhamento obstétrico; discutir antiviral caso a caso (tecovirimat sem dados de segurança suficientes; brincidofovir e cidofovir são embriotóxicos).
CriançasInfecção por contato com familiar ordenhador ou animal doméstico.Dose por peso (fichas); atenção à autoinoculação ocular e à dermatite atópica.
Lesão ocularAutoinoculação; risco de sequela corneana.Rota 3 e oftalmologia no mesmo dia.
Profissionais de saúde e laboratórioTransmissão nosocomial de vaccinia descrita; vírus manipulável em laboratório.Luvas e precauções de contato no curativo; descartar curativos como resíduo infectante.
Paciente com lesão e contato sexual de riscoMpox circula no Brasil e tem lesão semelhante.Testar e notificar mpox; não presumir vaccinia só porque é da zona rural.

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O essencial de seguimento e prevenção

  1. Seguir até a queda da crosta: cicatrização em ≈3–4 semanas (vaccinia) a 6–8+ semanas (cowpox).
  2. Ordenha: luvas, higiene das mãos, vacas com lesão por último, desinfecção de equipamentos.
  3. Gatos e roedores doentes: não manipular sem luvas; avaliação veterinária.
  4. Notificar: serviço veterinário oficial (IN MAPA 50/2013) e vigilância (SINAN em MG).

Seguimento do paciente

Na forma localizada, reavalie em 48–72 h (dor, sinais de infecção secundária, olhos) e depois semanalmente até a queda da crosta. Oriente que a lesão ainda transmite o vírus enquanto houver crosta e que a cicatriz pode ser deprimida.

Nos pacientes que usaram antivirais, monitore os efeitos de cada fármaco: transaminases (brincidofovir), creatinina, proteinúria e neutrófilos (cidofovir), glicemia com repaglinida (tecovirimat) e reações infusionais e trombose (VIGIV).

Retorno imediato

Olho vermelho ou doloroso, novas lesões a distância, febre alta persistente, celulite em expansão ou piora do estado geral.

Prevenção na ordenha

A vaccínia bovina é, antes de tudo, uma doença de mãos. O que protege o ordenhador é o mesmo que impede a doença de circular dentro do rebanho: barreira, higiene e ordem na ordenha.

Prevenção

Ordenha segura

Luvas, higiene das mãos e separação dos animais doentes quebram a cadeia vaca → mão → vaca.

  1. Luvas e mãos limpas

    Luvas descartáveis ou de borracha na ordenha; lavar as mãos antes e depois; cobrir qualquer ferida.

  2. Separe e ordene

    Vacas com lesão nos tetos ordenhadas por último ou por outra pessoa; bezerros sem mamar em vacas doentes.

  3. Higienize equipamentos

    Limpeza e desinfecção de teteiras e utensílios entre animais.

  4. Leite seguro

    Consumir apenas leite e derivados pasteurizados ou fervidos.

  5. Ordenhador doente

    Afastar da ordenha até a cicatrização ou trabalhar com lesão coberta e luvas.

Gatos, roedores e animais de estimação

Gatos com lesões crostosas, sobretudo os que caçam, devem ser manipulados com luvas e avaliados por veterinário; lave as mãos após o contato e evite que encostem no rosto de crianças e de pessoas com dermatite atópica.

Controle roedores no peridomicílio e nas instalações rurais (armazenar ração e grãos fechados, remover entulho), e seja criterioso com a origem de ratos de estimação. Não há vacina indicada para prevenir cowpox ou vaccínia bovina na população geral.

Vigilância e notificação

A vaccínia bovina não é agravo de notificação nacional em humanos, o que causa grande subnotificação. Ainda assim, há três caminhos: a varíola bovina está na lista de doenças de notificação obrigatória do MAPA (IN 50/2013) — comunique o serviço veterinário oficial (em MG, o IMA); em Minas Gerais, casos humanos de poxvírus são notificados no SINAN; e qualquer lesão suspeita de mpox deve seguir o fluxo nacional de mpox.

Ordenhador com pústulas umbilicadas nas mãos e vacas com feridas nos tetos: PCR de orthopoxvírus, curativo e barreira, notificação ao serviço veterinário e à vigilância — antiviral só se olho, doença extensa ou imunossupressão.

Erros comuns

Quase todos os erros vêm de não perguntar pelos animais: a lesão é tratada como piodermite, picada ou tumor, e o paciente acumula antibióticos, corticoides e cirurgias.

ErroPor que é um problemaComo evitar
Não perguntar por ordenha, gatos e roedoresAtrasa o diagnóstico e expõe família e rebanho.Anamnese de exposição animal em toda lesão pustular de mão.
Antibióticos em sérieNão tratam vírus; selecionam resistência.Antibiótico só com sinal bacteriano (Rota 2).
Excisar a lesãoCicatriz maior, sem benefício.Swab para PCR; cirurgia só para complicação.
Corticoide tópicoPode piorar a lesão e favorecer disseminação.Curativo e analgesia.
Parar no PCR de mpox negativoDeixa de diagnosticar cowpox/vaccinia.Pedir PCR genérica de orthopoxvírus.
Esquecer o olhoAutoinoculação com risco de sequela.Orientar higiene das mãos e retorno se sintomas oculares.

Referências principais

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    Geographic distribution of vaccinia virus, diagnosis and demographic aspects of affected populations, Minas Gerais, Brazil, 2000–2023. Viruses. 2024;17(1):22. doi:10.3390/v17010022.
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    Artigo2025
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    Documento oficial2023
    Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Anvisa prorroga liberação de medicamento (tecovirimat) para tratamento da mpox para uso pelo Ministério da Saúde. Brasília: Anvisa; 2023.

Aviso importante

Material educacional de apoio à decisão clínica. Não substitui avaliação individualizada, protocolos institucionais, serviço de referência, infectologia, pediatria/obstetrícia nem consulta às bulas. Antivirais para orthopoxvírus (tecovirimat, VIGIV, brincidofovir, cidofovir) não têm registro comercial no Brasil e não foram testados em ensaios clínicos para cowpox ou vaccínia bovina: indicação, dose e acesso devem ser discutidos com infectologia e com o CIEVS/Ministério da Saúde.

Conteúdo para educação médica. Condutas devem ser individualizadas e conferidas com protocolos oficiais, contexto epidemiológico e disponibilidade local.
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