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Guia de Zoonoses • Vírus

Encefalite equina

Alphavirus (família Togaviridae) — vírus da encefalite equina do Leste (EEEV), do Oeste (WEEV) e Venezuelana (VEEV)

Arboviroses por alfavírus transmitidas por mosquitos, que circulam entre aves ou roedores silvestres e atingem equinos e humanos. A maioria das infecções é leve ou assintomática, mas a forma neuroinvasiva pode ser devastadora — sobretudo a do Leste. Não há antiviral: o desfecho depende de suporte neurointensivo precoce, controle de crises e da hipertensão intracraniana e de não deixar passar uma encefalite herpética tratável.

Alfavírus (EEE, WEE, VEE)Transmissão por mosquitosEncefaliteNotificação imediata
16–20 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Três alfavírus transmitidos por mosquitos: encefalite equina do Leste (EEE), do Oeste (WEE) e Venezuelana (VEE).
  2. A maioria das infecções é assintomática ou febril; a minoria que evolui para encefalite define a gravidade.
  3. EEE é a mais letal (≈30% na forma grave, com sequelas em mais da metade dos sobreviventes); WEE e VEE matam menos, mas pesam em lactentes e crianças.
  4. Não há antiviral nem vacina humana licenciada: suporte, vigilância e Saúde Única.

O que são as encefalites equinas

São zoonoses causadas por três alfavírus das Américas. Eles circulam de forma silenciosa entre mosquitos e aves (EEE e WEE) ou pequenos mamíferos (VEE enzoótica) e, eventualmente, “transbordam” para equinos e humanos, produzindo de uma febre autolimitada a uma encefalite grave.

O nome vem da doença em cavalos, que costuma preceder ou acompanhar os casos humanos. Por isso a epizootia equina é o principal sinal de alerta para a saúde humana — e o motivo de a vigilância ser feita em conjunto por saúde e agricultura.

Em encefalite febril aguda sem causa definida, pergunte por área rural, mosquitos e cavalos doentes ou mortos na região — e não deixe de cobrir herpes enquanto investiga.

O agente

Os três vírus pertencem ao gênero Alphavirus, o mesmo do chikungunya e do Mayaro — o que explica a reatividade cruzada nas sorologias. O antigo “complexo EEE” foi dividido: o vírus da América do Norte manteve o nome EEEV, e as linhagens da América Central e do Sul passaram a se chamar vírus Madariaga, em geral menos virulento em humanos.

Agente etiológico

Alphavirus encefalitogênicos

Vírus envelopado, RNA de fita simples, sentido positivo, com glicoproteínas de superfície (E1/E2) que medeiam a entrada nas células e são alvo dos anticorpos neutralizantes.

  • EEEV (América do Norte) e vírus Madariaga (América Central e do Sul).
  • WEEV: do oeste dos EUA/Canadá até a Argentina; nova linhagem descrita em equinos do RS (2023–2024).
  • VEEV: subtipos epidêmicos (I-AB, I-C) amplificados em equinos e enzoóticos (ex.: I-D, I-E) mantidos em roedores.

EEE, WEE e VEE lado a lado

As três doenças têm o mesmo esqueleto — mosquito, fase febril, possível encefalite —, mas diferem muito em letalidade, faixa etária atingida e sequelas. Essa comparação ajuda a calibrar o prognóstico e a orientar a família.

AspectoLeste (EEE)Oeste (WEE)Venezuelana (VEE)
GravidadeA mais grave; encefalite em menos de 5% dos sintomáticos, mas fulminante.Em geral leve ou subclínica; encefalite rara em adultos saudáveis.Quadro febril “tipo dengue” na maioria; encefalite incomum.
Letalidade≈30% na forma grave (CDC); estimativas históricas de 30–75%.≈3–4% (12 óbitos em 217 casos no surto 2023–2024).≤1% no geral; 10–35% entre os que têm encefalite.
Faixa etária de risco<15 anos e >60 anos (surto dos EUA 2019: mediana de 64 anos).Lactentes (<1 ano) e idosos; no surto argentino, mediana de 58,5 anos.Crianças pequenas e, em menor grau, >50 anos.
SequelasMais da metade dos sobreviventes: déficit cognitivo, crises, paralisias, nervos cranianos.Graves em lactentes (≈metade dos <1 mês); adultos em geral recuperam.Crianças com encefalite: crises, déficit motor, alterações de comportamento.
CicloAves + Culiseta melanura (pântanos), com mosquitos-ponte.Aves passeriformes + Culex tarsalis e Aedes spp.Enzoótico: roedores + Culex (Melanoconion). Epidêmico: equinos amplificam.

Fontes: CDC (2024), OPAS/OMS (2024), Campos et al. (2024), CFSPH (2024). Números de letalidade variam com a definição de caso e a vigilância.

Fisiopatologia: da picada ao edema cerebral

Após a picada, o vírus se replica localmente e nos linfonodos e produz uma viremia curta, responsável pela fase febril. Em uma minoria, ele alcança o sistema nervoso central e infecta neurônios — na EEE, com predileção por núcleos da base, tálamo e tronco. A lesão combina destruição neuronal, vasculite e inflamação, que geram edema cerebral, crises e hipertensão intracraniana: são esses os alvos do tratamento.

Fisiopatologia

Viremia curta, lesão neuronal duradoura

Quando a encefalite se manifesta, o vírus em geral já deixou o sangue — o que explica o baixo rendimento do RT-PCR sérico nessa fase.

  1. Inoculação

    Picada do mosquito; replicação na pele e nos linfonodos regionais.

  2. Viremia

    Curta e de baixa carga; corresponde à fase febril inespecífica.

  3. Neuroinvasão

    Travessia da barreira hematoencefálica (via vascular e, em modelos, via olfatória).

  4. Lesão do SNC

    Necrose neuronal, vasculite e inflamação → edema, crises, HIC, coma.

Incubação e evolução

A incubação é curta — dias, não semanas —, o que torna útil perguntar sobre exposição nos 10 dias anteriores. Na EEE, a morte costuma ocorrer entre 2 e 10 dias após o início dos sintomas, e a evolução para encefalite pode vir depois de uma melhora aparente.

2–10 diasIncubação habitual dos três vírus
4–10 diasIncubação da EEE (CDC); maior em imunossuprimidos
≈30%Letalidade da EEE grave (CDC)
>50%Sobreviventes de EEE com sequelas

Em 30 segundos

O essencial de transmissão e risco

  1. Transmissão pela picada de mosquitos infectados; não há transmissão pessoa a pessoa.
  2. EEE e WEE: humanos e equinos são hospedeiros terminais (viremia insuficiente para infectar mosquitos).
  3. VEE epidêmica: equinos amplificam o vírus e humanos podem ter viremia suficiente para infectar mosquitos.
  4. Vias raras: transplante de órgãos (EEE), via transplacentária (WEE, VEE) e aerossol em laboratório.

Como ocorre a transmissão

O ciclo natural é silencioso: mosquitos mantêm o vírus entre aves (EEE, WEE) ou roedores (VEE enzoótica). Quando a população viral e de vetores cresce — verão, chuvas, áreas alagadas —, mosquitos que picam tanto aves quanto mamíferos levam o vírus a cavalos e pessoas.

Na EEE e na WEE, cavalos e humanos são “becos sem saída”: adoecem, mas não reinfectam mosquitos. Na VEE epidêmica é diferente — o cavalo é o grande amplificador, e o controle da doença equina reduz diretamente o risco humano.

Ciclo de transmissão

Aves/roedores ↔ mosquito → equino e humano

O Culex tarsalis, vetor da WEE, muda de hábito no fim do verão e passa a picar mais mamíferos — momento crítico para a transmissão a cavalos e pessoas.

Não há transmissão pessoa a pessoa. Precauções padrão bastam no hospital. Na EEE, o CDC orienta não doar sangue por 120 dias após a doença, pela transmissão documentada por transplante.

Reservatórios, vetores e sentinelas

Aves passeriformes são os principais reservatórios da EEE e da WEE; na América do Sul, roedores e morcegos também podem participar. Aves migratórias podem levar o vírus para novas áreas. Os equinos, por adoecerem de forma visível, são os melhores sentinelas da circulação viral.

Vetor

Mosquitos Culex e outros

Culex tarsalis (WEE), Culiseta melanura (EEE), Culex (Melanoconion) na VEE enzoótica; Aedes spp. como pontes.

Sentinela

Equino com doença neurológica

Ataxia, andar em círculos, cegueira, decúbito. Na EEE equina, 75–90% dos casos com encefalite morrem.

Distribuição

Américas

EEEV/Madariaga, WEEV e VEEV ocorrem do Canadá à Argentina, com focos amazônicos de VEE.

Situações de maior risco

O risco se concentra em quem vive, trabalha ou passa o tempo ao ar livre em áreas rurais e periurbanas próximas a banhados, arrozais e matas, no período de maior atividade dos mosquitos. Profissionais que lidam com cavalos doentes ou com o vírus em laboratório têm riscos próprios.

  • Trabalho rural e lazer ao ar livre ao entardecer e amanhecer, em áreas com epizootia equina.
  • Residência próxima a áreas alagadas, arrozais e matas ciliares.
  • Veterinários e tratadores que fazem necropsia de equinos suspeitos (contato com tecido nervoso).
  • Laboratório: EEEV, WEEV e VEEV infectam por aerossol; exigem contenção nível 3.

Epidemiologia nas Américas e no Brasil

Entre novembro de 2023 e abril de 2024, a reemergência da WEE na Argentina e no Uruguai produziu 217 casos humanos (12 óbitos) e 2.548 casos em equinos; um equino de Barra do Quaraí (RS) foi confirmado em janeiro de 2024, sem casos humanos confirmados no Brasil até a avaliação de risco da OPAS. Os pacientes eram sobretudo homens acima de 50 anos, com febre, cefaleia e confusão mental.

Nos EUA, a EEE teve em 2019 o maior surto em décadas: 34 casos, todos hospitalizados, 12 óbitos. No Brasil, há registros de EEE/Madariaga em equinos, e em 2025 foram detectadas infecções humanas por VEEV em Tabatinga (AM), na tríplice fronteira, em pacientes com doença febril aguda — um lembrete de que a VEE pode se esconder sob o “guarda-chuva” da dengue.

217Casos humanos de WEE, Argentina e Uruguai, 2023–2024
12Óbitos humanos no mesmo surto
2.548Casos em equinos (inclui 1 no RS)

Saúde Única

Clima mais quente e chuvoso, expansão agrícola, desmatamento e urbanização favorecem vetores e o encontro entre mosquitos, animais e pessoas. A resposta efetiva integra vigilância veterinária, entomológica e humana.

Integração

Epizootia equina notificada ao serviço veterinário oficial → alerta à vigilância em saúde → busca ativa de casos humanos, controle vetorial e vacinação dos equinos.

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O essencial de quadro clínico

  1. Maioria assintomática; sintomáticos têm febre súbita, cefaleia, mialgia, vômitos.
  2. Forma neuroinvasiva: confusão, sonolência, tremores, crises, déficit focal, meningismo e coma.
  3. EEE pode ser bifásica e fulminante; crianças podem ter edema facial/periorbital e dor abdominal.
  4. WEE grave concentra-se em lactentes e idosos; VEE parece dengue e pode causar perda fetal.

Apresentação clínica

Há dois grandes quadros. A doença febril sistêmica começa de forma abrupta, com febre, calafrios, cefaleia, mialgia, artralgia e, às vezes, dor abdominal intensa, vômitos e diarreia; muitos pacientes se recuperam em 1–2 semanas.

A doença neuroinvasiva — meningite, encefalite ou, raramente, mielite — aparece em uma minoria, às vezes depois de uma melhora aparente. Na EEE a encefalite é grave: cefaleia, meningismo, confusão, déficits focais, crises e coma. No surto argentino de WEE, 82% tinham febre súbita, 79% cefaleia e 57% confusão mental.

Rebaixamento de consciência, crises, déficit focal, padrão respiratório irregular ou sinais de HIC exigem terapia intensiva.

Evolução típica

Pensar em fases ajuda a reconhecer a virada. A febre inespecífica dura poucos dias; se houver neuroinvasão, os sinais neurológicos surgem em seguida e podem progredir para coma em horas a dias. Na EEE, os óbitos se concentram nos primeiros 10 dias.

  1. Incubação — 2 a 10 dias

    Assintomática. Pergunte por exposição nos 10 dias anteriores.

  2. Fase febril sistêmica

    Febre súbita, cefaleia, mialgia, vômitos; sem sintomas de vias aéreas superiores.

  3. Fase neuroinvasiva (minoria)

    Confusão, sonolência, tremores, crises, déficit focal, coma. Fase de maior risco.

  4. Recuperação ou sequela

    Recuperação completa (comum na WEE/VEE em adultos) ou sequelas motoras, cognitivas e epilepsia.

Achados característicos

Nenhum achado é patognomônico, mas alguns orientam fortemente. A RM com lesão de núcleos da base e tálamo sugere EEE (e também flavivírus), enquanto o lobo temporal sugere herpes. O LCR inflamatório com glicose normal fala a favor de etiologia viral.

Achado característico

Núcleos da base e tálamos

Hipersinal em T2/FLAIR na EEE; córtex, tronco e substância branca também podem ser acometidos.

Achado característico

LCR inflamatório

Pleocitose (neutrofílica no início na EEE), proteína elevada, glicose normal.

Achado característico

Edema facial em crianças

Edema generalizado, facial ou periorbital descrito na EEE pediátrica.

Achado característico

Crises eletrográficas

Podem ocorrer sem convulsão visível; EEG em rebaixamento inexplicado.

Particularidades de cada vírus

Cada vírus tem uma “assinatura” clínica que ajuda no raciocínio e no prognóstico. O vírus Madariaga, que substitui o EEEV na América do Sul, tende a ser mais leve, mas também causa encefalite grave e óbitos.

Leste (EEE)

  • Início abrupto, às vezes bifásico.
  • Dor abdominal pode simular abdome agudo.
  • Crianças: edema facial/periorbital.
  • Encefalite grave; sequelas frequentes.

Oeste (WEE)

  • Geralmente leve em adultos saudáveis.
  • Grave em lactentes <1 ano e idosos.
  • Lactentes: sequelas graves frequentes.
  • Crianças >1 ano: sequela costuma limitar-se a crises.

Venezuelana (VEE)

  • Febril “tipo dengue”: cefaleia intensa, fotofobia, mialgia lombar.
  • Pode ter faringite, tosse, exantema.
  • Encefalite em crianças pequenas.
  • Gestação: aborto, natimorto, encefalite fetal.

Complicações e gravidade

As complicações vêm da lesão neuronal e do edema que ela provoca. Idade extrema e comorbidades (diabetes, câncer, hipertensão) foram frequentes entre os óbitos do surto argentino de WEE; na EEE de 2019 nos EUA, a letalidade foi de 64% acima de 70 anos e de 22% nos mais jovens.

  • Edema cerebral e hipertensão intracraniana, com risco de herniação.
  • Estado de mal epiléptico, inclusive não convulsivo.
  • Insuficiência respiratória por rebaixamento, aspiração ou lesão de tronco.
  • Hiponatremia (SIADH ou perda cerebral de sal), que piora o edema.
  • Sequelas: déficit cognitivo, epilepsia, paralisias, alterações de comportamento.

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O essencial de diagnóstico

  1. Clínica não é específica: confirmação laboratorial é obrigatória.
  2. RT-PCR só é útil nos primeiros dias (viremia curta); negativo não exclui.
  3. IgM no LCR confirma; IgM sérica isolada = caso provável (reatividade cruzada com chikungunya/Mayaro).
  4. Investigue em paralelo HSV, meningite bacteriana, outras arboviroses e encefalite autoimune.

Raciocínio diagnóstico

O ponto de partida é a síndrome de encefalite febril aguda, que tem dezenas de causas. Os primeiros passos não dependem da etiologia: estabilizar, colher hemoculturas, fazer neuroimagem quando indicada antes da punção, colher LCR e iniciar aciclovir (e antibiótico, se houver suspeita de meningite bacteriana).

A hipótese de alfavírus ganha força com a epidemiologia — área rural, mosquitos, verão, epizootia equina — e com o padrão de LCR e de imagem. Guarde soro e LCR da fase aguda: eles serão comparados com a amostra de convalescença.

Não espere a etiologia para tratar

Encefalite febril = aciclovir empírico e suporte imediatos. A investigação de alfavírus corre em paralelo.

Definições de caso (OPAS — WEE, 2024)

A OPAS propôs definições para a WEE que servem de modelo para as três doenças. O caso suspeito já basta para notificar; a confirmação exige laboratório.

Suspeito

  • Febre súbita com cefaleia ou mialgia, sem acometimento de vias aéreas superiores.
  • + manifestações neurológicas (vômitos, sonolência, confusão, prostração, tremores), meningite ou encefalite sem outra causa.
  • Considerar residência ou visita a área com casos animais ou humanos nos 10 dias anteriores.

Confirmado

  • RNA viral por RT-PCR em qualquer amostra.
  • IgM no LCR por ELISA.
  • Soroconversão de IgM ou aumento de anticorpos neutralizantes (PRNT) em amostras pareadas com intervalo >7–10 dias.

Provável

  • IgM sérica reagente em amostra única.
  • Pode ser reatividade cruzada com outros alfavírus.

Exames específicos

A escolha do exame depende do momento. Nos primeiros dias, o RT-PCR (soro, LCR; na VEE também swab de orofaringe) pode detectar o vírus; depois, a sorologia domina. No Brasil, as amostras seguem pelo LACEN para os laboratórios de referência em arbovírus.

ExameQuando é útilInterpretação
RT-PCR (soro, LCR, tecido)Primeiros ~3 dias de sintomas (no máximo ~5); tecido nervoso em óbitos.Positivo confirma; negativo não exclui — viremia baixa e curta.
IgM no LCR (ELISA)Fase neurológica.Confirma infecção do SNC.
IgM sérica (ELISA)A partir da fase neurológica.Isolada = caso provável; testar chikungunya e Mayaro em paralelo.
PRNT / microneutralizaçãoAmostras pareadas; convalescença >14 dias do início.Diferencia alfavírus (WEEV, EEEV, VEEV, CHIKV, MAYV).
Isolamento viralCentros de referência.Não é rotina; exige contenção nível 3.

Amostras: refrigerar (2–8 °C) se processadas em até 48 h; congelar se mais tarde. Evitar ciclos de congelamento/descongelamento.

LCR, imagem e EEG

Esses exames não identificam o vírus, mas medem gravidade, guiam o tratamento e ajudam a afastar diferenciais. Repetir a imagem quando houver piora neurológica é parte do manejo da hipertensão intracraniana.

ExameAchados esperadosUso prático
LCRPleocitose (neutrofílica precoce na EEE, depois linfocítica), proteína ↑, glicose normal.Gram, cultura, PCR para HSV-1/2, VZV, enterovírus; guardar alíquota para alfavírus.
RM de encéfaloEEE: núcleos da base, tálamos, tronco, córtex. Edema difuso nos graves.Lobo temporal sugere HSV; também avalia edema e herniação.
TC de crânioPode ser normal no início; edema e efeito de massa na piora.Antes da punção se rebaixamento, déficit focal, papiledema, crise recente ou imunossupressão.
EEGLentificação difusa; atividade epileptiforme ou crises não convulsivas.Indicado em rebaixamento flutuante ou desproporcional.
Laboratório geralLeucocitose possível; hiponatremia.Sódio seriado; glicemia; função renal (ajuste do aciclovir).

Diagnósticos diferenciais

A encefalite equina é diagnóstico de exclusão na prática clínica inicial. O primeiro diferencial é sempre o tratável — herpes e meningite bacteriana —; os demais são guiados pela epidemiologia local.

DiferencialPor que confundeO que ajuda a separar
Encefalite herpéticaFebre, confusão, crises, LCR linfocítico.Lobo temporal na RM; PCR de HSV no LCR. Aciclovir até excluir.
Meningite bacterianaFebre, cefaleia, rigidez de nuca, rebaixamento; LCR neutrofílico.Glicose baixa no LCR, Gram e cultura, lactato elevado.
Febre do Nilo Ocidental e encefalite de Saint LouisFlavivírus neuroinvasivos; também acometem tálamo e núcleos da base; aves e equinos.Sorologia e PRNT específicos; paralisia flácida favorece Nilo Ocidental.
Dengue, chikungunya, Zika, OropoucheFase febril idêntica; podem ter complicações neurológicas.NS1/RT-PCR/IgM específicos; reatividade cruzada entre alfavírus.
RaivaEncefalite com agitação; exposição a animais.Hidrofobia, aerofobia, mordedura ou contato com morcego.
Febre maculosaFebre, cefaleia, confusão em área rural.Carrapato, exantema; doxiciclina empírica se suspeita.
Encefalite autoimune (ex.: anti-NMDAR)Psiquiátrico, crises, discinesias; pode seguir encefalite viral.Anticorpos no LCR e soro; curso subagudo.

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O essencial de tratamento

  1. Não há antiviral específico: o tratamento é sintomático na forma febril e neurointensivo na encefalite.
  2. Toda encefalite febril recebe aciclovir até a exclusão de HSV; antibiótico se meningite bacteriana não foi afastada.
  3. Crises: benzodiazepínico em até 5 minutos e, se persistirem, levetiracetam, fenitoína ou valproato.
  4. HIC: cabeceira a 30°, normocapnia, normonatremia, osmoterapia (manitol ou salina hipertônica). IVIG e corticoide sem benefício comprovado.

Princípios do tratamento

Três ideias organizam a conduta. A primeira é cobrir o que é tratável: no momento em que o paciente chega, ninguém sabe se é alfavírus, e a encefalite herpética sem aciclovir tem alta mortalidade. A segunda é proteger o cérebro: evitar hipóxia, hipotensão, hipertermia, hipo/hiperglicemia e hiponatremia, que agravam a lesão secundária.

A terceira é tratar as complicações cedo: crises, estado de mal e hipertensão intracraniana matam mais rápido que o próprio vírus. As rotas abaixo seguem a ordem em que o paciente costuma se apresentar.

Forma febril, sem sinais neurológicos

  • Sintomáticos e hidratação (Rota 1).
  • Orientar sinais de alarme neurológico.
  • Notificar se contexto epidemiológico compatível.

Qualquer sinal neurológico

  • Internação; UTI se rebaixamento, crises ou HIC.
  • Cobertura empírica (Rota 2) na primeira hora.
  • Suporte neurointensivo (Rotas 3–5).

Rotas de tratamento

Cada rota é um cenário clínico. Abra só a rota em que o seu paciente está: a tabela mostra dose, frequência e duração de cada esquema, e o nome de cada medicamento abre a ficha completa. Opções do mesmo grupo são alternativas — escolha uma.

Monitoramento durante a internação

A deterioração neurológica pode ser rápida nos primeiros dias, e parte dela vem de causas corrigíveis — crise não convulsiva, hiponatremia, hipercapnia, efeito adverso de fármaco. O monitoramento seriado existe para pegar essas causas a tempo.

  • Neurológico: Glasgow e pupilas de horário na fase aguda; nova imagem se piora.
  • Laboratório: sódio seriado, glicemia, creatinina (aciclovir e vancomicina), hemograma.
  • Fármacos: nível de vancomicina; nível de fenitoína se usada; osmolaridade com manitol.
  • EEG se rebaixamento desproporcional ou flutuante.

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O essencial de cenários especiais

  1. Nenhum grupo tem tratamento específico: muda o ambiente de cuidado e a dose dos fármacos.
  2. Gestação: VEE e WEE podem atravessar a placenta; vigilância obstétrica e neonatal.
  3. Lactentes com WEE e idosos com EEE têm maior letalidade e sequelas.
  4. Laboratório: aerossol infecta; trabalho com o vírus exige nível de biossegurança 3.

O que muda em cada cenário

As encefalites equinas pesam mais nos extremos de idade, na gestação e em quem tem comorbidades. Em todos esses grupos o tratamento é o mesmo suporte; o que muda é o limiar para internação, o ajuste de doses e o planejamento do seguimento.

CenárioParticularidadeO que fazer diferente
GestaçãoTransmissão transplacentária descrita na WEE e na VEE; VEE associada a aborto, natimorto e encefalite fetal.Avaliação obstétrica; ultrassonografia fetal; avisar a neonatologia. Aciclovir pode ser usado na gestação. Evitar valproato.
Recém-nascido de mãe infectada perto do partoRisco de infecção congênita/perinatal (WEE).Observação neonatal; investigar se febre, irritabilidade ou crises.
Lactentes <1 anoWEE: forma neurológica mais frequente; cerca de metade dos <1 mês fica com sequela grave.Internação com limiar baixo; UTI pediátrica; seguimento de neurodesenvolvimento.
Idosos e comorbidadesEEE: letalidade de 64% acima de 70 anos (EUA, 2019). Óbitos por WEE com diabetes, câncer, HAS.Monitorização intensiva precoce; ajuste renal de aciclovir e levetiracetam; atenção a delirium e aspiração.
ImunossuprimidosIncubação da EEE pode ser mais longa (semanas).Ampliar diferencial (oportunistas) e cobrir Listeria.
Doadores de sangue e órgãosEEE transmitida por transplante de órgão a três receptores.Após EEE, não doar sangue por 120 dias (CDC).
Profissional de laboratórioEEEV, WEEV e VEEV infectam por aerossol; casos laboratoriais documentados.Nível de biossegurança 3; cabine classe II; vacinas experimentais só em programas especiais.
Veterinários e necropsia equinaTecido nervoso de equinos pode conter vírus.EPI completo e proteção contra aerossóis e perfurocortantes.

Biossegurança laboratorial

Amostras frescas de qualquer tipo devem ser tratadas como potencialmente infecciosas. Isolamento viral e manipulação de culturas exigem contenção nível 3; RNA extraído pode ser manuseado fora da cabine. Avise o laboratório quando enviar amostra de caso suspeito.

  • Processar em cabine de segurança biológica classe II certificada, por profissional treinado.
  • Prevenir exposição percutânea; descarte seguro de perfurocortantes.
  • Desinfetantes comuns inativam alfavírus (hipoclorito, etanol 70%, peróxido de hidrogênio).
  • Identificar a amostra como suspeita de arbovírus encefalitogênico.

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O essencial de seguimento e prevenção

  1. Sobreviventes de encefalite precisam de reabilitação e seguimento neurológico (epilepsia, cognição, motricidade).
  2. Notificação compulsória imediata (até 24 h) do caso humano suspeito; epizootia equina ao serviço veterinário oficial.
  3. Prevenção: vacinação anual de equinos, controle vetorial, proteção individual contra picadas.
  4. Não há vacina humana licenciada nem profilaxia pós-exposição.

Seguimento após a fase aguda

A recuperação neurológica pode levar meses. Na EEE, mais da metade dos sobreviventes mantém sequelas, de disfunção leve a incapacidade grave; na WEE e na VEE, adultos costumam se recuperar, mas lactentes e crianças podem ficar com epilepsia e déficits de desenvolvimento.

Planeje desde a alta: reabilitação (fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional), seguimento neurológico, ajuste de anticonvulsivantes e avaliação neuropsicológica. Em crianças, acompanhamento do neurodesenvolvimento.

Retorno imediato

Nova crise, piora da consciência, cefaleia intensa progressiva, febre recorrente ou alteração de comportamento.

Prevenção em Saúde Única

Como não há vacina humana licenciada, a proteção das pessoas depende de interromper o ciclo nos animais e nos vetores. Cavalos vacinados não adoecem nem servem de sentinela silenciosa — e, na VEE epidêmica, deixam de amplificar o vírus.

Prevenção

Cavalo, mosquito, pessoa

Vacinação equina, manejo ambiental e proteção individual atuam em pontos diferentes do mesmo ciclo.

Equinos

Vacinação com alta cobertura e reforço anual; abrigo telado nos horários de pico; evitar aglomerações e trânsito de equinos durante surtos.

Ambiente e vetor

Drenar ou aterrar coleções de água; reduzir abrigo de mosquitos; inseticida conforme vigilância entomológica e resistência.

Pessoas

Repelente (DEET, IR3535, icaridina), roupas compridas, telas, mosquiteiro para quem dorme de dia; evitar amanhecer e entardecer em surtos.

Vigilância e notificação

No Brasil, as encefalites equinas entram na Lista Nacional de Notificação Compulsória como “Febre do Nilo Ocidental e outras arboviroses de importância em saúde pública”, de notificação imediata (até 24 h) à vigilância municipal/estadual, já na suspeita.

Na saúde animal, EEE, WEE e VEE são de notificação obrigatória ao serviço veterinário oficial (MAPA e agências estaduais de defesa agropecuária). Equinos com sinais neurológicos também interessam à vigilância de epizootias da saúde, por serem sentinelas.

Suspeite por febre + encefalite + área rural/epizootia equina; cubra herpes com aciclovir, trate crises e HIC, confirme com IgM no LCR ou sorologia pareada e notifique em 24 h.

Erros comuns

A maioria dos erros vem de tratar a encefalite equina como um diagnóstico em si, e não como uma das causas de encefalite febril — ou de confiar em exames no momento errado.

ErroPor que é um problemaComo evitar
Atrasar aciclovir aguardando etiologiaEncefalite herpética não tratada tem alta letalidade.Aciclovir na primeira hora; suspender só após excluir HSV.
Descartar com RT-PCR negativoViremia curta; vírus some do sangue antes da encefalite.IgM no LCR e sorologia pareada.
Considerar IgM sérica isolada como confirmaçãoReatividade cruzada com chikungunya e Mayaro.PRNT e amostra pareada; testar outros alfavírus.
Usar corticoide ou IVIG de rotinaSem benefício demonstrado.Restringir a decisões de equipe especializada.
Hidratar com solução hipotônicaHiponatremia piora o edema cerebral.Fluidos isotônicos e sódio seriado.
Ignorar cavalos doentes na regiãoPerde-se a principal pista epidemiológica.Perguntar ativamente; notificar epizootias.

Referências principais

  1. 1
    Diretriz2024
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Aviso importante

Material educacional de apoio à decisão clínica. Não substitui avaliação individualizada, protocolos institucionais, serviço de referência, infectologia, pediatria/obstetrícia nem consulta às bulas. Doses de aciclovir, anticonvulsivantes e osmoterapia, metas de neurointensivismo e indicação de neurocirurgia devem seguir o protocolo institucional; IVIG e corticoide não têm benefício comprovado nas encefalites por alfavírus.

Conteúdo para educação médica. Condutas devem ser individualizadas e conferidas com protocolos oficiais, contexto epidemiológico e disponibilidade local.
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