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Encefalomielite bovina

Síndromes neurológicas de bovinos — foco em Rabies lyssavirus (raiva dos herbívoros) e no príon da encefalopatia espongiforme bovina

Não existe uma “encefalomielite bovina” humana: o que existe é o bovino com doença neurológica e o risco para quem o manipula. No Brasil, a causa zoonótica que importa é a raiva dos herbívoros, transmitida ao rebanho pelo morcego hematófago — e a conduta médica é a profilaxia antirrábica conforme o tipo de exposição.

Bovino com síndrome nervosaRaiva dos herbívorosProfilaxia antirrábicaEEB / vDCJ (vigilância)
14–17 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. “Encefalomielite bovina” não é uma zoonose humana definida: o tema é o bovino com síndrome nervosa e o risco de quem o manipula.
  2. A causa zoonótica relevante por contato é a raiva dos herbívoros, mantida pelo morcego hematófago Desmodus rotundus.
  3. A EEB (príon) é diferencial de vigilância; o risco humano (vDCJ) é alimentar, não por contato.
  4. Para o médico, o que importa é classificar a exposição e indicar a profilaxia antirrábica correta.

Por que este artigo não descreve uma doença humana

“Encefalomielite bovina” descreve uma síndrome veterinária — inflamação do encéfalo e da medula em bovinos — que tem várias causas. A maioria delas (herpesvírus bovino tipo 5, botulismo, polioencefalomalácia, babesiose cerebral, intoxicações) não é transmitida ao ser humano. Não há uma doença humana chamada “encefalomielite bovina”, e seria um erro tratá-la como tal.

O que existe, e importa ao médico, é a pergunta: esta pessoa teve contato de risco com um bovino com doença neurológica? No Brasil, a resposta orienta sobretudo a profilaxia da raiva. A EEB entra como diferencial de vigilância animal e pela sua contraparte humana, a variante da doença de Creutzfeldt-Jakob (vDCJ), de transmissão alimentar.

Diante de um bovino com sinais neurológicos, pense em raiva primeiro: classifique a exposição humana, indique a profilaxia pelo quadro oficial e acione o serviço veterinário para o diagnóstico do animal.

As síndromes nervosas de bovinos e o que elas significam para o humano

O Guia de Vigilância em Saúde lista os diferenciais da raiva bovina: babesiose, botulismo, doenças metabólicas, EEB, febre catarral maligna, herpesvírus, plantas tóxicas, organofosforados, listeriose, rinotraqueíte infecciosa, outras encefalites e tétano. Para o médico, a tabela abaixo separa o que é zoonose do que não é.

Visão geral

Um sinal (bovino neurológico), várias causas

Só a raiva exige conduta imediata em quem teve contato com o animal.

Causa no bovinoAgenteRisco humanoConduta para a pessoa
Raiva dos herbívorosRabies lyssavirus (variante do morcego hematófago)Sim — saliva em mucosa/lesão, mordeduraProfilaxia antirrábica conforme a exposição.
Encefalopatia espongiforme bovina (EEB)Príon (PrPSc)EEB clássica → vDCJ, por ingestão de tecido de riscoSem profilaxia; vigilância e segurança alimentar.
Listeriose (encefalite do tronco)Listeria monocytogenesSim, mas sobretudo por alimentos; contato ocupacional raroHigiene; orientar gestantes e imunossuprimidos.
Meningoencefalite por BoHV-5Herpesvírus bovino tipo 5Não zoonóticaNenhuma específica.
BotulismoToxina de C. botulinum (tipos C e D em bovinos)Raro com os tipos bovinosNenhuma específica; não consumir carcaça.
Polioencefalomalácia, babesiose cerebral, intoxicaçõesMetabólica/tiamina-enxofre; Babesia bovis; plantas, organofosforadosNão zoonóticasNenhuma específica.

A clínica do bovino não separa essas causas com segurança: por isso o encéfalo vai ao laboratório e a exposição humana é conduzida como raiva até o resultado.

O agente que importa: vírus da raiva

O vírus da raiva é um Lyssavirus neurotrópico: multiplica-se no ponto de inoculação, sobe pelos nervos periféricos até o sistema nervoso central e depois desce às glândulas salivares. Por isso a saliva do bovino doente é infectante, e por isso a infiltração de soro na ferida — antes que o vírus entre no nervo — é tão importante.

Agente etiológico

Rabies lyssavirus (família Rhabdoviridae)

Vírus RNA envelopado em forma de projétil. No Brasil circulam variantes ligadas a reservatórios: AgV1 e AgV2 (cães), AgV3 (morcego hematófago), AgV4 e AgV6 (morcegos insetívoros), além de variantes do cachorro-do-mato e do sagui.

  • A raiva dos herbívoros é, em geral, causada pela variante do morcego hematófago (AgV3).
  • Nos casos humanos por morcego hematófago, a forma predominante é a paralítica.

Números que orientam a conduta

A exposição a herbívoros é uma fração pequena dos atendimentos antirrábicos e, na série 2015–2021 do Ministério da Saúde, não gerou casos humanos — mas a letalidade da raiva é próxima de 100%, e a profilaxia corretamente indicada é o que mantém esse número em zero.

0,3%Dos atendimentos antirrábicos por herbívoros (média 2015–2021)
0Casos humanos por herbívoros em 2015–2021 (25 casos no total)
25–90 dIncubação da raiva em herbívoros
≈45 dIncubação média no ser humano (muito variável)

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O essencial de transmissão e risco

  1. O bovino se infecta pela mordedura do morcego hematófago Desmodus rotundus.
  2. O humano se expõe à saliva do bovino doente: mão na boca do animal, mordedura, mucosa.
  3. Tocar, alimentar ou ter saliva na pele íntegra é contato indireto — não é exposição de risco.
  4. EEB não se transmite por contato: o risco humano é pela ingestão de tecidos de risco.

O ciclo rural da raiva

A raiva dos herbívoros é mantida pelo morcego hematófago, que se alimenta do sangue do gado à noite e transmite o vírus pela mordedura. O bovino infectado adoece semanas a meses depois e morre em poucos dias; o ciclo, portanto, depende do morcego, não da transmissão entre bovinos.

O ser humano entra no ciclo como hospedeiro acidental, quase sempre pelo trabalho: examinar a boca do animal, administrar medicamentos por via oral, necropsiar ou retirar o encéfalo.

Ciclo de transmissão

Morcego hematófago → bovino → saliva → humano

A saliva de um bovino raivoso veicula o vírus da mesma forma que a de canídeos e quirópteros (Guia de Vigilância em Saúde).

Fonte, reservatório e sinais de alerta na propriedade

Mordeduras de morcego no gado (lesões sangrantes no pescoço, cernelha, orelhas) indicam que o reservatório está ativo na área. Mortes de bovinos com quadro nervoso, desmatamento, mudança de uso do solo e abrigos de morcegos próximos são fatores que a vigilância usa para estimar o risco local.

Reservatório

Desmodus rotundus

Morcego hematófago; mantém o ciclo e infecta herbívoros pela mordedura.

Sinal de alerta

Espoliação do gado

Mordeduras sangrantes no rebanho = morcego ativo na área.

Exposição humana

Mão na boca do animal

Tentativa de “desengasgar” o bovino: a situação de risco mais típica.

Quem se expõe e como

O Ministério da Saúde pede avaliação criteriosa do tipo, da frequência e do grau do contato, considerando o risco epidemiológico da localidade. A profilaxia é indicada principalmente a trabalhadores rurais em contato com animais positivos, em especial os que tiveram contato com a mucosa da boca do animal — lembrando que eles comumente têm lesões de pele nas mãos.

  • Tratadores e vaqueiros: exame da boca, “desengasgo”, administração oral de medicamentos.
  • Médicos veterinários e estudantes: exame clínico, necropsia, coleta de encéfalo.
  • Magarefes e açougueiros: manipulação de cabeça e sistema nervoso de animal doente.
  • Familiares e crianças da propriedade: contato próximo com animal doente, muitas vezes sem EPI.

O que é e o que não é exposição

A classificação segue o quadro oficial de profilaxia pós-exposição. O mais importante, na prática, é não superestimar o contato indireto — que consome imunobiológicos sem benefício — e não subestimar a saliva em mucosa ou em ferida.

Contato indireto (sem profilaxia)

  • Tocar ou dar de comer ao animal.
  • Lambedura em pele íntegra.
  • Pele íntegra em contato com secreções ou excreções, ainda que de animal raivoso.
  • Manipular utensílios potencialmente contaminados.
  • Acidente com agulha durante a aplicação da vacina animal.

Exposição de risco

  • Mordedura ou arranhadura (superficial = leve; mãos, pés, cabeça, mucosa, profunda ou múltipla = grave).
  • Saliva em lesão de pele (superficial = leve; profunda = grave).
  • Saliva em mucosa, mesmo íntegra (grave).

Leite, carne e EEB

A raiva não é reconhecida como doença de transmissão alimentar: o vírus é frágil e a infecção exige inoculação. Ainda assim, carcaça e leite de animal com suspeita de raiva não devem ser consumidos, e a ingestão de leite cru de animal raivoso deve ser discutida caso a caso com a vigilância.

Na EEB a lógica é oposta: não há transmissão por contato, mas a forma clássica foi transmitida ao ser humano pela ingestão de produtos contaminados com tecidos de risco (sobretudo sistema nervoso), originando a vDCJ. O controle é feito na cadeia de alimentação animal e no abate.

Saúde Única

Notificação do animal suspeito ao serviço veterinário + atendimento antirrábico da pessoa exposta + controle do morcego e vacinação do rebanho = o mesmo evento visto pelos dois sistemas (agricultura e saúde).

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O essencial de quadro clínico

  1. No bovino: isolamento do rebanho, sialorreia, “engasgo”, incoordenação, paralisia ascendente dos posteriores, decúbito e morte.
  2. Na pessoa exposta: nenhum sintoma no momento do atendimento — a profilaxia é preventiva.
  3. Raiva humana estabelecida: pródromo de 2–10 dias, depois forma furiosa ou paralítica; evolução para óbito em 2–7 dias.
  4. vDCJ: adulto jovem com sintomas psiquiátricos, disestesias dolorosas e ataxia, evoluindo para demência.

Reconhecer o bovino suspeito de raiva

O médico raramente vê o animal, mas precisa reconhecer a história. Bovinos raivosos costumam isolar-se do rebanho, parar de ruminar, salivar e parecer engasgados — como se houvesse um obstáculo na garganta. Depois vêm incoordenação, paralisia ascendente dos membros pélvicos, decúbito esternal, movimentos de pedalagem e morte.

Esse “engasgo” é exatamente o que leva o tratador a colocar a mão na boca do animal. Por isso, a pergunta “o animal parecia engasgado?” vale ouro na anamnese.

Sinal de alerta

Sialorreia e “engasgo”

Boca entreaberta, saliva pendente; dificuldade de deglutir.

Sinal de alerta

Isolamento e incoordenação

Afasta-se do rebanho; ataxia; pode ser achado atolado em poças.

Achado característico

Paralisia ascendente

Membros pélvicos primeiro; decúbito esternal, pedalagem, opistótono.

Sinais da raiva bovina (Guia de Vigilância em Saúde)

A forma paralítica predomina nos herbívoros. A lista abaixo resume os sinais descritos pelo Ministério da Saúde; nenhum é exclusivo da raiva, e o quadro se sobrepõe ao de EEB, BoHV-5, botulismo e intoxicações — por isso o diagnóstico é laboratorial.

  • Incoordenação motora, ataxia, tremores musculares.
  • Paralisias ascendentes dos membros pélvicos; decúbito esternal; paralisia da cauda.
  • Atonia do rúmen, salivação, tenesmo.
  • Movimentos de pedalagem, opistótono, nistagmo.
  • Diminuição dos reflexos palpebrais e linguais; morte.

Se a profilaxia falhar ou não for feita: raiva humana

Após incubação variável (média de 45 dias), surge um pródromo de 2 a 10 dias com mal-estar, febre baixa, cefaleia, irritabilidade e, caracteristicamente, parestesia ou dor no trajeto do nervo próximo ao local da exposição.

Segue-se a fase neurológica: ansiedade, hiperexcitabilidade, espasmos de faringe e laringe ao tentar beber (hidrofobia), aerofobia, sialorreia, paralisia progressiva e coma. Nos casos ligados ao morcego hematófago — a variante dos herbívoros — a forma paralítica predomina e o diagnóstico é mais difícil. A evolução até o óbito costuma levar 2 a 7 dias.

Encefalite aguda em trabalhador rural com contato com bovino neurológico nos meses anteriores: suspeite de raiva, isole com EPI e notifique imediatamente.

Variante da doença de Creutzfeldt-Jakob (vDCJ)

A vDCJ é a doença humana ligada à EEB clássica. Diferentemente da DCJ esporádica (idosos, demência rapidamente progressiva em poucos meses), acomete adultos jovens, começa com sintomas psiquiátricos e sensitivos e evolui de forma mais lenta. É extremamente rara desde o início dos anos 2000 e não tem tratamento.

vDCJ

  • Adultos jovens.
  • Início psiquiátrico (depressão, ansiedade, retraimento) e disestesias dolorosas.
  • Ataxia, movimentos involuntários, demência tardia.
  • Evolução mais longa (em geral mais de 1 ano).
  • RM: sinal do pulvinar.

DCJ esporádica

  • Idosos.
  • Demência rapidamente progressiva, mioclonias.
  • Evolução em poucos meses.
  • EEG com complexos periódicos; RT-QuIC no líquor.
  • Sem relação com bovinos.

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O essencial de diagnóstico

  1. Na pessoa exposta e assintomática não há exame que defina infecção: a decisão é clínico-epidemiológica.
  2. O diagnóstico é feito no animal: encéfalo refrigerado (nunca em formol para raiva) → IFD + prova biológica.
  3. IFD negativa no bovino permite, a critério médico, suspender o esquema enquanto se aguarda a prova biológica.
  4. Raiva humana suspeita: IFD em biópsia de pele cervical, RT-PCR, anticorpos no soro/líquor em não vacinados; autópsia.

A lógica do diagnóstico

Há três perguntas diferentes, com respostas em lugares diferentes. A pessoa precisa de profilaxia? — responde a anamnese da exposição, no primeiro atendimento. O animal tinha raiva? — responde o laboratório oficial, a partir do encéfalo. A pessoa tem raiva? — só se pergunta se surgir encefalite, e aí os exames humanos entram.

A sorologia da pessoa exposta não serve para decidir a profilaxia pós-exposição; ela tem papel no controle de quem fez pré-exposição e de imunodeprimidos.

Não espere o laboratório

Exposição de risco a herbívoro suspeito = iniciar a profilaxia no mesmo atendimento. O resultado do animal serve para eventualmente suspender, não para começar.

Diagnóstico no animal

A coleta é feita pelo serviço veterinário oficial (ou veterinário habilitado), com EPI, seguindo o manual do MAPA para doenças do sistema nervoso central de bovinos. Para raiva, o material vai refrigerado — o formol é contraindicado porque impede o isolamento viral e as técnicas imunológicas. Bovinos com síndrome nervosa negativos para raiva também são examinados para EEB.

Fluxo

Do animal ao laboratório

Encéfalo conservado em gelo, identificado, com ficha epidemiológica, ao laboratório oficial.

ExameO que mostraImplicação para a pessoa exposta
Imunofluorescência direta (IFD)Antígeno viral no tecido nervoso; resultado rápido.Negativa: o esquema pode ser suspenso a critério médico, aguardando a prova biológica.
Prova biológica (PB)Isolamento viral em camundongo ou cultura celular.Encerra o diagnóstico do animal.
RT-PCR e tipificação antigênicaRNA viral; identifica a variante (ex.: AgV3).Orienta a vigilância do ciclo de transmissão.
Histopatologia / imuno-histoquímicaCorpúsculos de Negri; na EEB, vacuolização e PrPSc no óbex.Diferenciais e vigilância de EEB.

A regra de suspender após IFD negativa não se aplica a equídeos, exceto quando o material enviado inclui tronco encefálico e medula (Guia de Vigilância em Saúde).

Diagnóstico de raiva humana (suspeita clínica)

Se uma pessoa com exposição prévia desenvolve encefalite, a confirmação em vida é possível, mas a sensibilidade é limitada: exames negativos não excluem a doença. A coleta exige EPI e deve ser combinada com o laboratório de referência.

  • IFD em folículos pilosos de biópsia de pele da região cervical, raspado de mucosa lingual ou impressão de córnea.
  • RT-PCR para RNA viral (saliva, biópsia, líquor).
  • Anticorpos neutralizantes no soro ou líquor — interpretáveis apenas em quem não recebeu vacina.
  • Autópsia: cérebro, cerebelo e medula refrigerados (ou em salina com glicerina a 50%).

Diferenciais na pessoa com encefalite e contato rural

A raiva paralítica por variante de morcego confunde-se com outras doenças neurológicas agudas. A tabela reúne diferenciais citados pelo Guia de Vigilância (tétano, botulismo, encefalites virais, intoxicações, quadros psiquiátricos) e a síndrome de Guillain-Barré, frequente na prática.

DiferencialPor que confundeO que ajuda
Síndrome de Guillain-BarréParalisia flácida ascendente.Ausência de encefalopatia e de hidrofobia; dissociação proteinocitológica.
TétanoEspasmos, trismo, ferida rural.Consciência preservada sem encefalite; trismo e opistótono proeminentes.
BotulismoParalisia descendente com disfagia.Paralisia descendente simétrica, pupilas; alimento suspeito.
Encefalites virais (arbovírus, herpes)Febre, confusão, convulsões.Epidemiologia, PCR no líquor, imagem.
Intoxicações (organofosforados, mercúrio)Quadro neurológico agudo em área rural.História de exposição, colinesterase, níveis séricos.
Quadros psiquiátricosAgitação, medo, comportamento alterado.Febre, disautonomia, hidrofobia e progressão neurológica apontam raiva.

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O essencial de tratamento

  1. Toda exposição: lavar a ferida com água e sabão em abundância e aplicar antisséptico.
  2. Herbívoro não é observado por 10 dias: indicar profilaxia pela gravidade da exposição já no atendimento.
  3. Leve: vacina dias 0, 3, 7 e 14 (IM ou ID). Grave: vacina + SAR 40 UI/kg ou IGHAR 20 UI/kg, infiltrando a lesão.
  4. Contato indireto: não indicar profilaxia. Pré-exposto com esquema completo: vacina dias 0 e 3, sem soro.

Princípios da conduta

A raiva humana estabelecida é quase sempre letal, e a profilaxia pós-exposição bem feita é praticamente sempre eficaz. Toda a conduta se resume a três decisões: classificar a exposição (indireta, leve ou grave), verificar o histórico vacinal (pré-exposição ou pós-exposição anterior) e aplicar o esquema do quadro oficial sem atraso.

Para herbívoros de produção, o Ministério da Saúde não prevê observação do animal: a coluna “mamífero doméstico de interesse econômico” leva direto à vacina (leve) ou à vacina com soro (grave). O resultado laboratorial do animal pode depois justificar a suspensão.

Classifique a exposição

A ferramenta aplica o quadro de profilaxia pós-exposição do Ministério da Saúde (Guia de Vigilância em Saúde, 2024; Nota Técnica nº 8/2022) a uma exposição a herbívoro de produção. Ela não substitui a avaliação individual nem a orientação da vigilância local.

Exposição a bovino/herbívoro suspeito

Escolha o tipo de exposição e o histórico de vacinação antirrábica.

Selecione o tipo de exposição e o histórico vacinal.

Imunodeprimidos recebem soro + vacina sistematicamente, mesmo em reexposição, com sorologia após o 14º dia da última dose.

Rotas de tratamento

Cada rota é um cenário clínico. Abra só a rota em que o seu paciente está: a tabela mostra dose, frequência e duração de cada esquema, e o nome de cada medicamento abre a ficha completa. Opções do mesmo grupo são alternativas — escolha uma.

Erros que custam caro

Os erros mais comuns vêm de transferir para o herbívoro regras pensadas para cães e gatos, ou de tratar todo contato com gado como exposição.

ErroConsequênciaCorreção
“Observar o boi por 10 dias”Atraso da profilaxia em exposição real.Herbívoro: decidir pela gravidade, já no atendimento.
Vacinar todo contato com gadoUso desnecessário de imunobiológicos.Contato indireto não exige profilaxia.
Ignorar a mão na boca do animalExposição grave tratada como nada.Perguntar ativamente sobre “desengasgo”, lesões nas mãos e respingos.
Atrasar a vacina à espera do soroPerda da janela de proteção.Vacina no dia 0; soro até o 7º dia após a 1ª dose.
Soro só por via IM, longe da feridaProteção local insuficiente.Infiltrar dentro e ao redor da lesão.
Reiniciar o esquema do faltosoDoses extras sem benefício.Continuar de onde parou, mantendo os intervalos.

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O essencial de cenários especiais

  1. Não há contraindicação à profilaxia pós-exposição: gestantes, lactantes, crianças e imunodeprimidos recebem o esquema.
  2. Imunodeprimidos e usuários de cloroquina: via IM, soro sempre que exposição de risco, e sorologia ao final.
  3. Veterinários e magarefes: PrEP, EPI e reexposição com 2 doses.
  4. EEB: Brasil nunca registrou caso clássico; casos atípicos são esporádicos e espontâneos em bovinos idosos.

O que muda em cada cenário

Como a raiva é letal, a profilaxia indicada não tem contraindicação: o que muda entre os grupos é a via, a necessidade de soro e o acompanhamento sorológico.

CenárioParticularidadeO que fazer diferente
Gestação e lactaçãoVacinas de cultivo celular são seguras.Mesmo esquema; não adiar por causa da gestação.
CriançasExposições mais graves (cabeça, mãos) e relato menos confiável.Vasto lateral da coxa em menores de 2 anos (vacina e soro em membros diferentes); valorizar o relato dos adultos.
Imunodeprimidos / cloroquina / corticoideResposta à vacina pode ser inadequada.Via IM; soro + vacina inclusive em reexposição; sorologia após o 14º dia da última dose; discutir ajuste do imunossupressor com o médico assistente.
Veterinário, estudante, técnico de laboratórioRisco permanente; muitas vezes já pré-exposto.PrEP (dias 0 e 7) e controle sorológico; na reexposição, dias 0 e 3 sem soro. Preferir IGHAR se usar soro e tiver contato frequente com equinos.
Magarefe / abate de animal doenteManipulação de cabeça e sistema nervoso.EPI; animal com sinais nervosos não deve ir ao abate comum; avaliar exposição como nos demais.
Paciente faltosoEsquema interrompido.Não reiniciar: aplicar a dose no dia em que comparecer e manter os intervalos seguintes.
Reação adversa à vacinaRara; não suspende o esquema por si.Leves: AINE/antitérmico. Graves: trocar a vacina (Crie) e aplicar em ambiente hospitalar.

Encefalopatia espongiforme bovina (EEB) e vDCJ

A EEB é uma doença priônica: uma proteína anômala (PrPSc) induz o dobramento errado da proteína normal no sistema nervoso. A forma clássica se espalhou pelo uso de farinhas de carne e ossos de ruminantes na ração e chegou ao ser humano pela ingestão de tecidos de risco, causando a vDCJ — cerca de 232 casos no mundo, a grande maioria no Reino Unido, com pico por volta de 2000.

As formas atípicas (H e L) surgem de forma espontânea em bovinos idosos. O Brasil nunca registrou EEB clássica, é reconhecido pela OMSA como país de risco insignificante e notificou casos atípicos isolados — como o de um bovino de 9 anos em Marabá (PA), tipo H, em 2023.

Achado característico

Sinal do pulvinar na vDCJ

Hiperintensidade simétrica do pulvinar talâmico em FLAIR/difusão, mais intensa que a dos núcleos da base; apoia o diagnóstico em adulto jovem com quadro compatível.

  • Sem tratamento modificador da doença.
  • Transmissão secundária por transfusão foi documentada no Reino Unido.
  • Confirmação definitiva é neuropatológica.

O controle é veterinário e alimentar: proibição de proteína de ruminantes na alimentação de ruminantes, remoção de materiais de risco específico no abate e vigilância de bovinos com síndrome nervosa (PNCRH/MAPA).

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O essencial de seguimento e prevenção

  1. Garantir que o esquema seja completado: busca ativa de faltosos.
  2. Após SAR: observar 2 horas; orientar retorno se febre, urticária, artralgia ou adenomegalia entre o 7º e o 12º dia.
  3. PrEP com controle sorológico para quem trabalha com herbívoros sob risco permanente.
  4. Notificar: atendimento antirrábico (Sinan) e animal suspeito ao serviço veterinário oficial.

Seguimento da pessoa exposta

O seguimento é, antes de tudo, logístico: cada dose no dia certo, com busca ativa de quem falta e sem reiniciar o esquema. Quando chega o laudo do animal, revise a indicação: IFD negativa pode justificar a suspensão, a critério médico, enquanto se aguarda a prova biológica.

Quem recebeu SAR deve ser observado por 2 horas e orientado sobre a doença do soro tardia. Imunodeprimidos fazem sorologia a partir do 14º dia após a última dose.

Retorno imediato

Parestesia ou dor no local da exposição, febre com alteração de comportamento, disfagia ou fraqueza progressiva: avaliar como possível raiva.

Prevenção na propriedade

A medida que mais protege o trabalhador rural custa um par de luvas: não colocar a mão desprotegida na boca de um bovino que parece engasgado. A segunda é avisar logo o serviço veterinário, que dispara a vacinação do rebanho e o controle do morcego.

Prevenção

Proteger quem maneja, controlar a fonte

EPI no manejo, vacinação do rebanho, notificação e controle do morcego hematófago.

  1. Barreira

    Luvas e proteção ocular para examinar a boca, administrar medicamentos orais e necropsiar.

  2. Notificar cedo

    Bovino com sinais nervosos ou mordeduras de morcego no rebanho → serviço veterinário oficial.

  3. Vacinar o rebanho

    Conforme orientação do serviço veterinário estadual, sobretudo em áreas de foco.

  4. PrEP

    Para veterinários e outros profissionais sob risco permanente.

  5. Não consumir

    Carne e leite de animal com suspeita de raiva ou síndrome nervosa.

Vigilância e notificação

Cada sistema notifica a sua parte. A saúde registra o atendimento antirrábico e notifica de imediato qualquer suspeita de raiva humana; a agricultura recebe a suspeita de raiva em herbívoro e, pelo PNCRH, investiga o foco, vacina o rebanho e controla o morcego. Doença de Creutzfeldt-Jakob também é de notificação compulsória.

Bovino com doença neurológica + pessoa com saliva em mucosa/lesão ou mordedura = profilaxia antirrábica no mesmo dia, sem observação de 10 dias, e notificação ao serviço veterinário.

Referências principais

  1. 1
    Documento oficial2024
    Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de Vigilância em Saúde. 6ª ed. rev. Vol. 3. Capítulo: Raiva. Brasília: Ministério da Saúde; 2024.
  2. 2
    Documento oficial2022
    Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 8/2022-CGZV/DEIDT/SVS/MS: atualizações no Protocolo de Profilaxia pré, pós e reexposição da raiva humana no Brasil. Brasília: Ministério da Saúde; 2022.
  3. 3
    Documento oficial2022
    Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 134/2022-CGZV/DEIDT/SVS/MS: orientação quanto ao uso do soro antirrábico humano e da imunoglobulina antirrábica humana em período de escassez. Brasília: Ministério da Saúde; 2022.
  4. 4
    Documento oficial2025
    Rio Grande do Sul. Secretaria Estadual da Saúde. Centro Estadual de Vigilância em Saúde. Nota Técnica Conjunta nº 07/2025-DVE/DVAS/CEVS: orientações provisórias de contingenciamento do uso de SAR e IGHAR na profilaxia pós-exposição da raiva humana. Porto Alegre: SES-RS; 2025.
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    Documento oficial2009
    Brasil. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Controle da raiva dos herbívoros: manual técnico 2009. Brasília: MAPA; 2009.
  6. 6
    Documento oficial2026
    Brasil. Ministério da Agricultura e Pecuária. Programa Nacional de Controle da Raiva dos Herbívoros e outras Encefalopatias (PNCRH) [Internet]. Brasília: MAPA; [citado 2026 out].
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    Documento oficial2023
    Brasil. Ministério da Agricultura e Pecuária. Nota oficial: Mapa confirma que caso de Encefalopatia Espongiforme Bovina é atípico [Internet]. Brasília: MAPA; 2023 mar 2.
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    Diretriz2018
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    Brasil. Ministério da Saúde. Normas técnicas de profilaxia da raiva humana. Brasília: Ministério da Saúde; 2011.

Aviso importante

Material educacional de apoio à decisão clínica. Não substitui avaliação individualizada, protocolos institucionais, serviço de referência, infectologia, pediatria/obstetrícia nem consulta às bulas. A indicação de profilaxia antirrábica deve seguir a nota técnica vigente do Ministério da Saúde e as orientações da vigilância estadual (inclusive em períodos de escassez de soro); a conduta com o animal é de responsabilidade do serviço veterinário oficial.

Conteúdo para educação médica. Condutas devem ser individualizadas e conferidas com protocolos oficiais, contexto epidemiológico e disponibilidade local.
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