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Estomatite vesicular

Vesiculovirus (VSV) — vírus RNA envelopado, família Rhabdoviridae; espécies Indiana, New Jersey, Alagoas e Cocal

Doença vesicular de equinos, bovinos e suínos, clinicamente indistinguível da febre aftosa nos animais e de notificação imediata ao serviço veterinário oficial. No humano exposto — tratador, ordenhador, veterinário, profissional de laboratório — causa síndrome gripal autolimitada, às vezes com vesículas orais: o tratamento é sintomático, e a conduta de saúde única vale tanto quanto a receita.

VesiculovirusEquinos, bovinos e suínosZoonose ocupacionalNotificação animal imediata
10–13 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Virose vesicular de equinos, bovinos e suínos por Vesiculovirus (Rhabdoviridae), endêmica nas Américas.
  2. Nos bovinos e suínos é indistinguível da febre aftosa: toda suspeita é notificada de imediato ao serviço veterinário oficial.
  3. No humano: síndrome gripal de 4–7 dias, às vezes com vesículas orais; muitas infecções são subclínicas.
  4. No Brasil predomina o vírus Alagoas (antigo Indiana 3), sobretudo no Nordeste e no Norte.

O que é estomatite vesicular

A estomatite vesicular (EV) é uma doença viral de animais de produção que causa vesículas, erosões e úlceras na boca, no focinho, nas tetas e na coroa do casco. A mortalidade animal é próxima de zero, mas a dor provoca anorexia, queda de produção de leite, mastite secundária e claudicação — e, sobretudo, o quadro é idêntico ao da febre aftosa.

Para o médico, a EV é uma zoonose ocupacional menor: quem tem contato próximo com animais doentes ou manipula o vírus no laboratório pode desenvolver uma síndrome gripal autolimitada. O valor clínico está em reconhecer a exposição, tratar os sintomas e conectar o caso humano ao foco animal.

Síndrome gripal em quem lida com animais que estão babando e com feridas na boca ou nos cascos: pense em estomatite vesicular — e confirme se o serviço veterinário oficial já foi avisado.

O agente

Os vírus da EV são rabdovírus, parentes distantes do vírus da raiva, mas com comportamento clínico completamente diferente. A Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA/WOAH) reconhece quatro espécies causadoras da doença; as três do grupo Indiana são sorologicamente relacionadas entre si.

Agente etiológico

Vesiculovirus (VSV)

Vírus envelopado, RNA de fita simples, sentido negativo, com a forma de “projétil” típica dos Rhabdoviridae.

  • Sensível a hipoclorito 1%, álcool 40–70%, fenólicos, aldeídos, detergentes, pH ácido, luz UV e calor (1 min a 60 °C).
  • Sobrevive 3–4 dias em saliva sobre baldes, cochos e feno.
  • O VSV Indiana é usado como vetor de vacinas (ex.: vacina rVSV contra ebola) e em pesquisa — fonte de exposição laboratorial.
Espécie viral (nome antigo)Onde circulaPonto prático
New Jersey (VSNJV)Sul do México, América Central, norte da América do Sul; surtos periódicos no oeste dos EUA.Causa a maioria dos casos clínicos nas áreas endêmicas; todos os casos do surto 2025–26 nos EUA.
Indiana (VSIV, antigo Indiana 1)México, América Central, norte da América do Sul.Sorotipo dos casos laboratoriais clássicos e do relato de encefalite infantil no Panamá.
Cocal (antigo Indiana 2)Argentina e Brasil, isolado em equinos.Raro; descrito em surtos pontuais.
Alagoas (VSAV, antigo Indiana 3)Endêmico no Nordeste do Brasil; surtos também no Norte.Principal agente no Brasil, em equinos, bovinos, suínos, ovinos e caprinos.

Outros vesiculovírus (Piry, Maraba e Carajás no Brasil; Chandipura na Índia) infectam humanos ou insetos, mas não causam a doença pecuária chamada estomatite vesicular.

Fisiopatologia: vesícula no ponto de entrada

O vírus entra por pele ou mucosa com solução de continuidade, ou pela picada de um inseto, e se replica no epitélio do local. Daí vem a lesão típica: edema intraepitelial que forma vesícula, rompe em poucas horas e deixa erosão dolorosa. No humano a viremia é breve e o que domina é a resposta sistêmica — febre e sintomas gripais —, com vesículas só em parte dos casos.

Fisiopatologia

Da saliva do animal à síndrome gripal

A replicação no epitélio explica a vesícula; a viremia curta explica por que o isolamento no sangue costuma falhar.

Incubação e evolução

A incubação humana é curta, e a doença também: a maioria se recupera sem complicações em menos de uma semana. Nos animais, a incubação é de alguns dias e a recuperação leva 2 a 3 semanas, a menos que haja infecção bacteriana secundária.

30 h–6 dIncubação no humano
4–7 diasDuração habitual dos sintomas
3–7 diasIncubação habitual no animal
2–3 semRecuperação do animal sem complicação

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O essencial de transmissão e risco

  1. Entre animais: insetos (flebotomíneos, borrachudos, Culicoides) e contato direto com lesões e fômites.
  2. Para o humano: saliva e líquido vesicular em pele lesionada, olhos ou boca; no laboratório, aerossol e acidente com agulha.
  3. Picada de inseto é provável em áreas endêmicas, onde a soroprevalência humana pode ser alta.
  4. Não há transmissão pessoa a pessoa documentada como via relevante.

Como o humano se infecta

O vírus está concentrado no líquido das vesículas e no epitélio que as recobre, e contamina a saliva do animal com lesões orais. A via humana mais documentada é o contato desse material com pele lesionada ou mucosa — ao abrir a boca do animal, ordenhar vacas com lesões nas tetas, fazer curativos ou coletar amostras.

No laboratório, houve infecções por aerossol e por acidente perfurocortante. Em regiões endêmicas, a presença de anticorpos em pessoas sem contato direto sugere que parte das infecções venha da picada de insetos. Fezes, urina e leite não são consideradas vias importantes.

Ciclo de transmissão

Inseto → animal com vesículas → humano exposto

O reservatório natural ainda é incerto; os animais de produção funcionam como fonte para o humano durante o surto.

Os animais e o foco

Equinos são a espécie em que a EV é notificada com mais frequência; bovinos e suínos também adoecem, e ovinos e caprinos raramente. Em geral só 10–15% dos animais do rebanho mostram sinais, quase sempre adultos. A pista de campo clássica para separar EV de febre aftosa é o equino: a febre aftosa não acomete cavalos.

Pista diagnóstica

Equino com lesões orais

Salivação, vesículas e erosões na língua e nos lábios; febre aftosa não acomete equinos.

Indistinguível da aftosa

Bovino com vesículas

Língua, focinho, tetas e coroa do casco; só o laboratório oficial separa EV de aftosa.

Fonte de exposição

Manejo sem proteção

Exame da boca e ordenha sem luvas expõem mãos com fissuras e mucosas.

Quem está em risco

O risco humano depende de contato próximo com a fonte de vírus. Num estudo durante a epizootia de 1982–83 nos EUA, só 17 de 133 pessoas expostas tinham evidência de infecção — e quase todas tinham contato direto. Antes da biossegurança moderna, por outro lado, 54 de 74 trabalhadores de laboratório e tratadores eram soropositivos.

  • Tratadores, vaqueiros e ordenhadores de propriedades com foco ativo.
  • Médicos-veterinários e técnicos do serviço oficial que examinam animais e coletam amostras.
  • Profissionais de laboratório que manipulam VSV vivo, vetores rVSV ou amostras de vesículas.
  • Moradores de áreas endêmicas, expostos a insetos vetores (risco baixo, em geral subclínico).

Epidemiologia e Saúde Única

A EV é endêmica do sul do México ao norte da América do Sul e invade periodicamente áreas não endêmicas, com sazonalidade ligada aos vetores: some ao fim da estação chuvosa nos trópicos e com as primeiras geadas nas zonas temperadas. No Brasil, o vírus Alagoas é endêmico no Nordeste; entre 2010 e 2014 foram notificados à OMSA 129 focos em 12 estados, concentrados no Nordeste e no Norte.

Desde maio de 2025 o Brasil é reconhecido pela OMSA como livre de febre aftosa sem vacinação. Com o rebanho sem vacina, cada síndrome vesicular precisa de investigação rápida — e o diagnóstico de EV é, na maior parte das vezes, o que tranquiliza o sistema.

Saúde Única

Foco animal notificado → serviço veterinário oficial investiga e afasta febre aftosa → trabalhadores expostos recebem orientação de EPI e de sinais de alerta → caso humano é tratado e comunicado à vigilância.

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O essencial de quadro clínico

  1. Início abrupto: febre alta (às vezes bifásica), cefaleia, mialgia, artralgia, mal-estar intenso, dor retro-orbitária.
  2. Pode haver conjuntivite, queilite, linfadenopatia e náuseas; vesículas orais, labiais ou nas mãos em parte dos casos.
  3. Evolução benigna em 4–7 dias; nenhum óbito descrito em infecções laboratoriais.
  4. Exceção grave: encefalite descrita em crianças pequenas (caso no Panamá, sorotipo Indiana).

Apresentação clínica no humano

Os casos mais bem documentados vêm de infecções de laboratório: doença aguda, semelhante à influenza, com febre alta — às vezes em dois picos —, cefaleia, mialgia, artralgia, dor retroesternal ou retro-orbitária, mal-estar intenso e, em alguns, conjuntivite e linfadenopatia. Um paciente com acidente de agulha teve náuseas, vômitos e diarreia que cederam em 24 horas.

As vesículas são o achado que faz pensar em EV, mas não são a regra: quando aparecem, ficam na mucosa oral, nos lábios ou nas mãos — frequentemente no ponto de contato com o animal. Muitas infecções são subclínicas, e a doença provavelmente é subdiagnosticada como “gripe”.

Mais frequente

Síndrome gripal

Febre alta, às vezes bifásica, com cefaleia, mialgia e prostração.

Achado característico

Vesículas orais e labiais

Vesículas que rompem em erosões rasas e dolorosas; queilite.

Pista ocupacional

Vesícula na mão

No ponto de contato com saliva ou lesão do animal.

Evolução esperada

A curva típica é curta. Saber o que é esperado ajuda a orientar o paciente e a reconhecer o que foge do padrão — febre que passa de uma semana, sinais neurológicos ou desidratação pedem reavaliação.

  1. Incubação — 30 h a 6 dias

    Após contato com saliva, líquido vesicular ou vírus de laboratório.

  2. Fase febril — dias 1 a 3

    Febre alta, cefaleia, mialgia, mal-estar; conjuntivite ou queilite podem ser precoces.

  3. Possível segundo pico e lesões

    Febre bifásica em parte dos casos; vesículas orais, labiais ou nas mãos quando ocorrem.

  4. Resolução — 4 a 7 dias

    Recuperação sem sequelas na grande maioria; astenia pode persistir alguns dias.

Sinais de alerta

Complicações são raras, mas existem dois riscos reais. Em crianças pequenas, a dor oral pode levar à recusa de líquidos e à desidratação; e há relato de encefalite grave por VSV Indiana em um menino de 3 anos no Panamá. Fora isso, sinais de gravidade devem levar a buscar outro diagnóstico — dengue, por exemplo.

  • Desidratação: recusa de líquidos, diurese reduzida, mucosas secas, letargia.
  • Sinais neurológicos: confusão, sonolência, convulsão, rigidez de nuca — investigar encefalite.
  • Sinais de alarme de dengue na síndrome febril: dor abdominal intensa, vômitos persistentes, sangramento, hipotensão.
  • Febre além de 7 dias ou lesões que se estendem: rever o diagnóstico.

No animal (para entender o foco)

Saber o que o produtor está vendo ajuda a ligar os pontos na anamnese. O primeiro sinal costuma ser a salivação excessiva; as vesículas rompem rápido e podem já ter virado erosões quando o animal é examinado.

LocalAchadosConsequência
Boca e focinhoVesículas na língua (dorso), lábios, gengiva e palato; erosões que coalescem.Salivação, anorexia, recusa de água, perda de peso.
TetasVesículas e erosões nas tetas de vacas em lactação.Queda de produção, mastite secundária; fonte de exposição na ordenha.
CascosCoronite e lesões interdigitais.Claudicação; laminite e até perda do casco.

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O essencial de diagnóstico

  1. No humano, o diagnóstico é clínico-epidemiológico; não há teste de rotina.
  2. Confirmação, quando necessária: sorologia pareada (neutralização) ou RT-PCR/isolamento do líquido vesicular, via vigilância.
  3. O foco animal é confirmado pelo laboratório oficial do MAPA, que também afasta febre aftosa.
  4. Na síndrome febril, afaste dengue e influenza; nas lesões orais, herpangina, herpes, mão-pé-boca e aftas.

Como chegar ao diagnóstico

O raciocínio parte da exposição. Febre e sintomas gripais até cerca de uma semana após contato próximo com animais com síndrome vesicular, ou após acidente com VSV no laboratório, tornam a hipótese provável. Vesículas orais, labiais ou na mão reforçam muito a suspeita.

A confirmação laboratorial no humano raramente muda a conduta, mas tem valor de vigilância — sobretudo em conglomerado de casos ou acidente de laboratório. Já a confirmação do foco animal é obrigatória e cabe ao serviço veterinário oficial.

  1. Exposição

    Animal com vesículas ou vírus no laboratório nos últimos ~7 dias.

  2. Clínica

    Síndrome gripal ± vesículas orais, labiais ou nas mãos.

  3. Foco animal

    Notificado? Confirmado como EV pelo serviço oficial?

  4. Diferenciais

    Afastar dengue e causas comuns de estomatite.

Exames específicos

Os exames específicos para VSV não fazem parte da rotina dos laboratórios clínicos. No humano, a coleta deve ser combinada com a vigilância epidemiológica (CIEVS/LACEN), que articula o envio a um laboratório de referência. Guarde soro da fase aguda: é a amostra mais útil para comparação posterior.

ExameAmostraInterpretação
Sorologia pareada (neutralização, fixação de complemento, ELISA)Soro agudo + convalescente (14–21 dias depois).Soroconversão ou aumento de 4 vezes no título confirma. Método de quase todos os casos humanos descritos.
RT-PCRLíquido de vesícula, swab de lesão, swab de orofaringe.Útil na fase aguda com lesões; disponibilidade restrita a referência.
Isolamento viralLíquido e epitélio de vesícula; orofaringe.No sangue costuma falhar: viremia muito breve.
Exames geraisHemograma, função renal e eletrólitos se desidratação.Inespecíficos; servem para afastar diferenciais e avaliar gravidade.

Diagnóstico no animal: o diferencial com febre aftosa

Em bovinos e suínos, a EV não pode ser separada clinicamente da febre aftosa, e em suínos também se confunde com a doença vesicular suína, o exantema vesicular e o senecavírus A. Por isso, a coleta é feita pelo serviço veterinário oficial com a mesma metodologia usada para aftosa: líquido vesicular, epitélio de vesículas íntegras ou recém-rompidas, e soro pareado quando não há lesão adequada.

Favorece estomatite vesicular

  • Equinos acometidos (aftosa não afeta cavalos).
  • Poucos animais doentes no rebanho (10–15%).
  • Sazonalidade ligada a insetos.

Não permite descartar aftosa

  • Lesões em bovinos e suínos sem equinos afetados.
  • Exame clínico, por mais típico que seja.
  • Só o laboratório oficial encerra a investigação.

Diagnósticos diferenciais

Há dois grupos de diferenciais. Para a síndrome febril, o essencial no Brasil é não perder dengue. Para as lesões orais, a localização das vesículas, a idade, a recorrência e a presença de lesões em mãos e pés costumam resolver; e, em quem lida com animais, entram as poxviroses ocupacionais.

Comparação visual

Onde ficam as lesões orais em cada doença

Palato posterior na herpangina, gengiva e boca anterior no herpes, boca + mãos e pés na mão-pé-boca, úlcera isolada com halo na afta.

DiferencialO que se pareceO que ajuda a separar
Herpangina (enterovírus, sobretudo Coxsackie A)Febre + vesículas orais dolorosas.Crianças, verão; vesículas pequenas no palato mole, úvula e pilares amigdalianos; sem contato com animais.
Gengivoestomatite herpética (HSV-1)Febre, vesículas e úlceras orais dolorosas.Primoinfecção em criança: gengivite intensa e lesões na boca anterior; no adulto, herpes labial recorrente agrupado em cacho, com pródromo de ardor.
Doença mão-pé-boca (enterovírus)Vesículas orais + febre baixa.Lesões também em palmas, plantas e região glútea; surtos em creches.
Aftas (estomatite aftosa recorrente)Úlceras orais dolorosas.Sem febre; úlceras redondas com halo eritematoso e fundo amarelado; recorrentes; sem vesícula prévia.
Dengue, influenza, COVID-19Febre, cefaleia, mialgia, dor retro-orbitária.Epidemiologia, testes específicos (NS1/IgM, teste rápido respiratório); vesículas orais não são típicas.
Vaccínia bovina, ectima contagioso (orf), pseudovaríola (nódulo dos ordenhadores)Lesões nas mãos de quem lida com animais.Pápula → vesícula → pústula umbilicada ou crosta em semanas; nódulos, sem quadro gripal intenso; animais com lesões crostosas.
Mpox, varicelaFebre + lesões vesiculares.Exantema que se estende ao tronco/genitais; linfadenopatia marcada (mpox); PCR específico.
Eritema multiforme, Stevens-Johnson, BehçetErosões orais extensas.Gatilho medicamentoso ou herpético, lesões em alvo, acometimento ocular/genital, recorrência.

Febre aftosa humana é excepcional e não é diferencial prático; o diferencial com aftosa acontece no animal.

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O essencial de tratamento

  1. Não há antiviral, imunoglobulina nem profilaxia pós-exposição para VSV: o tratamento é sintomático.
  2. Febre e mialgia: paracetamol ou dipirona. AINE só depois de afastar dengue e se o paciente estiver hidratado.
  3. Lesões orais: anestésico ou anti-inflamatório tópico antes das refeições, dieta fria e pastosa, higiene oral suave.
  4. Criança com dor oral: hidratação é a prioridade; desidratação é a principal causa de internação.

Princípios do tratamento

A doença é autolimitada, então o objetivo é atravessar a semana com o mínimo de sofrimento e sem complicações. Isso se resume a três tarefas: controlar febre e dor com analgésicos simples em dose e intervalo corretos; manter a boca funcional, aliviando a dor das lesões para que o paciente coma e beba; e evitar desidratação, especialmente em crianças.

Antibiótico não trata a virose — fica reservado à infecção bacteriana secundária comprovada. As rotas abaixo seguem os cenários que aparecem na prática; abra “Ver detalhes” em cada linha para a ficha completa e a dose por peso.

Dengue antes de AINE

No Brasil, toda síndrome febril aguda pode ser dengue. Até afastá-la, prefira paracetamol ou dipirona; evite ibuprofeno e outros AINE. Ácido acetilsalicílico não deve ser usado, e em crianças com virose também pelo risco de síndrome de Reye.

Rotas de tratamento

Cada rota é um cenário clínico. Abra só a rota em que o seu paciente está: a tabela mostra dose, frequência e duração de cada esquema, e o nome de cada medicamento abre a ficha completa. Opções do mesmo grupo são alternativas — escolha uma.

A outra metade da conduta: notificar

Tratar o paciente não encerra o caso. Se o foco animal ainda não foi comunicado, oriente o produtor — ou comunique diretamente — ao serviço veterinário oficial (órgão estadual de defesa agropecuária ou e-SISBRAVET). O caso humano, sobretudo em conglomerado ou acidente de laboratório, deve ser comunicado à vigilância epidemiológica municipal ou ao CIEVS.

Receita sintomática para o trabalhador + notificação imediata do foco animal = conduta completa na estomatite vesicular.

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O essencial de cenários especiais

  1. Crianças: maior risco de desidratação e o único relato de encefalite grave.
  2. Gestantes: sem dados de dano fetal; paracetamol é o antitérmico preferido.
  3. Laboratório: VSV selvagem é risco biológico 2 (contenção nível 2); vetores rVSV também exigem cuidado.
  4. Brasil livre de aftosa sem vacinação: síndrome vesicular animal é sempre emergência sanitária até prova em contrário.

O que muda em cada cenário

Nenhum grupo tem tratamento específico; o que muda é o cuidado com a dose dos sintomáticos, a vigilância de complicações e a abordagem ocupacional.

CenárioParticularidadeO que fazer diferente
Criança pequenaDor oral leva à recusa de líquidos; relato de encefalite por VSV Indiana em menino de 3 anos.Analgesia por peso em horário fixo, Rota 3 de hidratação; sinais neurológicos = investigação de encefalite (LCR, imagem).
GestanteSem relatos de transmissão vertical em humanos; nos animais o vírus não parece atravessar a placenta.Paracetamol como 1ª escolha; evitar AINE (sobretudo no 3º trimestre); hidratação; afastar dengue.
Idoso e comorbidadesMenor reserva para febre e desidratação; polifarmácia.Atenção a interações e à função renal; dose de paracetamol reduzida em hepatopatia.
ImunossuprimidoPouca informação; vetores rVSV atenuados podem ter replicação maior.Acompanhamento mais próximo; afastar da manipulação de animais doentes ou vetores durante o surto.
Laboratório de pesquisaVSV selvagem é risco biológico 2; vetores rVSV (inclusive vacinais) são usados amplamente.Cabine de segurança biológica, EPI, nada de reencapar agulhas; acidentes seguem a Rota 4.
Veterinário do serviço oficialContato intenso com vesículas durante a coleta.Luvas, óculos ou protetor facial, roupa descartável ou lavável; sedar o animal antes da coleta, como recomenda a OMSA, para evitar ferimentos.

Por que a notificação animal é urgente

A estomatite vesicular consta da lista do MAPA (IN 50/2013) entre as doenças que exigem notificação imediata de qualquer caso suspeito, e é doença de notificação obrigatória à OMSA. O motivo é simples: o médico ou o produtor não têm como saber, à beira do curral, se aquelas vesículas são EV ou febre aftosa — e o custo de deixar passar uma aftosa é enorme para o país.

Quem notifica

Qualquer cidadão: produtor, veterinário, médico ou trabalhador.

Para quem

Serviço veterinário oficial: órgão estadual de defesa agropecuária, unidade do MAPA ou e-SISBRAVET.

Enquanto isso

Não movimentar animais nem produtos da propriedade até orientação oficial.

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O essencial de seguimento e prevenção

  1. Retorno se febre além de 7 dias, sinais neurológicos, desidratação ou alarme de dengue.
  2. Lesões orais cicatrizam sem sequela; recuperação completa esperada em cerca de 1 semana.
  3. Prevenção: EPI no manejo de animais com vesículas, higiene e desinfecção, controle de insetos, biossegurança no laboratório.
  4. Não há vacina humana; vacinas animais não são usadas no Brasil.

Seguimento

A maioria dos pacientes não precisa de retorno programado: a orientação de sinais de alerta basta. Em crianças com lesões orais, uma reavaliação em 24–48 horas — presencial ou por contato — ajuda a pegar a desidratação cedo.

Se a sorologia foi coletada, a amostra convalescente deve ser colhida 14 a 21 dias após a primeira. O retorno ao trabalho com animais deve acontecer com EPI e, de preferência, depois que as lesões das mãos cicatrizarem.

Retorno imediato

Sonolência, confusão, convulsão ou rigidez de nuca; criança que não bebe ou não urina; dor abdominal intensa, vômitos persistentes ou sangramentos.

Prevenção no manejo de animais doentes

Como a infecção humana vem do contato de saliva e líquido vesicular com pele lesionada e mucosas, barreiras físicas resolvem a maior parte do risco. A orientação deve chegar a todos que trabalham na propriedade durante o foco, não só ao veterinário.

Prevenção

EPI para quem toca a boca, as tetas e os cascos

Luvas, proteção ocular e roupa de trabalho; mãos lavadas e equipamentos desinfetados.

  1. Proteja-se

    Luvas (cobrir cortes nas mãos), óculos ou protetor facial, roupa e botas laváveis.

  2. Organize a ordenha

    Ordenhar por último as vacas com lesões; desinfetar teteiras e baldes entre os animais.

  3. Desinfete

    Hipoclorito de sódio 1%, álcool 70%, fenólicos ou detergentes em cochos, bebedouros e equipamentos.

  4. Isole e controle insetos

    Separar animais doentes; abrigar o rebanho e controlar moscas e mosquitos.

  5. Higienize-se

    Lavar as mãos ao terminar; não levar as mãos aos olhos e à boca durante o manejo.

Biossegurança no laboratório

Até 1980 foram registradas 46 infecções laboratoriais por VSV New Jersey e Indiana, sem óbitos — a maioria antes da biossegurança moderna. Hoje, os vírus Indiana, New Jersey, Alagoas e Cocal são classificados como risco biológico 2 pela agência de saúde pública do Canadá; Piry e Chandipura, como risco 3. O trabalho com vírus vivo deve seguir a avaliação de risco local.

  • Manipulação de vírus vivo e amostras de vesículas em cabine de segurança biológica.
  • Luvas, jaleco e proteção ocular; não reencapar agulhas.
  • Descontaminação de bancadas com hipoclorito ou desinfetante validado.
  • Fluxo de acidente conhecido por toda a equipe (Rota 4).

Erros comuns

Os erros na EV raramente são graves para o paciente — mas podem custar caro ao sistema de vigilância animal ou causar dano por excesso de tratamento.

ErroPor que é um problemaComo evitar
Não perguntar sobre animaisA “gripe” fica sem explicação e o foco animal não chega ao serviço oficial.Perguntar ocupação e contato com animais doentes em toda síndrome febril.
Assumir que é EV e não notificarFebre aftosa não pode ser excluída clinicamente.Notificar qualquer síndrome vesicular animal ao serviço veterinário oficial.
Prescrever aciclovir ou antibióticoSem benefício; efeitos adversos e resistência.Tratamento sintomático; reavaliar diagnóstico se evolução atípica.
AINE ou AAS sem afastar dengueRisco hemorrágico.Paracetamol ou dipirona até afastar dengue.
Lidocaína viscosa em criança pequenaToxicidade sistêmica, convulsões.Evitar em menores de 3 anos; priorizar analgesia sistêmica e hidratação.
Subestimar a recusa de líquidosDesidratação na criança.Analgesia antes das refeições e reavaliação em 24–48 h.

Referências principais

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    Brasil. Ministério da Saúde. Manejo do paciente com diarreia (Planos A, B e C de hidratação) [cartaz]. Brasília: Ministério da Saúde; 2023.

Aviso importante

Material educacional de apoio à decisão clínica. Não substitui avaliação individualizada, protocolos institucionais, serviço de referência, infectologia, pediatria/obstetrícia nem consulta às bulas. O tratamento da estomatite vesicular é sintomático: confira doses pediátricas pela concentração do frasco, afaste dengue antes de AINE e lembre que toda síndrome vesicular animal deve ser notificada ao serviço veterinário oficial.

Conteúdo para educação médica. Condutas devem ser individualizadas e conferidas com protocolos oficiais, contexto epidemiológico e disponibilidade local.
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