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Febre de Oropouche

Orthobunyavirus oropoucheense (vírus Oropouche, OROV) — vírus RNA segmentado, família Peribunyaviridae

Arbovirose transmitida sobretudo pelo maruim (Culicoides paraensis), que saiu da Amazônia e causou a maior epidemia já registrada em 2024–2025. Febre, cefaleia intensa e mialgia, com recidiva frequente; raramente meningite, encefalite ou sangramento. Sem antiviral: o tratamento é sintomático, sem AAS/AINEs até excluir dengue, com atenção redobrada à gestante pela transmissão vertical.

OrthobunyavirusMaruim (Culicoides)Transmissão verticalNotificação imediata
16–20 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Arbovirose por Orthobunyavirus oropoucheense; vetor principal: maruim (Culicoides paraensis).
  2. Uma linhagem rearranjada (reassortante) impulsionou a expansão para fora da Amazônia a partir de 2023.
  3. Em geral autolimitada (2–7 dias), mas com recidiva em até 60% e óbitos registrados em 2024 e 2025.
  4. Transmissão vertical confirmada no Brasil: óbito fetal e anomalias congênitas.

O que é a febre de Oropouche

Doença febril aguda causada pelo vírus Oropouche (OROV), identificado pela primeira vez em Trinidad e Tobago, em 1955, e isolado no Brasil em 1960, no sangue de um bicho-preguiça capturado durante a construção da rodovia Belém–Brasília. Por décadas causou surtos quase só na região amazônica.

Isso mudou a partir de 2023: o vírus se espalhou para estados do Nordeste e do Sudeste e para outros países das Américas, e passaram a ser descritos óbitos em adultos e transmissão da gestante para o feto. Hoje é uma das arboviroses que o clínico precisa ter em mente diante de qualquer síndrome febril aguda com exames de dengue negativos.

Febre aguda + cefaleia intensa + exposição a área com maruins, com dengue negativa ou recidiva após melhora: pense em Oropouche, colha RT-qPCR cedo e notifique.

O agente

O OROV pertence ao sorogrupo Simbu, o mesmo dos vírus Akabane e Schmallenberg, que causam aborto e malformações em ruminantes — uma pista antiga de que a transmissão vertical era possível. Por ter genoma em três segmentos, dois vírus que infectam a mesma célula podem trocar segmentos e gerar um vírus novo (rearranjo).

Agente etiológico

Orthobunyavirus oropoucheense

Vírus envelopado, RNA de fita simples, sentido negativo, em três segmentos (S, M e L), da ordem Bunyavirales, família Peribunyaviridae.

  • S: nucleoproteína; M: glicoproteínas do envelope (Gn/Gc); L: polimerase viral.
  • Linhagem 2022–2024: reassortante com segmento M de vírus da Amazônia oriental e segmentos L e S de vírus de Peru, Colômbia e Equador (Naveca et al., 2024).
Por que a linhagem nova importa

Estudos com a linhagem reassortante descreveram maior replicação em cultura celular e menor neutralização por soros de infecções antigas, o que ajuda a explicar a expansão — mas a relação com gravidade ainda está em estudo.

A epidemia de 2024–2025

Em 2024, as Américas registraram mais de 16 mil casos confirmados, a maioria no Brasil, com transmissão autóctone em quase todos os estados e casos importados na Europa e na América do Norte. Em 2025, o eixo deslocou-se para o Sudeste (Espírito Santo, Rio de Janeiro e Minas Gerais), com novos óbitos em adultos. Os números abaixo são de casos confirmados em laboratório — o total real é maior, pela subnotificação.

16.239Casos confirmados nas Américas em 2024 (OPAS)
13.785Casos no Brasil em 2024, com 4 óbitos
11.888Casos no Brasil em 2025 até a SE 31
5Óbitos no Brasil em 2025 até agosto (ES 1, RJ 4)
Epidemiologia

Da Amazônia para o litoral

Casos autóctones em estados extra-amazônicos a partir de 2024, com destaque para Espírito Santo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Ceará e Paraíba.

Fisiopatologia e história natural

Após a picada, o vírus replica localmente e atinge o sangue com viremia alta, que cai rapidamente depois do 4º–5º dia — por isso a janela do RT-qPCR é curta. O OROV tem tropismo neurológico (já foi detectado no líquor e infecta tecido cerebral humano em laboratório) e atravessa a placenta. A fisiopatologia das formas hemorrágicas ainda não está esclarecida.

Fisiopatologia

Da picada às formas graves

Viremia curta e intensa explica a febre abrupta; a invasão do SNC e da placenta explica as formas neuroinvasivas e congênitas.

3–10 dIncubação (MS); OPAS cita 4–8 dias
2–7 dDuração da fase aguda
até 60%Recidiva, em geral 1–2 semanas após o início
até 4%Doença neuroinvasiva (CDC)

Em 30 segundos

O essencial de transmissão e risco

  1. Vetor principal: Culicoides paraensis (maruim, mosquito-pólvora) — não é o Aedes.
  2. Ciclo silvestre (preguiças, primatas) e ciclo urbano/periurbano (humano virêmico ↔ maruim).
  3. Transmissão vertical confirmada; RNA viral em sêmen e urina (via sexual não comprovada).
  4. Risco maior em áreas rurais e periurbanas com bananais, cacauais e cafezais.

Dois ciclos, um elo humano

No ciclo silvestre, bichos-preguiça e primatas não humanos (e possivelmente aves e roedores) são os hospedeiros, com vetores silvestres. No ciclo urbano e periurbano, o próprio ser humano é o hospedeiro amplificador e o maruim é o vetor principal.

O humano é provavelmente o elo entre os dois: alguém se infecta perto da mata ou da lavoura, volta para a cidade em plena viremia e é picado por maruins locais. O Culex quinquefasciatus já foi apontado como possível vetor secundário, mas sua capacidade vetorial não está comprovada (MS, 2024).

Ciclo de transmissão

Silvestre ↔ humano virêmico ↔ urbano

O maruim pica uma pessoa virêmica, mantém o vírus por alguns dias e transmite na próxima picada. Não há transmissão por contato casual entre pessoas.

Vetor, hospedeiros e ambiente

O maruim é um díptero da família Ceratopogonidae, de 1 a 1,5 mm, ativo de dia e sobretudo ao amanhecer e ao entardecer. Suas larvas se desenvolvem em matéria orgânica úmida, e por isso as investigações brasileiras associam os casos a municípios pequenos com agricultura de subsistência — banana, cacau e café.

Vetor principal

Culicoides paraensis

Maruim ou mosquito-pólvora; passa por telas comuns.

Hospedeiro silvestre

Bicho-preguiça

Origem do primeiro isolamento brasileiro (1960); primatas também participam.

Criadouro

Lavoura com matéria orgânica

Folhas, cascas e frutos em decomposição perto das casas.

Outras vias de transmissão

Além da picada, três vias importam na prática. A vertical já está confirmada; a sexual e a transfusional são possibilidades biológicas que motivam medidas de precaução, sem casos comprovados até o momento.

ViaEvidênciaConduta prática
Vertical (gestante → feto/RN)Confirmada no Brasil: RNA viral em placenta, cordão e órgãos fetais; óbitos fetais e anomalias congênitas (microcefalia, artrogripose).Notificar, testar, seguimento fetal e avaliação do RN (ver Tratamento e Cenários especiais).
SexualRNA (e vírus cultivável) detectados em sêmen; RNA em secreção vaginal e urina. Nenhum caso comprovado.Recomendar preservativo após a infecção (manual MS/Febrasgo cita até 6 semanas).
TransfusionalTeórica, pela viremia.Quem teve Oropouche deve aguardar ao menos 4 semanas para doar sangue.
Pessoa a pessoa (contato)Não demonstrada.Precauções-padrão no serviço de saúde; sem isolamento respiratório.

Quem está em risco

A faixa mais atingida é a de adultos de 20 a 49 anos, economicamente ativos, sem predileção por sexo. Na anamnese, pergunte por moradia, trabalho e viagens nas duas semanas anteriores — o paciente raramente associa o maruim do quintal à febre.

  • Trabalho rural: lavouras de banana, cacau e café; manejo de folhagem e frutos caídos.
  • Moradia periurbana: quintais com matéria orgânica acumulada e mata próxima.
  • Viajantes: retorno de área com transmissão ativa (Amazônia, ES, RJ, MG, Nordeste, Cuba, Peru, Panamá).
  • Gestantes nessas áreas: o risco é fetal, não só materno.

Em 30 segundos

O essencial de quadro clínico

  1. Início abrupto: febre alta, cefaleia intensa (muitas vezes occipital), mialgia, artralgia, calafrios.
  2. Fotofobia, tontura, dor retro-ocular, náuseas e vômitos são comuns; exantema é menos frequente.
  3. Recidiva em até 60%, geralmente 1–2 semanas após o início (pode ser mais leve).
  4. Formas graves: meningite/encefalite, Guillain-Barré e manifestações hemorrágicas — com óbitos.

Apresentação clássica

Após 3 a 10 dias de incubação, o quadro começa de forma súbita com febre de 38–40 °C, cefaleia forte, calafrios, mialgia e artralgia, muitas vezes com prostração importante. Fotofobia, tontura, dor retro-ocular, náuseas e vômitos completam o quadro; diarreia, dor abdominal e hiperemia conjuntival são menos frequentes.

A febre costuma durar até 5 dias, mas a cefaleia tende a persistir depois dela — um detalhe que ajuda a diferenciar da dengue. O exantema, quando presente, é maculopapular e começa no tronco.

Achado possível

Exantema maculopapular

Menos frequente que na dengue e na zika; tronco → membros.

Sinal de gravidade

Petéquias e gengivorragia

Também epistaxe, melena e menorragia; exigem hemograma e coagulograma.

Curso clínico e recidiva

A maioria melhora em uma semana, mas a convalescença com astenia pode levar 2–3 semanas. A recidiva é marca da doença: o paciente melhora e, dias depois, volta a ter febre, cefaleia e mialgia — às vezes com a mesma intensidade. Ela não significa falha de tratamento, mas é o momento em que a forma neuroinvasiva costuma aparecer.

  1. Incubação — 3 a 10 dias

    Assintomática; pergunte por exposição nas 2 semanas anteriores.

  2. Fase aguda — 2 a 7 dias

    Febre abrupta, cefaleia intensa, mialgia, artralgia, fotofobia. Viremia alta: janela do RT-qPCR.

  3. Melhora aparente

    Defervescência; a cefaleia pode persistir.

  4. Recidiva — até 60%, em 1–2 semanas

    Mesmos sintomas ou só febre, cefaleia e mialgia. Pesquise sinais meníngeos.

  5. Convalescença

    Astenia por até 2–3 semanas; em geral sem sequelas.

Forma neuroinvasiva

Até 4% dos pacientes desenvolvem acometimento do sistema nervoso, em geral depois da fase febril inicial ou na recidiva. A meningite asséptica é a forma mais comum; encefalite, meningoencefalite e síndrome de Guillain-Barré (descrita cerca de 10–11 dias após o início) também ocorrem. Imunossuprimidos parecem mais vulneráveis.

Sinais de alerta neurológico

  • Cefaleia occipital intensa e persistente, rigidez de nuca.
  • Confusão, letargia, sonolência, convulsão.
  • Nistagmo, diplopia, vertigem, parestesias.
  • Fraqueza ascendente com arreflexia (Guillain-Barré).

Líquor (LCR)

  • Pleocitose (predomínio linfomononuclear) e proteína elevada.
  • Glicose geralmente normal.
  • RT-PCR ou IgM para OROV no LCR confirmam o caso.
  • Dissociação proteino-citológica na Guillain-Barré.

Manifestações hemorrágicas e óbitos

A ideia de que a doença era sempre benigna caiu em 2024. Os primeiros óbitos documentados foram de duas mulheres jovens, sem comorbidades, na Bahia: dor abdominal intensa, vômitos, sangramentos, plaquetopenia, coagulopatia e disfunção hepática e renal, com morte no 4º–5º dia de doença.

Segundo o Ministério da Saúde, os óbitos de 2024 tiveram padrão semelhante — manifestações hemorrágicas, dor abdominal, vômitos e leucocitose, ainda na primeira semana. Em 2025, novos óbitos ocorreram no Rio de Janeiro e no Espírito Santo, incluindo quadros neurológicos graves.

  • Dor abdominal intensa e vômitos persistentes na primeira semana.
  • Sangramento de mucosas (gengiva, nariz, vagina, trato digestivo).
  • Plaquetopenia, alargamento de TP/TTPa, transaminases e creatinina elevadas.
  • Queda rápida do hematócrito, hipotensão, extremidades frias.

Exames gerais

Não há padrão laboratorial específico. Os exames gerais servem para estadiar a gravidade e, principalmente, para não deixar passar uma dengue com sinais de alarme. A leucocitose, que destoa do padrão da dengue, apareceu nos casos fatais brasileiros.

ExameAchados possíveisUso prático
HemogramaLeucopenia e linfopenia são comuns; plaquetopenia em alguns casos; leucocitose nos óbitos descritos.Hematócrito e plaquetas também estadiam uma possível dengue.
PCR, transaminasesPCR elevada; aumento leve de AST/ALT.Elevações importantes sugerem forma grave.
Coagulograma, creatininaNormais na forma clássica; alterados nas hemorrágicas.Obrigatórios se houver sangramento ou sinais de alarme.
LíquorPleocitose e hiperproteinorraquia.Indicado em qualquer sinal neurológico.

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O essencial de diagnóstico

  1. Diagnóstico clínico-epidemiológico + laboratorial; a conduta não espera o resultado.
  2. RT-qPCR no soro é o padrão: coletar o mais cedo possível (até o 5º–6º dia).
  3. ELISA-IgM sem kit comercial validado: interpretar com cautela (reação cruzada).
  4. Em forma neurológica, LCR para RT-PCR/IgM; no óbito, tecidos para RT-PCR e imuno-histoquímica.

O raciocínio diagnóstico

Comece pela síndrome febril aguda e pela exposição. Na primeira semana, o principal diferencial é a dengue — que mata e tem manejo próprio —; na segunda, se houver cefaleia intensa, rigidez ou alteração do nível de consciência, meningite e encefalite passam ao centro.

Na rede pública, o Lacen faz busca ativa de OROV em amostras negativas para dengue, chikungunya e zika nas áreas de circulação. Ao atender o caso suspeito, colha a amostra cedo, notifique e registre o pedido no GAL.

Não espere o exame para agir

Sinais de alarme de dengue, sangramento ou sinais neurológicos definem a conduta imediatamente, qualquer que seja a etiologia.

Definições de caso (OPAS e Ministério da Saúde)

As definições servem à vigilância, mas ajudam o clínico a organizar a suspeita. O caso suspeito já deve ser notificado; o provável e o confirmado dependem de vínculo epidemiológico e de exames.

Suspeito

  • Febre aguda (ou história) ≤ 5 dias + cefaleia intensa.
  • + 2 ou mais: mialgia/artralgia, calafrios, fotofobia, tontura, dor retro-ocular, náuseas/vômitos/diarreia, qualquer manifestação neurológica.
  • + exposição em área com transmissão ou vetor (MS).
  • Gestante: febre aguda + cefaleia intensa basta.

Provável (OPAS)

  • Suspeito que mora ou esteve em área com transmissão confirmada;
  • ou tem vínculo com caso confirmado;
  • ou tem ELISA-IgM reagente para OROV.

Confirmado

  • RT-qPCR (ou isolamento/antígeno) positivo — preferencial no Brasil.
  • Soroconversão ou aumento ≥ 4 vezes em amostras pareadas.
  • IgM ou RT-PCR no LCR em quadro neurológico.
  • RNA ou antígeno em tecido post mortem.

Checagem da definição de caso suspeito

A ferramenta abaixo aplica a definição de caso suspeito adotada pelo Ministério da Saúde (adaptada da OPAS). Ela não estima probabilidade nem substitui o exame, mas evita que um caso compatível deixe de ser testado e notificado.

É caso suspeito de Oropouche?

Baseada na definição de caso suspeito da NT nº 117/2024-CGARB/MS e da OPAS. Ferramenta educativa.

Preencha os quatro campos.

Exames específicos e janelas de coleta

O tempo de doença define o exame. Nos primeiros dias, procure o vírus (RT-qPCR); depois, os anticorpos — lembrando que a sorologia para OROV ainda não tem desempenho bem definido e só deve ser solicitada quando as demais arboviroses tiverem sido investigadas.

Amostra / exameQuando coletarInterpretação
Soro — RT-qPCRO mais cedo possível; até o 5º–6º dia de sintomas.Positivo confirma. Negativo após o 5º dia não exclui.
Soro — ELISA-IgM / PRNT1ª amostra após o 5º dia; 2ª amostra 15 dias depois.IgM isolada = caso provável; soroconversão ou aumento ≥ 4x confirma. Reação cruzada possível.
LCR — RT-PCR / IgMEm qualquer sinal neurológico (MS: RT-PCR até 7–15 dias).Positivo confirma forma neuroinvasiva.
Urina e sêmen — RT-PCRAté 15 dias após o início.Complementar; usado em investigação.
Placenta, cordão, tecidos fetaisNo parto, aborto ou óbito fetal.RT-PCR, histopatologia e imuno-histoquímica (fluxo da NT 135/2024).
Tecidos post mortemNecrópsia em até 48 h.RT-PCR para DENV, CHIKV, ZIKV, OROV e MAYV + imuno-histoquímica.

Soro: 5 mL (criança) a 10 mL (adulto) de sangue sem anticoagulante; 2–8 °C por até 48 h, depois congelar. Registrar todos os exames no GAL, independentemente do resultado.

Janela diagnóstica

Vírus primeiro, anticorpos depois

RNA no soro nos primeiros dias; IgM a partir do fim da primeira semana; IgG depois.

Diagnósticos diferenciais

Quase todas as síndromes febris agudas tropicais entram na lista. Na prática, três perguntas resolvem a maioria: há sinais de alarme de dengue? Há artrite incapacitante (chikungunya, Mayaro)? Há sinal neurológico ou icterícia?

DiferencialPor que confundeO que ajuda a separar
DengueFebre, cefaleia, dor retro-ocular, mialgia, plaquetopenia.NS1/RT-PCR para dengue; hemoconcentração e sinais de alarme no 3º–7º dia. Manejar como dengue até excluir.
ChikungunyaFebre alta e artralgia.Artrite/poliartralgia intensa e persistente, edema articular.
ZikaExantema, cefaleia, risco congênito.Febre baixa ou ausente, exantema pruriginoso precoce, conjuntivite não purulenta.
Febre do MayaroCiclo silvestre, febre e artralgia.Artralgia prolongada como na chikungunya; RT-PCR específico.
Febre amarelaFebre, cefaleia, área rural/silvestre.Icterícia, sangramento e lesão renal; vacinação; transaminases muito altas.
MaláriaFebre e cefaleia na Amazônia.Gota espessa ou teste rápido; obrigatória em quem esteve em área endêmica.
LeptospiroseMialgia (panturrilhas), febre, sangramento.Exposição a enchente/lama, icterícia rubínica, lesão renal com hipocalemia.
Meningite bacteriana / encefalite herpéticaCefaleia, febre, rigidez, confusão.LCR (celularidade, glicose, Gram, cultura, PCR para HSV). Não atrase o tratamento empírico.

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O essencial de tratamento

  1. Não há antiviral nem vacina: repouso, hidratação, analgesia e antitérmico.
  2. Paracetamol ou dipirona; sem AAS, AINEs ou corticoide enquanto dengue não for excluída.
  3. Classifique o risco como dengue (grupos A–D) e oriente sinais de alarme e retorno.
  4. Forma neuroinvasiva ou hemorrágica = internação; gestante = notificação, RT-qPCR e seguimento fetal.

Princípios do tratamento

Três ideias organizam a conduta. A primeira é tratar como dengue até prova em contrário: nos primeiros dias as duas são indistinguíveis, a dengue é muito mais frequente e mata por extravasamento plasmático — por isso a classificação de risco e a proibição de AAS/AINEs valem para todo caso suspeito.

A segunda é controlar bem os sintomas: a cefaleia é intensa e a recidiva é comum, e o paciente mal orientado se automedica com anti-inflamatório. A terceira é reconhecer as formas graves — neuroinvasiva, hemorrágica e a infecção na gestação — que mudam o local de cuidado e a investigação. As rotas abaixo seguem esses cenários.

Qual rota seguir?

Organiza o paciente nas rotas abaixo a partir dos sinais de gravidade. Não substitui a classificação de risco da dengue do Ministério da Saúde.

Selecione o sinal predominante e o tipo de paciente.

Oropouche ou dengue? Classifique o risco

Enquanto a dengue não for excluída, o estadiamento do Ministério da Saúde (6ª edição, 2024) define exames, hidratação e local de cuidado. Grupo A exige ausência de sinais de alarme e de comorbidades ou condições especiais — gestantes, menores de 2 anos, maiores de 65 anos e portadores de comorbidades não são grupo A.

GrupoCaracterizaçãoConduta resumida
ASem sinais de alarme, sem sangramento, sem comorbidade/condição especial.Ambulatorial; hidratação oral; paracetamol/dipirona; retorno na defervescência ou no 5º dia.
BSem sinais de alarme, com sangramento de pele (espontâneo ou prova do laço) ou condição especial.Hemograma obrigatório (resultado em 2–4 h); hidratação oral; reavaliação diária até 48 h após a febre.
CQualquer sinal de alarme.Internação; SF 0,9% 10 mL/kg na 1ª hora, reavaliação e hematócrito seriado.
DChoque, sangramento grave ou disfunção grave de órgão.SF 0,9% 20 mL/kg em até 20 min (repetir até 3x); leito de UTI.

Sinais de alarme: dor abdominal intensa e contínua, vômitos persistentes, acúmulo de líquidos, hipotensão postural/lipotimia, hepatomegalia > 2 cm, sangramento de mucosa, letargia/irritabilidade, aumento progressivo do hematócrito.

Rotas de tratamento

Cada rota é um cenário clínico. Abra só a rota em que o seu paciente está: a tabela mostra dose, frequência e duração de cada esquema, e o nome de cada medicamento abre a ficha completa. Opções do mesmo grupo são alternativas — escolha uma.

Monitoramento e critérios de internação

A maioria dos pacientes trata em casa. O que define internação não é o vírus, e sim o cenário: sinais neurológicos, sangramento ou sinais de alarme, incapacidade de hidratar por via oral, gestante com sinais de gravidade e ausência de condições de seguimento.

  • Ambulatorial: retorno na defervescência ou no 5º dia; reavaliar diariamente se grupo B.
  • Internação: sinal neurológico, sinal de alarme/sangramento, vômitos incoercíveis, desidratação, imunossupressão com quadro grave.
  • UTI: choque, sangramento grave, rebaixamento do nível de consciência, estado de mal epiléptico ou insuficiência respiratória (Guillain-Barré).

Em 30 segundos

O essencial de cenários especiais

  1. Gestação: transmissão vertical confirmada; óbito fetal e anomalias congênitas descritos.
  2. Recém-nascido exposto: exame completo, PC, RT-PCR/IgM no soro e seguimento.
  3. Imunossuprimidos parecem ter mais formas neuroinvasivas.
  4. Óbito suspeito: necrópsia com coleta de tecidos e notificação imediata.

Oropouche na gestação: o que se sabe

Em 2024, o Instituto Evandro Chagas encontrou IgM anti-OROV em soro ou líquor de recém-nascidos com microcefalia e detectou RNA viral em placenta, cordão e múltiplos órgãos de um feto morto com 30 semanas. Até dezembro de 2024, o Ministério da Saúde confirmou quatro óbitos fetais por transmissão vertical e uma anomalia congênita, com dezenas de casos em investigação.

Ainda não se conhece a taxa de transmissão vertical nem o risco absoluto de malformação por trimestre. A conduta, por isso, é de precaução: prevenir a picada, diagnosticar cedo e acompanhar o feto.

4Óbitos fetais por transmissão vertical confirmados (MS, dez/2024)
1Anomalia congênita confirmada (Acre, 2024)
73Gestantes infectadas na série do ES (2024), com 2 casos de transmissão vertical

O que muda em cada cenário

Nenhum grupo tem tratamento antiviral próprio; muda a investigação, o limiar para internar e a escolha dos sintomáticos. A tabela reúne as particularidades práticas.

CenárioParticularidadeO que fazer diferente
GestanteRisco fetal em qualquer trimestre; caso suspeito com critério mais sensível.Paracetamol; hemograma; RT-qPCR; notificação; USG a cada 4 semanas; coleta de placenta (Rota 5).
Recém-nascido expostoPode nascer assintomático ou com microcefalia/artrogripose; infecção perinatal possível.Exame completo, PC, soro para RT-PCR/IgM, triagem auditiva e ocular, seguimento (Rota 6).
CriançaMesmo quadro; desidratação mais rápida.Doses por peso; volume de Holliday-Segar; dipirona só ≥ 3 meses e ≥ 5 kg.
Idoso e comorbidadesMenor reserva; risco de sobrecarga na hidratação venosa.Não é grupo A da dengue; ajustar paracetamol na hepatopatia; vigiar crepitações.
ImunossuprimidoMais formas neuroinvasivas descritas.Limiar baixo para LCR e internação; cobertura empírica ampla conforme imunossupressão.
Viajante que retornaCasos importados em vários países; confusão com dengue.Perguntar destino (Amazônia, ES, RJ, Cuba, Peru, Panamá); gestantes devem reconsiderar viagens não essenciais a áreas com transmissão (CDC).
Doador de sangueViremia nos primeiros dias.Aguardar ao menos 4 semanas após a doença para doar.
Óbito suspeitoÓbitos com sangramento, dor abdominal, vômitos e leucocitose na 1ª semana.Necrópsia completa; tecidos a fresco (RT-PCR) e em formol (IHQ) em até 48 h; notificação imediata.

Viajante e regiões sem transmissão

Fora das áreas de circulação, a doença costuma ser lembrada tarde. Em febre aguda com cefaleia intensa até 2 semanas após viagem, inclua Oropouche junto de dengue, malária e chikungunya, e combine a investigação com a vigilância local, já que o RT-qPCR para OROV não está disponível em todos os laboratórios.

O paciente virêmico pode iniciar transmissão local onde houver maruins: repelente e telas durante a fase febril também protegem a comunidade.

Em 30 segundos

O essencial de seguimento e prevenção

  1. Retorno na defervescência ou no 5º dia; alertar para recidiva em 1–2 semanas.
  2. Notificação compulsória imediata (e-SUS Sinan, CID A93.0); exames registrados no GAL.
  3. Prevenção: roupas compridas, repelente, telas de malha fina, manejo de folhas e frutos no solo.
  4. Preservativo após a infecção e intervalo de 4 semanas para doar sangue.

Seguimento após a fase aguda

Na forma clássica, o seguimento é curto: retorno quando a febre ceder (ou no 5º dia), checagem de sinais de alarme e orientação sobre recidiva. A astenia pode durar 2–3 semanas e não exige exames se o paciente estiver melhorando.

Após forma neuroinvasiva, acompanhe cefaleia, cognição e força muscular; após Guillain-Barré, reabilitação. Na gestante, o seguimento continua até o parto e se estende ao bebê.

Retorno imediato

Sinais de alarme de dengue, sangramento, rigidez de nuca, confusão, convulsão, fraqueza nas pernas ou, na gestante, redução dos movimentos fetais.

Prevenção individual e ambiental

Como não há vacina, a prevenção é barrar o maruim. Ele é pequeno demais para telas comuns, e a eficácia dos repelentes e inseticidas contra ele ainda não foi comprovada — por isso o MS dá peso especial à barreira física e ao manejo do peridomicílio. O repelente segue útil contra os demais mosquitos.

Prevenção

Barreira física + quintal limpo

O maruim se cria em matéria orgânica úmida e pica mais ao amanhecer e ao entardecer.

  1. Cubra o corpo

    Calças, mangas compridas, meias e sapatos fechados, sobretudo no trabalho rural.

  2. Evite os horários de pico

    Amanhecer e fim da tarde, especialmente durante surtos.

  3. Tela fina e mosquiteiro

    Malha com abertura menor que 1–1,5 mm; mosquiteiro para quem dorme de dia (gestantes, bebês, acamados).

  4. Repelente

    DEET, icaridina ou IR3535, conforme o rótulo — também protege de dengue, zika e chikungunya.

  5. Limpe o peridomicílio

    Recolha folhas, cascas e frutos do solo; drene poças. Gestantes não devem fazer essa limpeza.

Notificação e vigilância

A febre do Oropouche é de notificação compulsória imediata, pelo potencial epidêmico. Todo caso suspeito deve ser notificado no e-SUS Sinan com o CID A93.0 (NT 117/2024), e todos os exames para OROV devem ser registrados no GAL, positivos ou negativos — o denominador permite medir a positividade e a sensibilidade da vigilância.

Gestantes suspeitas, anomalias congênitas do SNC e óbitos fetais sem outra causa em área de circulação seguem a NT conjunta 135/2024. Óbitos possivelmente associados exigem notificação imediata e necrópsia. A investigação identifica o local provável de infecção, busca epizootias (preguiças, primatas) e, em surtos, faz investigação entomológica.

Suspeite em febre + cefaleia intensa + exposição, colha RT-qPCR até o 5º dia, trate como dengue até excluir (sem AAS/AINEs), notifique imediatamente e não esqueça a gestante e o bebê.

Erros comuns

Os erros mais frequentes vêm de duas crenças antigas: que a doença é sempre benigna e que dengue negativa encerra a investigação. A tabela resume como evitá-los.

ErroPor que é um problemaComo evitar
Prescrever AINE para a cefaleiaDengue ainda não excluída; risco de sangramento.Paracetamol ou dipirona em dose plena.
Encerrar como “virose” com dengue negativaPerde o diagnóstico e a notificação.Solicitar OROV em área de circulação; notificar.
Colher só sorologia tardiaKit sem validação; reação cruzada.RT-qPCR no soro até o 5º–6º dia.
Ignorar a recidivaÉ quando surge a forma neuroinvasiva.Reexaminar com foco neurológico.
Tratar a gestante e esquecer o fetoTransmissão vertical com óbito e malformação.Notificar, USG seriada e avaliação do RN.
Dizer que a doença nunca mataÓbitos em adultos em 2024 e 2025.Valorizar sangramento, dor abdominal e vômitos na 1ª semana.

Referências principais

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    Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Nota Técnica nº 117/2024-CGARB/DEDT/SVSA/MS: atualização das orientações para a vigilância do Oropouche. Brasília: Ministério da Saúde; 2024.
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    Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica Conjunta nº 135/2024-SVSA/SAPS/SAES/MS: notificação e investigação de casos suspeitos de Oropouche em gestantes, anomalias congênitas ou óbitos fetais. Brasília: Ministério da Saúde; 2024.
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    Documento oficial2024
    Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 15/2024-SVSA/MS: recomendação para intensificação da vigilância de transmissão vertical do vírus Oropouche. Brasília: Ministério da Saúde; 2024.
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Aviso importante

Material educacional de apoio à decisão clínica. Não substitui avaliação individualizada, protocolos institucionais, serviço de referência, infectologia, pediatria/obstetrícia nem consulta às bulas. Não há antiviral para o vírus Oropouche: doses de sintomáticos, volumes de hidratação, cobertura empírica de meningoencefalite e seguimento da gestante e do recém-nascido devem seguir os manuais do Ministério da Saúde e os protocolos locais de obstetrícia, neonatologia e infectologia.

Conteúdo para educação médica. Condutas devem ser individualizadas e conferidas com protocolos oficiais, contexto epidemiológico e disponibilidade local.
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