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Guia de Zoonoses • Vírus

Mpox (monkeypox)

Vírus mpox (MPXV) — Orthopoxvirus, família Poxviridae; DNA dupla-fita envelopado

Zoonose de origem africana que, desde 2022, se espalha sobretudo por contato pele a pele e sexual. Lesões profundas e umbilicadas, muitas vezes anogenitais, com linfadenopatia. A base do tratamento é suporte, analgesia e cuidado das lesões: o tecovirimat não mostrou benefício em ensaios randomizados e ficou restrito a cenários graves.

OrthopoxvirusContato próximo e sexualLesões umbilicadasNotificação imediata
15–18 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Zoonose por Orthopoxvirus (MPXV), parente do vírus da varíola; reservatório provável: roedores africanos.
  2. Dois clados: I (Ia, Ib — Bacia do Congo) e II (IIa, IIb — África Ocidental); o surto global de 2022 foi pelo IIb.
  3. Desde 2022, a transmissão predominante é pessoa a pessoa, por contato íntimo e sexual.
  4. Geralmente autolimitada (2–4 semanas); grave em HIV avançado, gestantes, crianças e imunossuprimidos.

O que é mpox

Mpox é a infecção pelo vírus mpox (MPXV), descoberto em 1958 em macacos de laboratório — daí o nome antigo, monkeypox, substituído pela OMS em 2022 para reduzir estigma. O macaco, porém, é hospedeiro acidental como o humano; o reservatório natural provável são roedores africanos. O primeiro caso humano foi descrito em 1970, na República Democrática do Congo.

Por décadas foi uma zoonose de áreas rurais da África Central e Ocidental. Em 2022, o clado IIb se espalhou pelo mundo por transmissão sexual, sobretudo entre homens que fazem sexo com homens, e a OMS declarou emergência internacional (2022–2023). Em 2024, a expansão do clado Ib na África levou a uma segunda emergência, encerrada em 5 de setembro de 2025.

Lesão de pele ou mucosa nova, sobretudo anogenital ou oral, com linfadenopatia ou proctite = pense em mpox, colete PCR da lesão, teste ISTs e notifique.

O agente e os clados

O MPXV é um poxvírus grande, de DNA dupla-fita, que se replica no citoplasma. Pertence ao mesmo gênero dos vírus da varíola humana e da vaccinia — por isso a vacina contra varíola protege de forma cruzada. A divisão em clados importa porque eles diferem em gravidade e em padrão de transmissão.

Agente etiológico

Vírus mpox (MPXV)

Poxviridae → Chordopoxvirinae → Orthopoxvirus. Vírion envelopado, em forma de tijolo, DNA dupla-fita.

  • Proteína VP37 (gene F13L): alvo do tecovirimat, necessária para formar vírions envelopados.
  • DNA-polimerase viral: alvo do cidofovir e do brincidofovir.
CladoOnde circulaPonto prático
IaÁfrica Central (RDC e vizinhos); muito zoonótico.Historicamente o mais grave; crianças muito afetadas.
IbLeste da RDC desde 2023; países vizinhos e casos importados.Transmissão sexual e domiciliar; motivou a emergência de 2024–2025. 1º caso no Brasil em março de 2025.
IIaÁfrica Ocidental; zoonótico.Menos virulento; surto de 2003 nos EUA por roedores importados.
IIbGlobal desde 2022.Transmissão sexual; ≈13 mil casos confirmados no Brasil desde 2022.

A letalidade varia muito com o clado, o acesso a cuidados e a proporção de pessoas com HIV não controlado; no PALM007 (clado I, com internação e suporte), a mortalidade foi bem menor que a histórica.

Fisiopatologia: da porta de entrada à erupção

O vírus entra por pele lesada ou mucosa (genital, anal, oral, conjuntival) ou, menos frequentemente, pela via respiratória. Replica no local, drena para linfonodos regionais e cai na corrente sanguínea. No surto de 2022, muitos pacientes tiveram a primeira lesão no local de inoculação (genital/perianal), antes ou sem pródromo, o que explica quadros com poucas lesões localizadas.

Fisiopatologia

Inoculação → linfonodo → viremia → lesões

A linfadenopatia reflete a resposta precoce dos linfonodos de drenagem; a imunidade celular controla a doença — por isso o HIV com CD4 baixo causa formas necrotizantes e prolongadas.

  1. Inoculação

    Contato de pele lesada/mucosa com lesão, fluido ou crosta; replicação local.

  2. Linfonodos

    Drenagem linfática → linfadenopatia regional, frequentemente dolorosa.

  3. Viremia

    Febre, cefaleia, mialgia, astenia (pródromo, quando presente).

  4. Lesões

    Pele e mucosas; evolução sincrônica de mácula a crosta em 2–4 semanas.

  5. Cura

    Queda das crostas e reepitelização = fim da transmissibilidade.

Incubação e evolução

A incubação média é de cerca de 12 dias, podendo chegar a 21 — e é essa a janela usada tanto na investigação de exposição quanto no monitoramento de contatos. A doença costuma durar de 2 a 4 semanas, e a pessoa transmite até que todas as crostas caiam e a pele esteja íntegra.

≈12 diasIncubação média (até 21 dias)
1–5 diasPródromo, quando presente
2–4 semDuração habitual da doença
Até a cicatrizaçãoPeríodo de transmissibilidade

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O essencial de transmissão e risco

  1. Principal via: contato direto com lesões, crostas ou fluidos — inclusive no contato íntimo e sexual.
  2. Também: fômites (roupas de cama, toalhas), gotículas em contato face a face prolongado, vertical e acidente perfurocortante.
  3. Zoonótica: contato com roedores e primatas africanos infectados (caça, manejo, consumo de carne de caça).
  4. Transmissão vai do início dos sintomas até a reepitelização completa das lesões.

Como ocorre a transmissão

Fora da África, a mpox se comporta hoje como uma infecção de contato próximo: o vírus está em altas cargas nas lesões, e o contato pele a pele ou mucosa a mucosa — no sexo, mas também em abraços, beijos e cuidados domiciliares — é o mecanismo dominante.

Objetos contaminados (lençóis, toalhas, roupas) transmitem com menos eficiência, e a via respiratória exige contato face a face prolongado. Entre profissionais de saúde, a maioria das infecções documentadas veio de acidentes com agulha, não de inalação.

Ciclo de transmissão

Roedor africano → humano → humano

O ciclo zoonótico mantém o vírus na natureza; o ciclo humano–humano sustenta os surtos, sobretudo pelos clados IIb e Ib.

Pessoas com mpox devem evitar contato com animais domésticos e silvestres durante a doença: o vírus pode passar do humano para o animal (inclusive cães) e criar novos ciclos.

Reservatório e fontes de exposição

A história natural ainda não está completamente esclarecida, mas vários roedores africanos — esquilos-de-corda e de árvore, ratos-gigantes-gambianos, arganazes — são suscetíveis e provavelmente mantêm o vírus. Primatas e humanos são hospedeiros acidentais. A exposição zoonótica vem de mordida, arranhadura, manejo de carcaças ou consumo de carne de caça mal cozida.

Reservatório provável

Roedores africanos

Esquilos-de-corda, ratos-gigantes-gambianos; surto de 2003 nos EUA veio de roedores importados.

Transmissão indireta

Fômites

Roupas de cama, toalhas e utensílios de uso comum com secreção de lesões.

Quem tem mais risco de adquirir e de agravar

Há duas perguntas diferentes. Quem se expõe mais são pessoas com parcerias sexuais múltiplas ou desconhecidas (no Brasil, sobretudo HSH e usuários de PrEP), contatos domiciliares e profissionais sem EPI. Quem agrava mais são os imunossuprimidos — especialmente pessoas com HIV e CD4 abaixo de 200 —, gestantes, crianças pequenas e idosos.

Mais exposição

  • Parcerias sexuais múltiplas ou desconhecidas.
  • Contato domiciliar ou íntimo com caso.
  • Profissional de saúde/laboratório sem EPI ou com acidente perfurocortante.
  • Viagem a área com transmissão de clado I.

Mais risco de forma grave

  • HIV com CD4 <200 células/mm³ (forma necrotizante; definidora de aids).
  • Transplantados, oncológicos, imunossupressores.
  • Gestantes, crianças (sobretudo <8 anos) e idosos.
  • Dermatite atópica ou outra doença que rompe a barreira cutânea.

Classificação do risco da exposição (PEP)

Para decidir a vacinação pós-exposição, o Ministério da Saúde usa a classificação de risco da OMS. O que pesa é o tipo de contato (direto com pele, mucosa, fluido ou material contaminado × apenas compartilhar o ambiente) e se havia EPI adequado. A ferramenta abaixo organiza esse raciocínio.

Risco da exposição a caso de mpox

Baseada na classificação da OMS adotada nas notas técnicas do Ministério da Saúde. Ferramenta educativa: a decisão final é da vigilância local, conforme disponibilidade de doses.

Selecione o tipo de contato e a proteção utilizada.

Critério etário (18–49 anos) e janela de 4/14 dias: NT 39/2025 (SESA-ES) com base nas notas do Ministério da Saúde. Confirme critérios vigentes com a vigilância.

Epidemiologia e Saúde Única

No Brasil, a mpox é de notificação compulsória e imediata. Desde 2022 foram mais de 13 mil casos confirmados do clado II, com queda progressiva após o pico, mas com casos esporádicos persistentes. O primeiro caso do clado Ib foi confirmado em março de 2025, sem casos secundários registrados na época. Após o fim da segunda emergência internacional, a OMS continuou registrando clado Ib com transmissão local fora da África.

Saúde Única

O controle depende de vigilância humana (diagnóstico, tipagem de clado, rastreio de contatos), vacinação dirigida, combate ao estigma e redução do contato com animais silvestres na África — além de evitar que casos humanos infectem animais domésticos.

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O essencial de quadro clínico

  1. Pródromo (nem sempre presente): febre, cefaleia, mialgia, astenia e linfadenopatia.
  2. Lesões profundas, firmes, umbilicadas, que evoluem de mácula a crosta; frequentemente anogenitais e orais.
  3. Proctite, faringite, uretrite e edema peniano podem ser a apresentação principal.
  4. Sinais de gravidade: lesões necróticas/confluentes, ocular, dor intratável, disfagia, encefalite, pneumonite, sepse.

Apresentação clínica

Na descrição clássica (clado I e casos zoonóticos), o pródromo febril com linfadenopatia precede em 1 a 3 dias uma erupção centrífuga — face, palmas e plantas — com lesões no mesmo estágio. No surto de 2022 (clado IIb), o quadro mudou: muitas pessoas tiveram poucas lesões, concentradas na região genital, perianal ou oral, às vezes antes ou sem febre.

Dor é o sintoma dominante: lesões anais causam proctite intensa (tenesmo, dor à evacuação, sangramento, secreção), lesões orais causam odinofagia e lesões penianas causam edema e retenção urinária. Lesões em estágios diferentes podem coexistir (autoinoculação), e formas atípicas são comuns.

Lesões necróticas ou confluentes, lesão ocular ou periorbitária, dor que impede comer, evacuar ou urinar, confusão, dispneia ou sinais de sepse = avaliação hospitalar.

Evolução das lesões

Cada lesão percorre uma sequência previsível, que leva de 2 a 4 semanas. Reconhecer os estágios ajuda no diagnóstico (lesão profunda, firme, umbilicada) e na orientação do isolamento, que só termina quando as crostas caem e há pele nova por baixo.

Achado característico

Mácula → pápula → vesícula → pústula → crosta

Pústulas profundas, firmes, bem delimitadas e umbilicadas, muitas vezes dolorosas; a crosta cai deixando pele nova (às vezes cicatriz ou discromia).

Achados característicos

Três achados juntos são muito sugestivos: lesão umbilicada profunda, linfadenopatia (que a varicela e o herpes raramente produzem com essa intensidade) e acometimento de mucosa. As formas graves aparecem sobretudo em pessoas com HIV não controlado.

Achado característico

Pústula umbilicada

Profunda, firme, bem delimitada; pode acometer palmas e plantas.

Surto de 2022

Lesões anogenitais

Poucas lesões no local de inoculação; proctite pode ocorrer sem lesão visível.

Pista diagnóstica

Linfadenopatia

Cervical, inguinal ou generalizada, muitas vezes dolorosa.

Forma grave

Mpox necrotizante

HIV com CD4 <200: lesões confluentes, necróticas, evolução arrastada.

Complicações e gravidade

As complicações são incomuns na população geral, mas frequentes nos grupos de risco. No Brasil, a nota técnica de 2025 destaca que as formas cutâneas necrosantes em pessoas com HIV avançado têm mortalidade de até 15% e são reconhecidas como condição definidora de aids.

SistemaComplicaçãoPista clínica
PeleInfecção bacteriana secundária, celulite, abscesso, fasceíte, esfoliação extensa.Dor e eritema crescentes, flutuação, febre tardia.
Anorretal / urogenitalProctite grave, sangramento, estenose; parafimose, retenção urinária, uretrite.Tenesmo, dor à evacuação, edema peniano.
OrofaringeOdinofagia, desidratação, abscesso periamigdaliano/retrofaríngeo, epiglotite.Recusa alimentar, sialorreia, estridor.
OlhoConjuntivite, blefarite, ceratite, úlcera de córnea → cicatriz e perda visual.Dor ocular, fotofobia, baixa visual.
SistêmicoPneumonite, encefalite, miocardite, sepse.Dispneia, confusão, dor torácica.

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O essencial de diagnóstico

  1. Caso suspeito (MS): lesão de mucosa e/ou erupção sugestiva, ou proctite, ou edema peniano.
  2. Confirmação: qPCR para MPXV (e/ou sequenciamento) em amostra de lesão; tipagem de clado no LACEN.
  3. Teste HIV, sífilis e outras ISTs em todo caso suspeito: coinfecção é comum.
  4. Notificação imediata no SINAN já na suspeita.

Definição de caso (Ministério da Saúde)

A definição vigente vale para qualquer clado. A suspeita é puramente clínica e ampla; o caso provável soma vínculo epidemiológico quando o PCR não foi feito ou foi inconclusivo; e o confirmado exige biologia molecular. A notificação é feita já no caso suspeito.

Suspeito

  • Qualquer idade, com início súbito de lesão em mucosas e/ou erupção cutânea aguda sugestiva, única ou múltipla, em qualquer parte do corpo (incluindo genital/perianal e oral);
  • e/ou proctite (dor ou sangramento anorretal);
  • e/ou edema peniano.

Provável

  • Suspeito + nos 21 dias anteriores: contato próximo/sexual com parcerias múltiplas ou desconhecidas, ou com caso; contato com materiais de caso; ou profissional sem EPI exposto.
  • E PCR não realizado ou inconclusivo, sem outro diagnóstico que descarte mpox.

Confirmado

  • Suspeito com resultado positivo/detectável para MPXV por qPCR e/ou sequenciamento.

Coleta e exames específicos

O melhor material é a própria lesão, que concentra muito vírus. Esfregue o swab com firmeza na base da lesão ou no teto da vesícula, ou envie a crosta. Sem lesão de pele, swab anal (proctite) ou de orofaringe pode confirmar. Siga sempre o fluxo do LACEN quanto ao tipo de swab, ao meio e à conservação.

Coleta

Swab da base da lesão, fluido ou crosta

Preferir 2 lesões diferentes; swab anal ou orofaríngeo se não houver lesão de pele.

ExameUtilidadePonto de interpretação
qPCR para MPXVConfirmação (padrão no SUS, via LACEN).Amostra de lesão; positivo confirma.
Tipagem de clado / sequenciamentoVigilância do clado I (Ib).Amostra "não detectável para clado II" → sequenciamento.
PCR em sangueComplementar, em casos graves.Não usar isoladamente: negativo não descarta.
Sorologia (IgM/IgG)Estudos e situações específicas.Reação cruzada com vacina e outros orthopoxvírus.

Exames complementares

Os exames gerais não fazem o diagnóstico, mas definem coinfecções e gravidade. A testagem para HIV é obrigatória em todo caso suspeito: o HIV não diagnosticado é o principal determinante de forma grave, e a TARV precoce muda o desfecho.

  • ISTs: teste rápido de HIV, sífilis, hepatites B e C; PCR para gonorreia/clamídia nos sítios expostos (anal, faríngeo, uretral) — proctite pode ser mista.
  • PVHA: CD4 e carga viral para estratificar risco e orientar TARV.
  • Casos graves: hemograma, função renal e hepática, eletrólitos, culturas se houver infecção secundária; imagem conforme sintomas (tórax, SNC).
  • Olho: avaliação oftalmológica com lâmpada de fenda em qualquer sintoma ocular.

Diagnósticos diferenciais

O diferencial depende do padrão. Lesões anogenitais e proctite lembram ISTs; erupção disseminada lembra varicela. Ter outra IST confirmada não descarta mpox — a coinfecção é frequente.

DiferencialPor que confundeO que ajuda a separar
VaricelaVesículas disseminadas.Lesões superficiais em estágios diferentes ao mesmo tempo, predomínio no tronco, pouca linfadenopatia; PCR para VZV.
Herpes simplesVesículas e úlceras genitais/orais dolorosas.Vesículas agrupadas superficiais sobre base eritematosa; PCR para HSV.
Sífilis primária/secundáriaÚlcera genital; exantema com palmas e plantas.Cancro indolor; VDRL/teste treponêmico.
Linfogranuloma venéreo, cancro mole, gonorreia/clamídiaÚlcera genital e proctite.NAAT para clamídia/gonococo; adenopatia supurativa no LGV.
Molusco contagiosoPápulas umbilicadas.Lesões pequenas, indolores, sem febre nem linfadenopatia.
Impetigo / foliculite, escabiose, farmacodermiaPústulas e crostas; prurido.Contexto, distribuição, ausência de lesão profunda umbilicada.

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O essencial de tratamento

  1. Não há antiviral com eficácia comprovada: o tratamento é sintomático, cuidado das lesões e prevenção de complicações.
  2. STOMP (clado II) e PALM007 (clado I): tecovirimat não reduziu tempo de resolução das lesões nem dor.
  3. Tecovirimat não deve ser usado em monoterapia de rotina; antivirais (± VIGIV) ficam para doença grave/imunossupressão grave, com especialista.
  4. Dor anorretal é a grande causa de internação: analgesia escalonada, banho de assento, laxante, lidocaína tópica.

Princípios do tratamento

Três perguntas organizam a conduta. Primeira: há sinal de gravidade ou fator de risco (HIV com CD4 <200, outra imunossupressão, gestação, criança, lesão ocular, lesões extensas/necróticas, acometimento visceral)? Se sim, avalie internação. Segunda: a dor e a ingestão estão controladas? A maioria das internações é por dor anorretal ou orofaríngea, não por doença sistêmica.

Terceira: há complicação específica (infecção bacteriana, ceratite, proctite grave)? Ela tem tratamento próprio. O antiviral, quando usado, é sempre complemento do suporte e da reconstituição imune — nunca substituto.

O que mudou com os ensaios clínicos

Em 2022, o tecovirimat foi amplamente usado por acesso expandido. O STOMP (NEJM 2026; clado II, adultos sem imunossupressão grave) mostrou resolução clínica no dia 29 de 83% com tecovirimat × 84% com placebo, sem diferença em dor ou depuração viral. O PALM007 (NEJM 2025; clado I, RDC) também não mostrou redução do tempo de resolução das lesões. O fármaco foi seguro. O Ministério da Saúde (NT 202/2025) afirma que não há antiviral com eficácia comprovada contra mpox.

Rotas de tratamento

Cada rota é um cenário clínico. Abra só a rota em que o seu paciente está: a tabela mostra dose, frequência e duração de cada esquema, e o nome de cada medicamento abre a ficha completa. Opções do mesmo grupo são alternativas — escolha uma.

Isolamento e alta das precauções

O critério de fim da transmissibilidade é clínico, não um número fixo de dias: todas as crostas caíram e há pele nova por baixo — o que costuma levar cerca de 21 dias, às vezes mais no imunossuprimido. A OMS (2025) e o MS aceitam que casos leves em casa não fiquem isolados se mantiverem as lesões cobertas e máscara bem ajustada perto de outras pessoas.

  • Paciente: máscara cirúrgica no atendimento; lesões cobertas (manga longa, calça); trocar curativos úmidos.
  • Profissional: avental, luvas, máscara cirúrgica e óculos/protetor facial; respirador em procedimentos geradores de aerossol.
  • Casa: roupas e toalhas lavadas à parte, sem sacudir; superfícies com desinfetante; cuidador saudável, idealmente vacinado.
  • Evitar sexo até a cura completa; a OMS orienta uso de preservativo nas 12 semanas seguintes à recuperação (DNA viral detectado no sêmen).

Erros comuns no tratamento

Os erros mais frequentes vêm de subestimar a dor e de superestimar o antiviral.

ErroPor que é um problemaComo evitar
Prescrever tecovirimat em caso leveSem benefício em ensaios randomizados.Suporte e analgesia; antiviral só nos cenários da Rota 3/4.
Tratar só com dipirona/paracetamol a proctiteDor intensa leva a internação e constipação.Banho de assento, laxante, lidocaína, gabapentina/opioide.
Não testar HIVHIV avançado é o maior fator de gravidade.Teste rápido e TARV em até 7 dias.
Antibiótico "para prevenir"Sem benefício, seleciona resistência.Só se infecção bacteriana clínica.
Corticoide tópico no olhoPode prolongar a replicação viral.Oftalmologista; lubrificação; trifluridina se indicada.

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O essencial de cenários especiais

  1. HIV com CD4 <200: forma necrotizante, prolongada, mortalidade de até 15% — internar, TARV, considerar terapia combinada.
  2. Gestação: risco de perda fetal e transmissão vertical — internação e cuidado obstétrico.
  3. Crianças: maior risco de forma grave; aleitamento pode continuar com precauções (OMS 2025).
  4. Clado I (Ib): investigar viagem e vínculo; tipagem obrigatória das amostras positivas.

O que muda em cada cenário

A doença é a mesma, mas o limiar para internar, o papel do antiviral e as medidas de proteção mudam conforme o hospedeiro. A tabela resume os principais cenários.

CenárioParticularidadeO que fazer diferente
PVHA com CD4 <200Lesões necrotizantes, confluentes, prolongadas; envolvimento visceral; definidora de aids.Internar; TARV rápida (ou manter); considerar tecovirimat + brincidofovir/cidofovir ± VIGIV com infectologista; vigiar reconstituição imune.
Outros imunossuprimidosTransplante, neoplasia hematológica, quimioterapia, corticoide em dose alta.Mesma lógica; discutir redução da imunossupressão com a equipe assistente.
GestantesTransmissão vertical descrita; perda fetal, sobretudo com clado I.Internação/avaliação obstétrica; via de parto por indicação obstétrica (OMS); recém-nascido em observação.
LactantesContato próximo com o lactente.OMS (2025): continuar amamentação com precauções (cobrir lesões, máscara, higiene) quando o binômio está bem; individualizar.
CriançasMaior risco de forma grave, sobretudo <8 anos; transmissão domiciliar (clado Ib).Limiar baixo para internar; doses por peso; não usar AAS (Reye).
Profissional de saúde expostoMaioria das infecções por perfurocortante.Avaliar risco; vacina PEP se médio/alto; não precisa ser afastado se assintomático (OMS), com monitoramento de 21 dias.
Viajante de área com clado IClado Ib com transmissão sexual e domiciliar.Perguntar viagem; garantir tipagem e comunicação imediata à vigilância.

Mpox e HIV

Grande parte dos casos graves e dos óbitos no Brasil ocorreu em pessoas com HIV sem tratamento. Por isso, toda suspeita de mpox é uma oportunidade de diagnóstico de HIV e de oferta de PrEP para quem é negativo.

  • Teste rápido de HIV em todo caso suspeito; se negativo e com exposição, ofertar PrEP.
  • HIV recém-diagnosticado: iniciar TARV em até 7 dias (MS; OMS recomendação forte).
  • PVHA em TARV: não interromper. Usuário de PrEP: não suspender a PrEP por causa da mpox.
  • CD4 <200 com lesões extensas ou necróticas: internação e discussão de terapia combinada com especialista.

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O essencial de seguimento e prevenção

  1. Reavaliar dor, ingestão, lesões e olhos; seguimento mais próximo em grupos de risco.
  2. Vacina MVA-BN: 2 doses SC (0,5 mL) com 28 dias; prioridade pré-exposição para PVHA com CD4 <100.
  3. Contatos: monitorar por 21 dias; vacina PEP se médio/alto risco.
  4. Notificação imediata (SINAN) de suspeitos, prováveis e confirmados.

Seguimento do paciente

No caso leve, o acompanhamento pode ser por telefone ou teleconsulta, conferindo dor, hidratação, evolução das lesões e sinais de alarme. Grupos de risco precisam de reavaliação presencial mais frequente, porque podem piorar depois da primeira semana.

Após a cura, revise cicatrizes e discromias, sequelas oculares e estenoses (anal, uretral). A reinfecção e a infecção após a vacina são possíveis, em geral mais brandas.

Retorno imediato

Dor no olho ou baixa visual, dor que impede comer, urinar ou evacuar, lesões que necrosam ou se espalham, febre nova, confusão, falta de ar.

Vacinação (MVA-BN)

A MVA-BN (Jynneos®/Imvanex®) usa um vírus vaccinia atenuado que não se replica no organismo humano, por isso pode ser usada em imunossuprimidos. No Brasil, tem uso emergencial autorizado para maiores de 18 anos e é aplicada em estratégia dirigida, com estoque limitado. Estudos observacionais mostram que ela reduz o risco e a gravidade, mas não impede totalmente a infecção.

Prevenção

Vacina MVA-BN: 2 doses de 0,5 mL SC, com 28 dias

Frasco monodose, mantido congelado; após descongelar, até 4 semanas entre 2 e 8 °C.

Pré-exposição (MS, 2025)

  • PVHA ≥18 anos com CD4 <100 células/mm³ (prioridade, com cadastro).
  • Doses remanescentes: PVHA com CD4 <200, usuários de PrEP, profissionais de laboratório que manipulam MPXV.

Pós-exposição (MS)

  • Contato de médio ou alto risco com caso suspeito, provável ou confirmado.
  • 18 a 49 anos; idealmente até 4 dias; até 14 dias para atenuar.

Prevenção no dia a dia

A medida mais eficaz é evitar contato próximo com quem tem a doença. A orientação deve ser clara, sem estigma: a mpox pode atingir qualquer pessoa, e o foco está no comportamento de exposição, não na identidade.

Prevenção

Cuidados em casa

Cobrir lesões, máscara perto de outros, não compartilhar roupas, toalhas e utensílios, higiene das mãos.

  • Reconhecer lesões em si e nas parcerias; evitar sexo e contato íntimo com lesões ativas.
  • Testagem regular de ISTs e PrEP para quem tem indicação.
  • Na África endêmica: evitar contato com roedores e primatas e com carne de caça mal cozida.

Vigilância e notificação

Todo caso suspeito, provável ou confirmado deve ser notificado imediatamente no SINAN. A notificação permite rastrear contatos, ofertar vacina pós-exposição em tempo hábil e acompanhar a introdução do clado I no país.

Lesão sugestiva ou proctite → PCR da lesão + teste de HIV/ISTs + notificação imediata → suporte e analgesia para todos; antiviral só em grave ou imunossupressão grave, com especialista.

Referências principais

  1. 1
    Documento oficial2025
    Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Nota Técnica nº 202/2025-CGHA/DATHI/SVSA/MS: recomendações para profissionais da saúde sobre mpox no contexto da prevenção combinada ao HIV, IST e das pessoas vivendo com HIV/aids. Brasília: Ministério da Saúde; 2025.
  2. 2
    Documento oficial2025
    Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica Conjunta nº 3/2025-DATHI/DPNI/CGLAB/SVSA/MS: recomendações e orientações sobre o diagnóstico de mpox e atualização da estratégia de vacinação. Brasília: Ministério da Saúde; 2025.
  3. 3
    Documento oficial2025
    Espírito Santo. Secretaria de Estado da Saúde. Nota Técnica Conjunta nº 39/2025 – SESA/SSVS/GEVS/NEVE/PEI: atualização das orientações técnico-operacionais para a vacinação contra a mpox na pré e pós-exposição. Vitória: SESA; 2025.
  4. 4
    Documento oficial2026
    Brasil. Ministério da Saúde. Mpox [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; [citado 2026 out]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/m/mpox
  5. 5
    Diretriz2025
    World Health Organization. Clinical management and infection prevention and control for mpox: living guideline, May 2025. Geneva: WHO; 2025. doi:10.2471/B09434.
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    Artigo2026
    Tecovirimat for the treatment of mpox. N Engl J Med. 2026;394(9):884-95. doi:10.1056/NEJMoa2506495.
  7. 7
    Artigo2025
    Tecovirimat for clade I MPXV infection in the Democratic Republic of Congo. N Engl J Med. 2025;392(15):1484-96.
  8. 8
    Diretriz2025
    Centers for Disease Control and Prevention. Expanded Access IND Protocol: use of tecovirimat (TPOXX®) for treatment of human non-variola orthopoxvirus infections in adults and children. IND 116,039, version 6.5. Atlanta: CDC; 2025 Jan 31.
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Aviso importante

Material educacional de apoio à decisão clínica. Não substitui avaliação individualizada, protocolos institucionais, serviço de referência, infectologia, pediatria/obstetrícia nem consulta às bulas. O acesso a tecovirimat, brincidofovir, cidofovir e VIGIV no Brasil é restrito e passa pela vigilância/Ministério da Saúde; indicação, combinação e doses em imunossuprimidos, gestantes e crianças devem ser decididas com infectologista. Grupos prioritários da vacina mudam conforme o estoque: confira a nota técnica vigente.

Conteúdo para educação médica. Condutas devem ser individualizadas e conferidas com protocolos oficiais, contexto epidemiológico e disponibilidade local.
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