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Guia de Zoonoses • Parasitas

Cisticercose

Taenia solium — forma larvária (cisticerco) nos tecidos humanos; o ser humano atua como hospedeiro intermediário acidental

Doença tecidual causada pela larva da Taenia solium, adquirida pela ingestão de ovos eliminados por um portador de teníase — não pela carne de porco. A neurocisticercose é a principal causa evitável de epilepsia adquirida em áreas endêmicas, e o tratamento depende da localização, do número e do estágio dos cistos.

NeurocisticercoseEpilepsia adquiridaEstágio e localizaçãoAlbendazol ± praziquantel
22–26 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Cisticercose é a infecção dos tecidos pela larva da Taenia solium; a teníase é o verme adulto no intestino.
  2. Adquire-se ingerindo ovos eliminados por um portador de teníase — inclusive por autoinfecção.
  3. Neurocisticercose responde por cerca de 30% das epilepsias em áreas endêmicas (OMS).
  4. Localização (parenquimatosa × extraparenquimatosa) e estágio do cisto definem prognóstico e tratamento.

O que é cisticercose

A T. solium é o único parasita que infecta o ser humano em duas fases do mesmo ciclo. Quando a pessoa come carne de porco com cisticercos, desenvolve o verme adulto no intestino (teníase). Quando ingere os ovos, faz o papel do porco: a larva atravessa o intestino, cai na circulação e se instala nos tecidos (cisticercose). Sistema nervoso central, olho, músculo e subcutâneo são os locais típicos.

Comer carne de porco malpassada causa teníase. Cisticercose vem da contaminação fecal-oral com ovos de um portador humano — vegetarianos também se infectam.

O agente e os estágios do cisto

O cisticerco é uma vesícula com líquido e um escólex invaginado. Enquanto viável, ele modula a resposta imune e quase não inflama; os sintomas costumam surgir quando o hospedeiro reconhece o parasita e começa a destruí-lo. Essa evolução, descrita nos estágios de Escobar, explica por que o mesmo paciente pode ter lesões em fases diferentes.

Agente etiológico

Cisticerco de Taenia solium

Vesícula translúcida de cerca de 0,5 a 2 cm com escólex invaginado, que traz ventosas e uma coroa de ganchos.

  • No parênquima, costuma ser único e pequeno.
  • No espaço subaracnoide, pode crescer e formar cachos (forma racemosa), muitas vezes sem escólex visível.
  • O escólex visto na imagem é critério diagnóstico absoluto.
Viável

Vesicular

Cisto de líquido claro com escólex (“buraco com ponto”), sem realce nem edema.

Em degeneração

Coloidal

Líquido turvo, realce anelar e edema ao redor: fase mais sintomática.

Em degeneração

Granular-nodular

Cisto retraído com realce nodular; tende a involuir ou calcificar.

Não viável

Calcificado

Nódulo calcificado na TC. Pode ter edema perilesional episódico e manter crises.

Ciclo biológico

O ciclo natural passa pelo porco, mas o ser humano é o único hospedeiro definitivo: sem portador de teníase não há ovos no ambiente. É por isso que o portador é o alvo central do controle.

Ciclo biológico

Teníase e cisticercose no mesmo ciclo

O portador elimina proglotes e ovos; o porco (ou outro ser humano) ingere os ovos e desenvolve cisticercos nos tecidos.

  1. Portador de teníase

    Verme adulto no intestino delgado elimina proglotes grávidas com milhares de ovos nas fezes.

  2. Ingestão dos ovos

    Pelo porco (ciclo natural) ou por uma pessoa: mãos, alimentos e água contaminados, ou autoinfecção do próprio portador.

  3. Oncosfera

    No intestino, o embrião é liberado, atravessa a parede e ganha a circulação.

  4. Cisticerco

    Instala-se no SNC, olho, músculo ou subcutâneo e amadurece em semanas a meses.

  5. Evolução

    Pode permanecer viável por anos; degenera com inflamação e tende a calcificar.

Epidemiologia

A doença é endêmica na América Latina, na África subsaariana e na Ásia, onde coexistem criação de porcos soltos, saneamento precário e abate sem inspeção. No Brasil, há registros em várias regiões, com relatos históricos importantes no Sul, Sudeste e Centro-Oeste.

Em países sem transmissão local, os casos aparecem em migrantes e, às vezes, em pessoas que nunca viajaram, mas convivem com um portador de teníase vindo de área endêmica.

~30%Das epilepsias em áreas endêmicas (até 70% em comunidades de alto risco)
2,56–8,30 miPessoas com neurocisticercose no mundo (estimativa OMS)
2,8 miDALYs atribuídos à T. solium em 2015

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O essencial de transmissão e risco

  1. A fonte é sempre um portador humano de teníase por T. solium.
  2. Transmissão fecal-oral: mãos, alimentos manipulados e água contaminados com ovos.
  3. O próprio portador pode se autoinfectar.
  4. Carne de porco com cisticercos causa teníase; ela alimenta o ciclo, mas não causa cisticercose diretamente.

Como ocorre a transmissão

Os ovos já saem infectantes nas fezes do portador e resistem no ambiente. O contato próximo é o cenário mais eficiente: quem manipula alimentos sem lavar as mãos pode infectar toda a família. Hortaliças irrigadas com água contaminada por esgoto são outra via.

Cadeia de transmissão

Portador → ovos → contactantes

A doença se concentra em torno de um portador de teníase: o próprio, os moradores da casa e quem consome alimentos que ele preparou.

Teníase

  • Come carne de porco crua/malpassada com cisticercos.
  • Desenvolve o verme adulto no intestino.
  • Vira fonte de ovos.

Cisticercose

  • Ingere ovos de um portador humano.
  • Desenvolve larvas nos tecidos.
  • Não transmite a doença a outras pessoas.

Quem tem mais risco

O risco de se infectar depende do ambiente; o risco de forma grave depende de onde o cisto se instala e de quantos são. Crianças e adultos jovens com muitos cistos podem desenvolver encefalite cisticercótica, e as formas extraparenquimatosas concentram hidrocefalia e mortalidade.

  • Convívio com portador de teníase — fator de risco mais direto, inclusive em área não endêmica.
  • Área rural endêmica com porcos soltos, abate clandestino e saneamento precário.
  • Teníase prévia ou atual — risco de autoinfecção.
  • Migração de área endêmica: a doença pode aparecer anos depois.

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O essencial de quadro clínico

  1. Manifestações dependem de localização, número, tamanho e estágio dos cistos e da resposta inflamatória.
  2. Parenquimatosa: crises epilépticas e cefaleia; em geral, bom prognóstico.
  3. Extraparenquimatosa (ventricular, subaracnoide, espinhal): hidrocefalia, HIC e maior morbimortalidade.
  4. Fora do SNC: olho (risco visual), músculo e subcutâneo (em geral benignos).

Neurocisticercose parenquimatosa

É a forma mais comum. As crises surgem sobretudo quando o cisto degenera e inflama, mas também persistem em torno de calcificações, que podem ter edema perilesional episódico. Cefaleia é frequente; déficit focal é menos comum.

ApresentaçãoO que se vêImplicação
Lesão única com realceCisto em degeneração, em geral pequeno, com edema.Crise focal em jovem; bom prognóstico, tende a resolver.
Cistos viáveis (1 ou mais)Cistos com escólex, sem realce.Candidato a antiparasitário + corticoide.
CalcificaçõesNódulos calcificados na TC.Causa importante de epilepsia; antiparasitário não ajuda.
Encefalite cisticercóticaNumerosos cistos com edema cerebral difuso.Emergência: HIC; antiparasitário contraindicado na fase aguda.

Formas extraparenquimatosas

Quando o cisto está no líquor, a doença muda de natureza: obstrui a circulação liquórica, inflama as meninges e pode estrangular vasos da base. Hidrocefalia, AVC e meningite crônica concentram a mortalidade da neurocisticercose.

Intraventricular

Cisto ventricular

Hidrocefalia obstrutiva, às vezes intermitente (efeito de válvula); 4º ventrículo é clássico.

Subaracnoide

Forma racemosa

Cistos em cacho nas cisternas basais ou fissura silviana: aracnoidite, hidrocefalia comunicante, vasculite e infarto.

  • Espinhal: rara; radiculopatia, dor e mielopatia, em geral associada à forma subaracnoide.
  • Vasculite: infartos lacunares ou de grandes vasos na forma subaracnoide.

Cisticercose fora do SNC

Fora do SNC, o olho é o único local que ameaça função. Na forma muscular e subcutânea, os achados são em geral incidentais, mas valem como pista: quem tem nódulos ou calcificações musculares merece neuroimagem.

Critério absoluto

Cisticercose ocular

Cisto sub-retiniano ou vítreo com escólex à fundoscopia; risco de uveíte e perda visual quando o parasita morre.

Achado característico

Muscular e subcutânea

Nódulos indolores ou calcificações em “grão de arroz” na radiografia; raramente pseudo-hipertrofia muscular.

Sinais de gravidade

Os sinais abaixo indicam doença extraparenquimatosa, grande carga parasitária ou inflamação descontrolada. Pedem internação, neuroimagem urgente e avaliação neurocirúrgica antes de qualquer antiparasitário.

  • Hipertensão intracraniana: cefaleia progressiva, vômitos, papiledema, rebaixamento de consciência.
  • Hidrocefalia em qualquer exame de imagem.
  • Estado de mal epiléptico ou crises em salvas.
  • Déficit focal novo (AVC por vasculite) ou sinais medulares.
  • Baixa visual — cisto ocular ou papiledema.

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O essencial de diagnóstico

  1. RM + TC sem contraste classificam a doença (número, localização, estágio).
  2. Immunoblot (EITB) é o teste sorológico confirmatório; ELISA com antígeno bruto não é recomendado.
  3. Fundoscopia em todos antes do antiparasitário.
  4. Critérios revisados de Del Brutto (2017) graduam o diagnóstico em definitivo ou provável.

O que solicitar, e em que ordem

A investigação parte da imagem e se completa com sorologia e exames que preparam o tratamento. A ordem abaixo segue a IDSA/ASTMH 2017; punção lombar só depois da imagem e se não houver efeito de massa.

  1. Neuroimagem

    RM de crânio (com sequências 3D se suspeita ventricular/subaracnoide) e TC sem contraste para calcificações.

  2. Sorologia

    EITB em soro (mais sensível que no líquor); antígeno circulante ajuda nas formas com muitos cistos e extraparenquimatosas.

  3. Fundoscopia

    Obrigatória antes do antiparasitário: cisto ocular muda a ordem do tratamento.

  4. Antes do corticoide

    Rastreio de TB latente e tratamento empírico (ou rastreio) de Strongyloides se o corticoide for prolongado.

  5. Fontes e contactantes

    Parasitológico de fezes/coproantígeno do paciente e dos moradores do domicílio para teníase.

Neuroimagem e laboratório

Cada exame responde a uma pergunta. A RM vê o cisto vivo e seu escólex; a TC vê o que já calcificou; a sorologia reforça a etiologia quando a imagem não é conclusiva. Nenhum deles sozinho define a conduta.

ExameUtilidadeLimitação / interpretação
RM de crânioMelhor para cistos viáveis, escólex, edema, cistos ventriculares e subaracnoides (FIESTA/CISS).Pode não ver pequenas calcificações.
TC sem contrasteMelhor para calcificações; disponível na urgência.Pouco sensível para cistos ventriculares e subaracnoides.
EITB (immunoblot)Alta especificidade; confirmatório (IDSA).Sensibilidade baixa com lesão única ou só calcificações; positivo pode refletir exposição antiga.
Antígeno circulante (Ag-ELISA)Indica parasita viável; útil em extraparenquimatosa e no seguimento.Disponibilidade limitada.
ELISA com antígeno brutoAmplamente disponível.Reação cruzada; não recomendado pela IDSA.
LíquorPleocitose, proteína alta e às vezes hipoglicorraquia na forma subaracnoide.Contraindicado com efeito de massa ou HIC não controlada.
BiópsiaConfirma quando há dúvida com neoplasia, tuberculoma ou abscesso.Invasiva; reservar a casos selecionados.

Critérios diagnósticos revisados (Del Brutto, 2017)

Os critérios combinam achados absolutos, de neuroimagem e clínico-epidemiológicos. Foram feitos para padronizar o diagnóstico em pesquisa e prática, e dão peso maior à imagem. Use a ferramenta para classificar o caso.

Ver a lista completa de critérios
GrupoCritérios
AbsolutosDemonstração histológica do parasita; cisticerco sub-retiniano à fundoscopia; escólex dentro de um cisto na TC ou RM.
Neuroimagem — maioresLesões císticas sem escólex; lesões com realce; lesões císticas multilobuladas no espaço subaracnoide; calcificações parenquimatosas típicas.
Neuroimagem — confirmatóriosResolução de cistos após antiparasitário; resolução espontânea de lesão única pequena com realce; migração de cisto ventricular em exames seriados.
Neuroimagem — menorHidrocefalia obstrutiva (simétrica ou assimétrica) ou realce anormal das leptomeninges basais.
Clínico/exposição — maioresAnticorpos ou antígenos específicos por testes imunodiagnósticos bem padronizados; cisticercose fora do SNC; contato domiciliar com portador de T. solium.
Clínico/exposição — menoresManifestações sugestivas (crises, déficit focal, HIC, declínio cognitivo); procedência ou residência em área endêmica.

Definitivo: 1 absoluto; ou 2 maiores de imagem + qualquer clínico/exposição; ou 1 maior + 1 confirmatório de imagem + qualquer clínico/exposição; ou 1 maior de imagem + 2 clínico/exposição (≥1 maior) + exclusão de outras doenças. Provável: 1 maior de imagem + quaisquer 2 clínico/exposição; ou 1 menor de imagem + ≥1 clínico/exposição maior.

Classificar pelos critérios de Del Brutto (2017)

Escolha o achado de imagem mais forte e o conjunto de critérios clínico-epidemiológicos.

Selecione os achados para ver a classificação.

Ferramenta de apoio. Os critérios não substituem o julgamento clínico nem a exclusão de tuberculoma, neoplasia, abscesso e outras lesões.

Diagnósticos diferenciais

O diferencial mais importante na prática brasileira é a lesão única com realce: neurocisticercose e tuberculoma têm tratamentos opostos. Lesão pequena (até cerca de 2 cm), arredondada, sem desvio de linha média em paciente com crise e sem doença sistêmica favorece cisticerco (critérios de Rajshekhar).

DiferencialPor que confundeO que ajuda a separar
TuberculomaLesão com realce anelar e crises.Lesão maior, irregular, efeito de massa, sinais de TB sistêmica; escólex afasta.
Neoplasia primária ou metástaseLesão com realce e edema.Crescimento, idade, tumor primário, espectroscopia/biópsia.
Abscesso piogênicoLesão anelar com edema.Febre, foco infeccioso, restrição à difusão no centro.
NeurotoxoplasmoseMúltiplas lesões anelares.HIV avançado/imunossupressão; resposta à terapia anti-Toxoplasma.
Hidatidose cerebral / cenuroseLesões císticas.Cisto hidático em geral grande e único; epidemiologia com cães.
Micoses e nocardioseGranulomas e abscessos.Imunossupressão, lesão pulmonar, cultura/biópsia.
Cistos não parasitários (aracnoide, neuroepitelial)Lesão cística sem realce.Sem escólex, sem evolução de estágio.

Na dúvida entre tuberculoma e cisticerco, a evolução na imagem e, se necessário, a biópsia decidem.

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O essencial de tratamento

  1. Antes de tudo: controlar HIC/hidrocefalia, fundoscopia, TB latente e Strongyloides se corticoide prolongado.
  2. 1–2 cistos viáveis: albendazol 15 mg/kg/dia por 10–14 dias + corticoide. >2: associar praziquantel 50 mg/kg/dia.
  3. Calcificações apenas e encefalite cisticercótica: sem antiparasitário.
  4. Intraventricular: neuroendoscopia; subaracnoide: albendazol prolongado + corticoide em dose alta.

Princípios do tratamento

O tratamento tem quatro peças — antiparasitário, anti-inflamatório, anticonvulsivante e cirurgia — e cada forma usa uma combinação diferente. O antiparasitário só faz sentido contra cisto vivo; ao matá-lo, libera antígenos e piora a inflamação nos primeiros dias, por isso entra sempre com corticoide iniciado antes.

A sequência importa: primeiro tratar a hipertensão intracraniana e a hidrocefalia, depois o parasita. Antiparasitário em paciente com hidrocefalia não tratada ou edema difuso pode ser fatal.

Fundoscopia

Em todos, antes do antiparasitário (IDSA, forte).

TB latente

Rastrear se corticoide prolongado.

Strongyloides

Ivermectina empírica ou rastreio antes do corticoide prolongado.

HIC primeiro

Hidrocefalia/edema difuso: tratar antes; antiparasitário depois.

Rotas de tratamento

Cada rota é um cenário clínico. Abra só a rota em que o seu paciente está: a tabela mostra dose, frequência e duração de cada esquema, e o nome de cada medicamento abre a ficha completa. Opções do mesmo grupo são alternativas — escolha uma.

Teníase: o paciente e os contactantes

Todo caso de cisticercose tem um portador de teníase por trás. Procure-o no próprio paciente e nos moradores do domicílio com parasitológico de fezes seriado (ou coproantígeno, quando disponível). O tratamento da teníase é outro — dose única — e está no artigo Teníase.

Não confundir os esquemas

Praziquantel 5–10 mg/kg dose única, albendazol 400 mg por 3 dias, mebendazol ou nitazoxanida tratam o verme intestinal. Não servem para cisticercose. Praziquantel em portador com neurocisticercose não diagnosticada pode desencadear crises.

Erros que custam caro

Os erros mais graves vêm de tratar a neurocisticercose como doença única, com um esquema só. Quase todos são evitados respondendo antes a três perguntas: o cisto está vivo? onde está? há hipertensão intracraniana?

ErroPor que é um problemaComo evitar
Antiparasitário com hidrocefalia ou edema difusoA inflamação da morte dos cistos pode herniar o paciente.Tratar a HIC primeiro; antiparasitário depois.
Antiparasitário em calcificaçõesNão há parasita viável; só expõe a efeitos adversos.Anticonvulsivante e seguimento.
Esquecer a fundoscopiaCisto ocular pode inflamar e cegar.Fundo de olho em todos antes de tratar.
Antiparasitário sem corticoidePiora de crises, cefaleia e edema nos primeiros dias.Corticoide iniciado antes.
Corticoide prolongado sem pensar em StrongyloidesRisco de hiperinfecção.Ivermectina empírica ou rastreio.
Curso curto na forma subaracnoideRecidiva e progressão.Tratar até resolução radiológica.

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O essencial de cenários especiais

  1. Gestação: adiar antiparasitário; tratar HIC e crises.
  2. Criança: mesma conduta do adulto, com dose por peso; atenção à encefalite.
  3. Imunossuprimido e corticoide prolongado: TB latente e Strongyloides antes.
  4. Caso fora de área endêmica: procurar o portador de teníase no domicílio.

O que muda em cada cenário

Os cenários especiais mudam sobretudo três decisões: se o antiparasitário pode ser dado agora, por quanto tempo o corticoide será usado e qual anticonvulsivante escolher. A tabela resume as diferenças.

CenárioParticularidadeO que fazer diferente
GestaçãoAlbendazol teratogênico em animais; doença raramente exige tratamento imediato.Adiar antiparasitário; corticoide e neurocirurgia se necessário; evitar valproato e metotrexato.
LactaçãoDados limitados de albendazol.Individualizar; praziquantel tem mais experiência.
CriançaMais encefalite cisticercótica e lesão única com realce.Dose por peso (, ); mesma lógica de rotas.
Corticoide prolongadoSubaracnoide, encefalite, cursos repetidos.TB latente, empírica, considerar poupador.
Uso de fenitoína/carbamazepinaReduzem muito os níveis de praziquantel.Preferir ; se mantiver, preferir albendazol.
HIV e outras imunossupressõesDiferencial com neurotoxoplasmose, TB e linfoma.Ampliar investigação; biópsia se dúvida.
Caso autóctone fora de área endêmicaPortador de teníase próximo.Rastrear moradores e manipuladores de alimentos.

Olho: sempre antes

O olho é o lugar onde a inflamação causada pela morte do parasita mais destrói. Por isso a fundoscopia precede todo tratamento, e cisto intraocular é retirado cirurgicamente antes de qualquer antiparasitário para outros sítios.

Baixa visual durante o tratamento: interromper e avaliar com oftalmologia com urgência.

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O essencial de seguimento e prevenção

  1. RM a cada 6 meses até resolução dos cistos (IDSA).
  2. Cisto viável persistente 6 meses após o tratamento: considerar novo curso.
  3. Albendazol >14 dias: hemograma e transaminases.
  4. Prevenção: tratar portadores de teníase, higiene das mãos, saneamento e controle suíno.

Como acompanhar

O controle de cura é radiológico. A RM é repetida pelo menos a cada 6 meses até a resolução dos cistos; nas formas extraparenquimatosas, a imagem guia a duração do tratamento, que pode passar de um ano.

Crises nos primeiros dias de tratamento são esperadas pela inflamação e não significam falha. Calcificação residual não indica parasita vivo, mas aumenta o risco de recorrência de crises.

6 mesesIntervalo máximo entre RMs até resolução
6 mesesPersistência após o curso → considerar retratamento
>14 diasAlbendazol: monitorar hemograma e fígado

Internação e alta

A maioria dos pacientes com forma parenquimatosa pode ser tratada em ambulatório. A internação fica para quem tem risco de hipertensão intracraniana ou crises difíceis, e para o início de esquemas com muitos cistos.

Internar

  • HIC, hidrocefalia ou encefalite.
  • Estado de mal ou crises em salvas.
  • Formas extraparenquimatosas.
  • Início de tratamento com muitos cistos.

Alta

  • Crises controladas e sem HIC.
  • Plano de corticoide, anticonvulsivante e RM definido.
  • Contactantes encaminhados para rastreio de teníase.

Prevenção

A cisticercose é considerada erradicável: o ser humano é o único hospedeiro definitivo, e o porco, o único intermediário relevante. A OMS combina medidas humanas e veterinárias.

  • Achar e tratar portadores de teníase, sobretudo contactantes de casos e manipuladores de alimentos.
  • Higiene das mãos após evacuar e antes de preparar alimentos.
  • Saneamento e água segura; lavar bem hortaliças.
  • Suínos: criação confinada, inspeção sanitária, vacinação TSOL18 e tratamento com oxfendazol (OMS).
  • Carne suína bem cozida previne a teníase — e, assim, novos portadores.

Vigilância no Brasil

Teníase e cisticercose não constam na Lista Nacional de Notificação Compulsória. Alguns estados e municípios mantêm vigilância própria.

Verifique as normas estaduais e municipais e comunique casos agrupados à vigilância local.

Referências principais

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    Diretriz2018
    White AC Jr, Coyle CM, Rajshekhar V, et al. Diagnosis and Treatment of Neurocysticercosis: 2017 Clinical Practice Guidelines by the Infectious Diseases Society of America (IDSA) and the American Society of Tropical Medicine and Hygiene (ASTMH). Clin Infect Dis. 2018;66(8):e49–e75.
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    Diretriz2021
    World Health Organization (WHO). WHO guidelines on management of Taenia solium neurocysticercosis. Genebra: WHO; 2021.
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    Del Brutto OH, Nash TE, White AC Jr, et al. Revised diagnostic criteria for neurocysticercosis. J Neurol Sci. 2017;372:202–210.
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    Diretriz2026
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    Diretriz2026
    World Health Organization (WHO). Taeniasis/cysticercosis — Fact sheet. Acesso em 2026.
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    Artigo1997
    Rajshekhar V, Chandy MJ. Validation of diagnostic criteria for solitary cerebral cysticercus granuloma in patients presenting with seizures. Acta Neurol Scand. 1997;96(2):76–81.
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    Diretriz2016
    Glauser T, Shinnar S, Gloss D, et al. Evidence-based guideline: treatment of convulsive status epilepticus in children and adults. Epilepsy Curr. 2016;16(1):48–61.

Aviso importante

Material educacional de apoio à decisão clínica. Não substitui avaliação individualizada, protocolos institucionais, serviço de referência, infectologia, pediatria/obstetrícia nem consulta às bulas. O tratamento da neurocisticercose depende da localização, do número e do estágio dos cistos: confirme fundoscopia, controle da hipertensão intracraniana e indicação de corticoide antes de qualquer antiparasitário, e não confunda com os esquemas de dose única da teníase.

Conteúdo para educação médica. Condutas devem ser individualizadas e conferidas com protocolos oficiais, contexto epidemiológico e disponibilidade local.
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