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Capilariose

Capillaria (Paracapillaria) philippinensis (intestinal), Calodium hepaticum (hepática) e Eucoleus aerophilus (pulmonar) — nematódeos da família Capillariidae

Capilaríase é o nome de três doenças diferentes causadas por nematódeos capilarídeos. A forma intestinal, adquirida pelo consumo de peixe de água doce cru, tem autoinfecção e evolui com diarreia crônica e enteropatia perdedora de proteína potencialmente fatal; a hepática, rara, simula hepatite febril com eosinofilia. O tratamento é prolongado — mebendazol por 20 dias ou albendazol por 10 dias — e exige controle parasitológico pela recidiva.

NematódeoPeixe cru (intestinal)AutoinfecçãoMebendazol / albendazol
15–18 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

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O essencial de visão geral

  1. Três espécies, três órgãos: C. philippinensis (intestino), Calodium hepaticum (fígado) e Eucoleus aerophilus (pulmão).
  2. A forma intestinal é a mais importante: autoinfecção, enteropatia perdedora de proteína e óbito se não tratada.
  3. A forma hepática verdadeira é rara (pouco mais de 70 casos na revisão de 2011); a infecção espúria é bem mais comum.
  4. No Brasil, o que se descreve é C. hepaticum — principalmente infecção espúria na Amazônia e na Mata Atlântica.

O que é capilaríase

Capilaríase (ou capilariose) designa as infecções humanas por nematódeos finos da família Capillariidae. Apesar do nome comum, são doenças distintas em agente, via de transmissão, órgão acometido e tratamento. A intestinal, por Capillaria philippinensis, é a de maior impacto clínico; a hepática, por Calodium hepaticum, é rara e de diagnóstico difícil; a pulmonar, por Eucoleus aerophilus, é excepcional.

Diarreia crônica com emagrecimento, edema, hipoalbuminemia e hipocalemia em quem come peixe de água doce cru é capilaríase intestinal até prova em contrário — e sem tratamento pode matar.

Os agentes

Os três agentes são nematódeos tricurídeos pequenos, cujos ovos lembram os de Trichuris (casca e tampões polares). O tamanho e o aspecto da casca ajudam o laboratório a distinguir as espécies e, com isso, a separar infecção verdadeira de passagem de ovos.

Agente etiológico

Capillaria philippinensis

Nematódeo de poucos milímetros que vive na mucosa do intestino delgado.

  • Machos de 2,0–3,5 mm e fêmeas de 2,5–4,5 mm (CDC DPDx).
  • Fêmeas produzem ovos com casca (eliminados nas fezes) e ovos sem casca que embrionam dentro do intestino.
  • Esses ovos internos originam larvas que reinfectam o mesmo hospedeiro: autoinfecção e hiperinfecção.
Capilaríase — toque para ampliar.

As três espécies de interesse humano

Forma intestinal

C. (Paracapillaria) philippinensis

Ovos de 35–45 × 20–25 µm, casca estriada, tampões achatados. Humano é hospedeiro definitivo; peixe, intermediário.

Forma hepática

Calodium hepaticum

Sinonímia: Capillaria hepatica. Ovos de 50–70 × 30–35 µm retidos no fígado. Reservatório: roedores (ratos).

Forma pulmonar

Eucoleus aerophilus

Sinonímia: Capillaria aerophila. Parasita de vias aéreas de raposas, cães e gatos; poucos casos humanos.

Ciclos biológicos e fisiopatologia

Os ciclos explicam a clínica. Na forma intestinal, o peixe é obrigatório para a primeira infecção, mas depois o parasita se multiplica sozinho no intestino; na hepática, não há hospedeiro intermediário e os ovos só voltam ao ambiente quando o fígado do hospedeiro é comido ou se decompõe.

Ciclo biológico

Peixe → intestino → autoinfecção; solo → fígado → granuloma

Na forma intestinal, a carga parasitária cresce sem nova exposição; na hepática, a deposição de ovos no parênquima provoca granulomas, necrose e fibrose.

Ciclo de vida e fisiopatologia da capilaríase — toque para ampliar.

Intestinal (C. philippinensis)

  • Ovos não embrionados saem nas fezes e embrionam na água em 5–10 dias.
  • Peixes de água doce ingerem os ovos; as larvas se desenvolvem nos tecidos do peixe.
  • O humano come o peixe cru; os adultos se instalam na mucosa do delgado.
  • Ovos sem casca embrionam no intestino → autoinfecção → carga crescente, atrofia vilositária, má absorção e perda proteica.

Hepática (C. hepaticum)

  • Ciclo direto, sem hospedeiro intermediário.
  • Ovos retidos no fígado do roedor são liberados quando ele é predado ou se decompõe.
  • No solo, embrionam em 6 semanas a 5 meses.
  • O humano ingere ovos embrionados; larvas chegam ao fígado e depositam ovos → granulomas e necrose.

Epidemiologia

A capilaríase intestinal é endêmica nas Filipinas (sobretudo norte de Luzon) e na Tailândia, com casos em outros países do Leste e Sudeste Asiático, no Egito e relatos esporádicos fora dessas áreas. A revisão sistemática de 2026 reuniu 348 pacientes publicados entre 2000 e 2025, com o consumo de peixe cru como fator de risco constante. O primeiro surto filipino teve letalidade acima de 10%.

A forma hepática tem distribuição global nos roedores, mas é rara em humanos. No Brasil, os estudos descrevem sobretudo infecção espúria por consumo de fígado de animais silvestres (queixada, paca, cutia, tamanduá) na Amazônia e na Mata Atlântica do Paraná, além de soroprevalência baixa em Porto Velho (RO).

348Casos intestinais publicados em 2000–2025
>10%Letalidade no primeiro surto filipino
72Casos de forma hepática verdadeira (revisão de 2011)

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O essencial de transmissão e risco

  1. Intestinal: ingestão de peixe de água doce cru ou malcozido com larvas.
  2. Hepática: ingestão de ovos embrionados em solo, água ou alimento contaminados (ciclo de roedores).
  3. Infecção espúria: ovos ingeridos com fígado cru de animal infectado passam nas fezes sem causar doença.
  4. Pulmonar: provável ingestão de ovos do ambiente contaminado por fezes de carnívoros.

Como ocorre a transmissão

Cada espécie tem uma porta de entrada. Não há transmissão direta de pessoa a pessoa: na forma intestinal, os ovos humanos precisam passar por peixes; na hepática, precisam amadurecer no solo. Os pequenos peixes consumidos inteiros e crus em pratos tradicionais são o veículo clássico da forma intestinal.

Vias de transmissão

Peixe cru, solo contaminado e fígado cru

A mesma família de parasitas chega ao humano por três caminhos diferentes — e só dois deles causam doença.

FormaComo se adquireReservatório / hospedeiros
IntestinalPeixe de água doce cru, malcozido ou fermentado com larvas.Humano (definitivo) e peixes (intermediários); aves piscívoras suscetíveis experimentalmente, mas raramente encontradas infectadas.
HepáticaOvos embrionados em solo, água ou alimento; mãos sujas de terra.Roedores (sobretudo ratos); também carnívoros, suínos e primatas.
Infecção espúriaFígado cru/malcozido de animal infectado (ovos não embrionados).Animais silvestres caçados; cães que comem vísceras podem dispersar ovos no peridomicílio.
PulmonarProvável ingestão de ovos embrionados do ambiente.Raposas, cães e gatos.

Quem tem mais risco

O risco segue o hábito alimentar e o ambiente. Na anamnese, pergunte especificamente por peixe cru e por viagem ou origem em área endêmica; na suspeita hepática, por roedores no domicílio e por consumo de vísceras de caça.

  • Consumidores de peixe de água doce cru em áreas endêmicas (Filipinas, Tailândia, Egito) e viajantes que provaram pratos locais.
  • Crianças pequenas com geofagia ou em ambiente infestado por ratos — perfil típico da forma hepática.
  • Comunidades ribeirinhas e de reservas que consomem fígado de caça — infecção espúria.
  • Saneamento precário, que devolve ovos humanos às lagoas e mantém o ciclo intestinal.

Infecção verdadeira × infecção espúria

Este é o ponto que mais confunde. Na capilaríase hepática verdadeira, os ovos ficam presos no fígado e não aparecem nas fezes. Se o laboratório vê ovos de C. hepaticum nas fezes, a pessoa comeu fígado infectado e os ovos apenas atravessaram o tubo digestivo.

Hepática verdadeira

  • Ingestão de ovos embrionados.
  • Febre, hepatomegalia, eosinofilia.
  • Fezes negativas; diagnóstico por biópsia.

Espúria

  • Ingestão de ovos não embrionados em fígado cru.
  • Assintomática.
  • Ovos nas fezes; desaparecem ao suspender a fonte.

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O essencial de quadro clínico

  1. Intestinal: dor abdominal e borborigmos → diarreia aquosa crônica → emagrecimento, edema e caquexia.
  2. Hipoalbuminemia é o achado laboratorial mais constante; hipocalemia e anemia são frequentes.
  3. Hepática: hepatite aguda/subaguda com febre persistente, hepatomegalia, leucocitose e eosinofilia.
  4. Pulmonar: tosse, febre, dispneia e nódulo que pode simular câncer de pulmão.

Capilaríase intestinal

A doença começa de forma inespecífica e se agrava semana após semana, à medida que a autoinfecção aumenta a carga de vermes. O resultado é uma enteropatia com má absorção e perda de proteínas, que pode levar a anasarca, distúrbios eletrolíticos graves, cardiomiopatia e caquexia.

  1. Início

    Dor abdominal vaga, borborigmos, diarreia intermitente.

  2. Semanas

    Diarreia aquosa volumosa, anorexia, náuseas, vômitos, emagrecimento.

  3. Meses

    Edema, ascite, fraqueza por hipocalemia, caquexia; risco de óbito.

Achado característico

Diarreia crônica com má absorção

Diarreia persistente + perda ponderal + hipoalbuminemia + hipocalemia + edema, em consumidor de peixe cru, é o conjunto mais sugestivo.

Diarreia crônica e má absorção na capilaríase intestinal — toque para ampliar.

Achados que orientam

Na revisão sistemática de 2026, diarreia aquosa crônica e hipoalbuminemia apareceram em 24 de 32 estudos; dor abdominal, perda de peso e edema, em 18. A eosinofilia foi incomum — o oposto do que se espera de uma helmintíase tecidual.

Intestinal

Edema por hipoalbuminemia

Edema de membros, ascite ou anasarca pela enteropatia perdedora de proteína.

Hepática

Hepatomegalia febril

Fígado aumentado, por vezes com lesões focais na TC, febre prolongada e eosinofilia marcada.

Capilaríase hepática e pulmonar

A forma hepática acomete sobretudo crianças e se apresenta como hepatite aguda ou subaguda: febre persistente, hepatomegalia, dor abdominal, anemia, leucocitose com eosinofilia intensa e hipergamaglobulinemia. Os granulomas em torno dos ovos podem evoluir com necrose e fibrose; infecções maciças podem ser fatais. Pode simular abscesso, tumor hepático ou toxocaríase visceral.

A forma pulmonar, por Eucoleus aerophilus, tem poucos casos humanos descritos (Rússia, Ucrânia, Sérvia, Marrocos, Irã, França). Cursa com tosse, expectoração mucoide, hemoptise, febre, dispneia e eosinofilia, e já foi confundida com carcinoma brônquico.

Sinais de gravidade

O paciente intestinal grave morre de desidratação, distúrbio eletrolítico e desnutrição, não do verme em si. Esses sinais indicam internação e reposição agressiva junto com o antiparasitário.

  • Desidratação com diarreia volumosa, hipotensão ou lesão renal aguda.
  • Hipocalemia com fraqueza muscular, íleo ou arritmia.
  • Hipoalbuminemia importante com anasarca, ascite ou derrames.
  • Caquexia, insuficiência cardíaca (cardiomiopatia) ou infecção bacteriana secundária.
  • Forma hepática com icterícia, coagulopatia ou insuficiência hepática.

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O essencial de diagnóstico

  1. Intestinal: ovos, larvas e/ou adultos nas fezes ou na biópsia de delgado. Não há sorologia disponível.
  2. Repetir o parasitológico se negativo e a suspeita persistir; PCR quando disponível.
  3. Hepática: confirmação por biópsia (ou necropsia) com ovos e adultos no parênquima.
  4. Ovos de C. hepaticum nas fezes = infecção espúria, não doença hepática.

O que solicitar

A estratégia muda com a forma clínica. Na intestinal, o exame de fezes é o primeiro e geralmente suficiente, e os exames gerais medem a gravidade; na hepática, imagem e eosinofilia apenas sugerem, e a biópsia confirma.

  1. Defina a exposição

    Peixe cru, origem/viagem, roedores, vísceras de caça.

  2. Fezes seriadas

    Pesquisa de ovos, larvas e adultos; informe a suspeita ao laboratório.

  3. Gravidade

    Albumina, potássio, sódio, magnésio, cálcio, função renal, hemograma.

  4. Fezes negativas, suspeita alta

    Endoscopia com biópsia de delgado; PCR se disponível.

  5. Suspeita hepática

    Hemograma (eosinofilia), enzimas, TC/US e biópsia hepática.

Métodos diagnósticos

A microscopia de fezes foi o método principal em todos os desenhos de estudo da revisão de 2026, mas parte dos casos exigiu exames repetidos. A histologia do delgado mostra atrofia vilositária com infiltrado inflamatório e, às vezes, os próprios vermes.

MétodoUtilidadeLimitação / interpretação
Parasitológico de fezesConfirma a forma intestinal: ovos 35–45 µm com casca estriada e tampões achatados; larvas e adultos nas infecções intensas.Sensibilidade limitada em amostra única; diferenciar de Trichuris e de ovos espúrios de C. hepaticum (50–70 µm).
Biópsia de intestino delgadoVermes, larvas e ovos na mucosa; atrofia vilositária.Invasiva; reservar para fezes negativas com suspeita alta.
PCRÚtil quando as fezes são negativas.Pouco disponível e pouco padronizada.
Biópsia hepáticaPadrão para forma hepática: ovos e adultos em granulomas, necrose.Invasiva; pode não amostrar a lesão.
Sorologia (IFI)Usada em estudos de prevalência da forma hepática.Não disponível na rotina; não existe para a forma intestinal.
Escarro / LBA / biópsia pulmonarOvos de E. aerophilus na forma pulmonar.Achado raro; costuma surgir na investigação de nódulo.

Diagnósticos diferenciais

Na forma intestinal, o diferencial é o de toda diarreia crônica com má absorção e perda proteica; na hepática, o de febre prolongada com eosinofilia e lesão hepática.

DiferencialPor que confundeO que ajuda a separar
EstrongiloidíaseDiarreia crônica, autoinfecção, má absorção.Larva rabditoide nas fezes; exposição a solo; eosinofilia mais comum.
Giardíase / outras parasitosesDiarreia crônica e má absorção.Cistos/trofozoítos; resposta a nitroimidazólico.
Doença celíaca, espru tropical, DIIAtrofia vilositária, hipoalbuminemia.Sorologias, histologia e ausência de parasitas; exposição a peixe cru.
Outras enteropatias perdedoras de proteínaEdema e hipoalbuminemia.Linfangiectasia, doença cardíaca; parasitológico negativo repetido.
Toxocaríase visceral, fasciolíaseFebre, hepatomegalia, eosinofilia.Sorologias específicas; lesões em trilha na fasciolíase; biópsia.
Abscesso hepático, neoplasiaFebre e lesão hepática focal.Eosinofilia marcada favorece parasitose; histologia.

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O essencial de tratamento

  1. Intestinal: mebendazol 200 mg VO 12/12 h por 20 dias (1ª escolha) ou albendazol 400 mg/dia por 10 dias (CDC 2024).
  2. Mesma dose para adultos e crianças; corrigir líquidos, potássio e proteínas é parte do tratamento.
  3. Recidiva: mebendazol 200 mg 12/12 h por mais 30 dias; controle de fezes após o curso.
  4. Hepática: albendazol prolongado + corticoide; infecção espúria não precisa de tratamento.

Princípios do tratamento

Na forma intestinal, o curso é longo por um motivo biológico: os benzimidazóis agem pouco sobre larvas, e a autoinfecção mantém novas gerações chegando à fase adulta. Cursos curtos, como os usados em outras verminoses, resultam em recidiva. O CDC recomenda mebendazol por 20 dias como primeira escolha e albendazol por 10 dias como alternativa, com as mesmas doses em adultos e crianças.

O antiparasitário resolve a causa, mas o paciente grave morre de desidratação, hipocalemia e desnutrição. Por isso a reposição hidroeletrolítica e proteica começa junto com o vermífugo. Na forma hepática não há ensaios: os relatos usam albendazol por semanas a meses com corticoide para conter a inflamação granulomatosa.

Tiabendazol

Usado no passado (inclusive no artigo anterior desta página), foi substituído pelos benzimidazóis atuais por menor eficácia, mais recidivas e mais efeitos adversos. Não está na RENAME nem é comercializado para uso oral nos EUA.

Rotas de tratamento

Cada rota é um cenário clínico. Abra só a rota em que o seu paciente está: a tabela mostra dose, frequência e duração de cada esquema, e o nome de cada medicamento abre a ficha completa. Opções do mesmo grupo são alternativas — escolha uma.

Monitoramento durante o tratamento

Os cursos longos de benzimidazóis exigem vigilância de toxicidade, e o paciente intestinal grave exige vigilância metabólica. A resposta se mede pela diarreia, pelo peso e pela albumina — e, no fim, pelo exame de fezes.

O quêComo monitorar
EletrólitosK, Na, Mg, Ca e função renal no início; diariamente no paciente internado.
Estado nutricionalPeso e albumina no início, no fim do curso e no seguimento.
ToxicidadeHemograma e transaminases em cursos de albendazol/mebendazol >2 semanas.
Corticoide (forma hepática)Glicemia, pressão arterial e sinais de infecção; antes de iniciar, afastar estrongiloidíase em quem tem exposição.

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O essencial de cenários especiais

  1. Viajante com diarreia crônica e hipoalbuminemia: perguntar por peixe cru na Ásia ou no Egito.
  2. Criança com febre prolongada, hepatomegalia e eosinofilia: lembrar C. hepaticum.
  3. Ovos de C. hepaticum nas fezes de ribeirinho que come fígado de caça: infecção espúria.
  4. Gestante: evitar benzimidazóis no 1º trimestre; corrigir o suporte e reavaliar.

O que muda em cada cenário

Por ser rara fora da Ásia, a capilaríase quase sempre é diagnosticada tarde. A maior parte dos cenários especiais é, na verdade, sobre lembrar da doença no contexto certo e não confundir as formas.

CenárioParticularidadeO que fazer diferente
Viajante ou imigrante do Sudeste Asiático/EgitoDiarreia crônica atribuída a causas comuns por meses.Perguntar por peixe cru; fezes seriadas com a suspeita informada ao laboratório.
Criança com hepatite febril e eosinofiliaSimula abscesso, tumor ou toxocaríase.Biópsia hepática; tratar com + .
Comunidade amazônica ou da Mata AtlânticaInfecção espúria frequente em quem come fígado de caça.Não tratar; orientar cozimento das vísceras e repetir as fezes.
GestanteBenzimidazóis evitados no 1º trimestre.Suporte e reavaliação; no 2º–3º trimestre, tratar se o benefício superar o risco.
Criança <2 anosSegurança do mebendazol incerta.Preferir (≥1 ano).
Corticoide planejado (forma hepática)Coinfecção por Strongyloides em expostos.Investigar e tratar estrongiloidíase antes do corticoide.
ImunossupressãoPoucos dados; autoinfecção sugere risco de carga maior.Curso completo e controle parasitológico rigoroso.

Capilaríase no Brasil

Não há transmissão autóctone documentada da forma intestinal no Brasil; casos importados são possíveis. O que existe aqui é Calodium hepaticum, presente em ratos urbanos e silvestres. Em Presidente Figueiredo (AM), 6,7% dos moradores de uma comunidade tinham infecção espúria, ligada ao consumo de fígado de queixada (2012); em Guaraqueçaba (PR), 13,5%, após consumo de tamanduá (2014).

Em Porto Velho (RO), estudo de 2015 encontrou 1,8% de soropositividade indicando exposição e 0,8% com títulos compatíveis com infecção verdadeira. Os casos hepáticos verdadeiros brasileiros são raros e de confirmação histológica.

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O essencial de seguimento e prevenção

  1. Forma intestinal: repetir parasitológico de fezes ao fim do curso e no seguimento — recidiva é a principal armadilha.
  2. Ovos ou larvas no controle = novo curso de mebendazol por 30 dias.
  3. Acompanhar peso e albumina até a normalização.
  4. Prevenção: peixe de água doce bem cozido, saneamento e controle de roedores.

Como acompanhar

Como as larvas escapam dos benzimidazóis, a melhora clínica não basta para encerrar o caso. Repita o parasitológico de fezes (amostras seriadas) ao término do tratamento e novamente nas semanas seguintes; qualquer ovo, larva ou adulto indica novo curso.

Na forma hepática, o seguimento é clínico, laboratorial (eosinófilos, enzimas) e por imagem, com desmame cuidadoso do corticoide.

  1. Fim do curso

    Parasitológico de fezes seriado; peso, albumina e eletrólitos.

  2. Semanas seguintes

    Repetir fezes; reavaliar diarreia e edema.

  3. Controle positivo ou recidiva

    200 mg 12/12 h por 30 dias e reavaliar.

  4. Alta

    Fezes negativas repetidas, peso e albumina em recuperação, orientação alimentar.

Não há intervalo de controle padronizado nas diretrizes; o esquema acima é uma proposta prática. Ajuste conforme a gravidade inicial.

Prevenção

A forma intestinal é prevenida na cozinha; a hepática, no ambiente. Em áreas endêmicas, a educação sobre peixe cru e o saneamento interrompem o ciclo; no Brasil, o foco é o controle de roedores e o cozimento de vísceras de caça.

  • Peixe de água doce bem cozido (63 °C, segundo o CDC); evitar preparações cruas, fermentadas ou malcozidas.
  • Vísceras de animais sempre bem cozidas; não oferecer vísceras cruas a cães.
  • Controle de roedores em domicílios, depósitos e áreas rurais.
  • Higiene: lavar as mãos após contato com terra, lavar frutas e verduras, água tratada.
  • Saneamento: destino adequado das fezes humanas, para os ovos não chegarem a rios e lagoas.

Vigilância e notificação no Brasil

A capilaríase não consta da Lista Nacional de Notificação Compulsória vigente (Portaria GM/MS nº 11.211/2026). Casos raros ou importados merecem comunicação à vigilância local e, se possível, publicação.

Erros comuns

Os erros mais frequentes vêm de tratar a capilaríase como uma verminose comum ou de confundir as três formas.

ErroPor que é um problemaComo evitar
Curso curto de benzimidazolAutoinfecção mantém o parasita; recidiva.Mebendazol 20 dias ou albendazol 10 dias, completos.
Exigir eosinofiliaÉ incomum na forma intestinal.Valorizar exposição e síndrome de má absorção.
Tratar só o vermeÓbito por desidratação, hipocalemia e desnutrição.Reposição hidroeletrolítica e proteica desde o início.
Dar alta sem controle de fezesRecidiva silenciosa.Parasitológico ao fim do curso e no seguimento.
Tratar ovo de C. hepaticum nas fezes como doença hepáticaInfecção espúria não é doença.Correlacionar com clínica e com consumo de fígado.

Referências principais

  1. 1
    Diretriz2024
    Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Clinical Care of Capillariasis. Atualizado em 16 fev. 2024.
  2. 2
    Diretriz2024
    Centers for Disease Control and Prevention (CDC). About Capillariasis. Atualizado em 23 jan. 2024.
  3. 3
    Diretriz
    Centers for Disease Control and Prevention (CDC). DPDx — Intestinal Capillariasis e DPDx — Hepatic Capillariasis. Ciclo de vida, morfologia e diagnóstico laboratorial.
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    The Medical Letter. Drugs for Parasitic Infections. 3rd ed. New Rochelle: The Medical Letter; 2013 (e atualizações).
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    Jongthawin J, Wangdi K, Masangkay FR, Kotepui M. Global distribution, clinical characteristics, and outcomes of human intestinal capillariasis, 2000–2025: a systematic review. Infect Dis Poverty. 2026.
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    Artigo2010
    Belizario VY Jr, et al. Intestinal capillariasis, Western Mindanao, the Philippines. Emerg Infect Dis. 2010;16(4).
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    Artigo2012
    Gonçalves AQ, et al. Calodium hepaticum: household clustering transmission and the finding of a source of human spurious infection in a community of the Amazon region. PLoS Negl Trop Dis. 2012;6(12):e1943.
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    Artigo2014
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  10. 10
    Artigo2015
    Study of the prevalence of Capillaria hepatica in humans and rodents in an urban area of the city of Porto Velho, Rondônia, Brazil. Rev Inst Med Trop São Paulo. 2015;57(1).
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    Kazemi Aghdam M, et al. Capillaria hepatica, a case report and review of the literature. Arch Pediatr Infect Dis. 2015;3(2):e19398.
  13. 13
    Documento oficial2024
    Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — RENAME 2024.
  14. 14
    Documento oficial2026
    Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 11.211, de 13 de maio de 2026. Lista Nacional de Notificação Compulsória vigente.

Aviso importante

Material educacional de apoio à decisão clínica. Não substitui avaliação individualizada, protocolos institucionais, serviço de referência, infectologia, pediatria/obstetrícia nem consulta às bulas. Os esquemas da forma hepática (albendazol prolongado + corticoide), as doses pediátricas por peso e o tratamento na gestação baseiam-se em relatos de caso e extrapolação; confira com infectologia antes da prescrição e mantenha controle parasitológico na forma intestinal.

Conteúdo para educação médica. Condutas devem ser individualizadas e conferidas com protocolos oficiais, contexto epidemiológico e disponibilidade local.
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