MedFoco

Guia de Zoonoses • Parasitas

Estrongiloidíase

Strongyloides stercoralis — nematódeo intestinal transmitido pelo solo, com ciclo de autoinfecção

Helmintíase adquirida pela penetração cutânea de larvas do solo contaminado. A autoinfecção permite persistência por décadas e explica a hiperinfecção potencialmente fatal após corticosteroides ou outra imunossupressão. O diagnóstico exige métodos sensíveis e a ivermectina é a primeira escolha.

Nematódeo intestinalAutoinfecçãoRisco com corticoideIvermectina
18–22 min de leitura Atualizado em agosto de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Helmintíase transmitida pelo solo, causada principalmente por Strongyloides stercoralis.
  2. A autoinfecção permite que a infecção persista por décadas, mesmo longe da área endêmica.
  3. Imunossupressão — sobretudo corticoide — pode desencadear hiperinfecção ou disseminação.
  4. Nas formas graves, eosinofilia pode faltar e sepse por Gram-negativos é frequente.

O que é estrongiloidíase

Infecção que pode ser assintomática ou produzir manifestações cutâneas, gastrointestinais e respiratórias. Seu diferencial biológico é completar um ciclo de autoinfecção dentro do hospedeiro. É esse detalhe que transforma uma helmintíase muitas vezes silenciosa em risco de vida quando a imunidade cai — sobretudo sob corticoide.

Antes de corticoide em dose relevante ou outro imunossupressor em pessoa com epidemiologia compatível, procure ativamente Strongyloides. Ausência de sintomas não elimina infecção crônica.

O agente

Strongyloides stercoralis é um nematódeo pequeno, primariamente parasito humano, cujo ciclo alterna fases parasitárias e de vida livre. Entender suas formas ajuda a interpretar os exames: como os ovos eclodem ainda na mucosa, o que se procura nas fezes é a larva, e não o ovo.

Agente etiológico

Strongyloides stercoralis

Nematódeo pequeno com ciclo incomum, que alterna fases parasitárias e de vida livre.

  • Fêmeas parasitárias vivem na mucosa do intestino delgado e reproduzem-se por partenogênese.
  • Os ovos eclodem ainda na mucosa: nas fezes aparece a larva rabditoide, não o ovo.
  • Primariamente parasito humano.
Histologia da estrongiloidíase — toque para ampliar.

Formas do parasita

Nas fezes

Larva rabditoide

Forma mais encontrada nas fezes na infecção intestinal.

Forma infectante (L3)

Larva filarioide

Está no solo; aparece em escarro/LBA na hiperinfecção e disseminação.

Na mucosa

Fêmea parasitária

Habita a mucosa do delgado e produz ovos que eclodem no local.

É mesmo uma zoonose?

Cães podem albergar linhagens geneticamente relacionadas às humanas, mas a importância da transmissão cão–humano permanece incerta, e não há evidência suficiente para tratar o cão como reservatório humano estabelecido. A interface com animais existe sobretudo em S. fuelleborni subsp. fuelleborni, espécie zoonótica rara associada a primatas não humanos.

Ciclo biológico e autoinfecção

O ciclo tem uma fase no ambiente e outra dentro do ser humano, e a clínica inteira da doença decorre de um ponto: parte das larvas vira forma infectante ainda dentro do hospedeiro. Isso fecha o ciclo sem nova exposição ao solo.

Ciclo biológico

Fase ambiental + ciclo parasitário humano

O ponto decisivo para a clínica: parte das larvas vira forma infectante ainda dentro do hospedeiro, sustentando a autoinfecção.

Ciclo de vida e fisiopatologia da estrongiloidíase — toque para ampliar. Em S. stercoralis, a forma eliminada nas fezes é a larva rabditoide; os ovos eclodem na mucosa.
  1. Penetração cutânea

    Larvas filarioides L3 do solo atravessam a pele, geralmente dos pés.

  2. Migração

    Circulação → pulmões → faringe → deglutição → intestino delgado. Rotas alternativas são possíveis.

  3. Fase intestinal

    Fêmeas na mucosa produzem ovos por partenogênese; eclodem localmente, liberando larvas rabditoides.

  4. Saída ou vida livre

    Larvas eliminadas nas fezes viram L3 diretamente ou originam adultos de vida livre no solo.

  5. Autoinfecção

    Parte das larvas vira filarioide no intestino ou região perianal e penetra de novo mucosa/pele.

Quando a imunidade cai, a autoinfecção se acelera intensamente: é a hiperinfecção, com grande carga larvária em intestino e pulmões. Se as larvas saem desse trajeto habitual e atingem outros órgãos, fala-se em disseminação, com alto risco de sepse, meningite e falência orgânica.

A mesma autoinfecção explica por que a infecção dura décadas e por que o objetivo terapêutico é erradicar o parasito, não só aliviar sintomas.

Epidemiologia e persistência

Mais frequente em regiões tropicais e subtropicais quentes e úmidas, com saneamento inadequado e contato com solo contaminado por fezes humanas. A distribuição é heterogênea, e a carga global é estimada em centenas de milhões de pessoas.

Como a penetração cutânea a partir do solo é a principal via e a autoinfecção mantém o parasita, a exposição relevante pode ter ocorrido muitos anos antes da consulta. Isso pesa na anamnese de migrantes e de quem viveu em zona rural.

DécadasPersistência por autoinfecção
Alta letalidadeFormas disseminadas, sobretudo com diagnóstico tardio

Em 30 segundos

O essencial de transmissão e risco

  1. Pele em contato com solo contaminado por larvas filarioides é a via típica.
  2. As larvas vêm de fezes humanas: saneamento inadequado mantém o ciclo.
  3. Corticoide, HTLV-1, transplante e neoplasia hematológica elevam o risco de forma grave.
  4. Investigar antes de imunossuprimir é a medida clínica mais importante.

Como ocorre a transmissão

A transmissão depende de fezes humanas chegarem ao solo. Lá, as larvas completam o desenvolvimento até a forma infectante, que atravessa a pele de quem anda descalço, trabalha com terra ou permanece em locais contaminados.

Ciclo de transmissão

Fezes humanas → solo → pele

Larvas rabditoides eliminadas nas fezes completam o desenvolvimento no ambiente até a forma filarioide infectante, que penetra a pele.

Onde o saneamento é inadequado, as fezes humanas no solo mantêm o ciclo e a exposição comunitária. Vias incomuns existem, mas são raras: transplante de órgãos e alguns ambientes institucionais específicos.

Zoonose?

S. stercoralis é principalmente humano. Cães podem compartilhar linhagens, mas a transmissão zoonótica direta não está suficientemente comprovada.

Quem tem mais risco de infecção ou doença grave

Vale separar duas perguntas. Quem tem risco de se infectar é quem nasceu, morou por muito tempo ou viajou para áreas tropicais/subtropicais, sobretudo com vida rural, agricultura, saneamento precário e contato frequente com solo. Quem tem risco de adoecer gravemente é o infectado cuja imunidade será comprometida.

  • Corticosteroides — gatilho clássico de hiperinfecção, mesmo após infecção assintomática antiga.
  • HTLV-1 — maior carga parasitária, menor resposta terapêutica e mais formas graves ou recorrentes.
  • Transplante e neoplasia hematológica — imunossupressão intensa: baixa tolerância para investigar e tratar.

Antes de imunossuprimir

Avalie o risco antes de corticoide em dose imunossupressora, transplante, quimioterapia ou outros imunossupressores. O CDC prioriza a triagem em residência/viagem a áreas endêmicas, eosinofilia persistente sem explicação, HTLV-1, neoplasias hematológicas e candidatos a transplante. O raciocínio é simples: é mais fácil tratar uma infecção crônica silenciosa do que resgatar uma hiperinfecção.

  1. Reconstitua a exposição

    País/região de origem, viagens, trabalho rural, contato com solo, saneamento.

  2. Procure pistas

    Eosinofilia, urticária recorrente, larva currens, sintomas GI intermitentes — podem faltar.

  3. Escolha testes sensíveis

    Sorologia na triagem; fezes seriadas e técnicas específicas aumentam a sensibilidade.

  4. Não espere eosinofilia na forma grave

    Hiperinfecção sob corticoide frequentemente cursa sem eosinofilia.

  5. Se a imunossupressão não pode esperar

    Em alto risco, tratamento presuntivo segundo protocolo local e avaliação clínica.

Não existe um regime único de “profilaxia” para todos os imunossuprimidos. PCDTs brasileiros específicos adotam esquemas preventivos em contextos definidos — não confundir com o tratamento da infecção não complicada (veja Tratamento).

Em 30 segundos

O essencial de quadro clínico

  1. Infecção crônica é frequentemente assintomática; quando sintomática, predominam GI e pele.
  2. Larva currens: trilha urticariforme serpiginosa e recorrente que avança centímetros por hora.
  3. Hiperinfecção = GI + pulmão; disseminação = órgãos fora desse trajeto.
  4. Sepse ou meningite por Gram-negativos em imunossuprimido exposto: pense em Strongyloides.

Infecção aguda e crônica

A infecção crônica é frequentemente assintomática. Quando há sintomas na fase aguda, eles acompanham o trajeto da larva: primeiro a pele, depois o pulmão e, por fim, o intestino delgado. Na fase crônica predominam queixas gastrointestinais e cutâneas.

  1. Fase cutânea

    Lesão eritematosa e pruriginosa no ponto de penetração.

  2. Migração pulmonar

    Tosse seca, irritação traqueal, sibilância transitória.

  3. Fase intestinal

    Dor epigástrica, plenitude, diarreia intermitente, constipação, náuseas, anorexia.

Na infecção crônica, eosinofilia leve e IgE elevada são comuns — mas a ausência desses achados não exclui a doença.

Sinais característicos

Poucos achados são realmente sugestivos, e cada um aponta para um momento diferente da doença. A larva currens denuncia a autoinfecção na infecção crônica; púrpura periumbilical, infiltrado pulmonar e larvas em secreção respiratória já indicam hiperinfecção ou disseminação.

Sinal patognomônico

Larva currens

Erupção urticariforme serpiginosa e recorrente em nádegas, períneo ou coxas, avançando vários cm/hora (autoinfecção).

Achado característico

Púrpura periumbilical

Petéquias/púrpura em “impressão digital” no abdome, pela migração larvária na hiperinfecção/disseminação.

Achado característico

Infiltrado pulmonar

Infiltrados difusos, hemoptise e hipoxemia na hiperinfecção.

Achado de gravidade

Larvas em escarro/LBA

Larvas filarioides em secreção respiratória indicam doença grave.

A velocidade de progressão e o padrão recorrente ajudam a separar larva currens de outras dermatites serpiginosas — o diagnóstico final integra epidemiologia e exames.

Hiperinfecção e doença disseminada

A diferença entre os dois termos é anatômica: na hiperinfecção a carga larvária explode no trajeto habitual (intestino e pulmão); na disseminação, as larvas chegam a órgãos fora dele. Em ambos, a lesão intestinal e a migração larvária facilitam a translocação bacteriana — daí as sepses e meningites por Gram-negativos, às vezes sem foco óbvio.

CenárioDefinição práticaAchados de alerta
HiperinfecçãoAceleração intensa da autoinfecção, com grande carga larvária sobretudo no trato GI e pulmões.Diarreia/vômitos, íleo, hemorragia GI, pneumonite, hemoptise, hipoxemia, insuficiência respiratória.
DisseminadaLarvas atingem órgãos fora do trajeto habitual GI–pulmão.Meningite, alteração neurológica, choque, envolvimento multiorgânico, larvas em sítios ectópicos.
Complicação bacterianaTranslocação facilitada pela lesão intestinal e pela migração larvária.Bacteremia/sepse recorrente por Gram-negativos e meningite bacteriana, às vezes sem foco óbvio.
Cenário clássico de emergência

Exposição epidemiológica + corticoide recente + piora respiratória/intestinal + bacteremia por Gram-negativos. Eosinofilia pode estar ausente. Não aguarde confirmação perfeita para discutir tratamento quando a suspeita for alta.

Sinais de gravidade

O contexto que deve deixar você em alerta é o hospedeiro sob corticoide, transplante, HTLV-1 ou neoplasia hematológica, sobretudo se houver larvas em escarro, LBA ou outros sítios extraintestinais. Nesse paciente, procure ativamente os sinais de órgão abaixo — cada um sugere que a doença já saiu do controle.

  • Respiratório: hipoxemia, hemoptise, infiltrados difusos, insuficiência respiratória.
  • Abdominal: íleo, obstrução, sangramento digestivo, peritonite, dor desproporcional.
  • Sistêmico: choque, bacteremia ou sepse — sobretudo recorrente por bacilos Gram-negativos.
  • Neurológico: meningismo, alteração de consciência, déficit neurológico.

Em 30 segundos

O essencial de diagnóstico

  1. Eliminação de larvas é baixa e intermitente: um parasitológico isolado tem sensibilidade limitada.
  2. Fezes seriadas + Baermann ou cultura em ágar; sorologia IgG na triagem da infecção crônica.
  3. Forma grave: procure larvas em escarro, LBA e outros materiais.
  4. Eosinofilia ajuda, mas sua ausência nunca afasta hiperinfecção.

O que solicitar, e em que ordem

O problema central é a baixa e intermitente eliminação de larvas: um parasitológico isolado tem sensibilidade limitada. O CDC considera o exame seriado de fezes a referência parasitológica, mas os métodos tradicionais podem exigir várias amostras para boa sensibilidade — por isso a investigação combina estratégias, na ordem abaixo.

  1. Defina o risco

    Epidemiológico e imunológico.

  2. Infecção crônica

    Combine sorologia com pesquisa parasitológica sensível, quando disponível.

  3. Amostras seriadas

    A repetição aumenta o rendimento, sobretudo após primeira amostra negativa.

  4. Técnicas específicas

    Baermann e cultura em placa de ágar rendem mais que a microscopia convencional.

  5. Forma grave

    Pesquise larvas em escarro/LBA e outros materiais conforme o órgão acometido.

Como bater o martelo

Ver a larva confirma; a sorologia sugere. A IgG positiva em pessoa exposta indica infecção provável, mas não distingue perfeitamente infecção ativa de passada e pode cruzar com outras helmintíases. Ainda assim, na triagem antes de imunossupressão, costuma bastar para tratar.

Infecção confirmada

  • Larvas em fezes (microscopia, Baermann, cultura em ágar).
  • Larvas em escarro, LBA ou outro sítio — indica doença grave.
  • PCR positiva, onde disponível e padronizada.

Infecção provável

  • Sorologia IgG positiva em pessoa com exposição compatível.
  • Pode refletir infecção passada ou reação cruzada.

Na suspeita de hiperinfecção, o conjunto clínico-epidemiológico e a demonstração de larvas têm prioridade — e o tratamento não espera a confirmação ideal.

Métodos diagnósticos

Nenhum método resolve sozinho. As técnicas que concentram ou cultivam larvas (Baermann e cultura em ágar) rendem mais que a microscopia convencional, e a sorologia é a ferramenta de triagem; na forma grave, escarro e LBA passam a ser o material mais produtivo.

MétodoUtilidadeLimitação / interpretação
Microscopia de fezesIdentifica larvas; confirma quando positiva.Baixa sensibilidade na infecção não complicada; repetir amostras.
BaermannConcentra larvas móveis e aumenta o rendimento.Exige amostra fresca e experiência técnica.
Cultura em ágarUma das técnicas coproparasitológicas mais sensíveis.Mais demorada; exige biossegurança no processamento.
Sorologia IgGMuito útil na triagem de infecção crônica e antes de imunossupressão.Reação cruzada com outras helmintíases; persiste após tratamento.
PCRPode aumentar a detecção onde disponível.Disponibilidade e padronização variam; negativa não exclui em alto risco.
Escarro / LBALarvas podem ser abundantes na hiperinfecção pulmonar.Achado em contexto compatível = doença grave → tratamento imediato.

Eosinofilia: útil, mas não confiável sozinha

A eosinofilia é a pista laboratorial mais lembrada, mas funciona em uma só direção. Quando presente e sem explicação em pessoa exposta, deve motivar investigação; quando ausente, não afasta nada — e é justamente sob corticoide, no paciente mais grave, que ela costuma desaparecer.

Quando ajuda

  • Eosinofilia persistente sem explicação em pessoa exposta deve motivar investigação.
  • Eosinofilia leve é frequente na infecção crônica.

Quando engana

  • Eosinófilos normais não excluem infecção crônica.
  • Eosinopenia ou eosinófilos normais nunca afastam hiperinfecção no imunossuprimido.
  • Sob corticoide, a eosinofilia periférica frequentemente está ausente.

Diagnósticos diferenciais

Os diferenciais mudam conforme a forma clínica. Na infecção crônica, a confusão é com outras dermatoses serpiginosas, outras helmintíases e doenças alérgicas; na forma grave, com pneumonia, SDRA e sepse de foco abdominal — e o erro aqui custa mais caro, porque costuma vir acompanhado de corticoide.

DiferencialPor que confundeO que ajuda a separar
Larva migrans cutânea (ancilostomídeos de animais)Lesão serpiginosa pruriginosa após contato com solo.Larva currens avança centímetros por hora, é recorrente e perianal/glútea/coxas; a larva migrans progride lentamente, em geral nos pés.
Outras helmintíases com eosinofilia (ancilostomíase, ascaridíase, esquistossomose, toxocaríase)Eosinofilia, sintomas GI ou pulmonares transitórios; sorologia pode cruzar.Ovos característicos nas fezes, epidemiologia específica; larva rabditoide nas fezes aponta Strongyloides.
Urticária crônica / doença alérgicaUrticária recorrente e eosinofilia leve.Exposição a solo de área endêmica, trilha linear migratória e investigação parasitológica sensível.
Pneumonia bacteriana / SDRA no imunossuprimidoInfiltrados difusos, hipoxemia, sepse.Corticoide + exposição + bacteremia por Gram-negativos sem foco: pesquisar larvas em escarro/LBA.
Sepse por Gram-negativos de foco abdominalBacteremia entérica, íleo, dor abdominal.Bacteremia/meningite recorrente sem foco óbvio em imunossuprimido exposto sugere translocação por larvas.
Diarreia infecciosa / doença inflamatória intestinalDiarreia, dor abdominal, sangramento.Fezes seriadas com técnica sensível; atenção antes de corticoide para DII.

Em paciente exposto que vai receber corticoide, excluir ou tratar Strongyloides vem antes da imunossupressão sempre que o tempo clínico permitir.

Em 30 segundos

O essencial de tratamento

  1. Ivermectina 200 mcg/kg (0,2 mg/kg) VO é a 1ª escolha em todas as formas.
  2. Não complicada: 1x/dia por 1–2 dias. Repetir no 15º dia não é rotina.
  3. Hiperinfecção: diária até fezes/escarro negativos por ≥2 semanas + reduzir imunossupressão.
  4. Albendazol é alternativa menos eficaz e não substitui a ivermectina na forma grave.

Princípios do tratamento

A meta é eliminar o parasita, não apenas controlar sintomas: enquanto houver larvas, a autoinfecção mantém a porta aberta para uma futura hiperinfecção. Por isso a ivermectina vem primeiro — é mais eficaz que o albendazol em todas as formas (CDC).

O que diferencia as rotas abaixo é o cenário: a duração na forma grave, a via quando o intestino não absorve, o momento em relação à imunossupressão e as populações em que o risco–benefício precisa ser pesado.

Checar Loa loa

Epidemiologia compatível exige excluir loíase antes da ivermectina, inclusive presuntiva.

Rotas de tratamento

Cada rota é um cenário clínico. Abra só a rota em que o seu paciente está: a tabela mostra dose, frequência e duração de cada esquema, e o nome de cada medicamento abre a ficha completa. Opções do mesmo grupo são alternativas — escolha uma.

Em 30 segundos

O essencial de cenários especiais

  1. Corticoide é o gatilho clássico de hiperinfecção: investigue antes sempre que o tempo permitir.
  2. HTLV-1 = erradicação mais difícil e formas recorrentes ou graves.
  3. Exposição a área de Loa loa pode tornar a ivermectina perigosa.
  4. Gestação, lactação e <15 kg: contraindicações relativas à ivermectina.

O que muda em cada cenário

Quase todos os cenários especiais giram em torno de uma mesma ideia: a imunossupressão transforma uma infecção tolerada em doença grave. Por isso o momento da investigação — antes, durante ou depois do imunossupressor — define a conduta; os demais cenários tratam de quando a própria ivermectina exige cautela.

CenárioParticularidadeO que fazer diferente
Corticoide ou imunossupressor planejadoPode precipitar hiperinfecção fatal em infecção latente.Triar antes (epidemiologia + sorologia/fezes sensíveis); se confirmada, 200 mcg/kg por 1–2 dias antes de iniciar.
Imunossupressão urgente + alto riscoSem tempo para aguardar exames.Tratamento presuntivo com conforme protocolo local; checar Loa loa.
Piora após iniciar corticoidePulmão/intestino + sepse por Gram-negativos sugere hiperinfecção.Suspeitar imediatamente; pesquisar larvas em escarro/fezes; ivermectina diária e reduzir imunossupressão.
HTLV-1Maior carga parasitária, menor resposta e formas recorrentes/graves.Confirmar erradicação com mais rigor e seguimento mais cuidadoso.
TransplanteReativação de infecção crônica ou, raramente, transmissão pelo órgão.Triagem de doador e receptor segundo protocolos próprios.
Neoplasia hematológica / quimioterapiaImunossupressão intensa aumenta o risco.Investigar antes de iniciar a terapia quando houver tempo.
Doença grave em imunossuprimidoCarga larvária elevada e eosinofilia ausente.Colher escarro/LBA e fezes; não usar eosinofilia para decidir.
Gestação / lactaçãoContraindicação relativa à ivermectina (CDC); albendazol evitado no 1º trimestre.Avaliar risco–benefício com obstetrícia e infectologia; na forma grave, o risco da infecção pode prevalecer.
Criança <15 kgContraindicação relativa à ivermectina (CDC).Não extrapolar esquema adulto; decidir com pediatria/infectologia.
Exposição a área de Loa loa (África Central e Ocidental)Alta microfilaremia + ivermectina → risco de encefalopatia grave.Excluir loíase pelo protocolo específico antes de ivermectina, inclusive presuntiva.
Íleo / má absorção na forma graveAbsorção enteral incerta.Discutir via retal ou subcutânea (veterinária, autorização excepcional) com infectologia e farmácia.

Hospedeiros de alto risco

No HTLV-1, a erradicação é mais difícil e as formas recorrentes ou graves são mais comuns, o que exige seguimento mais cuidadoso. No transplante, o risco vem da reativação da infecção crônica do receptor ou, raramente, da transmissão pelo órgão, e há protocolos próprios de triagem.

Nas neoplasias hematológicas, a regra é não deixar a investigação para depois do início da terapia. E, quando a doença grave já se instalou, o quadro se inverte: a eosinofilia some, enquanto fezes e amostras respiratórias podem ficar francamente positivas.

Risco de Loa loa

A , base do tratamento, tem uma armadilha geográfica. Em pessoas expostas a áreas endêmicas de Loa loa (sobretudo partes da África Central e Ocidental), altas microfilaremias tornam o fármaco perigoso pelo risco de encefalopatia grave.

Antes do tratamento — inclusive presuntivo — avalie a epidemiologia e siga protocolo de exclusão de loíase.

Em 30 segundos

O essencial de seguimento e prevenção

  1. Fezes positivas + sintomas persistentes: repetir exame em 2–4 semanas e retratar se houver larvas.
  2. Um único exame de fezes negativo não é “teste de cura” universal.
  3. Sorologia cai lentamente após a cura; anticorpos persistentes exigem interpretação clínica.
  4. Prevenção = saneamento + calçados + triagem antes de imunossuprimir.

Como acompanhar

Não existe um “teste de cura” universal, e um único exame de fezes negativo não basta para declarar erradicação. Se as fezes eram positivas e os sintomas persistem, repita o parasitológico em 2–4 semanas; persistência de larvas significa novo tratamento e reavaliação.

A sorologia ajuda pouco no curto prazo: os títulos tendem a cair e parte dos pacientes negativa em meses, mas a negativação não é imediata. Nos imunossuprimidos, a confirmação de erradicação deve ser mais rigorosa e o seguimento, individualizado.

O método de seguimento deve considerar carga inicial, técnica disponível, imunossupressão e gravidade.

Prevenção individual e ambiental

Como a infecção entra pela pele a partir de solo contaminado por fezes humanas, a prevenção ataca as duas pontas do ciclo. Para quem já está infectado, porém, a medida que salva vidas é outra: identificar a infecção antes que a imunossupressão a transforme em hiperinfecção.

  • Calçados reduzem o contato direto da pele com solo contaminado.
  • Saneamento: o destino sanitário das fezes humanas interrompe a transmissão.
  • Higiene ambiental: evitar contato desnecessário com solo; higiene após trabalho rural.
  • Triagem antes de imunossupressão: uma das medidas mais importantes para prevenir hiperinfecção.

Prevenção coletiva — OMS 2024

Em 2024 a OMS publicou sua primeira diretriz de controle populacional da estrongiloidíase. A estratégia é a quimioterapia preventiva: administração em massa de ivermectina onde a prevalência justifica, com critérios bem definidos.

≥5%Prevalência por métodos recomendados
Anual 200 mcg/kg em dose única
≥5 anosPopulação-alvo da administração em massa

É política de saúde pública: não substitui o tratamento individual nem justifica “profilaxia” no 15º dia para toda pessoa exposta.

Vigilância e notificação no Brasil

A estrongiloidíase não consta na Lista Nacional de Notificação Compulsória vigente em 2026 (Portaria GM/MS nº 11.211/2026), e documentos históricos também a classificam como não compulsória.

Verifique normas estaduais/municipais e comunique surtos conforme regras locais.

Erros comuns

Os erros mais frequentes têm uma raiz comum: tratar a estrongiloidíase como uma verminose qualquer. Subestimar a sensibilidade dos exames, confiar na eosinofilia e esquecer a autoinfecção leva tanto a deixar de diagnosticar quanto a tratar de forma inadequada.

ErroPor que é um problemaComo evitar
Confiar em uma única amostra de fezesEliminação de larvas é baixa e intermitente.Amostras seriadas e técnicas sensíveis; sorologia quando indicada.
Excluir pela ausência de eosinofiliaEosinófilos podem estar normais, sobretudo na hiperinfecção sob corticoide.Priorizar epidemiologia e síndrome clínica.
Iniciar corticoide sem avaliar riscoPode precipitar hiperinfecção fatal.Triar pessoas de risco antes da imunossupressão.
Repetir ivermectina no dia 15 como regraNão é padrão para doença não disseminada; sem superioridade em ensaio randomizado.200 mcg/kg por 1–2 dias na forma não complicada; individualizar cenários especiais.
Tratar hiperinfecção por “14 dias fixos”A duração depende da negativação sustentada.Ivermectina diária até fezes/escarro negativos por ≥2 semanas.

Referências principais

  1. 1
    Diretriz2026
    Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Clinical Overview of Strongyloides. Atualizado em 11 fev. 2026.
  2. 2
    Diretriz2024
    Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Clinical Care of Strongyloides. Atualizado em 16 fev. 2024.
  3. 3
    Diretriz
    Centers for Disease Control and Prevention (CDC). DPDx — Strongyloidiasis. Ciclo de vida, espécies, diagnóstico laboratorial e morfologia.
  4. 4
    Diretriz2024
    World Health Organization (WHO). Guideline on preventive chemotherapy for public health control of strongyloidiasis. 2024.
  5. 5
    Diretriz
    World Health Organization (WHO). Strongyloidiasis — Control of Neglected Tropical Diseases. Informações sobre tratamento e controle.
  6. 6
    Artigo2019
    Buonfrate D, Salas-Coronas J, Muñoz J, et al. Multiple-dose versus single-dose ivermectin for Strongyloides stercoralis infection (Strong Treat 1 to 4): a multicentre, open-label, phase 3, randomised controlled superiority trial. Lancet Infect Dis. 2019.
  7. 7
    Artigo
    Bradbury RS, Streit A, et al. Human, canine and feline strongyloidiasis: beyond Strongyloides stercoralis. Revisão sobre espécies e interface humano–animal.
  8. 8
    Documento oficial2022
    Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hanseníase. 2022. Inclui profilaxia de estrongiloidíase em contexto específico de corticoterapia.
  9. 9
    Documento oficial
    Brasil. Ministério da Saúde / Conitec. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome Nefrótica Primária em Adultos. Inclui estratégia antiparasitária no contexto de imunossupressão.
  10. 10
    Documento oficial2026
    Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 11.211, de 13 de maio de 2026. Lista Nacional de Notificação Compulsória vigente.

Aviso importante

Material educacional de apoio à decisão clínica. Não substitui avaliação individualizada, protocolos institucionais, serviço de referência, infectologia, pediatria/obstetrícia nem consulta às bulas. Dose de ivermectina por peso, contraindicações relativas (gestação, lactação, <15 kg), risco de Loa loa e esquemas preventivos antes de imunossupressão devem ser conferidos antes da prescrição.

Conteúdo para educação médica. Condutas devem ser individualizadas e conferidas com protocolos oficiais, contexto epidemiológico e disponibilidade local.
Rolar para cima