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Guia de Zoonoses • Parasitas

Esquistossomose

Schistosoma mansoni — trematódeo sanguíneo; hospedeiro intermediário: caramujo Biomphalaria

Infecção adquirida pela penetração de cercárias na pele durante contato com água doce onde há caramujos transmissores. O diagnóstico é principalmente parasitológico (Kato-Katz), e o praziquantel segue como tratamento de escolha.

TrematódeoÁgua doceKato-KatzPraziquantel
15–18 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Trematódeo sanguíneo; no Brasil, toda transmissão autóctone é por S. mansoni.
  2. Infecção pela pele: cercárias penetram durante contato com água doce — não por beber água.
  3. Vermes adultos vivem em vênulas mesentéricas e podem persistir por anos.
  4. O dano vem dos ovos retidos: granuloma → fibrose periportal → hipertensão portal.

O que é esquistossomose

Doença parasitária aguda e crônica causada por trematódeos do gênero Schistosoma. No Brasil, a transmissão autóctone é por S. mansoni, cujos adultos vivem principalmente nas vênulas mesentéricas e podem persistir ali por anos.

Para entender a doença, siga os ovos. Parte deles fica retida no intestino e no fígado, onde provoca um granuloma; na infecção crônica intensa, esses granulomas evoluem para fibrose periportal, que dificulta o fluxo portal. Daí vêm a esplenomegalia, a circulação colateral, as varizes e o risco de hemorragia.

A morbidade não vem do verme adulto, e sim da resposta granulomatosa contra ovos retidos no intestino e no fígado.

O agente

O S. mansoni passa por várias formas, e cada uma importa em um momento diferente do raciocínio. A cercária, liberada pelo caramujo Biomphalaria, é a forma que infecta o ser humano; o casal de vermes adultos é quem produz os ovos; e o ovo, com seu espículo lateral, é o que o laboratório procura nas fezes.

Agente etiológico

Schistosoma mansoni

Trematódeos dioicos: machos e fêmeas separados. A fêmea permanece acoplada no canal ginecóforo do macho.

  • Ovo de S. mansoni com espículo lateral — reconhecimento microscópico.
  • Ciclo exige caramujo de água doce do gênero Biomphalaria.
  • O verme adulto pode persistir por anos.
Schistosoma — imagem do parasito adulto. Toque para ampliar.

Formas do parasita

Patognomônico

Ovo com espículo lateral

Achado que identifica S. mansoni no parasitológico de fezes.

Forma infectante

Cercária

Liberada pelo caramujo; penetra ativamente a pele e perde a cauda.

Verme adulto

Casal acoplado

Fêmea no canal ginecóforo do macho, nas vênulas mesentéricas.

Hospedeiro intermediário

Biomphalaria

Caramujo de água doce que mantém a transmissão no Brasil.

Ciclo de vida e fisiopatologia

O ciclo encadeia exposição hídrica, penetração cutânea, maturação, oviposição e inflamação pelos ovos. Entender essa ordem tem consequência prática: o age melhor quando há vermes maduros, o que explica por que a resposta é menor logo após a exposição e por que o dano crônico depende dos ovos, não do verme.

Ciclo biológico

Humano ↔ água doce ↔ caramujo

O ciclo alterna entre o ser humano e o caramujo. A infecção humana começa quando cercárias liberadas por moluscos infectados penetram a pele.

Ciclo de vida e fisiopatologia da esquistossomose — toque para ampliar.
  1. Eliminação dos ovos

    Ovos alcançam a luz intestinal e saem nas fezes.

  2. Fase aquática

    Na água, o ovo libera o miracídio, que infecta Biomphalaria.

  3. Multiplicação no molusco

    Esporocistos originam numerosas cercárias.

  4. Penetração cutânea

    Cercárias atravessam a pele, perdem a cauda e viram esquistossômulos.

  5. Migração e maturação

    Passam por pulmões e sistema porta; viram adultos em ~2–6 semanas.

  6. Oviposição

    Casais nas vênulas mesentéricas produzem ovos; parte fica retida em intestino, fígado e outros tecidos.

  7. Granuloma e fibrose

    Na infecção crônica intensa: fibrose periportal e hipertensão portal.

Espécies de importância clínica

No Brasil, S. mansoni é a única espécie com transmissão, e causa a forma intestinal e hepática. As outras espécies aparecem em casos importados, e reconhecê-las muda onde procurar os ovos e qual posologia internacional seguir.

  • S. haematobium: forma urogenital, da África e focos relacionados; ovos na urina.
  • S. japonicum / S. mekongi: espécies asiáticas, intestinais, com posologia internacional diferente.

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O essencial de transmissão e risco

  1. Precisa de três elos: pessoa eliminando ovos, coleção hídrica adequada e caramujo suscetível.
  2. A cercária penetra ativamente a pele — engolir água não é o mecanismo necessário.
  3. Não há contágio pessoa a pessoa.
  4. Uma única exposição (viajante) pode causar doença aguda.

Como ocorre a transmissão

A pele é a porta de entrada: a cercária a penetra ativamente durante o contato com água doce, seja em banho, travessia de rios, pesca, lavagem de roupas, agricultura, irrigação ou lazer. Por isso esquistossomose não é parasitose de “beber água”.

Também não há transmissão direta entre pessoas. Os ovos eliminados nas fezes precisam alcançar a água e passar pelo caramujo antes de se tornarem infectantes — e é esse desvio obrigatório que torna o saneamento tão eficaz.

Ciclo de transmissão

Fezes → água doce → caramujo → pele

As cercárias liberadas na água penetram a pele durante o contato. Sem saneamento, os ovos voltam à água e o ciclo se mantém.

Quem tem mais risco

O risco acompanha a frequência e o tipo de contato com água doce de áreas de transmissão. Quem vive ou trabalha nesses locais se expõe de forma repetida; o viajante, ao contrário, costuma ter uma exposição única — suficiente para doença aguda, mas com baixa carga, o que dificulta o parasitológico.

  • Moradores de áreas de transmissão, sobretudo onde saneamento e abastecimento de água são insuficientes.
  • Exposição ocupacional: pescadores, agricultores, trabalhadores de irrigação.
  • Crianças e adolescentes: brincadeiras, banho e natação levam a exposição repetida.
  • Viajantes com contato em cachoeiras, trilhas e ecoturismo.

Epidemiologia no Brasil

A transmissão no Brasil é focal, historicamente concentrada no Nordeste e Sudeste. Urbanização, deslocamentos, obras e ecoturismo podem mudar a distribuição dos focos — e é por isso que o município de residência, sozinho, não basta para estimar o risco.

Na anamnese

Não pare no município de residência: pergunte o local exato do contato com água doce, viagens, trabalho, pesca, trilhas, cachoeiras e exposições anteriores.

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O essencial de quadro clínico

  1. Muitas infecções são assintomáticas.
  2. Aguda: dermatite cercariana → semanas depois, febre de Katayama com eosinofilia.
  3. Crônica: intestinal, hepatointestinal ou hepatoesplênica (fibrose de Symmers + hipertensão portal).
  4. Déficit neurológico, hemorragia digestiva ou repercussão cardiopulmonar = gravidade.

Fase inicial e esquistossomose aguda

Muitas infecções passam sem sintomas. Quando há manifestação inicial, a primeira é a dermatite cercariana: prurido e erupção transitória no local de penetração, inespecífica e que nem sempre ocorre.

Semanas depois, enquanto os vermes amadurecem e começam a pôr ovos, pode surgir a febre de Katayama — febre, mal-estar, cefaleia, mialgia, tosse e sintomas abdominais, frequentemente com eosinofilia. Hepatoesplenomegalia pode acompanhar o quadro, sobretudo nas apresentações intensas.

14–84 diasIncubação descrita para a síndrome aguda
2–6 semMaturação até verme adulto

Comprometimento pulmonar importante, manifestação cerebral/medular, instabilidade ou repercussão sistêmica intensa = forma aguda grave, fora do manejo ambulatorial simples.

Sinais característicos

Quatro achados resumem o espectro da doença, da porta de entrada à forma ectópica. A dermatite marca a penetração; a fibrose periportal de Symmers ao ultrassom é a base da forma hepatoesplênica e explica a hipertensão portal; e a mielorradiculopatia é a manifestação que não pode passar despercebida.

Achado característico

Dermatite cercariana

Lesões pruriginosas após banho em água doce — porta de entrada.

Sinal patognomônico

Fibrose periportal de Symmers

Espessamento periportal ao US; base da forma hepatoesplênica.

Achado característico

Hipertensão portal

Esplenomegalia, circulação colateral, varizes; ascite na descompensação.

Forma ectópica

Mielorradiculopatia

Cone medular/cauda equina: déficit, dor radicular, disfunção esfincteriana.

Formas crônicas

Na fase crônica, a apresentação depende de onde os ovos se depositam e de quanta fibrose se acumula. A forma intestinal pode ter baixa intensidade e poucos sintomas; a hepatoesplênica, com fibrose periportal e hipertensão portal, concentra as complicações graves; e as formas vasculopulmonar, neurológica e renal exigem investigação dirigida ao órgão.

FormaAchadosPonto prático
IntestinalDor abdominal, diarreia; sangue nas fezes em alguns casos.Pode ter baixa intensidade e poucos sintomas.
Hepatointestinal / hepáticaHepatomegalia por deposição de ovos e reação granulomatosa.US caracteriza a fibrose periportal.
HepatoesplênicaFibrose periportal, hipertensão portal, esplenomegalia, hiperesplenismo, circulação colateral.Varizes esofagogástricas e hemorragia digestiva são as complicações centrais.
VasculopulmonarHipertensão pulmonar e repercussão cardiopulmonar.Dispneia progressiva, síncope ou cor pulmonale → avaliação especializada.
NeurológicaMielite, mielorradiculopatia, cone medular/cauda equina; raramente cerebral.Déficit motor/sensitivo e disfunção esfincteriana = emergência diagnóstica.
RenalGlomerulopatia nas formas avançadas.Proteinúria, hematúria e disfunção renal → investigação dirigida.

Sinais de gravidade

Alguns sinais indicam que a doença saiu do manejo ambulatorial simples. Eles correspondem às complicações descritas acima — sangramento por varizes, acometimento medular, repercussão cardiopulmonar, forma aguda grave e descompensação hepatoesplênica — e pedem avaliação imediata.

  • Hemorragia digestiva: hematêmese, melena, instabilidade ou anemia por varizes.
  • Déficit neurológico: fraqueza, alteração sensitiva, dor radicular, retenção/incontinência urinária ou fecal.
  • Cardiopulmonar: dispneia importante, síncope, hipoxemia, sinais de hipertensão pulmonar.
  • Aguda grave: repercussão pulmonar, cerebral/medular ou sistêmica intensa.
  • Hepatoesplênica descompensada: ascite, sangramento, infecção associada ou disfunção orgânica.

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O essencial de diagnóstico

  1. Exposição a água doce em área de transmissão + demonstração de ovos.
  2. Kato-Katz identifica e quantifica ovos de S. mansoni.
  3. Baixa carga: três amostras em dias alternados; uma negativa não exclui.
  4. Sorologia ajuda em viajantes, mas não serve como controle de cura.

O que solicitar, e em que ordem

O diagnóstico combina epidemiologia e demonstração de ovos. Antes de pedir exames, vale definir a exposição e a fase clínica, porque são elas que dizem onde procurar e quanto insistir: um viajante com exposição recente, um morador de área endêmica com diarreia e um paciente com síndrome medular pedem caminhos diferentes.

  1. Defina a exposição

    Onde, quando e quantas vezes houve contato com água doce.

  2. Defina a fase

    Aguda febril/eosinofílica, intestinal crônica, hepatoesplênica ou ectópica.

  3. Pesquise ovos

    Parasitológico de fezes (Kato-Katz) é o método direto central.

  4. Aumente a sensibilidade

    Amostras seriadas e mais lâminas em baixa carga.

  5. Investigue repercussão

    US, endoscopia, RM ou ecocardiograma conforme o órgão-alvo.

Como bater o martelo

O diagnóstico só é confirmado quando se vê o ovo. Sem ovos, a combinação de exposição compatível com um quadro sugestivo torna o caso provável — e, quando a epidemiologia é forte, um parasitológico negativo isolado não exclui infecção recente ou de baixa carga.

Confirmado

  • Ovos de S. mansoni (espículo lateral) no parasitológico de fezes.
  • Caso importado de S. haematobium: ovos na urina.

Provável (sem ovos)

  • Exposição compatível + quadro sugestivo (Katayama com eosinofilia, fibrose periportal ao US, síndrome medular).
  • Sorologia positiva em viajante/imigrante com baixa carga e sem tratamento prévio.
  • Seguir com amostras seriadas antes de descartar.

Interpretação dos exames

O Kato-Katz identifica e quantifica os ovos, mas a eliminação pode ser baixa e intermitente. Em baixa ou moderada endemicidade, uma lâmina pode perder infecções leves — por isso as diretrizes brasileiras recomendam mais lâminas, e três amostras de fezes em dias alternados aumentam a sensibilidade.

Nos casos importados, a pesquisa de ovos de S. haematobium é feita na urina. Já a sorologia tem um papel mais restrito, com limitações que geram erros frequentes.

Sorologia

Útil em viajantes ou baixa carga sem tratamento prévio. Pode estar negativa na infecção recente (CDC: mais informativa semanas após a exposição), e os anticorpos persistem — não comprova cura.

Imagem e complicações

A imagem não faz o diagnóstico parasitológico, mas mede o estrago. A escolha do exame segue o órgão-alvo suspeito: abdome na forma hepatoesplênica, medula na síndrome neurológica, coração e pulmão quando há sinais de hipertensão pulmonar.

  • Ultrassonografia abdominal: fibrose periportal, baço, calibre vascular, ascite e repercussões hepatoesplênicas.
  • Endoscopia digestiva alta: varizes e risco hemorrágico na hipertensão portal.
  • Ressonância magnética: essencial na suspeita de mielorradiculopatia ou acometimento do SNC.
  • Ecocardiograma: investigação inicial da hipertensão pulmonar.

Diagnósticos diferenciais

Os diferenciais mudam conforme a fase. Na aguda, a esquistossomose se confunde com outras febres e helmintíases com eosinofilia; na crônica, com outras causas de diarreia, de hipertensão portal e de mielopatia. Em todos os casos, o tipo de exposição é o primeiro filtro.

DiferencialPor que confundeO que ajuda a separar
Outras helmintíases com eosinofilia (estrongiloidíase, toxocaríase, fasciolose)Febre, tosse e eosinofilia, como na fase aguda.Tipo de exposição (água doce × solo/alimento), parasitológico com métodos específicos e sorologias dirigidas.
Febre tifoide, malária e outras febres agudasFebre, sintomas abdominais e hepatoesplenomegalia.Eosinofilia favorece Katayama; hemocultura, gota espessa/teste rápido conforme a epidemiologia.
Amebíase, shigelose, doença inflamatória intestinalDiarreia, dor abdominal e sangue nas fezes.Parasitológico, coprocultura e colonoscopia/biópsia quando indicado.
Cirrose de outras causasHipertensão portal, esplenomegalia e varizes.Na forma hepatoesplênica a função hepática tende a estar preservada; US mostra fibrose periportal (Symmers) em vez de padrão cirrótico.
Trombose de veia porta / hipertensão portal não cirróticaVarizes e esplenomegalia com fígado funcionante.Doppler/imagem do eixo portal e epidemiologia.
Leishmaniose visceralFebre, esplenomegalia volumosa e citopenias.Pancitopenia febril e pesquisa de Leishmania (sorologia/medula).
Mielopatias de outras causas (compressiva, tuberculose, HTLV, mielite transversa)Síndrome medular/cauda equina.RM, líquor e exposição hídrica; sorologia/ovos para esquistossomose.

A tabela organiza o raciocínio; a escolha dos exames depende da exposição e da forma clínica.

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O essencial de tratamento

  1. Tratamento antiparasitário: praziquantel comprimido 600 mg, VO, após refeição, preferencialmente dose única.
  2. Brasil: 50 mg/kg no adulto e 60 mg/kg na criança (4–15 anos).
  3. Forma aguda: prednisona associada; na grave, corticoide 24–48 h antes do praziquantel.
  4. Neurológica e hepatoesplênica avançada = manejo especializado; tratar também as complicações.

Princípios do tratamento

O tratamento tem três frentes, e nem todo paciente precisa de todas. A primeira é eliminar o parasita com praziquantel em dose única, após refeição, com repouso por pelo menos 3 h — usando as doses brasileiras, que não são equivalentes às do CDC/OMS.

A segunda é conter a inflamação: na forma aguda, na neurológica e na hipertensão portal ou pulmonar, o corticoide é associado ao praziquantel. A terceira é tratar as complicações, porque varizes, hipertensão pulmonar e déficits neurológicos não se resolvem com o antiparasitário.

Rotas de tratamento

Cada rota é um cenário clínico. Abra só a rota em que o seu paciente está: a tabela mostra dose, frequência e duração de cada esquema, e o nome de cada medicamento abre a ficha completa. Opções do mesmo grupo são alternativas — escolha uma.

Monitoramento e controle de cura

Depois do praziquantel, o que se monitora depende da forma tratada. Em todos os casos, a resposta é medida pelo parasitológico, e não pela sorologia; nas formas inflamatórias, o foco é a evolução clínica e os efeitos do corticoide.

  • Controle de cura: Kato-Katz em 3 amostras alternadas a partir de 40 dias; positivo → retratar pelo mesmo protocolo, após reavaliação clínica.
  • Forma aguda: sintomas respiratórios e neurológicos, hemodinâmica e eosinofilia.
  • Corticoide prolongado: infecção concorrente e efeitos adversos do corticoide.

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O essencial de cenários especiais

  1. O artigo prioriza a referência brasileira; diferenças com OMS/CDC estão sinalizadas.
  2. Gestação, crianças pequenas e hepatoesplênica descompensada exigem decisão individual.
  3. Viajante: tratar após maturação dos vermes; considerar repetição seletiva.

O que muda em cada cenário

Nos cenários especiais, a pergunta muda de “qual a dose?” para “vale tratar agora, e com qual referência?”. O artigo prioriza o Ministério da Saúde, mas em gestação, lactação e crianças pequenas a OMS é mais permissiva, e a decisão precisa ser individual e compartilhada com obstetrícia, pediatria ou infectologia.

Viajantes e casos importados seguem outra lógica: tratar depois da maturação dos vermes e considerar outras espécies. Já na doença hepática descompensada, o manejo das complicações vem antes do esquistossomicida.

CenárioParticularidadeO que fazer diferente
GestaçãoMS: em geral não adotar praziquantel; OMS: acesso após o 1º trimestre.Discutir com obstetrícia/infectologia pesando gravidade, idade gestacional e risco de adiar; se possível adiar, tratar após o parto.
LactaçãoPraziquantel passa ao leite.MS: suspender a amamentação por 72 h após a dose (ordenhar e descartar).
Criança <4 anos e/ou <10 kgFora da tabela brasileira; <2 anos em geral não tratados rotineiramente (MS).Avaliação individual com pediatria; não extrapolar o número de comprimidos.
Idoso >70 anosMaior risco de eventos adversos.Tratar com supervisão médica.
Viajante / exposição únicaBaixa carga; Katayama; sorologia e ovos podem demorar a positivar.Tratar ≥6–8 semanas após a última exposição; amostras seriadas e sorologia; repetir em 2–4 semanas só em selecionados.
Imigrante / caso importadoPode ser outra espécie (S. haematobium, asiáticas).Pesquisar ovos na urina se haematobium; usar posologia CDC por espécie.
Hepatoesplênica descompensada / insuficiência hepática graveMS: cautela ou contraindicação geral ao praziquantel.Centro de referência; priorizar manejo das varizes e da descompensação; risco-benefício do esquistossomicida.
Insuficiência renal ou outras descompensaçõesListadas pelo MS como situações de risco-benefício.Avaliação individual antes do praziquantel.
Síndrome medular em área endêmicaNeuroesquistossomose é emergência diagnóstica.RM urgente, praziquantel + corticoide, reabilitação precoce.

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O essencial de seguimento e prevenção

  1. Controle de cura: Kato-Katz em 3 amostras alternadas, a primeira a partir de 40 dias.
  2. Positivo no controle → retratar pelo mesmo protocolo (rever reinfecção e adesão).
  3. Sorologia não comprova cura.
  4. Notificação compulsória semanal em todo o território nacional.

Controle pós-tratamento

O controle de cura é parasitológico: a partir de 40 dias após o praziquantel, colhem-se três amostras de Kato-Katz em dias alternados. Se alguma for positiva, retrata-se pelo mesmo protocolo, revendo antes reinfecção e adesão. A sorologia não serve para isso, porque os anticorpos persistem após a cura.

Brasil

Retratamento direcionado pelo controle parasitológico — não prescrever segunda dose automática a todos.

CDC

Repetição seletiva em 2–4 semanas em baixa carga ou exposição recente.

Sintomas persistentes com parasitológico negativo → investigar complicações, sequelas e diagnósticos diferenciais.

Prevenção e controle

A prevenção funciona interrompendo o elo humano–água–caramujo em mais de um ponto ao mesmo tempo. Nenhuma medida isolada basta: tratar sem sanear permite reinfecção, e sanear sem tratar mantém a morbidade de quem já está infectado.

  • Água e saneamento: abastecimento seguro e destino adequado de fezes.
  • Reduzir exposição: evitar água doce de risco sem informação segura sobre transmissão local.
  • Diagnóstico e tratamento: reduzem morbidade e eliminação de ovos no ambiente.
  • Caramujos e ambiente: medidas ambientais e malacológicas, associadas a WASH e educação em saúde.

Saúde Única: integrar vigilância, saneamento, ambiente, educação, serviços de saúde e conhecimento dos habitats de Biomphalaria.

Notificação

Como a transmissão é focal e os focos mudam, a notificação de cada caso é o que permite à vigilância saber onde agir. Estados e municípios podem ter fluxos complementares: confirme o procedimento local e registre no sistema de vigilância aplicável.

Pela Portaria GM/MS nº 11.211, de 13 de maio de 2026, esquistossomose é agravo de notificação compulsória semanal em todo o território nacional.

Erros comuns

Quase todos os erros na esquistossomose vêm de duas fontes: confiar demais em um único exame e transpor doses ou condutas de um contexto para outro. A tabela reúne os mais frequentes e como evitá-los.

ErroPor que é um problemaComo evitar
Excluir com um parasitológico negativoEliminação de ovos baixa e intermitente.Três amostras em dias alternados; sorologia no contexto certo.
Usar sorologia como controle de curaAnticorpos persistem.Kato-Katz seriado a partir de 40 dias.
Misturar doses CDC e brasileirasEsquemas diferentes por espécie e diretriz.No Brasil: 50 mg/kg (adulto) / 60 mg/kg (criança), dose única.
Praziquantel antes do corticoide na aguda gravePiora da reação inflamatória.Prednisona 1 mg/kg/dia e praziquantel 24–48 h depois.
Tratar só o parasita na hepatoesplênicaVarizes e hipertensão portal/pulmonar persistem.Endoscopia, prevenção de sangramento e avaliação cardiopulmonar.
Subestimar síndrome medularAtraso piora sequelas.RM urgente e corticoide + praziquantel.

Referências principais

  1. 1
    Documento oficial2024
    Brasil. Ministério da Saúde. Vigilância da Esquistossomose Mansoni: Diretrizes Técnicas. Brasília, 2024. Documento oficial.
  2. 2
    Documento oficial
    Ministério da Saúde. Esquistossomose — Protocolos de tratamento. Página oficial.
  3. 3
    Documento oficial
    Ministério da Saúde. Esquistossomose — diagnóstico, tratamento, prevenção e epidemiologia. Página oficial.
  4. 4
    Documento oficial2026
    Brasil. Portaria GM/MS nº 11.211, de 13 de maio de 2026. Lista Nacional de Notificação Compulsória. Texto oficial.
  5. 5
    Diretriz2026
    World Health Organization. Schistosomiasis — Fact sheet. 23 Feb 2026. WHO.
  6. 6
    Diretriz2022
    World Health Organization. WHO guideline on control and elimination of human schistosomiasis. 2022. WHO Guideline.
  7. 7
    Diretriz2024
    Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Clinical Care of Schistosomiasis. 4 Mar 2024. CDC.
  8. 8
    Diretriz2024
    Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Clinical Testing and Diagnosis for Schistosomiasis. 11 Mar 2024. CDC.
  9. 9
    Diretriz2024
    Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Clinical Overview of Schistosomiasis. 11 Mar 2024. CDC.

Aviso importante

Material educacional de apoio à decisão clínica. Não substitui avaliação individualizada, protocolos institucionais, serviço de referência, infectologia, pediatria/obstetrícia nem consulta às bulas. Doses por peso, tabela de comprimidos, corticoterapia nas formas aguda e neurológica, gestação, lactação, crianças pequenas e forma hepatoesplênica descompensada devem ser conferidas antes da prescrição.

Conteúdo para educação médica. Condutas devem ser individualizadas e conferidas com protocolos oficiais, contexto epidemiológico e disponibilidade local.
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