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Echinococose

Echinococcus vogeli, E. oligarthrus e E. multilocularis — formas policística neotropical e alveolar

Cestodíase larvária em que o ser humano é hospedeiro acidental. Na Amazônia brasileira, a forma policística (E. vogeli) liga-se à caça da paca e ao cão que come suas vísceras; a forma alveolar (E. multilocularis), do Hemisfério Norte, cresce como um tumor hepático. Ambas exigem albendazol prolongado e, sempre que possível, cirurgia.

Cestódeo larvárioAmazônia: paca e cão de caçaAlveolar: pseudotumor hepáticoAlbendazol de longo prazo
20–25 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Equinococoses são infecções pela larva (metacestódeo) de Echinococcus; o ser humano é hospedeiro intermediário acidental.
  2. Este artigo cobre as formas policística neotropical (E. vogeli), unicística (E. oligarthrus) e alveolar (E. multilocularis).
  3. A forma cística (E. granulosus) está no artigo Hidatidose.
  4. Policística e alveolar são progressivas e potencialmente fatais sem tratamento.

Do que estamos falando

A palavra “echinococose” reúne doenças muito diferentes. A cística (hidatidose) é a mais conhecida; as outras três formas humanas são raras, mas graves. A policística é uma zoonose da floresta neotropical, com o Brasil concentrando a maior parte dos casos descritos. A alveolar é a mais letal das equinococoses: o metacestódeo cresce infiltrando o fígado como uma neoplasia e pode dar metástases.

CaracterísticaCística (hidatidose)Policística neotropicalAlveolar
EspécieE. granulosus s.l.E. vogeli (e, unicística, E. oligarthrus)E. multilocularis
Hospedeiro definitivoCãoCachorro-vinagre (Speothos venaticus); cão doméstico de caçaRaposas; também cães
Hospedeiro intermediário naturalOvinos, bovinos, suínosPaca (Cuniculus paca); cutiaPequenos roedores
OndeCosmopolita; no Brasil, sobretudo Rio Grande do SulAmérica Central e do Sul; no Brasil, AmazôniaHemisfério Norte (China, Ásia Central, Rússia, Europa, América do Norte)
LesãoCisto(s) unilocular(es) bem delimitado(s)Múltiplos cistos septados que proliferam e se estendem ao peritônioMassa infiltrativa de microvesículas, com necrose e calcificações
ComportamentoExpansivo, lentoProliferativo; hipertensão portal nas formas avançadasPseudotumoral; invade vasos e vias biliares; metástases
Base do tratamentoEstágio OMS (CE1–CE5): albendazol, PAIR, cirurgia ou observaçãoCirurgia quando possível + albendazol prolongadoRessecção radical + albendazol ≥2 anos; irressecável: albendazol contínuo

Para estágios CE1–CE5, PAIR e manejo da forma cística, veja o artigo Hidatidose.

Os agentes

Os adultos são tênias minúsculas (poucos milímetros) que vivem no intestino de canídeos ou felídeos sem causar doença relevante. O que adoece o ser humano é a larva: cada espécie forma um metacestódeo com arquitetura própria — e é essa arquitetura que define o quadro e o tratamento.

Agente etiológico

Metacestódeos de Echinococcus

Três espécies, três arquiteturas larvárias.

  • E. vogeli: cistos múltiplos, septados, que proliferam para fora e invadem fígado, peritônio e tórax.
  • E. oligarthrus: cisto único, crescimento concêntrico, sem proliferação exógena; casos humanos raríssimos (órbita, coração).
  • E. multilocularis: microvesículas que infiltram o tecido como neoplasia, com necrose central.
<em>E. vogeli</em>

Policística

Fígado com múltiplos cistos de tamanhos variados, septados, alguns calcificados.

<em>E. multilocularis</em>

Alveolar

Massa endurecida, de limites imprecisos, com microcavidades e necrose.

<em>E. oligarthrus</em>

Unicística

Vesícula única; poucos casos humanos, com exoftalmia ou achado cardíaco.

Ciclo biológico

Todos os ciclos seguem a mesma lógica predador–presa: o carnívoro elimina ovos nas fezes, a presa ingere os ovos e desenvolve a larva nas vísceras, e o carnívoro se infecta ao comer essas vísceras. O ser humano entra no ciclo ao ingerir ovos — e, como ninguém come suas vísceras, é um beco sem saída biológico.

Ciclo biológico

Carnívoro → ovos → presa → vísceras → carnívoro

Na Amazônia, o cão doméstico do caçador substitui o cachorro-vinagre e traz o ciclo para o peridomicílio.

  1. Ovos no ambiente

    Canídeo infectado elimina ovos infectantes nas fezes.

  2. Ingestão

    Paca/roedor — ou o ser humano — ingere ovos em água, alimento ou mãos contaminadas.

  3. Oncosfera

    Eclode no intestino, atravessa a mucosa e chega ao fígado pela circulação portal.

  4. Metacestódeo

    Cresce lentamente por anos, com padrão policístico (E. vogeli) ou infiltrativo (E. multilocularis).

  5. Fechamento do ciclo

    O carnívoro come as vísceras da presa; no caçador amazônico, é o cão que recebe as vísceras da paca.

Epidemiologia

A revisão de D’Alessandro e Rausch reuniu 172 casos de equinococose neotropical em 12 países até 2007, dos quais 99 no Brasil — a maioria na Amazônia (Pará, Amapá, Acre e demais estados da região). Séries posteriores, sobretudo do Acre, ampliaram esse número, e o subdiagnóstico é provável.

A alveolar concentra-se no Hemisfério Norte: estimam-se cerca de 18 mil casos novos por ano no mundo, mais de 90% na China. No Brasil, é doença de viajante ou migrante.

58%Dos casos neotropicais descritos até 2007 eram brasileiros
29%Letalidade em 78 casos policísticos com seguimento (D’Alessandro & Rausch)
5–15 anosPeríodo assintomático típico da forma alveolar

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O essencial de transmissão e risco

  1. Infecção pela ingestão de ovos eliminados nas fezes de canídeos; não há transmissão pessoa a pessoa.
  2. Comer carne ou vísceras de paca não infecta o ser humano: o risco é o cão que come as vísceras.
  3. Caçadores, agricultores e moradores rurais da Amazônia com cães são o grupo de risco da forma policística.
  4. Na alveolar, imunossupressão acelera a doença e aumenta a incidência.

Como ocorre a transmissão

O ser humano se infecta pela via fecal-oral, ao ingerir ovos de Echinococcus presentes no pelo e nas fezes de cães, no solo, na água ou em alimentos crus. Na Amazônia, o hábito de oferecer aos cães as vísceras da paca abatida fecha o ciclo dentro do quintal.

Ciclo de transmissão

Paca → cão de caça → peridomicílio → ser humano

Vísceras com cistos alimentam o cão; o cão elimina ovos; mãos, água e alimentos levam os ovos à boca.

Mito comum

A carne e as vísceras da paca não transmitem a doença ao ser humano — o que ela contém é a larva, infectante apenas para o carnívoro. O perigo está no ovo, que vem das fezes do cão.

Quem tem mais risco

Na série do Acre, 82% dos pacientes caçavam e 96% tinham cães no peridomicílio — a epidemiologia é quase uma assinatura. A doença aparece sobretudo em adultos, com predomínio na 4ª e 5ª décadas, porque o crescimento larvário leva anos.

  • Policística: residência rural na Amazônia, caça de paca/cutia, cães alimentados com vísceras cruas, água não tratada.
  • Alveolar: residência em área endêmica do Hemisfério Norte, contato com cães/raposas, coleta de frutas silvestres, agricultura.
  • Imunossupressão (transplante, quimioterapia, biológicos, HIV): na alveolar, lesões mais agressivas e diagnóstico frequentemente incidental.

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O essencial de quadro clínico

  1. Longo período assintomático; os sintomas surgem quando a massa comprime ou invade estruturas.
  2. Policística: hepatomegalia endurecida, massa abdominal, dor; nas formas avançadas, icterícia e hipertensão portal.
  3. Alveolar: dor no hipocôndrio direito, icterícia colestática, perda de peso — imita câncer.
  4. Hipertensão portal é a principal causa de morte na forma policística.

Equinococose policística

O fígado é acometido na grande maioria dos casos e, a partir dele, os cistos se estendem para peritônio, mesentério e tórax. Na série do Acre, dor abdominal (65%) e hepatomegalia (60%) foram as queixas mais comuns, e icterícia ocorreu em 17,5%. As complicações da hipertensão portal foram a principal causa de óbito.

Tipo (D’Alessandro)LocalizaçãoFrequênciaComentário
IFígado ± abdome, sem disfunção37%Cistos múltiplos, pouca repercussão orgânica
IIFígado ± abdome, com disfunção hepática26%Hipertensão portal, colestase; maior letalidade
IIIFígado + tórax (pleura, pulmão, pericárdio)14%Dor torácica, derrame, fístulas
IVMesentério isolado16%Massa abdominal sem lesão hepática
VCistos calcificados4%Metacestódeo morto; achado de imagem

Classificação clínica de D’Alessandro (revisão de 2008). A forma unicística (E. oligarthrus) foi descrita em órbita (exoftalmia) e coração.

Equinococose alveolar

Após 5–15 anos de incubação silenciosa, a lesão hepática se manifesta como dor epigástrica ou no hipocôndrio direito, icterícia colestática, hepatomegalia endurecida, emagrecimento e mal-estar. Cada vez mais o diagnóstico é incidental, em exame de imagem feito por outro motivo — e esses casos têm melhor prognóstico. Sem tratamento, a doença é progressiva e fatal na maioria dos pacientes.

  1. Infiltração hepática

    Massa que cresce sem cápsula, com necrose central.

  2. Vias biliares e vasos

    Colestase, colangite, Budd-Chiari, hipertensão portal.

  3. Órgãos vizinhos

    Diafragma, adrenal, rim, peritônio (N1).

  4. Metástases

    Pulmão, cérebro, osso (M1).

Sinais característicos

Não há sinal patognomônico ao exame físico. O que deve chamar atenção é um fígado grande, duro e irregular — ou uma massa abdominal cística — em paciente com epidemiologia compatível, e a evolução para colestase e hipertensão portal.

Achado característico

Hepatomegalia endurecida

Fígado aumentado, de superfície irregular; massa abdominal palpável.

Complicação

Icterícia colestática

Compressão ou invasão das vias biliares; risco de colangite.

Sinal de gravidade

Hipertensão portal

Ascite, circulação colateral, varizes e hemorragia digestiva.

Sinais de gravidade

A gravidade decorre da destruição do parênquima e da obstrução de vias biliares e vasos. Esses achados mudam a conduta: indicam drenagem biliar, manejo da hipertensão portal ou avaliação para transplante.

  • Colangite (febre, icterícia, dor) ou abscesso em cavidade necrótica.
  • Hipertensão portal: ascite, hemorragia por varizes, esplenomegalia.
  • Insuficiência hepática ou cirrose biliar secundária.
  • Ruptura de cistos, fístula hepatopleural ou hepatobrônquica, reação anafilactoide.

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O essencial de diagnóstico

  1. Imagem é o pilar: US para triagem, TC/RM para extensão e planejamento.
  2. Sorologia apoia, mas cruza entre espécies de Echinococcus e com cisticercose.
  3. Espécie: ganchos rostelares, histologia ou PCR da peça cirúrgica.
  4. Na alveolar, estadiar pela classificação PNM da OMS antes de decidir.

Sequência diagnóstica

O raciocínio parte da imagem: ela sugere a forma, mede a extensão e decide se há chance de ressecção. A sorologia reforça a hipótese, e a confirmação definitiva costuma vir da peça cirúrgica. A punção diagnóstica de lesão suspeita deve ser evitada fora de centros especializados.

  1. Ultrassonografia

    Policística: múltiplos cistos anecoicos, arredondados, de paredes regulares, por vezes coalescentes. Alveolar: massa heterogênea, “granizo”, com calcificações.

  2. TC / RM

    Extensão hepática, vasos, vias biliares, peritônio e tórax. RM com colangiografia avalia a árvore biliar na alveolar.

  3. Sorologia

    ELISA para triagem e immunoblot para confirmar; na alveolar, antígenos Em2plus/Em18 aumentam a especificidade.

  4. Confirmação etiológica

    Histopatologia, ganchos rostelares (diferenciam E. vogeli de E. oligarthrus e E. granulosus) ou PCR.

  5. Estadiamento

    Alveolar: PNM + TC de tórax e, se sintomas, RM de crânio; PET-CT com FDG avalia atividade metabólica.

Padrões de imagem

Cada forma tem um padrão. A policística mostra cistos múltiplos, de tamanhos variados, no fígado e no peritônio, com calcificações anelares; a alveolar se apresenta como lesão infiltrativa, sem cápsula, com microcalcificações e necrose central — muitas vezes confundida com colangiocarcinoma ou metástase.

Policística

TC: múltiplos cistos

Cistos hipodensos, septados, hepáticos e peritoneais.

Policística

Calcificações anelares

Anéis de 2–3 cm com centro claro ao RX simples.

Alveolar

Massa infiltrativa

Lesão heterogênea, microcalcificações, necrose, invasão hilar.

Alveolar

PET-CT com FDG

Captação perilesional indica atividade; ajuda no seguimento.

Classificação PNM (equinococose alveolar)

A OMS-IWGE estadia a forma alveolar como um tumor: P é a extensão da massa no fígado, N o acometimento de órgãos vizinhos e M as metástases. O estádio orienta a possibilidade de ressecção radical — lesões P4 ou com extensão hilar ampla geralmente não são ressecáveis de forma radical.

CategoriaDefinição
PXFígado não completamente avaliado
P0Sem lesão hepática detectável
P1Lesão periférica, sem envolvimento vascular e/ou biliar proximal
P2Lesão central com envolvimento vascular e/ou biliar proximal de um lobo
P3Lesão central com envolvimento hilar vascular ou biliar de ambos os lobos e/ou de duas veias hepáticas
P4Qualquer lesão com extensão ao longo dos vasos e da árvore biliar
N0 / N1Sem / com envolvimento regional de órgãos ou tecidos contíguos
M0 / M1Sem / com metástase a distância (pulmão, linfonodos distantes, baço, SNC, órbita, osso, pele, músculo, rim, peritônio distante, retroperitônio)
Estádio PNM

Selecione P, N e M para obter o estádio (Kern et al., 2006 — OMS-IWGE).

Escolha P, N e M para ver o estádio.

Estádios: I = P1N0M0; II = P2N0M0; IIIa = P3N0M0; IIIb = P1–3N1M0 ou P4N0M0; IV = P4N1M0 ou qualquer P/N com M1.

Sorologia e confirmação

A sorologia é útil, mas imperfeita. Na policística, o antígeno Arco 5 é compartilhado com E. granulosus e há reações falso-positivas com soros de neurocisticercose; não há antígeno específico para E. oligarthrus. Na alveolar, ELISA com Em2plus e Em18 tem boa especificidade e também ajuda no seguimento.

Confirma

  • Histopatologia compatível da peça ou biópsia.
  • Ganchos rostelares com morfometria da espécie.
  • PCR/sequenciamento do material.

Armadilhas

  • Sorologia negativa não exclui.
  • Reação cruzada entre espécies e com cisticercose.
  • Massa alveolar confundida com colangiocarcinoma ou metástase.

Diagnósticos diferenciais

Os diferenciais dependem da forma: lesões císticas múltiplas na policística, massa sólida infiltrativa na alveolar. O maior risco é tratar como neoplasia uma lesão parasitária — ou o contrário — sem confirmação.

DiferencialPor que confundeO que ajuda a separar
Hidatidose (E. granulosus)Cistos hepáticos, sorologia positiva.Cistos geralmente uniloculares e em menor número; epidemiologia (Sul do Brasil, ovinos); ganchos/PCR.
Doença policística hepática / cistos simplesMúltiplos cistos hepáticos.Paredes finas sem septos nem calcificações; sorologia negativa; doença renal associada.
Colangiocarcinoma / hepatocarcinoma / metástasesMassa infiltrativa com icterícia e perda de peso (alveolar).Microcalcificações, necrose central, sorologia Em2plus/Em18, epidemiologia; histologia.
Abscesso hepático (piogênico/amebiano)Lesão cística com febre.Evolução aguda, parede espessa; cisto parasitário pode infectar-se secundariamente.
Tuberculose peritoneal / carcinomatoseMassas e cistos peritoneais.Ascite, ADA, biópsia; padrão cístico septado na policística.

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O essencial de tratamento

  1. Ressecção completa é o único tratamento com intenção curativa; albendazol é a base de todos os cenários.
  2. Albendazol 10–15 mg/kg/dia em 2 tomadas, com refeição gordurosa, contínuo (adulto: 400 mg 12/12 h).
  3. Alveolar: ≥2 anos após ressecção radical; contínuo e por tempo indeterminado se irressecável; seguimento ≥10 anos.
  4. Policística: séries brasileiras usaram 10 mg/kg/dia por meses; cirurgia teve as melhores taxas de cura.

Princípios do tratamento

Nessas formas, os benzimidazóis são essencialmente parasitostáticos: inibem o crescimento, reduzem lesões em parte dos casos, mas raramente erradicam o parasita. Daí duas regras: operar quando a ressecção completa é factível, e manter o fármaco por longos períodos, de forma contínua — as pausas mensais dos anos 1980 não são mais recomendadas (OMS-IWGE, 2010).

A decisão deve ser tomada em centro com cirurgia hepatobiliar e infectologia. Na policística não há consenso formal: as recomendações abaixo vêm das séries brasileiras e da revisão de D’Alessandro e Rausch, e o seguimento por imagem guia a duração.

Antes de começar

Hemograma, transaminases, bilirrubinas e β-hCG em mulheres em idade fértil. Benzimidazóis exigem monitorização laboratorial durante todo o tratamento (veja abaixo).

Rotas de tratamento

Cada rota é um cenário clínico. Abra só a rota em que o seu paciente está: a tabela mostra dose, frequência e duração de cada esquema, e o nome de cada medicamento abre a ficha completa. Opções do mesmo grupo são alternativas — escolha uma.

Monitorização do benzimidazol

O uso por anos exige vigilância laboratorial regular. As alterações mais comuns são elevação de transaminases e leucopenia; alopecia transitória e queixas digestivas também ocorrem. A maioria tolera o uso contínuo sem interrupção.

PeríodoExamesFrequência
Primeiros 3 mesesHemograma + transaminasesA cada 2 semanas
Até completar 1 anoHemograma + transaminasesMensal
Depois do 1º anoHemograma + transaminasesA cada 3 meses
Imagem (US/TC/RM)Resposta da lesãoA cada 3–6 meses no início; depois anual se estável

Esquema da OMS-IWGE para a forma alveolar; aplicado por extensão à policística. Transaminases >5× LSN: investigar e seguir a Rota 5. Leucócitos <1,0 × 10⁹/L: suspender.

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O essencial de cenários especiais

  1. Imunossupressão acelera a forma alveolar e pode fazê-la aparecer em quem já estava infectado.
  2. Transplante hepático por alveolar exige albendazol prolongado e seguimento rigoroso de recidiva.
  3. Gestação: evitar benzimidazol no 1º trimestre.
  4. Lesão cerebral ou pulmonar alveolar = estádio IV.

O que muda em cada cenário

Os cenários especiais são definidos pelo hospedeiro e pela localização. A imunossupressão muda a velocidade da doença alveolar; a localização extra-hepática muda o tratamento cirúrgico; e gestação e infância mudam a forma de usar o .

CenárioParticularidadeO que fazer diferente
Imunossuprimido (transplante, QT, biológicos, HIV)Alveolar mais agressiva; diagnóstico muitas vezes incidental; mais efeitos adversos do benzimidazol.Alto índice de suspeição; precoce; monitorização laboratorial mais estreita.
Transplante hepático por alveolarTecido residual pode crescer sob imunossupressão.Benzimidazol antes e por ≥2 anos depois; imagem periódica de tórax, abdome e crânio se sintomas.
Alveolar com metástase cerebral ou pulmonarEstádio IV. contínuo; ressecção de metástase isolada só em casos selecionados.
Policística torácica (pleura, pericárdio)Dor torácica, derrame, fístula hepatopleural.Cirurgia torácica conforme a lesão, sempre sob .
Hepatopatia crônica préviaMaior risco de hepatotoxicidade.Usar com cautela; enzimas com mais frequência; avaliar nível sérico.
GestaçãoBenzimidazóis teratogênicos em animais.Evitar no 1º trimestre; adiar se estável; individualizar se progressiva.
CriançaPouca experiência abaixo de 6 anos.Dose por peso (10–15 mg/kg/dia, máx. 800 mg/dia).

Forma alveolar importada

No Brasil, a equinococose alveolar é rara e chega por migrantes ou residentes de longa data em áreas endêmicas. Como imita neoplasia hepatobiliar, o caso costuma ser descoberto na anatomia patológica após cirurgia. Pergunte sobre local de nascimento e moradia antes de operar uma massa hepática de aspecto incomum.

Achado alveolar inesperado após cirurgia: reestadie (PNM), inicie e defina a radicalidade da ressecção com o cirurgião.

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O essencial de seguimento e prevenção

  1. Alveolar: seguimento por pelo menos 10 anos, mesmo após ressecção radical.
  2. Imagem periódica + laboratório do benzimidazol; PET-CT e sorologia ajudam a decidir suspensão.
  3. Prevenção: não dar vísceras cruas aos cães, vermifugar cães de caça, higiene.
  4. Verifique a lista de notificação vigente e normas locais.

Como acompanhar

Como o fármaco é parasitostático e pequenas lesões residuais passam despercebidas, o seguimento é longo. Na forma alveolar, a OMS-IWGE recomenda pelo menos 10 anos de acompanhamento após a cirurgia. Imagem seriada mostra estabilidade, regressão ou progressão; a progressão sob tratamento sugere má adesão ou absorção.

Em centros de referência, alguns pacientes com alveolar irressecável podem interromper o benzimidazol após anos de uso, se PET-CT com FDG e sorologia (Em18/Em2plus) estiverem negativos e a imagem estável — com seguimento estreito, porque a recidiva é possível.

≥ 2 anosAlbendazol após ressecção radical (alveolar)
≥ 10 anosSeguimento para recidiva
3–6 mesesIntervalo inicial de imagem

Prevenção

Toda prevenção mira o ovo e a origem dele: o canídeo que comeu vísceras infectadas. Na Amazônia, isso significa mudar um hábito arraigado de caça — o de dar ao cão as vísceras da paca abatida.

  • Vísceras de caça: não oferecer cruas aos cães; enterrar, queimar ou cozinhar.
  • Cães de caça: tratamento periódico com praziquantel, sob orientação veterinária.
  • Higiene: lavar mãos após contato com cães e solo; lavar frutas e verduras.
  • Água: tratada, filtrada ou fervida na zona rural.
  • Viajantes a áreas de alveolar: lavar frutas silvestres e vegetais; evitar contato com fezes de raposas e cães.

Vigilância

A equinococose policística é negligenciada e subdiagnosticada; os casos conhecidos no Brasil vêm sobretudo de séries hospitalares da Amazônia. A identificação molecular de E. vogeli em fezes de cães domésticos no Acre confirmou o papel do cão no ciclo peridomiciliar.

Consulte a lista nacional de notificação compulsória vigente e as normas estaduais/municipais; comunique casos à vigilância epidemiológica local para investigação de cães e da comunidade.

Erros comuns

Os erros mais frequentes vêm de tratar essas formas como se fossem hidatidose — ou como câncer.

ErroPor que é um problemaComo evitar
Aplicar a lógica da hidatidose (3–6 meses de albendazol, PAIR)Policística e alveolar são proliferativas/infiltrativas.Albendazol prolongado; cirurgia radical quando possível; PAIR não é rotina.
Usar albendazol em ciclos com pausasEsquema antigo, abandonado.Uso contínuo (OMS-IWGE).
Suspender após 2 anos sem avaliar atividadeRecidiva de tecido residual.PET-CT/sorologia em centro de referência; seguimento ≥10 anos.
Ressecção parcial “de redução” na alveolarSem benefício e com morbidade.Ressecção radical ou tratamento clínico + intervenção biliar.
Esquecer o laboratórioHepatotoxicidade e leucopenia.Hemograma e transaminases no cronograma da OMS-IWGE.

Referências principais

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    D’Alessandro A, Rausch RL. New aspects of neotropical polycystic (Echinococcus vogeli) and unicystic (Echinococcus oligarthrus) echinococcosis. Clin Microbiol Rev. 2008;21(2):380-401.
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Aviso importante

Material educacional de apoio à decisão clínica. Não substitui avaliação individualizada, protocolos institucionais, serviço de referência, infectologia, pediatria/obstetrícia nem consulta às bulas. Duração do albendazol, critérios de ressecabilidade, indicação de transplante e suspensão do tratamento na forma alveolar devem ser decididos em centro de referência; na forma policística não há consenso formal, e as condutas derivam de séries de casos.

Conteúdo para educação médica. Condutas devem ser individualizadas e conferidas com protocolos oficiais, contexto epidemiológico e disponibilidade local.
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