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Guia de Zoonoses • Parasitas

Criptosporidiose

Cryptosporidium hominis e C. parvum — protozoários intracelulares do filo Apicomplexa

Diarreia aquosa autolimitada no imunocompetente, mas persistente na criança desnutrida e potencialmente crônica e grave na imunossupressão celular. O oocisto resiste ao cloro e escapa aos exames de rotina: é preciso pedir o teste específico. O tratamento se apoia em hidratação, nitazoxanida no imunocompetente e, no HIV avançado, na reconstituição imune pela TARV.

Protozoário intracelularÁgua e piscinasBezerros (C. parvum)Grave no HIV avançado
16–20 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Protozoário que vive na borda em escova do intestino; C. hominis (humano) e C. parvum (zoonótico, bezerros) causam a maioria dos casos.
  2. Dose infectante muito baixa e oocisto infectante já ao ser eliminado → surtos hídricos e em creches.
  3. Imunocompetente: diarreia aquosa de 1–3 semanas, autolimitada. HIV com CD4 <100: crônica, grave, biliar.
  4. Lactentes de países de baixa renda: causa importante de diarreia grave, desnutrição e atraso de crescimento.

O que é criptosporidiose

Criptosporidiose é a infecção intestinal por protozoários do gênero Cryptosporidium. O parasita se instala no epitélio do intestino delgado e provoca uma diarreia aquosa por má absorção e secreção. É uma das principais causas de surtos de diarreia ligados à água recreativa, justamente por tolerar o cloro.

O mesmo agente produz três doenças clínicas distintas, conforme o hospedeiro — e cada uma pede uma conduta diferente.

Imunocompetente

Diarreia aquosa autolimitada, geralmente por 1–3 semanas, às vezes com recaídas.

Criança pequena

Diarreia persistente, desnutrição e déficit de crescimento, sobretudo em áreas de baixa renda.

Imunossupressão celular

Diarreia crônica ou fulminante, colangiopatia e pancreatite com CD4 <100.

O agente

Há dezenas de espécies descritas, mas duas respondem pela grande maioria das infecções humanas. C. hominis circula quase só entre pessoas; C. parvum infecta bezerros e outros ruminantes jovens e também humanos — é a face zoonótica da doença.

O parasita ocupa uma posição curiosa: dentro da célula, mas fora do citoplasma, num vacúolo logo abaixo da membrana da borda em escova. Isso ajuda a explicar a dificuldade dos fármacos em alcançá-lo.

Agente etiológico

Cryptosporidium spp.

Coccídio do filo Apicomplexa; oocisto de 4–6 µm com 4 esporozoítas.

  • C. hominis: transmissão predominantemente entre pessoas.
  • C. parvum: zoonótico — bezerros, cordeiros, cabritos — e também entre pessoas.
  • Oocisto eliminado já esporulado: infectante sem precisar de maturação no ambiente.

Três características que explicam a doença

Transmissão

Oocisto de parede espessa

Resiste ao cloro e ao álcool; sobrevive meses no ambiente úmido.

Localização

Borda em escova

Vacúolo intracelular, mas extracitoplasmático, no ápice do enterócito.

Persistência

Autoinfecção

Oocistos de parede fina reinfectam o próprio intestino — base da cronicidade.

Fisiopatologia e ciclo de vida

Todo o ciclo, sexuado e assexuado, ocorre num único hospedeiro. Após a ingestão, o oocisto libera esporozoítas que invadem os enterócitos, multiplicam-se e produzem dois tipos de oocisto: os de parede espessa, eliminados nas fezes, e os de parede fina, que se rompem no próprio intestino e reiniciam a infecção. Sem imunidade celular eficaz, essa autoinfecção não para.

Ciclo biológico

Ciclo completo num só hospedeiro, com autoinfecção

Da ingestão do oocisto à eliminação de novos oocistos já infectantes.

  1. Ingestão

    Poucos oocistos bastam — estudos em voluntários mostram infecção com menos de 100.

  2. Excistação

    No intestino delgado, cada oocisto libera 4 esporozoítas.

  3. Invasão

    Esporozoítas aderem à borda em escova e formam o vacúolo parasitóforo.

  4. Multiplicação

    Merogonia assexuada e depois gametogonia, com lesão e atrofia de vilosidades.

  5. Dois oocistos

    Parede espessa → fezes (infectante); parede fina → autoinfecção.

  6. Diarreia

    Má absorção, secreção de cloreto e aumento da permeabilidade epitelial.

Incubação, duração e eliminação

A incubação é de cerca de uma semana. A diarreia do imunocompetente costuma durar até 2–3 semanas, mas a eliminação de oocistos continua por semanas depois da melhora — o que fundamenta o afastamento de piscinas mesmo sem sintomas.

~7 diasIncubação média (2–10 dias)
1–3 semDiarreia no imunocompetente
2 semSem piscina após o fim da diarreia

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O essencial de transmissão e risco

  1. Via fecal-oral: água (de beber ou recreativa), alimentos, pessoa a pessoa e contato com animais.
  2. Oocisto infectante ao ser eliminado, dose infectante baixa e tolerância ao cloro = surtos.
  3. Zoonose: C. parvum em bezerros e outros ruminantes jovens.
  4. Gravidade depende da imunidade celular: HIV com CD4 <100, transplante, imunodeficiências primárias.

Como ocorre a transmissão

Toda transmissão é fecal-oral, mas os caminhos variam. Três propriedades do oocisto explicam a facilidade de espalhamento: sai já infectante, basta uma pequena quantidade para infectar e ele tolera o cloro usado em piscinas e no tratamento de água.

Vias de transmissão

Água · animais · pessoa a pessoa · alimentos

Surtos hídricos e em creches são a marca epidemiológica da doença.

  • Água recreativa: piscinas, parques aquáticos, lagos — o cloro em nível adequado não inativa o oocisto rapidamente.
  • Água de beber: rios, poços rasos, falhas no tratamento; gelo e água em viagens.
  • Animais: bezerros e outros ruminantes jovens com diarreia (C. parvum).
  • Pessoa a pessoa: creches, troca de fraldas, cuidadores, domicílio, sexo com exposição oral-anal.
  • Alimentos: vegetais crus lavados com água contaminada, leite e sidra não pasteurizados.

Quem tem maior risco de doença grave

O controle da infecção depende da imunidade celular (linfócitos T CD4 e interferon-gama). Quando ela falha, a autoinfecção se perpetua e a doença deixa de ser autolimitada.

  • HIV com CD4 <100 células/mm³: diarreia crônica; abaixo de ~50, formas fulminantes e doença biliar.
  • Transplantados de órgão sólido e de células-tronco: diarreia prolongada, desidratação e flutuação de níveis de imunossupressores.
  • Imunodeficiências primárias: especialmente síndrome de hiper-IgM (deficiência de CD40L) — risco de colangite esclerosante.
  • Lactentes e crianças desnutridas: diarreia persistente, piora nutricional e maior mortalidade.
  • Quimioterapia, corticoide em dose alta, biológicos: curso mais longo.

Exposições na anamnese

Perguntar ativamente pelas exposições ajuda a decidir quem testar e a identificar surtos. Cada exposição tem uma medida preventiva correspondente.

ExposiçãoPor que importaComo reduzir
Piscina / parque aquáticoOocisto sobrevive dias em água clorada.Não nadar com diarreia e por 2 semanas depois; não engolir água.
Água não tratadaRios, lagos, poços rasos, viagens.Ferver 1 minuto ou filtro ≤1 µm; água engarrafada.
Bezerros, cordeiros, cabritosC. parvum zoonótico; animais jovens com diarreia.Lavar as mãos com água e sabão após contato; supervisionar crianças.
Creche / fraldasTransmissão pessoa a pessoa intensa.Higiene na troca de fraldas; afastamento enquanto houver diarreia.
Sexo com exposição oral-analVia descrita, sobretudo em surtos.Aguardar 2 semanas após a diarreia; métodos de barreira e higiene.
Leite/sidra não pasteurizadosSurtos alimentares.Consumir apenas produtos pasteurizados.

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O essencial de quadro clínico

  1. Diarreia aquosa, não sanguinolenta, com cólica, náusea, anorexia e febre baixa.
  2. Sangue e leucócitos nas fezes são incomuns — se presentes, pensar em outro agente ou coinfecção.
  3. Imunocompetente: até 2–3 semanas, às vezes com recaída após melhora.
  4. HIV com CD4 <100: diarreia crônica, perda de peso, colangiopatia, pancreatite.

Imunocompetentes

Após cerca de uma semana de incubação, surge diarreia aquosa, frequente e às vezes volumosa, com cólicas, náuseas, vômitos, anorexia e febre baixa. O quadro costuma regredir sozinho em até 2–3 semanas; parte dos pacientes apresenta melhora seguida de recaída.

A infecção também pode ser assintomática — o que contribui para a disseminação silenciosa em creches e domicílios.

  • Desidratação: o principal risco, sobretudo em lactentes e idosos.
  • Diarreia >14 dias: diarreia persistente — investigar parasitas, incluindo Cryptosporidium.

Achados característicos

Não há sinal patognomônico ao exame físico. Os achados mais característicos estão no laboratório, na histologia e, no imunossuprimido, na via biliar.

Achado característico

Oocistos álcool-ácido positivos

Esferas de 4–6 µm coradas em rosa no Ziehl-Neelsen modificado.

Achado característico

Imunofluorescência direta

Oocistos verde-maçã brilhantes; maior sensibilidade da microscopia.

Histologia

Organismos na borda em escova

Pequenos corpúsculos basofílicos no ápice dos enterócitos, com atrofia vilositária.

Imagem

Colangiopatia da aids

Estenose papilar e estenoses de ductos biliares, com CD4 muito baixo.

HIV avançado e outras imunossupressões

Com CD4 abaixo de 100 células/mm³, a criptosporidiose tende a ser crônica; com CD4 abaixo de ~50, pode ter padrão coleriforme, com perdas volumosas, distúrbios eletrolíticos graves e caquexia. A diarreia também pode prejudicar a absorção dos antirretrovirais.

Diarreia crônica

Persistente ou intermitente, com perda de peso e má absorção.

Forma coleriforme

Perdas volumosas, hipocalemia, acidose e lesão renal aguda.

Biliar e pancreática

Colecistite alitiásica, colangite esclerosante, estenose papilar, pancreatite.

Respiratória (rara)

Tosse e infiltrados, descrita em imunossupressão grave.

Desidratação grave, distúrbio eletrolítico, lesão renal, dor em hipocôndrio direito com colestase ou perda de peso progressiva = avaliação hospitalar.

Doença biliar

A colangiopatia associada à aids — em que Cryptosporidium é um dos agentes clássicos, ao lado de CMV e microsporídios — aparece com CD4 muito baixo. A dor em hipocôndrio direito com elevação desproporcional de fosfatase alcalina e GGT é a pista.

  • Estenose papilar: dor intensa, dilatação ductal — candidata a papilotomia endoscópica.
  • Colangite esclerosante: estenoses intra/extra-hepáticas; também na síndrome de hiper-IgM.
  • Colecistite alitiásica: espessamento da vesícula sem cálculos.
  • Pancreatite: por acometimento do ducto pancreático.

Crianças

No estudo multicêntrico GEMS, Cryptosporidium esteve entre os principais agentes de diarreia moderada a grave em menores de 2 anos na África e na Ásia, associado a maior mortalidade. Mesmo episódios sem desidratação grave podem deixar marca nutricional: diarreia persistente, perda de peso e déficit de crescimento.

Na criança, o desfecho que importa vai além da diarreia: monitore peso e estatura depois do episódio.

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O essencial de diagnóstico

  1. Pedir pesquisa específica de Cryptosporidium: o parasitológico de rotina não detecta.
  2. Métodos: álcool-ácido modificado, imunofluorescência direta, antígeno fecal (ELISA/imunocromatográfico) e PCR.
  3. Eliminação intermitente: no imunocompetente, repetir amostras em dias diferentes.
  4. HIV avançado com diarreia crônica: pesquisar também Cystoisospora, microsporídios, CMV e MAC.

Quem testar

A maioria das diarreias agudas aquosas não precisa de exame. A diretriz da IDSA de 2017 orienta investigar parasitas na diarreia que persiste por 14 dias ou mais, e testar mais cedo quem é imunossuprimido ou está envolvido em surto. Na prática:

  • Diarreia aquosa ≥14 dias (persistente) ou com recaídas.
  • Imunossuprimido com diarreia, mesmo aguda.
  • Suspeita de surto (piscina, creche, água de abastecimento, fazenda).
  • Diarreia após contato com bezerros ou outros animais de fazenda.

Métodos laboratoriais

Os testes diferem em sensibilidade, custo e disponibilidade. A imunofluorescência é a referência entre os métodos microscópicos; os testes moleculares detectam mais casos e permitem identificar a espécie, mas nem sempre estão disponíveis no SUS.

MétodoVantagensLimitações
Álcool-ácido modificado (Kinyoun / ZN modificado)Barato e disponível; oocistos rosados de 4–6 µm.Sensibilidade menor; depende do microscopista; exige várias amostras.
Imunofluorescência direta (DFA)Maior sensibilidade e especificidade entre as microscopias.Microscópio de fluorescência; disponibilidade limitada.
Antígeno fecal (ELISA / imunocromatográfico)Rápido, não depende de microscopista.Testes rápidos podem dar falso-positivo; confirmar quando inesperado.
PCR (inclusive painéis multiplex)Mais sensível; identifica espécie (útil em surtos).Custo; detecta DNA de infecção recente já resolvida; formol inviabiliza.
Biópsia (intestino, via biliar)Organismos na borda em escova; avalia outros diagnósticos.Invasiva; reservada a casos selecionados.

Avise o laboratório da suspeita. Para PCR, não usar conservante com formol na mesma amostra.

Exames complementares

Os exames gerais medem o impacto da diarreia e procuram complicações. No imunossuprimido, ajudam a definir o cenário e a urgência.

  • Eletrólitos, ureia, creatinina, gasometria: na desidratação moderada/grave e no imunossuprimido.
  • Teste para HIV: em toda diarreia crônica ou criptosporidiose em adulto sem causa de imunossupressão conhecida.
  • CD4 e carga viral: na pessoa com HIV.
  • Fosfatase alcalina, GGT, bilirrubinas, lipase: se dor abdominal alta, colestase ou CD4 muito baixo.
  • USG de abdome / colangio-RM: suspeita de doença biliar; CPRE se houver indicação terapêutica.

Diagnósticos diferenciais

O diferencial principal é com outras causas de diarreia aquosa prolongada. No HIV avançado, mais de um agente pode coexistir — um resultado positivo não encerra a investigação se a evolução não for a esperada.

DiferencialPor que confundeO que ajuda a separar
GiardíaseDiarreia prolongada, má absorção, surtos hídricos.Esteatorreia, flatulência; antígeno/PCR de Giardia; responde a nitroimidazol.
CiclosporíaseCoccídio álcool-ácido positivo, diarreia prolongada.Oocistos maiores (8–10 µm) com autofluorescência; responde a SMX-TMP.
CistoisosporíaseCoccídio, diarreia crônica no HIV.Oocistos grandes e ovais; eosinofilia; responde a SMX-TMP.
MicrosporidioseDiarreia crônica no HIV avançado; colangiopatia.Coloração tricrômica modificada, PCR.
Gastroenterite viral (norovírus, rotavírus)Diarreia aquosa e vômitos, surtos.Duração curta (1–3 dias); painéis moleculares.
E. coli diarreiogênicas, Salmonella, Campylobacter, ShigellaDiarreia aguda infecciosa.Febre alta, sangue/muco, leucócitos fecais; coprocultura/PCR.
CMV, MAC (HIV avançado)Diarreia crônica e perda de peso.Colonoscopia com biópsia; hemocultura para micobactérias.

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O essencial de tratamento

  1. Hidratação e alimentação em todos os cenários — Planos A, B e C do Ministério da Saúde.
  2. Imunocompetente sintomático (≥1 ano): nitazoxanida 3 dias, com alimento. Muitos casos leves resolvem sem ela.
  3. HIV com CD4 baixo: TARV imediata para reconstituição imune; nitazoxanida é adjuvante de eficácia limitada, nunca substitui a TARV.
  4. Sem antibiótico empírico, sem tegaserode, sem anticoagulação “de rotina” pela criptosporidiose.

Princípios do tratamento

A decisão depende de duas perguntas: quão desidratado está o paciente e quão competente é a sua imunidade celular. A reidratação vem sempre primeiro. O antiparasitário encurta a doença no imunocompetente, mas no imunossuprimido grave nenhum fármaco tem eficácia consistente — a melhora vem da recuperação imune. As doses detalhadas estão nas fichas, abertas pelo botão “Ver detalhes” de cada linha.

  • Hidratar primeiro: classificar o estado de hidratação e escolher o plano (A, B ou C).
  • Imunidade é o tratamento: TARV no HIV; reduzir imunossupressão quando possível no transplantado.
  • Antidiarreico com critério: só em adulto, sem febre alta nem sangue nas fezes.

Rotas de tratamento

Cada rota é um cenário clínico. Abra só a rota em que o seu paciente está: a tabela mostra dose, frequência e duração de cada esquema, e o nome de cada medicamento abre a ficha completa. Opções do mesmo grupo são alternativas — escolha uma.

O que não fazer

Alguns esquemas que circulam para criptosporidiose não têm base fisiopatológica nem evidência. Os mais comuns:

ErroPor que nãoO que fazer
Antibioticoterapia empíricaParasita não responde a antibacterianos; expõe a efeitos adversos e C. difficile.Hidratar; nitazoxanida quando indicada.
Tegaserode como “antidiarreico”É procinético agonista 5-HT4 usado na constipação: piora a diarreia.Loperamida (adulto) ou racecadotrila, com critério.
Enoxaparina “de rotina” pela criptosporidioseA infecção não é indicação de anticoagulação.Profilaxia de TEV só pelo risco do paciente internado, como em qualquer internação.
Adiar TARV até a diarreia passarA TARV é o tratamento que resolve.Iniciar/otimizar a TARV logo.
Loperamida em criançaRisco de íleo e depressão do SNC.SRO, zinco e, se desejado, racecadotrila.
S. boulardii no imunossuprimido graveRisco de fungemia, sobretudo com cateter central.Evitar; priorizar hidratação.

Monitoramento durante o tratamento

O monitoramento acompanha a gravidade: no imunocompetente, basta orientar sinais de alerta; no imunossuprimido internado, o foco é balanço hídrico, eletrólitos, nutrição e resposta à TARV.

O queComo monitorar
HidrataçãoPeso, diurese, sinais clínicos; balanço hídrico no internado.
Eletrólitos e rimSódio, potássio, magnésio, bicarbonato e creatinina nas formas graves.
NutriçãoPeso seriado; suporte nutricional na diarreia crônica e em crianças.
HIVCarga viral e CD4 após início da TARV; adesão e absorção dos ARV.
TransplanteNível de imunossupressor e função do enxerto.

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O essencial de cenários especiais

  1. HIV: TARV é o tratamento; nitazoxanida é adjuvante.
  2. Criança <1 ano: suporte, sem nitazoxanida (não aprovada).
  3. Gestante: hidratação primeiro; nitazoxanida (categoria B) se o benefício justificar.
  4. Transplante: reduzir imunossupressão e vigiar tacrolimo.

O que muda em cada cenário

A infecção é a mesma; o que muda é a capacidade do hospedeiro de controlá-la e a margem de segurança dos fármacos. A tabela reúne o que fazer diferente em cada caso.

CenárioParticularidadeO que fazer diferente
Lactente <1 anoMaior risco de desidratação; nitazoxanida não aprovada.Planos A/B/C, aleitamento, zinco; seguimento nutricional.
Criança 1–11 anosDiarreia persistente e impacto no crescimento. suspensão por idade/peso por 3 dias; sem loperamida.
GestanteDesidratação piora a perfusão uteroplacentária.Hidratação; nitazoxanida (categoria B) se sintomas importantes; evitar opioides perto do parto.
LactanteExcreção da nitazoxanida no leite desconhecida.Usar se o benefício justificar; manter aleitamento.
IdosoMenor reserva hídrica; polifarmácia.Hidratação precoce; cautela com loperamida e interações.
HIV com CD4 <100Doença crônica, biliar, má absorção de ARV.TARV imediata + suporte + antidiarreico; nitazoxanida ≥14 dias.
TransplantadoImunossupressão farmacológica; níveis variáveis.Reduzir imunossupressão se viável; monitorar tacrolimo e rim.
Hiper-IgM e outras imunodeficiências primáriasColangite esclerosante e doença hepática progressiva.Prevenção rigorosa da exposição; acompanhamento com imunologista.

HIV: por que a TARV vem antes

O parasita persiste por autoinfecção enquanto faltar imunidade celular. Com a recuperação do CD4 acima de 100 células/mm³, a doença costuma desaparecer — algo que nenhum antiparasitário conseguiu de forma consistente nos ensaios clínicos. O fluxo abaixo resume a sequência.

  1. Hidratar

    Planos B/C e eletrólitos.

  2. TARV

    Iniciar ou otimizar sem demora.

  3. Sintomático

    Loperamida; opioide se refratário.

  4. Adjuvante

    Nitazoxanida ≥14 dias, se disponível.

Iniciar a TARV antes de imunossupressão grave é a forma mais eficaz de prevenir a criptosporidiose crônica (NIH AII).

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O essencial de seguimento e prevenção

  1. Imunocompetente: alta com orientação de sinais de alerta; não é necessário exame de controle se houver melhora.
  2. Eliminação de oocistos continua por semanas: afastamento de piscinas por 2 semanas após a diarreia.
  3. Prevenção: ferver 1 minuto ou filtro ≤1 µm; mãos com água e sabão; cuidado com animais jovens.
  4. Surtos (piscina, creche, água) devem ser comunicados à vigilância.

Seguimento e internação

A maioria dos pacientes é tratada em casa. A internação é decidida pela hidratação e pelo hospedeiro, não pelo agente. A alta exige hidratação mantida por via oral e plano de seguimento claro.

Internar

  • Desidratação grave (Plano C) ou falha do Plano B.
  • Distúrbio eletrolítico ou lesão renal.
  • Imunossuprimido com diarreia volumosa ou perda de peso.
  • Doença biliar ou pancreatite.

Alta / ambulatório

  • Hidratado, tolerando via oral.
  • Eletrólitos e função renal estáveis.
  • Plano de TARV e retorno definidos (HIV).
  • Orientação de sinais de alerta e de prevenção.

Vigilância e notificação

No Brasil, o caso isolado de criptosporidiose não está na lista de notificação compulsória individual, mas surtos de doença de transmissão hídrica e alimentar (DTHA) devem ser comunicados à vigilância epidemiológica — inclusive os ligados a piscinas e creches.

  • Comunicar: dois ou mais casos ligados a uma fonte comum (água, piscina, alimento, creche, fazenda).
  • Investigar: rede de abastecimento, tratamento da piscina (hipercloração) e exposição a animais.

Prevenção individual

Como o oocisto resiste ao cloro e ao álcool, as medidas eficazes são físicas (ferver, filtrar) e mecânicas (lavar as mãos com água e sabão). Para imunossuprimidos graves, as orientações valem como prevenção primária.

  • Água de beber: ferver por pelo menos 1 minuto (3 minutos acima de ~2.000 m) ou filtro com poro absoluto ≤1 µm / certificado NSF 53 ou 58; água engarrafada.
  • Água recreativa: não engolir água de piscina, lago ou rio; não nadar com diarreia e por 2 semanas depois.
  • Mãos: água e sabão após banheiro, fraldas, contato com animais e antes de comer — álcool gel não basta.
  • Animais: cuidado com bezerros, cordeiros e cabritos, sobretudo com diarreia; imunossuprimidos devem evitar esse contato.
  • Alimentos: leite e sidra pasteurizados; vegetais crus lavados com água segura.
  • Sexo: evitar exposição oral-fecal; aguardar 2 semanas após a diarreia.

Resumo do fluxo prático

Para fechar, o raciocínio inteiro em sequência — da suspeita à prevenção.

  1. Suspeite

    Diarreia aquosa prolongada, surto hídrico, creche, bezerros ou imunossupressão.

  2. Classifique a hidratação

    Plano A, B ou C — antes de qualquer outra decisão.

  3. Peça o teste certo

    Pesquisa específica: álcool-ácido, imunofluorescência, antígeno ou PCR.

  4. Defina o hospedeiro

    Teste HIV na diarreia crônica; CD4 se HIV.

  5. Trate conforme o cenário

    Imunocompetente: nitazoxanida 3 dias. HIV: TARV + suporte. Transplante: reduzir imunossupressão.

  6. Interrompa a transmissão

    Creche, piscina, mãos, água; comunicar surtos.

Referências principais

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    Diretriz
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    Documento oficial2024
    Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Manejo da Infecção pelo HIV em Adultos — Módulo 2: Coinfecções e Infecções Oportunistas. Brasília, 2024.
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    Documento oficial2023
    Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Manejo do paciente com diarreia. Brasília, 2023.
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    Farmoquímica. Annita® (nitazoxanida) — bula para o profissional de saúde. Posologia em imunocompetentes e imunodeprimidos.

Aviso importante

Material educacional de apoio à decisão clínica. Não substitui avaliação individualizada, protocolos institucionais, serviço de referência, infectologia, pediatria/obstetrícia nem consulta às bulas. Na pessoa com HIV, a TARV é o tratamento que resolve a criptosporidiose; doses pediátricas, gestação, função hepática/renal, disponibilidade de paromomicina e ajustes de imunossupressão em transplantados devem ser conferidos antes da prescrição.

Conteúdo para educação médica. Condutas devem ser individualizadas e conferidas com protocolos oficiais, contexto epidemiológico e disponibilidade local.
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