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Larva migrans visceral

Síndrome por migração tecidual de larvas de nematódeos animais — Toxocara canis/T. cati (principal), Baylisascaris procyonis, Ascaris suum e outros

Síndrome, e não uma doença única: larvas de helmintos de animais migram pelos tecidos humanos sem completar o ciclo, produzindo febre, hepatomegalia, sibilância e eosinofilia acentuada. O raciocínio é sindrômico — reconhecer o padrão, apontar o agente provável, afastar outras causas de hipereosinofilia e proteger o paciente de Strongyloides antes de qualquer corticoide.

Larvas de animaisHipereosinofiliaCães, gatos e soloRaciocínio sindrômico
16–20 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Larva migrans visceral (LMV) é uma síndrome: larvas de nematódeos de animais migram por vísceras humanas sem virar vermes adultos.
  2. Toxocara canis e T. cati são, de longe, as causas mais frequentes; os detalhes estão no artigo Toxocaríase.
  3. Baylisascaris procyonis é rara, mas é a forma mais destrutiva para o SNC.
  4. Eosinofilia acentuada é o eixo do raciocínio — e obriga a pensar em Strongyloides antes de corticoide.

O que é larva migrans visceral

O termo foi cunhado por Beaver e colaboradores em 1952, ao descrever crianças com eosinofilia extrema, hepatomegalia e larvas de Toxocara em granulomas hepáticos. A ideia central é simples: o ser humano é um hospedeiro acidental (paratênico), a larva não encontra o ambiente certo para amadurecer e passa meses vagando pelos tecidos.

O dano não vem de uma carga de vermes no intestino, mas da resposta inflamatória Th2 à larva em migração — granulomas eosinofílicos no fígado, pulmão, coração, olho e SNC. Por isso o quadro depende do número de larvas ingeridas, do órgão atingido e da espécie.

Diante de eosinofilia acentuada com hepatomegalia ou sibilância em criança exposta a solo e animais, pense em LMV — mas só feche o diagnóstico depois de considerar os diferenciais tratáveis, a começar por Strongyloides.

Os agentes da síndrome

Vários nematódeos animais produzem o padrão. Na prática, a pergunta é: qual a exposição? Solo com fezes de cão e gato aponta Toxocara; fezes de guaxinim, Baylisascaris; fígado cru, Toxocara ou Ascaris suum; peixe de água doce cru, Gnathostoma; e roedores com áreas de mata, Calodium hepaticum.

Agente principal

Toxocara canis e T. cati

Ascarídeos de cães e gatos. O ser humano ingere ovos embrionados do solo (ou larvas em carne/fígado cru) e a larva L3 migra pelos tecidos sem se desenvolver.

  • Responsáveis pela grande maioria dos casos de LMV.
  • A larva sobrevive meses nos tecidos, envolta em granuloma eosinofílico.
  • Também causam a forma ocular — tema do artigo Toxocaríase.
AgenteHospedeiro / fonteParticularidade clínica
Toxocara canis / T. catiCães e gatos (filhotes); solo, areia; fígado/carne crua de hospedeiros paratênicosCausa mais comum: febre, hepatomegalia, sibilância, eosinofilia; também ocular e neurológica.
Baylisascaris procyonisGuaxinim (América do Norte; introduzido em partes da Europa e Ásia)Larva grande e agressiva: meningoencefalite eosinofílica grave, ocular; morte ou sequela são comuns.
Ascaris suumSuínos; fezes de porco no solo, fígado cruQuadro LMV-símile com lesões hepáticas e pulmonares; casos descritos sobretudo no Japão.
Calodium (Capillaria) hepaticumRoedores; ovos embrionados no soloCapilaríase hepática verdadeira: febre persistente, hepatomegalia e eosinofilia; rara, com casos no Brasil.
Ancylostoma caninumCães; larvas no soloEnterite eosinofílica (dor abdominal, eosinofilia) — mais que LMV clássica.
Gnathostoma spp.Peixe de água doce, rã, ave crus (ceviche, sushi)Edema migratório subcutâneo; formas viscerais e SNC (radiculomielite).
Toxascaris leoninaCães e gatosPapel em humanos pouco documentado; citado como possível causa.

Agentes e fontes: CDC (Toxocariasis, Baylisascariasis, Gnathostomiasis); Fuehrer et al., 2011 (Calodium hepaticum).

Por que a larva não amadurece — e por que isso importa

No hospedeiro definitivo (cão, gato, guaxinim), a larva volta ao intestino e vira verme adulto. No ser humano, ela fica presa na fase migratória. Três consequências práticas decorrem disso.

Fisiopatologia

Ovo no solo → ingestão → migração tecidual sem fase adulta

A larva eclode no intestino delgado, atravessa a parede e segue pela circulação portal ao fígado, depois pulmão e circulação sistêmica — podendo atingir coração, olho e SNC.

  • Sem ovos nas fezes: o parasitológico não diagnostica LMV; ele serve para os diferenciais.
  • A resposta imune é a doença: eosinofilia, IgE elevada e granulomas explicam sintomas e o papel do corticoide.
  • Não há transmissão inter-humana: o paciente não elimina formas infectantes.

Epidemiologia

A exposição a Toxocara é muito comum: uma metanálise global estimou soroprevalência de cerca de 19%, maior em regiões tropicais e de baixa renda. No Brasil, estudos regionais encontram desde valores em torno de 7% até mais de 30% em grupos específicos, como gestantes adolescentes no Sudeste.

Soroprevalência alta, porém, não significa LMV: a maioria das infecções é assintomática ou oligossintomática, e o quadro clássico é muito menos frequente — concentrado em crianças pequenas com ingestão maciça de ovos.

~19%Soroprevalência global de Toxocara (Rostami, 2019)
1–5 anosFaixa típica da LMV clássica
20,7%Gestantes no Sudeste brasileiro (Azevedo, 2021)

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O essencial de transmissão e risco

  1. Via principal: ingestão de ovos embrionados do solo contaminado por fezes de cães e gatos.
  2. Filhotes eliminam muitos ovos; os ovos levam semanas para ficar infectantes e resistem longamente no ambiente.
  3. Fígado ou carne crua de galinha, boi ou porco pode conter larvas (hospedeiros paratênicos).
  4. Geofagia, idade pré-escolar, convívio com filhotes e areia de praças são os principais fatores de risco.

Como a infecção acontece

A transmissão é fecal-oral indireta: o ovo eliminado pelo animal não infecta de imediato. Ele precisa embrionar no solo por semanas — por isso o contato direto com o pelo do animal tem papel menor que a terra, a areia e as mãos sujas. A segunda via, menos lembrada, é alimentar.

Fontes de infecção

Solo, mãos e alimentos crus

Ovos embrionados em solo e areia (geofagia, mãos) e larvas encistadas em fígado ou carne crua de hospedeiros paratênicos.

Via ambiental (principal)

  • Geofagia e mãos sujas de terra ou areia.
  • Praças, parques e quintais com fezes de cães e gatos.
  • Vegetais mal lavados cultivados em solo contaminado.

Via alimentar

  • Fígado cru ou malcozido de galinha, boi ou porco (Toxocara, A. suum).
  • Peixe de água doce, rã ou ave crus (Gnathostoma).

Quem tem mais risco

O risco de infecção e o risco de doença sintomática caminham juntos com a quantidade de ovos ingeridos. Por isso o perfil clássico é a criança pequena com geofagia; adultos tendem a ter cargas menores e quadros mais discretos, mas profissões com contato com solo e animais também se expõem.

  • Crianças de 1–5 anos com geofagia (pica) — maior carga e formas viscerais clássicas.
  • Convívio com filhotes não vermifugados e áreas de lazer com fezes de animais.
  • Condições socioeconômicas desfavoráveis — a toxocaríase é considerada doença negligenciada associada à pobreza.
  • Deficiência intelectual ou transtornos com pica — risco particular para Baylisascaris quando há exposição a guaxinins.
  • Hábito de comer fígado cru — causa relevante de LMV em adultos em alguns países.

Baylisascaris: uma exposição importada

O guaxinim (Procyon lotor) é nativo da América do Norte e foi introduzido em partes da Europa e da Ásia. Seus ovos se concentram em “latrinas” (locais fixos de defecação em telhados, sótãos, troncos e quintais) e permanecem infectantes por anos. Os casos humanos graves descritos são, em grande parte, de crianças pequenas ou pessoas com deficiência e pica.

No Brasil, a pergunta-chave é a história de viagem, moradia no exterior ou contato com guaxinins mantidos em cativeiro. Ingestão provável de material de latrina = profilaxia com imediata (veja Tratamento).

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O essencial de quadro clínico

  1. Tríade clássica: febre, hepatomegalia e eosinofilia acentuada; tosse/sibilância é frequente.
  2. O espectro vai do assintomático (apenas eosinofilia) a miocardite, pneumonite grave e meningoencefalite.
  3. Laboratório: leucocitose, eosinofilia, IgE e gamaglobulinas elevadas.
  4. Neurológico + eosinófilos no LCR: lembre Baylisascaris, Toxocara, Angiostrongylus e Gnathostoma.

A apresentação clássica

Os sintomas acompanham os órgãos por onde a larva passa. O fígado é a primeira estação depois do intestino, por isso hepatomegalia e dor abdominal são frequentes; o pulmão vem em seguida, com tosse, sibilância e infiltrados que podem simular asma ou pneumonia. A febre e o mal-estar refletem a inflamação sistêmica.

  1. Fígado

    Hepatomegalia, dor em hipocôndrio direito, lesões hipoecoicas.

  2. Pulmão

    Tosse, sibilância, infiltrados migratórios.

  3. Sistêmico

    Febre, anorexia, perda de peso, linfadenopatia, urticária.

  4. Órgão-alvo

    Coração, SNC e olho — formas graves.

Hemograma

Leucocitose com eosinofilia, frequentemente acentuada (>1.500/µL); anemia pode acompanhar.

Bioquímica

IgE total e gamaglobulinas elevadas; isoemaglutininas anti-A/anti-B podem estar aumentadas.

Achados característicos

Nenhum achado isolado é patognomônico; o conjunto é que sugere a síndrome. Imagem hepática e pulmonar, o grau da eosinofilia e, quando há sintomas neurológicos, a ressonância e o LCR ajudam a dimensionar a doença e a escolher a rota de tratamento.

Achado-eixo

Eosinofilia acentuada

Muitas vezes acima de 1.500/µL, com leucocitose; é o ponto de partida do raciocínio.

Achado característico

Lesões hepáticas

Múltiplas lesões pequenas, mal definidas, hipoecoicas/hipoatenuantes, que podem mudar entre exames.

Achado característico

Infiltrados pulmonares

Infiltrados ou nódulos migratórios em criança com sibilância e eosinofilia.

Achado de gravidade

Substância branca (RM)

Alteração difusa profunda na larva migrans neural por Baylisascaris.

Formas graves e acometimento de órgão-alvo

A gravidade depende da carga larvária e da espécie. Toxocara raramente causa doença grave, mas pode produzir miocardite, pneumonite intensa e neurotoxocaríase. Baylisascaris é diferente: a larva cresce e migra agressivamente no SNC, e quando os sintomas neurológicos aparecem, segundo o CDC, a lesão em geral já está estabelecida.

ÓrgãoManifestaçõesO que investigar
CoraçãoDor torácica, arritmia, insuficiência cardíaca (miocardite eosinofílica).ECG, troponina, ecocardiograma; RM cardíaca se disponível.
PulmãoSibilância refratária, hipoxemia, infiltrados extensos, derrame.Oximetria, imagem de tórax; afastar Strongyloides e outras pneumonias eosinofílicas.
SNCConvulsão, alteração de consciência, déficit focal, meningoencefalite eosinofílica.RM; LCR com contagem de eosinófilos; exposição a guaxinim.
OlhoBaixa visual unilateral, leucocoria, granuloma retiniano, endoftalmite.Fundoscopia; a forma ocular é tratada no artigo Toxocaríase.
Sinais de alarme

Sintomas neurológicos, dor torácica/arritmia, hipoxemia ou queda visual em paciente com eosinofilia = internação, avaliação de órgão-alvo e tratamento imediato.

O espectro da síndrome

A LMV clássica é a ponta do iceberg. Na toxocaríase, a maioria das infecções é assintomática ou “comum/encoberta”, com queixas inespecíficas (dor abdominal, tosse, cefaleia) e eosinofilia leve; a forma ocular costuma ocorrer em crianças maiores, com pouca eosinofilia. Reconhecer onde o paciente está no espectro ajuda a decidir quem tratar.

Assintomática / encoberta

Eosinofilia leve, sorologia positiva, sintomas vagos ou ausentes.

LMV clássica

Febre, hepatomegalia, sibilância, eosinofilia acentuada.

Órgão-alvo

Miocardite, SNC, pneumonite grave, olho.

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O essencial de diagnóstico

  1. LMV é diagnóstico clínico-epidemiológico apoiado por sorologia; a biópsia raramente é necessária.
  2. ELISA com antígenos de excreção-secreção de Toxocara é o teste usual; positivo não prova doença atual.
  3. Fezes não diagnosticam Toxocara, mas são indispensáveis para os diferenciais.
  4. Toda eosinofilia com exposição tropical: sorologia e fezes para Strongyloides antes de corticoide.

Abordagem da eosinofilia em etapas

A eosinofilia é o fio condutor. As diretrizes britânicas para eosinofilia em viajantes e migrantes (Thakker et al., 2025) organizam a investigação começando por testes para todos e depois exames dirigidos pela região de exposição. Fora do contexto parasitário, as causas alérgicas, medicamentosas e hematológicas entram no raciocínio, sobretudo quando a contagem é muito alta ou há lesão de órgão.

  1. Confirme e quantifique

    Eosinófilos absolutos (≥500/µL = eosinofilia; ≥1.500/µL = hipereosinofilia). Repita para ver persistência.

  2. Procure lesão de órgão

    Coração, pulmão, SNC, pele, olho. Lesão de órgão muda a urgência.

  3. Reconstitua a exposição

    Solo, cães/gatos, geofagia, alimentos crus, água doce, viagens, guaxinim, medicamentos novos.

  4. Testes para todos os expostos

    Parasitológico de fezes concentrado (seriado) e sorologia para Strongyloides; esquistossomose conforme epidemiologia (sorologia/urina/fezes).

  5. Testes dirigidos

    Sorologia para Toxocara; imagem hepática/torácica; outras sorologias (fasciolose, triquinose, gnatostomíase) conforme exposição.

  6. Sem explicação

    Hipereosinofilia persistente sem causa: investigar causas não parasitárias e encaminhar à hematologia.

Ferramenta: primeiro passo diante da eosinofilia

A ferramenta abaixo resume a priorização inicial, combinando a contagem, a presença de lesão de órgão e o risco de Strongyloides. Ela organiza o raciocínio — não substitui a avaliação clínica nem os protocolos locais.

Eosinofilia — priorização inicial

Baseada em Thakker et al. (BIA, J Infect 2025) e Klion (ASH Education Program 2022).

Responda às três perguntas para ver a prioridade sugerida.

Limiar de hipereosinofilia (≥1.500/µL) conforme consenso internacional (Valent et al., 2012). Não use a ferramenta para dispensar avaliação de especialista em pacientes graves.

Exames e como interpretá-los

Nenhum exame isolado fecha o diagnóstico. A sorologia é a principal ferramenta para Toxocara, mas seu valor depende da probabilidade pré-teste: em área onde muitos são soropositivos, um resultado positivo numa criança com quadro típico pesa muito mais do que num adulto com eosinofilia leve.

ExameUtilidadeLimitação / interpretação
Hemograma seriadoQuantifica a eosinofilia e acompanha a resposta.Queda é lenta: pode levar semanas a meses após o tratamento.
Sorologia anti-Toxocara (ELISA TES)Teste usual de apoio ao diagnóstico.Não distingue infecção atual de passada; reação cruzada com Ascaris. Western blot pode aumentar a especificidade onde disponível.
IgE total, gamaglobulinasApoiam resposta Th2 intensa.Inespecíficos.
US / TC de abdomeLesões hepáticas hipoecoicas/hipoatenuantes múltiplas.Podem simular abscessos ou metástases; mudam com o tempo.
Imagem de tóraxInfiltrados ou nódulos migratórios.Inespecífica; diferencial com Löffler e pneumonia eosinofílica.
Parasitológico de fezesEssencial para Strongyloides, ancilostomídeos, Ascaris, esquistossomose.Negativo para Toxocara por definição; ovos de Calodium nas fezes indicam passagem espúria, não capilaríase hepática.
LCR e RM (se neurológico)Pleocitose eosinofílica; lesões de substância branca.Para Baylisascaris não há teste comercial — o CDC pode testar soro/LCR em suspeita alta.
BiópsiaGranuloma eosinofílico, às vezes com larva; ovos de Calodium no fígado.Baixo rendimento e invasiva; reservar para dúvida diagnóstica relevante.

Diagnóstico diferencial da hipereosinofilia

O diagnóstico de LMV só é seguro quando os diferenciais tratáveis foram considerados. Entre os parasitários, os que mais confundem são os que também têm fase de migração tecidual; entre os não parasitários, os que mais preocupam são as síndromes hipereosinofílicas, as neoplasias e as reações a medicamentos.

DiferencialPor que confundeO que ajuda a separar
EstrongiloidíaseEosinofilia, sintomas pulmonares e GI, sorologia com reação cruzada.Exposição a solo de área endêmica, larva currens, larvas nas fezes (Baermann/ágar), sorologia. Risco de hiperinfecção com corticoide.
Esquistossomose aguda (Katayama)Febre, hepatomegalia, tosse/sibilância e eosinofilia acentuada.Banho em água doce de área endêmica 2–8 semanas antes; sorologia; ovos aparecem só depois.
Fasciolose (fase aguda)Febre, dor em hipocôndrio direito, hepatomegalia, lesões hepáticas, eosinofilia.Agrião ou plantas aquáticas cruas; lesões em trilhas subcapsulares; sorologia; tratamento com triclabendazol.
TriquinoseFebre e eosinofilia acentuada.Carne de porco/caça crua; mialgia intensa, edema periorbitário, CK elevada; casos em surto.
Síndrome de Löffler (Ascaris, ancilostomídeos)Infiltrados pulmonares transitórios + eosinofilia.Quadro breve; ovos nas fezes semanas depois.
Gnatostomíase, capilaríase hepáticaEosinofilia com lesões migratórias ou hepáticas.Peixe cru (edema migratório); febre persistente com hepatomegalia e ovos de Calodium na biópsia.
Causas não parasitáriasHipereosinofilia com ou sem lesão de órgão.Asma/ABPA, reação a fármaco (incluindo DRESS), vasculite (EGPA), neoplasias (linfomas, leucemia eosinofílica), síndrome hipereosinofílica.

Cada parasitose tem seu próprio artigo no Guia; aqui, o objetivo é separar as síndromes.

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O essencial de tratamento

  1. Toxocara (LMV sintomática): albendazol 400 mg VO 12/12 h por 5 dias, adultos e crianças; mebendazol é alternativa.
  2. Corticoide é adjuvante quando a inflamação é intensa ou há órgão-alvo — nunca antes de pensar em Strongyloides.
  3. Baylisascaris: albendazol 25–50 mg/kg/dia por 10–20 dias, iniciado o mais cedo possível (idealmente ≤3 dias da exposição).
  4. Forma leve ou só eosinofilia: o benefício do antiparasitário é incerto — decisão individualizada.

Princípios do tratamento

Tratar a LMV é tratar duas coisas: a larva e a inflamação que ela provoca. O antiparasitário de escolha é o albendazol, que atinge os tecidos melhor quando tomado com refeição gordurosa; o corticoide controla a resposta eosinofílica nas formas intensas ou com órgão-alvo. Os esquemas para Toxocara seguem o CDC; os detalhes da toxocaríase, incluindo a forma ocular, estão no artigo próprio.

Antes de escolher a rota, responda: qual o agente provável, há lesão de órgão e há risco de Strongyloides? As doses por peso estão nas fichas, abertas pelo botão “Ver detalhes” de cada linha.

  • Agente define o esquema: Toxocara 5 dias de dose fixa; Baylisascaris dose alta por peso e longa.
  • Tempo importa no Baylisascaris: profilaxia logo após a exposição, sem esperar sintomas.
  • Corticoide com proteção: ivermectina antes (ou junto) se houver risco de Strongyloides.

Rotas de tratamento

Cada rota é um cenário clínico. Abra só a rota em que o seu paciente está: a tabela mostra dose, frequência e duração de cada esquema, e o nome de cada medicamento abre a ficha completa. Opções do mesmo grupo são alternativas — escolha uma.

Monitoramento durante o tratamento

Os cursos curtos para Toxocara raramente causam toxicidade relevante; o cuidado aumenta nos cursos longos e em doses altas (Baylisascaris, capilaríase, gnatostomíase) e quando se associa corticoide.

FármacoComo monitorar
AlbendazolCursos prolongados: hemograma e transaminases (pancitopenia rara, hepatotoxicidade).
IvermectinaExposição a Loa loa antes de usar; atenção a <15 kg e gestação.
CorticoideGlicemia, pressão arterial, infecções; cobertura de Strongyloides quando há exposição.
Resposta clínicaFebre e sintomas melhoram em dias; eosinofilia e lesões hepáticas regridem em semanas a meses.

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O essencial de cenários especiais

  1. Criança pequena com pica: o perfil de maior risco para LMV clássica e para Baylisascaris.
  2. Imunossuprimido ou candidato a corticoide: Strongyloides primeiro.
  3. Gestação: maioria das formas permite adiar o antiparasitário.
  4. Eosinofilia muito alta sem causa ou com órgão-alvo: lembrar síndromes hipereosinofílicas.

O que muda em cada cenário

A síndrome é a mesma, mas o hospedeiro e a exposição mudam o agente provável, a urgência e o que pode dar errado no tratamento. A tabela resume os ajustes mais importantes.

CenárioParticularidadeO que fazer diferente
Criança 1–5 anos com geofagiaMaior carga larvária; LMV clássica. 400 mg 12/12 h por 5 dias se sintomática; abordar a pica e os animais da casa.
Exposição a guaxinimBaylisascaris: dano neurológico rápido e irreversível.Profilaxia com 25–50 mg/kg/dia por 10–20 dias, idealmente ≤3 dias.
Adulto com eosinofilia isoladaMuitos diferenciais; LMV clássica é rara.Investigação completa da eosinofilia antes de atribuir a Toxocara.
Comedor de fígado cruCausa de LMV em adultos; Toxocara ou A. suum.Perguntar ativamente; lesões hepáticas podem simular metástases.
Candidato a corticoide / imunossupressãoRisco de hiperinfecção por Strongyloides.Excluir ou cobrir com antes.
GestanteAlbendazol evitado no 1º trimestre.Adiar se leve; tratar no 2º–3º trimestre só se o benefício justificar.
Viajante/migranteExposições múltiplas (esquistossomose, filarioses, Loa loa).Testes por região; avaliar Loa loa antes de ivermectina.
Lesão de órgão com hipereosinofiliaDano eosinofílico independe da causa.Tratar como urgência; hematologia se causa não for evidente.

Meningoencefalite eosinofílica

Eosinófilos no LCR com quadro neurológico limitam bastante o diferencial. No Brasil, o principal agente é Angiostrongylus cantonensis (caramujos e lesmas), que não é LMV clássica, mas entra na mesma conversa; Baylisascaris, Toxocara e Gnathostoma completam a lista. A história de exposição costuma resolver mais que os exames.

Baylisascaris

Guaxinim, criança pequena; lesões difusas de substância branca; prognóstico ruim — albendazol + corticoide.

Gnathostoma

Peixe cru; radiculomielite dolorosa, hemorragias; tratamento antiparasitário controverso no SNC.

Toxocara

Solo/cães e gatos; quadro geralmente menos grave; albendazol + corticoide.

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O essencial de seguimento e prevenção

  1. Seguimento é clínico e pelo hemograma: a eosinofilia cai em semanas a meses.
  2. Sorologia para Toxocara pode permanecer positiva por anos — não serve como teste de cura.
  3. Eosinofilia que não cai: reavaliar diagnóstico, reexposição e causas não parasitárias.
  4. Prevenção = vermifugar cães e gatos, recolher fezes, proteger caixas de areia, lavar as mãos e tratar a geofagia.

Como acompanhar

A melhora clínica (febre, sibilância, dor abdominal) costuma vir antes da laboratorial. Use o hemograma seriado como marcador principal e repita a imagem hepática ou torácica apenas se as lesões eram relevantes ou se houver piora.

Eosinofilia persistente ou crescente depois do tratamento pede três perguntas: o diagnóstico estava certo, houve reexposição (a criança continua com geofagia, os animais seguem sem vermífugo?) e existe uma causa não parasitária associada?

Não use a sorologia para controle de cura: os anticorpos persistem por longo tempo e a queda não tem relação confiável com a eliminação das larvas.

Prevenção — Uma Só Saúde

A prevenção da LMV depende de interromper a contaminação do ambiente por fezes de animais e de reduzir a ingestão de ovos pela criança. Envolve o médico, o veterinário e o poder público (controle de animais errantes e de áreas de lazer).

  • Vermifugação de filhotes e adultos, com orientação veterinária; gestantes e lactantes caninas transmitem aos filhotes.
  • Fezes: recolher em casa e em locais públicos; descarte adequado.
  • Areia e parques: cobrir caixas de areia; restringir acesso de animais a áreas infantis.
  • Higiene: lavar as mãos após contato com terra/animais e antes de comer; lavar bem vegetais.
  • Alimentos: evitar fígado e carne crus ou malcozidos.
  • Guaxinins: não manter como pet; limpar latrinas com proteção (exterior).

Notificação no Brasil

A toxocaríase e a larva migrans visceral não constam da Lista Nacional de Notificação Compulsória vigente (Portaria GM/MS nº 11.211/2026). Suspeita de surto ou agregado de casos deve ser comunicada à vigilância local.

Erros comuns

Quase todos os erros na LMV vêm de fechar o diagnóstico cedo demais ou de esquecer o que a eosinofilia pode esconder.

ErroPor que é um problemaComo evitar
Pedir parasitológico para “diagnosticar Toxocara”A larva não vira adulto: não há ovos nas fezes.Sorologia + clínica; fezes servem para diferenciais.
Corticoide sem pensar em StrongyloidesPode precipitar hiperinfecção fatal.Excluir ou cobrir com antes.
Atribuir toda eosinofilia à sorologia positivaSoroprevalência alta = muitos positivos por exposição antiga.Avaliar probabilidade pré-teste e diferenciais.
Esperar sintomas na exposição a guaxinimQuando o SNC adoece, o dano já está feito.Profilaxia com logo após a exposição.
Usar o tratamento empírico de dose única como se tratasse LMVAlbendazol 1 dose não cobre toxocaríase visceral.Albendazol 400 mg 12/12 h por 5 dias.
Ignorar órgão-alvoMiocardite e SNC mudam o prognóstico.ECG/troponina, exame neurológico e fundoscopia nos casos com hipereosinofilia.

Referências principais

  1. 1
    Diretriz2024
    Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Clinical Overview of Toxocariasis. Atualizado em 9 fev. 2024.
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    Diretriz2024
    Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Clinical Care of Toxocariasis. Atualizado em 9 fev. 2024.
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    Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Clinical Overview of Raccoon Roundworm (Baylisascaris). Atualizado em 5 nov. 2024.
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    Diretriz2024
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    Diretriz2024
    Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Clinical Care of Gnathostomiasis. Atualizado em 20 fev. 2024.
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    Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Clinical Care of Strongyloides. Atualizado em 16 fev. 2024.
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    Artigo2011
    Fuehrer HP, Igel P, Auer H. Capillaria hepatica in man — an overview of hepatic capillariosis and spurious infections. Parasitol Res. 2011;109(4):969-979.
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    Manual2027
    American Academy of Pediatrics. Toxocariasis. In: Red Book: 2024–2027 Report of the Committee on Infectious Diseases. 33ª ed. Itasca, IL: AAP; 2024.
  15. 15
    Artigo1952
    Beaver PC, Snyder CH, Carrera GM, et al. Chronic eosinophilia due to visceral larva migrans: report of three cases. Pediatrics. 1952;9(1):7-19.
  16. 16
    Documento oficial2026
    Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 11.211, de 13 de maio de 2026. Lista Nacional de Notificação Compulsória vigente.

Aviso importante

Material educacional de apoio à decisão clínica. Não substitui avaliação individualizada, protocolos institucionais, serviço de referência, infectologia, pediatria/obstetrícia nem consulta às bulas. Este artigo trata da síndrome; esquemas específicos da toxocaríase (incluindo a forma ocular) estão no artigo próprio. Doses de albendazol por peso no Baylisascaris, uso de corticoide e cobertura de Strongyloides devem ser conferidos com protocolos locais e especialistas antes da prescrição.

Conteúdo para educação médica. Condutas devem ser individualizadas e conferidas com protocolos oficiais, contexto epidemiológico e disponibilidade local.
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