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Guia de Zoonoses • Parasitas

Toxocaríase

Toxocara canis e Toxocara cati — ascarídeos de cães e gatos cujas larvas migram pelos tecidos humanos

Zoonose adquirida pela ingestão de ovos embrionados do solo contaminado por fezes de cães e gatos. No ser humano a larva não vira adulto: migra e provoca inflamação eosinofílica no fígado, pulmão, olho ou sistema nervoso. A maioria das infecções é silenciosa; o tratamento é guiado pela forma clínica, não pela sorologia isolada.

Cães e gatosLarva migransForma ocularAlbendazol + corticoide
18–22 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Zoonose causada por larvas de Toxocara canis (cão) e T. cati (gato); o ser humano é hospedeiro acidental.
  2. A larva não completa o ciclo: migra pelos tecidos e induz inflamação eosinofílica e granulomas.
  3. Quatro apresentações: comum/oculta, visceral, ocular e neurotoxocaríase — a maioria das infecções é assintomática.
  4. Cerca de 1 em cada 5 pessoas no mundo tem anticorpos; no Brasil a soroprevalência é alta e desigual.

O que é toxocaríase

É a infecção humana por larvas de ascarídeos de cães e gatos. Como o ser humano não é o hospedeiro certo, a larva não amadurece no intestino: atravessa a parede intestinal e passa meses ou anos migrando pelos tecidos. A doença resulta muito mais da resposta inflamatória do hospedeiro aos antígenos larvares do que de dano direto do parasita.

Sorologia positiva não é sinônimo de doença. O que define conduta é a forma clínica: assintomático não se trata; olho e sistema nervoso exigem tratamento anti-inflamatório urgente.

O agente

Toxocara canis é o principal responsável pela doença humana; T. cati contribui em menor proporção. O que o paciente ingere é o ovo embrionado, e o que lesa os tecidos é a larva de terceiro estágio (L3), pequena demais para ser vista em exames de imagem e raramente encontrada em biópsia.

Agente etiológico

Toxocara canis / T. cati

Nematódeos ascarídeos cujo adulto vive no intestino delgado de cães e gatos.

  • No ser humano só existe a larva: ela não vira adulto nem produz ovos.
  • Os antígenos excretores-secretores (TES) da larva são fortemente alergênicos e são a base do ELISA.
  • A larva pode permanecer viável, encapsulada em granuloma, por longos períodos.

Formas do parasita

Nas fezes do animal

Ovo não embrionado

Eliminado nas fezes de cães e gatos; ainda não infecta.

Forma infectante

Ovo embrionado

Torna-se infectante no solo após semanas e resiste por anos.

No cão/gato

Verme adulto

Vive no intestino de filhotes, que eliminam grande quantidade de ovos.

Ciclo biológico e fisiopatologia

Nos cães, larvas dormentes nos tecidos da fêmea são reativadas na gestação e infectam os filhotes pela placenta; nos gatos, a via principal é o leite. Por isso filhotes são a principal fonte de ovos. No ser humano, a larva liberada no intestino segue para fígado, pulmões e, por fim, qualquer órgão — inclusive olho e sistema nervoso.

Ciclo biológico

Animal → solo → ser humano (hospedeiro acidental)

O ovo precisa de semanas no ambiente para se tornar infectante. No ser humano, a larva migra sem completar o ciclo — a migração somática é a doença.

  1. Eliminação

    Cães e gatos (sobretudo filhotes) eliminam ovos não embrionados nas fezes.

  2. Embrionamento

    No solo, em condições favoráveis, os ovos tornam-se infectantes em algumas semanas e sobrevivem por anos.

  3. Ingestão

    Mão-boca, geofagia, vegetais mal lavados ou carne/fígado cru de hospedeiro paratênico (galinha, coelho, bovino).

  4. Migração

    A larva atravessa a parede intestinal e migra por fígado, pulmão, músculo, olho e SNC.

  5. Granuloma

    Resposta Th2 com eosinófilos e IgE; a larva é cercada por granuloma e pode permanecer viável.

Epidemiologia

É uma das helmintíases zoonóticas mais comuns do mundo. A metanálise global de Rostami e colaboradores (2019) estimou soroprevalência de 19% (22,8% nas Américas), maior em locais quentes, úmidos e de baixa renda; Ma e colaboradores (2020) estimaram cerca de 1,4 bilhão de pessoas expostas.

No Brasil, a revisão sistemática de Fialho e Corrêa (2016) encontrou soroprevalência de 4,2% a 65,4% conforme a região e a população, mais alta em crianças e em comunidades de baixa renda. A forma visceral clássica predomina entre 2 e 7 anos; a ocular, em crianças maiores e adultos jovens.

19%Soroprevalência mundial estimada (2019)
4–65%Faixa de soroprevalência em estudos brasileiros
2–7 anosPico da forma visceral clássica

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O essencial de transmissão e risco

  1. Via principal: ingestão de ovos embrionados presentes em solo, areia, mãos e vegetais.
  2. Fezes frescas não infectam: o ovo precisa de semanas no ambiente para embrionar.
  3. Carne ou vísceras cruas de hospedeiros paratênicos são via alternativa, sobretudo em adultos.
  4. Não há transmissão pessoa a pessoa.

Como ocorre a transmissão

O ser humano se infecta engolindo ovos embrionados. Como o embrionamento exige semanas no ambiente, o risco está no solo e na areia contaminados, e não no contato direto com fezes recém-eliminadas. Praças, parquinhos e caixas de areia acessíveis a cães e gatos funcionam como reservatório por anos.

Cadeia de transmissão

Filhote → solo/areia → mão-boca

Fezes de animais não vermifugados contaminam o solo; ovos embrionados chegam à boca pelas mãos, pela geofagia ou por alimentos.

Via alimentar

Larvas encistadas em tecidos de hospedeiros paratênicos (fígado de galinha, carne de coelho ou bovina crua) também transmitem — explicação para casos em adultos sem geofagia.

Quem tem mais risco

O risco é dado pela exposição a solo contaminado e por hábitos que levam terra à boca. Condições socioeconômicas precárias, ausência de vermifugação animal e áreas de lazer sem controle de animais concentram a infecção.

  • Crianças pequenas com geofagia, pica ou onicofagia que brincam em parques e caixas de areia.
  • Convívio com filhotes de cão ou gato não vermifugados.
  • Baixa renda e saneamento precário, zona rural e periferias urbanas.
  • Ocupacional: veterinários, tratadores de canil e trabalhadores com solo.
  • Consumo de vísceras ou carne crua de galinha, coelho ou bovino.

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O essencial de quadro clínico

  1. Forma comum/oculta: sintomas vagos (dor abdominal, tosse, urticária, cefaleia) com eosinofilia leve a moderada.
  2. Visceral: febre, hepatomegalia, sibilância e hipereosinofilia — típica de criança pequena.
  3. Ocular: unilateral, olho calmo, baixa visual, estrabismo ou leucocoria; eosinofilia geralmente ausente.
  4. Neurotoxocaríase: mielite, encefalite ou meningite eosinofílica — rara, mas com sequelas frequentes.

As quatro apresentações

A apresentação depende da carga de ovos ingerida, do órgão atingido e da intensidade da resposta imune. Cargas altas tendem a dar doença visceral sistêmica; cargas baixas permitem que poucas larvas cheguem ao olho sem provocar resposta sistêmica — por isso a forma ocular costuma vir sem eosinofilia.

FormaQuem e comoLaboratório
Comum / oculta (covert)Crianças e adultos; dor abdominal recorrente, tosse, sibilância, urticária crônica, cefaleia, distúrbio do sono, hepatomegalia isolada.Eosinofilia em parte dos casos (50–75%), em geral discreta; IgE pode estar elevada.
Larva migrans visceralCriança de 2–7 anos com geofagia; febre, hepatomegalia, tosse/sibilância, anorexia, dor abdominal.Hipereosinofilia (frequentemente >2.000/mm³), leucocitose, hipergamaglobulinemia, IgE alta.
OcularCrianças maiores e adultos jovens; unilateral; baixa visual, estrabismo, leucocoria.Eosinofilia e sorologia sérica frequentemente ausentes ou baixas.
NeurotoxocaríaseMais em adultos; mielite, encefalite, meningite, vasculite, radiculite; convulsões.Pleocitose eosinofílica e anticorpos no líquor.

Larva migrans visceral

É a forma clássica descrita por Beaver em 1952: criança pequena com hepatomegalia e eosinofilia acentuada. Os sintomas acompanham a migração hepática e pulmonar e costumam regredir em semanas a meses, mas a eosinofilia pode persistir por muito tempo. Para a abordagem sindrômica de outras causas de larva migrans visceral, veja o artigo específico.

Achado característico

Lesões hepáticas

Múltiplas lesões hipoecoicas/hipoatenuantes mal definidas, que mudam de posição em exames seriados (migração).

Achado característico

Pulmão

Sibilância, tosse e infiltrados migratórios; pode simular asma de difícil controle.

Toxocaríase ocular

Geralmente unilateral, em olho pouco inflamado externamente. A criança chega por baixa visual, estrabismo ou leucocoria notada pela família. Na série do CDC (Woodhall, 2012), a maioria dos pacientes tinha perda visual, frequentemente permanente — daí a urgência de encaminhar ao oftalmologista e de excluir retinoblastoma.

Sinal característico

Granuloma de polo posterior

Massa branco-acinzentada elevada, muitas vezes macular; maior impacto visual.

Sinal característico

Granuloma periférico

Massa na periferia com prega/tração retiniana em direção ao disco óptico.

Sinal de alarme

Leucocoria / endoftalmite

Endoftalmite crônica com reflexo branco — diferencial com retinoblastoma.

Neurotoxocaríase

Rara, mas provavelmente subdiagnosticada. Na revisão sistemática de Deshayes (2016), com 100 casos, predominaram mielite (60%), encefalite (47%) e meningite (29%), isoladas ou combinadas, com mediana de 42 anos. A mortalidade foi baixa (6%), mas só 40% tiveram remissão completa.

Achado característico

Mielite ou lesões encefálicas com realce

RM com lesões em T2/FLAIR e realce pelo gadolínio, em medula ou encéfalo; o líquor mostra pleocitose com eosinófilos.

  • Anticorpos anti-Toxocara no sangue em 99% e no líquor em 93% dos casos da revisão.
  • Pense em mielite com eosinófilos no líquor + epidemiologia compatível.

Complicações e sinais de gravidade

A maior parte das formas viscerais é autolimitada. A gravidade aparece quando a inflamação eosinofílica atinge órgãos vitais — coração, pulmão e sistema nervoso — e essas situações pedem internação, corticoide e anti-helmíntico.

  • Cardíaco: miocardite eosinofílica, pericardite, derrame com tamponamento, disfunção ventricular.
  • Respiratório: pneumonite eosinofílica grave, broncoespasmo refratário, derrame pleural, insuficiência respiratória.
  • Neurológico: convulsões, déficit focal, mielite, meningoencefalite.
  • Ocular: qualquer baixa visual ou leucocoria — urgência oftalmológica.

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O essencial de diagnóstico

  1. Diagnóstico é presuntivo: clínica compatível + epidemiologia + eosinofilia + sorologia (ELISA-TES).
  2. Western blot (bandas de baixo peso molecular, 24–35 kDa) aumenta a especificidade.
  3. Ocular: fundoscopia é o exame-chave; sorologia sérica pode ser negativa — pesquisar anticorpos no humor aquoso/vítreo.
  4. Exame de fezes não diagnostica toxocaríase humana.

O que solicitar, e em que ordem

Como a larva quase nunca é demonstrada, o diagnóstico é construído pela soma de evidências. Comece pelo hemograma e pela sorologia; a imagem e os exames dirigidos dependem do órgão envolvido. Biópsia raramente é necessária e pode não encontrar a larva.

  1. Hemograma

    Eosinofilia absoluta; na visceral, frequentemente acentuada. Ausência não exclui a forma ocular.

  2. Sorologia

    ELISA com antígeno TES; confirmar por Western blot quando disponível.

  3. Marcadores de atividade

    IgE total (IgE >500 UI/mL sugere infecção recente — não é critério para tratar).

  4. Imagem dirigida

    US/TC de abdome, radiografia/TC de tórax, ecocardiograma, RM de encéfalo/medula conforme sintomas.

  5. Olho e líquor

    Fundoscopia sob midríase em toda suspeita; punção lombar na suspeita neurológica.

Métodos diagnósticos

Nenhum exame isolado prova doença ativa. A sorologia mostra contato com o parasita e permanece positiva por anos; a eosinofilia e a IgE ajudam a estimar atividade; a imagem e a oftalmoscopia localizam a lesão.

MétodoUtilidadeLimitação / interpretação
ELISA-TES (IgG)Exame recomendado pelo CDC; sensibilidade ~78% na visceral, especificidade ~92% (título ≥1:32).Não distingue infecção passada de ativa; reação cruzada (ex.: Ascaris); sensibilidade ~45% na ocular.
Western blotConfirma ELISA positivo (bandas de 24–35 kDa).Disponibilidade limitada no SUS.
Sorologia pareadaElevação significativa do título sustenta infecção ativa.Demora; pouco usada na prática.
Eosinofilia / IgE totalApoiam atividade; queda ajuda no seguimento.Inespecíficas; ausentes com frequência na ocular.
Humor aquoso / vítreoAnticorpos intraoculares (coeficiente de Goldmann-Witmer) quando a sorologia sérica é negativa.Procedimento invasivo, decidido pelo oftalmologista.
LíquorPleocitose eosinofílica; anticorpos no líquor.Diferenciar de angiostrongilíase, neurocisticercose, outras.
BiópsiaGranuloma eosinofílico; larva raramente vista.Invasiva e pouco sensível; reservada a dúvida diagnóstica relevante.

Como bater o martelo

A pergunta prática não é “tem anticorpo?”, mas “a clínica atual é explicada por Toxocara?”. Em população com alta soroprevalência, uma sorologia positiva em paciente com outra causa provável de eosinofilia pode ser só cicatriz de exposição antiga.

Doença provável

  • Quadro compatível + eosinofilia + ELISA-TES positivo (± Western blot).
  • Lesão ocular típica, mesmo com sorologia sérica negativa.
  • Pleocitose eosinofílica com anticorpos no líquor.

Só exposição

  • Sorologia positiva em assintomático sem eosinofilia.
  • Eosinofilia com outra causa demonstrada (estrongiloidíase, esquistossomose…).

Diagnósticos diferenciais

Na visceral, o diferencial é o de toda eosinofilia com hepatomegalia: outras helmintíases, doenças alérgicas e, raramente, neoplasias hematológicas. Na ocular, o diferencial que não pode ser perdido é o retinoblastoma.

DiferencialPor que confundeO que ajuda a separar
RetinoblastomaLeucocoria e massa retiniana em criança.Calcificações na US/TC, idade menor; encaminhamento urgente ao oftalmologista.
Toxoplasmose ocularRetinocoroidite com lesão granulomatosa.Foco ativo com vitreíte e cicatriz pigmentada satélite; sorologia para toxoplasma.
EstrongiloidíaseEosinofilia, sintomas pulmonares e GI.Larvas nas fezes (Baermann/ágar), sorologia específica; importa excluir antes de corticoide.
Esquistossomose / ascaridíaseEosinofilia e hepatomegalia ou síndrome de Löffler.Ovos nas fezes; epidemiologia de água doce; ELISA-TES pode cruzar com Ascaris.
Asma / aspergilose broncopulmonar alérgicaSibilância, eosinofilia, IgE alta.Sensibilização a Aspergillus, bronquiectasias centrais; sorologia para Toxocara.
Hepatites virais, hidatidose, abscesso hepáticoHepatomegalia e lesões hepáticas.Eosinofilia acentuada e lesões migratórias favorecem toxocaríase.
Leucemia / síndrome hipereosinofílicaEosinofilia persistente e muito alta.Esfregaço, citopenias, investigação hematológica se não houver resposta.

O diferencial sindrômico completo de eosinofilia com migração larvar está no artigo “Larva migrans visceral”.

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O essencial de tratamento

  1. Assintomático soropositivo (com ou sem IgE alta): não tratar.
  2. Visceral sintomática: albendazol 400 mg VO 12/12 h por 5 dias (adulto e criança — CDC).
  3. Ocular ativa: corticoide (sistêmico e/ou periocular) + albendazol por 2–4 semanas; cirurgia nas sequelas.
  4. Formas graves e SNC: internar, corticoide + albendazol prolongado; excluir estrongiloidíase antes de corticoide em dose alta.

Princípios do tratamento

Não há ensaio clínico grande que defina o melhor esquema, e o próprio CDC afirma que a duração ideal do albendazol é indefinida. O que existe é consenso de que o albendazol é o anti-helmíntico de escolha (boa disponibilidade e tolerância) e de que, no olho e no sistema nervoso, o dano vem da inflamação — controlá-la é prioridade.

A decisão de tratar depende de sintomas e órgão acometido. Sorologia positiva isolada ou IgE total alta (por exemplo, >500 UI/mL) indicam exposição ou infecção recente, mas não são critério de tratamento.

Antes de corticoide em dose alta

No Brasil, quem se expôs a solo para Toxocara também pode ter Strongyloides. Em corticoterapia prolongada ou em dose alta, investigue ou trate empiricamente a estrongiloidíase com ivermectina conforme o artigo específico.

Rotas de tratamento

Cada rota é um cenário clínico. Abra só a rota em que o seu paciente está: a tabela mostra dose, frequência e duração de cada esquema, e o nome de cada medicamento abre a ficha completa. Opções do mesmo grupo são alternativas — escolha uma.

Monitorização durante o tratamento

Cursos de 5 dias raramente causam toxicidade relevante. Em cursos prolongados (ocular e SNC), o CDC recomenda hemograma seriado, e as transaminases devem ser acompanhadas; corticoide prolongado exige atenção a glicemia, pressão arterial, pressão intraocular e crescimento na criança.

  • Albendazol >2 semanas: hemograma e transaminases no início e a cada 2 semanas.
  • Corticoide periocular/sistêmico: pressão intraocular e catarata no seguimento oftalmológico.
  • Eosinófilos: podem subir transitoriamente após o anti-helmíntico; a queda é gradual ao longo de semanas a meses.

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O essencial de cenários especiais

  1. Leucocoria em criança: retinoblastoma até prova em contrário — encaminhar com urgência.
  2. Asma de difícil controle com eosinofilia e contato com solo: lembrar toxocaríase.
  3. Imunossuprimidos: considerar tratar mesmo formas pouco sintomáticas.
  4. Corticoide em dose alta: avaliar estrongiloidíase antes.

O que muda em cada cenário

Os cenários especiais da toxocaríase giram em torno de dois riscos: perder um diagnóstico grave que imita a doença (retinoblastoma, neoplasia hematológica) e usar corticoide sem considerar outra helmintíase capaz de disseminar.

CenárioParticularidadeO que fazer diferente
Criança com leucocoria ou estrabismoRetinoblastoma e toxocaríase ocular se confundem.Encaminhamento oftalmológico urgente; US ocular/RM; não atribuir à toxocaríase sem exame especializado.
Asma ou sibilância recorrenteAssociação descrita entre soropositividade e asma em crianças.Eosinofilia + exposição: sorologia; tratar se forma comum sintomática (Rota 1).
ImunossupressãoPoucos dados; possível maior gravidade.Considerar tratamento mesmo em forma pouco sintomática.
Corticoide em dose alta (ocular, SNC, miocardite)Strongyloides pode coexistir e disseminar.Triagem ou empírica conforme artigo de estrongiloidíase.
Eosinofilia persistente após tratamentoQueda lenta é esperada.Reavaliar em 3–6 meses; se persistir alta ou subir, investigar outra causa (inclusive hematológica).
GestaçãoBenzimidazóis evitados no 1º trimestre.Adiar formas leves; corticoide para inflamação ocular grave (Rota 7).
Adulto com mielite eosinofílicaNeurotoxocaríase é mais comum em adultos.Anticorpos no líquor; albendazol ≥3 semanas + corticoide (Rota 5).

Toxocaríase e asma

Diversos estudos, inclusive brasileiros, encontraram maior soroprevalência de Toxocara em crianças asmáticas, possivelmente pela resposta Th2 induzida pela migração pulmonar. A associação não prova causalidade, mas justifica pesquisar a infecção em criança com sibilância recorrente, eosinofilia e exposição a solo.

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O essencial de seguimento e prevenção

  1. Seguimento é clínico e pela eosinofilia; a sorologia permanece positiva por anos.
  2. Queda da IgE específica/total, quando alta antes, sustenta resposta.
  3. Forma ocular: seguimento oftalmológico prolongado (recidiva, tração, glaucoma, catarata).
  4. Prevenção = vermifugar filhotes cedo + recolher fezes + proteger areia + higiene das mãos.

Como acompanhar

Não há teste de cura. A resposta é julgada pela melhora clínica e pela queda dos eosinófilos, que costuma levar semanas a meses. A sorologia não serve para controle: os anticorpos persistem por anos e não distinguem infecção antiga de reativação.

Na forma ocular, o seguimento é do oftalmologista e prolongado, pela chance de recidiva inflamatória e de complicações tardias (descolamento tracional, catarata e glaucoma — inclusive pelo próprio corticoide).

1–3 mesesHemograma de controle após tratamento
3–6 mesesJanela para resolução clínica esperada

Prevenção — Saúde Única

A prevenção é a principal forma de controle e atua em três pontos: o animal que elimina ovos, o ambiente que os mantém infectantes e o comportamento que os leva à boca. O médico tem papel direto ao orientar famílias com filhotes e crianças pequenas.

Animal

Filhotes de cão: vermífugo com 2, 4, 6 e 8 semanas; filhotes de gato: 3, 5, 7 e 9 semanas; depois controle mensal e exame de fezes periódico (CAPC). Tratar a cadela/gata lactante.

Ambiente

Recolher fezes diariamente (antes do embrionamento), cobrir caixas de areia, restringir acesso de animais a parquinhos.

Pessoa

Lavar as mãos após contato com terra e animais, lavar vegetais, evitar carne/vísceras cruas, corrigir geofagia e pica.

Vigilância e notificação no Brasil

A toxocaríase não consta na Lista Nacional de Notificação Compulsória vigente (Portaria GM/MS nº 11.211/2026). Casos agregados em creches, escolas ou áreas de lazer merecem comunicação à vigilância local e à vigilância de zoonoses para ação ambiental.

Erros comuns

Os erros mais frequentes vêm de tratar a sorologia em vez do paciente e de subestimar o olho. Em país de alta soroprevalência, isso leva tanto a tratar quem não precisa quanto a atrasar o encaminhamento de quem pode perder a visão.

ErroPor que é um problemaComo evitar
Tratar sorologia positiva em assintomáticoSorologia reflete exposição; curso autolimitado.Tratar conforme forma clínica (Rota 1).
Usar “IgE >500” como indicação de tratamentoIgE total é inespecífica e sugere apenas infecção recente.Decidir por sintomas e órgão acometido.
Pedir parasitológico de fezesNo ser humano não há verme adulto nem ovos.ELISA-TES + eosinofilia + clínica.
Descartar ocular por sorologia negativaSensibilidade sérica ~45% na forma ocular.Fundoscopia; anticorpos intraoculares se necessário.
Albendazol sem corticoide na inflamação ocularA morte larval pode piorar a inflamação.Corticoide junto, com seguimento oftalmológico.
Usar ivermectina para toxocaríaseEficácia fraca.Albendazol (ou mebendazol).

Referências principais

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    Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 11.211, de 13 de maio de 2026. Lista Nacional de Notificação Compulsória vigente.

Aviso importante

Material educacional de apoio à decisão clínica. Não substitui avaliação individualizada, protocolos institucionais, serviço de referência, infectologia, pediatria/obstetrícia nem consulta às bulas. Na toxocaríase não há esquema validado em ensaio clínico grande: duração do albendazol nas formas ocular e neurológica, dose de corticoide e indicação de cirurgia devem ser individualizadas com oftalmologia, neurologia e infectologia.

Conteúdo para educação médica. Condutas devem ser individualizadas e conferidas com protocolos oficiais, contexto epidemiológico e disponibilidade local.
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