MedFoco

Guia de Zoonoses • Parasitas

Leishmaniose visceral

Leishmania (Leishmania) infantum (sin. L. chagasi) — protozoário intracelular de macrófagos transmitido por flebotomíneos

O calazar é uma doença sistêmica crônica, letal na grande maioria dos casos sem tratamento: febre prolongada, hepatoesplenomegalia, pancitopenia e emagrecimento em quem vive ou esteve em área de transmissão. O cão é o principal reservatório urbano. A anfotericina B lipossomal é a base do tratamento atual, e quem mata são as complicações — infecção bacteriana e sangramento.

FlebotomíneoCão como reservatórioAnfotericina B lipossomalCoinfecção HIV
24–28 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Doença sistêmica crônica causada por Leishmania infantum, que parasita macrófagos de baço, fígado e medula óssea.
  2. Sem tratamento, é fatal na grande maioria dos casos; com tratamento, a letalidade ainda é relevante no Brasil.
  3. Só uma parcela dos infectados adoece: crianças, idosos, desnutridos e imunossuprimidos (sobretudo HIV) concentram os casos.
  4. Morre-se mais das complicações (infecção bacteriana, sangramento) do que do parasita em si.

O que é leishmaniose visceral

A leishmaniose visceral (LV), ou calazar, é uma antropozoonose transmitida pela picada da fêmea de flebotomíneos infectados. Diferentemente da forma tegumentar, o parasita não fica na pele: dissemina-se para o sistema fagocítico-mononuclear e produz uma doença sistêmica, com febre de longa duração, hepatoesplenomegalia, pancitopenia e consumo progressivo.

É uma doença crônica com evolução de semanas a meses, mas o desfecho costuma ser decidido por eventos agudos: infecções bacterianas favorecidas pela neutropenia e hemorragias pela plaquetopenia. É por isso que o MS publicou recomendações específicas “para redução da letalidade”, centradas em reconhecer cedo quem vai complicar.

Febre + esplenomegalia em quem mora ou esteve em área de transmissão é calazar até prova em contrário — notifique, investigue e trate cedo.

O agente

Nas Américas, a LV é causada por Leishmania (Leishmania) infantum, também chamada L. chagasi na literatura brasileira — a mesma espécie da bacia do Mediterrâneo. Na Índia e na África Oriental, o agente é L. donovani, e muitos dados de tratamento vêm desses cenários; essa diferença de espécie importa ao extrapolar esquemas.

Agente etiológico

Leishmania infantum

Protozoário digenético da família Trypanosomatidae, intracelular obrigatório no hospedeiro vertebrado.

  • No vertebrado vive como amastigota dentro de macrófagos.
  • No intestino do vetor transforma-se em promastigota flagelada.
  • Tropismo visceral: baço, fígado, medula óssea e linfonodos.

Formas do parasita e o vetor

No paciente

Amastigota

Forma ovalada, sem flagelo livre, com núcleo e cinetoplasto; é o que se vê no mielograma.

No vetor / cultura

Promastigota

Forma alongada e flagelada; a metacíclica é a forma infectante inoculada na pele.

Vetor

Lutzomyia longipalpis

Mosquito-palha, birigui ou tatuquira: pequeno, cor de palha, hematófago ao entardecer e à noite.

Ciclo e fisiopatologia

O ciclo alterna entre o flebotomíneo e um mamífero. A doença humana nasce de um desequilíbrio imunológico: quando a resposta celular do tipo Th1 não contém o parasita, os macrófagos infectados se multiplicam no baço, no fígado e na medula, e a resposta humoral exuberante — sem valor protetor — explica a hipergamaglobulinemia.

Ciclo biológico

Vetor → macrófago → sistema fagocítico-mononuclear

Do repasto do flebotomíneo à infiltração de baço, fígado e medula — origem da hepatoesplenomegalia e da pancitopenia.

  1. Inoculação

    A fêmea infectada inocula promastigotas metacíclicas na pele durante o repasto.

  2. Fagocitose

    Macrófagos fagocitam o parasita, que se converte em amastigota e se multiplica.

  3. Visceralização

    Disseminação para baço, fígado, medula óssea e linfonodos: hiperplasia do sistema fagocítico-mononuclear.

  4. Doença

    Hiperesplenismo e infiltração medular → pancitopenia; ativação policlonal → hipergamaglobulinemia; consumo → caquexia.

  5. Fechamento do ciclo

    O vetor se infecta ao picar um hospedeiro com parasitas na pele — no meio urbano, principalmente o cão.

Epidemiologia

O Brasil concentra a grande maioria dos casos de LV das Américas. A doença, antes rural e nordestina, urbanizou-se e hoje ocorre em todas as regiões, inclusive em capitais, acompanhando a adaptação do vetor ao peridomicílio e a presença do cão infectado.

A suscetibilidade é universal, mas crianças e idosos são mais acometidos, e a infecção sem doença é muito mais frequente que o calazar. A infecção não confere imunidade definitiva, e o paciente tratado pode recidivar, sobretudo se imunossuprimido.

10 dias–24 mesesIncubação (média de 2 a 6 meses)
>90%Letalidade sem tratamento
3–7 mesesIncubação média no cão

Em 30 segundos

O essencial de transmissão e risco

  1. Transmissão vetorial pela picada da fêmea de flebotomíneo infectada — sobretudo Lutzomyia longipalpis.
  2. Não há transmissão de pessoa a pessoa pelo contato.
  3. No meio urbano, o cão é a principal fonte de infecção; no silvestre, raposas e marsupiais.
  4. Adoecem mais crianças, idosos, desnutridos e imunossuprimidos — HIV em destaque.

Como ocorre a transmissão

A transmissão depende de três elos: um reservatório com parasitas na pele, um vetor competente e o ser humano exposto no horário de atividade do inseto. Lu. longipalpis é o principal vetor no Brasil; Lu. cruzi tem papel secundário em áreas do Centro-Oeste, e Migonemyia migonei pode participar onde as outras espécies faltam.

Ciclo de transmissão

Cão → flebotomíneo → ser humano

O vetor tem atividade crepuscular e noturna; de dia repousa em locais sombreados e úmidos, perto de abrigos de animais e de matéria orgânica.

  • Vetorial: a via que sustenta a endemia.
  • Vias raras descritas: transfusão, compartilhamento de seringas e transmissão congênita.
  • Não ocorre: transmissão por contato com o paciente ou diretamente pelo cão (sem o vetor).

Reservatórios

O cão doméstico é a principal fonte de infecção no ambiente urbano e costuma preceder os casos humanos: a enzootia canina anuncia a doença na cidade. Cães infectados, inclusive assintomáticos, podem ter parasitas na pele e infectar o vetor. No ambiente silvestre, raposas (Lycalopex vetulus, Cerdocyon thous) e marsupiais (Didelphis albiventris) mantêm o ciclo.

Reservatório urbano

Leishmaniose visceral canina

Emagrecimento, alopecia e descamação em orelhas e focinho, lesões perioculares, onicogrifose e esplenomegalia. Muitos cães infectados são assintomáticos.

O controle do reservatório canino (coleira com deltametrina, eutanásia, tratamento veterinário) está detalhado na aba Seguimento e prevenção.

Quem adoece e quem tem pior evolução

Infectar-se é comum em área endêmica; adoecer é a exceção e depende da imunidade celular. Os grupos abaixo concentram tanto os casos quanto os óbitos, e alguns deles entram diretamente nos critérios para anfotericina B lipossomal.

  • Crianças, especialmente <1 ano, e idosos (risco de óbito maior a partir dos 40 anos).
  • Desnutrição — causa e consequência do calazar.
  • HIV/aids e outras imunossupressões (transplante, imunossupressores, neoplasias): mais recidiva e mais letalidade.
  • Comorbidades renais, hepáticas e cardíacas, que também limitam o arsenal terapêutico.

Em 30 segundos

O essencial de quadro clínico

  1. A maioria das infecções é assintomática ou oligossintomática e não deve ser tratada.
  2. Forma clássica: febre prolongada, esplenomegalia volumosa, hepatomegalia, palidez e emagrecimento.
  3. Laboratório típico: pancitopenia, hipergamaglobulinemia e inversão albumina/globulina.
  4. Hemorragia digestiva, icterícia e infecção bacteriana são marcadores de gravidade.

Do período inicial ao final

A doença costuma ser descrita em três períodos, que correspondem à carga parasitária crescente e ao consumo do paciente. Reconhecer o período ajuda a estimar o risco: quem já chega no período final tem edema, sangramento e infecções, e é ele que morre.

  1. Inicial

    Febre (geralmente <4 semanas), palidez, hepatoesplenomegalia discreta; pode lembrar quadro infeccioso inespecífico.

  2. De estado

    Febre irregular prolongada, emagrecimento, esplenomegalia volumosa e hepatomegalia, pancitopenia.

  3. Final

    Desnutrição, edema, ascite, icterícia, sangramentos e infecções bacterianas.

Formas oligossintomáticas (febre baixa, adinamia, discreta hepatomegalia) podem regredir espontaneamente. Sorologia positiva sem doença não é notificada nem tratada.

Sinais característicos

Nenhum achado é exclusivo, mas o conjunto é muito sugestivo. O baço grande indolor em criança febril e emagrecida é a imagem clássica; o hemograma com as três séries baixas e as proteínas com globulinas muito elevadas completam o quadro.

Achado característico

Esplenomegalia volumosa

Baço endurecido e indolor, que pode alcançar a fossa ilíaca; a regressão com o tratamento é um critério de resposta.

Período final

Caquexia com ascite

Membros emagrecidos, abdome volumoso, edema e cabelos quebradiços.

Sinal de gravidade

Fenômenos hemorrágicos

Epistaxe e gengivorragia são os mais comuns; hemorragia digestiva indica gravidade.

Laboratório

Pancitopenia + hipergama

Anemia, leucopenia com neutropenia, plaquetopenia; globulinas altas e albumina baixa.

Complicações

O paciente com LV é caracteristicamente neutropênico e tem plaquetas baixas, e a própria doença dá febre — o que esconde a infecção bacteriana. As complicações abaixo são as que mais pesam no prognóstico e as que o tratamento de suporte precisa antecipar.

ComplicaçãoComo se apresentaO que fazer
Infecção bacterianaOtite média, piodermites, infecção urinária e respiratória; sepse com evolução fatal se não tratada.Culturas e antibiótico empírico precoce (ver Rota 6 do Tratamento).
HemorragiaEpistaxe, gengivorragia, petéquias; hemorragia digestiva = gravidade.Hemoderivados por critério; plasma se atividade de protrombina baixa.
Desnutrição e edemaHipoalbuminemia, ascite, edema generalizado.Suporte nutricional precoce, preferencialmente enteral.
Disfunção hepática e renalIcterícia, elevação de transaminases e de creatinina.Pesam no escore e na escolha do fármaco.
Toxemia / sepseMá perfusão, alteração de consciência, taquicardia, taquipneia, hipotensão, oligúria, coagulopatia.Diagnóstico presuntivo de sepse: antibiótico empírico imediato.

Fatores associados ao óbito

O manual do MS para redução da letalidade lista os fatores que, isoladamente, se associam ao óbito. Como muitos pacientes têm pelo menos um deles, um fator sozinho não define gravidade — por isso foram criados os escores ponderados (aba Diagnóstico).

  • Idade: <1 ano ou >40 anos.
  • Clínicos: infecção bacteriana, recidiva, diarreia ou vômitos, edema, febre há mais de 60 dias, icterícia, fenômenos hemorrágicos, toxemia, desnutrição grave, comorbidades.
  • Laboratoriais: leucócitos <1.000 ou >7.000/mm³, neutrófilos ≤500/mm³, plaquetas <50.000/mm³, Hb ≤7 g/dL, creatinina e bilirrubina elevadas, atividade de protrombina <70%, ALT/AST >5× o limite, albumina <2,5 g/dL.

Em 30 segundos

O essencial de diagnóstico

  1. Caso suspeito: febre + esplenomegalia com procedência de área de transmissão.
  2. Confirmação: parasito no exame direto ou cultura, teste rápido reagente ou RIFI ≥1:80.
  3. Ofereça teste para HIV a todo paciente com LV.
  4. Calcule o escore de gravidade do MS: ele define internação e anfotericina lipossomal.

Como bater o martelo

A definição de caso do MS é operacional e serve tanto para notificar quanto para tratar. Na falta de confirmação laboratorial, a resposta favorável ao tratamento em paciente de área endêmica também fecha o caso (critério clínico-epidemiológico).

Caso suspeito

  • Febre e esplenomegalia + procedência de área com transmissão.
  • Ou febre e esplenomegalia em área sem transmissão, descartados os diferenciais mais frequentes.

Caso confirmado

  • Parasito no exame parasitológico direto ou em cultura.
  • Teste imunocromatográfico (rK39) reagente.
  • RIFI ≥1:80, excluídos outros diagnósticos.
  • Clínico-epidemiológico: resposta favorável ao tratamento.

Métodos diagnósticos

A sorologia é rápida e acessível; o parasitológico é o padrão-ouro. A intradermorreação de Montenegro não tem papel no diagnóstico da LV ativa: depende de imunidade celular e costuma ser negativa na doença.

MétodoUtilidadeLimitação / interpretação
Teste rápido (rK39)Reagente confirma o caso sem outro exame.Anticorpos persistem após a cura; menor sensibilidade no HIV.
RIFIPositiva a partir de 1:80.1:40 com clínica sugestiva → nova amostra em 30 dias. Reação cruzada (ex.: doença de Chagas).
ELISAUsado na rede privada.Não disponível na rede pública.
Aspirado de medula ósseaPadrão-ouro: amastigotas em esfregaço; permite cultura.Procedimento mais seguro que a punção esplênica; resultado depende da leitura.
Punção esplênica / linfonodoAlta positividade (baço).Baço só em ambiente hospitalar e condições cirúrgicas, pelo risco de sangramento.
PCR (sangue ou medula)Alta sensibilidade; útil no HIV, em que a sorologia falha.Disponibilidade limitada; não padronizada para todos os serviços.

Exames gerais e antes de tratar

Os exames gerais servem a três objetivos: apoiar o diagnóstico, calcular o escore de gravidade e escolher o fármaco com segurança. O MS recomenda oferecer teste para HIV a todos os pacientes, porque a LV pode ser doença oportunista e a coinfecção muda o tratamento e o seguimento.

  • Hemograma com plaquetas e VHS.
  • Função renal e hepática: ureia, creatinina, ALT, AST, bilirrubinas, fosfatase alcalina.
  • Proteínas: albumina e globulinas; atividade de protrombina.
  • Amilase (e lipase se for usar antimonial); potássio e magnésio se anfotericina.
  • ECG antes de antimonial (QTc, arritmias).
  • Teste para HIV em todos; culturas e radiografia de tórax se suspeita de infecção.

Escore de gravidade do MS

Construído e validado em Teresina (PI), o escore soma pesos de variáveis clínicas (modelo clínico) ou clínicas e laboratoriais (modelo clínico-laboratorial). Há um modelo para quem tem mais de 2 anos e outro para crianças com 2 anos ou menos. Escore clínico ≥4 ou clínico-laboratorial ≥6 identifica risco aumentado de óbito: tratar em hospital, com anfotericina B lipossomal.

Variável (>2 anos)Peso — modelo clínicoPeso — clínico-laboratorial
Idade 2–20 anos00
Idade 20–40 anos11
Idade >40 anos22
Sangramento em 1–2 sítios11
Sangramento em 3–4 sítios22
Sangramento em 5–6 sítios33
Aids23
Edema11
Icterícia11
Dispneia11
Infecção bacteriana11
Leucócitos <1.500/mm³—2
Plaquetas <50.000/mm³—3
Insuficiência renal¹—3
Pontuação máxima1120

¹ Taxa de filtração glomerular <60 mL/min/m² ou creatinina acima do limite superior para a idade. Fonte: MS, Leishmaniose visceral: recomendações clínicas para redução da letalidade (2011), Tabela 2.

Variável (≤2 anos)Peso — modelo clínicoPeso — clínico-laboratorial
Idade <12 meses11
Idade >12 meses00
Sangramento em 1–2 sítios11
Sangramento em 3–4 sítios22
Sangramento em 5–6 sítios44
Edema12
Icterícia1—
Dispneia11
AST ou ALT >100 U/L—3
Pontuação máxima811

Fonte: MS (2011), Tabela 3. Os pontos de corte (≥4 clínico; ≥6 clínico-laboratorial) valem para os dois modelos.

Diagnósticos diferenciais

Febre prolongada com hepatoesplenomegalia tem lista longa, e a epidemiologia ajuda a ordená-la. Em área endêmica, a sorologia rápida e o mielograma costumam resolver; o mielograma ainda tem a vantagem de avaliar leucemia e outras doenças hematológicas no mesmo procedimento.

DiferencialPor que confundeO que ajuda a separar
Esquistossomose hepatoesplênicaEsplenomegalia volumosa, citopenias por hiperesplenismo.Febre ausente ou discreta, hipertensão portal, ovos nas fezes/biópsia retal, US com fibrose periportal.
MaláriaFebre, anemia, esplenomegalia, plaquetopenia.Procedência amazônica, febre paroxística, gota espessa/teste rápido.
Doença de Chagas agudaFebre, hepatoesplenomegalia; pode cruzar na RIFI.Tripomastigotas no sangue, epidemiologia (via oral, vetorial).
Enterobacteriose septicêmica prolongada / febre tifoideFebre prolongada com esplenomegalia.Hemoculturas, coexistência com esquistossomose.
Leucemias e linfomasFebre, citopenias, visceromegalias, emagrecimento.Mielograma/biópsia de medula, imunofenotipagem.
Histoplasmose disseminada, tuberculose miliarFebre, hepatoesplenomegalia, pancitopenia — sobretudo no HIV.Culturas, antígeno, biópsia de medula com colorações específicas.
Brucelose, mononucleose, anemia falciformeFebre/esplenomegalia ou citopenias.Epidemiologia e testes específicos.

No HIV, mais de uma infecção oportunista pode coexistir: um diagnóstico não exclui o outro.

Em 30 segundos

O essencial de tratamento

  1. Anfotericina B lipossomal: 3 mg/kg/dia por 7 dias ou 4 mg/kg/dia por 5 dias, EV, 1x/dia.
  2. Escore clínico ≥4 ou clínico-laboratorial ≥6, <1 ano, >50 anos, gestação, HIV e disfunção orgânica → lipossomal, sempre.
  3. Antimoniato 20 mg Sb⁵⁺/kg/dia por 20–40 dias só quando disponível e sem contraindicação; desoxicolato é alternativa mais tóxica.
  4. Suporte desde o dia 1: antibiótico empírico quando indicado, hemoderivados por critério e nutrição enteral precoce.

Princípios e cenário regulatório (2026)

Os documentos do MS ainda em vigor (Guia de Vigilância em Saúde, 6ª ed. rev., 2024) colocam o antimoniato de meglumina como primeira escolha e reservam a anfotericina B lipossomal (L-AmB) para critérios definidos. Esse cenário mudou: o registro do Glucantime® foi cancelado pela Anvisa em janeiro de 2025, a pedido do fabricante, e em 2 de julho de 2026 o MS incorporou ao SUS as formulações lipídicas de anfotericina B para a LV em geral (Portaria SECTICS/MS nº 37/2026) e a L-AmB associada à miltefosina para imunocomprometidos (Portaria SECTICS/MS nº 36/2026). O PCDT da LV está em elaboração e a oferta tem prazo de até 180 dias.

Na prática, a L-AmB — já recomendada como primeira escolha pela OPAS (2022) para crianças, adultos e imunocomprometidos — é o eixo das rotas abaixo. Confirme sempre o fluxo de solicitação vigente no seu estado (ficha de solicitação ao MS) e a disponibilidade de cada fármaco.

  • Trate a doença, não a sorologia: infectado assintomático não recebe leishmanicida.
  • Escore antes de prescrever: ele define o local do tratamento e o fármaco.
  • Suporte é tratamento: a letalidade cai com antibiótico, transfusão e nutrição oportunos.

Qual rota seguir?

Some os pontos nas tabelas do escore (aba Diagnóstico) e responda às perguntas. A ferramenta reproduz os critérios do MS para anfotericina B lipossomal e aponta a rota correspondente.

Critérios do MS para anfotericina B lipossomal

Baseada na lista de indicações do Guia de Vigilância em Saúde (2024) e na ficha de solicitação de L-AmB do MS.

Selecione escore, idade e condição associada.

Ferramenta educativa. O escore deve ser recalculado se o paciente piorar; a decisão final considera disponibilidade, fluxo estadual e avaliação clínica.

Rotas de tratamento

Cada rota é um cenário clínico. Abra só a rota em que o seu paciente está: a tabela mostra dose, frequência e duração de cada esquema, e o nome de cada medicamento abre a ficha completa. Opções do mesmo grupo são alternativas — escolha uma.

Monitoramento durante o tratamento

Cada leishmanicida tem sua toxicidade previsível. A anfotericina exige vigilância de rim e eletrólitos; o antimonial, de coração, pâncreas e fígado. A resposta clínica tem marcos esperados que ajudam a perceber cedo quem não está melhorando.

Fármaco / alvoComo monitorar
Anfotericina B (todas)Creatinina, potássio e magnésio; repor K⁺. Creatinina >2× o limite superior → suspender 2–5 dias e reiniciar em dias alternados. Pré-medicar com antitérmico ou anti-histamínico 30 min antes se reação infusional; evitar AAS.
Antimoniato de megluminaECG (QTc, arritmias, achatamento de T) no início, semanal e no fim em >40 anos ou antecedente familiar de cardiopatia; enzimas hepáticas, função renal, amilase e lipase.
MiltefosinaUreia, creatinina e enzimas hepáticas antes, nos primeiros 15 dias e ao fim; teste de gravidez e contracepção.
Resposta esperadaFebre cede por volta do 5º dia; hemoglobina e leucócitos melhoram a partir da 2ª semana; baço reduz ≥40% ao fim do tratamento.

Em 30 segundos

O essencial de cenários especiais

  1. Gestação, <1 ano, >50 anos e disfunção orgânica: anfotericina B lipossomal.
  2. HIV: LV pode ser oportunista; mais recidiva, sorologia menos sensível e profilaxia secundária.
  3. LDPK: lesões cutâneas após o calazar, rara nas Américas e mais vista no imunossuprimido.
  4. Teste para HIV em todo paciente com LV.

O que muda em cada cenário

Os cenários especiais mudam o tratamento por dois motivos: maior risco de morrer (extremos de idade, imunossupressão) e maior risco de toxicidade dos fármacos (gestação, disfunção orgânica, QT). Em quase todos, a resposta é a mesma: anfotericina B lipossomal.

CenárioParticularidadeO que fazer diferente
Criança <1 anoMaior risco de óbito; modelo de escore próprio (≤2 anos).; antibiótico mesmo sem foco se <2 meses; atenção ao volume das transfusões (10 mL/kg).
Idoso (>50 anos)Antimonial contraindicado; risco cardíaco e renal.; monitorar creatinina e eletrólitos.
GestanteAntimonial e miltefosina contraindicados. e pré-natal de alto risco.
Coinfecção HIVRecidiva frequente; sorologia pode ser negativa.Dose total maior de L-AmB ou combinação com ; profilaxia secundária se CD4 <350.
Transplantado ou em imunossupressorComportamento semelhante ao do HIV.; discutir redução da imunossupressão com a equipe de origem.
Insuficiência renalDesoxicolato e antimonial contraindicados. (GR-A).
QTc >450 ms ou fármacos que prolongam o QTRisco de arritmia com antimonial..

Coinfecção Leishmania-HIV

No HIV, a LV pode ser reativação de infecção latente e assume comportamento oportunista. O MS lista pistas desse comportamento: doença sem exposição recente a área de transmissão, forma clássica sem anticorpos, amastigotas no sangue periférico, acometimento de órgãos incomuns (trato respiratório, esôfago, estômago, duodeno, pele) e falha ou recidiva após antimonial.

Na direção oposta, toda hepatomegalia ou esplenomegalia, com ou sem febre e citopenias, em pessoa vivendo com HIV deve motivar a investigação de LV. Como a sorologia perde sensibilidade, o parasitológico de medula e a PCR ganham importância.

  1. Diagnóstico

    Medula/PCR se sorologia negativa.

  2. Tratar

    L-AmB até 40 mg/kg ou L-AmB + miltefosina.

  3. Profilaxia

    Se CD4 <350: a cada 2–4 semanas.

  4. TARV e seguimento

    Seguimento por tempo indeterminado.

Leishmaniose dérmica pós-calazar (LDPK)

É uma complicação dermatológica que surge meses a anos após o tratamento aparentemente bem-sucedido da LV, com máculas hipocrômicas, pápulas, nódulos ou placas, muitas vezes na face. É frequente no Sudão e no subcontinente indiano (L. donovani); nas Américas, com L. infantum, é rara e descrita sobretudo em imunossuprimidos, como pessoas com HIV. As lesões contêm parasitas e podem servir de fonte de infecção para o vetor.

Complicação

Lesões pós-calazar

Máculas hipocrômicas e lesões papulonodulares após o tratamento da LV.

Lesões cutâneas novas após LV tratada, sobretudo em pessoa com HIV, exigem biópsia e discussão com centro de referência. Não há esquema padronizado pelo MS para LDPK; o alerta da OMS (2023) sobre eventos oculares com miltefosina envolveu justamente cursos longos para LDPK no sul da Ásia.

Em 30 segundos

O essencial de seguimento e prevenção

  1. Critérios de cura são clínicos; o parasitológico de controle é dispensável se a evolução for boa.
  2. Seguimento aos 3, 6 e 12 meses; estável aos 12 meses = curado. Sorologia não serve para seguimento.
  3. Notificação compulsória de todo caso suspeito no Sinan.
  4. Controle canino: coleira com deltametrina 4%, exame antes da doação e eutanásia dos reagentes não tratados.

Critérios de cura e seguimento

A cura é clínica. Os primeiros sinais são inespecíficos — apetite e estado geral melhoram —, a febre desaparece por volta do 5º dia, as citopenias melhoram a partir da 2ª semana, e o baço regride ao menos 40% até o fim do tratamento. As proteínas séricas normalizam lentamente, às vezes ao longo de meses. Eosinofilia ao fim do tratamento ou no seguimento é sinal de bom prognóstico.

O Guia de Vigilância (2024) recomenda reavaliar aos 3, 6 e 12 meses após o tratamento; se estável na última avaliação, o paciente é considerado curado. No coinfectado pelo HIV, o seguimento é por tempo indeterminado.

~5º diaDefervescência
2ª semanaMelhora de Hb e leucócitos
3, 6, 12 mesesConsultas de seguimento

Interrupção e abandono

O GVS define abandono como o caso que não completou 20 doses no tempo preconizado ou que, após a alta, não voltou em até 30 dias para avaliação. Se o paciente retorna antes de 7 dias de interrupção, completa-se o tratamento; depois disso, decide-se pelo número de doses recebidas e pelo estado clínico.

Doses recebidasClinicamente curadoClinicamente doente
Menos de 10Reiniciar tratamentoReiniciar tratamento
10 ou maisObservarReiniciar tratamento

Quadro 3 do GVS (2024), pensado para os esquemas longos com antimonial.

Vigilância e notificação

A LV humana é de notificação compulsória: todo caso suspeito deve ser notificado e investigado no Sinan, e encerrado em até 60 dias. Casos são classificados como novos, recidivas (até 12 meses após a cura clínica) ou, quando a sintomatologia retorna após 12 meses sem imunodeficiência, como caso novo. Infectados sem doença não são notificados nem tratados.

  • Notificar: todo caso suspeito (Sinan).
  • Investigar: procedência, cães doentes no entorno, outros casos.
  • Óbitos: investigar para identificar falhas assistenciais evitáveis.

Controle do reservatório canino — posição do MS

As ações sobre o cão são executadas pela vigilância em zoonoses e integradas às medidas humanas e vetoriais. O médico tem papel na orientação da família do paciente e na comunicação de cães suspeitos ao serviço de zoonoses.

MedidaPosição atualObservação
Coleira impregnada com deltametrina 4%Recomendada e distribuída pelo MS a municípios com transmissão alta, intensa e muito intensa.Uso em cães não reagentes ou em tratamento; troca a cada 6 meses; proteção plena em 2–3 semanas.
EutanásiaRecomendada para cães com sorologia reagente ou parasitológico positivo que não sejam tratados.Segue a Resolução CFMV nº 1.000/2012; responsabilidade do médico-veterinário.
Tratamento do cãoPermitido apenas com produto registrado no MAPA para esse fim.Proibido usar medicamento de uso humano. O cão tratado deve usar coleira.
Vacina caninaNão adotada como ferramenta de saúde pública.A Leish-Tec® teve fabricação e venda suspensas pelo MAPA em maio de 2023; não há vacina disponível no país.
Exame antes da doaçãoRecomendado.Junto de telas em canis individuais ou coletivos.

Prevenção individual e ambiental

Como o vetor pica ao entardecer e à noite e se cria em matéria orgânica úmida no peridomicílio, a prevenção combina barreira individual e manejo ambiental. O controle químico do vetor é decidido pela vigilância conforme a situação epidemiológica e entomológica de cada local.

  • Barreira: mosquiteiro de malha fina, telas em portas e janelas, repelente.
  • Horário: evitar exposição ao crepúsculo e à noite em locais de vetor.
  • Peridomicílio: limpeza de quintais, destino adequado de lixo orgânico, eliminar umidade, poda.
  • Animais: abrigos (galinheiros, canis, chiqueiros) afastados da casa.

Erros comuns

A maior parte dos erros vem de subestimar a gravidade ou de olhar só para o parasita. Os mais frequentes, com o motivo e a correção:

ErroPor que é um problemaComo evitar
Não calcular o escore de gravidadePaciente de alto risco tratado em ambulatório ou com fármaco inadequado.Escore na admissão e a cada piora.
Esperar foco para dar antibióticoFebre da LV mascara infecção; neutropenia acelera a sepse.Antibiótico se toxemia, infecção definida, neutrófilos <500 ou <2 meses.
Transfundir plaquetas de rotinaNão previne sangramento e expõe a riscos.Só <10.000 com sangramento ou antes de procedimento.
Antimonial em >50 anos, gestante ou QT longoCardiotoxicidade e contraindicação formal.Anfotericina B lipossomal.
Tratar sorologia positiva sem doençaInfecção assintomática não se trata.Tratar só caso clínico confirmado.
Seguir com sorologiaAnticorpos persistem após a cura.Seguimento clínico aos 3, 6 e 12 meses.
Não testar HIVMuda dose, prognóstico e profilaxia.Teste para HIV em todos.

Referências principais

  1. 1
    Documento oficial2011
    Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Leishmaniose visceral: recomendações clínicas para redução da letalidade. Brasília: Ministério da Saúde, 2011. (Escores de gravidade, esquemas, antibioticoterapia e hemoterapia.)
  2. 2
    Documento oficial2024
    Brasil. Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde. 6. ed. rev. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. v. 2 — capítulo Leishmaniose visceral.
  3. 3
    Documento oficial2014
    Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Manual de vigilância e controle da leishmaniose visceral. Brasília: Ministério da Saúde, 2006 (reimpressão 2014).
  4. 4
    Documento oficial2015
    Brasil. Ministério da Saúde. Manual de recomendações para diagnóstico, tratamento e acompanhamento de pacientes com a coinfecção Leishmania-HIV. 1. ed. rev. e ampl. Brasília: Ministério da Saúde, 2015.
  5. 5
    Documento oficial2025
    Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Ficha de solicitação de anfotericina B lipossomal para pacientes com leishmaniose (critérios de indicação). Versão em uso pelas secretarias estaduais, 2025.
  6. 6
    Documento oficial2026
    Brasil. Ministério da Saúde / Conitec. Relatório de Recomendação nº 1.120 — Anfotericina B lipossomal associada à miltefosina para o tratamento da leishmaniose visceral em pacientes imunocomprometidos. 2026. Decisão: Portaria SECTICS/MS nº 36, de 2 de julho de 2026.
  7. 7
    Documento oficial2026
    Brasil. Ministério da Saúde / Conitec. Relatório de Recomendação nº 1.121 — Formulações lipídicas de anfotericina B para o tratamento da leishmaniose visceral. 2026. Decisão: Portaria SECTICS/MS nº 37, de 2 de julho de 2026.
  8. 8
    Documento oficial2025
    Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica Conjunta nº 110/2025-CGZV/DEDT/SVS/MS e CGAFME/DAF/SECTICS/MS — uso da miltefosina (contraindicações, monitoramento e contracepção). 2025.
  9. 9
    Diretriz2022
    Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). Diretrizes para o tratamento das leishmanioses na Região das Américas. 2. ed. Washington, DC: OPAS, 2022.
  10. 10
    Diretriz2022
    World Health Organization (WHO). WHO guideline for the treatment of visceral leishmaniasis in HIV co-infected patients in East Africa and South-East Asia. Geneva: WHO, 2022.
  11. 11
    Artigo2017
    Romero GAS, Costa DL, Costa CHN, et al. Efficacy and safety of available treatments for visceral leishmaniasis in Brazil: a multicenter, randomized, open label trial. PLoS Negl Trop Dis. 2017;11(6):e0005706.
  12. 12
    Documento oficial2025
    Sanofi Brasil. Comunicado sobre o cancelamento de registro do medicamento Glucantime® (antimoniato de meglumina) 300 mg/mL. 27 jan. 2025 (cancelamento deferido pela Anvisa em 6 jan. 2025).
  13. 13
    Documento oficial2023
    Brasil. Ministério da Agricultura e Pecuária. Mapa suspende fabricação e venda e determina o recolhimento de lotes de vacina contra leishmaniose. Maio de 2023.
  14. 14
    Diretriz2023
    World Health Organization (WHO). Leishmaniasis — fact sheet. Geneva: WHO, 2023.

Aviso importante

Material educacional de apoio à decisão clínica. Não substitui avaliação individualizada, protocolos institucionais, serviço de referência, infectologia, pediatria/obstetrícia nem consulta às bulas. O tratamento da LV está em transição no SUS (antimoniato com registro cancelado em 2025; formulações lipídicas de anfotericina B e combinação com miltefosina incorporadas em julho de 2026, com protocolo do MS pendente): confira o fluxo estadual de solicitação, a disponibilidade, as doses por peso, a função renal e os critérios de gravidade antes de prescrever.

Conteúdo para educação médica. Condutas devem ser individualizadas e conferidas com protocolos oficiais, contexto epidemiológico e disponibilidade local.
Rolar para cima