MedFoco

Emergência & UTI • ATLS 11ª ed.

xABCDE do Trauma

Avaliação primária do politraumatizado • ATLS 11ª edição (2025)

A avaliação primária do trauma é uma sequência de prioridades que trata primeiro o que mata primeiro. Na 11ª edição do ATLS (2025), o mnemônico ABCDE ganhou um x inicial — o controle imediato de hemorragia exsanguinante externa quando ela é o risco dominante. A regra permanece: identificou uma ameaça à vida, resolve antes de seguir.

x — hemorragia exsanguinanteVia aérea + coluna cervicalChoque hemorrágicoGlasgow e pupilas
13 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. A avaliação primária identifica e trata, em ordem de prioridade, o que mata mais rápido: hemorragia, via aérea, ventilação, choque e lesão cerebral.
  2. No ATLS 11 (2025) o ABCDE virou xABCDE: hemorragia externa exsanguinante é contida antes da via aérea.
  3. Cada ameaça é tratada no momento em que é encontrada; em equipe, as letras correm em paralelo, mas a ordem define a prioridade.
  4. Piorou? Volte ao A — a avaliação primária é um ciclo de reavaliação, não um checklist de passagem única.

O que é a avaliação primária

A avaliação primária do trauma é uma abordagem sistemática e cronometrada para identificar e tratar, na ordem de prioridade, as condições que ameaçam a vida de forma mais imediata. As principais causas de morte precoce evitável no trauma são obstrução de via aérea, insuficiência respiratória, choque hemorrágico e lesão cerebral — e é exatamente sobre elas que o método atua.

A regra de ouro é tratar primeiro o que mata primeiro: cada letra só avança depois que a anterior está resolvida ou sob controle. Não se espera terminar toda a sequência para intervir — a ameaça é tratada no momento em que é identificada.

No trauma, hipotensão é choque hemorrágico até prova em contrário. Buscar e conter a fonte de sangramento é a intervenção que mais muda o desfecho.

O que muda no ATLS 11: o "x"

A 11ª edição do ATLS (lançada em 2025) reorganizou toda a estrutura do curso e refinou a abordagem clássica. A mudança mais visível é a inclusão da letra x no início do mnemônico: ABCDE passa a ser xABCDE.

O "x" representa o controle imediato de hemorragia externa exsanguinante. Quando há sangramento externo maciço e visível — tipicamente de extremidades —, contê-lo com compressão direta, torniquete ou curativo hemostático tem precedência mesmo sobre a via aérea, porque o exsanguinamento é uma ameaça à vida em segundos. Fora desse cenário específico, a sequência segue a ordem consagrada A → B → C → D → E.

Ressuscitação hemostática

Hipotensão permissiva até o controle do sangramento, cristaloide apenas como "ponte" e sangue precoce — componentes 1:1:1 ou sangue total de baixo título, quando disponível.

Restrição de movimento da coluna

O termo "imobilização" foi substituído por restrição de movimento da coluna; evitar prancha rígida por mais de 2 horas.

Descompressão torácica

No adulto, agulha longa (≈ 8 cm) no 4º–5º espaço intercostal, à frente da linha axilar média — maior taxa de sucesso que o 2º espaço hemiclavicular.

Ácido tranexâmico

Na hemorragia grave, nas primeiras 3 horas: 1 g em 10 min + 1 g em 8 h.

O "x" não substitui o "C": ele antecipa apenas o controle da hemorragia externa evidente. A avaliação completa da circulação continua no passo C.

Antes de tocar no paciente

A avaliação primária começa antes da chegada: preparo da sala, EPI para toda a equipe (precaução universal), material de via aérea, aquecedor de fluidos, monitor e acionamento do protocolo de transfusão maciça quando previsto.

A passagem de plantão do pré-hospitalar segue um formato padronizado (por exemplo, o MIST: mecanismo, lesões identificadas, sinais vitais, tratamento realizado), enquanto a equipe já inicia o exame.

Triagem — a moldura do atendimento

  • Múltiplas vítimas com recursos suficientes: atende-se primeiro o mais grave e potencialmente recuperável.
  • Vítimas em massa com recursos insuficientes: prioriza-se o maior número de sobreviventes possível.
  • A avaliação primária pode começar durante a passagem de caso do pré-hospitalar.
  • Trabalho em equipe: em politraumatizados, várias etapas correm em paralelo.
A ordem é hierarquia, não cronologia

Em uma equipe treinada, A, B e C são frequentemente abordados ao mesmo tempo. A sequência xABCDE define a prioridade quando é preciso escolher.

Lesões que a avaliação primária busca

O exame primário é desenhado para flagrar as condições rapidamente fatais. Guardar esta lista ajuda a não perder tempo.

Via aérea

Obstrução por rebaixamento, corpo estranho, sangue, edema ou trauma direto de face e pescoço.

Respiração

Pneumotórax hipertensivo, pneumotórax aberto, hemotórax maciço e tórax instável (flail chest).

Circulação

Hemorragia maciça externa ou interna e tamponamento cardíaco.

Neurológico

Hematomas intracranianos com sinais de hipertensão e herniação iminente.

Por que sistematizar

A morte no trauma tem distribuição classicamente descrita em três picos: imediata (lesões incompatíveis com a vida), precoce (primeiras horas — a "hora de ouro", onde o xABCDE atua) e tardia (dias a semanas, por sepse e disfunção de órgãos). A sistematização reduz lesões perdidas e organiza a ressuscitação.

Hora de ouro

Janela em que a intervenção precoce muda o desfecho.

Hemorragia

Causa mais comum de morte evitável no trauma.

Reavaliação

Piorou? Volte ao A. O exame é dinâmico.

Equipe

Etapas em paralelo, com liderança e comunicação claras.

Secundária

Só após primária e ressuscitação em curso.

Em 30 segundos

O essencial de x + a

  1. Sangramento externo maciço é contido antes da via aérea: compressão direta, curativo hemostático, torniquete e cinta pélvica.
  2. A via aérea é avaliada e garantida sempre com restrição de movimento da coluna cervical.
  3. Paciente que fala com voz normal tem, naquele momento, via aérea pérvia e boa perfusão cerebral.
  4. Via aérea definitiva se Glasgow ≤ 8, falha de oxigenação, risco iminente de obstrução ou paciente combativo.

x — Hemorragia exsanguinante externa

Quando há sangramento externo maciço e visível, a prioridade é contê-lo antes de iniciar a via aérea — é a essência do "x" do ATLS 11. O objetivo é interromper a perda sanguínea catastrófica em segundos.

  1. Compressão direta

    Compressão direta firme sobre o foco de sangramento, com as duas mãos se necessário.

  2. Curativo

    Curativo compressivo; em sangramentos de junção, curativo hemostático empacotando a ferida.

  3. Torniquete

    Torniquete em sangramento arterial de extremidade não controlável por compressão — aplicar proximal, apertar até parar o sangramento e anotar o horário.

  4. Cinta pélvica

    Estabilização pélvica com cinta (pelvic binder), centrada nos trocânteres maiores, quando há suspeita de fratura instável de pelve com sangramento.

Registre sempre o horário de colocação do torniquete. A conversão para outra medida hemostática é decisão do time cirúrgico.

A — Via aérea com restrição da coluna cervical

Avaliar e garantir a permeabilidade da via aérea sempre protegendo a coluna cervical — todo politraumatizado tem lesão cervical até que seja descartada. Um paciente que fala com voz normal tem, naquele momento, via aérea pérvia e boa perfusão cerebral.

Sinais de via aérea em risco

  • Rebaixamento do nível de consciência (Glasgow ≤ 8).
  • Estridor, rouquidão, disfonia ou gorgolejo.
  • Trauma de face, pescoço ou queimadura de via aérea.
  • Agitação (hipóxia) ou apatia (hipercapnia).
  • Incapacidade de manejar as próprias secreções.

Escalonamento de condutas

  • Manobras manuais: chin-lift ou jaw-thrust (preferida na suspeita cervical).
  • Aspiração de sangue, secreções e corpos estranhos.
  • Cânula orofaríngea (se sem reflexo de vômito) ou nasofaríngea (evitar na suspeita de fratura de base de crânio).
  • Via aérea definitiva: intubação orotraqueal em sequência rápida.
  • Via aérea cirúrgica (cricotireoidostomia) no cenário "não intubo, não ventilo".
Restrição de movimento cervical

Colar cervical, mobilização em bloco e estabilização manual em linha durante a laringoscopia (com a parte anterior do colar aberta). O ATLS 11 fala em restrição de movimento da coluna, e não mais em "imobilização". A restrição não deve impedir o acesso à via aérea — a prioridade absoluta é oxigenar.

Via aérea definitiva — indicações

Considere via aérea definitiva (tubo com balonete na traqueia) diante de qualquer uma das situações abaixo. A intubação em sequência rápida é a técnica padrão, com estabilização cervical em linha; os fármacos estão na aba Adjuntos e drogas (, , , ).

  • Incapacidade de manter a via aérea pérvia por outros meios.
  • Incapacidade de manter oxigenação adequada apesar de suplementação.
  • Rebaixamento do nível de consciência, tipicamente Glasgow ≤ 8.
  • Risco iminente de perda da via aérea: queimadura inalatória, hematoma cervical expansivo, trauma maxilofacial grave.
  • Necessidade de sedação/analgesia profunda ou paciente combativo que impede a avaliação.

Antecipe a via aérea difícil no trauma. Tenha videolaringoscópio, dispositivo supraglótico e kit de cricotireoidostomia prontos antes de sedar. No paciente chocado, ressuscite antes de induzir sempre que possível ("resuscitate before you intubate") e reduza a dose do indutor.

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O essencial de b — respiração

  1. Via aérea pérvia não garante ventilação: exponha o tórax, inspecione, palpe, percuta, ausculte e meça a SpO₂.
  2. Oxigênio de alto fluxo a todo politraumatizado grave, com alvo de SpO₂ ≥ 94%.
  3. Pneumotórax hipertensivo é diagnóstico clínico: descomprimir já, sem esperar radiografia.
  4. No adulto, a agulha vai no 4º–5º espaço intercostal, na linha axilar média; a medida definitiva é toracostomia com dreno.

B — Respiração e ventilação

Via aérea pérvia não garante ventilação adequada. Nesta etapa, expõe-se o tórax e avalia-se de forma dirigida: inspeção (expansibilidade, ferimentos, esforço), palpação, percussão e ausculta, além de oximetria. O objetivo é detectar e tratar as lesões torácicas rapidamente fatais.

Ofereça oxigênio de alto fluxo a todo politraumatizado grave, com alvo de SpO₂ ≥ 94%. A capnografia orienta a ventilação após a intubação. O e-FAST à beira do leito ajuda a confirmar pneumotórax e hemotórax, mas não deve atrasar a descompressão do paciente instável.

Lesões torácicas que matam no B

LesãoReconhecimentoConduta imediata
Pneumotórax hipertensivoDispneia intensa, hipotensão, timpanismo, murmúrio abolido, turgência jugular, desvio de traqueia (tardio). Diagnóstico é clínico.Descompressão imediata (punção com agulha ou toracostomia com o dedo) seguida de dreno de tórax. Não aguardar radiografia.
Pneumotórax abertoFerida torácica soprante ("traumatopneia"), com ar entrando e saindo pelo orifício.Curativo de três pontas (valvulado) e, em seguida, dreno de tórax em local distinto da ferida.
Hemotórax maciçoChoque com murmúrio abolido e macicez à percussão; ≥ 1500 mL de sangue no hemitórax (ou débito contínuo do dreno).Reposição com hemocomponentes + dreno de tórax calibroso; avaliação cirúrgica (toracotomia).
Tórax instável (flail chest)Segmento com movimento paradoxal por fraturas múltiplas; contusão pulmonar associada.Analgesia, oxigênio e suporte ventilatório conforme a necessidade; vigiar a contusão pulmonar.

O tamponamento cardíaco também cursa com choque e pode se manifestar aqui, mas seu manejo pertence ao passo C (circulação).

Pneumotórax hipertensivo — não espere a imagem

É a lesão mais importante do B por ser rapidamente fatal e prontamente reversível. Diante de choque com murmúrio abolido de um lado, o diagnóstico é clínico e a descompressão é imediata — atrasar em busca de radiografia pode custar a vida do paciente.

Punção com agulha

Adulto: 4º–5º espaço intercostal, imediatamente à frente da linha axilar média (ATLS 10/11 — parede mais fina, maior taxa de sucesso). Criança: 2º espaço intercostal, na linha hemiclavicular. No adulto, use cateter sobre agulha longo (≈ 8 cm; nunca menos de 5 cm).

Toracostomia

Descompressão com o dedo (toracostomia digital) no mesmo ponto, seguida de dreno de tórax, é a medida definitiva.

Mudança em relação a edições antigas: o 2º espaço intercostal hemiclavicular deixou de ser o local preferido no adulto, porque a agulha muitas vezes não alcança a cavidade pleural.

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O essencial de c — circulação

  1. Choque no trauma é hemorrágico até prova em contrário; taquicardia costuma ser o primeiro sinal e a hipotensão é tardia.
  2. Conter o sangramento, dois acessos calibrosos (ou intraósseo) e sangue precoce: componentes 1:1:1 ou sangue total.
  3. Cristaloide é só ponte — até 1 L no adulto; hipotensão permissiva (PAS 80–90 mmHg) até o controle cirúrgico, exceto no TCE.
  4. Ácido tranexâmico nas primeiras 3 horas; controle definitivo da fonte para os respondedores transitórios e não respondedores.

C — Circulação com controle da hemorragia

O foco do C é reconhecer o choque e conter a hemorragia. Avalie rapidamente nível de consciência, cor e temperatura da pele, tempo de enchimento capilar, pulsos (frequência e amplitude) e pressão arterial. A taquicardia costuma ser o primeiro sinal; a hipotensão é tardia, sobretudo em jovens que compensam bem.

  1. Comprimir

    Comprimir focos de hemorragia externa (integra-se ao "x").

  2. Acessos

    Dois acessos venosos periféricos calibrosos (ou intraósseo, se falha do acesso).

  3. Coletar

    Coletar sangue: tipagem, prova cruzada, gasometria/lactato (déficit de bases), cálcio ionizado, coagulograma e teste de gravidez quando aplicável.

  4. Ressuscitar e buscar a fonte

    Iniciar ressuscitação e buscar a fonte do sangramento (tórax, abdome, pelve, ossos longos, "sangramento no chão").

"Blood on the floor and four more": as cinco fontes de grande sangramento são o ambiente externo, tórax, abdome, pelve/retroperitônio e ossos longos.

O monitor no choque do trauma

A frequência cardíaca é o sinal mais precoce — e a bradicardia relativa muda o raciocínio.

Taquicardia sinusal — choque hemorrágico compensado

Taquicardia sinusal em politraumatizado é perda sanguínea até prova em contrário, mesmo com PA ainda normal. Trate a causa (hemostasia e sangue), não a frequência.

  • Ritmo regular com onda P antes de cada QRS
  • FC ≈ 125 bpm
  • QRS estreito

Traçados esquemáticos gerados por computador (25 mm/s, 10 mm/mV) para estudo e comparação. Confirme sempre no ECG de 12 derivações do paciente.

PAM e índice de choque

O índice de choque (FC ÷ PAS) denuncia o choque compensado antes da hipotensão: valores ≥ 1,0 associam-se a hemorragia significativa e necessidade de transfusão. PAM = PAD + (PAS − PAD) / 3.

PAM estimada (mmHg)—
Índice de choque—
Leitura rápida—

Ferramenta de apoio. Betabloqueador, marca-passo, idosos, gestantes e atletas alteram a resposta da FC; o índice não substitui o exame de perfusão nem a resposta à ressuscitação.

Classes do choque hemorrágico (ATLS 10/11)

Estimativa baseada em perda percentual da volemia (adulto ≈ 70 mL/kg, ~5 L). A partir da 10ª edição, o ATLS trocou os cortes rígidos de FC por tendências e incorporou o déficit de bases à classificação. Os limites entre classes se sobrepõem na prática; use como referência, não como verdade absoluta — a resposta à ressuscitação é o dado que mais orienta.

ParâmetroClasse IClasse II (leve)Classe III (moderada)Classe IV (grave)
Perda (%)≤ 15%15–30%31–40%> 40%
Perda (mL)*< 750750–15001500–2000> 2000
FCNormalNormal ou ↑↑↑ / ↑↑
PA sistólicaNormalNormalNormal ou ↓↓
Pressão de pulsoNormal↓↓↓
FRNormalNormalNormal ou ↑↑
DiureseNormalNormal↓↓↓
Consciência (Glasgow)NormalNormal↓↓
Déficit de bases0 a −2 mEq/L−2 a −6 mEq/L−6 a −10 mEq/L−10 mEq/L ou menos
Necessidade de sangueMonitorarPossívelSimProtocolo de transfusão maciça

*Estimativa para adulto de ~70 kg. Edições anteriores davam cortes numéricos que ainda aparecem em provas — FC < 100, 100–120, 120–140 e > 140 bpm; FR 14–20, 20–30, 30–40 e > 35 irpm; diurese > 30, 20–30, 5–15 mL/h e desprezível; consciência normal/ansioso, ansioso, confuso e confuso/letárgico. Idosos, crianças, gestantes, atletas e pacientes em uso de betabloqueador podem não seguir esse padrão de sinais vitais.

Ressuscitação — controle de danos

A estratégia atual é a ressuscitação para controle de danos: minimizar cristaloide, priorizar hemocomponentes de forma balanceada e conter a fonte de sangramento o quanto antes. Fluido em excesso agrava a coagulopatia, a hipotermia e a acidose (a "tríade letal"). No ATLS 11, o cristaloide é apenas ponte até a chegada do sangue.

Adulto — 1 L

Bolus de cristaloide aquecido (até 1 L), Ringer lactato preferencial; reavaliar a resposta antes de repetir e iniciar sangue cedo se a hemorragia é significativa.

Pediátrico — 20 mL/kg

Bolus de cristaloide aquecido; se persistir instável após 2 bolus (ou antes, se hemorragia evidente), iniciar hemocomponentes (10–20 mL/kg).

Hipotensão permissiva

Alvo de PAS 80–90 mmHg (PAM 50–60 mmHg) ou pulso radial presente até o controle cirúrgico do sangramento — exceto no traumatismo cranioencefálico, em que se busca pressão de perfusão cerebral adequada: PAM ≥ 80 mmHg no TCE grave (diretriz europeia 2023) e PAS ≥ 100 mmHg (50–69 anos) ou ≥ 110 mmHg (15–49 ou > 70 anos) pela Brain Trauma Foundation.

A resposta aos primeiros fluidos classifica o paciente e orienta a urgência cirúrgica: respondedor rápido (estabiliza e mantém), respondedor transitório (melhora e volta a piorar — sangramento ativo) e não respondedor (instável — hemorragia grave ou choque não hemorrágico). Transitórios e não respondedores vão para controle definitivo da hemorragia (cirurgia de controle de danos, angioembolização, packing pré-peritoneal na pelve).

Sangue precoce

Protocolo de transfusão maciça acionado cedo; plasma, plaquetas e hemácias 1:1:1 (PROPPR: menos morte por exsanguinação em 24 h) ou sangue total O de baixo título.

Metas laboratoriais

Hb 7–9 g/dL; fibrinogênio > 1,5 g/L; cálcio ionizado na faixa normal; guiar por TEG/ROTEM quando disponível.

Ácido tranexâmico

1 g em 10 min + 1 g em 8 h, idealmente na 1ª hora e nunca após 3 h; pode ser iniciado no pré-hospitalar.

REBOA

O balão de oclusão aórtica (REBOA) no departamento de emergência não deve ser rotina: no ensaio UK-REBOA (JAMA, 2023), a mortalidade em 90 dias foi de 54% com REBOA versus 42% com tratamento padrão, e o estudo foi interrompido por provável dano. Fica restrito a centros experientes e protocolos específicos.

Choque não hemorrágico no trauma

Antes de assumir que todo choque é hemorrágico, lembre das causas obstrutivas e distributivas que também aparecem no trauma — algumas exigem conduta específica e imediata.

CondiçãoAchado-chaveConduta
Achado-chaveTríade de Beck (hipotensão, bulhas abafadas, turgência jugular); FAST positivo no pericárdio.
CondutaPericardiocentese/toracotomia (no trauma penetrante, toracotomia/esternotomia é a conduta definitiva).
Achado-chaveMurmúrio abolido, timpanismo, turgência jugular, hipotensão.
CondutaChoque obstrutivo revertido pela descompressão.
Achado-chaveHipotensão com bradicardia e pele quente por lesão medular alta.
CondutaRequer além de volume; excluir sangramento associado antes de atribuir a hipotensão à medula.

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O essencial de d — neurológico

  1. Glasgow por componentes, pupilas e sinais lateralizatórios — e sempre glicemia capilar.
  2. Rebaixamento agudo no trauma é lesão cerebral até prova em contrário, mas hipóxia, hipotensão, álcool e drogas contribuem.
  3. Hipóxia e hipotensão pioram muito o prognóstico do TCE: proteger o cérebro começa por A, B e C.
  4. Pupila fixa e dilatada com rebaixamento ou tríade de Cushing: medidas imediatas, tomografia e neurocirurgia.

D — Disfunção neurológica

Avaliação neurológica rápida: nível de consciência pela Escala de Coma de Glasgow (ECG), pupilas (tamanho, simetria e fotorreação) e sinais lateralizatórios. Sempre verifique a glicemia capilar — hipoglicemia é causa tratável e frequentemente esquecida de rebaixamento.

Rebaixamento agudo no trauma é lesão cerebral até prova em contrário, mas lembre também de hipóxia, hipotensão, álcool e drogas como fatores contribuintes.

Hipóxia e hipotensão dobram a mortalidade no traumatismo cranioencefálico. Proteger o cérebro é, antes de tudo, garantir A, B e C.

Calculadora — Escala de Coma de Glasgow

Escala de Coma de Glasgow — Ocular (1–4), Verbal (1–5), Motora (1–6)

Selecione a melhor resposta em cada domínio. O total varia de 3 a 15. Classificação clássica: leve 13–15, moderado 9–12, grave 3–8. Em crianças pequenas, use a versão pediátrica da escala (resposta verbal adaptada). A reatividade pupilar permite calcular o Glasgow-Pupilas (GCS-P).

Total (O + V + M)—
GCS-P (Glasgow-Pupilas)—
Componente mais grave—
Via aérea—
Gravidade—

Glasgow ≤ 8 é o principal gatilho para via aérea definitiva. Registre sempre os três componentes separadamente (ex.: O2 V1 M4), pois o padrão motor é o de maior valor prognóstico.

Pupilas e sinais de herniação

Uma pupila dilatada e não reativa, sobretudo com hemiparesia contralateral e rebaixamento, sugere herniação uncal por hematoma expansivo — emergência neurocirúrgica.

Anisocoria fixa

Pupila dilatada unilateral e arreativa: suspeitar de compressão do III nervo por herniação.

Tríade de Cushing

Hipertensão, bradicardia e respiração irregular: hipertensão intracraniana grave.

Medidas imediatas

Cabeceira elevada, otimizar oxigenação e PA, considerar terapia hiperosmolar (salina hipertônica ou manitol) sob orientação especializada.

Destino

Tomografia de crânio urgente e avaliação neurocirúrgica; não postergar por exame secundário. Em anticoagulados, reverter o anticoagulante precocemente.

A hiperventilação profilática não é recomendada; reserve-a como medida temporária apenas para sinais de herniação iminente, com alvo controlado (PaCO₂ em torno de 30–35 mmHg) enquanto se providencia o tratamento definitivo.

No TCE leve a moderado (Glasgow 9–15 ou sangramento intracraniano à TC, sem grande sangramento extracraniano), o em até 3 horas reduziu a morte relacionada ao TCE no CRASH-3 (Lancet, 2019), com maior benefício quanto mais precoce.

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O essencial de e — exposição

  1. Despir completamente para não perder lesões — dorso, períneo, axilas e pregas.
  2. Logo em seguida, aquecer: hipotermia agrava a coagulopatia e compõe a tríade letal com acidose e coagulopatia.
  3. Rolamento em bloco coordenado para examinar o dorso; sair da prancha rígida o quanto antes (evitar > 2 h).
  4. Depois do E: adjuntos e avaliação secundária — e, a qualquer piora, volta ao A.

E — Exposição e controle do ambiente

Despir completamente o paciente para não perder lesões (dorso, períneo, axilas, pregas) e, imediatamente depois, prevenir a hipotermia — que agrava a coagulopatia e piora o prognóstico. Exposição total e reaquecimento andam juntos.

  1. Despir

    Remover roupas, cortando quando necessário; cuidado com objetos e evidências.

  2. Log roll

    Rolamento em bloco (log roll) para inspecionar o dorso e a coluna, com equipe coordenada.

  3. Aquecer

    Cobrir com mantas aquecidas; usar fluidos e hemocomponentes aquecidos; aquecer o ambiente.

  4. Tirar da prancha

    Retirar o paciente da prancha rígida assim que possível para evitar lesão por pressão (o ATLS 11 recomenda evitar uso por mais de 2 horas).

Hipotermia + acidose + coagulopatia formam a "tríade letal" do trauma. Manter o paciente aquecido é medida terapêutica, não conforto.

Log roll — o que procurar no dorso

Coluna

Dor, degrau, hematoma ou deformidade em toda a extensão da coluna vertebral.

Ferimentos ocultos

Lesões penetrantes no dorso, nas nádegas e no períneo, facilmente perdidas.

Toque retal (seletivo)

Não é rotina; indicado em situações específicas — tônus, sangramento, próstata elevada.

Reavaliação distal

Perfusão, sensibilidade e motricidade dos quatro membros após a mobilização.

Depois do E: para onde vai o atendimento

Concluída a avaliação primária com o paciente estabilizado (ou em ressuscitação ativa), seguem os adjuntos e a avaliação secundária — exame da cabeça aos pés e história dirigida. E o princípio permanece: qualquer deterioração manda voltar ao "A" e reavaliar a sequência inteira.

Regra de ouro da reavaliação

Piorou? Recomece do início. O xABCDE não é um checklist de passagem única — é um ciclo de reavaliação contínua enquanto o paciente estiver instável.

Em 30 segundos

O essencial de adjuntos e drogas

  1. Adjuntos (monitorização, e-FAST, radiografias, laboratório, sondas) correm em paralelo, sem interromper a ressuscitação.
  2. Hemostasia: ácido tranexâmico precoce, cristaloide mínimo, sangue 1:1:1 (ou sangue total) e cálcio na transfusão maciça.
  3. SRI com indutor em dose reduzida no chocado — quetamina ou etomidato — e bloqueador neuromuscular, sempre com estabilização cervical.
  4. Analgesia titulada; vasopressor só em cenários selecionados, nunca no lugar do controle do sangramento.

Adjuntos à avaliação primária

Realizados em paralelo ao xABCDE, sem interromper a ressuscitação. Complementam o exame e orientam o destino do paciente.

Monitorização

ECG contínuo, oximetria, capnografia, PA e temperatura.

Imagem dirigida

Radiografia de tórax e pelve; FAST/e-FAST à beira do leito para líquido livre e pneumotórax.

Laboratório

Gasometria, lactato, hemograma, tipagem/prova cruzada, coagulograma (e TEG/ROTEM se disponível), cálcio ionizado e β-hCG quando aplicável.

Sondas (seletivas)

Gástrica e vesical, respeitando as contraindicações (ex.: não passar sonda vesical se houver suspeita de lesão uretral; não passar sonda nasogástrica se houver suspeita de fratura de base de crânio).

Avaliação secundária — AMPLA e cabeça aos pés

Só após a primária e com ressuscitação em curso. História AMPLA (Alergias, Medicações, Passado/gestação, Líquidos/última refeição, Ambiente/mecanismo) e exame completo e sistemático, com reavaliação contínua.

Como usar esta seção

Cada rota abaixo corresponde a uma categoria de intervenção; o nome do fármaco abre a posologia completa: apresentação, diluição, dose em mg/mL (ou por kg), via e observações. Confira sempre a apresentação disponível no seu serviço e os protocolos institucionais antes de administrar.

Rotas de tratamento

Três rotas, como no protocolo original: hemostasia e reposição, sequência rápida de intubação, e analgesia com suporte hemodinâmico. Confira sempre o rótulo e o protocolo de transfusão maciça do seu serviço.

Ferramentas do MedFoco para o trauma

Índice de Choque

FC ÷ PAS para reconhecer o choque compensado: abrir calculadora.

Volume de Concentrado de Hemácias

Volume a transfundir por peso e Hb-alvo: abrir calculadora.

Reversão de Anticoagulantes

CCP, vitamina K, idarucizumabe e andexanete no trauma do anticoagulado: abrir guia.

Canadian CT Head Rule

Quem precisa de TC no TCE leve: abrir calculadora.

Referências bibliográficas

  1. 1
    Diretriz2025
    American College of Surgeons, Committee on Trauma. ATLS® — Advanced Trauma Life Support. Student Course Manual. 11ª ed. Chicago: ACS; 2025.
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    Diretriz2018
    American College of Surgeons, Committee on Trauma. ATLS® — Advanced Trauma Life Support. 10ª ed. Chicago: ACS; 2018.
  3. 3
    Revisão online2023
    Planas JH, Waseem M, Sigmon DF. Trauma Primary Survey. StatPearls. Treasure Island: StatPearls Publishing; 2023.
  4. 4
    Artigo2010
    CRASH-2 trial collaborators. Effects of tranexamic acid on death, vascular occlusive events, and blood transfusion in trauma patients with significant haemorrhage (CRASH-2). Lancet. 2010;376(9734):23-32.
  5. 5
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    PHTLS — Prehospital Trauma Life Support (NAEMT). Edição vigente.

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