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Emergência & UTI • Insuficiência Respiratória

Edema Agudo de Pulmão

EAP cardiogênico • SCAPE • insuficiência cardíaca descompensada

O paciente sentado, pálido, encharcado de suor, com pressão de 220 por 120 e crepitações até o ápice quase nunca está hipervolêmico — está com o volume no lugar errado. É redistribuição, não sobrecarga. Entender isso muda a ordem do tratamento: a estrela é a ventilação não invasiva com o vasodilatador, e não o diurético.

Sentar e ventilar primeiroVNI reduz intubaçãoNitrato em dose que funcioneAchar o precipitante
22 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Edema agudo de pulmão é o acúmulo rápido de líquido no interstício e nos alvéolos, com insuficiência respiratória hipoxêmica; na emergência, a origem é quase sempre cardiogênica.
  2. No EAP hipertensivo, o problema dominante é redistribuição de volume e pós-carga alta — não hipervolemia.
  3. A ordem do tratamento importa: sentar, VNI e vasodilatador vêm antes do diurético.
  4. É sintoma, não diagnóstico final: sem tratar o precipitante (CHAMPIT), o quadro volta.

O que é edema agudo de pulmão

Edema agudo de pulmão é o acúmulo rápido de líquido no interstício e nos alvéolos, com instalação em minutos a horas e insuficiência respiratória hipoxêmica franca. Na imensa maioria dos casos atendidos na emergência, a origem é cardiogênica: a pressão hidrostática capilar pulmonar sobe além da capacidade de drenagem linfática, e o líquido extravasa.

A distinção entre origem cardiogênica e não cardiogênica é a primeira decisão do atendimento, porque os tratamentos são quase opostos: no cardiogênico, reduzir pressão de enchimento; no não cardiogênico, ventilação protetora e tratamento da causa inflamatória. A diretriz europeia de insuficiência cardíaca de 2026 passou a chamar o quadro agudo de insuficiência cardíaca descompensada e reconhece o edema agudo de pulmão como uma de suas quatro apresentações, ao lado da descompensação esquerda, da direita e do choque cardiogênico.

Edema agudo de pulmão é sintoma, não diagnóstico final. Estabilizar sem identificar o precipitante quase garante recidiva — e alguns precipitantes, como a síndrome coronariana e as causas mecânicas, exigem intervenção em horas.

A cascata que fecha o ciclo

O EAP hipertensivo é um ciclo vicioso que se autoalimenta, e reconhecer isso explica por que a resposta ao tratamento correto é tão rápida. Cada etapa amplifica a seguinte, e a hipoxemia final realimenta a primeira — por isso o quadro pode se instalar em minutos num paciente que estava estável à tarde.

  1. Descarga adrenérgica

    Dor, ansiedade, hipoxemia e isquemia elevam as catecolaminas.

  2. Vasoconstrição sistêmica

    A pós-carga sobe, o ventrículo esquerdo ejeta menos e a pressão de enchimento aumenta.

  3. Redistribuição do volume

    O sangue migra do leito venoso esplâncnico para a circulação central, sobrecarregando o coração sem que haja ganho de volume corporal.

  4. Transudação alveolar

    A pressão capilar pulmonar ultrapassa o limiar e o líquido invade o alvéolo.

  5. Hipoxemia e mais adrenalina

    O alvéolo inundado piora a oxigenação, o que aumenta ainda mais a descarga adrenérgica. O ciclo se fecha.

Onde quebrar o ciclo

Quebrar o ciclo em qualquer ponto — oxigenando, ventilando com pressão positiva ou vasodilatando — desmonta a cascata inteira. É por isso que VNI e nitrato, juntos, produzem melhora visível em minutos.

Redistribuição × acúmulo: os dois EAP

Há dois mecanismos de congestão, e eles pedem tratamentos diferentes. A diretriz europeia de 2026 descreve o edema agudo de pulmão como congestão pulmonar maciça de instalação rápida, por desvio de sangue para a circulação pulmonar sem sobrecarga de volume total — paciente que habitualmente não precisa de dose alta de diurético, mas pode precisar de vasodilatador. Já a descompensação esquerda clássica é acúmulo progressivo, em que a descongestão com diurético é o centro.

Tipo 1 · Vascular — redistribuição

Instalação em minutos a poucas horas, pressão arterial alta ou muito alta, ausculta com crepitações difusas, sem edema de membros e sem ganho de peso. O paciente é euvolêmico ou quase. Responde de forma dramática a VNI e vasodilatador. O diurético tem papel secundário e, se usado em excesso, causa hipovolemia e lesão renal.

Tipo 2 · Cardíaco — acúmulo progressivo

Instalação em dias a semanas, com ganho de peso, edema de membros, turgência jugular, hepatomegalia e ortopneia progressiva. Pressão arterial normal ou baixa. Aqui a hipervolemia é real e o diurético é a peça central, com descongestão que leva dias e exige monitorização de resposta.

Cardiogênico × não cardiogênico

A confusão entre EAP cardiogênico e SDRA é frequente e cara: um exige redução da pressão de enchimento, o outro exige ventilação protetora e tratamento do insulto inflamatório. Nenhum item isolado separa os dois com segurança — é o conjunto de história, exame, ultrassom e resposta ao tratamento que decide.

AspectoCardiogênicoNão cardiogênico (SDRA)
MecanismoAumento da pressão hidrostática capilar pulmonar.Aumento da permeabilidade da barreira alvéolo-capilar.
HistóriaCardiopatia conhecida, dor torácica, hipertensão, arritmia, má adesão ou transgressão alimentar.Sepse, pneumonia, aspiração, pancreatite, trauma, transfusão.
InícioMinutos a horas, frequentemente noturno.Horas a dias, com pródromo do insulto de base.
ExameTerceira bulha, turgência jugular, edema periférico, extremidades frias se houver baixo débito.Febre, foco infeccioso, sem sinais de congestão sistêmica.
RadiografiaDistribuição central em asa de borboleta, linhas B de Kerley, cardiomegalia, derrames.Opacidades periféricas e heterogêneas, área cardíaca normal, derrames pequenos.
Ultrassom pulmonarLinhas B homogêneas e bilaterais, pleura lisa, derrame frequente.Linhas B heterogêneas, com áreas poupadas, pleura irregular e consolidações subpleurais.
Peptídeo natriuréticoHabitualmente elevado; valores baixos tornam a origem cardíaca improvável.Normal ou pouco elevado, salvo comorbidade cardíaca.
EcocardiogramaDisfunção sistólica ou diastólica, valvopatia, pressões de enchimento elevadas.Função ventricular preservada, veia cava inferior colapsável.
Resposta ao tratamentoMelhora rápida com VNI, vasodilatador e diurético.Melhora lenta, dependente do controle da causa.

As duas condições coexistem com frequência. Paciente cardiopata com sepse pode ter congestão e SDRA simultaneamente — e nesse caso a ventilação protetora e a descongestão precisam ser conciliadas.

As quatro etapas do atendimento

O atendimento se organiza em quatro etapas que, na prática, se sobrepõem: as duas primeiras acontecem juntas nos primeiros minutos, a terceira corre em paralelo dentro da primeira hora e a quarta ocupa os dias seguintes. A diretriz europeia de 2026 descreve a mesma lógica em três fases — manejo inicial, estabilização e pré-alta.

  1. Estabilizar a respiração — primeiros minutos

    Sentar o paciente com as pernas pendentes, oxigênio se SpO₂ abaixo de 90% e ventilação não invasiva precoce. É a intervenção que alivia mais rápido e reduz a necessidade de intubação.

  2. Reduzir a pressão de enchimento — em paralelo

    Vasodilatador quando a pressão arterial permite — nitrato é a droga central no EAP hipertensivo. Diurético de alça conforme o estado volêmico real, e não por reflexo.

  3. Identificar e tratar o precipitante — primeira hora

    Eletrocardiograma, troponina, ultrassom à beira do leito e o mnemônico CHAMPIT. Síndrome coronariana, arritmia e causa mecânica exigem intervenção específica e urgente.

  4. Completar a descongestão e otimizar — dias seguintes

    Avaliar a resposta ao diurético, atingir euvolemia real e iniciar ou otimizar a terapia de insuficiência cardíaca antes da alta — é o que reduz reinternação e mortalidade.

A ordem importa: no EAP hipertensivo, VNI e vasodilatador vêm antes do diurético. Correr para a furosemida em um paciente euvolêmico com pressão de 220 por 120 trata o sintoma errado.

Em 30 segundos

O essencial de causas

  1. Todo EAP exige percorrer o CHAMPIT: coronária, hipertensão, arritmia, causa mecânica, embolia pulmonar, infecção e tamponamento.
  2. O eletrocardiograma em até 10 minutos resolve boa parte da lista.
  3. Má adesão, excesso de sal, anti-inflamatórios e sobrecarga iatrogênica são os gatilhos mais comuns do dia a dia.
  4. O substrato cardíaco (estenose aórtica, CMHO, VD dependente de pré-carga) pode inverter a conduta habitual.

CHAMPIT — os precipitantes que exigem ação imediata

O mnemônico das diretrizes europeias reúne as causas de insuficiência cardíaca descompensada que têm tratamento específico e urgente. Percorrê-lo é obrigatório em todo EAP, porque o tratamento sintomático alivia, mas não impede a recidiva enquanto o gatilho continua agindo.

LetraCausaAção específica
CSíndrome coronariana agudaEletrocardiograma em até 10 minutos e troponina. Com supradesnivelamento, reperfusão imediata; sem supra, estratégia invasiva precoce quando há instabilidade.
HEmergência hipertensivaÉ o cenário do EAP hipertensivo e do SCAPE. Vasodilatador endovenoso com redução controlada da pressão arterial.
AArritmiaFibrilação atrial de alta resposta, taquicardia ventricular ou bradiarritmia grave. Cardioversão elétrica se houver instabilidade; marca-passo transcutâneo na bradicardia.
MCausa mecânicaRuptura de músculo papilar ou de cordoalha, insuficiência mitral aguda, comunicação interventricular pós-infarto, disfunção de prótese, dissecção de aorta. Ecocardiograma urgente e cirurgia.
PTromboembolismo pulmonarConsiderar em dispneia súbita com hipoxemia desproporcional e sinais de sobrecarga de ventrículo direito.
IInfecçãoPneumonia, endocardite e sepse são precipitantes clássicos. Antibiótico precoce e busca de foco.
TTamponamento cardíacoTurgência jugular com ausculta pulmonar limpa e bulhas abafadas. Ultrassom cardíaco imediato e pericardiocentese.

Um eletrocardiograma nos primeiros 10 minutos resolve boa parte do CHAMPIT: identifica isquemia, arritmia e sobrecarga. É o exame de maior rendimento por minuto investido nesse cenário.

O que o eletrocardiograma pode mostrar

No EAP, o traçado tem três perguntas a responder: há oclusão coronariana que pede reperfusão imediata, há isquemia difusa por demanda ou por doença multiarterial, e há arritmia que seja causa — e não consequência — da descompensação. A sobrecarga ventricular esquerda com strain é o pano de fundo habitual do hipertenso e não deve ser confundida com lesão aguda.

Traçados que mudam a conduta no EAP

Compare os padrões mais frequentes; cada um leva a um caminho diferente.

Supra anterior

EAP no contexto de infarto com supra: o precipitante é a oclusão coronariana, e a prioridade é reperfusão imediata, em paralelo à VNI.

  • Supradesnível de ST de V1 a V4, maior em V2–V3
  • Ondas T amplas nas precordiais
  • Infradesnível discreto recíproco em II, III e aVF

Traçados esquemáticos gerados por computador (25 mm/s, 10 mm/mV) para estudo e comparação. Confirme sempre no ECG de 12 derivações do paciente.

Gatilhos do dia a dia

Fora do CHAMPIT, os precipitantes mais comuns são banais e evitáveis — e quase sempre só aparecem se forem perguntados. A anamnese dos últimos dias (remédios suspensos, comida, soros recebidos, anti-inflamatório comprado na farmácia) costuma explicar a descompensação melhor do que qualquer exame.

Má adesão ao tratamento

Suspensão de diurético, de betabloqueador ou de inibidor do sistema renina-angiotensina. É a causa mais comum de descompensação em ambulatório.

Transgressão de sal e líquido

Ingesta excessiva de sódio, muito frequente e frequentemente não perguntada. Vale investigar a alimentação dos últimos dias.

Fármacos

Anti-inflamatórios não esteroidais, corticoide, glitazonas, alguns antiarrítmicos, bloqueador de canal de cálcio não di-hidropiridínico em disfunção sistólica e quimioterápicos cardiotóxicos.

Sobrecarga iatrogênica

Hidratação venosa excessiva, transfusão rápida e sobrecarga circulatória associada à transfusão. Muito frequente no paciente internado.

Condições sistêmicas que descompensam o coração

Algumas doenças fora do coração aumentam a demanda de débito ou retêm sódio e água até que o ventrículo não acompanhe. Elas raramente são o diagnóstico de entrada, mas corrigi-las faz parte do tratamento — e a estenose de artéria renal bilateral explica boa parte do edema pulmonar "flash" de repetição.

Anemia e sangramento

Reduzem a oferta de oxigênio e aumentam o débito exigido do coração. Corrigir a causa é parte do tratamento.

Doença renal

Sobrecarga volêmica na doença renal avançada, com síndrome cardiorrenal. Pode exigir ultrafiltração ou diálise urgente.

Estenose de artéria renal bilateral

Causa clássica de edema pulmonar flash de repetição, com hipertensão de difícil controle e piora renal após inibidor do sistema renina-angiotensina.

Tireotoxicose e disfunção tireoidiana

Taquiarritmia e aumento do débito cardíaco; o hipotireoidismo grave também descompensa.

Gestação e periparto

Cardiomiopatia periparto, pré-eclâmpsia com edema pulmonar e sobrecarga volêmica no pós-parto imediato.

Substratos cardíacos por trás do quadro

O mesmo EAP pode nascer de corações muito diferentes, e em alguns deles a conduta padrão faz mal. Antes de escalar vasodilatador ou inotrópico, pergunte qual é o substrato: obstrução fixa à ejeção, obstrução dinâmica e ventrículo direito dependente de pré-carga são as três armadilhas clássicas. Na classificação europeia de 2026, a insuficiência cardíaca passou a ser dividida em FE reduzida (abaixo de 50%) e FE preservada (50% ou mais).

SubstratoPista clínicaImplicação
Fração de ejeção reduzidaCardiopatia isquêmica, chagásica, dilatada ou alcoólica; terceira bulha, ictus desviado.Terapia de insuficiência cardíaca com quatro classes deve ser iniciada e otimizada antes da alta.
Fração de ejeção preservadaIdoso, hipertenso, obeso, diabético, com fibrilação atrial. Congestão com função sistólica normal.Controle pressórico e de frequência é central; inibidor de SGLT2 tem benefício demonstrado.
Estenose aórtica graveSopro sistólico rude irradiado para carótidas, síncope e angina.Cautela com vasodilatador — a queda de pós-carga pode reduzir muito o débito. Encaminhar para intervenção valvar.
Insuficiência mitral agudaEAP súbito e grave, sopro que pode ser discreto, contexto de infarto recente ou endocardite.Emergência cirúrgica. Vasodilatador e balão intra-aórtico como ponte.
Cardiomiopatia hipertrófica obstrutivaSopro que aumenta com Valsalva, história familiar de morte súbita.Vasodilatador e inotrópico pioram a obstrução. Betabloqueador e volume, ao contrário do habitual.
Estenose mitralHistória de febre reumática, fibrilação atrial, ruflar diastólico.A taquicardia é o inimigo: reduz o tempo de enchimento. Controle de frequência é prioritário.
Ventrículo direito dependente de pré-cargaInfarto de ventrículo direito, hipertensão pulmonar.Reduzir pré-carga de forma agressiva pode causar colapso. Individualize o vasodilatador.

O ecocardiograma à beira do leito identifica rapidamente quase todos esses substratos e muda a conduta em uma parcela relevante dos casos. Vale incorporá-lo à rotina do atendimento.

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O essencial de diagnóstico

  1. O diagnóstico é clínico e imediato: dispneia súbita, ortopneia, crepitações bilaterais e sudorese fria dispensam exame para começar o tratamento.
  2. O ultrassom pulmonar (linhas B homogêneas e bilaterais) confirma congestão mais rápido e melhor que a radiografia.
  3. NT-proBNP abaixo de 300 pg/mL (ou BNP abaixo de 100) torna a origem cardíaca improvável.
  4. Radiografia normal nas primeiras horas não afasta EAP; sibilos em idoso cardiopata podem ser asma cardíaca.

Reconhecimento à beira do leito

O diagnóstico do EAP é clínico e imediato. A apresentação clássica dispensa exame complementar para iniciar o tratamento — os exames servem para confirmar, encontrar o precipitante e afastar diferenciais. A diretriz europeia de 2026 define o quadro por desconforto respiratório (dispneia com ortopneia, hipoxemia com ou sem hipercapnia, frequência respiratória acima de 25 irpm e aumento do trabalho respiratório) causado por congestão pulmonar maciça de instalação rápida.

AchadoComentárioUtilidade
Dispneia súbita e ortopneiaFrequentemente noturna, com o paciente sentado e recusando deitar.Muito sensível; ortopneia franca é um dos melhores sinais clínicos.
Crepitações bilateraisDe bases para ápices conforme a gravidade; podem vir com sibilos, a chamada asma cardíaca.Sensível, porém pouco específica: pneumonia e fibrose também crepitam.
Sudorese fria e palidezDescarga adrenérgica intensa; pele fria e pegajosa.Sinaliza gravidade e ativação simpática.
Expectoração rósea espumosaManifestação tardia, de EAP alveolar franco.Muito específica quando presente, mas pouco sensível.
Terceira bulhaGalope protodiastólico, difícil de auscultar em ambiente ruidoso.Bastante específica para pressões de enchimento elevadas.
Turgência jugularReflete pressão venosa central elevada.Útil, mas pode faltar no EAP por redistribuição sem hipervolemia.
Edema de membros e ganho de pesoIndica acúmulo progressivo, e não redistribuição aguda.Ajuda a definir se o paciente está de fato hipervolêmico.
Hipertensão gravePressão sistólica frequentemente acima de 180 mmHg no EAP hipertensivo.Define o fenótipo e orienta o uso de vasodilatador em dose alta.
Hipotensão e extremidades friasSinaliza baixo débito e possível choque cardiogênico.Muda completamente a conduta: nada de vasodilatador.

Sibilos difusos em idoso cardiopata podem ser asma cardíaca, e não broncoespasmo. Tratar como crise asmática, com beta-agonista em dose alta, piora a taquicardia e atrasa o tratamento correto.

Ultrassom à beira do leito

É o exame que mais rapidamente confirma congestão e diferencia as causas de dispneia aguda, com desempenho superior ao da radiografia no cenário de emergência. A diretriz europeia de 2026 destaca que, onde há pessoal treinado, o ultrassom pulmonar identifica congestão e serve para avaliações seriadas — o número de linhas B cai à medida que o paciente descongestiona.

Pulmonar

  • Linhas B múltiplas e bilaterais — três ou mais por espaço intercostal em dois ou mais espaços de cada lado caracterizam síndrome intersticial.
  • Padrão homogêneo com pleura lisa e regular favorece origem cardiogênica.
  • Padrão heterogêneo, com áreas poupadas, pleura irregular e consolidações subpleurais, favorece SDRA ou pneumonia.
  • Derrame pleural bilateral é comum na congestão.
  • Serve também para acompanhar a resposta: a redução das linhas B acompanha a descongestão.

Cardíaco e vascular

  • Função sistólica — estimativa visual já orienta o uso de inotrópico.
  • Veia cava inferior — dilatada e pouco colapsável sugere pressão venosa central elevada; colapsável fala contra congestão significativa.
  • Valvopatias e complicações mecânicas — insuficiência mitral aguda, prótese disfuncional, comunicação interventricular.
  • Derrame pericárdico — afasta ou confirma tamponamento.
  • Ventrículo direito — dilatação sugere tromboembolismo ou hipertensão pulmonar.

Protocolos de ultrassom para dispneia aguda combinam pulmão, coração e veia cava e conseguem separar EAP, pneumonia, doença pulmonar obstrutiva, pneumotórax e tromboembolismo em poucos minutos — muitas vezes antes do resultado de qualquer exame laboratorial.

Peptídeo natriurético: cortes e fatores de confusão

Os peptídeos natriuréticos servem sobretudo para afastar origem cardíaca em dispneia de causa indefinida. Os cortes de exclusão não dependem da idade; os de confirmação do NT-proBNP sobem com ela, e alguns fatores deslocam o valor para cima (disfunção renal) ou para baixo (obesidade). No EAP franco, o tratamento não deve aguardar o resultado.

ExameExclusão (qualquer idade)Confirmação provável
NT-proBNP< 300 pg/mL> 450 pg/mL (< 50 anos) • > 900 pg/mL (50–74 anos) • > 1800 pg/mL (≥ 75 anos)
BNP< 100 pg/mL> 400–500 pg/mL, sem ajuste por idade
MR-proANP< 120 pg/mL—

Cortes da diretriz europeia de 2026. NT-proBNP acima de 5000 pg/mL indica risco muito alto, e a internação costuma estar indicada. Valores elevados também ocorrem em fibrilação atrial, tromboembolismo pulmonar, sepse, hipertensão pulmonar e idade avançada.

Interpretação do peptídeo natriurético

Compare o valor do paciente com os cortes da tabela acima e marque se há fator de confusão. A ferramenta devolve a leitura e o próximo passo.

Escolha a faixa do valor e o fator de confusão.

O exame nunca substitui a clínica e o ultrassom. No EAP franco, o tratamento não deve aguardar o resultado.

Exames complementares

Os exames da primeira hora têm duas funções: confirmar a congestão e caçar o precipitante. Por isso o eletrocardiograma vem antes de tudo, e a troponina precisa ser lida em curva — uma elevação discreta por sobrecarga é comum e não significa, por si, infarto.

Eletrocardiograma

Em até 10 minutos. Procure supradesnivelamento, isquemia, arritmia, sobrecargas e bloqueios. É o exame de maior rendimento imediato.

Troponina

Elevações discretas são comuns por sobrecarga e não significam necessariamente infarto. Interprete a curva junto com a clínica e o eletrocardiograma.

Radiografia de tórax

Congestão hilar, redistribuição vascular, linhas B de Kerley, derrames e cardiomegalia. Pode ser normal nas primeiras horas — radiografia limpa não afasta EAP.

Laboratório geral

Função renal, eletrólitos, hemograma, glicemia, função hepática, função tireoidiana, lactato e gasometria arterial nos casos graves.

Ecocardiograma

Urgente diante de instabilidade, suspeita de causa mecânica ou dúvida diagnóstica. Nos demais casos, durante a internação.

Sódio urinário

Colhido 2 horas após a dose de diurético, avalia a resposta natriurética e orienta o ajuste da dose. Ferramenta subutilizada e muito útil.

Diagnóstico diferencial da dispneia aguda

Quando a resposta ao tratamento não vem, a primeira hipótese a revisar é o diagnóstico. As condições abaixo imitam o EAP ou coexistem com ele, e quase todas se separam com ultrassom à beira do leito em poucos minutos. A crise de ansiedade é diagnóstico de exclusão — jamais assumida em idoso cardiopata.

CondiçãoPistas a favorComo diferenciar rápido
Pistas a favorFebre, tosse produtiva, dor pleurítica, crepitações localizadas.
Como diferenciar rápidoUltrassom com consolidação focal e broncograma aéreo; leucocitose e proteína C reativa.
Pistas a favorSibilos difusos, tempo expiratório prolongado, história de tabagismo ou atopia.
Como diferenciar rápidoUltrassom com padrão A e ausência de linhas B; peptídeo natriurético baixo.
Pistas a favorInício súbito, dor pleurítica, hipoxemia com ausculta relativamente limpa, fator de risco trombótico.
Como diferenciar rápidoUltrassom com ventrículo direito dilatado; angiotomografia.
Pistas a favorContexto de sepse, aspiração ou pancreatite; sem sinais de congestão sistêmica.
Como diferenciar rápidoLinhas B heterogêneas, ecocardiograma sem disfunção, peptídeo natriurético baixo.
Pistas a favorDor súbita, murmúrio abolido de um lado, hipertimpanismo.
Como diferenciar rápidoUltrassom sem deslizamento pleural.
Pistas a favorTurgência jugular com ausculta pulmonar limpa, bulhas abafadas, pulso paradoxal.
Como diferenciar rápidoUltrassom cardíaco com derrame e colapso de câmaras direitas.
Anemia grave
Pistas a favorPalidez, taquicardia, sopro sistólico funcional.
Como diferenciar rápidoHemograma; pode também ser precipitante do EAP.
Crise de ansiedade
Pistas a favorParestesias, alcalose respiratória, exame físico normal.
Como diferenciar rápidoDiagnóstico de exclusão — jamais assumir em idoso cardiopata.

Em 30 segundos

O essencial de perfil hemodinâmico

  1. Duas perguntas definem a conduta: o paciente está congesto (úmido)? Está hipoperfundido (frio)?
  2. O perfil B — quente e úmido — é o da maioria dos EAP: VNI, vasodilatador e diurético conforme a volemia.
  3. No perfil C — frio e úmido — o vasodilatador está contraindicado; o caminho é inotrópico e suporte da perfusão.
  4. Hipotensão não é sinônimo de hipoperfusão: o que define o perfil frio é o conjunto de sinais de má perfusão.

Os perfis de Stevenson

Toda a decisão terapêutica na insuficiência cardíaca descompensada cabe em duas perguntas: o paciente está congesto e o paciente está hipoperfundido? Cruzando as respostas surgem quatro perfis, cada um com uma conduta distinta. A diretriz europeia de 2026 mantém congestão e hipoperfusão como as duas grandes manifestações do quadro e reforça que hipoperfusão não é sinônimo de hipotensão — o lactato ajuda a identificá-la e a monitorar a resposta.

Sinais de congestão (úmido)

  • Ortopneia e dispneia paroxística noturna.
  • Turgência jugular e refluxo hepatojugular.
  • Crepitações pulmonares e derrame pleural.
  • Edema de membros, ascite e hepatomegalia.
  • Linhas B múltiplas ao ultrassom e veia cava dilatada.

Sinais de hipoperfusão (frio)

  • Extremidades frias, pálidas ou moteadas.
  • Pressão de pulso estreita (menos de 25% da sistólica).
  • Rebaixamento do nível de consciência e sonolência.
  • Oligúria e piora da função renal.
  • Lactato elevado e hiponatremia.

Atenção à armadilha: hipotensão não é sinônimo de hipoperfusão. Muitos pacientes com insuficiência cardíaca crônica vivem com pressão sistólica de 90 mmHg e perfusão adequada. O que define o perfil frio é o conjunto de sinais de má perfusão, não o número isolado.

Os quatro quadrantes e o que fazer em cada um

A matriz é simples, mas cada quadrante pede uma estratégia quase oposta à do vizinho. O erro mais grave é tratar o perfil C como se fosse B — vasodilatar um paciente que já não perfunde — e o mais comum é continuar diuretizando o perfil L, que ficou seco à custa do próprio tratamento.

Perfil A — quente e seco

Sem congestão e sem hipoperfusão. Compensado. Conduta: ajustar a terapia oral, procurar outra causa para os sintomas e planejar seguimento.

Perfil B — quente e úmido

Congesto com perfusão preservada. É o perfil da maioria dos casos de EAP. Conduta: VNI, vasodilatador e diurético de alça conforme o estado volêmico.

Perfil L — frio e seco

Hipoperfundido sem congestão. Frequentemente hipovolêmico ou superdiuretizado. Conduta: teste cauteloso de volume; suspender ou reduzir diurético e vasodilatador.

Perfil C — frio e úmido

Congesto e hipoperfundido. É o de pior prognóstico e o mais próximo do choque cardiogênico. Conduta: inotrópico, vasopressor se necessário, diurético após restaurar a perfusão e discussão de suporte mecânico.

Ferramenta — perfil e conduta correspondente

Marque se há pelo menos um sinal de congestão e pelo menos um sinal de hipoperfusão, conforme as listas acima. A ferramenta define o perfil hemodinâmico e devolve a conduta recomendada para ele — lembrando que basta um sinal convincente de má perfusão para tirar o paciente do perfil quente.

Perfil hemodinâmico de Stevenson

Congestão: ortopneia ou dispneia paroxística noturna; turgência jugular ou refluxo hepatojugular; crepitações, derrame ou linhas B múltiplas; edema, ascite ou hepatomegalia. Hipoperfusão: extremidades frias ou moteadas; pressão de pulso menor que 25% da sistólica; rebaixamento sem outra causa; oligúria, piora renal ou lactato elevado.

Responda às duas perguntas para ver o perfil.

Classificação clínica e reprodutível, mas não substitui a reavaliação frequente.

A classificação de Stevenson é clínica e reprodutível, mas não substitui a reavaliação frequente: o perfil muda ao longo das horas, inclusive em resposta ao tratamento. Reavalie perfusão e congestão a cada intervenção relevante.

Em 30 segundos

O essencial de vni e vasodilatador

  1. Oxigênio se SpO₂ abaixo de 90% ou PaO₂ abaixo de 60 mmHg; oxigênio indiscriminado em quem não está hipoxêmico pode fazer mal.
  2. VNI precoce (CPAP 5–10 cmH₂O ou BiPAP) reduz intubação e alivia mais rápido que qualquer droga.
  3. Nitrato em dose efetiva quando a PAS está acima de 110 mmHg; no SCAPE, 100 a 400 mcg/min ou bólus de 400 a 1000 mcg.
  4. Pergunte sempre por sildenafila e similares antes do nitrato.

Ventilação não invasiva

É a intervenção que alivia mais rápido no EAP cardiogênico e a que mais reduz a necessidade de intubação. Deve ser instalada nos primeiros minutos, em paralelo à medicação, e não depois dela. A diretriz europeia de 2026 recomenda a VNI no edema agudo de pulmão com insuficiência respiratória (classe IIa nos pacientes com frequência respiratória acima de 25 irpm e SpO₂ abaixo de 90%), iniciada o quanto antes, e restringe o oxigênio aos hipoxêmicos.

5–10 cmH₂OCPAP inicial — titular pelo conforto e pela saturação
8–12 cmH₂OBiPAP — pressão de suporte acima da EPAP, se hipercapnia ou fadiga
< 90%SpO₂ que indica oxigênio; alvo de 94–98% (88–92% no retentor crônico de CO₂), sem hiperóxia
30–60 minReavaliação — sem melhora clara, reconsidere intubação
Menor FiO₂Reduzir assim que a saturação permitir
SentadoPernas pendentes reduzem o retorno venoso
Por que a pressão positiva funciona tão bem aqui

Recruta alvéolos inundados, reduz o retorno venoso e diminui a pós-carga do ventrículo esquerdo ao reduzir a pressão transmural. É simultaneamente suporte respiratório e tratamento hemodinâmico. O reverso: no paciente com pouca reserva de pré-carga, hipotenso ou com descompensação direita, a mesma pressão pode derrubar o débito.

CPAP ou BiPAP

A escolha entre as duas modalidades importa menos do que o tempo até instalar qualquer uma delas. Grandes ensaios, como o 3CPO, e a revisão Cochrane não mostraram diferença de mortalidade entre CPAP e BiPAP; o que pesa é a disponibilidade e a presença de hipercapnia ou fadiga, que favorecem o suporte inspiratório.

CPAP — primeira escolha

Simples, disponível e eficaz. É a modalidade mais estudada no EAP cardiogênico e costuma bastar na maioria dos casos. Comece com 5 a 8 cmH₂O e titule até 10, conforme conforto, saturação e trabalho respiratório.

BiPAP — alternativa

Preferido quando há hipercapnia, acidose respiratória, fadiga muscular evidente ou doença pulmonar obstrutiva associada. IPAP de 12 a 20 e EPAP de 5 a 10 cmH₂O, com pressão de suporte resultante de 8 a 12.

Calculadora — oxigenação e resposta à VNI

Durante a VNI, a pergunta dos primeiros 30 a 60 minutos é se a oxigenação e o trabalho respiratório melhoram. As relações PaO₂/FiO₂ e SpO₂/FiO₂ e o índice ROX dão um número para acompanhar a tendência — úteis para documentar a resposta e para decidir, com a clínica, quando a falha da VNI é real.

FiO₂ por dispositivo • PaO₂/FiO₂ e SpO₂/FiO₂ • Índice ROX

Selecione o dispositivo para estimar a FiO₂ ou informe o valor exato quando estiver em VNI, cânula de alto fluxo ou ventilação mecânica. O índice ROX = (SpO₂/FiO₂) ÷ frequência respiratória foi validado para prever falha da cânula nasal de alto fluxo.

PaO₂/FiO₂—
SpO₂/FiO₂—
Índice ROX—
Leitura rápida—

No EAP cardiogênico a oxigenação costuma melhorar em minutos com VNI e vasodilatador; a ausência de melhora em 30 a 60 minutos pede revisão do diagnóstico e da via aérea. As FiO₂ dos dispositivos de baixo fluxo são estimativas, e o ROX foi desenvolvido para cânula de alto fluxo na pneumonia — extrapolações exigem cautela.

Contraindicações à VNI e quando intubar

A VNI só funciona em quem protege a via aérea, colabora e mantém hemodinâmica minimamente estável. Fora disso — ou quando ela foi bem feita e falhou — a intubação deixa de ser derrota e passa a ser o tratamento: a diretriz europeia de 2026 recomenda intubar na insuficiência respiratória persistente e progressiva apesar de oxigênio ou VNI.

Contraindicações à VNI

  • Rebaixamento do nível de consciência com incapacidade de proteger a via aérea.
  • Parada cardiorrespiratória ou instabilidade hemodinâmica grave.
  • Vômitos incoercíveis e alto risco de aspiração.
  • Trauma ou cirurgia facial recente, deformidade que impeça a vedação.
  • Obstrução de via aérea superior e pneumotórax não drenado.
  • Agitação intensa e não cooperação.

Quando intubar

  • Ausência de melhora após 30 a 60 minutos de VNI bem ajustada.
  • Rebaixamento progressivo do nível de consciência.
  • Hipoxemia refratária ou acidose respiratória progressiva.
  • Exaustão muscular respiratória.
  • Instabilidade hemodinâmica ou choque cardiogênico.
  • Necessidade de proteção de via aérea.

A indução da intubação em EAP grave é um momento de alto risco de colapso: a perda do tônus adrenérgico somada à pressão positiva pode derrubar a pressão arterial. Otimize antes, escolha o indutor com cuidado e tenha vasopressor preparado.

Intubação no EAP sem colapsar

A indução em EAP grave é um dos momentos de maior risco de colapso hemodinâmico da emergência, porque retira o tônus adrenérgico de um coração já dependente dele. Otimizar antes vale mais do que escolher bem a droga — e a intubação precoce e planejada é mais segura do que a tardia, em paciente exausto e já hipotenso. Os detalhes da sequência rápida estão no Guia de Intubação Rápida do site.

  1. Antes de induzir

    Otimize a oxigenação com VNI, corrija o que for corrigível e deixe vasopressor preparado ou já em infusão.

  2. Pré-oxigenação

    Com a própria VNI, mantida até o momento da laringoscopia sempre que possível.

  3. Indutor

    0,2 a 0,3 mg/kg pela estabilidade hemodinâmica, ou 1 a 2 mg/kg; no paciente chocado, doses menores. No RSI trial, os dois tiveram mortalidade semelhante, com menos colapso cardiovascular com etomidato. Evitar propofol em dose plena.

  4. Bloqueador

    1,2 mg/kg ou 1,5 mg/kg, conforme contraindicações.

  5. Após a intubação

    Volume corrente de 6 a 8 mL/kg de peso predito e PEEP inicial de 8 a 10 cmH₂O — que mantém o efeito benéfico da pressão positiva sobre a pós-carga. Analgo-sedação com alvo leve.

  6. Vigilância

    Hipotensão pós-intubação é frequente. Se ocorrer, reavalie o perfil hemodinâmico: pode indicar que o paciente estava no perfil frio e não foi reconhecido.

Vasodilatadores — a droga central do EAP hipertensivo

O nitrato reduz a pré-carga em doses baixas e, em doses mais altas, também a pós-carga — que é justamente o problema no EAP hipertensivo. A resposta costuma ser rápida e visível em minutos.

A diretriz europeia de 2026 trata o vasodilatador IV (nitroglicerina ou nitroprussiato) como opção inicial quando a PAS está acima de 110 mmHg (classe IIb), especialmente no edema agudo de pulmão, em que a pressão de enchimento e a pressão sistêmica estão altas sem acúmulo de volume. Nenhum grande ensaio mostrou benefício em desfechos duros, mas meta-análise associou o vasodilatador a menos intubação — exatamente o desfecho que importa na sala de emergência.

FármacoDoseObservações
5 mg, repetível a cada 5 minutos enquanto a pressão permitir.Disponível em praticamente todo serviço. Excelente ponte enquanto a bomba de infusão é montada.
Início de 10 a 20 mcg/min, com aumentos de 10 a 20 mcg/min a cada 3 a 5 minutos. Faixa usual até 200 mcg/min.Droga de escolha para infusão contínua. Titulação rápida e meia-vida curta, o que a torna segura.
Nitroglicerina em protocolo SCAPEBólus de 400 a 1000 mcg a cada 2 a 5 minutos, e/ou infusão iniciada diretamente em 100 a 400 mcg/min.Reservado ao EAP hipertensivo grave com pressão sistólica bem elevada. Exige monitorização contínua.
0,3 a 5 mcg/kg/min, com aumentos graduais (máximo de 10 mcg/kg/min por até 10 minutos); evitar uso prolongado.Vasodilatador arterial potente. Útil em emergência hipertensiva refratária e em insuficiência mitral aguda. Risco de intoxicação por cianeto e necessidade de proteção da luz.
Contraindicações absolutas ao nitrato

Uso de inibidor de fosfodiesterase-5 nas últimas 24 horas (48 horas para tadalafila), pressão sistólica abaixo de 90 mmHg, estenose aórtica grave, cardiomiopatia hipertrófica obstrutiva e infarto de ventrículo direito. Monitore a pressão de perto durante a infusão: a hipotensão por vasodilatação também faz mal.

Nitroglicerina em infusão: velocidade e faixa de dose

A nitroglicerina tem dose fixa em mcg/min, não calculada por peso, e a conta da bomba depende só da diluição: mL/h = dose (mcg/min) × 60 ÷ concentração (mcg/mL). Na diluição de 100 mcg/mL, basta multiplicar a dose por 0,6. A faixa da dose diz o que a droga está fazendo: abaixo de 50 mcg/min predomina a venodilatação; acima de 100, há arteriodilatação relevante — a faixa do SCAPE.

Dose (mcg/min)50 mcg/mL
(25 mg/500 mL)
100 mcg/mL
(25 mg/250 mL)
200 mcg/mL
(50 mg/250 mL)
400 mcg/mL
(50 mg/125 mL)
Dose por hora
1012 mL/h6 mL/h3 mL/h1,5 mL/h0,6 mg/h
2024 mL/h12 mL/h6 mL/h3 mL/h1,2 mg/h
5060 mL/h30 mL/h15 mL/h7,5 mL/h3 mg/h
100120 mL/h60 mL/h30 mL/h15 mL/h6 mg/h
200240 mL/h120 mL/h60 mL/h30 mL/h12 mg/h
400480 mL/h240 mL/h120 mL/h60 mL/h24 mg/h

Bólus do SCAPE: 500 mcg = 5 mL da solução de 100 mcg/mL (ou 2,5 mL da de 200 mcg/mL). Em doses altas, prefira as soluções mais concentradas para não infundir volume.

Em que faixa está a sua nitroglicerina?

Escolha a faixa da dose em curso e a pressão sistólica atual. A leitura sinaliza o efeito esperado e quando reduzir.

Escolha a dose e a pressão sistólica.

No Brasil a nitroglicerina costuma vir em ampolas de 25 mg/5 mL ou 50 mg/10 mL (5 mg/mL). Diluir em SG 5% ou SF 0,9%, preferindo equipo de polietileno: a droga adsorve ao PVC e a dose entregue pode ser menor. Monitorização contínua de pressão arterial é obrigatória em doses altas.

SCAPE — edema agudo hipertensivo grave

A sigla em inglês descreve o edema agudo de pulmão por descarga simpática: instalação em minutos, pressão sistólica frequentemente acima de 180 a 200 mmHg, sudorese profusa, agitação e insuficiência respiratória franca. É a forma mais dramática e, paradoxalmente, a que responde mais rápido ao tratamento correto — porque o problema dominante é a pós-carga, e só doses altas de nitrato alcançam arteriodilatação significativa.

Reconhecimento

Início súbito, sem ganho de peso e sem edema periférico. O paciente está com o volume redistribuído, não aumentado.

VNI imediata

Instalar antes ou junto com a medicação. Combinada ao nitrato em dose alta, reduz de forma consistente a necessidade de intubação.

Nitrato em dose alta

Bólus de 400 a 1000 mcg a cada 2 a 5 minutos, e/ou infusão de 100 a 400 mcg/min. Alvo de reduzir a sistólica em cerca de 20% a 25% na primeira hora.

Diurético em segundo plano

O paciente costuma ser euvolêmico. Dose baixa ou nenhuma; correr para a furosemida aqui é o erro clássico.

Resposta esperada

Melhora dramática em minutos a poucas horas. Muitos pacientes evitam a terapia intensiva e alguns recebem alta da própria emergência após observação.

Desmame

Conforme o quadro resolve, a pressão cai sozinha. Reduza o nitrato ativamente para evitar hipotensão.

A evidência para o protocolo de dose alta vem de séries de casos e de ensaios randomizados de pequeno porte (como o de Siddiqua e colaboradores, 2024), com sinal consistente de menos intubação e menos internação em terapia intensiva. É estratégia amplamente adotada na medicina de emergência; a diretriz europeia de 2026 apoia o vasodilatador no edema agudo de pulmão, mas não especifica o esquema de dose alta.

Em 30 segundos

O essencial de descongestão e conduta

  1. Diurético de alça IV é a base da descongestão quando há hipervolemia real: 40 mg de furosemida no virgem de diurético e cerca de 2× a dose oral diária em quem já usa.
  2. Meça a resposta: sódio urinário ≥ 70 mmol/L em 2 h ou diurese ≥ 100 mL/h nas primeiras 6 h; abaixo disso, dobre a dose ou associe acetazolamida ou tiazídico.
  3. Perfil frio: vasodilatador proibido — inotrópico, noradrenalina se hipotenso e discussão precoce de suporte mecânico.
  4. Inibidor de SGLT2 ainda na internação, após a estabilização, e titulação rápida da terapia antes da alta.

Diurético — dose certa, no paciente certo

O diurético de alça é a base da descongestão quando existe hipervolemia real. A dose deve ser calibrada pelo uso domiciliar prévio: quem já toma furosemida diariamente tem resistência parcial e precisa de dose maior. A diretriz europeia de 2026 simplificou a regra — 40 mg IV no paciente virgem de diurético e o dobro da dose oral habitual em quem já usa, com dose inicial maior na doença renal crônica.

  1. Defina se há hipervolemia

    Ganho de peso, edema, turgência jugular e veia cava dilatada. No EAP por redistribuição, o diurético é secundário.

  2. Use a via endovenosa

    A absorção oral é errática na congestão intestinal.

  3. Dose inicial — passo crítico

    Virgem de diurético: 40 mg de IV. Em uso crônico: cerca de 2 vezes a dose oral diária, em mg, por via IV (faixa estudada de 1 a 2,5 vezes).

  4. Reavalie em 2 e em 6 horas

    Sódio urinário em 2 horas (alvo ≥ 70 mmol/L) ou diurese nas primeiras 6 horas (alvo ≥ 100 mL/h).

  5. Resposta insuficiente

    Dobre a dose e/ou associe diurético de outra classe ( ou ). Não adianta repetir a mesma dose que não funcionou.

  6. Resposta adequada

    Repita o esquema a cada 12 horas até a descongestão completa; com menos de 3 litros de diurese em 24 horas e congestão persistente, escalone no segundo dia.

  7. Monitore

    Creatinina e eletrólitos pelo menos a cada 24 horas, potássio, magnésio, sódio, diurese e peso diário.

  8. Alvo

    Euvolemia real antes da alta; congestão residual é o principal preditor de reinternação.

O ensaio DOSE comparou bólus contra infusão contínua e dose baixa contra dose alta (2,5 vezes a oral): não houve diferença no desfecho primário, mas a estratégia de dose alta produziu descongestão mais efetiva, à custa de elevação transitória da creatinina — que, isoladamente, não indica pior prognóstico se a descongestão é alcançada.

Dose de furosemida pela dose domiciliar

A pergunta que muda a dose é simples e frequentemente esquecida: quanto de furosemida o paciente já toma em casa, por dia? A tabela traz a dose IV inicial para cada estratégia, o volume na ampola de 20 mg/2 mL (10 mg/mL) e o tempo de infusão a no máximo 4 mg/min — bólus rápido de dose alta aumenta o risco de ototoxicidade.

Furosemida oral em casaConservadora (1×)Padrão ESC 2026 (2×)Intensiva DOSE (2,5×)Volume da dose 2×Tempo mínimo (≤ 4 mg/min)
Nenhuma (virgem)20–40 mg40 mg40 mg4 mL (2 ampolas)≈ 10 min
20 mg/dia20 mg40 mg50 mg4 mL (2 ampolas)≈ 10 min
40 mg/dia40 mg80 mg100 mg8 mL (4 ampolas)≈ 20 min
80 mg/dia80 mg160 mg200 mg16 mL (8 ampolas)≈ 40 min
120 mg/dia120 mg200 mg*200 mg*20 mL (10 ampolas)≈ 50 min
160 mg/dia ou mais160 mg200 mg*200 mg*20 mL (10 ampolas)≈ 50 min

*Teto prático de cerca de 200 mg por administração: doses isoladas maiores raramente acrescentam natriurese e aumentam a ototoxicidade — prefira repetir a dose ou passar para infusão contínua (5 a 20 mg/h após bólus). A dose diária máxima IV costuma ser 600 mg (até 1000 mg na disfunção renal grave). Exemplo: 40 mg/dia em casa, estratégia intensiva = 100 mg IV = 10 mL = 5 ampolas, em cerca de 25 minutos.

Ajuste pela função renal

Na disfunção renal, menos droga chega ao túbulo e doses maiores são necessárias para atingir concentração tubular eficaz. Com TFG de 30 a 59 mL/min/1,73 m², a dose inicial não deve ficar abaixo de 40 mg; com TFG abaixo de 30 ou em diálise, o piso é de 80 mg.

Reavaliação e escalonamento

A resposta precisa ser medida, não presumida. Repetir a mesma dose que falhou é o erro mais comum da descongestão, e a diretriz europeia de 2026 propõe um fluxo objetivo: medir natriurese ou diurese logo após a primeira dose e escalonar se o alvo não for atingido. A estratégia guiada por sódio urinário aumentou natriurese e diurese nos estudos PUSH-AHF e ENACT-HF (classe IIb), embora ainda sem benefício demonstrado em morte ou reinternação.

Em 2 horas

Colha sódio urinário em amostra isolada: 70 mmol/L ou mais indica boa resposta natriurética. Abaixo disso, a dose é insuficiente.

Em 6 horas

Avalie a diurese acumulada: menos de 100 mL/h nas primeiras 6 horas sugere resposta inadequada.

Se a resposta for insuficiente

Dobre a dose (até 400 mg IV por dose em casos selecionados) ou associe 500 mg IV ou ajustada pela TFG, e reavalie no mesmo intervalo.

Manutenção

A dose eficaz é repetida a cada 12 horas, ou fracionada a cada 8 horas. Alternativa: infusão contínua de 5 a 20 mg/h após um bólus inicial.

Antes de escalonar, confira as causas corrigíveis de resistência: excesso de sódio na dieta e nos soros, anti-inflamatórios, baixo débito, hipocalemia, hipomagnesemia e alcalose. Elevação transitória de creatinina durante a descongestão efetiva não indica, por si só, suspender o diurético.

Resistência ao diurético

Define-se pela persistência da congestão apesar de doses adequadas. Antes de escalonar, é obrigatório procurar as causas corrigíveis — boa parte da "resistência" é sódio entrando pela dieta e pelos soros, ou um rim mal perfundido que nenhuma dose de diurético vai resolver.

Excesso de sódio

Dieta hospitalar inadequada, soro fisiológico de manutenção e medicações diluídas em salina somam uma carga de sódio frequentemente ignorada.

Anti-inflamatórios

Bloqueiam o efeito natriurético do diurético de alça e pioram a função renal. Suspenda.

Baixo débito

Hipoperfusão renal por débito insuficiente. Aqui o problema não é o diurético — é a perfusão, e o caminho pode ser inotrópico.

Congestão venosa renal

Pressão venosa central muito elevada reduz o gradiente de perfusão renal. Descongestionar melhora a função renal, e não o contrário.

Alcalose e hipocalemia

Comuns com diurético em dose alta e limitam a resposta. Corrija potássio, magnésio e cloro.

Fenômeno de frenagem

Hipertrofia do túbulo distal após uso prolongado de diurético de alça. É o racional para o bloqueio sequencial do néfron.

Ferramenta prática e subutilizada: dose o sódio urinário 2 horas após a dose de diurético. Valores de 70 mmol/L ou mais indicam boa resposta; abaixo disso, a dose precisa ser dobrada ou a estratégia mudada.

Rotas de tratamento

Cada rota segue a ordem em que as intervenções entram no atendimento; o botão de cada fármaco abre a ficha completa: apresentação, diluição, posologia, velocidade em mL/h, contraindicações e cuidados. Os valores seguem apresentações usuais no Brasil — confira sempre o rótulo disponível no seu serviço.

Posição e oxigênio: o primeiro minuto

Duas medidas que custam nada, funcionam em segundos e frequentemente são puladas na pressa de prescrever. Sentar o paciente com as pernas pendentes reduz o retorno venoso, aumenta a capacidade residual funcional e melhora a mecânica do diafragma; deitá-lo para "examinar melhor" piora imediatamente a dispneia e a oxigenação. O oxigênio entra quando há hipoxemia — a diretriz europeia de 2026 lembra que oxigênio indiscriminado em quem não está hipoxêmico pode fazer mal.

  • Oxigênio quando a SpO₂ está abaixo de 90% ou a PaO₂ abaixo de 60 mmHg; máscara com reservatório a 10 a 15 L/min se necessário, buscando SpO₂ ≥ 94%.
  • Retentor de CO₂: alvo de 88% a 92%, sem privar o paciente de oxigênio na fase crítica.
  • Hiperóxia: evitar saturação de 100% desnecessária — causa vasoconstrição coronariana e não traz benefício.
  • Acesso e monitorização: dois acessos periféricos, oximetria, cardioscopia e pressão não invasiva; com vasodilatador em dose alta, pressão a cada 2 a 5 minutos.
  • Não atrasar: estas medidas correm em paralelo à VNI e à medicação, e não antes delas.

Um paciente em EAP que aceita deitar deve levantar suspeita: ou não é EAP, ou já está rebaixado o suficiente para preocupar.

Morfina — por que saiu do protocolo

A morfina era parte do mnemônico clássico do EAP, pelo racional de venodilatação, redução da ansiedade e do drive respiratório. Análises de grandes registros, como o ADHERE, associaram seu uso a mais ventilação mecânica, mais internação em terapia intensiva e maior mortalidade, mesmo após ajuste — e a diretriz europeia de 2026 não recomenda opioide de rotina, reservando-o a pacientes muito selecionados com ansiedade ou sofrimento intensos e refratários.

Riscos

Depressão respiratória, hipotensão, náusea e vômito com risco de aspiração, rebaixamento que dificulta a VNI.

Quando ainda considerar

Dor isquêmica persistente após nitrato, ou cuidados paliativos para alívio de dispneia refratária.

O que fazer em vez disso

A ansiedade é consequência da hipoxemia e da dispneia. VNI e vasodilatador resolvem a agitação sem sedar.

Um paciente sedado tolera pior a VNI e perde o drive respiratório justamente quando mais precisa dele. Se a vontade de prescrever surgir porque o paciente está agitado, o problema provavelmente é ventilação e pressão de enchimento — não ansiedade.

Bloqueio sequencial do néfron

O uso prolongado de diurético de alça causa hipertrofia do túbulo distal, que reabsorve mais sódio e limita a resposta. Associar diuréticos que agem em outros segmentos contorna esse mecanismo e melhora a descongestão. A diretriz europeia de 2026 passou a recomendar a associação de IV ou oral nos pacientes congestos que já usavam diurético de alça (classe IIa), embora nenhum dos dois tenha mostrado benefício em desfechos duros.

Acetazolamida — ADVOR

500 mg IV uma vez ao dia, somada à alça: aumentou a descongestão bem-sucedida em 3 dias e reduziu a permanência em cerca de 1 dia. Pode ser preferível na doença renal mais avançada.

Hidroclorotiazida — CLOROTIC

Dose pela TFG: 25 mg se > 50, 50 mg se 20 a 50 e 100 mg se < 20 mL/min/1,73 m². Mais perda de peso e diurese, porém com mais piora renal e hipocalemia.

Metolazona e espironolactona

Metolazona oral 2,5 a 5 mg é opção na resistência avançada. Espironolactona em dose maior teve resultados inconsistentes na descongestão, mas poupa potássio e faz parte da terapia de base.

Antes de associar

Confira dose e via do diurético de alça, carga de sódio da dieta e dos soros, anti-inflamatórios em uso e perfusão renal.

A associação resolve congestão, mas cobra o preço em eletrólitos e função renal: monitore creatinina, sódio, potássio e magnésio diariamente. Reserve para resistência real, e não para impaciência com a resposta.

Ultrafiltração e diálise

A ultrafiltração remove volume de forma previsível e controlada, com fluido isotônico e sem ativação neuro-humoral adicional, independentemente da resposta tubular. Mas ensaios contra terapia diurética escalonada não mostraram superioridade e apontaram mais eventos adversos e piora renal — por isso a diretriz europeia de 2026 a mantém como opção a considerar nos que respondem mal ao escalonamento máximo, e não como primeira linha. No dialítico com EAP, a diálise de urgência é o tratamento definitivo, com VNI e nitrato como ponte até a sessão.

  • Indicações: sobrecarga refratária ao diurético em dose adequada, oligúria ou anúria, hipercalemia grave, acidose metabólica grave e uremia sintomática.
  • Riscos: acesso vascular, anticoagulação, hipotensão, infecção e piora renal se a remoção for rápida demais.
  • Taxa de remoção: individualizada pela tolerância hemodinâmica; remoção agressiva causa hipotensão e lesão renal.
  • Quem decide: discussão conjunta com nefrologia e cardiologia, considerando prognóstico global e objetivos de cuidado.

Antes de indicar ultrafiltração por "refratariedade", confirme que a dose de diurético foi de fato dobrada, que a associação foi tentada e que as causas corrigíveis de resistência foram afastadas.

Medir a resposta à descongestão

Descongestão não é impressão clínica: é uma variável que se mede. Ajustar a dose com base em dados objetivos é o que separa a descongestão eficaz da tentativa e erro, e a congestão residual na alta é o principal preditor de reinternação — por isso a diretriz europeia de 2026 recomenda avaliá-la ativamente antes da alta, com clínica, peptídeo natriurético, função renal e imagem.

Sódio urinário

Amostra isolada 2 horas após a dose: 70 mmol/L ou mais indica boa resposta; abaixo disso, dobre a dose.

Diurese e balanço

Pelo menos 100 mL/h nas primeiras 6 horas e cerca de 3 litros em 24 horas. Balanço rigoroso, incluindo diluições e dietas.

Peso diário

Mesmo horário e mesmas condições. Perda de 0,5 a 1 kg/dia é meta razoável na descongestão programada.

Ultrassom

Redução das linhas B e da veia cava acompanham a descongestão de forma objetiva e repetível.

Exame físico diário

Turgência jugular, hepatomegalia, edema e ortopneia — reavaliados todos os dias, e não só na admissão.

Laboratório

Creatinina, sódio, potássio, magnésio e cloro a cada 24 horas. Alcalose hipoclorêmica marca diurese intensa.

Pronto para a alta

Ausência de ortopneia, turgência jugular normal, sem edema significativo, peso estável e, idealmente, queda do peptídeo natriurético e das linhas B. Vale padronizar o sódio urinário pós-diurético no protocolo do serviço.

Inotrópicos e vasopressores no perfil frio

Inotrópicos são indicados apenas quando há hipoperfusão: melhoram sintomas e hemodinâmica, mas aumentam consumo de oxigênio, arritmia e — quando usados sem indicação — mortalidade. A diretriz europeia de 2026 os reserva ao paciente com PAS abaixo de 90 mmHg e sinais de hipoperfusão que não respondeu ao tratamento padrão, e sugere levosimendana ou inibidor de fosfodiesterase-3 em vez de dobutamina no betabloqueado. A noradrenalina é o vasopressor de escolha: comparada à dopamina, teve menos arritmias.

Dobutamina

. Na diluição de 1 mg/mL, mL/h = dose × peso × 0,06: 70 kg a 5 mcg/kg/min = 21 mL/h; a 10, 42 mL/h.

Milrinona e levosimendana

0,125 a 0,5 mcg/kg/min; 0,05 a 0,2 mcg/kg/min por 24 horas. Efeito preservado no betabloqueado; risco de hipotensão.

Noradrenalina

; 16 mg em 250 mL = 64 mcg/mL: 70 kg a 0,1 = 6,6 mL/h; a 0,3 ≈ 20 mL/h; a 0,5 ≈ 33 mL/h. Adrenalina não é primeira escolha (mais acidose láctica e choque refratário).

Associação e retirada

Vasopressor sustenta a pressão, inotrópico melhora o débito. Retire assim que a perfusão se restabelecer e reavalie diariamente.

A pergunta que define o uso de inotrópico não é a fração de ejeção, e sim: este paciente está hipoperfundido agora? Prescrever inotrópico para paciente congesto e bem perfundido só porque a FE é baixa é erro comum. E vasopressor melhora o número da pressão, mas não trata a causa.

Choque cardiogênico e suporte mecânico

É o extremo do espectro do EAP, com mortalidade elevada, e o reconhecimento precoce com encaminhamento rápido é o que mais muda o desfecho. A definição prática é hipotensão persistente (PAS abaixo de 90 mmHg por mais de 30 minutos ou necessidade de vasopressor) com sinais de hipoperfusão na presença de congestão — mas a diretriz europeia de 2026 lembra que existe choque normotenso, e o lactato acima de 2 mmol/L é o marcador bioquímico. O estadiamento SCAI (A a E) padroniza a comunicação e o acionamento do time de choque.

Primeiro passo

Ecocardiograma à beira do leito para definir o mecanismo: disfunção sistólica grave, complicação mecânica, ventrículo direito, tamponamento. Se for infarto, reperfusão imediata.

Balão intra-aórtico

Reduz pós-carga e melhora a perfusão coronariana, mas o IABP-SHOCK II não reduziu mortalidade no choque pós-infarto. Mantém papel nas complicações mecânicas.

Bomba microaxial e ECMO-VA

A bomba microaxial reduziu mortalidade em pacientes muito selecionados com infarto com supra (DanGer Shock), com mais complicações. ECMO-VA é suporte completo para falência biventricular ou parada refratária, em centro experiente.

Time de choque e transferência

Decisão em equipe — cardiologia, cirurgia, terapia intensiva — e conversa com a família. Sem hemodinâmica ou suporte mecânico, transfira cedo, antes da falência de múltiplos órgãos.

Vasodilatador está contraindicado enquanto a perfusão não estiver restaurada. A janela de decisão é estreita: ligar cedo para o centro de referência costuma valer mais do que qualquer ajuste fino de droga. Detalhes no artigo de choque cardiogênico.

Síndrome coronariana como precipitante

É o precipitante que exige a ação mais rápida: EAP no contexto de infarto define alto risco e muda completamente a estratégia. O eletrocardiograma em até 10 minutos, repetido se o quadro evoluir, separa quem precisa de reperfusão imediata de quem precisa de estratégia invasiva precoce — e o EAP na síndrome sem supra caracteriza muito alto risco, com cateterismo idealmente em até 2 horas.

  • Com supradesnivelamento: reperfusão imediata — angioplastia primária de preferência; trombólise se a angioplastia não estiver disponível no tempo adequado.
  • Troponina: elevações discretas são comuns por sobrecarga; interprete a curva junto com a clínica e o ECG.
  • Nitrato: útil pelo duplo efeito — alívio da isquemia e redução da pressão de enchimento. Evitar no infarto de VD.
  • Antiagregação e anticoagulação: conforme o protocolo de SCA, ponderando sangramento e possibilidade de cirurgia.
  • Betabloqueador: não iniciar na fase aguda do EAP ou do choque — aguardar estabilização e resolução da congestão.
  • Após a reperfusão: iniciar a terapia de insuficiência cardíaca conforme a fração de ejeção resultante.

Diante de EAP fulminante ou sopro novo após infarto, suspeite de complicação mecânica — ruptura de músculo papilar ou comunicação interventricular — e peça ecocardiograma urgente.

Arritmias como precipitante

A fibrilação atrial de alta resposta é um dos precipitantes mais comuns: a perda da contração atrial e o encurtamento da diástole reduzem o débito, especialmente na estenose mitral e na fração de ejeção preservada. Nem sempre é claro se a arritmia causou a descompensação ou foi consequência dela — na dúvida, com instabilidade, trate a arritmia e reavalie. Frequência muito alta em paciente congesto pode, porém, ser resposta ao baixo débito, e reduzi-la agressivamente sem avaliar o contexto pode piorar o quadro.

Instabilidade

EAP com instabilidade atribuível à arritmia: cardioversão elétrica sincronizada. Taquicardia ventricular: cardioversão ou desfibrilação conforme a estabilidade.

Controle de frequência

Betabloqueador com cautela na descompensação aguda; digoxina ou amiodarona na disfunção sistólica e na congestão importante. Evitar verapamil e diltiazem na disfunção sistólica.

Bradiarritmia grave

Bloqueio atrioventricular avançado pode precipitar EAP: atropina, marca-passo transcutâneo e, em seguida, transvenoso.

Depois

Anticoagulação conforme o risco tromboembólico; investigue isquemia, eletrólitos, tireotoxicose, infecção e fármacos.

Causas mecânicas: emergências cirúrgicas

São as causas em que o tratamento clínico é apenas ponte, e reconhecer cedo e acionar a cirurgia é o que define o desfecho. A pista prática é o EAP desproporcionalmente grave, de instalação súbita e refratário ao tratamento habitual. O diagnóstico é o ecocardiograma urgente — transtorácico e, se necessário, transesofágico —, que não deve ser postergado pela instabilidade; a ponte é vasodilatador para reduzir a fração regurgitante ou o desvio, mais balão intra-aórtico quando disponível.

Insuficiência mitral aguda

Ruptura de papilar ou de cordoalha, no infarto ou na endocardite. EAP fulminante com sopro discreto ou ausente.

CIV pós-infarto

Tipicamente entre o 3º e o 7º dia. Sopro holossistólico novo e deterioração rápida.

Disfunção de prótese

Trombose, deiscência ou endocardite em portador de prótese com deterioração súbita.

Dissecção de aorta

Insuficiência aórtica aguda com EAP, além de tamponamento e isquemia coronariana.

Ruptura de parede livre

Tamponamento e dissociação eletromecânica. Mortalidade altíssima.

Definitivo

Cirurgia cardíaca urgente. Acione a equipe na suspeita, e não só após a confirmação completa.

Otimização antes da alta

A internação por descompensação é a melhor oportunidade de iniciar e otimizar a terapia que reduz mortalidade e reinternação — e perder essa janela é o desperdício mais comum. A diretriz europeia de 2026 recomenda iniciar o inibidor de SGLT2 ainda na internação, após a estabilização (classe I), prefere implementar as classes de forma simultânea em vez da sequência tradicional lenta e recomenda a estratégia intensiva do STRONG-HF: titulação rápida antes da alta e visitas frequentes nas primeiras 6 semanas.

  • FE reduzida — quatro classes: inibidor do sistema renina-angiotensina (preferencialmente sacubitril-valsartana), betabloqueador, antagonista mineralocorticoide e .
  • FE preservada: inibidor de SGLT2 com benefício demonstrado; controle de pressão, de frequência e de comorbidades.
  • Betabloqueador em uso: não suspender de rotina no paciente congesto e estável; reduzir ou suspender só em hipoperfusão, bradicardia ou instabilidade.
  • Antes da alta: euvolemia, causa tratada, função renal e eletrólitos estáveis, terapia na maior dose tolerada e reposição de ferro se houver deficiência.
  • Educação: restrição de sal, pesagem diária, sinais de alarme, adesão e vacinação.
  • Seguimento: consulta em 1 a 2 semanas, com laboratório e nova titulação; avaliar cardiodesfibrilador, ressincronização e serviço de IC avançada quando aplicável.

O paciente que recebe alta com o mesmo esquema com que internou tem alta probabilidade de voltar. A internação é a janela de otimização mais eficiente que existe.

Em 30 segundos

O essencial de cenários especiais

  1. Estenose aórtica grave, CMHO e infarto de VD invertem a lógica: vasodilatador e diurético agressivo podem precipitar colapso.
  2. Estenose mitral e FA rápida: o alvo é a frequência; insuficiência mitral aguda é emergência cirúrgica.
  3. No dialítico, a diálise é o tratamento; na gestante, pense em pré-eclâmpsia e cardiomiopatia periparto.
  4. Sobrecarga associada à transfusão (TACO) cursa com hipertensão; TRALI, com pressão normal ou baixa e febre.

Valvopatias obstrutivas: estenose aórtica, CMHO e estenose mitral

Nas três situações o débito depende de uma condição que o protocolo habitual destrói. Na estenose aórtica, a pós-carga mantém a perfusão coronariana e a queda brusca de resistência pode ser catastrófica; na CMHO, vasodilatador e inotrópico aumentam o gradiente da via de saída; na estenose mitral, a taquicardia encurta o enchimento diastólico e precipita o edema, muitas vezes com FA de alta resposta.

Estenose aórtica grave

Cautela extrema com vasodilatador. Prefira VNI e diurético criterioso; noradrenalina se houver hipotensão. Encaminhe para intervenção valvar.

Cardiomiopatia hipertrófica obstrutiva

Betabloqueador, volume cuidadoso e fenilefrina se necessário. O oposto do protocolo habitual.

Estenose mitral

Controle de frequência é prioritário — betabloqueador ou digital. Cardioversão se houver instabilidade.

Infarto de ventrículo direito e insuficiência mitral aguda

São dois extremos de dependência. O ventrículo direito infartado depende de pré-carga: nitrato e diurético podem precipitar colapso, e a prioridade é reperfundir oferecendo volume com cautela e, se preciso, inotrópico. Já a insuficiência mitral aguda por ruptura de cordoalha ou de papilar produz EAP fulminante com sopro que pode ser discreto ou ausente — aqui o vasodilatador é aliado, porque reduz a fração regurgitante enquanto se prepara a cirurgia.

Duas condutas opostas

Infarto de VD: evitar nitrato, volume com cautela, considerar inotrópico e priorizar a reperfusão. Insuficiência mitral aguda: emergência cirúrgica — vasodilatador para reduzir a regurgitação e balão intra-aórtico como ponte.

O rim: diálise e edema de repetição

No paciente com doença renal terminal, a sobrecarga volêmica não responde a diurético e frequentemente ele é anúrico: o tratamento é diálise ou ultrafiltração de urgência, com VNI e nitrato como ponte até a sessão. Outro cenário renal é o edema pulmonar "flash" de repetição, com hipertensão de difícil controle e piora renal após inibidor do sistema renina-angiotensina — que pede investigação de estenose de artéria renal bilateral.

Doença renal terminal

Diálise ou ultrafiltração de urgência. VNI e nitrato como ponte até a sessão.

Edema pulmonar de repetição

Investigar estenose de artéria renal bilateral com ultrassom com Doppler ou angiotomografia.

Gestante e puérpera

Na gestação, o EAP tem três origens principais: pré-eclâmpsia com edema pulmonar, cardiomiopatia periparto e sobrecarga volêmica no pós-parto imediato. A conduta combina o suporte habitual com as restrições da gestação — e, como no artigo de crise hipertensiva, hipertensão grave após 20 semanas é pré-eclâmpsia até prova em contrário.

O que fazer diferente

Decúbito lateral esquerdo, controle pressórico com hidralazina ou nifedipino, sulfato de magnésio na pré-eclâmpsia e avaliação obstétrica conjunta. Evite nitroprussiato e inibidores do sistema renina-angiotensina durante a gestação.

Idoso frágil e sobrecarga associada à transfusão

O idoso frágil com fração de ejeção preservada descompensa com fibrilação atrial e com pequenas sobrecargas, e é muito sensível tanto ao excesso quanto à falta de volume — superdiuretizá-lo é tão fácil quanto deixá-lo congesto. A sobrecarga associada à transfusão (TACO) surge durante ou em até 6 horas da transfusão, com hipertensão e congestão, e precisa ser separada da lesão pulmonar aguda relacionada à transfusão (TRALI).

Idoso frágil com FE preservada

Controle de frequência e de pressão, diurético em dose menor, com reavaliação frequente para não superdiuretizar.

Sobrecarga associada à transfusão

Interromper a transfusão, iniciar diurético e VNI. Diferenciar de TRALI, que cursa com pressão normal ou baixa e febre.

Erros comuns no primeiro atendimento

Os erros mais frequentes nascem da pressa em prescrever e de tratar todo EAP como hipervolemia. Quase todos são evitáveis com três hábitos: ventilar antes de qualquer droga, perguntar pelo inibidor de fosfodiesterase antes do nitrato e definir o perfil hemodinâmico antes de escolher o remédio.

  • Começar pela furosemida em um paciente hipertenso, euvolêmico e com EAP por redistribuição.
  • Retardar a ventilação não invasiva para "ver se a medicação resolve".
  • Usar nitrato em dose homeopática no EAP hipertensivo grave e concluir que "não funcionou".
  • Prescrever nitrato sem perguntar sobre uso de inibidor de fosfodiesterase-5.
  • Administrar vasodilatador em paciente hipotenso ou com perfil frio.
  • Usar morfina de rotina, apesar da associação com piores desfechos.
  • Tratar sibilos de asma cardíaca como crise asmática, com beta-agonista em dose alta.
  • Não realizar eletrocardiograma nos primeiros 10 minutos.
  • Considerar radiografia normal como exclusão de EAP nas primeiras horas.
  • Intubar sem antecipar o colapso hemodinâmico da indução.

Erros comuns na descongestão e na alta

Depois da primeira hora, os erros mudam de natureza: deixam de ser de omissão aguda e passam a ser de medida. Diurético repetido sem avaliar resposta, creatinina interpretada fora de contexto e alta com congestão residual explicam boa parte das reinternações precoces.

  • Repetir a mesma dose de diurético que já se mostrou ineficaz.
  • Interpretar a elevação transitória de creatinina durante a descongestão como motivo para suspender o diurético.
  • Não procurar o precipitante e dar alta com o mesmo esquema que falhou.
  • Suspender betabloqueador de forma rotineira em paciente estável e congesto.
  • Dar alta com congestão residual — é o principal preditor de reinternação.
  • Não iniciar ou não otimizar a terapia de insuficiência cardíaca durante a internação.

Resumo do fluxo

O fluxo abaixo resume o artigo na ordem em que as decisões acontecem. Os passos críticos são dois — instalar a VNI cedo e usar vasodilatador em dose efetiva no perfil quente e úmido com pressão alta —, e a reavaliação em 30 a 60 minutos é o ponto em que se confirma o diagnóstico ou se muda de caminho.

  1. Reconheça

    Dispneia súbita, ortopneia, crepitações bilaterais, sudorese fria. Sente o paciente com as pernas pendentes.

  2. Monitorize

    Oxigênio se SpO₂ abaixo de 90% e acesso venoso.

  3. VNI precoce — passo crítico

    CPAP de 5 a 10 cmH₂O é a intervenção que alivia mais rápido e reduz intubação.

  4. ECG e ultrassom

    Eletrocardiograma em até 10 minutos e ultrassom à beira do leito.

  5. Perfil hemodinâmico

    Congesto? Hipoperfundido?

  6. Vasodilatador em dose efetiva — passo crítico

    Perfil quente e úmido com PAS acima de 110 mmHg: nitrato em dose efetiva; no SCAPE, dose alta.

  7. Diurético se hipervolemia

    Furosemida 40 mg IV no virgem ou cerca de 2 vezes a dose oral domiciliar.

  8. Perfil frio e úmido

    Nada de vasodilatador — inotrópico, vasopressor se necessário e discussão de suporte mecânico.

  9. CHAMPIT

    Trate o precipitante: coronariana, hipertensiva, arritmia, mecânica, embolia, infecção e tamponamento.

  10. Reavalie em 30 a 60 minutos

    Dispneia, saturação, pressão, diurese e ultrassom. Sem melhora, reconsidere o diagnóstico e a via aérea.

  11. Meça a resposta ao diurético

    Sódio urinário em 2 horas e diurese em 6 horas; ajuste a dose em vez de repeti-la.

  12. Antes da alta

    Euvolemia, causa tratada, inibidor de SGLT2 e terapia otimizada, consulta de seguimento precoce agendada.

Ventilar, vasodilatar, descongestionar com critério e achar o precipitante — nessa ordem de prioridade, mas ao mesmo tempo.

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