Toxíndromes • reconhecimento à beira do leito, hipertermias tóxicas e antídotos
Na maioria dos atendimentos você não sabe o que o paciente tomou — e não vai descobrir a tempo. A toxíndrome é a ferramenta que resolve isso: um conjunto reconhecível de sinais vitais, pupilas, pele, peristaltismo e estado mental que aponta a classe do agente e a conduta, antes de qualquer exame. Cinco segundos de exame físico dirigido valem mais que um painel toxicológico.
Pupilas, pele e peristaltismoPele seca versus suadaClônus versus rigidezÂnion gap e gap osmolar
24 min de leitura Atualizado em outubro de 2026
Em 30 segundos
O essencial de visão geral
Toxíndrome é a assinatura de uma classe farmacológica sobre os sistemas nervosos autônomo e central: identifica o mecanismo, que é o que orienta a conduta.
Estabilize antes de pensar: via aérea, ventilação, circulação, glicemia capilar e temperatura central — hipoglicemia imita qualquer toxíndrome.
Cinco pilares fecham o raciocínio em menos de um minuto: estado mental, pupilas, pele, peristaltismo e sinais vitais completos, mais o exame neuromuscular.
A toxíndrome abre o raciocínio, não o fecha: policonsumo, tratamento prévio e doenças concomitantes mudam o quadro.
O que é uma toxíndrome
Toxíndrome é a combinação de sinais e sintomas que resulta do efeito de uma classe farmacológica sobre os sistemas nervoso autônomo e central. Ela não identifica a molécula — identifica o mecanismo, que é exatamente o que orienta a conduta.
Isso importa porque a realidade da emergência é quase sempre a mesma: paciente encontrado inconsciente, história ausente ou não confiável, exame toxicológico indisponível ou pouco útil. Nesse cenário, o exame físico dirigido é o melhor teste diagnóstico disponível — e é imediato.
Antes de qualquer raciocínio sindrômico: via aérea, ventilação, circulação, glicemia capilar e temperatura. Um paciente estabilizado tolera investigação; um paciente instável, não. E hipoglicemia imita praticamente todas as toxíndromes.
Os cinco pilares do exame
São cinco domínios que, examinados em sequência, fecham o raciocínio em menos de um minuto. A lógica é fisiológica: cada classe de agente estimula ou bloqueia um receptor específico (muscarínico, nicotínico, adrenérgico, opioide, GABA, serotoninérgico), e cada receptor tem uma "impressão digital" previsível nas pupilas, nas glândulas sudoríparas, no intestino e no tônus muscular.
1. Estado mental
Deprimido, agitado ou delirante? O delirium agitado com fala arrastada e alucinações táteis é anticolinérgico; a agitação com hipervigilância é simpaticomimética; a depressão sem outros achados é sedativa.
2. Pupilas
Midríase no anticolinérgico, simpaticomimético e serotoninérgico. Miose no opioide e no colinérgico. Normal na maioria dos sedativos. A miose puntiforme é praticamente patognomônica de opioide.
3. Pele
O achado que mais diferencia. Quente e seca no anticolinérgico; quente e suada no simpaticomimético e no serotoninérgico; fria e encharcada no colinérgico.
4. Peristaltismo
Ausente no anticolinérgico e reduzido no opioide; hiperativo com diarreia no colinérgico e no serotoninérgico. Ausculte o abdome — é rápido e decide muito.
5. Sinais vitais completos
Frequência cardíaca, pressão arterial, frequência respiratória e temperatura central. A frequência respiratória é o sinal mais negligenciado e o que mais rapidamente aponta opioide.
Bônus: exame neuromuscular
Clônus e hiperreflexia apontam serotoninérgico; rigidez em cano de chumbo aponta síndrome neuroléptica maligna; fasciculações apontam colinérgico.
Uma regra prática que resolve a maior parte das confusões: toque a axila do paciente. Pele seca em paciente quente e agitado é anticolinérgico até prova em contrário; pele encharcada muda completamente o raciocínio.
A matriz dos sinais vitais
Esta é a tabela que vale memorizar. As setas indicam o comportamento típico de cada parâmetro em cada toxíndrome. Leia a tabela por colunas, não só por linhas: a coluna da pele e a da pupila separam muito mais do que as de frequência cardíaca e pressão, que sobem em quase todos os quadros de excitação.
Toxíndrome
FC
PA
FR
Temp.
Pupila
Pele
Anticolinérgica
↑
↑
=
↑
Midríase
Seca
Colinérgica
↓
↓
↓
=
Miose
Encharcada
Simpaticomimética
↑
↑
↑
↑
Midríase
Suada
Opioide
↓
↓
↓↓
↓
Miose puntiforme
Normal
Sedativo-hipnótica
=
= ou ↓
↓
= ou ↓
Normal
Normal
Serotoninérgica
↑
↑
↑
↑↑
Midríase
Suada
Abstinência de sedativos
↑
↑
↑
↑
Midríase
Suada
Na colinérgica, o componente nicotínico pode inverter FC e PA (taquicardia e hipertensão).
Repare que simpaticomimética, serotoninérgica e abstinência de sedativos têm sinais vitais praticamente idênticos. O que as separa é o exame neuromuscular, a história e o contexto — não a monitorização. É justamente por isso que os sinais vitais sozinhos não fecham o diagnóstico.
Abordagem do paciente intoxicado indiferenciado
A sequência abaixo é a mesma para qualquer intoxicação, conhecida ou não. Ela começa pela proteção da equipe e pelo suporte, passa pelas causas reversíveis em minutos e só depois chega ao raciocínio sindrômico e ao laboratório dirigido — detalhes no artigo Abordagem ao paciente intoxicado.
Segurança da equipe
Em suspeita de agrotóxico ou agente corrosivo, use proteção adequada e considere descontaminação externa antes do atendimento assistencial.
Via aérea, ventilação e circulação
Com oxigênio suplementar e monitorização contínua.
GLICEMIA CAPILAR EM TODOS
Hipoglicemia imita qualquer toxíndrome e é a causa reversível mais rápida de rebaixamento.
Temperatura central
Retal ou esofágica. A axilar subestima e faz perder hipertermia grave.
Exame dirigido
Estado mental, pupilas, pele, peristaltismo, reflexos, tônus e clônus.
ECG de 12 derivações
Procurando QRS alargado, QT prolongado e alterações isquêmicas.
Naloxona
Se houver depressão respiratória com miose — titulada para restaurar ventilação, não para despertar.
Tiamina
Antes de glicose no paciente com risco de desnutrição ou etilismo crônico.
Laboratório dirigido
Eletrólitos, função renal, gasometria, lactato, ânion gap, e paracetamol sérico em toda tentativa de suicídio.
Acione o centro de informação toxicológica
O Disque-Intoxicação funciona 24 horas, no 0800 722 6001.
O antigo "coquetel do coma" com flumazenil foi abandonado. O flumazenil não deve ser usado como teste diagnóstico em coma indeterminado, pelo risco de convulsão de difícil controle — e não tem papel na parada cardíaca por benzodiazepínico (AHA 2023). Oxigênio, glicose, tiamina e naloxona continuam válidos; flumazenil, não.
Estabilização inicial
Vem antes de qualquer raciocínio sindrômico. Um paciente estabilizado tolera investigação; um paciente instável, não. A diretriz da AHA de 2023 para intoxicações graves reforça que o suporte avançado, os antídotos certos e, nos casos refratários, a oxigenação por membrana extracorpórea venoarterial (ECMO-VA) devem ser discutidos cedo com o centro de toxicologia.
Etapa
O que fazer
Segurança
Em suspeita de agrotóxico ou corrosivo, proteção da equipe e descontaminação externa antes do atendimento assistencial
Via aérea
Posicionamento, aspiração, cânula orofaríngea e ventilação com bolsa-válvula-máscara. Intube diante de incapacidade de proteção ou hipoventilação progressiva
Ventilação
Oxigênio suplementar, oximetria e, quando disponível, capnografia. Gasometria diante de rebaixamento importante
Circulação
Acesso venoso, cristaloide conforme a volemia e monitorização contínua
Glicemia capilar
Obrigatória em todo paciente com nível de consciência alterado
Temperatura central
Retal ou esofágica. A axilar subestima e faz perder hipertermia grave
Eletrocardiograma
Em todos, procurando QRS alargado, QT prolongado e arritmia
Reavaliação
A toxíndrome muda com o tempo e com o tratamento administrado — reavalie com frequência
Nenhum antídoto substitui via aérea, ventilação, volume e correção metabólica. O suporte resolve a maior parte das intoxicações.
Glicose e tiamina
A hipoglicemia imita praticamente todas as toxíndromes e é a causa reversível mais rápida de rebaixamento do nível de consciência. A vem antes da no paciente de risco porque a sobrecarga de glicose em deficiência de tiamina pode precipitar encefalopatia de Wernicke — mas a glicose nunca deve ser atrasada à espera da tiamina no paciente hipoglicêmico sintomático.
Glicemia capilar
Em todo paciente com nível de consciência alterado, antes de qualquer outra hipótese.
Correção no adulto
Glicose hipertônica por via endovenosa conforme o protocolo do serviço (ex.: 25 g = 50 mL de ), com reavaliação em minutos.
Tiamina
Antes da glicose em paciente com risco de desnutrição, etilismo crônico, gestação com hiperêmese ou pós-bariátrica.
Hipoglicemia persistente
Pense em sulfonilureia, insulina exógena, betabloqueador, etanol e insuficiência hepática.
Sulfonilureia
Hipoglicemia recorrente após correção — considere e observação prolongada, sobretudo em criança.
Não fazer
Não retarde a glicose esperando exame laboratorial confirmatório em paciente sintomático.
Reavalie a glicemia após qualquer piora inesperada do nível de consciência, mesmo que a primeira medida tenha sido normal.
Descontaminação: quando vale a pena
Tem indicação estreita. A maioria dos pacientes não se beneficia, e a principal complicação — a aspiração — é justamente o risco que o intoxicado já tem. As recomendações do Clinical Toxicology Recommendations Collaborative sobre (Hoegberg e colaboradores, 2026) atualizaram as de 2005: dose única de 1 g/kg (até 50 g), com maior benefício na primeira hora e apropriada até 6 horas para muitos venenos, conforme avaliação individualizada; dose adicional quando há evidência de absorção prolongada.
A substância adsorve ou pode ser removida; a dose é potencialmente tóxica; o tempo ainda permite ganho; não há contraindicação; e o procedimento é seguro agora
Carvão ativado
1 g/kg, até 50 g por dose (antes: "50 g no adulto e 1 g/kg na criança"). Máximo benefício na primeira hora; depois disso, decisão individualizada — ingestão maciça, liberação prolongada ou absorção retardada justificam dose além da primeira hora e doses adicionais
Contraindicação formal
Reflexos de via aérea ausentes ou em risco em paciente não intubado, risco de perfuração gastrointestinal e necessidade de endoscopia (cáusticos)
Sem papel
Cáusticos, hidrocarbonetos, álcoois (etanol, metanol, etilenoglicol), íons e a maioria dos metais — arsênio, césio, cobre, ferro, chumbo, lítio — e metformina não adsorvem de forma útil
Irrigação intestinal total
Liberação prolongada, substâncias que não adsorvem e pacotes ingeridos. Polietilenoglicol, 1 a 2 L por hora no adulto
Lavagem gástrica
Excepcional — ingestão ameaçadora à vida, muito recente, sem alternativa terapêutica e com via aérea protegida
Não fazer
Ipeca, catárticos isolados, indução de vômito e neutralização química de cáusticos
Descontaminação externa
Retirar toda a roupa e irrigar copiosamente — é a medida mais esquecida e a de melhor custo-benefício
Não passe sonda sem intubação apenas para dar carvão, e não intube apenas para administrá-lo — a exceção, segundo as recomendações de 2026, é o risco significativo de toxicidade ameaçadora à vida sem outra opção terapêutica.
Limites do raciocínio sindrômico
A toxíndrome descreve o efeito de uma classe isolada sobre um organismo sem outras doenças — e a emergência raramente oferece essa situação. Conhecer os quatro motivos pelos quais o quadro "não fecha" evita tanto o diagnóstico errado quanto o antídoto errado.
Toxíndromes mistas
Policonsumo é a regra. Achados contraditórios — miose com taquicardia, agitação com bradipneia — sugerem mais de um agente, e não um exame mal feito.
Evolução temporal
A toxíndrome muda com o tempo. O simpaticomimético pode virar quadro de exaustão; o anticolinérgico pode iniciar com agitação e evoluir para coma.
Tratamento prévio
Sedativo dado na ambulância, atropina administrada antes da chegada e restrição física alteram completamente o quadro que você examina.
Comorbidade
Sepse, traumatismo cranioencefálico, encefalopatia e distúrbio metabólico imitam e se sobrepõem. Toxíndrome não exclui outra doença.
Nunca use a toxíndrome para fechar o raciocínio — use-a para abri-lo. Ela orienta a conduta imediata enquanto a investigação continua, e deve ser reavaliada a cada mudança do quadro.
Rotas de tratamento
Condutas dos primeiros minutos, antes de saber qual é o agente — e que resolvem a maior parte dos casos. Cada linha abre a ficha completa. As doses são referências para adultos: confira a apresentação disponível e o protocolo do seu serviço antes de prescrever.
Quando esta rota entraTodo paciente intoxicado com nível de consciência alterado, antes de identificar o agente.
Reverter o que é reversível4 esquemas
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
1ª escolhaGlicose a 50%
25 g (50 mL) IV no adulto; 0,5–1 g/kg na criança (glicose a 10%)
Bolus; repetir pela glicemia
Até glicemia estável
Glicemia capilar em todos com nível de consciência alterado.
Antes da glicoseTiamina
100 mg IV (suspeita de Wernicke: 200–500 mg)
Dose única; Wernicke 8/8 h
Conforme quadro
Etilismo, desnutrição, hiperêmese, pós-bariátrica. Não atrasa a glicose.
1ª escolhaNaloxona
0,04–0,1 mg IV no usuário crônico; 0,4–2 mg na parada respiratória
A cada 2–3 min, titulada
Infusão se ressedação
Alvo: ventilação adequada, não despertar.
SulfonilureiaOctreotida
50 mcg SC/IV (criança 1 mcg/kg)
6/6 h
24 h ou mais
Hipoglicemia recorrente após correção.
Descontaminação seletiva1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
SelecionadoCarvão ativado
1 g/kg (máx. 50 g)
VO ou por sonda em paciente intubado
Idealmente até 1 h da ingestão
Via aérea protegida; não adsorve álcoois, íons, metais, cáusticos e hidrocarbonetos.
Em 30 segundos
O essencial de as clássicas
São seis: anticolinérgica, colinérgica, simpaticomimética, opioide, sedativo-hipnótica e serotoninérgica.
Cada uma tem um achado que a define — pele seca, secreções, sudorese preservada, bradipneia, ausência de achado autonômico e clônus.
Os erros vêm dos pares parecidos: pele e peristaltismo, secreções, clônus e tempo de instalação desfazem a confusão.
As intoxicações mais letais frequentemente não têm toxíndrome — paracetamol, metanol, etilenoglicol, paraquat e amanitina.
Anticolinérgica e colinérgica: o mesmo receptor, sinais opostos
Cada toxíndrome tem um achado que a define e um erro clássico associado. Conhecer os dois é mais útil do que decorar listas de agentes. As duas primeiras são espelhos: a anticolinérgica bloqueia o receptor muscarínico e seca tudo; a colinérgica acumula acetilcolina e faz tudo secretar — inclusive o brônquio, que é o que mata.
Anticolinérgica — antagonismo muscarínico
Quadro: delirium agitado com fala arrastada, alucinações visuais e táteis, midríase pouco reativa, pele quente e seca, mucosas secas, retenção urinária, íleo, hipertermia e taquicardia.
Agentes: anti-histamínicos de primeira geração, escopolamina, atropina, antidepressivos tricíclicos, antipsicóticos de baixa potência, antiespasmódicos, Datura (trombeteira).
Achado que define: pele e mucosas secas com retenção urinária.
Colinérgica — inibição da acetilcolinesterase
Quadro muscarínico: a mnemônica clássica reúne diarreia, sudorese profusa, sialorreia, lacrimejamento, broncorreia, broncoespasmo, miose, bradicardia, vômitos e incontinência urinária.
Quadro nicotínico: fasciculações, fraqueza, cãibras, taquicardia e hipertensão — que podem mascarar o componente muscarínico.
Agentes: organofosforados e carbamatos (o "chumbinho"), gases dos nervos, fisostigmina, alguns cogumelos.
Achado que define:secreções em excesso. A causa de morte é a broncorreia, não a bradicardia.
Simpaticomimética e opioide: excitação versus depressão
A simpaticomimética é a excitação com sudorese preservada; a opioide é a depressão com respiração lenta. O erro na primeira é confundi-la com anticolinérgica (toque a pele); na segunda, é esperar a miose em todos os casos — meperidina, tramadol e coingestões podem não produzi-la. Mais detalhes em Cocaína e estimulantes.
Simpaticomimética — excesso de catecolaminas
Quadro: agitação com hipervigilância, midríase reativa, pele quente e úmida, taquicardia, hipertensão, hipertermia, peristaltismo preservado ou aumentado.
Agentes: cocaína, anfetaminas e metanfetamina, MDMA, catinonas sintéticas, cafeína em dose alta, teofilina, descongestionantes.
Achado que define:sudorese preservada — é o que separa do anticolinérgico.
Opioide — agonismo em receptores mu
Quadro: a tríade clássica é rebaixamento do nível de consciência, miose puntiforme e depressão respiratória. Somam-se hipotermia, bradicardia, hipotensão e redução do peristaltismo.
Agentes: morfina, codeína, tramadol, metadona, fentanil e análogos sintéticos, loperamida em dose alta.
Achado que define:bradipneia. A miose pode faltar com meperidina, tramadol e em coingestões.
Sedativo-hipnótica e serotoninérgica
A sedativo-hipnótica se define pelo que falta: o paciente dorme, mas pupilas, pele, intestino e sinais vitais estão quase normais. A serotoninérgica se define pelo que sobra: clônus e hiperreflexia, mais intensos nas pernas. Ver também Benzodiazepínicos.
Sedativo-hipnótica — facilitação GABAérgica
Quadro: sonolência despertável, disartria, ataxia, nistagmo, com sinais vitais essencialmente preservados e pupilas normais.
Achado que define: a ausência de achados autonômicos. Coma profundo com instabilidade sugere barbitúrico ou coingestão.
Serotoninérgica — excesso de serotonina
Quadro: tríade de alteração do estado mental, hiperatividade autonômica e anormalidade neuromuscular, com clônus e hiperreflexia de predomínio em membros inferiores.
Agentes: inibidores da recaptação de serotonina, inibidores da monoaminoxidase, tramadol, linezolida, triptanos, MDMA, lítio, dextrometorfano.
Achado que define:clônus. Teste no tornozelo — leva cinco segundos e resolve o diferencial.
Os pares que mais confundem
Quase todo erro diagnóstico em toxicologia acontece dentro de um destes seis pares. Em cada um, os sinais vitais são parecidos e quem decide é um achado de exame físico que só aparece se for procurado ativamente: a axila, o abdome, o tornozelo, a frequência respiratória.
Por que confundeAmbas com agitação, midríase, taquicardia, hipertensão e hipertermia
O que separaPele e peristaltismo. Seca com íleo é anticolinérgica; suada com peristaltismo presente é simpaticomimética
Colinérgica × opioide
Por que confundeAmbas com miose, bradicardia e depressão respiratória
O que separaSecreções e peristaltismo. Broncorreia, sialorreia, diarreia e fasciculações são colinérgicas; opioide é "seco e parado"
Serotoninérgica × neuroléptica maligna
Por que confundeAmbas com hipertermia, rigidez, alteração mental e instabilidade autonômica
O que separaClônus e tempo. Serotoninérgica instala em horas com clônus e hiperreflexia; neuroléptica maligna instala em dias com rigidez em cano de chumbo e hiporreflexia
Por que confundeSinais vitais praticamente idênticos
O que separaHistória e temporalidade. Pergunte quando foi a última dose de álcool ou de benzodiazepínico; tremor grosseiro e alucinações visuais favorecem abstinência
Sedativo-hipnótica × opioide
Por que confundeAmbas com rebaixamento do nível de consciência
O que separaPupila e frequência respiratória. Miose puntiforme com bradipneia é opioide; pupila normal com respiração preservada é sedativo
Por que confundeDelirium agitado com febre e taquicardia
O que separaPele seca, íleo e retenção urinária apontam anticolinérgico. Na dúvida, trate a hipótese infecciosa em paralelo
Outras síndromes que vale reconhecer
Fora das seis clássicas, há padrões que não cabem na matriz dos sinais vitais mas têm tratamento próprio. Alguns se revelam no laboratório (asfixiantes celulares), outros no ECG (bloqueio de canal de sódio), e outros só no tempo — os hepatotóxicos e nefrotóxicos tardios, que chegam com o paciente conversando.
Asfixiantes celulares
Cianeto e monóxido de carbono. Acidose láctica grave desproporcional ao exame, com saturação de oxigênio normal ou falsamente elevada. Suspeite em incêndio em ambiente fechado e em cefaleia coletiva.
Alucinógena
Alucinações com senso de realidade preservado ou parcialmente preservado, midríase, taquicardia leve e sinais autonômicos discretos. LSD, psilocibina, mescalina.
Extrapiramidal
Distonia aguda, torcicolo, crise oculógira, acatisia e parkinsonismo, sem alteração do nível de consciência. Antipsicóticos e metoclopramida. Responde a anticolinérgico e a anti-histamínico.
Abstinência
De álcool, benzodiazepínico e opioide. As duas primeiras podem ser fatais; a terceira é muito sintomática, mas raramente letal em adultos.
Bloqueio de canal de sódio
Não é toxíndrome clássica, mas o padrão de QRS alargado com onda R em aVR aponta antidepressivo tricíclico, cocaína, difenidramina, cloroquina — e tem tratamento próprio com .
Nefro e hepatotóxica tardia
Paracetamol, amanitina e paraquat cursam com fase inicial pobre e deterioração em 24 a 72 horas. A ausência de toxíndrome não afasta intoxicação grave.
Guarde esta ideia: as intoxicações mais letais frequentemente não têm toxíndrome. Paracetamol, metanol, etilenoglicol, paraquat e amanitina chegam com o paciente conversando. Por isso o rastreio de paracetamol e o cálculo do ânion gap são rotina em tentativa de suicídio.
Em 30 segundos
O essencial de hipertermias
Serotoninérgica, neuroléptica maligna, hipertermia maligna, anticolinérgica e simpaticomimética cursam todas com hipertermia, alteração mental e instabilidade autonômica.
O tempo de instalação e o exame neuromuscular separam: clônus em horas, rigidez em cano de chumbo em dias, espasmo de masseter em minutos no centro cirúrgico.
Em todas, o que mais muda desfecho é medir a temperatura central e resfriar rápido; antitérmico não funciona.
Dantroleno é específico da hipertermia maligna (2,5 mg/kg IV) e adjuvante na neuroléptica maligna — não é tratamento genérico de hipertermia.
As síndromes hipertérmicas
São o grupo com maior letalidade e maior chance de erro diagnóstico. Todas cursam com hipertermia, alteração do estado mental e instabilidade autonômica — e cada uma tem tratamento específico diferente. O calor vem do músculo, não do hipotálamo: por isso o tratamento é resfriar e relaxar, não dar antitérmico.
Síndrome
Instalação
Achado neuromuscular
Agente
Tratamento específico
Serotoninérgica
Horas
Clônus e hiperreflexia, predomínio em membros inferiores
Serotoninérgicos, muitas vezes em associação
Suspender o agente, benzodiazepínico, resfriamento; nos casos moderados
Neuroléptica maligna
Dias a semanas
Rigidez em cano de chumbo, hiporreflexia, bradicinesia
Antipsicóticos; ou retirada abrupta de dopaminérgico
Suspender o agente, benzodiazepínico, resfriamento; ou em casos graves
Hipertermia maligna
Minutos, no intraoperatório
Rigidez com espasmo de masseter, elevação abrupta do gás carbônico expirado
Anestésicos inalatórios halogenados e succinilcolina
, suspensão do agente, resfriamento e correção da hipercalemia
Benzodiazepínico e resfriamento; em casos selecionados
Simpaticomimética
Minutos a horas
Sem rigidez; tremor e agitação intensa
Cocaína, anfetaminas, MDMA, catinonas
Benzodiazepínico titulado e resfriamento agressivo
Em todas elas, a medida que mais muda desfecho é a mesma: medir a temperatura central e resfriar rapidamente. Antitérmicos não funcionam, porque não há deslocamento do ponto de ajuste hipotalâmico. Dantroleno é específico da hipertermia maligna e adjuvante na neuroléptica maligna — não é tratamento genérico de hipertermia.
Diferenciador das síndromes hipertérmicas
Diferenciador das síndromes hipertérmicas
Tempo de instalação • padrão neuromuscular • agente envolvido. Preencha os achados do caso para ver a síndrome mais compatível, o achado que a confirmaria e a conduta imediata. A ferramenta segue os achados definidores de cada síndrome e devolve a hipótese mais provável — não um diagnóstico.
Preencha os cinco achados para ver a síndrome mais compatível e a conduta imediata.
Ferramenta de apoio ao raciocínio, sem validação prospectiva. Para a síndrome serotoninérgica existem critérios formais — os critérios de Hunter —, que exigem exposição a agente serotoninérgico associada a clônus espontâneo, clônus induzível ou ocular com agitação ou sudorese, tremor com hiperreflexia, ou hipertonia com temperatura acima de 38 °C e clônus. Para a neuroléptica maligna, os critérios de consenso internacional (Gurrera, 2011) exigem exposição a antagonista dopaminérgico (ou retirada de agonista), hipertermia acima de 38 °C em duas medidas, rigidez, alteração mental, CK ≥ 4 vezes o limite superior e labilidade autonômica, com investigação negativa para outras causas.
O que é comum a todas
Enquanto o diagnóstico específico é definido, a conduta inicial é a mesma para todas. O alvo é interromper a produção de calor (suspender o agente, relaxar o músculo) e retirar o calor já produzido (resfriamento ativo) antes que a temperatura cause rabdomiólise, coagulopatia e falência de órgãos.
MEÇA A TEMPERATURA CENTRAL
Retal ou esofágica. A axilar subestima e é a causa mais frequente de hipertermia não reconhecida.
Suspenda o agente desencadeante
Imediatamente, e revise toda a prescrição.
Resfriamento ativo
Quando a temperatura central estiver igual ou acima de 39 °C, com meta abaixo de 38,5 °C o mais rápido possível.
Benzodiazepínico titulado
Reduz a produção endógena de calor pela atividade muscular e é a base do tratamento em quase todas.
Hidratação com cristaloide
E monitorização da diurese, pela rabdomiólise associada.
Não use antitérmicos
O mecanismo não é o de deslocamento do ponto de ajuste hipotalâmico.
Casos refratários
Intubação com sedação profunda e bloqueio neuromuscular não despolarizante, preferindo rocurônio quando há rabdomiólise ou hipercalemia.
Monitorize
Creatinoquinase, potássio, função renal, coagulação e gasometria — a coagulação intravascular disseminada é complicação temida.
Evite antipsicóticos no manejo da agitação dessas síndromes: reduzem o limiar convulsivo, prolongam o intervalo QT e prejudicam a termorregulação — e na neuroléptica maligna são a própria causa.
Síndrome serotoninérgica
Tríade de alteração do estado mental, hiperatividade autonômica e anormalidade neuromuscular, instalada em horas após exposição a agente serotoninérgico — geralmente uma associação recente ou aumento de dose. O espectro vai do tremor leve à hipertermia grave com hipertonia, e a gravidade é dada pela temperatura e pelo tônus, não pela dose ingerida.
Aspecto
O que saber
Achado que define
Clônus espontâneo, induzível ou ocular, com hiperreflexia de predomínio em membros inferiores
Critérios de Hunter
Exposição a serotoninérgico associada a clônus espontâneo; ou clônus induzível ou ocular com agitação ou sudorese; ou tremor com hiperreflexia; ou hipertonia com temperatura acima de 38 °C e clônus
Agentes
Inibidores da recaptação de serotonina, inibidores da monoaminoxidase, tramadol, linezolida, triptanos, MDMA, lítio, dextrometorfano — frequentemente em associação
Base do tratamento
Suspender o agente, benzodiazepínico titulado, resfriamento agressivo e hidratação
Ciproeptadina
12 mg por via oral ou enteral como dose inicial, seguida de 2 mg a cada 2 horas enquanto persistirem os sintomas, com manutenção de 8 mg a cada 6 horas
Casos graves
Intubação com bloqueio neuromuscular não despolarizante; prefira rocurônio se houver rabdomiólise ou hipercalemia
Evitar
Antitérmicos, que não alteram o mecanismo, e antipsicóticos com atividade antidopaminérgica, que confundem o quadro
Diferencial
Rigidez em cano de chumbo, instalação em dias e uso de antipsicótico apontam síndrome neuroléptica maligna
Teste o clônus no tornozelo antes de qualquer outra coisa: leva cinco segundos e é o achado que mais muda o diagnóstico.
Síndrome neuroléptica maligna
Instalação lenta, ao longo de dias a semanas, após introdução ou aumento de antipsicótico — ou após retirada abrupta de dopaminérgico. O mecanismo é o bloqueio dopaminérgico central (termorregulação e tônus), o que explica por que a rigidez é "em cano de chumbo" e os reflexos estão diminuídos, ao contrário da serotoninérgica.
Tétrade
Rigidez em cano de chumbo, hipertermia, alteração do estado mental e instabilidade autonômica.
Laboratório
Creatinoquinase muito elevada (no consenso de Gurrera, ≥ 4 vezes o limite superior), leucocitose, alterações hidroeletrolíticas e lesão renal aguda por rabdomiólise.
Agentes
Antipsicóticos típicos e atípicos, metoclopramida, prometazina; ou retirada abrupta de levodopa e agonista dopaminérgico.
Base do tratamento
Suspender o antipsicótico ou reintroduzir o dopaminérgico, benzodiazepínico, resfriamento e hidratação vigorosa.
Casos graves
ou como adjuvantes, em ambiente de terapia intensiva. Eletroconvulsoterapia é descrita em casos refratários, com apoio da psiquiatria.
Complicações
Rabdomiólise com lesão renal aguda, coagulação intravascular disseminada, insuficiência respiratória e tromboembolismo.
Reintrodução
Se necessária, aguarde pelo menos 2 semanas após a resolução e prefira antipsicótico de menor potência antidopaminérgica.
A instalação lenta é a maior armadilha: o paciente costuma ser investigado para infecção por dias antes de alguém revisar a prescrição.
Hipertermia maligna
Emergência do intraoperatório, por reação farmacogenética (receptor de rianodina) a anestésicos halogenados e succinilcolina. É a única dessas síndromes com antídoto específico. A versão de 2024 das recomendações do European Malignant Hyperthermia Group e a MHAUS orientam 2,5 mg/kg IV imediatamente, repetido até controle — habitualmente até 10 mg/kg cumulativos.
Reconheça o primeiro sinal
Elevação abrupta do gás carbônico expirado, frequentemente antes da hipertermia. Espasmo de masseter após succinilcolina é sinal de alarme. Quadro: rigidez muscular generalizada, taquicardia, arritmia, hipertermia de instalação rápida, acidose mista e hipercalemia.
Medidas imediatas
Suspender o agente inalatório e a succinilcolina, hiperventilar com oxigênio a 100% e trocar o circuito quando possível.
Antídoto
Dantroleno 2,5 mg/kg IV rápido, imediatamente, com doses repetidas até controle do quadro (em geral até 10 mg/kg); manutenção de 1 mg/kg a cada 4–6 h por 24 h.
Resfriamento
Ativo e agressivo, com cristaloide gelado e métodos externos.
Hipercalemia
Complicação aguda mais letal — ECG e tratamento imediato (cálcio, insulina com glicose); ver Hipercalemia.
Monitorização
Creatinoquinase, potássio, gasometria, coagulação, função renal e diurese, pela rabdomiólise.
Seguimento
Encaminhe o paciente e os familiares para investigação de suscetibilidade e registre o evento em prontuário e em documento portátil.
Dantroleno é específico desta síndrome e adjuvante na neuroléptica maligna — não é tratamento genérico de hipertermia.
Resfriamento
É a medida que mais muda desfecho em todas as síndromes hipertérmicas, e o tempo até atingir a meta é o principal determinante. A imersão em água gelada é o método mais rápido; quando não é viável (paciente instável, intubado, sem estrutura), combine métodos evaporativos e condutivos sem esperar.
≥ 39 °CIndicação de resfriamento ativo
> 40 °CEmergência de prioridade máxima
< 38,5 °CMeta — o mais rápido possível
Aspecto
Orientação
Método mais eficaz
Imersão em água gelada quando disponível e viável
Alternativas
Resfriamento evaporativo com névoa e ventilador, compressas de gelo em axilas, virilhas e pescoço, lençóis úmidos
Adjuvante
Cristaloide gelado por via endovenosa
Sedação
Faz parte do tratamento: o benzodiazepínico reduz a produção endógena de calor pela atividade muscular
Não usar
Antitérmicos não funcionam — não há deslocamento do ponto de ajuste hipotalâmico
Refratariedade
Intubação com sedação profunda e bloqueio neuromuscular não despolarizante; mantenha o resfriamento
Monitorização
Temperatura central contínua; interrompa o resfriamento ativo ao atingir a meta para evitar hipotermia de rebote
Medir apenas a temperatura axilar é a causa mais frequente de hipertermia não reconhecida. Use termômetro retal ou esofágico.
Rotas de tratamento
Condutas em que a diferenciação correta muda o tratamento específico — e o desfecho. O benzodiazepínico e o resfriamento são comuns a todas; os demais fármacos são específicos.
Quando esta rota entraHipertermia com alteração mental e instabilidade autonômica após exposição a agente serotoninérgico, antipsicótico, anestésico halogenado, anticolinérgico ou estimulante.
Base para todas2 esquemas
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
1ª escolhaDiazepam
5–10 mg IV
A cada 3–5 min, titulado
Até controle da agitação e do tônus
Reduz a produção de calor muscular; atenção à via aérea.
Antídoto da hipertermia maligna; adjuvante na neuroléptica maligna.
Em 30 segundos
O essencial de identificador
Oito achados de exame físico bastam para apontar a toxíndrome mais compatível na maioria dos casos.
Os achados definidores pesam mais: clônus, rigidez, fasciculações, pele encharcada, pele seca e miose com bradipneia.
Achados contraditórios não são erro do exame — são sinal de policonsumo, tratamento prévio ou causa não toxicológica.
Nenhum antídoto deve ser dado só com base na ferramenta: confirme a compatibilidade clínica e as contraindicações.
Identificador de toxíndrome
Identificador de toxíndrome
8 achados • hipótese mais compatível • conduta imediata. Preencha os achados do exame físico. A ferramenta procura primeiro os achados que definem cada toxíndrome (clônus, rigidez, fasciculações, pele encharcada, pele seca, miose com bradipneia) e depois as combinações típicas, devolvendo a hipótese mais compatível, o achado que a confirmaria e a conduta imediata correspondente.
Preencha os oito achados do exame físico para ver a toxíndrome mais compatível.
Ferramenta de apoio ao raciocínio, construída a partir dos perfis clássicos descritos na literatura de toxicologia clínica. Não é escore validado e não substitui o julgamento clínico. Compatibilidade baixa em todas as hipóteses costuma significar toxíndrome mista, tratamento prévio ou causa não toxicológica — e é uma informação útil por si só.
Como usar o resultado
O resultado é uma hipótese de trabalho, não um diagnóstico. Ele serve para decidir o que fazer nos próximos minutos e qual achado procurar a seguir. Se o quadro mudar — e ele muda, com o tempo e com o tratamento —, preencha de novo: a resposta pode mudar também.
Compatibilidade alta em uma hipótese — trate como tal, mas mantenha a investigação aberta e reavalie após cada intervenção.
Duas hipóteses próximas — procure ativamente o achado que as separa: pele, peristaltismo, clônus ou frequência respiratória.
Compatibilidade baixa em todas — pense em toxíndrome mista, em modificação por tratamento prévio ou em causa não toxicológica.
Achados contraditórios — miose com taquicardia, agitação com bradipneia — apontam policonsumo, que é a regra e não a exceção.
Nunca administre antídoto com base apenas no resultado: confirme a compatibilidade clínica e considere as contraindicações.
Os perfis por trás da ferramenta
Para cada perfil, a ferramenta usa um achado que confirma e uma conduta imediata. Vale conhecê-los mesmo sem a ferramenta: são a forma mais compacta de levar as oito síndromes para o plantão. Repare que a conduta comum a quase todas é suporte com benzodiazepínico — o antídoto específico é exceção.
Perfil
Achado que confirma
Conduta imediata
Anticolinérgica
Pele e mucosas secas com retenção urinária e íleo. Alucinações táteis e fala arrastada reforçam.
Suporte, benzodiazepínico para agitação e resfriamento. Fisostigmina apenas em casos selecionados, com ECG sem sinais de bloqueio de canal de sódio.
Colinérgica
Secreções em excesso: broncorreia, sialorreia, lacrimejamento e diarreia, com fasciculações.
Descontaminação externa com equipe protegida, atropina titulada pela secreção brônquica e pralidoxima nos organofosforados. Evite succinilcolina.
Simpaticomimética
Sudorese preservada com peristaltismo presente — é o que separa do anticolinérgico.
Benzodiazepínico titulado é a primeira linha para agitação, hipertensão e taquicardia. Resfriamento agressivo se hipertermia, hidratação e ECG.
Opioide
Miose puntiforme com bradipneia. A tríade se completa com rebaixamento do nível de consciência.
Ventilação e oxigenação primeiro. Naloxona titulada para restaurar ventilação, não para despertar. Vigilância prolongada pela duração maior do opioide.
Sedativo-hipnótica
Sonolência despertável com disartria, ataxia e nistagmo, e ausência de achados autonômicos.
Suporte clínico, via aérea, glicemia e observação. Flumazenil raramente indicado e contraindicado no usuário crônico. Procure ativamente a coingestão.
Serotoninérgica
Clônus e hiperreflexia com predomínio em membros inferiores. Teste no tornozelo resolve o diferencial.
Suspender o agente, benzodiazepínico, resfriamento agressivo e hidratação. Ciproeptadina como adjuvante. Evite antipsicóticos.
Neuroléptica maligna
Rigidez em cano de chumbo generalizada, com hiporreflexia e instalação em dias a semanas.
Suspender o antipsicótico, benzodiazepínico, resfriamento e hidratação vigorosa pela rabdomiólise. Bromocriptina ou dantroleno nos casos graves.
Abstinência de sedativos
História de interrupção de álcool ou benzodiazepínico, com tremor grosseiro e alucinações visuais.
Benzodiazepínico em dose suficiente para controlar os sintomas, hidratação, tiamina e correção de eletrólitos. Procure infecção e distúrbio metabólico associados.
Quando nada fecha, o centro de informação toxicológica (Disque-Intoxicação 0800 722 6001) ajuda a interpretar o quadro e a decidir sobre antídotos de uso incomum — ligar cedo vale mais que ligar certo.
Em 30 segundos
O essencial de exames
A triagem toxicológica urinária quase nunca muda conduta; glicemia, ECG, gasometria com lactato, eletrólitos com ânion gap, osmolalidade e paracetamol, sim.
Ânion gap = Na − (Cl + HCO₃), normal de 8 a 12 mEq/L; some 2,5 para cada 1 g/dL de albumina abaixo de 4.
Gap osmolar acima de 10 mOsm/kg sugere álcool tóxico — mas gap normal não exclui a chegada tardia.
O ECG é o exame toxicológico mais útil da primeira hora: QRS largo pede bicarbonato; QT longo pede potássio e magnésio.
Os exames que realmente mudam conduta
A triagem toxicológica urinária quase nunca muda a conduta na emergência. Os exames abaixo, sim — e todos estão disponíveis na maioria dos serviços. A lógica é procurar o que tem tratamento: hipoglicemia, cardiotoxicidade, acidose de causa tóxica e coingestões silenciosas como o paracetamol.
Exame
O que procura
Consequência prática
Glicemia capilar
Hipoglicemia, que imita qualquer toxíndrome
Obrigatória em todo rebaixamento. Corrija antes de qualquer outra hipótese
Eletrocardiograma
QRS alargado com onda R em aVR; QT prolongado; arritmias
QRS acima de 100 a 120 ms indica bloqueio de canal de sódio e ; QT longo pede correção de potássio e magnésio
Gasometria com lactato
Acidose metabólica e sua magnitude
Acidose láctica grave desproporcional ao exame sugere cianeto, metformina ou monóxido de carbono
Eletrólitos com ânion gap
Acidose metabólica com ânion gap elevado
Direciona para álcoois tóxicos, salicilato, metformina, ferro e isoniazida
Osmolalidade sérica
Gap osmolar elevado
Sugere metanol, etilenoglicol, etanol ou isopropanol — e antecipa e diálise
Paracetamol sérico
Coingestão silenciosa e tratável
Rastreio em toda tentativa de suicídio por ingestão, mesmo sem história de paracetamol
Creatinoquinase
Rabdomiólise
Frequente em agitação, hipertermia e convulsão; orienta hidratação e vigilância renal
Co-oximetria
Carboxi-hemoglobina e metemoglobina
A oximetria de pulso não detecta nenhuma das duas e pode dar falsa segurança
Beta-hCG
Gestação
Muda investigação, imagem e manejo
Triagem urinária
Classes de drogas de abuso
Raramente muda conduta. Falso-negativos e falso-positivos são frequentes; não use para excluir
Ânion gap corrigido e gap osmolar
O ânion gap é o sódio menos a soma de cloro e bicarbonato, com referência habitual de 8 a 12 mEq/L. Ele deve ser corrigido pela albumina, porque a hipoalbuminemia mascara acidoses com ânion gap elevado — armadilha frequente no paciente crítico: some cerca de 2,5 mEq/L para cada 1 g/dL de albumina abaixo de 4.
O gap osmolar é a osmolalidade medida menos a calculada (2 × sódio + glicemia ÷ 18 + ureia ÷ 6, ou BUN ÷ 2,8). Ânion gap e gap osmolar elevados ao mesmo tempo são o cenário clássico de álcool tóxico; ânion gap normal não exclui intoxicação — paracetamol, opioides, benzodiazepínicos e digoxina cursam sem acidose. Para o ânion gap corrigido, use a calculadora de ânion gap do site; o gap osmolar está logo abaixo.
8–12 mEq/LÂnion gap habitual
+2,5Por 1 g/dL de albumina abaixo de 4
≥ 20Ânion gap corrigido acentuadamente elevado
> 10Gap osmolar elevado (mOsm/kg)
Leitura combinada. Ânion gap corrigido ≥ 20: percorra as causas tóxicas (metanol, etilenoglicol, salicilatos, metformina, ferro, isoniazida, cianeto e monóxido de carbono), além de cetoacidose e uremia. Ânion gap elevado: colha lactato, cetonas, salicilato e função renal, rastreie paracetamol e considere gap osmolar se a acidose permanecer inexplicada. Acidose com ânion gap normal aponta perda de bicarbonato ou acidose tubular renal.
Calculadora do gap osmolar
Osmolaridade calculada e gap osmolar
Informe os valores do paciente em unidades brasileiras. Osmolaridade calculada = 2 × Na + glicose ÷ 18 + ureia ÷ 6 (ureia em mg/dL; se o laboratório informar nitrogênio ureico, converta: ureia = BUN × 2,14). O etanol, quando dosado, entra como etanol ÷ 4,6 e evita atribuir a um álcool tóxico o gap que é do etanol. Deixe a osmolalidade medida em branco se não dispuser do exame — nesse caso, o gap osmolar não é calculado.
Osmolaridade calculada—
Gap osmolar—
Leitura rápida—
Gap osmolar elevado sugere soluto osmoticamente ativo não medido: metanol, etilenoglicol, etanol, isopropanol ou propilenoglicol. Ânion gap e gap osmolar elevados simultaneamente: considere ou e acione nefrologia e toxicologia sem aguardar confirmação laboratorial. Gap osmolar normal não exclui álcool tóxico.
Acidose com ânion gap elevado: as causas tóxicas
Diante de acidose metabólica com ânion gap elevado em paciente intoxicado, percorra sistematicamente esta lista antes de assumir causa clínica. O surto de intoxicação por metanol em bebidas adulteradas no Brasil, em 2025, mostrou o custo do atraso: a Nota Técnica Conjunta nº 376/2025 do Ministério da Saúde define caso confirmado com acidose metabólica (pH < 7,3 e bicarbonato < 20 mEq/L) e gap osmolar acima de 10, ou metanol detectado no sangue ou urina.
Metanol — acidose grave, alteração visual, gap osmolar elevado. Antídoto: ou , com diálise.
Etilenoglicol — acidose grave, cristais de oxalato na urina, lesão renal aguda, gap osmolar elevado.
Salicilatos — alcalose respiratória somada a acidose metabólica, zumbido, hipertermia. Alcalinização urinária e diálise nos casos graves.
Metformina — acidose láctica grave, geralmente com disfunção renal associada. Diálise nos casos graves.
Isoniazida — convulsão refratária com acidose láctica. Antídoto: em dose alta.
Cianeto e monóxido de carbono — lactato muito elevado com exame relativamente pobre.
Cetoacidose alcoólica — contexto de etilismo, jejum e vômitos, frequentemente confundida com intoxicação.
O gap osmolar normal não exclui intoxicação por álcool tóxico: ele cai à medida que o álcool é metabolizado nos ácidos que causam a acidose. Chegada tardia costuma cursar com gap osmolar baixo e ânion gap alto — o oposto do padrão clássico ensinado.
O eletrocardiograma como exame toxicológico
Muitos tóxicos agem sobre canais iônicos do miocárdio, e cada canal deixa uma marca própria no traçado: o bloqueio de sódio alarga o QRS, o de potássio alonga o QT, e os bloqueadores do nó (betabloqueador, bloqueador de cálcio, digoxina) produzem bradicardia e bloqueios. Ler o ECG com essa pergunta em mente transforma um exame barato em diagnóstico de mecanismo.
QRS alargado
Bloqueio de canal de sódio. Onda R em aVR maior que 3 mm reforça. Agentes: antidepressivos tricíclicos, cocaína, difenidramina, cloroquina, bupropiona, flecainida. Conduta: 1 a 2 mEq/kg.
QT prolongado
Bloqueio de canal de potássio, com risco de torsades de pointes. Agentes: antipsicóticos, metadona, antiarrítmicos, macrolídeos, antieméticos. Conduta: corrigir potássio e magnésio, suspender o agente.
Bradicardia
Betabloqueador, bloqueador de canal de cálcio, digoxina, clonidina, organofosforado, opioide. Cada um tem antídoto ou conduta própria.
Padrões específicos
Impregnação digitálica com bradiarritmia e extrassístoles; padrão de Brugada induzido por bloqueadores de sódio; isquemia por vasoespasmo na cocaína.
O eletrocardiograma é barato, imediato e disponível — e frequentemente é o único exame que muda a conduta na primeira hora. Faça em todo paciente intoxicado, mesmo com toxíndrome aparentemente benigna.
Traçados que a toxicologia produz
Ritmos que acompanham as toxíndromes
Compare os padrões mais comuns. Não existe traçado típico de "QRS largo por bloqueio de sódio" nesta galeria: procure QRS > 100 ms com R terminal em aVR no ECG de 12 derivações.
Taquicardia sinusal
O ritmo mais comum nas toxíndromes de excitação — anticolinérgica, simpaticomimética, serotoninérgica e abstinência. Não diferencia entre elas: quem diferencia é a pele e o exame neuromuscular.
Onda P antes de cada QRS
FC ≈ 125 bpm
QRS estreito
Bradicardia sinusal
Colinérgica (organofosforado, carbamato), opioide, clonidina, betabloqueador e bloqueador de canal de cálcio. Na colinérgica, a atropina é titulada pela secreção, não pela frequência.
Ritmo sinusal regular
FC ≈ 45 bpm
QRS estreito
BAV total com escape ventricular
Betabloqueador, bloqueador de canal de cálcio ou digoxina em dose tóxica. Pede cálcio, insulina em dose alta, glucagon ou anticorpo antidigoxina conforme o agente — e marca-passo se refratário.
Ondas P e QRS sem relação entre si
Escape de QRS largo e lento
Intervalos P-P regulares
QT prolongado
Bloqueio de canal de potássio por antipsicóticos, metadona, antiarrítmicos, macrolídeos e antieméticos. Corrija potássio e magnésio e suspenda o agente.
Intervalo QT prolongado para a frequência
Onda T alargada
Ritmo sinusal lento
Torsades de pointes
Complicação do QT longo tóxico. Sulfato de magnésio 2 g IV e desfibrilação se instável; aumentar a frequência cardíaca encurta o QT.
TV polimórfica com QRS que "torce" em torno da linha de base
Amplitude que cresce e diminui em fusos
Frequência muito alta
Traçados esquemáticos gerados por computador (25 mm/s, 10 mm/mV) para estudo e comparação. Confirme sempre no ECG de 12 derivações do paciente.
QT corrigido nas intoxicações
QTc por Bazett e Fridericia
Meça o QT na derivação em que ele é mais longo (habitualmente DII ou V5), do início do QRS ao fim da onda T. Na taquicardia das toxíndromes de excitação, Bazett superestima o QTc — prefira Fridericia. QTc ≥ 500 ms ou aumento > 60 ms do basal indica risco alto de torsades.
QTc Fridericia (ms)—
QTc Bazett (ms)—
Leitura—
QT longo tóxico: corrija potássio e magnésio, suspenda os agentes que prolongam o QT e evite antipsicóticos e antieméticos adicionais. Meça o QRS na derivação em que ele é mais largo — alargamento discreto passa despercebido na leitura automática.
Em 30 segundos
O essencial de antídotos
Antídoto é a exceção, não a regra: a maioria das intoxicações se trata com suporte — mas, quando existe, o atraso custa caro.
Pré-requisito é toxíndrome compatível; titule pelo alvo fisiológico (ventilação na naloxona, secreção brônquica na atropina).
Na cardiotoxicidade, AHA 2023: bicarbonato no QRS largo, insulina em dose alta e vasopressor no betabloqueador e no bloqueador de cálcio, anticorpo antidigoxina e ECMO-VA no refratário.
Metanol: fomepizol (importado pelo Ministério da Saúde em 2025) ou etanol, sem aguardar confirmação; hemodiálise nos casos graves.
Antídotos por toxíndrome e por agente
Antídoto é a exceção, não a regra: a maioria das intoxicações se trata com suporte. Quando existe, porém, costuma mudar o desfecho de forma decisiva — e o atraso custa caro. A tabela foi revisada pelo foco da AHA de 2023 em intoxicações graves; cada antídoto tem ficha com apresentação, dose e cuidados.
Agente ou toxíndrome
Antídoto
Observação
Opioides
Titular para restaurar ventilação, não para despertar. Duração menor que a da maioria dos opioides
Organofosforados e carbamatos
e
Atropina titulada pela secreção brônquica, não pela frequência cardíaca. Pralidoxima apenas nos organofosforados
Paracetamol
Eficácia máxima nas primeiras 8 a 10 horas. Guiada pelo nomograma quando o horário é conhecido. Esquema de duas bolsas (200 mg/kg em 4 h + 100 mg/kg em 16 h) tem menos reações que o clássico de três
Metanol e etilenoglicol
ou
Associar cofatores e considerar hemodiálise. Iniciar antes da confirmação laboratorial quando a suspeita é forte. No Brasil, fomepizol via Ministério da Saúde e CIATox desde 2025
Bloqueio de canal de sódio
1 a 2 mEq/kg em bolus para QRS acima de 100 a 120 ms, repetido conforme o eletrocardiograma
Cianeto
Alternativa: . Suspeite em incêndio em ambiente fechado com lactato muito elevado
Monóxido de carbono
Oxigênio a 100%
Câmara hiperbárica em casos selecionados. A oximetria de pulso não detecta carboxi-hemoglobina
Metemoglobinemia
Cianose que não melhora com oxigênio, com diferença entre a saturação do oxímetro e a da gasometria
Betabloqueadores
e vasopressor;
AHA 2023: insulina em dose alta com glicose e vasopressores na hipotensão; glucagon e como adjuvantes; ECMO-VA no choque refratário (antes: glucagon como antídoto principal)
Bloqueadores de canal de cálcio
e
A terapia com insulina em dose alta e glicose é central nos casos graves, com vasopressores
Digoxina
Indicado em arritmia ameaçadora, hipercalemia significativa ou ingestão maciça
Ferro
Casos com acidose, choque ou concentração sérica elevada
Isoniazida
Convulsão refratária a benzodiazepínico. Dose grama a grama da isoniazida ingerida
Anticolinérgica
Casos selecionados, com delirium puro e sem sinais de bloqueio de canal de sódio no eletrocardiograma
Síndrome serotoninérgica
Adjuvante. A base é suspender o agente, sedar com benzodiazepínico e resfriar
Benzodiazepínicos
Raramente indicado. Contraindicado no usuário crônico e na coingestão proconvulsivante; sem papel na parada cardíaca
Vários desses antídotos têm disponibilidade irregular no Brasil. Conheça o estoque do seu serviço e o hospital de referência da sua região antes de precisar deles, e acione o centro de informação toxicológica precocemente — ele também orienta sobre onde localizar o antídoto.
Regras gerais sobre antídotos
Todo antídoto troca um risco por outro. O raciocínio que justifica usá-lo é sempre o mesmo: suporte já garantido, toxíndrome compatível, alvo fisiológico claro e risco próprio do antídoto menor que o da intoxicação. Estas regras valem para qualquer um deles.
Suporte primeiro. Nenhum antídoto substitui via aérea, ventilação, volume e correção metabólica.
Toxíndrome compatível é pré-requisito. Antídoto administrado às cegas troca um risco conhecido por outro desconhecido.
Titule pelo alvo fisiológico, não pela dose no papel — vale sobretudo para naloxona e atropina.
Considere a duração relativa: naloxona e flumazenil duram menos que os agentes que antagonizam, e a ressedação é esperada.
Alguns antídotos têm risco próprio significativo: flumazenil precipita convulsão, fisostigmina pode causar bradicardia e assistolia.
Não atrase o antídoto esperando confirmação laboratorial quando a suspeita é forte e o tempo importa — como nos álcoois tóxicos e no paracetamol.
Acione a toxicologia: a decisão sobre antídotos de uso incomum é exatamente o que o centro de informação existe para apoiar.
Atropina e pralidoxima
Tratamento da intoxicação por inibidores da colinesterase — no Brasil, sobretudo o "chumbinho" (carbamato, muitas vezes aldicarbe clandestino) e os organofosforados agrícolas. A causa de morte é a broncorreia com insuficiência respiratória, e é ela que orienta a titulação; a AHA 2023 recomenda imediata na intoxicação grave.
Aspecto
Orientação
Atropina — alvo
Titular pela secreção brônquica e pela ausculta pulmonar, não pela frequência cardíaca nem pela pupila
Atropina — esquema
Doses crescentes e dobradas a cada poucos minutos até secar as secreções (ex.: 1–2 mg IV, dobrando a cada 5 min); pode ser necessária dose total muito elevada
Manutenção
Infusão contínua nos casos graves (≈ 10–20% da dose total de ataque por hora), titulada para manter o paciente sem broncorreia
Pralidoxima
Reativa a colinesterase nos organofosforados; não é indicada nos carbamatos, em que a inibição é reversível
Momento
Quanto mais precoce, melhor — depois do envelhecimento da ligação, a reativação deixa de ser possível
Descontaminação
Retirar toda a roupa e lavar com água e sabão, com equipe protegida, pelo risco de contaminação secundária
Convulsão
Benzodiazepínico é a primeira linha e também reduz a mortalidade nesse contexto
Evitar
Succinilcolina, pela colinesterase plasmática inibida, com bloqueio prolongado. Prefira rocurônio
Vigilância
Síndrome intermediária com fraqueza proximal e respiratória entre 24 e 96 horas; neuropatia tardia semanas depois
Titular atropina pela frequência cardíaca é o erro clássico: o paciente segue taquicárdico pelo componente nicotínico enquanto se afoga em secreção.
Fisostigmina
Anticolinesterásico que atravessa a barreira hematoencefálica e reverte o delirium anticolinérgico. Indicação restrita e risco próprio relevante. No Brasil não há apresentação comercial regular — quando disponível, vem de estoque estratégico ou importação, e o benzodiazepínico resolve a maior parte dos casos sem esse risco.
Quando considerar
Delirium anticolinérgico puro, com agitação que impede o cuidado ou risco à segurança, e diagnóstico razoavelmente seguro
Dose: 0,5 a 2 mg IV lenta, em pelo menos 5 minutos, com monitorização contínua
ECG obrigatório antes e atropina disponível à beira do leito como antídoto da própria fisostigmina
Duração curta, de 30 a 60 minutos — a recorrência do delirium é esperada
Quando não usar
Sinais de bloqueio de canal de sódio no ECG — QRS alargado sugere antidepressivo tricíclico, e a fisostigmina pode precipitar assistolia
Bloqueio atrioventricular, broncoespasmo, obstrução intestinal ou urinária
Intoxicação de composição desconhecida
Efeitos adversos: bradicardia, assistolia, broncoespasmo, convulsão, sialorreia e vômitos
Na dúvida diagnóstica, não use. O benefício é sintomático e transitório; o risco, imediato e potencialmente fatal. Alternativa: benzodiazepínico para agitação resolve a maior parte dos casos sem esse risco.
Bicarbonato de sódio no QRS alargado
Tratamento do bloqueio de canal de sódio, que se manifesta como alargamento do QRS e arritmias de complexo largo. Funciona por dois mecanismos: a carga de sódio supera o bloqueio do canal e a alcalinização reduz a ligação do fármaco ao canal. É recomendação classe 1 da AHA 2023 para a cardiotoxicidade grave por bloqueadores de sódio.
> 100–120 msQRS que indica tratamento
1–2 mEq/kgBolus IV, repetido pelo ECG
7,45–7,55pH arterial alvo
1 mL = 1 mEqBicarbonato a 8,4%
Aspecto
Orientação
Padrão eletrocardiográfico
QRS alargado com onda R em aVR maior que 3 mm e desvio do eixo terminal para a direita
Para 70 kg: 1 a 2 mEq/kg equivalem a 70 a 140 mL de bicarbonato a 8,4% — cerca de 7 a 14 ampolas de 10 mL
Monitorização
Gasometria seriada, sódio, potássio e eletrocardiograma após cada bolus
Cuidados
Hipocalemia, hipernatremia, sobrecarga de volume e alcalose excessiva
Associação
Corrija potássio e magnésio; benzodiazepínico para convulsão. Evite antiarrítmicos da classe IA e IC
Meça o QRS na derivação em que ele é mais largo. Alargamento discreto passa facilmente despercebido na leitura automática do aparelho.
Cianeto, monóxido de carbono e metemoglobina
Asfixiantes celulares. Cursam com acidose láctica grave desproporcional ao exame e com oximetria de pulso enganosamente normal. Na vítima de incêndio em ambiente fechado, cianeto e monóxido costumam coexistir — e a é preferida justamente porque não produz metemoglobina.
Quando suspeitar de cianeto
Incêndio em ambiente fechado, com fuligem em narinas e orofaringe, rebaixamento e lactato muito elevado.
Antídoto do cianeto
Hidroxocobalamina 5 g IV em 15 min (AHA 2023, classe 1). Alternativa: . Nitritos são evitados na vítima de incêndio, pela metemoglobinemia somada à carboxi-hemoglobina.
Quando suspeitar de monóxido
Cefaleia, náusea e confusão, sobretudo em vários moradores da mesma casa ou após uso de aquecedor e gerador em ambiente fechado.
Tratamento do monóxido
Oxigênio a 100% com máscara não reinalante; câmara hiperbárica em casos selecionados. Vigilância de sequela neurológica tardia.
Armadilha comum
A oximetria de pulso não distingue carboxi-hemoglobina de oxi-hemoglobina e pode mostrar saturação normal em paciente gravemente intoxicado. Exame correto: co-oximetria.
Metemoglobinemia
Cianose que não melhora com oxigênio, com diferença entre a saturação do oxímetro e a da gasometria. Antídoto: . Suporte: correção da acidose e suporte hemodinâmico.
Lactato desproporcionalmente alto em vítima de incêndio é um dos poucos achados que justificam antídoto antes da confirmação laboratorial.
Álcoois tóxicos
Metanol e etilenoglicol são pouco tóxicos por si mesmos: quem causa o dano são os metabólitos gerados pela álcool-desidrogenase. O tratamento bloqueia essa enzima ( ou ) e remove o álcool e os ácidos (hemodiálise).
Desde o surto de 2025 por bebidas adulteradas, a intoxicação por metanol após consumo de bebida alcoólica é evento de saúde pública de notificação imediata (Nota Técnica Conjunta nº 376/2025). O fomepizol, sem registro até então, foi importado pelo Ministério da Saúde e distribuído aos estados; o etanol farmacêutico segue como alternativa disponível em todo o país. A solicitação do fomepizol segue o fluxo da Secretaria de Saúde, com apoio do CIATox.
Aspecto
Orientação
Quando suspeitar
Acidose metabólica com ânion gap elevado e, na fase inicial, gap osmolar elevado. Latência de 6 a 72 horas no metanol (maior se houve etanol junto)
Metanol
Alteração visual — visão borrada, "campo nevado", escotomas, cegueira — com acidose grave e lesão de núcleos da base
Etilenoglicol
Cristais de oxalato de cálcio na urina, hipocalcemia e lesão renal aguda
Antídoto
Fomepizol 15 mg/kg IV em 30 min, depois 10 mg/kg 12/12 h (4 doses) e 15 mg/kg 12/12 h; a cada 4 h durante a hemodiálise. Alternativa: etanol, com controle de nível sérico (alvo 100–150 mg/dL)
Quando iniciar
Diante de suspeita forte, sem aguardar confirmação laboratorial — o dano é progressivo e o antídoto bloqueia a produção do metabólito
Hemodiálise
Acidose grave, alteração visual ou neurológica (coma, convulsão), lesão renal aguda ou metanol sérico > 500 mg/L. Remove tanto o álcool quanto os metabólitos
Cofatores
no metanol (50 mg IV 6/6 h); e no etilenoglicol
Armadilha
Gap osmolar normal não exclui a intoxicação: ele cai à medida que o álcool é metabolizado. Chegada tardia cursa com gap osmolar baixo e ânion gap alto
Etanol concomitante
Compete pela enzima e retarda a formação dos metabólitos, mascarando a gravidade inicial
Acidose com ânion gap elevado sem explicação em paciente com alteração visual é metanol até prova em contrário. Acione toxicologia e nefrologia juntos — e notifique imediatamente.
Rotas de tratamento
Cinco cenários em que o antídoto é decisivo — e em que a dose e o alvo de titulação importam tanto quanto a indicação. Cada linha abre a ficha completa com apresentação, diluição e cuidados.
Quando esta rota entraMiose, secreções em excesso, fasciculações e bradicardia (ou taquicardia nicotínica) após exposição a agrotóxico ou "chumbinho".
Antídotos3 esquemas
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
1ª escolhaAtropina
1–2 mg IV, dobrando a cada 5 min
Até atropinização; infusão 10–20% da dose de ataque/h
Dias, conforme secreção
Alvo: ausculta limpa e secreção seca, não a FC.
OrganofosforadoPralidoxima
30 mg/kg IV em 30 min + 8 mg/kg/h
Infusão contínua
Até 12–24 h sem atropina
Não indicada em carbamato; disponibilidade restrita.
ConvulsãoDiazepam
10 mg IV
Repetir em 5–10 min
Conforme crises
Primeira linha; reduz mortalidade.
Quando esta rota entraQRS > 100–120 ms, arritmia de complexo largo, bradicardia ou choque atribuídos a tóxico cardioativo.
Bloqueio de canal de sódio1 esquema
Indicação
Dose
Via / velocidade
Duração
Observações
1ª escolhaBicarbonato de sódio 8,4%
1–2 mEq/kg
IV em bolus (1 mL = 1 mEq)
Repetir pelo QRS; pH 7,45–7,55
Tricíclicos, cocaína, difenidramina, cloroquina.
Betabloqueador e bloqueador de canal de cálcio3 esquemas
Indicação
Dose
Via / velocidade
Duração
Observações
1ª escolhaGluconato de cálcio 10%
30–60 mL (3–6 g)
IV em 5–10 min; repetir
Infusão se resposta
Sobretudo no bloqueador de canal de cálcio.
1ª escolhaInsulina em dose alta
1 U/kg + 1 U/kg/h (até 10 U/kg/h)
BIC com glicose e potássio
Até estabilidade
AHA 2023: classe 1 na hipotensão por BB e BCC.
AdjuvanteGlucagon
3–10 mg (0,05–0,15 mg/kg)
IV em 3–5 min; infusão 3–5 mg/h
Enquanto houver resposta
Betabloqueador; vômito é comum.
Digoxina1 esquema
Indicação
Dose
Via / velocidade
Duração
Observações
GraveFragmentos Fab antidigoxina
Aguda: 10 frascos empíricos; crônica: 3–6
IV em 30 min (bolus na parada)
Repetir se necessário
Arritmia ameaçadora, K > 5–6 mEq/L ou ingestão maciça.
Quando esta rota entraVítima de incêndio com lactato muito elevado, cefaleia coletiva em ambiente fechado ou cianose que não melhora com oxigênio.
Antídotos4 esquemas
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
TodosOxigênio a 100%
Máscara não reinalante ou VM com FiO₂ 100%
Contínuo
Até COHb normal e assintomático
Câmara hiperbárica em casos selecionados.
1ª escolhaHidroxocobalamina
5 g (criança 70 mg/kg)
IV em 15 min; repetir 5 g
Máx. 10 g
Cianeto; urina e pele avermelhadas.
AlternativaTiossulfato de sódio 25%
12,5 g (50 mL); criança 400 mg/kg
IV em 10–20 min
Repetir metade se necessário
Início de ação mais lento.
MetHbAzul de metileno 1%
1–2 mg/kg
IV em 5 min; repetir 1 mg/kg
Em 30–60 min se persistir
Evitar na deficiência de G6PD e com serotoninérgicos.
Quando esta rota entraAcidose com ânion gap elevado e/ou gap osmolar > 10, alteração visual ou história de bebida adulterada.
Bloqueio enzimático2 esquemas
Indicação
Dose
Via / velocidade
Duração
Observações
PreferencialFomepizol
15 mg/kg; depois 10 mg/kg 12/12 h ×4; depois 15 mg/kg 12/12 h
IV em 30 min (em 100 mL de SF)
Até metanol < 20 mg/dL, pH normal e assintomático
A cada 4 h durante a hemodiálise.
AlternativaEtanol
Ataque 0,8 g/kg; manutenção 80–130 mg/kg/h
IV a 10% (ou VO/SNG)
Alvo 100–150 mg/dL
Etilista crônico: 150 mg/kg/h; dobrar na diálise.
Cofatores3 esquemas
Indicação
Dose
Via / velocidade
Duração
Observações
MetanolÁcido folínico
50 mg
IV 6/6 h
Até eliminação (até 96 h)
Acelera a degradação do ácido fórmico.
EtilenoglicolTiamina
100 mg
IV 6/6 h
Durante o tratamento
Desvia o metabolismo para produtos não tóxicos.
EtilenoglicolPiridoxina
50 mg
IV 6/6 h
Durante o tratamento
Cofator do metabolismo do glioxilato.
Quando esta rota entraAgente identificado com antídoto específico e toxíndrome ou laboratório compatíveis.
Antídotos específicos5 esquemas
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
PadrãoN-acetilcisteína
200 mg/kg em 4 h + 100 mg/kg em 16 h
IV (duas bolsas)
20 h; prolongar se lesão hepática
Ideal até 8–10 h; esquema clássico de 21 h é alternativa.
GraveDesferroxamina
15 mg/kg/h
IV contínua
Em geral até 24 h
Acidose, choque ou ferro sérico elevado.
IsoniazidaPiridoxina
1 g por grama de isoniazida (desconhecida: 5 g)
IV, 0,5–1 g/min
Até cessar a convulsão
Criança: 70 mg/kg (máx. 5 g).
SelecionadoFisostigmina
0,5–2 mg
IV lenta em ≥ 5 min
Repetir em 10–20 min
Só com ECG sem QRS largo e atropina à mão.
EvitarFlumazenil
0,2 mg; repetir 0,2–0,5 mg
IV em 30 s
Até 1 mg; ressedação em 30–60 min
Só sedação iatrogênica em não usuário crônico.
Em 30 segundos
O essencial de cenários especiais
Em criança pequena, um ou dois comprimidos de adulto podem matar: tricíclicos, bloqueadores de cálcio, sulfonilureias, opioides, cânfora, teofilina e cloroquina.
Idoso, gestante, vítimas múltiplas e exposição ocupacional mudam o que fazer primeiro — e quem precisa ser protegido.
Tentativa de suicídio: paracetamol, ECG e ânion gap em todos, e avaliação de risco antes da alta.
Na dúvida, Disque-Intoxicação 0800 722 6001 — ligar cedo vale mais que ligar certo.
Criança pequena: um comprimido pode matar
Em crianças pequenas, a ingestão exploratória de uma ou duas unidades de medicamento de adulto pode ser letal, pela relação entre dose e peso — a chamada regra do "um comprimido pode matar". A apresentação pode ser inespecífica (sonolência, irritabilidade, recusa alimentar) e a observação deve ser prolongada mesmo na criança assintomática, pelo tempo correspondente à farmacocinética do agente.
Aspecto
O que fazer
Agentes clássicos
Antidepressivos tricíclicos, bloqueadores de canal de cálcio, sulfonilureias, opioides, cânfora, teofilina, cloroquina e antiarrítmicos
Também relevantes
Clonidina, benzocaína tópica, salicilato de metila, imidazolinas em colírio e descongestionante nasal
Conduta
Observação prolongada mesmo em criança assintomática, pelo tempo correspondente à farmacocinética do agente
Sulfonilureia
Hipoglicemia recorrente e tardia — observação de pelo menos 24 horas e considerar
Bloqueador de canal de cálcio
Formulações de liberação prolongada exigem observação estendida e leito monitorizado
Toxíndrome atípica
A apresentação em criança pode ser inespecífica: sonolência, irritabilidade, recusa alimentar
Prevenção
Oriente guarda de medicamentos fora do alcance, em embalagem original, e evite a expressão docinho ao administrar remédio
Proteção
Avalie negligência e acione o conselho tutelar quando indicado
Diante de criança com toxíndrome inexplicada, pergunte quais medicamentos existem na casa — inclusive os de avós e visitantes.
Idoso e gestante
Nos extremos de reserva fisiológica, a toxíndrome fica menos nítida e o custo do erro aumenta. No idoso, o problema é a soma: polifarmácia, interações e carga anticolinérgica acumulada. Na gestante, o erro mais comum é hesitar — e a melhor conduta para o feto é a estabilização materna.
Idoso
Toxíndromes atenuadas ou atípicas; polifarmácia; interações; menor reserva funcional. Rebaixamento no idoso pode ser intoxicação, sepse, distúrbio metabólico ou as três coisas. Revise a prescrição inteira e considere efeito anticolinérgico somado.
Gestante
A melhor conduta para o feto é a estabilização materna. Alguns antídotos têm dados limitados na gestação. Trate a mãe integralmente, sem retardar antídoto por receio teórico. Associe avaliação obstétrica e monitorização fetal conforme a idade gestacional.
Exposição ocupacional e vítimas múltiplas
Agrotóxicos, solventes e gases podem contaminar a equipe. Na exposição ocupacional, faça descontaminação externa antes do atendimento assistencial, com equipe protegida, e notifique como acidente de trabalho.
Vários pacientes com o mesmo quadro apontam exposição comum — gás, alimento, água, evento em ambiente fechado. Não entre no local sem proteção; acione bombeiros e vigilância. Cefaleia coletiva em ambiente fechado sugere monóxido de carbono; vários casos de alteração visual com acidose após bebida, metanol.
Paciente contaminado que entra na sala de emergência transforma a equipe em vítima. Retirar a roupa e irrigar a pele é a medida de melhor custo-benefício — e a mais esquecida.
Paciente sob custódia e tentativa de suicídio
Nos dois cenários, a história é o elo fraco. No paciente sob custódia ela é frequentemente omitida, incluindo a ingestão de pacotes de drogas; na tentativa de suicídio, a coingestão múltipla é a regra e a história é frequentemente incompleta ou minimizada. Em ambos, o exame dirigido e o laboratório substituem a confiança no relato.
Sob custódia
Priorize o atendimento médico. Considere imagem abdominal diante de toxíndrome inexplicada ou deterioração súbita (pacotes ingeridos).
Tentativa de suicídio
Rastreie paracetamol, faça eletrocardiograma e calcule o ânion gap em todos. Avaliação de risco de suicídio antes da alta, com a saúde mental.
Se você ou alguém que você conhece estiver em sofrimento psíquico, o CVV pode ser acionado pelo telefone 188, 24 horas por dia.
Intoxicação sem toxíndrome
Paracetamol, metanol, etilenoglicol, paraquat, amanitina e ferro cursam com fase inicial pobre e deterioração tardia. A ausência de toxíndrome não afasta intoxicação grave: baseie-se na história, no laboratório e no tempo decorrido. É aqui que o paracetamol sérico, a gasometria com ânion gap e o gap osmolar mostram seu valor.
Paciente conversando, sinais vitais normais e "nada no exame" não liberam ninguém que ingeriu agente de toxicidade tardia. Defina o tempo de observação com o centro de toxicologia.
Toxíndrome mista: quando nada fecha
Achados contraditórios não significam exame mal feito: significam mais de um agente, tratamento prévio ou causa não toxicológica somada. A estratégia muda de "identificar e reverter" para "tratar o que ameaça a vida agora e reavaliar". Ver também Rebaixamento do nível de consciência.
Aspecto
O que fazer
Quando suspeitar
Compatibilidade baixa em todas as hipóteses, ou achados que se contradizem — miose com taquicardia, agitação com bradipneia
Causa mais comum
Policonsumo, que é a regra e não a exceção em tentativa de suicídio e em uso recreativo
Modificadores
Sedativo administrado na ambulância, atropina prévia, restrição física e tempo decorrido alteram o quadro examinado
Não toxicológico
Sepse, traumatismo cranioencefálico, acidente vascular cerebral, hipoglicemia e distúrbio metabólico imitam e coexistem
Conduta
Trate o achado mais ameaçador primeiro — via aérea, convulsão, arritmia, hipertermia — e reavalie com frequência
Investigação
Eletrocardiograma, glicemia, eletrólitos, gasometria, ânion gap, paracetamol e imagem de crânio conforme o quadro
Antídotos
Seja mais conservador: antídoto em toxíndrome mal definida troca um risco conhecido por outro desconhecido
Reavaliação
A toxíndrome evolui. O quadro de agora não é o quadro de daqui a duas horas
Compatibilidade baixa em todas as hipóteses é informação útil por si só: diz que o raciocínio precisa se ampliar, e não que a ferramenta falhou.
Plantas e produtos caseiros
Datura (trombeteira) causa toxíndrome anticolinérgica intensa; o "chumbinho" é carbamato; produtos de limpeza misturados liberam gases irritantes. Pergunte ativamente sobre chás, plantas e produtos domésticos — é informação que raramente aparece sem ser solicitada. Para acidentes com serpentes, escorpiões e aranhas, ver Animais peçonhentos.
Jovem com delirium anticolinérgico após "chá" em grupo é trombeteira até prova em contrário; vários casos simultâneos reforçam a hipótese.
Centro de informação toxicológica (CIATox)
É o recurso mais subutilizado da toxicologia clínica brasileira — gratuito, disponível 24 horas e com acesso a informação que nenhum manual reúne. O Disque-Intoxicação (0800 722 6001), criado pela Anvisa e operado pela Rede Nacional de Centros de Informação e Assistência Toxicológica (Renaciat), direciona a ligação ao CIATox de referência mais próximo.
Quando acionar
Agente desconhecido, toxíndrome mal definida, dúvida sobre antídoto, dose ou janela, e qualquer caso grave ou atípico.
O que ter em mãos
Nome comercial e princípio ativo, apresentação e concentração, quantidade estimada, horário, peso e idade do paciente.
O que informam
Toxicidade do agente, dose tóxica, janela de descontaminação, antídoto e dose, tempo de observação e critérios de alta.
Localização de antídoto
Orientam onde encontrar antídotos de disponibilidade irregular na sua região — como fomepizol, hidroxocobalamina e pralidoxima.
Vigilância
A notificação alimenta o sistema de informação e ajuda a detectar surtos, produtos adulterados e novos agentes — como no surto de metanol de 2025.
Antes da alta
Podem orientar tempo de observação e sinais de alarme para o retorno. Para sofrimento psíquico, o CVV atende pelo 188, 24 horas por dia.
Ligar cedo vale mais que ligar certo: a orientação sobre janela de descontaminação e antídoto perde valor com o tempo decorrido.
Erros comuns
Quase todos os erros abaixo têm a mesma raiz: deixar de examinar o que decide (axila, abdome, tornozelo, frequência respiratória, temperatura central) ou confiar num exame que não responde à pergunta (triagem urinária, oximetria, temperatura axilar). Use a lista como checklist antes de fechar o caso.
Iniciar o raciocínio sindrômico antes de estabilizar via aérea, ventilação e circulação.
Deixar de medir a glicemia capilar em paciente com rebaixamento do nível de consciência.
Medir apenas a temperatura axilar e perder uma hipertermia grave.
Não auscultar o abdome — o peristaltismo separa toxíndromes que os sinais vitais não separam.
Não tocar a pele do paciente e confundir anticolinérgico com simpaticomimético.
Não testar clônus e confundir síndrome serotoninérgica com neuroléptica maligna.
Excluir intoxicação porque a triagem urinária veio negativa.
Confiar na oximetria de pulso em suspeita de monóxido de carbono ou metemoglobinemia.
Usar flumazenil como teste diagnóstico em coma de causa indeterminada.
Titular atropina pela frequência cardíaca em vez da secreção brônquica na intoxicação colinérgica.
Não fazer eletrocardiograma em paciente com toxíndrome aparentemente benigna.
Não rastrear paracetamol em tentativa de suicídio sem história de paracetamol.
Não calcular o ânion gap diante de acidose metabólica em paciente intoxicado.
Interpretar gap osmolar normal como exclusão de intoxicação por álcool tóxico.
Usar dantroleno como tratamento genérico de hipertermia.
Prescrever antipsicótico para agitação em síndrome hipertérmica.
Fechar o diagnóstico na toxíndrome e deixar de investigar sepse, trauma e causa metabólica.
Não acionar o centro de informação toxicológica em caso de dúvida.
Resumo do fluxo
O fluxo inteiro cabe em dez passos, e a ordem importa: proteção, estabilização e causas reversíveis vêm antes do raciocínio sindrômico; antídoto só depois de toxíndrome compatível; e reavaliação sempre, porque o quadro muda.
Proteja a equipe
Considere descontaminação externa antes de trazer o paciente para a área assistencial.
ESTABILIZE
Via aérea, ventilação, circulação, glicemia capilar e temperatura central vêm antes de qualquer raciocínio sindrômico.
Cinco pilares
Faça o exame dirigido: estado mental, pupilas, pele, peristaltismo e sinais vitais completos.
Exame neuromuscular
Clônus, rigidez, fasciculações e tremor.
Hipótese sindrômica
Formule a hipótese e identifique o achado que a confirmaria ou a afastaria.
ECG e laboratório
Eletrocardiograma em todos e laboratório dirigido, com paracetamol em tentativa de suicídio.
Gaps
Calcule ânion gap e, quando houver acidose inexplicada, gap osmolar.
Trate a toxíndrome
Suporte sempre, antídoto quando houver indicação clara e compatibilidade clínica.
Reavalie
A toxíndrome muda com o tempo e com o tratamento administrado.
Feche o caso
Acione o centro de informação toxicológica, avalie risco de suicídio e defina destino e seguimento.
Estabilize, examine os cinco pilares, procure o achado que define, faça ECG e calcule os gaps — e ligue para o 0800 722 6001 cedo.
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Documento oficial2025
Ministério da Saúde. Nota Técnica Conjunta nº 376/2025-SVSA/SAES/SECTICS/MS — orientações para atendimento e notificação de casos de intoxicação por metanol após consumo de bebida alcoólica. Brasília, 2025.
20
Documento oficial2025
Ministério da Saúde e Rede Nacional de Centros de Informação e Assistência Toxicológica (RENACIAT). Orientações vigentes sobre atendimento ao paciente intoxicado — Disque-Intoxicação 0800 722 6001 (Anvisa), 2025.
Aviso importante
Ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. Doses, diluições e velocidades de infusão devem ser conferidas antes da administração. As ferramentas interativas deste artigo não são escores validados e servem apenas para organizar o raciocínio. Em caso de intoxicação, acione o Disque-Intoxicação (0800 722 6001); em sofrimento psíquico, o CVV atende pelo 188, 24 horas por dia. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.
Ver os pilares
Os cinco pilares do exame
São cinco domínios que, examinados em sequência, fecham o raciocínio em menos de um minuto. Primeiro, o estado mental: deprimido, agitado ou delirante, lembrando que o delirium agitado com fala arrastada e alucinações táteis é caracteristicamente anticolinérgico. Segundo, as pupilas: midríase no anticolinérgico, no simpaticomimético e no serotoninérgico, e miose no opioide e no colinérgico, sendo a miose puntiforme praticamente patognomônica de opioide.
Terceiro, a pele, que é o achado que mais diferencia: quente e seca no anticolinérgico, quente e suada no simpaticomimético e no serotoninérgico, e fria e encharcada no colinérgico. Quarto, o peristaltismo, ausente no anticolinérgico e reduzido no opioide, hiperativo com diarreia no colinérgico e no serotoninérgico. Quinto, os sinais vitais completos, incluindo frequência respiratória, que é o parâmetro mais negligenciado, e temperatura central, retal ou esofágica, porque a axilar subestima. Some a isso o exame neuromuscular, procurando clônus, rigidez, fasciculações e tremor.
Estado mental
Deprimido, agitado ou delirante.
Pupilas
Midríase × miose puntiforme.
Pele
Seca, suada ou encharcada.
Peristaltismo
Ausente, reduzido ou hiperativo.
Sinais vitais
FR e temperatura central incluídas.
Neuromuscular
Clônus, rigidez, fasciculações, tremor.
Ver as toxíndromes
As seis toxíndromes clássicas
A anticolinérgica cursa com delirium agitado, midríase, pele e mucosas secas, retenção urinária, íleo, hipertermia e taquicardia, e decorre de anti-histamínicos, escopolamina, tricíclicos e plantas como a trombeteira. A colinérgica traz secreções em excesso, com diarreia, sudorese, sialorreia, lacrimejamento, broncorreia, broncoespasmo, miose e bradicardia, além de fasciculações do componente nicotínico, e decorre de organofosforados e carbamatos. A simpaticomimética cursa com agitação, midríase, pele quente e úmida, taquicardia, hipertensão e hipertermia, por cocaína, anfetaminas e catinonas.
A opioide traz a tríade de rebaixamento do nível de consciência, miose puntiforme e depressão respiratória. A sedativo-hipnótica traz sonolência despertável, disartria, ataxia e nistagmo, com sinais vitais essencialmente preservados. A serotoninérgica reúne alteração do estado mental, hiperatividade autonômica e anormalidade neuromuscular, com clônus e hiperreflexia de predomínio em membros inferiores.
Toxíndrome
Achado que define
Anticolinérgica
Pele e mucosas secas, íleo e retenção urinária
Colinérgica
Secreções em excesso e fasciculações
Simpaticomimética
Sudorese preservada
Opioide
Bradipneia com miose puntiforme
Sedativo-hipnótica
Ausência de achados autonômicos
Serotoninérgica
Clônus
Ver os diferenciais
Os pares que confundem
Anticolinérgica e simpaticomimética compartilham agitação, midríase, taquicardia, hipertensão e hipertermia. O que as separa é a pele e o peristaltismo: seca com íleo é anticolinérgica, suada com peristaltismo presente é simpaticomimética. Colinérgica e opioide compartilham miose, bradicardia e depressão respiratória. O que as separa são as secreções e o peristaltismo: broncorreia, sialorreia, diarreia e fasciculações são colinérgicas, enquanto o opioide é seco e parado.
Serotoninérgica e neuroléptica maligna compartilham hipertermia, rigidez, alteração mental e instabilidade autonômica. O que as separa é o clônus e o tempo: a serotoninérgica instala em horas com clônus e hiperreflexia, e a neuroléptica maligna instala em dias com rigidez em cano de chumbo e hiporreflexia. Simpaticomimética e abstinência de sedativos têm sinais vitais praticamente idênticos, e o que as separa é a história e a temporalidade da última dose de álcool ou benzodiazepínico. Pupila e frequência respiratória separam opioide de sedativo.
Pele seca + íleo
Anticolinérgica
Pele suada + peristaltismo
Simpaticomimética
Clônus em horas
Serotoninérgica
Rigidez em dias
Neuroléptica maligna
Ver a abordagem
Agir sem diagnóstico
Antes de qualquer raciocínio sindrômico, garanta via aérea, ventilação e circulação, meça a glicemia capilar e a temperatura central. Hipoglicemia imita praticamente todas as toxíndromes e é a causa reversível mais rápida de rebaixamento. Administre oxigênio, antes de glicose no paciente com risco de desnutrição ou etilismo, e titulada quando houver depressão respiratória com miose, buscando restaurar ventilação e não despertar o paciente.
O antigo coquetel do coma com flumazenil foi abandonado: ele não deve ser usado como teste diagnóstico em coma indeterminado, pelo risco de convulsão de difícil controle. Faça ECG em todos, procurando alargamento do QRS — bloqueio de canal de sódio, tratado com — e prolongamento do QT. Colha eletrólitos, função renal, gasometria com lactato, calcule o ânion gap e rastreie paracetamol em toda tentativa de suicídio. Acione o centro de informação toxicológica pelo Disque-Intoxicação, 0800 722 6001.
ABC + O₂
Monitorização contínua.
Glicemia
E temperatura central.
ECG
QRS, QT, ritmo.
Gaps
Ânion gap e, se acidose, gap osmolar.
Carboidrato — correção de hipoglicemia
Glicose hipertônica (50%)
Ampola de glicose a 50% (10 mL = 5 g; 20 mL = 10 g); glicose a 10% e 25% conforme o serviço
Adulto25 g (50 mL a 50%) · Bolus · Repetir pela glicemia em 10–15 min
Papel no tratamento
A hipoglicemia imita praticamente todas as toxíndromes e é a causa reversível mais rápida de rebaixamento. Glicemia capilar em todos; corrija antes de qualquer outra hipótese.
Quando usar
Toda hipoglicemia em paciente intoxicado; não retarde esperando exame confirmatório no paciente sintomático.
Ficha de consulta rápida
Classe
Carboidrato — correção de hipoglicemia
Apresentação
Ampola de glicose a 50% (10 mL = 5 g; 20 mL = 10 g); glicose a 10% e 25% conforme o serviço
Posologia principal
25 g (50 mL a 50%) · Bolus · Repetir pela glicemia em 10–15 min
Preferir veia calibrosa; extravasamento causa lesão tecidual.
Criança
0,5–1 g/kg
Bolus (glicose a 10%: 5–10 mL/kg)
Reavaliar em minutos
—
Infusão contínua1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Manutenção
Soro glicosado a 5–10%
Contínuo
Hipoglicemia recorrente (sulfonilureia, insulina)
—
Como administrar
Administração
No paciente com risco de Wernicke, dê tiamina antes ou junto — sem atrasar a glicose.
Antes de prescrever, confira
Atrasar a correção à espera de laboratório.
Contraindicações e quando evitar
Atrasar a correção à espera de laboratório.
Efeitos adversos
Flebite e necrose por extravasamento.
Hiperglicemia de rebote e estímulo à liberação de insulina (sulfonilureia).
Monitoramento
Monitorização
Glicemia capilar a cada 15–60 min; reavalie após qualquer piora do nível de consciência.
Como administrar
Administração
No paciente com risco de Wernicke, dê tiamina antes ou junto — sem atrasar a glicose.
Papel neste contexto
A hipoglicemia imita praticamente todas as toxíndromes e é a causa reversível mais rápida de rebaixamento. Glicemia capilar em todos; corrija antes de qualquer outra hipótese.
Crianças
Use concentrações menores (10%) em veia periférica.
Antes de prescrever, confira
Atrasar a correção à espera de laboratório.
Efeitos adversos mais relevantes
Flebite e necrose por extravasamento.
Hiperglicemia de rebote e estímulo à liberação de insulina (sulfonilureia).
Papel neste contexto
A hipoglicemia imita praticamente todas as toxíndromes e é a causa reversível mais rápida de rebaixamento. Glicemia capilar em todos; corrija antes de qualquer outra hipótese.
Vitamina — cofator do metabolismo da glicose
Tiamina (vitamina B1)
Ampola de cloridrato de tiamina (ex.: 100 mg/mL) — confira o rótulo
Profilaxia100 mg · Dose única · —
Papel no tratamento
Antes da glicose no paciente com risco de desnutrição ou etilismo, para não precipitar encefalopatia de Wernicke; cofator no tratamento do etilenoglicol.
Quando usar
Etilismo crônico, desnutrição, gestação com hiperêmese, pós-bariátrica; etilenoglicol.
Ficha de consulta rápida
Classe
Vitamina — cofator do metabolismo da glicose
Apresentação
Ampola de cloridrato de tiamina (ex.: 100 mg/mL) — confira o rótulo
Posologia principal
100 mg · Dose única · —
Outros esquemas
2 — ver aba Posologia
Antes de prescrever, confira
Hipersensibilidade conhecida.
Efeitos adversos mais relevantes
Reações de hipersensibilidade raras.
IV3 esquemas
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Profilaxia
100 mg
Dose única
—
—
Suspeita de Wernicke
500 mg
8/8 h
2–3 dias, depois 250 mg/dia
Diluir em 100 mL de SF e infundir em 30 min.
Etilenoglicol
100 mg
6/6 h
Durante o tratamento
—
Como administrar
Administração
Não atrasa a glicose no hipoglicêmico sintomático.
Antes de prescrever, confira
Hipersensibilidade conhecida.
Contraindicações e quando evitar
Hipersensibilidade conhecida.
Efeitos adversos
Reações de hipersensibilidade raras.
Como administrar
Administração
Não atrasa a glicose no hipoglicêmico sintomático.
Papel neste contexto
Antes da glicose no paciente com risco de desnutrição ou etilismo, para não precipitar encefalopatia de Wernicke; cofator no tratamento do etilenoglicol.
Antagonista opioide
Naloxona (cloridrato)
Ampola 0,4 mg/mL (1 mL)
Usuário crônico0,04–0,1 mg · A cada 2–3 min · Até FR adequada
Papel no tratamento
Antagonista opioide de ação rápida. O alvo da titulação é a ventilação adequada, não o despertar completo do paciente.
Quando usar
Depressão respiratória com rebaixamento e miose, ou parada respiratória com suspeita de opioide.
Ficha de consulta rápida
Classe
Antagonista opioide
Apresentação
Ampola 0,4 mg/mL (1 mL)
Posologia principal
0,04–0,1 mg · A cada 2–3 min · Até FR adequada
Outros esquemas
3 — ver aba Posologia
Atenção neste contexto
Sedação residual após naloxona que corrigiu a ventilação sugere coingestão de sedativo — e a conduta é suporte, não flumazenil.
Antes de prescrever, confira
Doses altas de saída no usuário crônico sem parada respiratória.
IV em bolus2 esquemas
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Usuário crônico
0,04–0,1 mg
A cada 2–3 min
Até FR adequada
Diluir 1 ampola (0,4 mg) em 9 mL de SF = 0,04 mg/mL.
Parada respiratória
0,4–2 mg
Repetir conforme resposta
—
—
IM / intranasal1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Sem acesso venoso
0,4–2 mg IM/SC; 2–4 mg intranasal
Repetir em 2–3 min
—
—
Infusão contínua1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Infusão
≈ 2/3 da dose eficaz em bolus, por hora
Contínua
Titulada pela ventilação
—
Como administrar
Alvo
Restaurar ventilação adequada. Despertar abrupto precipita abstinência, agitação e vômito com risco de aspiração.
Ausência de resposta
Após 10 mg acumulados sem resposta, a depressão respiratória provavelmente não é opioide.
Duração
Meia-vida menor que a da maioria dos opioides — ressedação é esperada. Pode exigir doses repetidas ou infusão contínua.
Cálculo rápido
Infusão contínua quando necessária: aproximadamente dois terços da dose em bolus que foi eficaz, administrados por hora, titulados pela ventilação.
Contraindicações e quando evitar
Doses altas de saída no usuário crônico sem parada respiratória.
Observação prolongada, sobretudo com metadona, fentanil e formulações de liberação prolongada.
Como administrar
Alvo
Restaurar ventilação adequada. Despertar abrupto precipita abstinência, agitação e vômito com risco de aspiração.
Ausência de resposta
Após 10 mg acumulados sem resposta, a depressão respiratória provavelmente não é opioide.
Duração
Meia-vida menor que a da maioria dos opioides — ressedação é esperada. Pode exigir doses repetidas ou infusão contínua.
Cálculo rápido
Infusão contínua quando necessária: aproximadamente dois terços da dose em bolus que foi eficaz, administrados por hora, titulados pela ventilação.
Adsorvente gastrointestinal
Carvão ativado
Pó para suspensão oral (frasco ou sachê), reconstituído em água
Dose única1 g/kg (máx. 50 g) · Dose única · Idealmente até 1 h da ingestão
Papel no tratamento
Descontaminação de indicação estreita: dose única de 1 g/kg (até 50 g), idealmente na primeira hora após ingestão de substância que adsorve, com via aérea protegida.
Quando usar
Substância que adsorve, dose potencialmente tóxica, tempo que ainda permite ganho, sem contraindicação e procedimento seguro.
Ficha de consulta rápida
Classe
Adsorvente gastrointestinal
Apresentação
Pó para suspensão oral (frasco ou sachê), reconstituído em água
Posologia principal
1 g/kg (máx. 50 g) · Dose única · Idealmente até 1 h da ingestão
Outros esquemas
1 — ver aba Posologia
Atenção neste contexto
Recomendações do Clinical Toxicology Recommendations Collaborative (Hoegberg e colaboradores, Clin Toxicol, 2026).
VO ou sonda (paciente intubado)1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Dose única
1 g/kg (máx. 50 g)
Dose única
Idealmente até 1 h da ingestão
Dose adicional se houver evidência ou suspeita de absorção prolongada.
VO ou sonda1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Doses múltiplas
1 g/kg (máx. 50 g)
A cada 4 h (ou metade a cada 2 h)
Conforme toxicologia
Objetivo é aumentar a eliminação (ex.: carbamazepina, fenobarbital, dapsona, quinina, teofilina).
Como administrar
Administração
Não passe sonda sem intubação apenas para dar carvão; não intube apenas para administrá-lo, salvo risco de vida sem outra opção (CTRC 2026).
Contraindicações e quando evitar
Via aérea não protegida ou em risco.
Risco de perfuração gastrointestinal ou necessidade de endoscopia (cáusticos).
Substâncias que não adsorvem: álcoois, hidrocarbonetos, íons e a maioria dos metais (lítio, ferro, chumbo).
Efeitos adversos
Vômito e aspiração.
Constipação; obstrução em doses múltiplas.
Como administrar
Administração
Não passe sonda sem intubação apenas para dar carvão; não intube apenas para administrá-lo, salvo risco de vida sem outra opção (CTRC 2026).
Papel neste contexto
Descontaminação de indicação estreita: dose única de 1 g/kg (até 50 g), idealmente na primeira hora após ingestão de substância que adsorve, com via aérea protegida.
Análogo da somatostatina
Octreotida
Ampola 0,05 mg/mL e 0,1 mg/mL (1 mL)
Adulto50 mcg · 6/6 h · ≥ 24 h
Papel no tratamento
Inibe a secreção de insulina na hipoglicemia recorrente por sulfonilureia, reduzindo a necessidade de glicose.
Quando usar
Hipoglicemia recorrente após correção, sobretudo por sulfonilureia e em criança.
Ficha de consulta rápida
Classe
Análogo da somatostatina
Apresentação
Ampola 0,05 mg/mL e 0,1 mg/mL (1 mL)
Posologia principal
50 mcg · 6/6 h · ≥ 24 h
Outros esquemas
1 — ver aba Posologia
Antes de prescrever, confira
Hipersensibilidade.
Efeitos adversos mais relevantes
Dor no local, náusea, desconforto abdominal.
SC ou IV2 esquemas
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Adulto
50 mcg
6/6 h
≥ 24 h
—
Criança
1 mcg/kg (máx. 50 mcg)
6/6–12/12 h
≥ 24 h
—
Antes de prescrever, confira
Hipersensibilidade.
Contraindicações e quando evitar
Hipersensibilidade.
Efeitos adversos
Dor no local, náusea, desconforto abdominal.
Monitoramento
Monitorização
Glicemia de 1/1 h a 2/2 h; observação de pelo menos 24 h.
Papel neste contexto
Inibe a secreção de insulina na hipoglicemia recorrente por sulfonilureia, reduzindo a necessidade de glicose.
Benzodiazepínico
Diazepam
Ampola 10 mg/2 mL (5 mg/mL)
Agitação / hipertermia5–10 mg · A cada 3–5 min, titulado · Até controle
Papel no tratamento
Base do tratamento da agitação, das convulsões e das síndromes hipertérmicas tóxicas: reduz a produção endógena de calor pela atividade muscular.
Quando usar
Toxíndromes simpaticomimética, anticolinérgica, serotoninérgica, abstinência de sedativos, convulsão tóxica.
Ficha de consulta rápida
Classe
Benzodiazepínico
Apresentação
Ampola 10 mg/2 mL (5 mg/mL)
Posologia principal
5–10 mg · A cada 3–5 min, titulado · Até controle
Outros esquemas
2 — ver aba Posologia
Antes de prescrever, confira
Depressão respiratória sem suporte ventilatório disponível.
Efeitos adversos mais relevantes
Depressão respiratória e hipotensão.
Flebite.
IV em bolus2 esquemas
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Agitação / hipertermia
5–10 mg
A cada 3–5 min, titulado
Até controle
Sem diluir, em veia calibrosa, até 5 mg/min.
Convulsão (colinérgica)
10 mg
Repetir em 5–10 min
Conforme crises
—
IV1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Criança
0,1–0,3 mg/kg (máx. 10 mg)
Repetir em 5–10 min
—
—
Como administrar
Administração
IM tem absorção errática — prefira midazolam IM se não houver acesso.
Antes de prescrever, confira
Depressão respiratória sem suporte ventilatório disponível.
Contraindicações e quando evitar
Depressão respiratória sem suporte ventilatório disponível.
Efeitos adversos
Depressão respiratória e hipotensão.
Flebite.
Monitoramento
Monitorização
Via aérea, FR e SpO₂; doses altas podem ser necessárias.
Como administrar
Administração
IM tem absorção errática — prefira midazolam IM se não houver acesso.
Papel neste contexto
Base do tratamento da agitação, das convulsões e das síndromes hipertérmicas tóxicas: reduz a produção endógena de calor pela atividade muscular.
Benzodiazepínico
Midazolam
Ampola 5 mg/mL (3 mL e 10 mL) e 1 mg/mL
IV2–5 mg · Repetir em 5–10 min · Até controle
Papel no tratamento
Alternativa ao diazepam, com a vantagem de boa absorção intramuscular no agitado sem acesso venoso.
Quando usar
Agitação tóxica, convulsão, hipertermias; sedação do paciente intubado.
Ficha de consulta rápida
Classe
Benzodiazepínico
Apresentação
Ampola 5 mg/mL (3 mL e 10 mL) e 1 mg/mL
Posologia principal
2–5 mg · Repetir em 5–10 min · Até controle
Outros esquemas
2 — ver aba Posologia
Antes de prescrever, confira
Sem capacidade de suporte ventilatório.
Efeitos adversos mais relevantes
Depressão respiratória, hipotensão.
IV em bolus1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
IV
2–5 mg
Repetir em 5–10 min
Até controle
—
IM1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
IM
5–10 mg
Repetir em 10–15 min
—
—
Infusão contínua1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Infusão (refratário)
0,05–0,2 mg/kg/h
Contínua
Titular
Ex.: 50 mg em 50 mL (1 mg/mL); 70 kg a 0,1 mg/kg/h = 7 mL/h.
Antes de prescrever, confira
Sem capacidade de suporte ventilatório.
Contraindicações e quando evitar
Sem capacidade de suporte ventilatório.
Efeitos adversos
Depressão respiratória, hipotensão.
Monitoramento
Monitorização
Via aérea e ventilação.
Papel neste contexto
Alternativa ao diazepam, com a vantagem de boa absorção intramuscular no agitado sem acesso venoso.
Antagonista 5-HT2A e anti-histamínico
Ciproeptadina
Comprimido 4 mg (somente via oral ou enteral)
Ataque12 mg · Dose inicial · —
Papel no tratamento
Adjuvante na síndrome serotoninérgica moderada. A base continua sendo suspender o agente, benzodiazepínico e resfriamento.
Quando usar
Síndrome serotoninérgica moderada a grave, como adjuvante.
Mecanismo
Antagonismo de receptores 5-HT2A.
Ficha de consulta rápida
Classe
Antagonista 5-HT2A e anti-histamínico
Apresentação
Comprimido 4 mg (somente via oral ou enteral)
Posologia principal
12 mg · Dose inicial · —
Outros esquemas
2 — ver aba Posologia
Antes de prescrever, confira
Toxíndrome anticolinérgica associada.
Efeitos adversos mais relevantes
Sedação e efeito anticolinérgico.
Hipotensão.
VO / sonda3 esquemas
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Ataque
12 mg
Dose inicial
—
Comprimidos triturados por sonda no paciente intubado.
Seguimento
2 mg
A cada 2 h
Enquanto persistirem os sintomas
—
Manutenção
8 mg
6/6 h
Após controle (máx. 32 mg/dia)
—
Antes de prescrever, confira
Toxíndrome anticolinérgica associada.
Contraindicações e quando evitar
Toxíndrome anticolinérgica associada.
Efeitos adversos
Sedação e efeito anticolinérgico.
Hipotensão.
Papel neste contexto
Adjuvante na síndrome serotoninérgica moderada. A base continua sendo suspender o agente, benzodiazepínico e resfriamento.
Agonista dopaminérgico
Bromocriptina
Comprimido 2,5 mg
Adulto2,5 mg · 8/8 h · Titular até 40–45 mg/dia; manter ≈ 10 dias após resolução
Papel no tratamento
Adjuvante na síndrome neuroléptica maligna moderada a grave, revertendo o bloqueio dopaminérgico.
Quando usar
Neuroléptica maligna moderada a grave, em UTI, junto do suporte.
Ficha de consulta rápida
Classe
Agonista dopaminérgico
Apresentação
Comprimido 2,5 mg
Posologia principal
2,5 mg · 8/8 h · Titular até 40–45 mg/dia; manter ≈ 10 dias após resolução
Antes de prescrever, confira
Síndrome serotoninérgica (pode piorar).
Hipotensão grave.
Efeitos adversos mais relevantes
Hipotensão, náusea e vômitos.
Piora de psicose.
VO / sonda1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Adulto
2,5 mg
8/8 h
Titular até 40–45 mg/dia; manter ≈ 10 dias após resolução
Retirada gradual para evitar recidiva.
Antes de prescrever, confira
Síndrome serotoninérgica (pode piorar).
Hipotensão grave.
Contraindicações e quando evitar
Síndrome serotoninérgica (pode piorar).
Hipotensão grave.
Efeitos adversos
Hipotensão, náusea e vômitos.
Piora de psicose.
Papel neste contexto
Adjuvante na síndrome neuroléptica maligna moderada a grave, revertendo o bloqueio dopaminérgico.
Relaxante muscular de ação direta (receptor de rianodina)
Dantroleno sódico
Frasco-ampola 20 mg (pó liofilizado), reconstituir com 60 mL de água estéril
Hipertermia maligna2,5 mg/kg · Bolus rápido; repetir até controle · Em geral até 10 mg/kg cumulativos
Papel no tratamento
Antídoto específico da hipertermia maligna e adjuvante na neuroléptica maligna grave. Não é tratamento genérico de hipertermia.
Quando usar
Hipertermia maligna (imediato) e neuroléptica maligna grave.
Ficha de consulta rápida
Classe
Relaxante muscular de ação direta (receptor de rianodina)
Apresentação
Frasco-ampola 20 mg (pó liofilizado), reconstituir com 60 mL de água estéril
Posologia principal
2,5 mg/kg · Bolus rápido; repetir até controle · Em geral até 10 mg/kg cumulativos
Outros esquemas
2 — ver aba Posologia
Atenção neste contexto
EMHG 2024 e MHAUS: 2,5 mg/kg repetidos até controle; doses acima de 10 mg/kg raramente necessárias.
IV em bolus1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Hipertermia maligna
2,5 mg/kg
Bolus rápido; repetir até controle
Em geral até 10 mg/kg cumulativos
70 kg = 175 mg ≈ 9 frascos. Mobilize a equipe para reconstituir.
IV2 esquemas
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Manutenção (HM)
1 mg/kg
A cada 4–6 h (ou 0,25 mg/kg/h)
24–48 h
—
Neuroléptica maligna
1–2,5 mg/kg
Depois 1 mg/kg 6/6 h
Máx. 10 mg/kg/dia
—
Como administrar
Cálculo rápido
Frascos = (2,5 × peso) ÷ 20. Cada frasco em 60 mL de água estéril.
Antes de prescrever, confira
Uso como antitérmico genérico.
Associação com bloqueador de canal de cálcio IV (hipercalemia e colapso).
Contraindicações e quando evitar
Uso como antitérmico genérico.
Associação com bloqueador de canal de cálcio IV (hipercalemia e colapso).
Efeitos adversos
Fraqueza muscular e depressão respiratória.
Flebite (solução alcalina).
Hepatotoxicidade em uso prolongado.
Monitoramento
Monitorização
Temperatura central, CO₂ expirado, potássio, CK, função hepática.
Como administrar
Cálculo rápido
Frascos = (2,5 × peso) ÷ 20. Cada frasco em 60 mL de água estéril.
Papel neste contexto
Antídoto específico da hipertermia maligna e adjuvante na neuroléptica maligna grave. Não é tratamento genérico de hipertermia.
Antagonista muscarínico
Atropina (sulfato)
Ampola 0,25 mg/mL e 0,5 mg/mL (1 mL)
Ataque1–2 mg · Dobrar a dose a cada 5 min · Até atropinização
Papel no tratamento
Antídoto da toxíndrome colinérgica. Titulada pela secreção brônquica e pela ausculta, não pela frequência cardíaca nem pela pupila.
Quando usar
Intoxicação grave por organofosforado ou carbamato (AHA 2023, classe 1).
Ficha de consulta rápida
Classe
Antagonista muscarínico
Apresentação
Ampola 0,25 mg/mL e 0,5 mg/mL (1 mL)
Posologia principal
1–2 mg · Dobrar a dose a cada 5 min · Até atropinização
Outros esquemas
2 — ver aba Posologia
Atenção neste contexto
Titular atropina pela frequência cardíaca é o erro clássico: o paciente segue taquicárdico pelo componente nicotínico enquanto se afoga em secreção.
Antes de prescrever, confira
Suspender pela taquicardia — ela não contraindica o uso.
IV em bolus1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Ataque
1–2 mg
Dobrar a dose a cada 5 min
Até atropinização
Atropinização: ausculta limpa, axilas secas, PAS > 80 mmHg, FC > 80 bpm, pupilas não puntiformes — o critério principal é o tórax.
Infusão contínua1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Manutenção
10–20% da dose total de ataque por hora
Contínua
Titular pela secreção
—
IV1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Criança
0,02–0,05 mg/kg
Dobrar a cada 5 min
Até atropinização
—
Antes de prescrever, confira
Suspender pela taquicardia — ela não contraindica o uso.
Contraindicações e quando evitar
Suspender pela taquicardia — ela não contraindica o uso.
Ampola 10 mL e frasco 250 mL a 8,4% (1 mL = 1 mEq)
Posologia principal
1–2 mEq/kg · Bolus, repetido pelo ECG · Até estreitar o QRS; pH 7,45–7,55
Outros esquemas
1 — ver aba Posologia
Atenção neste contexto
Meça o QRS na derivação em que ele é mais largo.
Antes de prescrever, confira
Antiarrítmicos IA e IC associados.
pH > 7,55.
IV em bolus1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
QRS largo
1–2 mEq/kg
Bolus, repetido pelo ECG
Até estreitar o QRS; pH 7,45–7,55
70 kg: 70–140 mL = 7–14 ampolas de 10 mL.
Infusão contínua1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Manutenção
150 mEq em 1 L de SG 5%
150–250 mL/h
Guiada por pH e sódio
Após resposta ao bolus, conforme toxicologia.
Como administrar
Cálculo rápido
Para 70 kg: 1 a 2 mEq/kg equivalem a 70 a 140 mL de bicarbonato a 8,4% — cerca de 7 a 14 ampolas de 10 mL.
Antes de prescrever, confira
Antiarrítmicos IA e IC associados.
pH > 7,55.
Contraindicações e quando evitar
Antiarrítmicos IA e IC associados.
pH > 7,55.
Efeitos adversos
Hipocalemia, hipernatremia, sobrecarga de volume, alcalose excessiva.
Monitoramento
Monitorização
Gasometria seriada, sódio, potássio e ECG após cada bolus.
Como administrar
Cálculo rápido
Para 70 kg: 1 a 2 mEq/kg equivalem a 70 a 140 mL de bicarbonato a 8,4% — cerca de 7 a 14 ampolas de 10 mL.
Papel neste contexto
Tratamento do bloqueio de canal de sódio (QRS > 100–120 ms ou arritmia de complexo largo); alcalinização na intoxicação por salicilato.
Anticolinesterásico de ação central
Fisostigmina (salicilato)
Ampola 1 mg/mL — sem apresentação comercial regular no Brasil (estoque estratégico ou importação)
Adulto0,5–2 mg · Lenta, em ≥ 5 min · Repetir em 10–20 min se necessário
Papel no tratamento
Reverte o delirium anticolinérgico puro em casos selecionados. Risco próprio relevante: bradicardia, assistolia e convulsão.
Quando usar
Delirium anticolinérgico puro com agitação que impede o cuidado e diagnóstico razoavelmente seguro.
Ficha de consulta rápida
Classe
Anticolinesterásico de ação central
Apresentação
Ampola 1 mg/mL — sem apresentação comercial regular no Brasil (estoque estratégico ou importação)
Posologia principal
0,5–2 mg · Lenta, em ≥ 5 min · Repetir em 10–20 min se necessário
Outros esquemas
1 — ver aba Posologia
Atenção neste contexto
Na dúvida diagnóstica, não use. Benzodiazepínico resolve a maior parte dos casos.
IV2 esquemas
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Adulto
0,5–2 mg
Lenta, em ≥ 5 min
Repetir em 10–20 min se necessário
Monitorização contínua; atropina à beira do leito.
Criança
0,02 mg/kg (máx. 0,5 mg)
Lenta
—
—
Como administrar
Administração
ECG obrigatório antes. Duração de 30 a 60 minutos — recorrência esperada.
Antes de prescrever, confira
QRS alargado ou suspeita de tricíclico.
Bloqueio atrioventricular, broncoespasmo, obstrução intestinal ou urinária.
Intoxicação de composição desconhecida.
Contraindicações e quando evitar
QRS alargado ou suspeita de tricíclico.
Bloqueio atrioventricular, broncoespasmo, obstrução intestinal ou urinária.
Intoxicação de composição desconhecida.
Efeitos adversos
Bradicardia, assistolia, broncoespasmo, convulsão, sialorreia e vômitos.
Monitoramento
Monitorização
FC, ECG, ausculta, secreções.
Como administrar
Administração
ECG obrigatório antes. Duração de 30 a 60 minutos — recorrência esperada.
Papel neste contexto
Reverte o delirium anticolinérgico puro em casos selecionados. Risco próprio relevante: bradicardia, assistolia e convulsão.
Quelante de cianeto (forma cianocobalamina)
Hidroxocobalamina
Frasco 5 g (pó), reconstituir em 200 mL de SF 0,9%
Adulto5 g · Em 15 min · Repetir 5 g se necessário (máx. 10 g)
Papel no tratamento
Antídoto de escolha no cianeto, inclusive na vítima de incêndio, porque não produz metemoglobina.
Quando usar
Suspeita de cianeto: incêndio em ambiente fechado, rebaixamento, lactato muito elevado (AHA 2023, classe 1).
Ficha de consulta rápida
Classe
Quelante de cianeto (forma cianocobalamina)
Apresentação
Frasco 5 g (pó), reconstituir em 200 mL de SF 0,9%
Posologia principal
5 g · Em 15 min · Repetir 5 g se necessário (máx. 10 g)
Outros esquemas
1 — ver aba Posologia
Antes de prescrever, confira
Hipersensibilidade conhecida.
Efeitos adversos mais relevantes
Pele e urina avermelhadas por dias.
Hipertensão transitória.
Interferência em exames colorimétricos e na hemodiálise.
IV2 esquemas
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Adulto
5 g
Em 15 min
Repetir 5 g se necessário (máx. 10 g)
—
Criança
70 mg/kg (máx. 5 g)
Em 15 min
—
—
Como administrar
Administração
Acesso exclusivo — incompatível com várias drogas.
Antes de prescrever, confira
Hipersensibilidade conhecida.
Contraindicações e quando evitar
Hipersensibilidade conhecida.
Efeitos adversos
Pele e urina avermelhadas por dias.
Hipertensão transitória.
Interferência em exames colorimétricos e na hemodiálise.
Como administrar
Administração
Acesso exclusivo — incompatível com várias drogas.
Papel neste contexto
Antídoto de escolha no cianeto, inclusive na vítima de incêndio, porque não produz metemoglobina.
Doador de enxofre (rodanase)
Tiossulfato de sódio 25%
Ampola/frasco a 25% (250 mg/mL)
Adulto12,5 g (50 mL) · Em 10–20 min · Repetir metade se necessário
Papel no tratamento
Alternativa à hidroxocobalamina no cianeto; ação mais lenta. Pode ser associado.
Quando usar
Cianeto quando não há hidroxocobalamina, ou em associação.
Ficha de consulta rápida
Classe
Doador de enxofre (rodanase)
Apresentação
Ampola/frasco a 25% (250 mg/mL)
Posologia principal
12,5 g (50 mL) · Em 10–20 min · Repetir metade se necessário
Outros esquemas
1 — ver aba Posologia
Antes de prescrever, confira
Hipersensibilidade.
Efeitos adversos mais relevantes
Hipotensão, náusea.
IV2 esquemas
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Adulto
12,5 g (50 mL)
Em 10–20 min
Repetir metade se necessário
—
Criança
400 mg/kg (1,6 mL/kg)
Em 10–20 min
—
—
Antes de prescrever, confira
Hipersensibilidade.
Contraindicações e quando evitar
Hipersensibilidade.
Efeitos adversos
Hipotensão, náusea.
Papel neste contexto
Alternativa à hidroxocobalamina no cianeto; ação mais lenta. Pode ser associado.
Redutor da metemoglobina
Azul de metileno 1%
Ampola a 1% (10 mg/mL)
Adulto e criança1–2 mg/kg · Em 5 min · Repetir 1 mg/kg em 30–60 min se persistir
Papel no tratamento
Antídoto da metemoglobinemia sintomática: cianose que não melhora com oxigênio, com diferença entre a saturação do oxímetro e a da gasometria.
Quando usar
Metemoglobina sintomática ou ≥ 20–30% (dapsona, anestésicos locais, nitritos, nitratos).
Ficha de consulta rápida
Classe
Redutor da metemoglobina
Apresentação
Ampola a 1% (10 mg/mL)
Posologia principal
1–2 mg/kg · Em 5 min · Repetir 1 mg/kg em 30–60 min se persistir
Antes de prescrever, confira
Deficiência de G6PD.
Uso de serotoninérgicos.
Efeitos adversos mais relevantes
Coloração azul de pele e urina.
Hemólise.
Síndrome serotoninérgica (inibe MAO).
IV1 esquema
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Adulto e criança
1–2 mg/kg
Em 5 min
Repetir 1 mg/kg em 30–60 min se persistir
—
Antes de prescrever, confira
Deficiência de G6PD.
Uso de serotoninérgicos.
Contraindicações e quando evitar
Deficiência de G6PD.
Uso de serotoninérgicos.
Efeitos adversos
Coloração azul de pele e urina.
Hemólise.
Síndrome serotoninérgica (inibe MAO).
Monitoramento
Monitorização
Co-oximetria seriada.
Papel neste contexto
Antídoto da metemoglobinemia sintomática: cianose que não melhora com oxigênio, com diferença entre a saturação do oxímetro e a da gasometria.
Inibidor da álcool-desidrogenase
Fomepizol
Frasco 1 g/mL (1,5 mL) — importado pelo Ministério da Saúde em 2025; uso hospitalar, via Secretaria de Saúde e CIATox
Ataque15 mg/kg · Em 30 min · —
Papel no tratamento
Antídoto preferencial no metanol e no etilenoglicol: bloqueia a formação dos metabólitos tóxicos. Iniciar diante de suspeita forte, sem aguardar confirmação.
Quando usar
Suspeita de metanol ou etilenoglicol (acidose com ânion gap elevado, gap osmolar, alteração visual, bebida adulterada).
Ficha de consulta rápida
Classe
Inibidor da álcool-desidrogenase
Apresentação
Frasco 1 g/mL (1,5 mL) — importado pelo Ministério da Saúde em 2025; uso hospitalar, via Secretaria de Saúde e CIATox
Posologia principal
15 mg/kg · Em 30 min · —
Outros esquemas
3 — ver aba Posologia
Atenção neste contexto
Não atrase o antídoto: o dano é progressivo e o fomepizol só bloqueia o metabólito ainda não formado.
IV4 esquemas
Indicação
Dose
Frequência
Duração
Observações
Ataque
15 mg/kg
Em 30 min
—
Diluir em 100 mL de SF 0,9%.
Manutenção
10 mg/kg
12/12 h
4 doses
—
Após a 4ª dose
15 mg/kg
12/12 h
Até metanol < 20 mg/dL, pH normal e assintomático
—
Durante a hemodiálise
Dose de manutenção
A cada 4 h
Durante a sessão
—
Como administrar
Administração
Solicitação segue o fluxo da Nota Técnica Conjunta nº 376/2025 (Secretaria de Saúde / Ministério da Saúde).
Antes de prescrever, confira
Hipersensibilidade a pirazóis.
Contraindicações e quando evitar
Hipersensibilidade a pirazóis.
Efeitos adversos
Cefaleia, náusea, tontura.
Como administrar
Administração
Solicitação segue o fluxo da Nota Técnica Conjunta nº 376/2025 (Secretaria de Saúde / Ministério da Saúde).
Papel neste contexto
Antídoto preferencial no metanol e no etilenoglicol: bloqueia a formação dos metabólitos tóxicos. Iniciar diante de suspeita forte, sem aguardar confirmação.
Substrato competitivo da álcool-desidrogenase
Etanol farmacêutico (antídoto)
Etanol absoluto ou a 10% para infusão, conforme farmácia hospitalar; via oral/enteral com destilado a 40% quando não há IV
Ataque0,8 g/kg · Em 30–60 min · —
Papel no tratamento
Alternativa ao fomepizol no metanol e no etilenoglicol, disponível em todo o país; exige dosagem sérica e vigilância de sedação e hipoglicemia.
Quando usar
Metanol ou etilenoglicol sem fomepizol disponível.
Ficha de consulta rápida
Classe
Substrato competitivo da álcool-desidrogenase
Apresentação
Etanol absoluto ou a 10% para infusão, conforme farmácia hospitalar; via oral/enteral com destilado a 40% quando não há IV
A banca cobra a diferenciação entre anticolinérgico e simpaticomimético pela pele, e entre serotoninérgica e neuroléptica maligna pelo clônus e pelo tempo de instalação.
Decore: a mnemônica colinérgica das secreções; atropina titulada pela secreção, não pela FC; QRS alargado pede bicarbonato de sódio; gap osmolar elevado aponta álcool tóxico, mas normal não exclui; oximetria normal não afasta monóxido de carbono.
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