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Emergência & UTI • Reanimação

Parada Cardiorrespiratória

PCR • RCP de alta qualidade • FV/TV sem pulso, AESP e assistolia • 5H e 5T • cuidados pós-PCR

Duas intervenções mudam sobrevida: compressão de alta qualidade e desfibrilação precoce. Todo o resto — droga, via aérea, monitorização — é adjuvante. As diretrizes de 2025 (AHA e ERC) reforçam justamente isso, e acrescentam algo que o plantão costuma esquecer: procurar a causa reversível desde o primeiro ciclo.

Comprimir forte e rápidoDesfibrilar sem demoraCaçar os 5H e 5TCuidado pós-PCR estruturado
22 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Poucas intervenções mudam a sobrevida com bom desfecho neurológico: reconhecimento imediato, compressões de alta qualidade e desfibrilação precoce nos ritmos chocáveis.
  2. Drogas, via aérea avançada e monitorização são adjuvantes — importantes, mas secundários.
  3. Irresponsivo com respiração ausente ou anormal (incluindo gasping) e sem certeza de pulso em 10 segundos: comece a comprimir.
  4. O erro mais custoso é interromper as compressões por tempo demais.

O que realmente muda desfecho

A reanimação acumulou décadas de estudos, mas a lista de intervenções com impacto consistente sobre sobrevida com bom desfecho neurológico continua curta: reconhecimento imediato, compressões torácicas de alta qualidade e desfibrilação precoce nos ritmos chocáveis. Drogas, via aérea avançada e monitorização ocupam um papel adjuvante — importante, mas secundário.

As diretrizes de 2025 reorganizaram a apresentação em torno dessa hierarquia e unificaram a cadeia de sobrevivência em um único modelo, aplicável a adultos e crianças, dentro e fora do hospital. A mensagem prática é simples: quem faz a diferença é quem comprime bem, cedo, e quem desfibrila sem demora.

O erro mais custoso em uma reanimação não é escolher a droga errada: é interromper as compressões por tempo demais — para checar pulso, para intubar, para discutir conduta ou para preparar material que deveria estar pronto.

Cadeia de sobrevivência

EloAçãoPor que importa
1Reconhecimento e acionamentoReconhecer a parada e acionar ajuda imediatamente; o atraso aqui compromete todos os elos seguintes.
2RCP imediata de alta qualidadeMantém perfusão coronariana e cerebral até que a desfibrilação ou o tratamento da causa aconteça.
3Desfibrilação precoceÚnico tratamento eficaz da fibrilação ventricular; a chance de sucesso cai a cada minuto.
4Suporte avançadoDrogas, via aérea, monitorização e tratamento da causa reversível.
5Cuidados pós-paradaOnde se perde ou se ganha o desfecho neurológico de quem já teve retorno de circulação.
6RecuperaçãoReabilitação, suporte psicológico e seguimento de sobreviventes e familiares.

As diretrizes AHA de 2025 passaram a usar uma cadeia única, válida para todas as idades e cenários, em vez de cadeias separadas para parada intra e extra-hospitalar. O elo de recuperação foi reforçado, com recomendações sobre reabilitação, apoio a sobreviventes e cuidado com a saúde mental da equipe.

Reconhecer a parada

  • Irresponsivo ao chamado e ao estímulo.
  • Respiração ausente ou anormal — o gasping agônico é sinal de parada, não de respiração preservada, e é a principal armadilha do reconhecimento.
  • Pulso central ausente — checagem de no máximo 10 segundos, feita simultaneamente à avaliação da respiração.
  • Na dúvida, comprima — o dano de comprimir alguém que tem pulso é muito menor do que o de não comprimir quem está em parada.
  • No monitor, atenção à dissociação entre ritmo organizado e ausência de pulso: é atividade elétrica sem pulso.
  • Acione a equipe e peça o desfibrilador no mesmo momento em que inicia as compressões, não depois.
  • Paciente monitorizado (UTI, hemodinâmica): queda súbita da curva de pressão arterial invasiva ou da capnografia pode ser o primeiro sinal de parada — as diretrizes ERC 2025 sugerem iniciar compressões quando a pressão sistólica cai abaixo de 50 mmHg sem resposta às medidas imediatas.

A checagem de pulso é pouco confiável, mesmo entre profissionais experientes. Se em 10 segundos não houver certeza da presença de pulso, a conduta é iniciar compressões.

Os primeiros dois minutos

  1. Comprimir e chamar

    Inicie compressões imediatamente sobre superfície firme, acione a equipe e peça o desfibrilador ou o desfibrilador externo automático.

  2. Monitorizar e analisar o ritmo

    Coloque as pás ou os eletrodos assim que o aparelho chegar. Ritmo chocável significa choque imediato; ritmo não chocável significa manter compressões, adrenalina o quanto antes e buscar a causa.

  3. Organizar a equipe

    Defina em voz alta: quem comprime, quem ventila, quem faz o acesso e as drogas, quem controla o tempo e quem lidera. Liderança clara reduz interrupções.

Um cronômetro visível e alguém responsável por anunciar o tempo em voz alta — ciclos de 2 minutos, momento das drogas, duração das pausas — é uma das intervenções mais baratas e mais eficazes para melhorar a qualidade da reanimação.

Resumo do fluxo

Comprimir bem, chocar cedo, tratar a causa — e só então otimizar a farmacologia.

  1. Reconhecer

    Reconheça a parada em até 10 segundos e acione a equipe pedindo o desfibrilador.

  2. Iniciar compressões imediatamente

    Superfície firme, 100 a 120 por minuto, 5 a 6 cm, com retorno completo do tórax.

  3. Classificar o ritmo

    Monitorize assim que o aparelho chegar e classifique o ritmo em chocável ou não chocável.

  4. Ritmo chocável

    Choque imediato e retomada instantânea das compressões, sem checar pulso.

  5. Ritmo não chocável

    Mantenha compressões e administre adrenalina o quanto antes.

  6. Acesso

    Obtenha acesso venoso, priorizando a via periférica, sem interromper as compressões; intraósseo se o IV falhar.

  7. Via aérea

    Considere via aérea avançada apenas se puder ser feita sem pausa relevante; conecte capnografia.

  8. Causas

    Revise ativamente os cinco H e cinco T a cada checagem de ritmo, com ultrassom dirigido nas pausas.

  9. Qualidade

    Troque o compressor a cada 2 minutos e mantenha as pausas abaixo de 10 segundos.

  10. Retorno de circulação

    Eletrocardiograma imediato, alvos de oxigenação e pressão, controle de temperatura e investigação da causa.

Em 30 segundos

O essencial de rcp de qualidade

  1. Compressões de 100 a 120/min, 5 a 6 cm, com retorno completo do tórax e fração de compressão acima de 60% (ideal 80%).
  2. Sem via aérea avançada: 30:2. Com via aérea avançada: compressões contínuas e 1 ventilação a cada 6 s.
  3. Capnografia em onda confirma o tubo, mede a qualidade da RCP e sinaliza o retorno de circulação.
  4. Engasgo grave no adulto: alternar 5 golpes nas costas e 5 compressões abdominais (AHA 2025).

Métricas da compressão

ParâmetroAlvoErro comum
Frequência100 a 120 por minutoComprimir rápido demais, o que reduz o enchimento e a profundidade.
Profundidade5 a 6 cm no adultoCompressão superficial, sobretudo com o passar dos minutos e com fadiga.
Retorno do tóraxCompleto a cada compressãoApoiar-se no tórax entre compressões, o que impede o enchimento cardíaco.
Fração de compressãoAcima de 60%, idealmente 80%Pausas longas para checar pulso, intubar ou trocar de compressor.
PausasMenos de 10 segundosPausa pré e pós-choque prolongada — uma das mais deletérias.
Troca de compressorA cada 2 minutosManter o mesmo profissional além do ciclo, com queda progressiva da qualidade.
SuperfícieFirme, com tábua se necessárioComprimir sobre colchão macio, o que dissipa a força aplicada.
Posição do socorristaBraços estendidos, ombros sobre o esternoComprimir com o cotovelo fletido ou em altura inadequada da maca.

As diretrizes de 2025 detalharam a ergonomia da compressão: posicionamento das mãos, posição do corpo do socorrista, altura da superfície e uso de superfície firme influenciam a qualidade da compressão de forma mensurável. Dispositivos de feedback em tempo real são recomendados quando disponíveis. Não atrase o início: comece a comprimir onde o paciente está, inclusive no leito, enquanto se providencia a tábua.

Compressor mecânico

Os dispositivos mecânicos não são recomendados de rotina (AHA e ERC 2025). Considere-os quando a compressão manual de qualidade não for possível ou expuser a equipe a risco — transporte com RCP, hemodinâmica, ponte para ECPR —, sempre com equipe treinada para instalá-los com pausa mínima.

Ventilação

Sem via aérea avançada

  • Relação de 30 compressões para 2 ventilações no adulto.
  • Cada ventilação em cerca de 1 segundo, com elevação visível do tórax.
  • Bolsa-válvula-máscara com reservatório, vedação de duas mãos e oxigênio no fluxo máximo.
  • Cânula orofaríngea facilita muito a ventilação.

Com via aérea avançada

  • Compressões contínuas, sem pausa para ventilar.
  • Uma ventilação a cada 6 segundos, ou seja, 10 por minuto.
  • Evitar hiperventilação: aumenta a pressão intratorácica e reduz o retorno venoso.
  • Capnografia em onda conectada e monitorizada continuamente.

As diretrizes de 2025 reforçaram o valor das ventilações associadas às compressões, tanto para profissionais quanto para leigos treinados e dispostos. A RCP somente com compressões continua sendo a orientação para o leigo não treinado ou que não se sente seguro para ventilar.

Se for usado ventilador mecânico durante a RCP (ERC 2025): modo volume ou pressão regulada, volume corrente de 6–8 mL/kg de peso predito, FiO₂ máxima, frequência de 10/min, tempo inspiratório de 1–1,5 s, PEEP 0–5 cmH₂O, alarme de pressão de pico em 60–70 cmH₂O e trigger inspiratório desligado. Se a ventilação não for efetiva, volte para a bolsa.

Capnografia durante a reanimação

  • Confirma a via aérea — curva sustentada indica tubo na traqueia; é obrigatória para excluir intubação esofágica.
  • Mede a qualidade da compressão — valores muito baixos sugerem compressão ineficaz ou fração de compressão ruim; valores acima de 10 mmHg, e idealmente acima de 20 mmHg, associam-se a maior taxa de retorno de circulação.
  • Sinaliza retorno de circulação — elevação abrupta e sustentada do valor durante as compressões é um dos sinais mais precoces.
  • Apoia o prognóstico — ETCO₂ ≤ 10 mmHg após 20 minutos de reanimação adequada com via aérea avançada associa-se a prognóstico ruim, mas não deve ser usado isoladamente para decidir o término (AHA 2025, classe 2b).
  • Evita hiperventilação — o traçado mostra a frequência real das ventilações administradas.
  • Cuidado com falsos negativos — em parada prolongada, embolia pulmonar maciça e baixo débito, o valor pode ser baixo mesmo com o tubo bem posicionado.

Com pressão arterial invasiva já instalada (UTI, hemodinâmica), a curva arterial também ajuda a guiar a qualidade da RCP e a detectar o retorno de circulação, sem pausa para checar pulso.

Obstrução de via aérea por corpo estranho

Obstrução leve

A pessoa tosse de forma eficaz e consegue falar. Conduta: encorajar a tosse e observar de perto, sem interferir.

Obstrução grave

Tosse ineficaz, incapacidade de falar, estridor ou cianose. Conduta: alternar 5 golpes nas costas e 5 compressões abdominais até desobstruir (sequência adotada pela AHA em 2025 para adultos e crianças maiores).

Perda de consciência

Deite a pessoa no chão, inicie RCP e verifique a boca a cada abertura de via aérea, removendo o corpo estranho apenas se visível.

Lactente

Alternar 5 golpes nas costas e 5 compressões torácicas (com a região hipotenar de uma mão); não realizar compressões abdominais nessa faixa etária.

Nunca faça varredura digital às cegas: o gesto pode empurrar o corpo estranho mais profundamente. Remova apenas o que estiver visível e ao alcance.

Em 30 segundos

O essencial de ritmos e choque

  1. Toda a conduta se bifurca numa pergunta: o ritmo é chocável (FV/TV sem pulso) ou não (assistolia/AESP)?
  2. Chocável: choque imediato, compressões retomadas sem checar pulso, ritmo reavaliado só em 2 minutos.
  3. Bifásico: 120–200 J conforme o fabricante (ERC: ao menos 150 J); se a energia recomendada for desconhecida, use a máxima.
  4. FV refratária (≥ 3 choques): revise o básico, considere trocar as pás para anteroposterior e use antiarrítmico.

A divisão que organiza tudo

Toda a conduta na parada se bifurca a partir de uma única pergunta: o ritmo é chocável ou não? Essa resposta define o próximo gesto e a prioridade terapêutica.

Chocáveis

  • Fibrilação ventricular — atividade elétrica caótica, sem complexos identificáveis.
  • Taquicardia ventricular sem pulso — complexos largos, regulares e rápidos, sem pulso.
  • Conduta: choque imediato, seguido de retomada instantânea das compressões.
  • Melhor prognóstico, sobretudo quando presenciada e desfibrilada cedo.

Não chocáveis

  • Assistolia — ausência de atividade elétrica; confirme ganho, derivação e conexões antes de assumir.
  • Atividade elétrica sem pulso — ritmo organizado no monitor sem pulso palpável.
  • Conduta: compressões, adrenalina e busca ativa da causa.
  • Prognóstico pior, mas a atividade elétrica sem pulso frequentemente tem causa tratável.

Atividade elétrica sem pulso não é um diagnóstico: é um achado que exige explicação. Hipovolemia, hipóxia, pneumotórax hipertensivo, tamponamento, embolia pulmonar e intoxicação estão entre as causas mais frequentes — e todas têm tratamento específico.

Os ritmos da parada no monitor

Compare os quatro ritmos de parada e suas variações. Lembre: a TV sem pulso tem o mesmo traçado da TV com pulso — quem define é o pulso, não o monitor.

FV grosseira

Atividade elétrica caótica de amplitude ampla, típica dos primeiros minutos de parada. Ritmo chocável: choque imediato.

  • Ondas irregulares em forma, amplitude e frequência
  • Nenhum QRS, onda P ou onda T identificável
  • Amplitude ampla (vários milímetros)

Traçados esquemáticos gerados por computador (25 mm/s, 10 mm/mV), DII. Em parada, confirme o ritmo nas pás ou eletrodos e o pulso no paciente — nunca apenas no monitor.

RitmoAchado-chaveComo diferenciar
FV fina
Achado-chaveOndulação irregular de baixa amplitude
Como diferenciarAumente o ganho e troque a derivação; se o ritmo é claramente FV, choque.
Assistolia
Achado-chaveLinha quase reta
Como diferenciarConfirme cabos, derivação e ganho; procure ondas P (parada ventricular responde a marca-passo).
Achado-chaveQRS largos, regulares e rápidos
Como diferenciarMesmo traçado da TV com pulso: palpe o pulso central — sem pulso, choque não sincronizado.
AESP
Achado-chaveRitmo organizado sem pulso
Como diferenciarUltrassom na pausa: contratilidade presente (pseudo-AESP) sugere causa reversível e melhor prognóstico.

Desfibrilação na prática

  1. Compressões contínuas

    Mantenha as compressões enquanto o desfibrilador é preparado e as pás são posicionadas.

  2. Pás adesivas

    Use pás adesivas quando disponíveis: reduzem a pausa e permitem monitorização contínua.

  3. Posição

    Posicionamento anterolateral é o padrão — a pá lateral (apical) abaixo da axila, na linha axilar média; a posição anteroposterior é alternativa aceitável.

  4. Carregar durante as compressões

    Carregue o aparelho durante as compressões, e não com a equipe parada esperando.

  5. MINIMIZE A PAUSA PERI-CHOQUE

    O alvo é menos de 5 segundos entre parar de comprimir, chocar e retomar.

  6. Chocar com segurança

    Avise em voz alta, confirme visualmente que ninguém está em contato e aplique o choque; retire máscara ou cateter de O₂ de perto do tórax.

  7. Retomar imediatamente

    Retome as compressões imediatamente após o choque, sem checar pulso nem ritmo.

  8. Reavaliar em 2 minutos

    Reavalie o ritmo apenas ao final do ciclo de 2 minutos.

Checar o pulso logo após o choque é um erro clássico e custoso. Mesmo quando o choque é eficaz, o coração leva algum tempo para gerar pulso palpável, e a pausa desperdiçada compromete a perfusão coronariana reconquistada com esforço.

Choques empilhados

Na FV presenciada e monitorizada com desfibrilador já conectado (hemodinâmica, UTI, pós-operatório cardíaco), até 3 choques em sequência rápida são aceitáveis antes de iniciar compressões. Para o ERC 2025, esses três choques contam como o "primeiro choque" para o momento da adrenalina e da amiodarona.

Calculadora — energia e doses

Selecione a faixa etária e informe o peso quando aplicável. As doses e energias seguem os algoritmos vigentes — confira sempre o manual do desfibrilador do seu serviço, pois a energia recomendada varia entre aparelhos.

AdultoEnergia / doseObservação
1º choque120 a 200 J em aparelho bifásico, conforme o fabricante (ERC 2025: ao menos 150 J)Em aparelho monofásico, 360 J desde o primeiro choque. Fabricante desconhecido: energia máxima.
Choques seguintesIgual ou maior; na prática, energia máximaEscalonar é razoável quando o aparelho permite.
Adrenalina1 mg IV/IO a cada 3 a 5 minutosPrecoce nos ritmos não chocáveis; após falha dos choques iniciais nos chocáveis.
Amiodarona300 mg na primeira dose e 150 mg na segundaFibrilação ventricular ou TV sem pulso refratária ao choque.
Lidocaína1 a 1,5 mg/kg (70 kg: 70 a 105 mg; ERC: 100 mg)Alternativa à amiodarona; doses adicionais de 0,5–0,75 mg/kg, até 3 mg/kg.
Sulfato de magnésio1 a 2 g diluídosApenas em torsades de pointes ou hipomagnesemia — não é droga de rotina.
Bicarbonato de sódio1 mEq/kg (70 kg: 70 mEq), se indicadoHipercalemia, intoxicação por tricíclico e acidose grave preexistente.
Cardioversão sincronizadaEnergia conforme a arritmia e o aparelho (ver Ritmos peri-parada)Sedação sempre que a condição do paciente permitir.
Compressão e ventilação30:2 sem via aérea avançada; 1 ventilação a cada 6 segundos com via aérea avançadaCompressões contínuas após o dispositivo avançado.
Pediátrico (lactente e criança) — energia e doses por peso

Informe o peso para obter energia e doses da parada pediátrica. Os limites superiores correspondem à dose do adulto.

Desfibrilação — 1º choque2 J/kg
—
Desfibrilação — choques seguintes4 J/kg (escalonar até 10 J/kg ou a dose do adulto)
—
0,01 mg/kg a cada 3–5 min (máx. 1 mg)
—
5 mg/kg em ritmo chocável refratário (máx. 300 mg/dose)
—
1 mg/kg como alternativa à amiodarona (máx. 100 mg)
—
25–50 mg/kg em torsades (máx. 2 g) — cálculo com 50 mg/kg
—
Cardioversão sincronizada0,5–1 J/kg; escalonar para 2 J/kg se necessário — cálculo com 1 J/kg
—

Ferramenta de apoio. A energia bifásica recomendada varia conforme o fabricante — siga a orientação do aparelho disponível e, na dúvida, use a energia máxima. As doses pediátricas têm limite superior definido pela dose do adulto; confira apresentação e diluição antes de administrar. Compressão e ventilação na criança: 30:2 com um socorrista e 15:2 com dois socorristas, profundidade de cerca de um terço do diâmetro do tórax.

Fibrilação ventricular refratária

Define-se pela persistência do ritmo chocável após três ou mais choques com reanimação adequada. É um cenário em que vale reavaliar sistematicamente o básico antes de partir para estratégias avançadas. O manejo detalhado está no artigo FV / TV sem pulso.

  • Revise a qualidade da compressão — profundidade, frequência, retorno do tórax e fração de compressão.
  • Confira o contato das pás — pele seca, pelos, adesivo mal aplicado e posicionamento inadequado reduzem a energia entregue; confirme que a energia está no máximo.
  • Considere trocar a posição das pás de anterolateral para anteroposterior (troca de vetor) — o ERC 2025 dá destaque a essa medida após 3 choques; para a AHA 2025, a utilidade não está estabelecida, mas pode ser considerada (classe 2b).
  • Antiarrítmico — é a opção habitual, com como alternativa equivalente.
  • Corrija eletrólitos — potássio e magnésio; considere se houver torsades de pointes.
  • Pense em isquemia — a causa mais frequente; considere coronariografia se houver retorno de circulação, e discuta suporte extracorpóreo em serviços com o recurso.
  • Desfibrilação sequencial dupla — estudada no ensaio DOSE-VF; AHA 2025 classifica a utilidade como não estabelecida (2b) e o ERC 2025 não recomenda o uso de rotina fora de pesquisa. Siga o protocolo institucional.

Ritmos peri-parada

SituaçãoReconhecimentoConduta
Bradicardia instávelFrequência baixa com hipotensão, alteração do nível de consciência, dor torácica ou sinais de choque. 1 mg IV a cada 3–5 min (máx. 3 mg; ERC: 0,5 mg); se não responder, marca-passo transcutâneo ou infusão de cronotrópico ( 2–10 mcg/min). Atropina é ineficaz no BAV de alto grau com QRS largo e no transplantado cardíaco.
Taquicardia instávelFrequência alta com sinais de instabilidade atribuíveis à arritmia.Cardioversão elétrica sincronizada, com sedação sempre que possível, sem testar drogas antes. FA: ao menos 200 J bifásico (AHA 2025; ERC 2025: energia máxima); flutter: 200 J (AHA 2025; ERC 2025: 70–120 J); TSV de QRS estreito: 100 J (AHA 2025; ERC 2025: 70–120 J); TV monomórfica com pulso: 100 J (AHA 2025; ERC 2025: 120–150 J) — escalonando se falhar.
Taquicardia estável de complexo estreitoRegular, sem sinais de instabilidade.Manobra vagal e (6 mg em bolus rápido, depois 12 mg); investigar e tratar a causa.
Taquicardia estável de complexo largoConsidere taquicardia ventricular até prova em contrário.Antiarrítmico conforme protocolo ( 150 mg em 10 min, ou 300 mg em 10–20 min pelo ERC), com desfibrilador imediatamente disponível.
Torsades de pointesTaquicardia polimórfica com QT longo de base., correção de eletrólitos e suspensão de drogas que prolongam o QT.

A pergunta que define a conduta nas taquiarritmias é sempre a mesma: a instabilidade é causada pela arritmia? Um paciente séptico e taquicárdico não precisa de cardioversão — precisa do tratamento da sepse.

Ritmos peri-parada: o que vem antes (ou depois) da PCR

Bradi e taquiarritmias que podem degenerar em parada ou surgir logo após o retorno de circulação.

Bradicardia sinusal

Bradicardia com P antes de cada QRS. Se houver instabilidade, atropina é a primeira droga.

  • FC ≈ 45 bpm, ritmo regular
  • Onda P antes de cada QRS, PR constante
  • QRS estreito

Traçados esquemáticos gerados por computador (25 mm/s, 10 mm/mV) para estudo e comparação. Confirme sempre no ECG de 12 derivações do paciente.

Em 30 segundos

O essencial de drogas e via aérea

  1. Acesso: tente primeiro o venoso periférico; intraósseo se o IV falhar (ERC: após 2 tentativas). A via endotraqueal saiu das recomendações AHA 2025.
  2. Adrenalina 1 mg a cada 3–5 min: o mais cedo possível no ritmo não chocável; no chocável, após falha dos choques iniciais (AHA: após o 2º; ERC: após o 3º).
  3. Amiodarona 300 mg → 150 mg (ou lidocaína) só no ritmo chocável refratário.
  4. Bicarbonato, cálcio, magnésio, corticoide e vasopressina não são de rotina — apenas com indicação específica.

Acesso vascular

Priorize o acesso venoso periférico: as diretrizes de 2025 (AHA classe 1; ERC) recomendam a tentativa de acesso intravenoso antes do intraósseo no adulto em parada. O intraósseo permanece excelente alternativa quando o venoso não é obtido rapidamente — o ERC 2025 sugere passar ao IO após duas tentativas de IV sem sucesso. Já a via endotraqueal, de absorção errática e doses imprevisíveis, deixou de constar como rota alternativa nas recomendações AHA 2025: use apenas se não houver, de fato, nenhuma outra via.

Acesso é tarefa paralela

Nunca interrompa compressões para obter acesso — são tarefas paralelas, executadas por profissionais diferentes. Lave com solução salina (20 mL) após cada droga e eleve o membro, para favorecer a chegada da medicação à circulação central.

Drogas do algoritmo

A farmacologia da parada é curta e tem efeito modesto: a adrenalina aumenta o retorno de circulação, e o antiarrítmico só entra no ritmo chocável refratário. Todo o resto — magnésio, bicarbonato, cálcio, naloxona, trombolítico — é dirigido a uma causa específica, e seu uso de rotina não traz benefício ou pode prejudicar.

DrogaQuandoObservações
Ritmo não chocável: assim que possível. Ritmo chocável: após falha das tentativas iniciais de desfibrilação (AHA: após o 2º choque; ERC: após o 3º).Repetir a cada 3 a 5 minutos. Aumenta a taxa de retorno de circulação e a sobrevida; o efeito sobre sobrevida com bom desfecho neurológico é mais modesto, e a administração precoce nos ritmos não chocáveis é o ponto de maior impacto. Dose alta não é recomendada.
Fibrilação ventricular ou TV sem pulso refratária ao choque (após o 3º choque).Primeira dose de 300 mg, com segunda dose de 150 mg se necessário. Aumenta a sobrevida à admissão hospitalar.
Alternativa à amiodarona no ritmo chocável refratário.Desempenho semelhante nos estudos comparativos; use a que estiver disponível e com a qual a equipe tem familiaridade.
Torsades de pointes e suspeita de hipomagnesemia.Não é droga de rotina na parada; o uso indiscriminado não traz benefício (AHA 2025: classe 3, sem benefício).
Hipercalemia, intoxicação por antidepressivo tricíclico e acidose metabólica grave preexistente.Não usar de rotina (AHA 2025: classe 3, sem benefício; ERC 2025): pode piorar acidose intracelular e desviar a curva de dissociação da hemoglobina.
Hipercalemia, hipocalcemia e intoxicação por bloqueador de canal de cálcio.Sem indicação de rotina — ensaios recentes sugerem possível prejuízo; reserve para as situações específicas acima.
Parada com suspeita de intoxicação por opioide.As diretrizes de 2025 ampliaram a ênfase no uso precoce e no acesso público; não substitui as compressões nem a ventilação.
Suspeita forte ou confirmação de embolia pulmonar como causa da parada.Se administrado, considere prolongar a reanimação por 60 a 90 minutos antes de decidir o término.
Vasopressina e corticoideNão substituem a adrenalina.AHA 2025: vasopressina isolada ou associada não traz vantagem sobre a adrenalina; corticoide durante a parada tem benefício incerto. ERC 2025: não usar de rotina.

Nenhuma droga substitui compressão de qualidade e desfibrilação precoce. A prioridade quando os recursos humanos são limitados é sempre: comprimir bem, chocar cedo, tratar a causa — e só então otimizar a farmacologia.

Via aérea durante a parada

Bolsa-válvula-máscara

Estratégia inicial adequada na maioria dos casos. Vedação de duas mãos, cânula orofaríngea e oxigênio no fluxo máximo.

Dispositivo supraglótico

Alternativa rápida e com menor interrupção; boa opção quando não há operador experiente em intubação. O ERC 2025 prefere o i-gel ao tubo laríngeo.

Intubação orotraqueal

Permite compressões contínuas e proteção da via aérea, mas só se puder ser feita sem interromper as compressões e por operador experiente (ERC: taxa de sucesso > 95% em até duas tentativas).

Confirmação

Capnografia em onda em qualquer dispositivo avançado — é também o melhor monitor de qualidade da reanimação.

Não existe superioridade demonstrada de uma estratégia de via aérea sobre as outras em termos de sobrevida. O que piora desfecho de forma consistente é a interrupção prolongada das compressões para tentar intubar — se a tentativa for demorada, o custo supera o benefício.

Condutas — como usar as rotas

Cada rota é um cenário da reanimação. O nome do fármaco abre a ficha com indicação, posologia, momento de administração e cuidados. Confira apresentação, diluição e protocolo do seu serviço antes de administrar.

Rotas de tratamento

Doses para adultos. As rotas seguem o algoritmo: ritmo não chocável, ritmo chocável, adjuvantes com indicação específica, ritmos peri-parada e suporte hemodinâmico após o retorno de circulação.

Via aérea na parada — qual dispositivo e quando

Condutas que fogem do algoritmo padrão — dispositivo de via aérea, parada na gestante, suporte extracorpóreo, primeiros minutos após o retorno e a decisão de encerrar — estão nos cards abaixo. Na via aérea, nenhuma estratégia mostrou superioridade consistente sobre as outras. O que piora desfecho é interromper compressões para conseguir o tubo, e por isso quem intuba é o profissional mais experiente, sem pausar o massageador.

  • Bolsa-válvula-máscara — adequada como estratégia inicial; exige vedação de duas mãos, cânula orofaríngea e oxigênio no fluxo máximo.
  • Dispositivo supraglótico — inserção rápida, com pouca ou nenhuma interrupção; boa opção quando não há operador experiente em intubação.
  • Intubação orotraqueal — permite compressões contínuas e protege a via aérea, mas só se realizada sem interromper as compressões.
  • Quem intuba — o profissional mais experiente disponível; a parada não é ambiente para treinamento não supervisionado.
  • Confirmação — capnografia em onda em qualquer dispositivo avançado.
  • Após o dispositivo — compressões contínuas com 1 ventilação a cada 6 segundos.
  • Hiperventilação — aumenta a pressão intratorácica, reduz o retorno venoso e piora a perfusão; erro frequente sob estresse.
  • Oxigênio — FiO₂ de 100% durante a parada; reduzir rapidamente após o retorno de circulação.

Se a tentativa de intubação exigir pausa relevante nas compressões, prefira o dispositivo supraglótico ou mantenha a ventilação com bolsa e máscara.

Parada na gestante — deslocamento uterino e cesárea

Dois pacientes, uma prioridade: a melhor conduta para o feto é a reanimação eficaz da mãe. A fisiologia explica as adaptações — o útero gravídico comprime a cava e derruba o retorno venoso, e a via aérea dessatura rápido. Por isso o deslocamento uterino é contínuo e, sem retorno de circulação, a cesárea perimortem é uma manobra de reanimação materna, feita no próprio local.

ItemDetalhe
Compressão da cavaO útero gravídico comprime a veia cava inferior e reduz drasticamente o retorno venoso.
Manobra essencialDeslocamento uterino manual à esquerda, mantido continuamente durante toda a reanimação.
Posição das mãosCompressões ligeiramente mais cefálicas que o habitual.
Via aéreaMaior risco de dessaturação rápida, edema de via aérea e aspiração — priorize operador experiente e tubo de menor calibre.
Cesárea perimortemConsiderada em torno de 4 minutos sem retorno de circulação, quando a altura uterina alcança a cicatriz umbilical, com o objetivo de extração fetal até o 5º minuto.
Objetivo da cesáreaMelhorar a hemodinâmica materna ao aliviar a compressão da cava — o benefício é para a mãe, além do feto.
Onde realizarNo local da reanimação, sem transporte para o centro cirúrgico.
Causas específicasHemorragia, embolia amniótica, pré-eclâmpsia grave, tromboembolismo e toxicidade por sulfato de magnésio (antídoto: ).

Acione precocemente obstetrícia, neonatologia e anestesia: o desfecho depende da chegada dessas equipes antes do quarto minuto, não depois.

RCP extracorpórea — quem é candidato

Suporte circulatório mecânico durante a parada refratária, disponível em serviços estruturados e com critérios de seleção rigorosos. AHA e ERC 2025 consideram razoável a ECPR como resgate em adultos selecionados quando a RCP convencional está falhando, em sistemas capazes de implantá-la. A lógica é ganhar tempo para tratar a causa — por isso o benefício depende de seleção e de rapidez, e a decisão precisa ser precoce, não o último recurso.

  • Conceito — instalação de circulação extracorpórea (ECMO venoarterial) durante a reanimação, para manter perfusão enquanto a causa é tratada.
  • Candidato típico — paciente jovem, sem comorbidade limitante, com parada presenciada e RCP de qualidade desde o início (tempo sem fluxo idealmente ≤ 5 min).
  • Critérios usuais (ERC 2025) — ritmo inicial chocável ou AESP; tempo estimado de RCP até a canulação de 45 a 60 minutos; causa tratável conhecida ou suspeita; retorno transitório de circulação ou sinais de vida durante a RCP; ETCO₂ > 10 mmHg; RCP mecânica no transporte.
  • Causa presumida — melhor benefício quando há causa potencialmente reversível: isquemia coronariana, embolia pulmonar, hipotermia e intoxicação.
  • Tempo — quanto menor o intervalo entre a parada e a instalação, melhor o desfecho; o programa precisa ser rápido.
  • Pré-requisito — existência de protocolo institucional, equipe treinada e disponibilidade imediata do recurso.
  • Hipotermia — cenário em que o benefício é particularmente marcante, com relatos de recuperação neurológica completa.
  • Limitação — recurso escasso, caro e indisponível na maior parte dos serviços brasileiros.
  • Decisão — deve ser tomada precocemente durante a reanimação, e não como último recurso após longo tempo de parada.

Se o seu serviço tem o recurso, defina os critérios de ativação antes de precisar deles — decidir durante a parada é tarde demais.

Retorno de circulação — os primeiros 20 minutos

Os primeiros minutos após o retorno definem boa parte do desfecho. É a fase em que a equipe costuma relaxar justamente quando não deveria: o cérebro e o miocárdio recém-reperfundidos são vulneráveis a hiperóxia, hiperventilação e hipotensão, e a causa da parada continua presente até ser tratada.

  1. Confirme

    Pulso central palpável, elevação abrupta da capnografia e retorno de curva de pressão arterial.

  2. Oxigenação

    Alvo de saturação entre 90% e 98% (ERC: 94–98%), com redução rápida da FiO₂ para evitar hiperóxia.

  3. Ventilação

    Buscar normocapnia (PaCO₂ 35–45 mmHg); evitar hiperventilação, que reduz o fluxo sanguíneo cerebral.

  4. Hemodinâmica

    Pressão arterial média de pelo menos 65 mmHg, com volume, e inotrópico conforme necessário.

  5. Eletrocardiograma

    Imediato — coronariografia de urgência se houver supradesnivelamento do segmento ST.

  6. Temperatura

    Controle ativo por pelo menos 36 horas em quem permanece sem resposta a comandos verbais.

  7. Investigação

    Tratar a causa que provocou a parada; exames laboratoriais, imagem e ultrassom conforme a suspeita.

  8. Transporte

    Para terapia intensiva, com monitorização completa e equipe preparada para nova parada.

A recorrência da parada nos primeiros minutos após o retorno é frequente — mantenha o desfibrilador conectado e a equipe posicionada.

Término da reanimação — como e quando decidir

Decisão clínica, compartilhada e contextual. Nenhum marcador isolado autoriza encerrar, e alguns cenários exigem reanimação prolongada. Antes de parar, a pergunta é se a reanimação foi de fato adequada e se alguma causa reversível ou exceção (hipotermia, intoxicação, trombolítico, gestante, candidato a ECPR) muda o prazo.

ItemDetalhe
Fatores desfavoráveisParada não presenciada, ausência de RCP por testemunha, assistolia persistente e ausência de causa reversível identificada.
CapnografiaETCO₂ persistentemente ≤ 10 mmHg após 20 minutos de reanimação adequada com via aérea avançada sugere prognóstico ruim — mas não decide isoladamente.
Antes de decidirRevise qualidade da compressão, causas reversíveis, adequação do esquema e funcionamento do equipamento.
Exceções obrigatóriasHipotermia e intoxicação exigem reanimação prolongada; não se declara óbito antes do reaquecimento adequado.
Outras exceçõesTrombolítico administrado por suspeita de embolia pulmonar, gestante e candidato a suporte extracorpóreo.
Regras de término (pré-hospitalar)AHA 2025 endossa as regras validadas de término — BLS (onde não há suporte avançado), ALS e a regra universal em sistemas escalonados — como apoio à decisão em campo.
ProcessoDiscuta em voz alta com a equipe, verifique diretivas antecipadas e busque consenso antes de encerrar.
ComunicaçãoInforme a família em ambiente reservado, com linguagem clara e espaço para perguntas.
DepoisRegistre horários, ritmos e intervenções; realize debriefing e ofereça suporte à equipe.

Nenhuma regra substitui o julgamento clínico e o contexto: idade, comorbidades, vontade previamente expressa e circunstância da parada pesam tanto quanto os marcadores objetivos.

Em 30 segundos

O essencial de causas reversíveis

  1. Na AESP e na assistolia, achar a causa é a tarefa com maior chance de reverter a parada.
  2. Revise os 5H e 5T em voz alta a cada checagem de ritmo — e investigue de fato uma causa por ciclo.
  3. Ultrassom só nas pausas, com alvo definido e no máximo 10 segundos.
  4. Toda conduta dirigida é feita em paralelo às compressões, por profissionais designados.

Os cinco H e os cinco T

Revisar as causas reversíveis não é um exercício acadêmico para o final da reanimação: é a tarefa que, na atividade elétrica sem pulso e na assistolia, tem maior chance de reverter o quadro. Faça a revisão em voz alta, a cada checagem de ritmo.

CausaPistasTratamento imediato
HipovolemiaTrauma, sangramento, desidratação, veia cava colabada ao ultrassom.Volume em infusão rápida e controle da fonte de sangramento; hemoderivados se hemorrágica.
HipóxiaInsuficiência respiratória prévia, obstrução de via aérea, afogamento.Via aérea pérvia, oxigênio a 100% e ventilação eficaz.
Hidrogênio (acidose)Acidose metabólica grave conhecida, insuficiência renal, cetoacidose.Ventilação adequada; apenas em situações selecionadas.
Hipo ou hipercalemiaDoença renal, diálise, drogas, alterações prévias no eletrocardiograma., e bicarbonato na hipercalemia; reposição cautelosa na hipocalemia.
HipotermiaExposição ao frio, afogamento em água gelada, temperatura central baixa.Reaquecimento ativo; reanimação prolongada — não se declara óbito antes do reaquecimento.
Tensão no tórax (pneumotórax)Trauma, ventilação mecânica, desvio de traqueia, ausência de deslizamento pleural.Descompressão imediata seguida de drenagem torácica.
Tamponamento cardíacoTrauma, neoplasia, pós-operatório cardíaco; derrame ao ultrassom.Pericardiocentese ou toracotomia, conforme o contexto.
ToxinasIntoxicação, superdosagem, opioides, bloqueadores de canal de cálcio e betabloqueadores.Antídoto específico: , cálcio, glucagon, e bicarbonato conforme o agente.
Trombose pulmonarFatores de risco, dispneia súbita prévia, ventrículo direito dilatado ao ultrassom. e, quando disponível, suporte extracorpóreo ou trombectomia.
Trombose coronarianaDor torácica prévia, alterações isquêmicas conhecidas, ritmo chocável refratário.Coronariografia após retorno de circulação; discutir suporte extracorpóreo em casos selecionados.

Uma regra prática de plantão: nos ritmos não chocáveis, dedique parte do ciclo de dois minutos a uma causa específica — verifique-a de fato, com exame, ultrassom ou história, em vez de apenas recitar a lista.

Calculadora — checklist de causas reversíveis

Escolha a causa suspeita neste paciente. O resultado mostra a conduta específica correspondente, para ser executada em paralelo às compressões. Havendo mais de uma suspeita, consulte uma de cada vez e distribua as tarefas na equipe.

Os cinco H

  • Hipovolemia — trauma, sangramento, desidratação ou sepse.
  • Hipóxia — insuficiência respiratória prévia, obstrução de via aérea ou afogamento.
  • Acidose — acidose metabólica grave conhecida ou insuficiência renal.
  • Hipo ou hipercalemia — doença renal, diálise ou alterações eletrocardiográficas prévias.
  • Hipotermia — exposição ao frio, afogamento ou temperatura central baixa.

Os cinco T

  • Pneumotórax hipertensivo — trauma, ventilação mecânica ou procedimento recente.
  • Tamponamento cardíaco — trauma, neoplasia ou pós-operatório cardíaco.
  • Toxinas — intoxicação por opioide, bloqueador de canal de cálcio, betabloqueador ou tricíclico.
  • Trombose pulmonar — fatores de risco para tromboembolismo ou ventrículo direito dilatado.
  • Trombose coronariana — dor torácica prévia ou ritmo chocável refratário.
Conduta dirigida pela causa suspeita

10 causas • conduta dirigida • em paralelo às compressões.

Nenhuma causa marcada. Revise a lista em voz alta a cada checagem de ritmo e use o ultrassom nas pausas para dirigir a investigação.

Ferramenta de apoio ao raciocínio durante a reanimação. As condutas listadas devem ser executadas em paralelo às compressões, por profissionais designados, sem gerar pausas adicionais. Doses e diluições seguem o protocolo do seu serviço.

Ultrassom durante a parada

O ultrassom à beira do leito é a ferramenta que transforma os H e T em hipóteses testáveis: tamponamento, sobrecarga de VD, pneumotórax e hipovolemia têm imagens próprias. O valor dele, porém, depende de disciplina — exame curto, dentro da pausa já prevista, com operador dedicado e pergunta definida antes de encostar o transdutor.

  • Use apenas nas pausas de checagem de ritmo, com a janela subxifoide já preparada e o aparelho posicionado antes da pausa.
  • Limite a 10 segundos — o exame não pode prolongar a interrupção das compressões.
  • Procure alvos específicos: derrame pericárdico, ventrículo direito dilatado, ausência de deslizamento pleural, veia cava colabada e contratilidade cardíaca.
  • Contratilidade organizada sem pulso palpável sugere pseudoatividade elétrica sem pulso, com melhor prognóstico e maior chance de causa reversível.
  • Ausência total de movimento cardíaco associa-se a prognóstico ruim, mas não deve ser usada isoladamente para encerrar a reanimação — a AHA 2025 considera a utilidade diagnóstica e prognóstica do POCUS na parada ainda não estabelecida (2b).
  • Designe um operador exclusivo para o ultrassom, para que ele não compita com as demais tarefas.

O ultrassom durante a parada tem um risco bem documentado: prolongar as pausas. Se o exame não puder ser feito em segundos, com alvo definido, o custo em fração de compressão supera o benefício diagnóstico.

Em 30 segundos

O essencial de cenários especiais

  1. Gestante: deslocamento uterino à esquerda e cesárea perimortem em torno de 4 minutos sem retorno.
  2. Trauma, hipotermia, afogamento, opioide, hipercalemia, anafilaxia e anestésico local têm manejo próprio.
  3. Na criança a parada é habitualmente hipóxica: ventilação ganha peso; 15:2 com dois socorristas.
  4. Lactente: compressão com os dois polegares ou a região hipotenar de uma mão — a técnica de dois dedos saiu (AHA 2025).

Gestante e trauma: quando a causa é mecânica

Na gestante e no politraumatizado, a parada costuma ter uma causa mecânica que nenhuma droga resolve: a cava comprimida pelo útero, o sangue que falta, o ar ou o sangue que comprimem o coração. A compressão torácica isolada rende pouco enquanto o obstáculo persiste — por isso as manobras que removem a causa (deslocar o útero, controlar a hemorragia, descomprimir o tórax) têm prioridade igual ou maior que o algoritmo.

Gestante

O útero gravídico comprime a veia cava e reduz drasticamente o retorno venoso. Deslocamento uterino manual à esquerda, compressões um pouco mais cefálicas e cesárea perimortem considerada em torno de 4 minutos sem retorno de circulação, se a altura uterina alcança a cicatriz umbilical.

Trauma

Causa quase sempre mecânica: hipovolemia, pneumotórax hipertensivo ou tamponamento. Priorizar controle de hemorragia, descompressão torácica bilateral, hemoderivados e, em serviços habilitados, toracotomia de reanimação em indicações selecionadas.

Hipotermia e afogamento

Os dois cenários costumam vir juntos e mudam a reanimação em direções diferentes. No afogamento, a parada é hipóxica, e a ventilação ganha peso proporcionalmente maior. Na hipotermia grave, o metabolismo reduzido protege o cérebro, e a recuperação neurológica completa é possível mesmo após reanimação muito prolongada — o que torna o término precoce um erro grave.

Hipotermia grave

  • Reaquecimento ativo e reanimação prolongada.
  • O paciente só é considerado irrecuperável após aquecimento adequado.
  • Considerar suporte extracorpóreo.

Afogamento

  • Iniciar com ventilações.
  • Priorizar oxigenação.
  • Considerar hipotermia associada.

Intoxicações, hipercalemia e anafilaxia

Nessas situações existe um antídoto ou tratamento dirigido que deve entrar já durante a reanimação, sem esperar o retorno de circulação. A pista costuma estar no contexto — paciente dialítico, depressão respiratória antes da parada, exposição a alérgeno, bloqueio anestésico recente — e reconhecê-la cedo é o que muda o desfecho.

CenárioParticularidadeO que fazer diferente
Intoxicação por opioideParada tipicamente precedida por depressão respiratória. precoce associada a ventilação e compressões; as diretrizes de 2025 reforçaram o acesso público ao antídoto.
HipercalemiaFrequente em renal crônico e dialítico; alterações prévias no eletrocardiograma. imediato, seguido de e bicarbonato; diálise após a estabilização.
AnafilaxiaVasoplegia intensa com broncoespasmo e edema de via aérea., volume em grande quantidade e via aérea precoce, pela evolução rápida do edema.
Intoxicação por anestésico localArritmias refratárias após bloqueio ou infiltração. conforme protocolo, com reanimação prolongada.

Assistência ventricular e consciência durante a RCP

No paciente com dispositivo de assistência ventricular, a ausência de pulso pode ser normal: avalie o funcionamento do dispositivo antes de comprimir, siga o protocolo específico e acione a equipe responsável — as compressões não estão automaticamente contraindicadas. Outra situação desconcertante é a consciência induzida pela RCP: o paciente se move, abre os olhos ou resiste durante compressões eficazes, ainda sem retorno de circulação.

Consciência induzida pela RCP (ERC 2025)

Considerar pequenas doses de analgésico ou sedativo (opioide, cetamina, midazolam); nunca bloqueador neuromuscular isolado em paciente consciente.

Particularidades pediátricas

A criança não é um adulto pequeno também na parada: ela chega lá, quase sempre, depois de insuficiência respiratória ou choque, e não por arritmia primária. Isso explica a ênfase na ventilação, a relação 15:2 com dois socorristas e a indicação de comprimir já na bradicardia com má perfusão. As doses são todas por peso.

Causa predominante

A parada na criança é habitualmente hipóxica, secundária a insuficiência respiratória ou choque — daí a ênfase maior na ventilação.

Relação compressão-ventilação

30 para 2 com um socorrista e 15 para 2 com dois socorristas; profundidade de cerca de um terço do diâmetro anteroposterior do tórax. Com via aérea avançada: 1 ventilação a cada 2–3 segundos.

Técnica no lactente

AHA 2025: dois polegares com as mãos envolvendo o tórax ou a região hipotenar de uma mão; a técnica de dois dedos foi abandonada.

Energia

Primeiro choque de 2 J/kg, seguido de 4 J/kg, podendo escalonar até 10 J/kg ou a dose do adulto conforme protocolo.

Adrenalina

0,01 mg/kg por via intravenosa ou intraóssea a cada 3 a 5 minutos, com dose máxima correspondente à do adulto.

Bradicardia com má perfusão

Frequência abaixo de 60 por minuto com sinais de má perfusão apesar de oxigenação e ventilação adequadas é indicação de iniciar compressões.

Prognóstico

As diretrizes de 2025 trouxeram, pela primeira vez, recomendações específicas sobre prognóstico neurológico após parada em pediatria.

Doses por peso

Use a calculadora pediátrica da aba Ritmos e choque (energia, adrenalina, amiodarona, lidocaína e magnésio).

Em 30 segundos

O essencial de pós-pcr e término

  1. O retorno de circulação inicia a fase que define boa parte do desfecho neurológico.
  2. Alvos: SpO₂ 90–98%, PaCO₂ 35–45 mmHg, PAM ≥ 65 mmHg, ECG imediato e controle de temperatura (32–37,5 °C) por ≥ 36 h em quem não obedece comandos.
  3. Coronariografia imediata se supra de ST ou alta suspeita de oclusão; sem supra, não é rotina.
  4. Prognóstico neurológico: multimodal, nunca antes de 72 h; o término da RCP é decisão clínica e compartilhada.

Cuidados após o retorno de circulação

O retorno de circulação não encerra a reanimação — inicia a fase em que boa parte do desfecho neurológico é definida. A síndrome pós-parada combina lesão cerebral, disfunção miocárdica, resposta inflamatória sistêmica e a persistência da causa que provocou o evento.

DomínioAlvoObservação
OxigenaçãoSaturação entre 90% e 98% ou PaO₂ 60–105 mmHg (AHA 2025); 94–98% ou PaO₂ 75–100 mmHg (ERC-ESICM 2025)Reduza a FiO₂ assim que possível — a hiperóxia se associa a pior desfecho. Evite PaO₂ < 60 mmHg. A oximetria pode superestimar a saturação em peles mais escuras.
VentilaçãoNormocapnia (PaCO₂ 35–45 mmHg)Evitar hiperventilação e hipocapnia, que reduzem o fluxo sanguíneo cerebral. Volume corrente de 6–8 mL/kg de peso predito.
Pressão arterialMédia de pelo menos 65 mmHg (ERC: > 60–65), evitando hipotensãoVolume, e inotrópico conforme a disfunção miocárdica; pressão arterial invasiva e ecocardiograma precoce.
EletrocardiogramaImediatamente após o retornoCoronariografia de urgência se houver supradesnivelamento ou alta suspeita de oclusão coronariana (instabilidade hemodinâmica ou elétrica). Sem supra, a coronariografia pode ser adiada (ERC-ESICM 2025).
Investigação da causaSem causa coronariana evidenteERC-ESICM 2025: tomografia de crânio a pelve, com angiotomografia de tórax, quando há pistas de causa não cardíaca ou a coronariografia não mostra lesão culpada.
TemperaturaControle ativo (32 a 37,5 °C) por pelo menos 36 horasNos pacientes que permanecem sem resposta a comandos verbais; evitar febre de forma agressiva (ERC-ESICM: temperatura ≤ 37,5 °C por pelo menos 72 h). Não usar resfriamento pré-hospitalar com grandes volumes de soro gelado.
GlicemiaEvitar hipoglicemia e hiperglicemia importantesSem alvo estrito; a hipoglicemia é particularmente deletéria.
ConvulsõesTratar quando presentesEletroencefalograma em quem permanece comatoso; a atividade epileptiforme é frequente. Levetiracetam ou valproato como primeira linha; sem profilaxia anticonvulsivante, e sem tratar mioclonia sem correlato no EEG.
SedaçãoTitulada, permitindo avaliação neurológicaEvitar sedação profunda desnecessária, que atrasa o prognóstico; preferir agentes de curta ação com despertar diário.
RitmoTratar arritmias recorrentes e corrigir potássioSem arritmia após o retorno, não fazer antiarrítmico profilático de rotina (ERC-ESICM 2025).

As diretrizes AHA de 2025 recomendam controle deliberado de temperatura entre 32 e 37,5 °C, mantido por pelo menos 36 horas, em adultos que permanecem sem resposta a comandos verbais, com ênfase na prevenção ativa da febre no período subsequente.

Pressão e ECG logo após o retorno

Duas decisões precisam ser tomadas nos primeiros minutos. A primeira é sustentar a perfusão: o miocárdio atordoado e a vasoplegia pós-parada derrubam a pressão, e a hipotensão nessa fase agrava a lesão cerebral — a noradrenalina costuma ser necessária, titulada pela PAM. A segunda é o ECG, que decide a coronariografia imediata; mas o traçado dos primeiros minutos pode superestimar a isquemia, e repeti-lo evita cateterismos desnecessários.

Noradrenalina pós-PCR: dose por peso → mL/h

Ampola de noradrenalina 4 mg/4 mL (1 mg/mL), diluída em SG 5%. Início usual: 0,05–0,1 mcg/kg/min, titulando pela PAM (alvo ≥ 65 mmHg).

Velocidade (mL/h)—
Dose absoluta (mcg/min)—
Faixa da dose—

Preferir acesso venoso central e pressão arterial invasiva assim que possível. Titular pela PAM e pela perfusão. Confira a apresentação e o padrão de diluição do seu serviço.

ECG logo após o retorno de circulação

O ECG pós-PCR decide a coronariografia imediata. Compare o supra de ST com o infra difuso — muito comum nos primeiros minutos após a reanimação.

Supra de ST anterior

Supradesnivelamento de ST nas precordiais após o retorno: indicação de coronariografia de urgência.

  • Supra de ST com T apiculada em V1–V4, máximo em V2–V3
  • Infra recíproco discreto em DIII e aVF
  • Ritmo sinusal ≈ 88 bpm

Traçados esquemáticos (25 mm/s, 10 mm/mV). O ECG obtido nos primeiros minutos após o retorno pode superestimar a isquemia; repita-o e interprete no contexto.

Prognóstico neurológico

O prognóstico neurológico nunca é precoce: a avaliação formal só deve ocorrer após pelo menos 72 horas do retorno de circulação (em quem não obedece comandos: Glasgow motor < 6), e mais tarde ainda se houve controle de temperatura ou sedação residual. E nunca se baseia em um único achado — a abordagem é multimodal, combinando exame neurológico, eletroencefalograma, biomarcadores e neuroimagem. Evite a profecia autorrealizável: decisões de limitação baseadas em avaliação precoce produzem exatamente o desfecho que previram.

  • Exame clínico — ausência bilateral de reflexos pupilar e corneano, e status mioclônico precoce e generalizado, são sinais desfavoráveis quando persistentes.
  • Eletroencefalograma — padrões de surto-supressão, fundo suprimido e status epiléptico refratário têm valor prognóstico (após 24 h); reatividade e continuidade do fundo sugerem potencial de recuperação.
  • Potencial evocado somatossensitivo — ausência bilateral da onda N20 indica mau prognóstico.
  • Biomarcadores — enolase neurônio-específica seriada, quando disponível (valores > 60 ng/mL em 48–72 h e em ascensão são desfavoráveis). A AHA 2025 passou a citar a cadeia leve de neurofilamento; o ERC-ESICM 2025 ainda não recomenda seu uso, por falta de pontos de corte padronizados.
  • Neuroimagem — perda da diferenciação entre substância branca e cinzenta na tomografia e alterações difusas na ressonância.

O erro mais grave desta fase é prognosticar cedo demais. Pacientes com bom desfecho neurológico final frequentemente permanecem comatosos por vários dias — e a sedação, os opioides e a disfunção renal ou hepática prolongam esse quadro.

Calculadora — apoio à decisão de término

Conte os elementos presentes. A ferramenta organiza os fatores que favorecem prolongar e os que favorecem considerar o término, para apoiar uma decisão que continua sendo clínica, compartilhada e contextual.

Favorecem prolongar a reanimação

  • Parada presenciada com RCP iniciada precocemente por testemunha ou pela equipe.
  • Ritmo inicial chocável ou ritmo chocável recorrente durante a reanimação.
  • Causa reversível identificada e em tratamento — hipotermia, intoxicação, embolia pulmonar tratada ou hipercalemia.
  • Sinais de vida intermitentes — movimentos, respiração, retorno transitório de circulação ou capnografia em elevação.
  • Candidato a suporte extracorpóreo — paciente jovem, sem comorbidade limitante, em serviço com o recurso disponível.

Favorecem considerar o término

  • Parada não presenciada, sem RCP por testemunha e com tempo prolongado até o primeiro atendimento.
  • Assistolia persistente ao longo de toda a reanimação, sem qualquer ritmo organizado.
  • Capnografia persistentemente muito baixa (≤ 10 mmHg) após 20 minutos de reanimação de boa qualidade com via aérea avançada.
  • Ausência de causa reversível identificada apesar de investigação sistemática.
  • Doença terminal conhecida ou diretiva antecipada de vontade contrária à reanimação prolongada.
Leitura do conjunto de fatores

Fatores prognósticos • apoio, não substituto do julgamento clínico.

Nenhum fator marcado. Mantenha a reanimação de alta qualidade e reavalie o conjunto de fatores a cada checagem de ritmo.

Ferramenta de apoio à reflexão, não é um escore validado nem autoriza encerrar a reanimação. A decisão deve considerar o contexto completo, envolver a equipe, respeitar a vontade previamente expressa do paciente e, sempre que possível, ser comunicada com clareza à família. Hipotermia e intoxicação exigem reanimação prolongada antes de qualquer decisão.

Depois do evento

Terminada a reanimação, com ou sem retorno de circulação, ainda há trabalho clínico a fazer. A família precisa de informação clara, a equipe precisa de espaço para revisar o que aconteceu e cuidar de si, e o registro estruturado é o que permite aprender com cada evento. Para quem sobrevive, a recuperação continua muito além da alta.

  • Comunicação com a família — clara, sem jargão, em ambiente reservado e com tempo para perguntas.
  • Debriefing da equipe — as diretrizes de 2025 acrescentaram recomendações específicas sobre debriefing imediato e tardio após eventos de reanimação.
  • Registro estruturado — horários, ritmos, intervenções, tempo até o primeiro choque e desfecho; é o que permite auditoria e melhoria.
  • Saúde mental dos profissionais — reanimações malsucedidas, sobretudo de crianças e de pacientes jovens, têm impacto real e merecem suporte institucional.
  • Doação de órgãos — considerar e acionar o protocolo institucional quando aplicável.
  • Seguimento dos sobreviventes — reabilitação neurológica, cardiológica e psicológica, com avaliação estruturada de sofrimento emocional antes da alta e atenção também aos familiares.

Erros comuns na RCP e no choque

Os erros que mais custam vidas são os mais básicos: reconhecer tarde, comprimir mal e interromper demais. Cada pausa derruba a pressão de perfusão coronariana, que leva vários ciclos para se recuperar — por isso tudo o que puder ser feito em paralelo (acesso, via aérea, preparo de drogas) não deve parar as mãos sobre o tórax nem atrasar o choque.

  • Demorar a reconhecer a parada por interpretar o gasping como respiração.
  • Perder tempo checando pulso repetidamente em vez de comprimir.
  • Comprimir superficialmente ou sem permitir o retorno completo do tórax.
  • Comprimir sobre colchão macio, sem superfície firme.
  • Manter o mesmo compressor por muito mais de dois minutos.
  • Pausas longas para intubar, obter acesso ou discutir conduta.
  • Checar o pulso imediatamente após o choque em vez de retomar as compressões.
  • Atrasar a desfibrilação em ritmo chocável enquanto se prepara medicação.
  • Hiperventilar o paciente, reduzindo o retorno venoso.

Erros comuns com drogas, causas e pós-retorno

Depois do básico, os erros se deslocam para o pensamento: drogas dadas por hábito ou adiadas quando importam, causas reversíveis recitadas mas não investigadas, e decisões de término ou de prognóstico tomadas cedo demais — justamente nos cenários (hipotermia, intoxicação, primeiras 72 horas) em que a pressa é mais perigosa.

  • Adiar a adrenalina em ritmo não chocável.
  • Usar bicarbonato, cálcio ou magnésio de rotina, sem indicação específica.
  • Recitar os cinco H e cinco T sem de fato investigar nenhuma das causas.
  • Prolongar o ultrassom e transformar a pausa de checagem em interrupção longa.
  • Encerrar precocemente a reanimação em hipotermia ou intoxicação.
  • Manter FiO₂ de 100% por horas depois do retorno de circulação.
  • Prognosticar desfecho neurológico nas primeiras 24 a 48 horas.

Referências bibliográficas

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Aviso importante

Ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. Doses, diluições e velocidades de infusão devem ser conferidas antes da administração. Este artigo não substitui o treinamento formal em suporte avançado de vida. Doses, energias e condutas devem ser sempre conferidas antes da aplicação; em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais e as bulas vigentes.

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