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Tamponamento Cardíaco

Choque obstrutivo por compressão pericárdica • reconhecimento, eco à beira do leito e drenagem

É choque obstrutivo por compressão do coração. O que determina a gravidade não é o volume do derrame, e sim a velocidade com que ele se acumula: 150 a 300 mL de sangue em minutos matam, enquanto 1 a 2 L acumulados em semanas podem ser quase silenciosos. O diagnóstico é clínico, confirmado pelo ecocardiograma — e o tratamento é esvaziar o pericárdio.

Choque obstrutivoPulso paradoxal > 10 mmHgPOCUS à beira do leitoDrenagem é o tratamento
18 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Tamponamento é a compressão do coração por líquido, sangue, coágulos, pus ou gás no saco pericárdico, com queda do enchimento diastólico e do débito — um choque obstrutivo.
  2. A velocidade de acúmulo importa mais que o volume: 150–300 mL agudos tamponam; 1–2 L crônicos podem ser tolerados.
  3. O diagnóstico é clínico (hipotensão + jugular alta + pulmões limpos) e o eco confirma à beira do leito.
  4. O tratamento é esvaziar o pericárdio: retirar 30 a 50 mL já pode reverter a hemodinâmica.

O que é tamponamento cardíaco

Tamponamento cardíaco é a compressão do coração pelo acúmulo de líquido, sangue, coágulos, pus ou gás dentro do saco pericárdico, com aumento da pressão intrapericárdica, restrição ao enchimento diastólico e queda do débito cardíaco. É uma forma de choque obstrutivo e, sem drenagem, evolui de forma previsível para a morte.

Não é um evento com um único ponto de corte: existe um espectro hemodinâmico que vai do tamponamento incipiente ou pré-clínico — em que a pressão pericárdica já iguala a pressão do átrio direito, mas ainda é inferior à do átrio esquerdo — até o choque franco, com queda do volume sistólico, hipotensão e pulso paradoxal evidente. A diretriz ESC 2025 reforça essa visão dinâmica: o que define o quadro é a velocidade de acúmulo, não o volume absoluto.

O diagnóstico é clínico; o ecocardiograma confirma. Um paciente com hipotensão inexplicada, jugulares distendidas e ausculta pulmonar limpa tem tamponamento até prova em contrário — e a prova se faz com o transdutor na mão, não com a solicitação de um exame para depois.

A curva em J do pericárdio

O pericárdio normal é pouco distensível e comporta apenas cerca de 15 a 50 mL de líquido fisiológico. Sua curva pressão-volume tem formato em J: um trecho inicial curto e complacente, que absorve variações fisiológicas com pouco aumento de pressão, seguido de uma porção quase vertical.

Acúmulo rápido

100 a 300 mL de sangue, como em perfuração iatrogênica ou trauma, elevam a pressão pericárdica a 20 a 30 mmHg em minutos. É o tamponamento "cirúrgico".

Acúmulo lento

O pericárdio se estira ao longo de semanas e acomoda 1 a 2 L antes de descompensar. É o tamponamento "clínico", de neoplasias e uremia.

Fenômeno da última gota

Na porção vertical da curva, um incremento mínimo de volume produz colapso hemodinâmico. Isso explica a deterioração súbita de um paciente que estava apenas "taquicárdico".

Interdependência ventricular

Com o volume cardíaco total fixado pelo líquido pericárdico, as câmaras passam a competir pelo mesmo espaço. Qualquer aumento de volume de um lado obriga a redução do outro.

  • Na inspiração, o retorno venoso ao ventrículo direito aumenta; o septo se desloca para a esquerda e reduz o enchimento do ventrículo esquerdo.
  • O volume sistólico esquerdo cai, e com ele a pressão arterial sistólica — é a base do pulso paradoxal.
  • As pressões diastólicas se equalizam entre as câmaras, tipicamente entre 15 e 30 mmHg.
  • O débito é mantido às custas de taquicardia e vasoconstrição adrenérgica — mecanismos que se esgotam.
Por que a pré-carga importa

Enquanto a pressão de enchimento superar a pressão pericárdica, ainda há diástole. Por isso o paciente hipovolêmico descompensa mais cedo, e por isso um volume pequeno pode ganhar tempo — mas apenas tempo.

O que define a gravidade

Três variáveis principais — e duas modificadoras — explicam por que dois pacientes com o mesmo volume de derrame podem ter apresentações opostas.

Velocidade

É a variável dominante. Minutos versus semanas mudam completamente o quadro.

Complacência

Pericárdio fibrosado ou irradiado descompensa com volumes menores.

Volemia

Hipovolemia antecipa o colapso e mascara a turgência jugular.

Pressões basais

Hipertrofia e hipertensão pulmonar retardam o colapso das câmaras direitas.

Ventilação

Pressão positiva reduz ainda mais o retorno venoso e o débito.

As três perguntas da beira do leito

  1. É tamponamento?

    Hipotensão ou choque, com pressão venosa central elevada e ausculta pulmonar limpa, é a combinação que obriga a colocar o transdutor no tórax. Some a isso taquicardia, dispneia e pulso paradoxal.

  2. Precisa drenar agora?

    Choque hemodinâmico ou peri-parada significa pericardiocentese imediata. Paciente estável permite planejar o procedimento em 12 a 24 horas, com exames e equipe adequados.

  3. Punção ou cirurgia?

    Dissecção de aorta tipo A, ruptura de parede livre pós-infarto, trauma torácico grave, derrame purulento e derrames loculados são indicações de drenagem cirúrgica.

Retirar apenas 30 a 50 mL já pode reverter a hemodinâmica. A curva em J funciona nos dois sentidos: assim como a última gota descompensa, a primeira alíquota drenada devolve diástole.

Em 30 segundos

O essencial de causas

  1. As causas mais frequentes de tamponamento (ESC 2025) são neoplasia, iatrogenia/trauma, pericardite e tuberculose — esta a principal em regiões endêmicas.
  2. Procedimentos cardiovasculares são hoje grande fonte de tamponamento hospitalar: derrame pequeno, quadro hiperagudo.
  3. Anticoagulante, diurético, desidratação e sepse transformam um derrame estável em tamponamento.
  4. Toda punção é também diagnóstica: envie o líquido para bioquímica, células, citologia e microbiologia.

Etiologias por risco de tamponar

Nem todo derrame pericárdico evolui para tamponamento. Reconhecer a etiologia orienta a urgência da drenagem e a investigação do líquido.

GrupoCausasObservação
Alta probabilidade de tamponarNeoplasias, infecções (especialmente tuberculose; também virais e bacterianas), hemopericárdio iatrogênico, derrame pós-traumático, síndrome pós-pericardiotomia, hemopericárdio da dissecção de aorta e da ruptura cardíaca pós-infarto, insuficiência renal.São as etiologias que justificam vigilância estreita e limiar baixo para drenagem.
Raramente tamponamDoenças autoimunes sistêmicas, derrames autorreativos, hipotireoidismo e hipertireoidismo, pericardite precoce e tardia do infarto (síndrome de Dressler), pericardite do colesterol, quilopericárdio.Costumam responder ao tratamento da doença de base e ao anti-inflamatório.
Praticamente nunca tamponamTransudatos da insuficiência cardíaca e da hipertensão pulmonar; derrame fisiológico do último trimestre da gestação.Achado incidental frequente — tratar a doença de base, não puncionar.
Fatores precipitantesAnticoagulantes e trombolíticos, anti-hipertensivos, desidratação e diuréticos (reduzem a volemia), septicemia, trauma torácico fechado, dispositivos intracavitários de longa permanência.Transformam um derrame estável em tamponamento — revisar sempre a prescrição.
Frequência relativa (ESC 2025)

Comuns: neoplasia, iatrogenia/trauma, pericardite e tuberculose (a mais comum em países em desenvolvimento). Menos comuns: colagenoses (lúpus, artrite reumatoide, esclerodermia), síndrome de lesão pericárdica, infarto agudo, dissecção de aorta, uremia, infecção bacteriana e pneumopericárdio. Na pericardite viral ou idiopática o tamponamento é raro (1–2%); nas etiologias não idiopáticas chega a cerca de 20%.

Diurético em paciente com derrame volumoso é um erro clássico: a "congestão" que ele apresenta é obstrutiva, não volêmica. Reduzir a pré-carga nesse cenário pode precipitar o colapso.

Causas iatrogênicas em ascensão

Procedimentos cardiovasculares são hoje uma das causas mais frequentes de tamponamento em ambiente hospitalar. Nesses casos o quadro é hiperagudo, com derrame pequeno e deterioração em minutos.

Intervenção coronária

Perfuração de coronária por fio-guia, balão ou aterectomia. Suspeitar de hipotensão súbita ainda na sala de hemodinâmica.

Marca-passo e CDI

Perfuração pelo eletrodo, às vezes tardia. Dor torácica, soluço ou estimulação diafragmática após o implante são sinais de alerta.

Ablação de arritmias

Complicação bem descrita da ablação por radiofrequência; exige diagnóstico e punção de resgate imediatos.

TAVI e estruturais

Perfuração por fio ou por dispositivo durante procedimentos valvares percutâneos.

Biópsia endomiocárdica

Perfuração de parede livre, especialmente do ventrículo direito.

Pós-operatório cardíaco

Sangramento e coágulos organizados; derrames loculados e localizados são a regra, e o eco transtorácico pode ser insuficiente.

Hipotensão súbita durante ou logo após qualquer procedimento cardiovascular invasivo é tamponamento até que o eco prove o contrário. Aqui o derrame costuma ser pequeno e o tempo, curtíssimo.

Investigação etiológica

A drenagem tem finalidade terapêutica e também diagnóstica. Sempre que houver punção, encaminhe o líquido para análise — a oportunidade não se repete com facilidade. Dose a PCR antes da punção: ela pode subir após o procedimento e confundir a leitura de inflamação (ESC 2025).

  • Bioquímica — proteínas, desidrogenase láctica, glicose e adenosina desaminase (ADA). Atualização: a ESC 2025 desaconselha aplicar os critérios de Light ao líquido pericárdico — ele é naturalmente rico em proteínas, albumina e DHL, e a regra classifica erroneamente muitos transudatos como exsudatos.
  • Celularidade — contagem total e diferencial de células; predomínio de neutrófilos aponta para causa bacteriana, e de linfócitos, para tuberculose ou neoplasia.
  • Citologia oncótica — obrigatória sempre que houver neoplasia conhecida ou suspeita; volumes maiores aumentam o rendimento.
  • Microbiologia — Gram, cultura para germes comuns, pesquisa de bacilos álcool-ácido resistentes, cultura para micobactérias e teste molecular rápido quando disponível.
  • Hematócrito do líquido — ajuda a diferenciar hemopericárdio verdadeiro de punção acidental de câmara cardíaca.
  • Investigação sistêmica — função renal, função tireoidiana, marcadores inflamatórios, sorologias e autoanticorpos conforme o contexto. Derrame sem elevação de PCR aumenta a chance de neoplasia; em derrame volumoso que piora sem inflamação, pesquise câncer com tomografia.
  • Biópsia pericárdica — considerar quando a drenagem for cirúrgica ou quando a etiologia permanecer indefinida em derrame recidivante.

A maioria dos derrames não revela a causa na análise do líquido. Ainda assim, a análise é obrigatória quando se suspeita de etiologia bacteriana, tuberculosa ou neoplásica — são justamente as que mudam a conduta.

Em 30 segundos

O essencial de quadro clínico

  1. No agudo predominam hipotensão e colapso; no subagudo, semanas de dispneia progressiva, muitas vezes rotuladas como insuficiência cardíaca.
  2. Taquicardia quase sempre presente; pulso paradoxal é o achado de exame mais útil (sensibilidade 75–98%).
  3. Hipotensão + pressão venosa alta + pulmões limpos: tamponamento, IAM de VD, TEP maciço ou pneumotórax hipertensivo — o POCUS separa em minutos.
  4. Tamponamento de baixa pressão: jugulares planas e pulso paradoxal ausente no hipovolêmico.

Sintomas e sinais

A apresentação varia com a velocidade de acúmulo. No tamponamento agudo predominam hipotensão e colapso; no subagudo, o paciente chega com semanas de dispneia progressiva e é frequentemente rotulado como insuficiência cardíaca descompensada. Na forma aguda a PAS costuma ficar abaixo de 90 mmHg; na subaguda/crônica, a queda pode ser discreta.

Sintomas

  • Dispneia aos esforços, progredindo para ortopneia — o mais constante.
  • Dor ou opressão torácica, muitas vezes com componente pericardítico.
  • Tosse, fraqueza, fadiga, anorexia e palpitações.
  • Sintomas compressivos: náusea (diafragma), disfagia (esôfago), rouquidão (nervo laríngeo recorrente) e soluços (nervo frênico).
  • Oligúria, confusão e agitação, refletindo hipoperfusão.

Sinais

  • Taquicardia — quase sempre presente; pode faltar no hipotireoidismo e na uremia.
  • Turgência jugular com pressão venosa elevada e descenso "y" ausente.
  • Hipofonese de bulhas.
  • Pulso paradoxal maior que 10 mmHg.
  • Hipotensão, pressão de pulso estreita, extremidades frias.
  • Sinal de Kussmaul — mais típico da pericardite constritiva, mas descrito no tamponamento.
  • Atrito pericárdico é raro e não afasta o diagnóstico.

A tríade de Beck — hipotensão, turgência jugular e hipofonese de bulhas — foi descrita no tamponamento cirúrgico agudo. Em séries de pacientes com derrame pericárdico, a tríade completa é incomum. Exigi-la para pensar no diagnóstico é o erro mais frequente.

Pulso paradoxal — como medir de verdade

É o achado de exame físico mais útil, com sensibilidade relatada entre 75% e 98%. "Paradoxal" refere-se ao contraste entre o pulso periférico que some e o ictus que continua palpável — não a algo verdadeiramente paradoxal na fisiologia.

  1. Posição

    Coloque o paciente em decúbito semi-sentado, respirando tranquilamente. Não peça inspiração profunda: isso superestima o valor.

  2. Insuflar

    Insufle o manguito cerca de 20 mmHg acima da pressão sistólica.

  3. 1ª medida

    Desinsufle lentamente até ouvir o primeiro som de Korotkoff apenas durante a expiração. Anote esse valor.

  4. 2ª medida

    Continue desinsuflando até que os sons sejam audíveis em todo o ciclo respiratório. Anote esse segundo valor.

  5. Diferença

    A diferença entre as duas medidas é o pulso paradoxal. Acima de 10 mmHg é anormal.

  6. Linha arterial

    Com linha arterial, meça diretamente na curva a maior e a menor sistólica ao longo de um ciclo respiratório completo.

Falso-negativo (tamponamento sem pulso paradoxal)

  • Hipotensão grave — não há pressão para gerar diferença de 10 mmHg.
  • Disfunção ventricular esquerda com pressões de enchimento muito elevadas.
  • Insuficiência aórtica importante.
  • Comunicação interatrial ampla.
  • Hipertrofia ou infarto de ventrículo direito.
  • Ventilação mecânica, sobretudo com volume corrente baixo.
  • Tamponamento de baixa pressão (hipovolêmico).

Falso-positivo (sem tamponamento)

  • Asma grave e doença pulmonar obstrutiva em exacerbação.
  • Tromboembolismo pulmonar maciço.
  • Choque hipovolêmico e hemorrágico.
  • Obesidade importante e grandes esforços respiratórios.
  • Pericardite constritiva, em parte dos casos.

A curva de pletismografia do oxímetro reproduz a variação respiratória e é um bom rastreador visual à beira do leito — útil enquanto se prepara o manguito ou a linha arterial. A calculadora está na aba Calculadoras.

Apresentações que enganam

Tamponamento de baixa pressão

Paciente hipovolêmico (desidratado, em diálise, sangrando). A pressão venosa não sobe, as jugulares estão planas e o pulso paradoxal pode faltar. Só o eco revela o quadro — e a expansão volêmica desmascara os sinais.

Tamponamento febril

Confundido com choque séptico. Diante de febre, hipotensão e taquicardia que não respondem a volume, faça o eco antes de escalonar vasopressor.

Rotulado como insuficiência cardíaca

Dispneia progressiva, jugulares distendidas, edema e cardiomegalia radiológica em quem recebe diurético e piora. Pulmões limpos na ausculta e no ultrassom pulmonar são a pista.

Confundido com constrição

Pericardite constritiva e forma efuso-constritiva compartilham sinais. A suspeita nasce quando a pressão atrial não normaliza após a drenagem.

Atribuído a hepatopatia

Ascite, edema e turgência jugular em cirrótico podem mascarar derrame volumoso de evolução lenta.

Trauma sem sinais clássicos

No politraumatizado hipovolêmico, a jugular não se distende. Ferimento penetrante medial aos mamilos ou às escápulas obriga a janela pericárdica ecográfica no FAST.

Diagnóstico diferencial

CondiçãoComo diferenciarConduta
Pericardite constritiva
Como diferenciarHistória arrastada, pericárdio espessado ou calcificado, "septal bounce", sinal de Kussmaul proeminente e ausência de derrame significativo.
CondutaImagem dedicada com tomografia ou ressonância; anti-inflamatório se houver inflamação ativa (ESC 2025) e pericardiectomia nos casos crônicos.
Como diferenciarHipotensão com jugulares distendidas e pulmões limpos — mesma combinação. Supradesnivelamento inferior e em derivações direitas (V4R) e ausência de derrame ao eco.
CondutaVolume e reperfusão; evitar nitrato e diurético.
Tromboembolismo pulmonar maciço
Como diferenciarChoque obstrutivo com ventrículo direito dilatado e hipocinético, sem derrame pericárdico significativo.
CondutaAnticoagulação e considerar trombólise; a conduta é oposta à da punção.
Como diferenciarAssimetria de murmúrio, timpanismo, desvio de traqueia. Ultrassom sem deslizamento pleural.
CondutaDescompressão torácica imediata — não perca tempo com imagem adicional.
Como diferenciarDor de início súbito e migratória, assimetria de pulsos, insuficiência aórtica nova. Pode causar tamponamento por hemopericárdio.
CondutaÉ indicação cirúrgica; a punção ampla é contraindicada e pode agravar a dissecção.
Insuficiência cardíaca direita
Como diferenciarCurso crônico, hepatomegalia, edema, sem pulso paradoxal e sem colapso de câmaras ao eco.
CondutaTratamento da doença de base; aqui o diurético é apropriado.
Miocardiopatia restritiva
Como diferenciarPadrão restritivo sem derrame, com alterações de Doppler tecidual características.
CondutaInvestigação de amiloidose e demais causas infiltrativas.

A combinação hipotensão + pressão venosa alta + pulmões limpos reduz o diferencial a poucas entidades: tamponamento, infarto de ventrículo direito, tromboembolismo pulmonar maciço e pneumotórax hipertensivo. O ultrassom à beira do leito separa as quatro em minutos.

Mesmo quadro clínico, ECGs diferentes

Hipotensão com jugular alta e pulmões limpos: compare o ECG do derrame volumoso com o do infarto de ventrículo direito. No TEP maciço e no pneumotórax o ECG costuma mostrar apenas taquicardia sinusal (com ou sem sobrecarga de VD) — o POCUS é que decide.

Tamponamento

Derrame volumoso com coração pendular: complexos pequenos que mudam de amplitude a cada batimento.

  • Taquicardia sinusal (~118 bpm)
  • Baixa voltagem do QRS em todas as derivações
  • Alternância elétrica: QRS alto e baixo intercalados, batimento a batimento
  • Sem supradesnivelamento regional de ST

Traçados esquemáticos gerados por computador (25 mm/s, 10 mm/mV) para estudo e comparação. Confirme sempre no ECG de 12 derivações do paciente.

Em 30 segundos

O essencial de diagnóstico

  1. Eco sem atraso, de preferência à beira do leito: confirma o derrame, avalia repercussão e define a via de punção.
  2. Colapso de AD por mais de 1/3 do ciclo é o sinal mais precoce; colapso diastólico de VD, o mais específico; VCI pletórica, o mais sensível.
  3. ECG: taquicardia sinusal, baixa voltagem e alternância elétrica — mas pode ser normal. Radiografia normal no agudo.
  4. Instável não vai à tomografia: nenhum exame justifica atrasar a drenagem.

Ecocardiograma — o exame de escolha

O ecocardiograma deve ser realizado sem atraso diante de suspeita clínica. Ele identifica o derrame, estima o volume, avalia a repercussão hemodinâmica e define a melhor via de punção. Nenhum achado isolado faz o diagnóstico: a leitura é sempre integrada ao quadro clínico.

AchadoComo avaliarInterpretação
Tamanho do derrameSeparação diastólica dos folhetos: pequeno abaixo de 10 mm, moderado de 10 a 20 mm, volumoso acima de 20 mm.Correlaciona-se mal com a repercussão — pequeno derrame agudo tampona.
Colapso do átrio direitoInvaginação da parede atrial na sístole ventricular (fim da diástole); significativo quando dura mais de um terço do ciclo cardíaco (razão > 0,34).Sinal mais precoce; muito sensível. Com duração > 1/3 do ciclo, sensibilidade > 90% e especificidade próxima de 100% (ESC 2025).
Colapso do ventrículo direitoInvaginação da parede livre na diástole. Modo M no eixo longo paraesternal, cruzando a parede livre do VD e a valva mitral.Mais específico; indica pressão pericárdica superior à do VD.
Pletora de veia cava inferiorDiâmetro acima de 20 mm (ACC 2025: > 21 mm) com redução inferior a 50% na inspiração; veias hepáticas dilatadas.Alta sensibilidade (~97%), baixa especificidade (~40%). Rastreia, mas não confirma; sua ausência torna o tamponamento improvável em respiração espontânea.
Variação respiratória do fluxoDoppler pulsado nas pontas das cúspides: variação da onda E mitral acima de 25–30% e tricúspide acima de 40–60% (ESC 2025; o ACC 2025 usa > 30% e > 60%).Equivalente ecocardiográfico do pulso paradoxal.
Coração pendularOscilação do coração dentro do saco pericárdico.Derrame volumoso; explica a alternância elétrica no eletrocardiograma.
Movimento septal anômaloDeslocamento do septo para a esquerda na inspiração.Expressão da interdependência ventricular.

Cortes revisados conforme a Tabela 17 da diretriz ESC 2025 de miocardite e pericardite e o consenso ACC 2025 de pericardite.

Diante de forte suspeita clínica, um eco "sem sinais clássicos" não exclui tamponamento. Derrames loculados, pós-operatórios e coágulos organizados comprimem câmaras específicas e escapam ao exame transtorácico — nesses casos, considere o eco transesofágico ou a tomografia.

Ultrassom à beira do leito (POCUS)

Na emergência, o próprio médico assistente faz o diagnóstico. Uma sequência objetiva resolve a maior parte dos casos.

  1. Subxifoide

    Janela subxifoide — confirma o derrame e é a primeira do protocolo FAST no trauma.

  2. Paraesternal eixo longo

    Confirma se o derrame é circunferencial e diferencia de derrame pleural, que passa por trás da aorta descendente.

  3. Modo M

    No paraesternal, cruzando parede livre do VD e valva mitral — documenta o colapso diastólico do ventrículo direito.

  4. Apical 4 câmaras

    Colapso atrial e Doppler pulsado do fluxo mitral e tricúspide.

  5. Veia cava inferior

    Pletora sem variação respiratória.

  6. Pulmão

    Ultrassom pulmonar — pulmões secos reforçam a origem obstrutiva do choque.

  7. Escolher a janela

    Escolha a janela com maior lâmina de líquido e menor distância à pele: é ela que definirá a via de punção.

Cuidado com os simuladores de derrame: gordura epicárdica (ecogênica, anterior, acompanha o coração), derrame pleural esquerdo, cisto pericárdico e ascite. A regra do eixo longo paraesternal em relação à aorta descendente resolve a dúvida entre pericárdico e pleural.

Eletrocardiograma e radiografia

Eletrocardiograma

  • Taquicardia sinusal — o achado mais comum, e o menos específico.
  • Baixa voltagem do QRS — efeito de amortecimento do líquido.
  • Alternância elétrica — variação batimento a batimento da amplitude do QRS pelo coração pendular. É específica, mas pouco sensível.
  • Alterações de pericardite associada: supradesnivelamento difuso do segmento ST com infradesnivelamento de PR.
  • Pode ser normal — eletrocardiograma normal não afasta tamponamento.

Radiografia de tórax

  • Cardiomegalia com silhueta em moringa ou garrafa d’água.
  • Campos pulmonares limpos, sem congestão — dissociação sugestiva.
  • Exige pelo menos 200 a 250 mL para alterar a silhueta: no tamponamento agudo a radiografia costuma ser normal.
  • Pode revelar alargamento do mediastino, sinais de trauma torácico ou massa pulmonar.
O ECG do derrame volumoso e do tamponamento

Variações que você vai encontrar na prática — do achado mais comum (e menos específico) ao mais específico.

Taquicardia sinusal

O achado mais frequente: é o mecanismo compensatório que sustenta o débito. Sua ausência deve levantar hipotireoidismo, uremia ou betabloqueio.

  • Onda P positiva antes de cada QRS em DII
  • FC ≈ 125 bpm, ritmo regular
  • QRS estreito de amplitude normal

Traçados esquemáticos gerados por computador (25 mm/s, 10 mm/mV) para estudo e comparação. No tamponamento real, a alternância elétrica costuma desaparecer logo após a drenagem — confirme sempre no ECG de 12 derivações do paciente.

A dupla alternância elétrica com baixa voltagem em paciente dispneico é altamente sugestiva de derrame volumoso — mas a decisão nunca deve esperar por ela.

Quando ampliar a imagem

Eco transesofágico

Derrame loculado, janela transtorácica ruim, pós-operatório de cirurgia cardíaca com suspeita de coágulo organizado comprimindo câmara isolada.

Tomografia

Avaliação de mediastino e pulmões, suspeita de dissecção de aorta, neoplasia, derrames complexos e planejamento cirúrgico; também pode guiar a punção. Não avalia hemodinâmica.

Ressonância cardíaca

Caracterização do pericárdio, espessamento, realce tardio e diferenciação com constrição. Não é exame de urgência.

Cateterismo

Raramente necessário. Mostra equalização das pressões diastólicas e reciprocidade respiratória entre câmaras direitas e esquerdas.

O que dizem as recomendações atuais (ACC 2025)

Eco transtorácico para identificar derrame e avaliar tamponamento: recomendado. TC/RM de rotina para avaliar tamponamento: não recomendado. Eco transesofágico ou TC para confirmar tamponamento focal quando a suspeita é alta e o transtorácico é inconclusivo: recomendado.

Nenhum exame adicional justifica atrasar a drenagem em paciente instável. Tomografia em paciente com choque por tamponamento é um erro que custa vidas.

Ferramentas de apoio à beira do leito. Nenhuma delas se aplica ao paciente em choque ou peri-parada: nesse cenário a drenagem é imediata.

Calculadora — pulso paradoxal

Obtenha as duas pressões sistólicas. Com manguito: a primeira é aquela em que o som de Korotkoff aparece apenas na expiração; a segunda é aquela em que ele passa a ser audível em todo o ciclo respiratório. Com linha arterial: use a maior e a menor sistólica de um ciclo respiratório completo. A diferença entre elas é o pulso paradoxal; a queda percentual é (diferença ÷ sistólica maior) × 100 — ex.: 118 e 100 mmHg → 18 mmHg (15,3%).

Interpretação do pulso paradoxal

Selecione a diferença entre a sistólica maior (som só na expiração) e a menor (som em todo o ciclo). Corte de 10 mmHg.

Informe a diferença das sistólicas. O valor normal é inferior a 10 mmHg.

Meça com o paciente respirando tranquilamente: inspiração profunda superestima o resultado.

Lembre-se de que o pulso paradoxal pode ser falsamente normal na hipotensão grave, na disfunção ventricular esquerda, na insuficiência aórtica importante, na comunicação interatrial ampla e sob ventilação mecânica — e falsamente elevado na asma grave, na doença pulmonar obstrutiva descompensada, no tromboembolismo maciço e no choque hipovolêmico.

Critérios para pericardiocentese urgente

Conjunto de critérios clínicos e ecocardiográficos proposto como atalho ao escore de triagem do Grupo de Trabalho de Doenças do Miocárdio e do Pericárdio da Sociedade Europeia de Cardiologia, especialmente em regiões de tuberculose endêmica. Quando todos os critérios são preenchidos, indica-se pericardiocentese urgente na ausência de contraindicações.

EtapaCritérioDetalhe
1. Clínicos (os 4)Frequência cardíaca acima de 90 bpmTaquicardia compensatória.
PAS abaixo de 100 mmHgPode ser relativa em hipertensos prévios.
Pulso paradoxal presenteQueda inspiratória da sistólica acima de 10 mmHg.
Pressão venosa jugular acima de 4 cmAcima do ângulo esternal.
2. Eco (obrigatório)Derrame circunferencial maior que 1 cmAnterior ao ventrículo direito, na janela subcostal.
3. Repercussão (≥ 1)Coração pendularOscilação do coração dentro do saco pericárdico.
Colapso diastólico de VD ou VE—
Variação > 25% dos fluxos mitral e tricúspideCom a respiração.
Conjunto de critérios

Marque quantos critérios de cada etapa estão presentes.

Selecione as três etapas para ver a leitura.

Ferramenta de apoio ao registro, não substitui julgamento clínico.

Diante de choque hemodinâmico ou peri-parada, a pericardiocentese é imediata e nenhuma pontuação deve ser calculada antes. Da mesma forma, dissecção de aorta tipo A, ruptura de parede livre pós-infarto, trauma torácico grave, derrame purulento em séptico instável e derrames loculados vão direto para a drenagem cirúrgica, independentemente dos critérios.

Checklist — segurança e via de drenagem

Antes de puncionar, percorra a lista. Ela separa o que precisa ser corrigido antes, o que muda a via para cirurgia e o que só pode ser ignorado diante de risco iminente de morte.

Indicações de drenagem cirúrgica

Independentemente de qualquer escore.

  • Dissecção de aorta tipo A com hemopericárdio.
  • Ruptura de parede livre após infarto agudo do miocárdio.
  • Trauma torácico grave recente ou hemopericárdio iatrogênico com sangramento não controlável por via percutânea.
  • Derrame purulento (sobretudo em séptico instável).
  • Derrame loculado ou coágulo organizado que não pode ser alcançado por agulha ou cateter.

Contraindicações relativas

Corrigir antes, se o paciente permitir esperar.

  • Coagulopatia não corrigida.
  • Anticoagulação em curso ou INR acima de 1,5.
  • Plaquetas abaixo de 50.000/mm³.
  • Derrame pequeno, posterior ou loculado — punção de baixo rendimento e alto risco.
  • Derrame em resolução sob tratamento anti-inflamatório.
Leitura do checklist

Responda às três perguntas.

Responda às perguntas para ver a via sugerida.

Quando a cirurgia não estiver prontamente disponível ou o paciente estiver instável demais para o transporte, na dissecção de aorta e na ruptura de parede livre pode-se tentar a drenagem controlada de volumes muito pequenos, apenas o suficiente para manter a sistólica em torno de 90 mmHg, como ponte para a cirurgia de emergência.

Escore de triagem em três etapas (ESC)

O Grupo de Trabalho de Doenças do Miocárdio e do Pericárdio da ESC propôs, em 2014, um escore em três etapas para decidir o momento da drenagem nos pacientes com tamponamento sem choque. Ele soma pontos de etiologia, apresentação clínica e imagem. Atualização: a diretriz ESC 2025 de miocardite e pericardite reproduz o escore com os pesos de cada item (Figura 12), apresentados abaixo.

EtapaItemPontos
1. EtiologiaDoença maligna2
Tuberculose2
Radioterapia recente1
Infecção viral recente1
Derrame pericárdico recorrente1
Insuficiência renal crônica terminal1
Imunossupressão1
Hipo ou hipertireoidismo−1
Doença autoimune sistêmica−1
2. Apresentação clínicaDispneia/taquipneia1
Ortopneia3
Hipotensão (PAS < 95 mmHg)0,5
Taquicardia sinusal progressiva1
Oligúria1
Pulso paradoxal > 10 mmHg2
Dor torácica pericárdica0,5
Atrito pericárdico0,5
Piora rápida dos sintomas2
Evolução lenta da doença−1
3. Imagem (pontuada durante o eco)Cardiomegalia na radiografia1
Alternância elétrica no ECG0,5
Microvoltagem no ECG1
Derrame circunferencial volumoso (> 20 mm)3
Derrame moderado (10–20 mm)1
Derrame pequeno (< 10 mm)−1
Colapso de átrio direito1
VCI dilatada, não colapsável1,5
Colapso de ventrículo direito1,5
Colapso de átrio esquerdo2
Variação respiratória dos fluxos mitral/tricúspide1
Coração pendular1

Racional das etapas: (1) causas associadas a derrames volumosos e maior risco de progressão para choque; (2) paciente muito sintomático e com sinais físicos completos tem maior risco de deterioração; (3) sinais de derrame volumoso e em piora justificam ação imediata.

Interpretação do escore

Some os pontos da tabela e selecione a faixa.

Selecione a situação e a faixa de pontos.

Este escore é baseado em consenso de especialistas e ainda carece de validação prospectiva robusta. Em estudo observacional posterior, a pontuação não se associou a diferenças em complicações ou mortalidade de curto prazo, que dependeram mais da progressão da doença de base. Use-o como apoio à organização do cuidado, não como substituto do julgamento clínico.

Os pesos acima seguem a figura do documento de posicionamento original (Ristić e colaboradores, European Heart Journal, 2014), reproduzida na Figura 12 da diretriz ESC 2025. Como algumas reproduções publicadas trazem pesos diferentes, confira a fonte original antes de usar o escore de forma quantitativa.

Em 30 segundos

O essencial de tratamento

  1. O tratamento é mecânico: retirar o líquido. Volume, inotrópico e vasopressor só compram minutos.
  2. Choque ou peri-parada: pericardiocentese imediata, no local; estável: em 12–24 h, guiada por eco.
  3. Nada de diurético, nitrato, vasodilatador ou betabloqueador; evitar ventilação com pressão positiva — drene antes de intubar.
  4. ESC 2025: esvaziamento inicial em geral abaixo de 500 mL, dreno até débito < 30 mL/dia; no trauma em PCR, toracotomia de reanimação (ERC 2025).

Sequência de abordagem

O tratamento do tamponamento é mecânico: retirar o líquido. Tudo o mais é medida de suporte, com efeito modesto e transitório, e nunca deve retardar a drenagem.

  1. Reconhecer

    Reconheça o choque obstrutivo: hipotensão, pressão venosa elevada e ausculta pulmonar limpa.

  2. Eco já

    Faça o ecocardiograma imediatamente, de preferência à beira do leito, sem transportar paciente instável.

  3. Preparar

    Garanta dois acessos venosos calibrosos, monitorização contínua, oxigênio para manter saturação acima de 92% e material de reanimação disponível.

  4. Volume se hipovolêmico

    Se houver hipovolemia, infunda 250 a 500 mL de cristaloide e reavalie — volumes maiores podem piorar a hemodinâmica.

  5. Não reduzir a pré-carga

    NÃO administre diurético, nitrato ou qualquer vasodilatador: reduzir a pré-carga nesse contexto pode ser fatal.

  6. Via aérea

    Evite ventilação com pressão positiva sempre que possível; se for indispensável, use volumes correntes baixos e prepare-se para hipotensão à indução.

  7. Definir a via

    Acione a equipe capacitada e defina a via: pericardiocentese guiada por ecocardiograma ou drenagem cirúrgica.

  8. Choque = agora

    Em choque ou peri-parada por tamponamento, a pericardiocentese é IMEDIATA e feita no local, como intervenção salvadora.

  9. Drenar com dreno

    Evite retirar grande volume de uma vez (ESC 2025: em geral menos de 500 mL; nunca mais de 1 L), complete o esvaziamento pelo cateter de drenagem prolongada e envie o líquido para análise.

  10. Reavaliar

    Reavalie o ecocardiograma após o procedimento e monitorize por descompensação pós-drenagem.

Na parada cardíaca por tamponamento, a compressão torácica externa tem valor limitado ou nulo: não há espaço para enchimento adicional. A conduta que altera o desfecho é o esvaziamento do pericárdio — pericardiocentese ou toracotomia de reanimação, conforme o contexto e a equipe disponível.

PCR por tamponamento: AESP
PCR por tamponamento: AESP

O ritmo típico da parada por tamponamento é a atividade elétrica sem pulso (AESP): atividade organizada no monitor, sem pulso palpável. No início pode haver taquicardia de QRS estreito com pulso fraco; com a hipoperfusão miocárdica, o ritmo se alarga e se lentifica, como neste traçado. O POCUS durante a checagem de pulso mostra o derrame e o coração que não se enche.

  • Ritmo organizado, regular e lento (~38 bpm)
  • QRS largo, sem ondas P visíveis
  • Ausência de pulso apesar da atividade elétrica — confirme com POCUS (derrame + câmaras colapsadas)

Traçados esquemáticos gerados por computador (25 mm/s, 10 mm/mV) para estudo e comparação. Confirme sempre no ECG de 12 derivações do paciente.

Quando drenar

Imediato, no local

  • Choque hemodinâmico atribuível ao tamponamento.
  • Peri-parada ou parada cardiorrespiratória.
  • Hemopericárdio iatrogênico com deterioração rápida.
  • Nesses casos, não se espera resultado de exame laboratorial: corrija anticoagulação, INR e anemia simultaneamente à drenagem.

Programado

  • Paciente hemodinamicamente estável: drenagem em 12 a 24 horas do diagnóstico.
  • Aguardar hemograma, coagulograma e reserva de hemocomponentes.
  • Escolher a melhor janela, a melhor guiagem e a equipe mais experiente.
  • Transferência para serviço especializado sempre acompanhada por médico, com monitorização de eletrocardiograma e pressão arterial.

Além do tamponamento, a punção está indicada (ESC 2025, classe I) na suspeita de etiologia bacteriana ou neoplásica e no derrame moderado a volumoso sintomático apesar do tratamento clínico; na suspeita de tuberculose, quando os testes não invasivos não confirmam o diagnóstico. Já no derrame sem tamponamento, a punção não é recomendada de rotina (ACC 2025): derrames inflamatórios devem receber anti-inflamatório antes, e derrames volumosos, crônicos e idiopáticos assintomáticos podem ser acompanhados (risco de tamponamento ~2,2%/ano).

Rotas de tratamento

Cada rota reúne um cenário do tratamento; o botão de cada linha abre a ficha com indicação, doses, técnica, diluição e cuidados. Confira sempre o protocolo institucional, a disponibilidade de equipe treinada e as bulas vigentes antes de aplicar.

Calculadora — noradrenalina em bomba de infusão

Noradrenalina em BIC: dose por peso → mL/h

Fórmula: mL/h = (dose em mcg/kg/min × peso em kg × 60) ÷ concentração em mcg/mL. Ampola de noradrenalina 4 mg/4 mL (1 mg/mL de base), diluída em SG 5% ou SF 0,9% até o volume indicado. No tamponamento, a noradrenalina é apenas ponte até a drenagem.

Velocidade (mL/h)—
Dose absoluta (mcg/min)—
Faixa da dose—

Confira a apresentação da ampola e o padrão de diluição do seu serviço e faça dupla checagem do preparo antes de programar a bomba.

Depois da drenagem

  • Reavaliar o ecocardiograma — documentar a resolução dos sinais de tamponamento e o volume residual.
  • Manter o cateter com aspirações intermitentes a cada 4 a 6 horas; retirar quando a drenagem cair abaixo de 25 a 30 mL em 24 horas (ESC 2025: < 30 mL/dia). Na neoplasia, drenagem estendida de 3 a 6 dias (ESC 2025, classe I).
  • Radiografia de tórax após o procedimento, para excluir pneumotórax.
  • Cuidados com o cateter iguais aos de um acesso venoso central, com técnica asséptica rigorosa.
  • Monitorização contínua de eletrocardiograma, pressão arterial, diurese horária e lactato nas primeiras horas.
  • Enviar o líquido para bioquímica, celularidade, citologia oncótica e microbiologia, incluindo pesquisa de micobactérias.
  • Tratar a causa — e quando houver pericardite, quimioterapia ou janela pericárdica nas neoplasias, diálise na uremia, antibiótico e drenagem cirúrgica no derrame purulento.
  • Programar o seguimento com ecocardiograma seriado, atento à recidiva e à evolução para constrição, inclusive a forma efuso-constritiva. Derrame que se refaz apesar do tratamento: janela pleuropericárdica (ESC 2025, classe I).

Em 30 segundos

O essencial de cenários especiais

  1. Trauma penetrante em PCR por tamponamento: toracotomia de reanimação se a PCR tem menos de 15 min e há equipe e estrutura (ERC 2025); a punção é alternativa só quando a toracotomia é inviável.
  2. Dissecção tipo A e ruptura de parede livre: cirurgia; se inviável, drenagem controlada de volumes mínimos (PAS ~90 mmHg).
  3. Neoplasia: drenagem estendida de 3–6 dias; uremia: intensificar diálise; tuberculose: esquema de 6 meses.
  4. Gestação: guiar por eco; colchicina pode ser considerada (ESC 2025).

Trauma torácico penetrante

Ferimento medial aos mamilos (lesões anteriores) ou às escápulas (posteriores) é tamponamento até prova em contrário. No trauma, o saco pericárdico não teve tempo de se distender: bastam 150 mL para tamponar, a jugular pode estar plana pela hipovolemia e cerca de metade dos hemopericárdios traumáticos está coagulada — por isso a punção pode ser falsamente negativa e a solução é cirúrgica.

O que fazer diferente

Janela pericárdica no FAST. Instável e sem resposta: toracotomia com pericardiotomia. ERC 2025: toracotomia de reanimação na PCR traumática por tamponamento com menos de 15 min, se houver expertise, ambiente e equipamento; no trauma fechado com tamponamento confirmado ao ultrassom, sugerida se há sinais de vida, ritmo organizado ou PCR < 10 min. A punção é medida temporária, reservada a quando a toracotomia não é possível, e pode ser falsamente negativa por coágulos.

Dissecção tipo A e ruptura de parede livre: drenar pode piorar

Nessas duas situações, o sangue no pericárdio vem de uma rotura que o próprio tamponamento está contendo. A descompressão rápida eleva a pressão arterial e pode propagar a dissecção ou agravar a ruptura. O tratamento é cirúrgico, e a punção, quando inevitável, é só ponte — retirando volumes mínimos.

Dissecção de aorta tipo A

Hemopericárdio por rotura para o saco pericárdico.

  • Cirurgia de emergência
  • Se indisponível ou paciente inviável para transporte: drenagem controlada de volumes mínimos, mantendo a sistólica em torno de 90 mmHg

Ruptura de parede livre pós-infarto

Deterioração súbita entre o segundo e o quinto dia, com dissociação eletromecânica.

  • Acionamento cirúrgico imediato; a punção serve apenas como ponte
  • Suspender trombolítico e anticoagulante

Derrames crônicos: neoplasia, uremia e hipotireoidismo

Aqui o derrame se acumula devagar, chega a ser volumoso e tende a voltar se a causa persistir. A conduta, portanto, não termina na punção: na neoplasia, a citologia é fundamental (o rendimento aumenta com volumes maiores) e a prevenção da recidiva importa; na uremia o líquido é frequentemente hemorrágico pela disfunção plaquetária; e no hipotireoidismo a instalação é tão lenta que o paciente vem com bradicardia em vez de taquicardia.

Neoplasia

Causa frequente de derrame volumoso e recidivante. Drenagem estendida (3–6 dias, ESC 2025) para reduzir recidiva; considerar janela pericárdica ou terapia intrapericárdica nos casos de repetição. Discutir prognóstico e objetivos de cuidado.

Uremia e diálise

Derrame relacionado à toxicidade urêmica ou à diálise inadequada. Intensificar a diálise, preferencialmente sem heparina. Puncionar quando houver tamponamento ou derrame volumoso persistente.

Hipotireoidismo

Derrame volumoso de instalação muito lenta, com bradicardia em vez de taquicardia. Reposição hormonal costuma resolver. Puncionar apenas se houver repercussão hemodinâmica.

Tuberculose e pericardite purulenta

As duas causas infecciosas exigem mais do que aliviar o tamponamento: o líquido precisa ser analisado e a infecção, erradicada, sob risco de constrição. A tuberculose é relevante no Brasil e tem curso subagudo; a purulenta é rara, grave, de alta mortalidade, e deve ser suspeitada em derrame associado a sepse ou choque séptico.

Tuberculose pericárdica

Curso subagudo, derrame volumoso, alto risco de evoluir para constrição.

  • Punção com pesquisa de micobactérias, adenosina desaminase e teste molecular
  • Esquema antituberculoso padrão por 6 meses (ESC 2025)
  • Pericardiectomia se não melhorar após 4–8 semanas
  • Corticoide adjuvante conforme protocolo

Pericardite purulenta

Rara, grave e de alta mortalidade.

  • Drenagem cirúrgica com dreno calibroso
  • Antibiótico intravenoso
  • Punção isolada costuma ser insuficiente

Pós-operatório cardíaco e gestação

No pós-operatório de cirurgia cardíaca, o tamponamento pode ser localizado: derrames loculados e coágulos organizados comprimem câmaras isoladas, com apresentação atípica e às vezes tardia, e o eco transtorácico pode não ver. Na gestação, o derrame fisiológico do terceiro trimestre praticamente nunca tampona — o tamponamento verdadeiro é raro, mas descrito.

Pós-operatório de cirurgia cardíaca

Baixo limiar para eco transesofágico. Frequentemente exige reabordagem cirúrgica. A via apical é mais utilizada nesse cenário.

Gestação

Preferir guiagem ecocardiográfica, evitando radiação. Atualização ESC 2025: a colchicina deixou de ser contraindicada e pode ser considerada na gestação (IIb); AINE em dose alta até a 20ª semana; corticoide na menor dose eficaz.

Erros comuns no reconhecimento e na estabilização

O tamponamento é diagnóstico clínico-ecocardiográfico, e esperar o quadro "completo" atrasa a drenagem. Enquanto isso, o paciente depende da pré-carga e do tônus simpático: tudo o que reduz o retorno venoso — diurético, vasodilatador, pressão positiva — pode precipitar a parada.

  • Exigir a tríade de Beck completa para considerar o diagnóstico.
  • Descartar tamponamento porque o derrame "é pequeno" — no acúmulo rápido, 150 mL bastam.
  • Interpretar jugulares planas como ausência de tamponamento em paciente hipovolêmico.
  • Deixar de medir o pulso paradoxal, ou medi-lo pedindo inspiração profunda.
  • Prescrever diurético para a "congestão" de quem tem derrame volumoso.
  • Usar nitrato ou outro vasodilatador em paciente com pressão venosa alta e pulmões limpos.
  • Intubar e ventilar com pressão positiva antes de drenar, sem antecipar o colapso hemodinâmico.
  • Transportar paciente instável para tomografia em vez de fazer o eco à beira do leito.

Erros na drenagem e depois dela

Na hora de drenar, os erros são de indicação, de técnica e de seguimento: puncionar o que era cirúrgico, esvaziar rápido demais, retirar o cateter cedo e desperdiçar o líquido. Depois, a reavaliação é obrigatória — a pressão que não cai após a drenagem sugere a forma efuso-constritiva.

  • Puncionar às cegas quando havia ecocardiograma disponível.
  • Puncionar quando a indicação era cirúrgica: dissecção de aorta, ruptura de parede livre, derrame purulento, coágulo organizado.
  • Retirar volume excessivo de uma só vez, com risco de síndrome de descompressão pericárdica.
  • Retirar o cateter logo após a punção, aumentando a chance de recidiva.
  • Não enviar o líquido para citologia e microbiologia, perdendo a chance diagnóstica.
  • Aplicar os critérios de Light ao líquido pericárdico e rotular como exsudato um transudato.
  • Esquecer de reavaliar após a drenagem e não reconhecer a forma efuso-constritiva.

Resumo do fluxo

O fluxo é curto porque o tempo é curto: suspeitar pela combinação de hipotensão, pressão venosa alta e pulmões limpos, confirmar com eco à beira do leito, sustentar a pré-carga sem pressão positiva e drenar pela via certa. No choque ou na peri-parada, a punção vem antes de qualquer exame.

  1. Suspeitar

    Diante de hipotensão com pressão venosa elevada e ausculta pulmonar limpa, sobretudo em contexto de neoplasia, uremia, trauma ou procedimento cardiovascular recente.

  2. Examinar

    Meça o pulso paradoxal e avalie a turgência jugular; solicite eletrocardiograma procurando baixa voltagem e alternância elétrica.

  3. Eco sem atraso

    Faça o ecocardiograma SEM ATRASO, à beira do leito, sem transportar paciente instável.

  4. Integrar

    Derrame com colapso de câmaras direitas, veia cava pletórica e variação respiratória exagerada do fluxo confirmam a repercussão.

  5. Estabilizar

    Cristaloide em pequenas alíquotas se houver hipovolemia; considere dobutamina. Evite diurético, vasodilatador e ventilação com pressão positiva.

  6. Definir a via

    Pericardiocentese guiada por eco na maioria; drenagem cirúrgica nas indicações específicas.

  7. Choque = agora

    Choque ou peri-parada: pericardiocentese IMEDIATA, no local, sem esperar exames.

  8. Drenar com dreno

    Esvaziamento inicial em geral abaixo de 500 mL (nunca acima de 1 L), mantenha o cateter para drenagem prolongada e envie o líquido para análise completa.

  9. Vigiar

    Reavalie o eco, faça radiografia de controle e monitorize por síndrome de descompressão pericárdica.

  10. Tratar a causa

    Trate a etiologia e programe seguimento com eco seriado, atento à recidiva e à evolução para constrição.

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