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Hipermagnesemia

Intoxicação por magnésio • sulfatoterapia • gluconato de cálcio • hemodiálise

É o distúrbio eletrolítico mais raro do pronto-socorro e quase sempre iatrogênico: alguém deu magnésio a quem não conseguia excretá-lo. O quadro é previsível e progressivo — primeiro somem os reflexos, depois a respiração, por último o coração. Reconhecer a arreflexia é o que dá tempo de agir.

Arreflexia é o primeiro sinalQuase sempre há disfunção renalGluconato de cálcio é o antídotoSulfatoterapia obstétrica
16 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Hipermagnesemia é o magnésio sérico acima de 2,4 a 2,6 mg/dL; o normal no adulto é 1,7 a 2,4 mg/dL (0,7 a 1,0 mmol/L).
  2. É rara (≈ 1% dos distúrbios eletrolíticos na emergência) e quase sempre iatrogênica: fonte exógena + excreção renal reduzida.
  3. A sequência é previsível — reflexos, depois respiração, depois coração —, e a perda do reflexo patelar dá tempo de agir.
  4. Confira sempre a unidade do laudo: o magnésio é divalente, e 1 mmol equivale a 2 mEq.

O que é hipermagnesemia

Hipermagnesemia é a concentração sérica de magnésio acima do limite superior da normalidade — habitualmente 2,4 a 2,6 mg/dL, conforme o laboratório (o MSD Manual adota > 2,6 mg/dL, ou > 1,05 mmol/L). O intervalo de referência usual no adulto é de 1,7 a 2,4 mg/dL, o que corresponde a 0,7 a 1,0 mmol/L ou 1,4 a 2,0 mEq/L.

É o distúrbio eletrolítico menos frequente na emergência, respondendo por cerca de 1% dos casos. O motivo é simples: o rim excreta magnésio com enorme eficiência, e a fração excretada sobe rapidamente diante de qualquer sobrecarga. Por isso, quase toda hipermagnesemia clinicamente relevante reúne dois ingredientes — uma fonte exógena de magnésio e uma capacidade de excreção reduzida.

Na prática, hipermagnesemia é quase sempre iatrogênica. Antes de procurar causas exóticas, pergunte quem prescreveu magnésio, em que dose e qual era a função renal naquele momento.

As três unidades — e a confusão que elas causam

O magnésio é o eletrólito com maior risco de erro de unidade no Brasil, porque circula em três escalas diferentes: laboratórios costumam liberar em mg/dL, a literatura internacional usa mmol/L e os protocolos obstétricos falam em mEq/L. Um valor de "6" pode significar toxicidade leve ou parada respiratória iminente, dependendo da unidade.

ConversãoFórmulaExemplo
mg/dL para mmol/LDividir por 2,434,8 mg/dL = 2,0 mmol/L
mg/dL para mEq/LDividir por 1,2154,8 mg/dL = 4,0 mEq/L
mmol/L para mEq/LMultiplicar por 22,0 mmol/L = 4,0 mEq/L
Referência normal—1,7 a 2,4 mg/dL = 0,7 a 1,0 mmol/L = 1,4 a 2,0 mEq/L

Conversão automática: Conversor para Eletrólitos do MedFoco.

O magnésio é divalente: 1 mmol equivale a 2 mEq. Essa é a origem da maior parte dos erros de interpretação em plantão — sempre confira a unidade impressa no laudo antes de decidir qualquer conduta.

Faixas de gravidade

A progressão dos sinais é notavelmente previsível e sequencial, o que permite estimar a gravidade à beira do leito mesmo antes do resultado laboratorial.

Leve · 2,5 a 4,9 mg/dL

1,0 a 2,0 mmol/L. Habitualmente assintomática. Suspender a fonte e reavaliar costuma bastar.

Moderada · 5,0 a 8,9 mg/dL

2,1 a 3,6 mmol/L. Náusea, rubor facial, sensação de calor, hipotensão, bradicardia e hiporreflexia.

Grave · 9,0 a 12 mg/dL

3,7 a 5,0 mmol/L. Arreflexia, sonolência, fala arrastada, alterações de condução no eletrocardiograma.

Crítica · acima de 12 mg/dL

Acima de 5,0 mmol/L. Paralisia flácida, depressão respiratória, bloqueio atrioventricular total e, acima de 15 a 20 mg/dL, parada cardíaca.

Os pontos de corte variam entre fontes e os sinais se sobrepõem: um paciente com disfunção renal crônica pode tolerar melhor um valor que seria sintomático em outro. A clínica manda mais que o número — arreflexia com magnésio de 8 mg/dL é emergência, independentemente da tabela.

Por que o magnésio faz isso

O magnésio se comporta como um antagonista fisiológico do cálcio. O mecanismo central da toxicidade é o bloqueio da entrada de cálcio na terminação nervosa pré-sináptica, o que reduz a liberação de acetilcolina na junção neuromuscular.

  • Bloqueio neuromuscular — menos acetilcolina liberada, com hiporreflexia progredindo para paralisia flácida e depressão respiratória.
  • Vasodilatação — relaxamento da musculatura lisa vascular, com hipotensão e rubor cutâneo.
  • Depressão da condução cardíaca — bradicardia, alargamento do PR e do QRS, bloqueios e, no extremo, assistolia.
  • Supressão do PTH — o magnésio elevado inibe a paratireoide e pode causar hipocalcemia, que agrava o quadro.
  • Depressão do sistema nervoso central — sonolência, letargia e coma nos casos extremos.

Como o corpo se protege

Rim

Cerca de 95% do magnésio filtrado é reabsorvido, sobretudo na alça de Henle. Diante de sobrecarga, a reabsorção cai rapidamente e a excreção aumenta muito.

Intestino

A absorção do magnésio da dieta é limitada e diminui proporcionalmente quando a oferta é alta.

Osso

Funciona como reservatório e tampona parte das variações agudas.

Sem PTH obrigatório

Ao contrário do cálcio, o controle é essencialmente renal, e não hormonal.

A consequência prática: com função renal normal, é preciso uma carga enorme de magnésio para intoxicar. Com taxa de filtração glomerular reduzida, uma dose banal de laxante ou antiácido pode bastar. Por isso, todo magnésio prescrito exige a pergunta: como está o rim deste paciente?

Contexto epidemiológico

Raridade

Responde por cerca de 1% dos distúrbios eletrolíticos vistos na emergência.

Origem

Predominantemente iatrogênica: prescrição de magnésio em quem não consegue excretá-lo.

Rim

A disfunção renal está presente na grande maioria dos casos graves.

Obstetrícia

A sulfatoterapia é o cenário mais frequente de toxicidade monitorável e prevenível.

Sinal precoce

A perda do reflexo patelar antecede a depressão respiratória e dá tempo de agir.

As três perguntas diante de um magnésio alto

  1. De onde veio o magnésio?

    Procure a fonte antes de qualquer outra coisa: sulfato de magnésio endovenoso, laxante, antiácido, enema, suplemento, nutrição parenteral ou preparo de colonoscopia. Suspender a fonte é a primeira medida terapêutica.

  2. O rim consegue eliminar?

    Creatinina, taxa de filtração glomerular e, principalmente, diurese. A resposta define se o tratamento será hidratação com diurético ou hemodiálise.

  3. Há sinal de bloqueio neuromuscular?

    Avalie reflexo patelar, frequência respiratória, nível de consciência, pressão arterial e eletrocardiograma. Arreflexia ou depressão respiratória indicam imediato.

O exame neurológico dirigido vale mais que o laudo: o resultado do magnésio demora, e a perda do reflexo patelar é informação em tempo real sobre o bloqueio da junção neuromuscular.

Em 30 segundos

O essencial de causas

  1. A causa quase nunca é única: fonte exógena + excreção renal reduzida, muitas vezes com trânsito intestinal lento.
  2. Sulfato de magnésio IV, laxantes, antiácidos, enemas e preparos intestinais são as fontes clássicas.
  3. Idoso constipado em uso de laxante pode intoxicar mesmo com rim normal.
  4. Pergunte diretamente por laxantes e antiácidos — o paciente não os cita como "remédio".

Aporte excessivo e excreção reduzida

A hipermagnesemia significativa quase nunca tem causa única. O padrão clássico é a combinação de uma fonte exógena com algum grau de comprometimento da excreção renal — e, com frequência, um terceiro fator que retarda o trânsito intestinal e aumenta a absorção.

GrupoCausasPista prática
Aporte exógenoSulfato de magnésio endovenoso na obstetrícia e na crise asmática, laxantes e antiácidos com magnésio, hidróxido e óxido de magnésio, enemas e preparos intestinais, suplementos, sais de Epsom, nutrição parenteral, banho de mar ou ingestão de água salobra em afogamento.Revisar prescrição, medicamentos de uso domiciliar e "remédios de farmácia" que o paciente não considera medicação.
Excreção reduzidaDoença renal crônica avançada, lesão renal aguda, oligúria e anúria de qualquer causa, hipovolemia com queda da filtração, hipotireoidismo, insuficiência adrenal, hipercalcemia hipocalciúrica familiar, uso de lítio.Creatinina e diurese resolvem a maior parte dos casos. Em anúria, mesmo dose pequena é perigosa.
Absorção aumentadaObstrução intestinal, íleo, constipação grave, doença inflamatória intestinal, colite e perfuração — situações em que o magnésio permanece longo tempo em contato com a mucosa lesada.Explica intoxicação grave por laxantes orais mesmo com rim normal, cenário descrito em pacientes idosos constipados.
Redistribuição e liberação celularSíndrome de lise tumoral, rabdomiólise, acidose metabólica grave, cetoacidose diabética, hemólise maciça e queimadura extensa.Costuma acompanhar hipercalemia e hiperfosfatemia; magnitude geralmente modesta e transitória.

As fontes que passam despercebidas

As fontes mais perigosas são justamente as que ninguém registra como risco: o sulfato mantido por protocolo depois que a diurese caiu, o laxante comprado sem receita, o preparo de colonoscopia feito em casa. Diante de magnésio alto sem explicação, a anamnese dirigida costuma resolver o caso mais rápido do que qualquer exame.

Sulfato de magnésio obstétrico

Prevenção e tratamento da eclâmpsia. É a causa mais monitorável e prevenível, mas o risco cresce muito quando há oligúria, lesão renal aguda ou dose de manutenção mantida sem checagem clínica.

Antiácidos e laxantes

Hidróxido e óxido de magnésio, leite de magnésia e antiácidos de venda livre. O paciente raramente os menciona espontaneamente — é preciso perguntar diretamente.

Preparos intestinais e enemas

Soluções com citrato ou fosfato de magnésio, usadas antes de colonoscopia ou cirurgia, com risco especialmente alto em idosos e em disfunção renal.

Crise asmática grave

Sulfato de magnésio endovenoso como adjuvante (habitualmente 2 g IV em 20 minutos). Dose única costuma ser segura, mas exige atenção em disfunção renal.

Suplementos e nutrição parenteral

Fórmulas com magnésio mantidas sem reavaliação em pacientes que evoluíram para lesão renal aguda.

Uso cardiológico

Magnésio em arritmias e em torsades de pointes. Indicações legítimas que exigem checagem da função renal antes de repetir doses.

Pergunte especificamente sobre laxantes e antiácidos. Muitos pacientes não os consideram medicamentos e não os citam quando questionados de forma genérica sobre "o que você toma".

Quem está sob maior risco

O rim saudável elimina com folga quase qualquer excesso de magnésio, então o risco se concentra em quem perdeu essa reserva — ou em quem absorve mais do que o habitual. Os dois últimos grupos da lista são diferentes: não acumulam mais magnésio, mas sentem mais o efeito dele, porque os fármacos somam depressão da condução e do bloqueio neuromuscular.

  • Doença renal crônica estágios 4 e 5 — qualquer aporte de magnésio, mesmo oral e em dose habitual, pode acumular.
  • Lesão renal aguda oligúrica — especialmente quando o magnésio foi prescrito antes da piora da função renal e não foi reavaliado.
  • Gestante com pré-eclâmpsia e oligúria — o sulfato depende inteiramente da excreção renal.
  • Idoso constipado em uso crônico de laxante — cenário clássico de intoxicação grave até com função renal preservada.
  • Paciente com obstrução intestinal ou íleo — tempo de contato prolongado com a mucosa aumenta a absorção.
  • Recém-nascido de mãe em sulfatoterapia — o magnésio atravessa a placenta e o rim neonatal é imaturo.
  • Uso concomitante de bloqueadores de canal de cálcio — potencializam a hipotensão e a depressão da condução.
  • Uso concomitante de bloqueadores neuromusculares — o magnésio prolonga e intensifica o bloqueio.

Em 30 segundos

O essencial de quadro clínico

  1. A correlação entre nível e sintoma é ordenada: reflexos, depois respiração, depois coração.
  2. A perda do reflexo patelar é o primeiro sinal objetivo e antecede a depressão respiratória.
  3. No ECG: PR longo, QRS alargado, bradicardia e bloqueios — quadro muito parecido com o da hipercalemia.
  4. O cálcio IV é o antídoto inicial nos dois distúrbios, que frequentemente coexistem.

Uma progressão previsível

Poucos distúrbios eletrolíticos têm correlação tão ordenada entre nível sérico e manifestação clínica. A sequência é quase sempre a mesma: reflexos, depois respiração, depois coração. Essa previsibilidade é o que torna o exame à beira do leito tão útil.

Magnésio séricoEquivalênciaManifestações esperadas
1,7 a 2,4 mg/dL1,4 a 2,0 mEq/LFaixa de referência. Sem manifestações atribuíveis ao magnésio.
2,5 a 4,9 mg/dL2,1 a 4,0 mEq/LHabitualmente assintomático. Pode haver náusea leve. Inclui o início da faixa terapêutica pretendida na sulfatoterapia obstétrica, que vai de 4,8 a 8,4 mg/dL.
5,0 a 8,9 mg/dL4,1 a 7,3 mEq/LNáusea e vômito, rubor cutâneo, sensação de calor, cefaleia, letargia, hipotensão, bradicardia, retenção urinária, íleo e hiporreflexia.
9,0 a 12 mg/dL7,4 a 9,9 mEq/LArreflexia, sonolência, fala arrastada, fraqueza muscular proximal, hipocalcemia e alterações de condução no eletrocardiograma.
12 a 15 mg/dL10 a 12 mEq/LParalisia flácida, comprometimento diafragmático, depressão respiratória e coma. Necessidade de suporte ventilatório.
Acima de 15 mg/dLAcima de 12 mEq/LBloqueio atrioventricular total, choque refratário e parada cardíaca, tipicamente em assistolia.

Os limiares variam entre fontes e há sobreposição importante entre as faixas. Use a tabela como orientação de magnitude, e não como corte rígido: pacientes com doença renal crônica frequentemente toleram valores mais altos, e a velocidade de instalação também influencia.

O reflexo patelar como monitor

A perda do reflexo patelar é o primeiro sinal objetivo de bloqueio neuromuscular pelo magnésio e antecede consistentemente a depressão respiratória. É por isso que os protocolos obstétricos exigem sua checagem antes de cada dose de manutenção.

2+ presente — resposta normal

Contração pronta com movimento moderado da articulação. Faixa segura para manter a infusão, mantidos os demais critérios.

1+ diminuído — toxicidade iminente

Contração discreta, com movimento mínimo. Reduza a velocidade, dose o magnésio, reavalie diurese e frequência respiratória.

0 ausente — ação imediata

Sem contração visível ou palpável. Suspenda a infusão, prepare e monitore a ventilação de perto.

Avalie o reflexo sempre no mesmo membro e com a mesma técnica, e registre o achado. Em gestante com anestesia neuroaxial, o reflexo patelar pode estar abolido pelo bloqueio — nesse caso, use um reflexo do membro superior (bicipital ou estilorradial) como parâmetro.

Alterações eletrocardiográficas

As alterações são dose-dependentes e refletem a depressão progressiva da condução. Não há um padrão patognomônico, mas a combinação com o contexto clínico é bastante sugestiva.

Prolongamento do PR

Uma das primeiras alterações, refletindo lentificação da condução atrioventricular.

Alargamento do QRS

Progride com o nível sérico e sinaliza comprometimento da condução intraventricular.

Aumento da amplitude da onda T

Descrito nas faixas intermediárias; pode confundir com hipercalemia, que frequentemente coexiste.

Bradiarritmias e bloqueios

Bradicardia sinusal, bloqueios atrioventriculares de graus avançados e, no extremo, assistolia.

Do ECG normal ao bloqueio total

Traçados esquemáticos da progressão da toxicidade pelo magnésio, com a hipercalemia para comparação.

ECG normal (referência)

Use como comparação: PR e QRS de duração normal, onda T de amplitude habitual.

  • Ritmo sinusal a cerca de 72 bpm
  • PR de 120 a 200 ms e QRS estreito
  • Onda T de amplitude normal

Traçados esquemáticos gerados por computador (25 mm/s, 10 mm/mV) para estudo e comparação. Confirme sempre no ECG de 12 derivações do paciente.

Em paciente renal crônico com bradicardia, alargamento de QRS e onda T ampla, a hipótese imediata costuma ser hipercalemia — mas hipermagnesemia produz quadro muito semelhante, pode coexistir e responde ao mesmo antídoto inicial, o cálcio endovenoso.

Diagnósticos diferenciais

CondiçãoSemelhançaComo diferenciar
SemelhançaBradicardia, alargamento de QRS, fraqueza, mesmo perfil de paciente renal.
Como diferenciarDosagem simultânea de potássio e magnésio; frequentemente coexistem no mesmo paciente.
Botulismo
SemelhançaParalisia flácida descendente com comprometimento respiratório.
Como diferenciarAcometimento de nervos cranianos, ptose, midríase e história alimentar sugestiva.
Síndrome de Guillain-Barré
SemelhançaArreflexia e fraqueza progressiva.
Como diferenciarInstalação em dias, padrão ascendente, dissociação proteinocitológica no líquor.
Bloqueio neuromuscular residual
SemelhançaFraqueza e hipoventilação no pós-operatório.
Como diferenciarRelação temporal com anestesia; lembrar que o magnésio potencializa esse bloqueio.
Intoxicação por opioide ou benzodiazepínico
SemelhançaSonolência e depressão respiratória.
Como diferenciarPupilas, resposta a antagonista específico e reflexos habitualmente preservados.
Miastenia gravis
SemelhançaFraqueza flutuante com comprometimento respiratório.
Como diferenciarHistória prévia; atenção porque o magnésio pode desencadear crise miastênica.

Abordagem sindrômica completa: Fraqueza aguda — avaliação inicial.

Em 30 segundos

O essencial de diagnóstico

  1. O diagnóstico é laboratorial e simples — o difícil é lembrar de pedir o magnésio, que não entra no painel de rotina.
  2. Suspenda a fonte antes do resultado quando o quadro for sugestivo.
  3. Dose junto cálcio, potássio, função renal e meça a diurese: ela decide entre soro e diálise.
  4. O magnésio sérico reflete só ≈ 1% do corporal; valorize o exame clínico.

Investigação passo a passo

O diagnóstico é laboratorial e simples — o difícil é lembrar de pedir o magnésio, que também não integra os painéis eletrolíticos de rotina. Diante de fraqueza, hiporreflexia, bradicardia ou hipotensão inexplicadas em paciente renal ou em uso de magnésio, a dosagem é obrigatória.

  1. Dosar e conferir a unidade

    Dose o magnésio sérico e confira em qual unidade o laudo foi liberado.

  2. SUSPENDER TODA FONTE

    Suspenda imediatamente toda fonte de magnésio: infusão, laxante, antiácido, enema, suplemento e nutrição parenteral.

  3. Bloqueio neuromuscular

    Avalie à beira do leito: reflexo patelar, força proximal, frequência respiratória, nível de consciência e padrão ventilatório.

  4. Monitor e ECG

    Monitorização cardíaca contínua e eletrocardiograma de 12 derivações.

  5. Outros eletrólitos

    Dose cálcio, potássio, sódio, creatinina e ureia — hipocalcemia e hipercalemia coexistem com frequência.

  6. Diurese

    Quantifique a diurese: é ela que define se a eliminação renal ainda é uma opção terapêutica.

  7. Fonte

    Investigue a fonte com a família e com a prescrição domiciliar, incluindo medicamentos de venda livre.

  8. Seriar

    Repita a dosagem seriadamente até a queda consistente, sobretudo se houver oligúria ou fonte oral ainda no trato gastrointestinal.

Conversão de unidades e estratificação

Converta o valor do laudo para mg/dL (mmol/L × 2,43; mEq/L × 1,215) e escolha a faixa abaixo. A ferramenta classifica a gravidade e descreve os achados clínicos esperados naquele nível. Exemplo: 4,0 mEq/L × 1,215 = 4,9 mg/dL = 4,9 ÷ 2,43 = 2,0 mmol/L — hipermagnesemia leve, dentro da faixa terapêutica obstétrica. Conversão automática: Conversor para Eletrólitos.

Faixa de gravidade do magnésio

Três unidades • faixa de gravidade • correlato clínico.

Selecione a faixa do magnésio, já convertida para mg/dL. Use a unidade exatamente como está impressa no resultado.

Ferramenta de apoio. Os limiares se sobrepõem e variam entre fontes: a correlação entre nível sérico e sintoma é orientativa, não determinística. Trate o paciente, não o número — arreflexia ou depressão respiratória exigem ação imediata em qualquer valor.

Exames que acompanham

Creatinina, ureia e diurese

Definem toda a estratégia terapêutica. Diurese preservada permite eliminação com soro e diurético; oligoanúria aponta para diálise.

Cálcio total e iônico

A hipermagnesemia suprime o PTH e causa hipocalcemia, que agrava a instabilidade cardiovascular e o bloqueio neuromuscular.

Potássio

Hipercalemia coexiste com frequência no renal crônico e produz alterações eletrocardiográficas muito semelhantes.

Eletrocardiograma

Avalia PR, QRS, frequência e presença de bloqueios; deve ser repetido durante o tratamento.

Gasometria

Documenta hipoventilação e retenção de dióxido de carbono antes que a insuficiência respiratória se torne evidente.

Imagem abdominal

Considerar quando há suspeita de obstrução intestinal ou de grande quantidade de laxante retido, que funciona como fonte contínua.

O magnésio sérico reflete apenas cerca de 1% do magnésio corporal, e a fração livre é a biologicamente ativa. Na hipoalbuminemia, o magnésio total pode subestimar a fração ativa — mais um motivo para valorizar o exame clínico.

Em 30 segundos

O essencial de tratamento

  1. Três frentes ao mesmo tempo: cessar o aporte, antagonizar com cálcio IV e acelerar a eliminação.
  2. Gluconato de cálcio 10%, 10 a 20 mL (1 a 2 g) IV em 3 a 10 min; efeito de 30 a 60 min — repita e planeje a eliminação.
  3. Diurese preservada: SF 0,9% + furosemida após corrigir a volemia. Oligoanúria ou forma grave: hemodiálise sem postergar.
  4. Assintomático com rim normal: suspender a fonte costuma bastar.

Três frentes simultâneas

O tratamento se organiza em três eixos que devem correr ao mesmo tempo, e não em sequência: cessar o aporte, antagonizar o efeito de membrana e acelerar a eliminação. Em paciente instável, o suporte ventilatório e hemodinâmico precede tudo.

Sempre

  • Suspender toda e qualquer fonte de magnésio.
  • Monitorização cardíaca contínua e oximetria.
  • Avaliação neurológica e ventilatória seriada.
  • Dosagem de cálcio, potássio e função renal.

Se houver sintoma ou instabilidade

  • endovenoso como antagonista.
  • com , se a diurese permitir.
  • Hemodiálise na forma grave, refratária ou com anúria.
  • Suporte ventilatório diante de depressão respiratória.

Em paciente assintomático com função renal preservada, suspender a fonte é frequentemente suficiente: a meia-vida do magnésio é curta quando o rim funciona, e o valor cai sozinho em poucas horas.

Antídoto e plano de eliminação

Informe o valor, a gravidade clínica e a preparação de cálcio disponível para ver se há indicação de antídoto e a dose; depois, a função renal para definir a via de eliminação. As prescrições prontas estão logo abaixo. Equivalências: gluconato de cálcio 10% — 1 g (10 mL) ≈ 93 mg de cálcio elementar (4,6 mEq); cloreto de cálcio 10% — 1 g (10 mL) ≈ 273 mg (13,6 mEq).

Antídoto: cálcio endovenoso

Dose de cálcio • cálcio elementar.

Preencha o magnésio, o achado clínico e o sal de cálcio disponível.

Ferramenta de apoio à decisão, não prescrição automática. O cloreto de cálcio a 10% tem cerca de três vezes mais cálcio elementar por mililitro que o gluconato e é muito irritante — exige, preferencialmente, acesso venoso central. Confira sempre a apresentação disponível e o protocolo do seu serviço.

Via de eliminação

Soro e diurético × hemodiálise.

Informe a função renal e a gravidade clínica.
Soro fisiológico 0,9% — vazão por peso

Faixa de 1 a 2 mL/kg/h; a sugestão de prescrição usa 1,5 mL/kg/h (arredondar para a dezena).

Vazão mínima1 mL/kg/h
—
Vazão sugerida1,5 mL/kg/h
—
Vazão máxima2 mL/kg/h
—

Exemplo: 70 kg × 1,5 = 105 → cerca de 100 mL/h. Ajuste ao estado volêmico, à função cardíaca e ao balanço; não use em anúria.

Sugestões de prescrição — com diurese

Enquanto o rim funciona, ele é a via de eliminação: soro e diurético de alça aumentam a excreção de magnésio, mas só depois de corrigida a volemia — diurético em paciente seco reduz a filtração e piora o quadro. Quando a função renal já está reduzida, a mesma estratégia vale, porém com balanço rigoroso e a hemodiálise discutida cedo, e não como último recurso.

Sugestão de prescrição — diurese preservada

1) SUSPENDER imediatamente toda fonte de magnésio: infusão, laxante, antiácido, enema, suplemento e nutrição parenteral. 2) Gluconato de cálcio 10% — 10 mL por via intravenosa lenta, em 3 a 10 minutos, sob monitorização cardíaca (1 g do sal, cerca de 93 mg de cálcio elementar), SE houver arreflexia, sonolência, hipotensão, bradiarritmia ou depressão respiratória; repetir conforme a resposta — o efeito é transitório, de aproximadamente 30 a 60 minutos. Sem sintomas: manter disponível à beira do leito. 3) Soro fisiológico 0,9% a aproximadamente ___ mL/hora (≈ 1,5 mL/kg/h), ajustado ao estado volêmico e à função cardíaca. 4) Furosemida 20 a 40 mg por via intravenosa após correção da volemia, para aumentar a excreção renal de magnésio. 5) Monitorização cardíaca contínua, oximetria e eletrocardiograma seriado. 6) Reavaliar reflexo patelar, frequência respiratória e nível de consciência a cada 30 a 60 minutos. 7) Dosar magnésio, cálcio, potássio e função renal a cada 4 a 6 horas até queda consistente. 8) Manter material de via aérea e ventilação disponível à beira do leito.

Sugestão de prescrição — função renal reduzida

1) SUSPENDER imediatamente toda fonte de magnésio: infusão, laxante, antiácido, enema, suplemento e nutrição parenteral. 2) Gluconato de cálcio 10% — 10 mL por via intravenosa lenta, em 3 a 10 minutos, sob monitorização cardíaca, se sintomático; repetir conforme a resposta (efeito de 30 a 60 minutos). 3) Soro fisiológico 0,9% a aproximadamente ___ mL/hora (≈ 1,5 mL/kg/h), com balanço hídrico rigoroso e reavaliação a cada 2 a 4 horas. 4) Furosemida 20 a 40 mg por via intravenosa após correção da volemia, mantendo diurese e repondo perdas. 5) Discutir hemodiálise precocemente com a nefrologia se não houver queda do magnésio ou se houver piora clínica. 6) Monitorização cardíaca contínua, oximetria e eletrocardiograma seriado. 7) Reavaliar reflexo patelar, frequência respiratória e nível de consciência a cada 30 a 60 minutos. 8) Dosar magnésio, cálcio, potássio e função renal a cada 4 a 6 horas até queda consistente. 9) Manter material de via aérea e ventilação disponível à beira do leito.

Sugestão de prescrição — oligoanúria ou diálise

Sem diurese, soro não elimina magnésio — só acumula volume. Aqui o cálcio é a ponte que sustenta o paciente até a hemodiálise, e por isso pode precisar ser repetido; o magnésio deve ser dosado também depois da sessão, porque o que estava nos tecidos volta à circulação.

Sugestão de prescrição — oligoanúria ou diálise

1) SUSPENDER imediatamente toda fonte de magnésio: infusão, laxante, antiácido, enema, suplemento e nutrição parenteral. 2) Gluconato de cálcio 10% — 10 a 20 mL por via intravenosa lenta, em 3 a 10 minutos, sob monitorização cardíaca; repetir conforme a resposta até a diálise (efeito de 30 a 60 minutos). Se cloreto de cálcio 10%: 10 mL, preferir acesso venoso central (muito irritante, necrose se extravasar). 3) Acionar a nefrologia para HEMODIÁLISE, com banho sem magnésio ou com baixa concentração. 4) Não expandir volume de forma agressiva: sem diurese não há eliminação renal e o risco é congestão. 5) Monitorização cardíaca contínua, oximetria e eletrocardiograma seriado. 6) Reavaliar reflexo patelar, frequência respiratória e nível de consciência a cada 30 a 60 minutos. 7) Dosar magnésio, cálcio, potássio e função renal a cada 4 a 6 horas e após a sessão (rebote). 8) Manter material de via aérea e ventilação disponível à beira do leito.

Ferramenta de apoio à decisão, não prescrição automática. Confira a apresentação disponível e o protocolo do seu serviço.

Rotas de tratamento

Cada rota reúne um eixo do tratamento. O nome de cada fármaco abre a ficha completa: indicação, apresentação, dose, velocidade e cuidados. As medidas não farmacológicas (suspender fontes, ventilação, monitorização, diálise, doença renal crônica e recém-nascido) estão detalhadas dentro de cada rota. Confira sempre o protocolo institucional e a bula vigente antes de prescrever.

Erros que agravam o quadro

Os erros que mais agravam a hipermagnesemia são de sequência e de expectativa: manter a fonte enquanto se espera o exame, tratar o anúrico como se tivesse rim, ou dar cálcio e considerar o problema resolvido. O cálcio só compra 30 a 60 minutos — o que tira o magnésio do corpo é a eliminação.

  • Manter a infusão de sulfato de magnésio enquanto se aguarda o resultado laboratorial.
  • Prescrever hidratação vigorosa em paciente anúrico, gerando congestão sem eliminar magnésio.
  • Usar diurético de alça sem corrigir a hipovolemia, o que reduz ainda mais a filtração.
  • Adiar a hemodiálise em paciente anúrico com arreflexia, na esperança de resposta ao soro.
  • Administrar cálcio e esquecer que o efeito é transitório, sem programar a eliminação.
  • Não reavaliar o reflexo patelar após a dose de cálcio, perdendo o parâmetro de resposta.

Em 30 segundos

O essencial de sulfatoterapia

  1. Sulfato de magnésio é a droga de escolha na prevenção e no tratamento da eclâmpsia (Pritchard ou Zuspan, eficácia equivalente).
  2. O ataque bem feito quase não intoxica; o risco está na manutenção, sobretudo se a diurese cair.
  3. Antes de cada dose: reflexo patelar presente, FR ≥ 16 irpm e diurese ≥ 25 mL/h (≥ 100 mL em 4 h).
  4. Gluconato de cálcio 10% fisicamente à beira do leito; manter por 24 h após o parto ou a última crise.

Sulfato de magnésio na obstetrícia

O é a droga de escolha para prevenção e tratamento da eclâmpsia, com benefício consolidado (estudo Magpie). É também o cenário em que a hipermagnesemia é mais frequente — e, por isso mesmo, o único em que existe um protocolo de vigilância clínica estruturado e obrigatório.

EsquemaDose de ataqueDose de manutenção
Pritchard
Intravenoso e intramuscular
4 g por via intravenosa em bolus lento, associados a 10 g por via intramuscular profunda (5 g em cada nádega).5 g por via intramuscular profunda a cada 4 horas, alternando o lado.
Zuspan
Intravenoso exclusivo
4 g por via intravenosa lenta, em cerca de 15 a 20 minutos (8 mL de MgSO₄ 50% + 12 mL de água destilada).1 g por hora por via intravenosa em bomba de infusão contínua (10 mL de MgSO₄ 50% + 490 mL de SG 5% a 100 mL/h), podendo chegar a 2 g/h conforme o protocolo (20 mL + 480 mL a 100 mL/h).

Os dois esquemas são considerados de eficácia equivalente e a escolha depende da experiência do serviço. Quando há necessidade de transporte para outro serviço, o esquema intramuscular de Pritchard costuma ser preferido, por dispensar bomba de infusão. A manutenção segue por 24 horas após o parto ou após a última crise convulsiva; quando iniciada no puerpério, por 24 horas após a primeira dose (RBEHG 2023). O ACOG admite ataque de 4 a 6 g e manutenção de 1 a 2 g/h.

A dose de ataque, corretamente administrada, praticamente não oferece risco de intoxicação — e não deve ser reduzida por disfunção renal. A vigilância é obrigatória a partir das doses de manutenção, quando o acúmulo pode ocorrer — especialmente se a diurese cair. Com lesão renal aguda ou doença renal crônica (creatinina ≥ 1,0 mg/dL), use metade da dose de manutenção (Zuspan 0,5 g/h; Pritchard 2,5 g IM a cada 4 horas) e interrompa se a diurese cair abaixo de 25 mL/h (RBEHG 2023).

Checklist de segurança da sulfatoterapia

Marque o que está presente na avaliação atual. Os três critérios de segurança precisam estar todos presentes para manter a manutenção; a ausência de qualquer um deles suspende a dose. Os sinais de alarme não substituem os critérios, mas antecipam a decisão.

Critérios de segurança — os três precisam estar presentes

  • Reflexo patelar presente — resposta obtida e registrada, avaliada sempre no mesmo membro.
  • Frequência respiratória de 16 irpm ou mais — contada por um minuto completo.
  • Diurese de 25 mL/h ou mais — equivalente a pelo menos 100 mL nas últimas 4 horas.

Sinais de alarme — antecipam a toxicidade

  • Sonolência, fala arrastada ou visão borrada.
  • Náusea, rubor facial ou sensação intensa de calor.
  • Hipotensão nova ou bradicardia.
  • Creatinina elevada, oligúria ou piora da função renal.
Decisão antes da dose de manutenção

Antes de cada dose • decisão imediata.

Os três critérios de segurança precisam estar presentes para manter a dose de manutenção.

Ferramenta de apoio ao registro. Em gestante sob anestesia neuroaxial o reflexo patelar pode estar abolido pelo bloqueio — nesse caso, utilize um reflexo de membro superior como parâmetro e registre a substituição. A dosagem sérica de magnésio não é obrigatória de rotina quando a vigilância clínica é adequada, mas é útil diante de oligúria, disfunção renal ou qualquer dúvida clínica.

Faixa terapêutica e limiares de toxicidade

MarcomEq/Lmg/dL
Faixa terapêutica4 a 74,8 a 8,4
Abolição do reflexo patelar8 a 109,6 a 12
Depressão e parada respiratóriaA partir de 12A partir de 14,4
Parada cardíacaAcima de 25Acima de 30

A sequência é sempre a mesma e é ela que dá segurança à vigilância clínica: o reflexo some antes da respiração falhar, e a respiração falha antes do coração parar. Perder o reflexo patelar é o alarme que ainda dá tempo de agir.

Conduta na suspeita de intoxicação

  1. SUSPENDER

    Suspenda imediatamente a infusão ou a próxima dose intramuscular de sulfato de magnésio.

  2. Antídoto

    Administre , 10 mL (1 g) por via intravenosa lenta, em 3 a 10 minutos, sob monitorização.

  3. Via aérea

    Garanta via aérea, oxigenação e ventilação: mantenha material de intubação e ventilação disponível à beira do leito.

  4. Monitorizar

    Monitorização cardíaca contínua, oximetria e reavaliação seriada do reflexo e da frequência respiratória.

  5. Exames

    Colha magnésio, cálcio, potássio e função renal, sem que a coleta atrase o antídoto.

  6. Eliminação

    Avalie a diurese e considere hidratação com se a função renal permitir.

  7. Reavaliar o sulfato

    Reavalie a indicação de manter a sulfatoterapia e discuta alternativas com a equipe obstétrica.

  8. Neonatologia

    Comunique a equipe de neonatologia se o parto for iminente: o recém-nascido pode apresentar hipotonia e depressão respiratória.

O gluconato de cálcio deve estar fisicamente disponível à beira do leito sempre que houver sulfato de magnésio correndo. Antídoto guardado na farmácia central não protege ninguém.

Em 30 segundos

O essencial de cenários especiais

  1. Paciente dialítico: qualquer aporte acumula — proíba laxantes e antiácidos com magnésio; na intoxicação, hemodiálise.
  2. LRA e pré-eclâmpsia com oligúria transformam doses seguras em acúmulo em poucas horas.
  3. Miastenia e bloqueadores neuromusculares: o magnésio potencializa o bloqueio.
  4. Hipercalemia associada: o cálcio IV estabiliza a membrana nos dois casos.

Quando o rim não elimina

O rim é praticamente a única via de saída do magnésio, então qualquer queda de filtração transforma doses habituais em acúmulo. No dialítico, a excreção é quase nula e doses pequenas já bastam para intoxicar; na lesão renal aguda, o problema costuma ser uma prescrição que era adequada antes da piora e ninguém revisou.

Doença renal crônica dialítica

Excreção praticamente nula; qualquer aporte se acumula e o quadro pode ser grave com doses pequenas. Proibir laxantes e antiácidos com magnésio. Na intoxicação, hemodiálise é o tratamento definitivo, com banho sem magnésio ou com concentração baixa.

Lesão renal aguda

A prescrição de magnésio pode ter sido apropriada antes da piora renal e não ter sido reavaliada. Revisar diariamente toda prescrição contendo magnésio quando a creatinina sobe; suspender preventivamente na oligúria.

Obstetrícia: mãe e recém-nascido

Na obstetrícia, o sulfato de magnésio é usado de propósito — na pré-eclâmpsia e na neuroproteção fetal — e o risco vem de duas direções. Na mãe, a oligúria converte um esquema seguro em acúmulo em poucas horas; no bebê, o magnésio que atravessou a placenta encontra um rim imaturo para eliminá-lo.

Pré-eclâmpsia com oligúria

A queda da diurese converte um esquema seguro em risco de acúmulo em poucas horas. Reduzir ou suspender a manutenção, dosar magnésio sérico e intensificar a vigilância clínica horária.

Neuroproteção fetal (parto prematuro)

Sulfato de magnésio antes do parto prematuro iminente (habitualmente < 32 semanas) reduz paralisia cerebral; também gera exposição materna e neonatal. Aplicar a mesma vigilância clínica da sulfatoterapia e comunicar a neonatologia (ACOG, parecer 455).

Recém-nascido de mãe em sulfatoterapia

O magnésio atravessa a placenta e o rim neonatal é imaturo; pode haver hipotonia, sucção débil, apneia e íleo. Comunicar a neonatologia, observar tônus e padrão respiratório e dosar magnésio no neonato sintomático.

O intestino como reservatório

Normalmente o intestino absorve pouco do magnésio dos laxantes, mas trânsito lento e mucosa lesada mudam essa conta. O conteúdo retido continua liberando magnésio depois que a fonte foi suspensa — por isso a queda é mais lenta e o idoso constipado pode intoxicar mesmo com rim normal.

Idoso constipado em uso de laxante

Intoxicação grave possível mesmo com função renal normal, pelo tempo de contato prolongado com a mucosa. Suspender o laxante, considerar imagem abdominal para obstrução e avaliar remoção do conteúdo intestinal retido.

Obstrução intestinal ou íleo

O trato gastrointestinal funciona como reservatório que continua liberando magnésio após a suspensão. Tratar a obstrução; esperar queda mais lenta e manter dosagens seriadas mesmo após a fonte ter sido interrompida.

Junção neuromuscular vulnerável

O magnésio reduz a liberação de acetilcolina na placa motora. Em quem já tem a junção neuromuscular comprometida — por doença ou por fármaco — níveis que seriam toleráveis bastam para causar fraqueza respiratória.

Miastenia gravis

O magnésio agrava o bloqueio na junção neuromuscular e pode precipitar crise miastênica. Evitar magnésio sempre que houver alternativa; se indispensável, usar dose mínima com vigilância ventilatória estreita.

Uso de bloqueador neuromuscular

O magnésio potencializa e prolonga o bloqueio, com risco de recurarização. Reduzir doses do bloqueador, monitorizar com estimulador de nervo periférico e antecipar extubação mais tardia.

Hipercalemia associada

No paciente renal, hipermagnesemia e hipercalemia costumam vir juntas, e o eletrocardiograma — bradicardia, QRS largo — é praticamente indistinguível. Não é preciso decidir qual dos dois explica o traçado para agir.

O cálcio endovenoso estabiliza a membrana em ambos os casos — administre e trate os dois distúrbios em paralelo.

Crise asmática grave

Na asma grave, o sulfato de magnésio endovenoso é adjuvante legítimo, e a dose única costuma ser segura. O risco aparece quando se repete a dose em paciente com função renal desconhecida ou reduzida.

Checar função renal antes de repetir e vigiar rubor, hipotensão e hiporreflexia durante a infusão.

Erros comuns

Boa parte dos erros começa antes do diagnóstico: o magnésio não está no painel de rotina, o laudo vem em unidade que confunde e a prescrição não é revista quando o rim piora. Depois do diagnóstico, os erros se repetem com os da hipercalemia — confiar no cálcio como tratamento e hidratar quem não tem diurese.

  • Não dosar magnésio, porque ele não integra o painel eletrolítico de rotina.
  • Confundir as unidades do laudo e subestimar ou superestimar a gravidade.
  • Prescrever laxante ou antiácido com magnésio para paciente renal crônico.
  • Manter a sulfatoterapia sem checar reflexo, frequência respiratória e diurese antes de cada dose.
  • Não deixar o gluconato de cálcio disponível à beira do leito durante a infusão de magnésio.
  • Aguardar o resultado laboratorial para suspender a fonte diante de arreflexia evidente.
  • Tratar apenas com cálcio e esquecer que o efeito é transitório, sem planejar a eliminação.
  • Hidratar vigorosamente paciente anúrico em vez de indicar diálise.
  • Usar diurético de alça sem antes corrigir a hipovolemia.
  • Atribuir a bradicardia e o alargamento do QRS apenas à hipercalemia, sem considerar o magnésio.
  • Esquecer de comunicar a neonatologia quando a mãe recebeu sulfato de magnésio.
  • Não reavaliar prescrições contendo magnésio quando a função renal piora.

Resumo do fluxo

O fluxo inverte a ordem habitual: a fonte é suspensa antes da confirmação laboratorial, porque esperar o resultado é tempo de exposição a mais. A partir daí, a decisão que define o desfecho é a via de eliminação — e ela depende da diurese, não do valor do magnésio.

  1. Suspeitar

    Paciente renal, gestante em sulfatoterapia ou usuário de laxante com fraqueza, hiporreflexia, bradicardia ou hipotensão.

  2. SUSPENDER TODA FONTE

    Suspenda toda fonte de magnésio antes mesmo de confirmar o diagnóstico.

  3. Dosar

    Magnésio, cálcio, potássio e função renal, conferindo a unidade do laudo.

  4. Avaliar

    Reflexo patelar, frequência respiratória, nível de consciência e eletrocardiograma.

  5. Antídoto

    Arreflexia, depressão respiratória ou instabilidade: , 10 a 20 mL por via intravenosa lenta, repetindo conforme a resposta.

  6. Ventilação

    Garanta via aérea e ventilação; considere intubação diante de fadiga ou hipercapnia.

  7. Diurese preservada

    com , após corrigir a volemia.

  8. Oligoanúria ou grave

    Acione a nefrologia para hemodiálise sem postergar.

Referências bibliográficas

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    Bulas vigentes de sulfato de magnésio 50%, gluconato de cálcio 10% e cloreto de cálcio 10% registradas na Anvisa.

Aviso importante

Ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. Doses, diluições e velocidades de infusão devem ser conferidas antes da administração. Doses para adultos; condutas neonatais e obstétricas seguem os protocolos das respectivas equipes. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes.

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