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Hipocalemia

Hipopotassemia • potássio sérico abaixo de 3,5 mEq/L • reposição de potássio • magnésio • onda U

É o distúrbio eletrolítico mais prescrito e o menos investigado. Repõe-se potássio todo plantão sem perguntar de onde ele está indo — e sem dosar o magnésio, que é justamente o que impede a calemia de subir. Enquanto isso, o coração paga a conta: onda U, ectopia e torsades.

Magnésio antes do potássioOnda U e arritmia10 mEq/h em periféricoHipertensão pede rastreio
20 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Hipocalemia é o potássio sérico abaixo de 3,5 mEq/L; grave abaixo de 2,5 — ou em qualquer valor com arritmia, alteração no ECG, fraqueza importante ou uso de digitálico.
  2. Só 2% do potássio é extracelular: pequena queda no sérico = déficit de centenas de mEq, e a correção leva dias.
  3. Antes de "quanto repor", pergunte: é redistribuição ou perda? Renal ou digestiva? O magnésio foi dosado?
  4. Faça ECG em toda hipocalemia moderada ou grave e em qualquer valor no cardiopata, no usuário de digitálico e no sintomático.

O que é hipocalemia

Hipocalemia é o potássio sérico abaixo de 3,5 mEq/L. É o distúrbio eletrolítico mais comum da prática hospitalar, presente em cerca de 20% dos internados e em proporção ainda maior entre usuários de diurético.

Duas particularidades explicam por que ela engana tanto. Primeira: apenas 2% do potássio corporal é extracelular — o restante está dentro da célula, sobretudo no músculo. Uma queda pequena na calemia pode representar um déficit corporal enorme, e o valor sérico pode cair sem que nada tenha sido perdido, apenas por redistribuição. Segunda: a correção depende de um cofator que quase ninguém dosa, o magnésio.

A pergunta que mais muda a conduta não é "quanto de potássio prescrever", e sim "por que ele está baixo e para onde ele está indo". Repor sem investigar garante a recidiva na manhã seguinte.

Faixas de gravidade

A classificação orienta a via e a urgência, mas dois modificadores pesam tanto quanto o número: a velocidade de instalação e a presença de alterações no eletrocardiograma ou de cardiopatia estrutural.

Normal — 3,5 a 5,0 mEq/L

Em cardiopata, insuficiência cardíaca e uso de digitálico, o alvo desejável é próximo de 4,0.

Leve — 3,0 a 3,4 mEq/L

Habitualmente assintomática. Reposição por via oral e correção da causa.

Moderada — 2,5 a 2,9 mEq/L

Fraqueza, cãibras e alterações no ECG começam a aparecer. Oral ou endovenosa conforme tolerância e contexto.

Grave — abaixo de 2,5 mEq/L

Risco de arritmia, rabdomiólise e paralisia. Reposição endovenosa com monitorização contínua.

Arritmia, alteração eletrocardiográfica, fraqueza importante ou uso de digitálico deslocam o paciente para a conduta da faixa grave, qualquer que seja o valor. O contrário também vale: hipocalemia leve e crônica raramente exige via endovenosa.

Onde está o potássio

O potássio é o principal cátion intracelular e o gradiente entre dentro e fora da célula define o potencial de repouso de membrana. Daí toda a clínica.

  • Distribuição — cerca de 98% do potássio é intracelular; apenas 2% circula no plasma.
  • Bomba sódio-potássio — mantém o gradiente às custas de ATP; é o alvo da insulina e dos beta-agonistas.
  • Entram na célula — insulina, beta-2-agonistas, alcalose e estímulo adrenérgico.
  • Saem da célula — acidose metabólica mineral, deficiência de insulina, lise celular e hiperosmolaridade.
  • Excreção — cerca de 90% pelo rim, no túbulo coletor, sob controle da aldosterona e do fluxo distal de sódio.

O déficit corporal é maior do que parece

  • Regra prática — cada 1 mEq/L de queda abaixo de 3,5 corresponde a um déficit corporal de 200 a 400 mEq.
  • Quem fica na ponta baixa — idosos com pouca massa muscular.
  • Quem fica na ponta alta — adultos jovens e musculosos.
  • Consequência — a correção leva dias, e não horas; esperar normalização com uma única dose é irreal.
  • Regra de bolso — cada 20 mEq endovenosos elevam a calemia em cerca de 0,25 mEq/L.
A implicação clínica

Como o compartimento sérico é pequeno, a reposição rápida sobe o potássio no plasma antes de reabastecer a célula — e por isso o valor pode "cair de novo" horas depois. A correção precisa ser sustentada e reavaliada.

A dependência do magnésio

Este é o ponto mais importante e mais negligenciado do tema. O magnésio intracelular inibe o canal ROMK no túbulo coletor, que é a via de secreção do potássio. Quando o magnésio está depletado, essa inibição se perde e o rim passa a espoliar potássio de forma contínua.

O resultado prático é direto: enquanto o magnésio não for corrigido, todo o potássio reposto continua sendo perdido na urina e a calemia não sobe, por mais ampolas de cloreto de potássio que se prescreva.

Hipocalemia refratária é hipomagnesemia até prova em contrário. Peça os dois no mesmo painel e corrija em paralelo, não em sequência — os dois distúrbios têm as mesmas causas: diurético, diarreia, álcool, cisplatina, anfotericina e inibidor de bomba de prótons.

Contexto clínico

Frequência

Presente em cerca de 20% dos pacientes internados e na maioria dos usuários crônicos de diurético.

Causa dominante

Diuréticos de alça e tiazídicos respondem pela maior parte dos casos hospitalares.

Arritmia

Aumenta a ectopia ventricular, favorece torsades e potencializa a toxicidade digitálica.

Magnésio

A hipomagnesemia acompanha boa parte dos casos e explica a refratariedade.

Secundária

Hipertensão com hipocalemia é sinal de alerta para hiperaldosteronismo primário.

As três perguntas diante de um potássio baixo

  1. É déficit ou redistribuição?

    Insulina, beta-agonista, alcalose e estímulo adrenérgico deslocam potássio para dentro da célula sem perda corporal. Repor agressivamente nesses casos gera hipercalemia de rebote.

  2. A perda é renal ou digestiva?

    O potássio urinário responde: baixo aponta para perda digestiva ou redistribuição; elevado confirma perda renal. Ácido-base e pressão arterial completam o raciocínio.

  3. O magnésio foi dosado?

    É a pergunta que evita a reposição inútil. Sem magnésio adequado, o rim continua espoliando potássio e a calemia não se sustenta.

Faça eletrocardiograma em toda hipocalemia moderada ou grave, e em qualquer valor se o paciente for cardiopata, usar digitálico ou apresentar sintomas.

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O essencial de causas

  1. Quatro mecanismos: redistribuição, perda renal, perda digestiva e — raramente sozinha — ingesta reduzida.
  2. No hospital, diurético é a causa dominante, e muitas vezes há mais de um mecanismo ao mesmo tempo.
  3. Vômito e sonda nasogástrica perdem potássio pela urina, não pelo estômago.
  4. Na paralisia periódica o potássio corporal é normal: reposição cautelosa, pelo risco de rebote.

Os quatro mecanismos

Redistribuição, perda renal, perda digestiva e — raramente sozinha — ingesta reduzida. No paciente hospitalizado, é comum haver mais de um mecanismo simultâneo.

MecanismoCausas principaisPista prática
Redistribuição
(entrada na célula)
Insulina e correção de cetoacidose, beta-2-agonistas como salbutamol em nebulização contínua, alcalose metabólica ou respiratória, estímulo adrenérgico e catecolaminas, síndrome de realimentação, hipotermia, paralisia periódica hipocalêmica familiar e tireotóxica, intoxicação por teofilina, cloroquina e bário, tratamento de anemia megaloblástica com vitamina B12.Queda rápida com potássio urinário baixo e correção espontânea quando o estímulo cessa. Risco de rebote se a reposição for agressiva.
Perda renalDiuréticos de alça e tiazídicos, hiperaldosteronismo primário e secundário, síndrome de Cushing, estenose de artéria renal, alcaçuz, síndrome de Liddle, acidose tubular renal tipos 1 e 2, hipomagnesemia, anfotericina B, aminoglicosídeos, cisplatina, penicilinas em dose alta, diurese osmótica e cetoacidose diabética, síndromes de Bartter e Gitelman, fase poliúrica da lesão renal aguda.Potássio urinário inapropriadamente alto. Pressão arterial e estado ácido-base direcionam a etiologia.
Perda digestivaDiarreia aguda e crônica, laxantes, fístulas, ostomias de alto débito, adenoma viloso, tumor produtor de peptídeo intestinal vasoativo, drenagem intestinal.Potássio urinário baixo com acidose metabólica hiperclorêmica.
Ingesta reduzidaDesnutrição grave, anorexia nervosa, alcoolismo, dietas restritivas extremas, nutrição parenteral sem potássio.Raramente causa isolada, porque o rim reduz a excreção a menos de 15 mEq/dia na privação. Quase sempre há mecanismo associado.

O vômito e a aspiração nasogástrica são armadilha clássica: a perda de potássio no suco gástrico é pequena. O potássio se perde pela urina, arrastado pelo bicarbonato e pelo hiperaldosteronismo secundário da hipovolemia — por isso o quadro cursa com alcalose metabólica e potássio urinário elevado.

Fármacos que mais causam

Diuréticos de alça e tiazídicos

A causa hospitalar e ambulatorial mais frequente. Aumentam o aporte distal de sódio e o fluxo tubular, os dois gatilhos da secreção de potássio. Costumam causar hipomagnesemia junto.

Beta-2-agonistas

Salbutamol em nebulização contínua na crise asmática desloca potássio para dentro da célula e pode derrubar a calemia em 0,5 a 1 mEq/L.

Insulina

Qualquer esquema que estimule anabolismo, incluindo o tratamento da cetoacidose e a nutrição parenteral com glicose.

Anfotericina B

Tubulotoxicidade com perda combinada de potássio e magnésio, muitas vezes antes de alterar a creatinina.

Corticoides e mineralocorticoides

Efeito mineralocorticoide direto, incluindo fludrocortisona e doses altas de corticoide sistêmico.

Alcaçuz e derivados

O ácido glicirrízico inibe a enzima que protege o receptor mineralocorticoide e produz quadro semelhante ao hiperaldosteronismo, com hipertensão e alcalose.

Quando pensar em causa genética ou endócrina

CondiçãoPerfilPista clínica
Hiperaldosteronismo primário
PerfilHipocalemia, alcalose metabólica, hipertensão, renina suprimida e aldosterona elevada.
Pista clínicaCausa mais comum de hipertensão secundária. A maioria dos casos não tem hipocalemia — quando ela existe, a suspeita é forte.
Síndrome de Gitelman
PerfilHipocalemia, hipomagnesemia, alcalose metabólica e hipocalciúria, com pressão normal ou baixa.
Pista clínicaAdulto jovem com câimbras e fadiga; simula uso crônico de tiazídico.
Síndrome de Bartter
PerfilHipocalemia, alcalose metabólica e hipercalciúria, com pressão normal.
Pista clínicaApresentação mais precoce; simula uso de diurético de alça.
Síndrome de Liddle
PerfilHipocalemia, alcalose, hipertensão, com renina e aldosterona suprimidas.
Pista clínicaHistória familiar de hipertensão precoce; responde a amilorida, e não a espironolactona.
Acidose tubular renal tipos 1 e 2
PerfilHipocalemia com acidose metabólica hiperclorêmica e potássio urinário elevado.
Pista clínicaNefrocalcinose e litíase no tipo 1; síndrome de Fanconi no tipo 2.
Paralisia periódica hipocalêmica
PerfilHipocalemia profunda por redistribuição, com potássio urinário baixo.
Pista clínicaEpisódios de paralisia flácida após refeição rica em carboidrato ou exercício; a forma tireotóxica é frequente em homens jovens asiáticos.

Na paralisia periódica, o potássio corporal total é normal: a reposição deve ser cautelosa, com doses menores e monitorização, pelo risco de hipercalemia de rebote quando o episódio se resolve.

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O essencial de quadro clínico

  1. No músculo esquelético e liso, a hiperpolarização causa fraqueza ascendente, hiporreflexia e íleo; no miocárdio, pós-despolarizações e arritmia.
  2. O que mata: arritmia ventricular e fraqueza da musculatura respiratória — ambas pedem reposição EV com monitorização, em qualquer valor.
  3. ECG: T achatada → onda U proeminente (pseudo-QT longo, na verdade QU) → arritmias, incluindo torsades.
  4. A velocidade de instalação importa mais do que o número.

Hiperpolarização e excitabilidade

A queda do potássio extracelular hiperpolariza a membrana e dificulta a despolarização do músculo esquelético e liso — daí a fraqueza, a hiporreflexia e o íleo. No miocárdio, porém, o efeito é o oposto: a repolarização se prolonga e surgem pós-despolarizações, aumentando o automatismo e a chance de arritmia.

Assim como nos demais distúrbios, a velocidade de instalação importa mais que o valor absoluto: uma queda aguda para 2,8 mEq/L é muito mais sintomática do que uma hipocalemia crônica no mesmo nível.

As manifestações que matam são arritmia ventricular e fraqueza da musculatura respiratória. Ambas justificam reposição endovenosa com monitorização contínua, independentemente do valor.

Manifestações por sistema

SistemaManifestaçõesRelevância prática
NeuromuscularFraqueza muscular tipicamente ascendente, começando pelos membros inferiores, cãibras, mialgia, hiporreflexia, parestesias e, nas formas graves, paralisia flácida.A poupança relativa da musculatura craniana ajuda a diferenciar de outras causas de paralisia.
MuscularRabdomiólise, com elevação de creatinoquinase e risco de lesão renal aguda.Ocorre sobretudo abaixo de 2,5 mEq/L e no exercício; dose creatinoquinase nas formas graves.
RespiratórioFraqueza diafragmática, hipoventilação e insuficiência respiratória.Entra no diferencial da falha de desmame ventilatório, junto com hipofosfatemia e hipomagnesemia.
CardiovascularExtrassístoles, taquicardia atrial e ventricular, fibrilação atrial, torsades de pointes, fibrilação ventricular, hipertensão e potencialização da toxicidade digitálica.Risco muito maior em cardiopata, isquemia aguda e uso de digitálico ou de fármacos que prolongam o QT.
GastrointestinalConstipação, distensão abdominal e íleo paralítico.Íleo pós-operatório sem causa clara deve motivar a dosagem do potássio.
Renal e metabólicoDiabetes insipidus nefrogênico com poliúria e polidipsia, aumento da amoniogênese, alcalose metabólica, intolerância à glicose e, no quadro crônico, nefropatia hipocalêmica.O aumento da amônia pode precipitar encefalopatia hepática no cirrótico — motivo para corrigir agressivamente nesse grupo.

Eletrocardiograma

As alterações são progressivas e razoavelmente previsíveis, embora a correlação com o valor sérico seja frouxa. O achado mais característico é a onda U.

Inicial — achatamento da onda T

Redução da amplitude de T e infradesnivelamento discreto do segmento ST. Costuma aparecer abaixo de 3,0 mEq/L.

Intermediário — onda U proeminente

Onda U após a T, melhor vista em V2 e V3, com fusão progressiva das duas e aparente prolongamento do QT — na verdade um intervalo QU.

Avançado — arritmias

Prolongamento do PR, alargamento do QRS, extrassistolia, taquicardia atrial e ventricular, torsades de pointes e fibrilação ventricular.

Da onda T achatada à torsades

Compare o ECG normal com a progressão da hipocalemia e com as arritmias que ela favorece.

ECG normal (referência)

Use como referência: onda T ampla e positiva, sem onda U visível, ST isoelétrico.

  • Onda T positiva e de boa amplitude
  • Sem onda U evidente
  • Segmento ST isoelétrico
  • FC ≈ 72 bpm

Traçados esquemáticos gerados por computador (25 mm/s, 10 mm/mV) para estudo e comparação. Confirme sempre no ECG de 12 derivações do paciente.

O "QT prolongado" da hipocalemia é frequentemente um QU, pela fusão entre T e U. Isso importa na prática: o risco de torsades é real, e a conduta inclui corrigir potássio e magnésio, além de revisar fármacos que prolongam o QT.

Hipocalemia × hipercalemia no ECG

AchadoHipocalemiaHipercalemia
Onda TAchatada, de baixa amplitudeApiculada, estreita e simétrica
Onda UProeminente, fundindo-se com a TAusente
Segmento STInfradesniveladoHabitualmente normal
Onda PAmplitude aumentadaAchatada e depois ausente
QRSAlargamento tardioAlargamento progressivo até ritmo sinusoidal
Arritmia típicaTorsades de pointes e ectopia ventricularBradiarritmia, bloqueio e assistolia
Lado a lado: potássio baixo × potássio alto

Os dois extremos do potássio deixam marcas opostas na onda T.

Hipocalemia

T baixa e larga, seguida de onda U; ST levemente infradesnivelado.

  • T achatada
  • Onda U em V2–V4
  • ST descendente discreto

Traçados esquemáticos gerados por computador (25 mm/s, 10 mm/mV) para estudo e comparação. Confirme sempre no ECG de 12 derivações do paciente.

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O essencial de diagnóstico

  1. Confirme o valor, descarte pseudo-hipocalemia e faça ECG: a urgência vem antes da etiologia.
  2. Dose o magnésio no mesmo painel.
  3. Colha potássio e creatinina urinários antes de repor: K/Cr > 13 mEq/g = perda renal; < 13 = digestiva ou redistribuição.
  4. Potássio urinário + ácido-base + pressão arterial resolvem a maioria dos diagnósticos.

Investigação passo a passo

  1. Confirmar o valor

    Descarte pseudo-hipocalemia: amostra deixada em temperatura ambiente por horas em paciente com leucocitose extrema pode ter o potássio consumido pelas células.

  2. ECG e sintomas

    Eles definem a urgência antes de qualquer investigação etiológica.

  3. DOSE O MAGNÉSIO

    No mesmo painel: sem corrigi-lo, nenhuma reposição de potássio se sustenta.

  4. Afastar redistribuição

    Insulina, beta-agonista, alcalose, estímulo adrenérgico, realimentação e paralisia periódica.

  5. Revisar a prescrição

    Diurético, corticoide, anfotericina, aminoglicosídeo, cisplatina, penicilina em dose alta e alcaçuz.

  6. Potássio urinário

    Em amostra isolada, com creatinina urinária, antes de iniciar a reposição.

  7. Fechar a tríade

    Combine o potássio urinário com o estado ácido-base e a pressão arterial — essa tríade resolve a maior parte dos diagnósticos.

  8. Hipertensão associada

    Hipertensão com hipocalemia e alcalose: dose aldosterona e renina para rastrear hiperaldosteronismo primário.

Ferramenta — Origem da perda de potássio

A relação potássio/creatinina em amostra isolada é calculada como (potássio urinário em mEq/L ÷ creatinina urinária em mg/dL) × 100, resultando em mEq por grama de creatinina. Valores abaixo de 13 indicam resposta renal apropriada — a perda é digestiva ou há redistribuição; valores acima de 13 confirmam perda renal. Colha antes de iniciar a reposição. Exemplo: K urinário 35 mEq/L e creatinina urinária 90 mg/dL → (35 ÷ 90) × 100 = 38,9 mEq/g → perda renal.

Hipótese sugerida pela tríade

Calcule a relação K/Cr urinária (fórmula acima) e escolha as opções. O resultado sugere a origem da perda e as hipóteses mais prováveis.

Informe a relação K/Cr urinária, o estado ácido-base, a pressão arterial e o magnésio. Colha em amostra isolada, de preferência antes de iniciar a reposição.

Ferramenta de apoio. A relação perde valor se a reposição já foi iniciada, em uso atual de diurético e na disfunção renal avançada. O gradiente transtubular de potássio caiu em desuso por premissas fisiológicas questionáveis — a relação potássio/creatinina e o potássio urinário de 24 horas, acima de 25 a 30 mEq por dia, são os parâmetros preferidos hoje.

A tríade que fecha o diagnóstico

Potássio urinário, estado ácido-base e pressão arterial, interpretados juntos, classificam a grande maioria das hipocalemias.

Potássio urinárioÁcido-basePressãoHipóteses
BaixoAcidose metabólicaNormalDiarreia, laxantes, fístulas e ostomias de alto débito, adenoma viloso.
BaixoVariávelNormalRedistribuição: insulina, beta-agonista, realimentação, paralisia periódica; ou ingesta muito reduzida.
AltoAlcalose metabólicaNormal ou baixaDiuréticos, vômito e aspiração nasogástrica, síndromes de Bartter e Gitelman, hipomagnesemia.
AltoAlcalose metabólicaAltaHiperaldosteronismo primário, hipertensão renovascular, síndrome de Cushing, alcaçuz, síndrome de Liddle.
AltoAcidose metabólicaNormalAcidose tubular renal tipos 1 e 2, cetoacidose diabética, anfotericina B, síndrome de Fanconi.

Duas armadilhas: o uso oculto de diurético imita Bartter e Gitelman e é o grande diagnóstico diferencial das tubulopatias; e o vômito cursa com potássio urinário alto, porque a perda é renal, e não gástrica. Para interpretar a gasometria, use o Interpretador de Gasometria.

O que pedir junto

Magnésio

Obrigatório e não negociável. É a causa mais frequente de hipocalemia que não corrige apesar de reposição adequada.

Gasometria

Alcalose ou acidose direcionam o diagnóstico e mudam a escolha do sal a repor.

Sódio, cloro e bicarbonato

Ajudam a caracterizar o distúrbio ácido-base e o estado volêmico.

Eletrocardiograma

Onda U, achatamento de T e ectopia definem a urgência da reposição.

Creatinoquinase

Rastreia rabdomiólise nas formas graves e no paciente com mialgia ou fraqueza intensa.

Aldosterona e renina

Diante de hipertensão com hipocalemia, especialmente com alcalose — colher pela manhã, com o paciente sentado.

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O essencial de reposição

  1. Via oral sempre que o trato permitir; EV se K < 2,5, arritmia/alteração no ECG, fraqueza importante, íleo ou intolerância.
  2. Periférico: até 10 mEq/h e 40 mEq/L. Central com ECG contínuo: até 20 mEq/h (40 mEq/h só em crise, com dosagem horária).
  3. Nunca em bolus fora da PCR; diluir em SF 0,9%, não em glicosado; corrigir o magnésio em paralelo.
  4. Espere ≈ 0,25 mEq/L a cada 20 mEq: reavalie após cada etapa e trate a causa.

Princípios da reposição

Três regras organizam toda a conduta: preferir a via oral sempre que possível, corrigir o magnésio em paralelo e respeitar limites rígidos de velocidade e concentração na via endovenosa.

Via oral

  • Hipocalemia leve e moderada com trato gastrointestinal funcionante.
  • Mais segura: sem risco de arritmia por infusão rápida nem de flebite.
  • Habitualmente 40 a 100 mEq por dia, fracionados, com no máximo cerca de 40 mEq por tomada.
  • Limitada por náusea e irritação gástrica — administrar com alimento e água.

Via endovenosa

  • Potássio abaixo de 2,5 mEq/L, arritmia ou alteração no eletrocardiograma.
  • Fraqueza importante, paralisia ou íleo que impede a via oral.
  • Intolerância digestiva ou trato indisponível.
  • Perdas contínuas de grande volume.

Nunca administre potássio em bolus endovenoso — é causa clássica de parada cardíaca (a única exceção é a PCR por hipocalemia, sob protocolo de ressuscitação). E evite diluir em soro glicosado na fase aguda: a glicose estimula a insulina, que empurra o potássio para dentro da célula e pode baixar ainda mais a calemia antes de subir.

Limites de segurança e esquemas

ParâmetroVia periféricaVia central com monitorização
Velocidade habitual10 mEq/h20 mEq/h
Velocidade máxima10 a 20 mEq/h, com dor e risco de flebiteAté 40 mEq/h em situação crítica, com ECG contínuo e dosagem horária
ConcentraçãoNão exceder 40 mEq/L — idealmente 20 a 30 mEq/LConcentrações maiores admitidas, com bomba de infusão
DiluenteSoro fisiológico a 0,9%; evitar glicosado na fase agudaSoro fisiológico a 0,9%
Dose máxima diáriaHabitualmente até 200 mEq em 24 horas; até cerca de 400 mEq apenas em situações críticas e monitorizadas—
Resposta esperadaCerca de 0,25 mEq/L de elevação a cada 20 mEq infundidos — sempre menor do que se espera—

Quando for necessário mais de 10 mEq/h e não houver acesso central, uma alternativa é dividir a infusão em dois acessos periféricos a 10 mEq/h cada, evitando esclerose venosa. Em disfunção renal, reduza a dose em cerca de metade e dose o potássio com mais frequência.

Segurança da infusão

Praticamente todos os eventos adversos graves da reposição de potássio decorrem de velocidade ou concentração excessivas. Os limites existem por um motivo.

ItemRegra
Velocidade periférica10 mEq/hora como padrão; até 20 mEq/hora com dor significativa e risco de flebite
Velocidade central20 mEq/hora com monitorização eletrocardiográfica contínua; até 40 mEq/hora apenas em situação crítica com dosagens horárias
ConcentraçãoMáximo de 40 mEq/L em veia periférica; idealmente 20 a 30 mEq/L para reduzir a dor
Dois acessosQuando é necessário mais de 10 mEq/hora sem acesso central, dividir em dois acessos periféricos a 10 mEq/hora cada
Bomba de infusãoObrigatória — nunca infundir potássio em gotejamento livre
MonitorizaçãoEletrocardiograma contínuo sempre que a velocidade ultrapassar 10 mEq/hora ou houver arritmia prévia
Dosagem seriadaReavaliar o potássio 2 a 4 horas após cada etapa; a resposta é menor do que se espera, cerca de 0,25 mEq/L a cada 20 mEq
Disfunção renalReduzir a dose em cerca de metade, dosar com mais frequência e reavaliar antes de cada nova etapa

A pressa é o principal fator de risco: mesmo na hipocalemia grave, a correção completa leva dias e depende de reavaliação, não de dose única.

Ferramenta — Déficit, dose e prescrição

A estimativa do déficit corporal é de cerca de 200 a 400 mEq para cada 1 mEq/L abaixo de 3,5 (ajustando pela massa corporal: (3,5 − K) × peso × 4). A dose da etapa inicial é definida pela faixa, reduzida à metade se a TFG for menor que 30 mL/min ou houver oligúria. Exemplo: 70 kg, K 2,6 mEq/L → queda de 0,9 → déficit de 180 a 360 mEq (≈ 252 mEq ajustado); etapa de 80 mEq EV, a 10 mEq/h em periférico = 8 h, com elevação esperada de ≈ 1,0 mEq/L (80 ÷ 20 × 0,25).

Para a conta automática do déficit, use a calculadora Déficit de Potássio; para converter mEq, mmol e mg, o Conversor para Eletrólitos.

Classificação, via e dose da etapa

Escolha a faixa de potássio e a função renal. A via é definida pela gravidade (endovenosa abaixo de 3,0 mEq/L ou com sintomas/ECG alterado); a velocidade depende do acesso.

Escolha a faixa do potássio e a função renal para ver a via e a dose da etapa.

Ferramenta de apoio à decisão, não prescrição automática. A estimativa de déficit é grosseira e serve para dimensionar a reposição total, não para prescrever uma dose única — a correção leva dias e exige dosagens seriadas. Confira a apresentação do seu serviço: cloreto de potássio a 19,1% traz 2,56 mEq por mL (ampola de 10 mL = 25,6 mEq), e a 10%, 1,34 mEq por mL.

Modelo de prescrição — reposição EV (periférico)

1) Colher potássio e creatinina urinários e dosar MAGNÉSIO antes de iniciar, se ainda não colhidos. 2) Cloreto de potássio 19,1% — 7,8 mL (20 mEq) diluídos em 500 mL de SF 0,9% (40 mEq/L), em bomba de infusão, a 250 mL/h (10 mEq/h) por acesso periférico. Repetir conforme a dose da etapa. Se for necessária velocidade maior sem acesso central, dividir em dois acessos periféricos a 10 mEq/h cada. Acesso CENTRAL com monitorização contínua: 20 mEq em 100 mL de SF 0,9%, a 20 mEq/h (100 mL/h). 3) NÃO administrar em bolus e NÃO diluir em soro glicosado na fase aguda. 4) Repor MAGNÉSIO em paralelo se estiver baixo — sem ele, o potássio continua sendo perdido na urina. 5) Dosar potássio 2 a 4 horas após o término da etapa e diariamente enquanto a causa persistir. 6) Reavaliar antes de cada nova etapa (função renal reduzida: dose pela metade e dosagem mais frequente). 7) Eletrocardiograma na admissão e após a correção; monitorização contínua se houver alteração ou uso de digitálico. 8) Tratar a causa: ajustar ou suspender o diurético, considerar poupador de potássio, corrigir perdas digestivas e investigar hipertensão associada.

Via oral: cloreto de potássio 40 a 100 mEq ao dia, fracionados em 2 a 3 tomadas de no máximo 40 mEq, com alimento e água; se náusea, fracionar mais e reduzir a dose por tomada; dosar potássio no dia seguinte.

Condutas — como usar as rotas

Cada rota abre o detalhamento: indicação, apresentação, dose, diluição, velocidade e cuidados; o botão de cada fármaco abre a ficha completa. Confira sempre o protocolo institucional e a bula vigente antes de prescrever.

Rota 1 — Leve a moderada, oral

Preferida sempre que possível.

Rota 2 — Grave ou sintomática, EV

Cloreto de potássio diluído, dentro dos limites, com magnésio junto.

Rota 3 — Arritmia ou PCR

Magnésio na torsades; protocolo ERC 2025 na PCR hipocalêmica.

Rota 4 — Tratar a causa e manter

Poupadores, ajuste do diurético e dieta.

Rota 5 — Cetoacidose diabética

Potássio antes da insulina (corte atualizado: 3,5 mEq/L).

Rotas de tratamento

Cada rota é um cenário clínico. Dentro de um grupo, as linhas são alternativas (escolha uma), salvo quando indicado "usar junto". Doses para adultos — confira a apresentação, a função renal e o protocolo do seu serviço.

Em 30 segundos

O essencial de hiperaldosteronismo

  1. Hiperaldosteronismo primário é a causa mais comum de hipertensão secundária — e a maioria dos pacientes não tem hipocalemia.
  2. Hipertensão + hipocalemia (espontânea ou por diurético) é indicação clássica de rastreio com aldosterona e renina.
  3. Endocrine Society 2025: rastrear todo hipertenso; AHA/ACC 2025: hipertensão resistente, mesmo com potássio normal.
  4. Antes de investigar: exclua diurético e alcaçuz, e corrija o potássio antes da coleta.

Hipertensão com hipocalemia

O hiperaldosteronismo primário é a causa mais comum de hipertensão secundária e está presente em cerca de 5% a 10% dos hipertensos em geral (3% a 14% quando rastreados na atenção primária) e em até 20% dos casos de hipertensão resistente. É subdiagnosticado de forma sistemática — e a consequência não é apenas o controle pressórico: o excesso de aldosterona causa dano cardiovascular e renal independente da pressão arterial.

Um ponto muda o raciocínio clínico: a maioria dos pacientes com hiperaldosteronismo primário não tem hipocalemia — menos de metade a apresenta. Por isso a hipocalemia deixou de ser o gatilho principal do rastreio e passou a ser apenas um dos marcadores de alto risco. Quando ela está presente em um hipertenso, porém, a suspeita é forte e o rastreio é obrigatório.

A tríade clássica é hipertensão + hipocalemia + alcalose metabólica, com renina suprimida e aldosterona elevada. Mas lembre que diuréticos produzem exatamente o mesmo perfil — a história medicamentosa é obrigatória antes de investigar.

Ferramenta — Indicação de rastreio

As diretrizes recentes ampliaram bastante o rastreio: hipertensão resistente indica rastreio independentemente do potássio (AHA/ACC 2025), e a Endocrine Society 2025 recomenda estender a investigação a todos os hipertensos (recomendação condicional), conforme a disponibilidade de recursos.

Indicações de maior peso

  • Hipertensão resistente — sem controle apesar de 3 fármacos em dose otimizada, incluindo diurético, ou controlada com 4 ou mais fármacos.
  • Hipertensão com hipocalemia — espontânea ou induzida por diurético.
  • Hipertensão com incidentaloma adrenal.

Outras indicações reconhecidas

  • Hipertensão com apneia obstrutiva do sono.
  • Hipertensão com fibrilação atrial sem outra causa estrutural evidente.
  • História familiar de hipertensão precoce ou de acidente vascular cerebral antes dos 40 anos.
  • Parente de primeiro grau com hiperaldosteronismo primário.
  • Hipertensão estágio 2 — pressão igual ou acima de 140/90 mmHg, ou início abrupto e sugestivo de causa secundária.
Rastreio de hiperaldosteronismo primário

Indique se o paciente hipertenso tem alguma das indicações acima.

Responda às duas perguntas para avaliar a indicação de rastreio.

Ferramenta de apoio. O rastreio é feito com aldosterona e renina séricas, pela manhã, paciente sentado e sem restrição de sódio. A hipocalemia deve ser corrigida antes da coleta, porque reduz falsamente a aldosterona (se o primeiro rastreio vier negativo com hipocalemia, corrija e repita).

Atualização — e os anti-hipertensivos?

Antes se exigia suspender o antagonista mineralocorticoide por cerca de 4 semanas e ajustar vários anti-hipertensivos. A AHA/ACC 2025 recomenda manter os anti-hipertensivos, exceto o antagonista mineralocorticoide, para não atrasar o rastreio. A Endocrine Society 2025 admite duas estratégias: retirada mínima (IECA/BRA 2 semanas; antagonista mineralocorticoide, inibidor de ENaC e diurético 4 semanas; betabloqueador e ação central 2 semanas se houver suspeita de falso-positivo) ou rastreio sem retirada, quando suspender não é seguro.

Depois do rastreio positivo

  1. Conferir a coleta

    Manhã, paciente sentado, sem restrição de sódio, medicações interferentes ajustadas conforme a estratégia escolhida e com o potássio corrigido.

  2. Rastreio positivo

    Renina baixa ou suprimida com aldosterona elevada e relação aldosterona/renina aumentada: encaminhe à endocrinologia.

  3. Teste confirmatório só se mudar a conduta

    Pela Endocrine Society 2025, o teste de supressão da aldosterona fica para a probabilidade intermediária em quem deseja cirurgia; não é exigido em quem não fará adrenalectomia — nas formas evidentes, ele pode ser dispensado.

  4. Tomografia de adrenais

    Para caracterizar nódulo, sempre lembrando que a imagem não define lateralização sozinha.

  5. CATETERISMO DE VEIAS ADRENAIS

    É o exame de lateralização, indicado quando a cirurgia está sendo considerada.

  6. Doença lateralizada

    Candidato cirúrgico: adrenalectomia unilateral, com boa chance de cura ou de melhora expressiva.

  7. Doença bilateral ou não cirúrgico

    Antagonista do receptor mineralocorticoide — ou — titulado pela pressão e pelo potássio; preferido aos inibidores do ENaC (Endocrine Society 2025).

  8. Benefício além da pressão

    Independentemente da via escolhida, o tratamento específico reduz o dano cardiovascular e renal atribuível ao excesso de aldosterona.

Antes de investigar, exclua as duas grandes imitações: uso de diurético, que reproduz o perfil bioquímico, e consumo de alcaçuz, que causa quadro semelhante com renina e aldosterona ambas suprimidas.

Em 30 segundos

O essencial de cenários especiais

  1. Cetoacidose: não iniciar insulina com K < 3,5 mEq/L (Consenso 2024).
  2. Paralisia periódica: potássio corporal normal — reposição cautelosa, risco de rebote.
  3. Digitálico, insuficiência cardíaca e isquemia: alvo de 4,0 a 5,0 mEq/L.
  4. Doença renal crônica e oligúria: metade da dose e dosagem mais frequente.

Cetoacidose diabética

Na cetoacidose, o potássio sérico inicial pode estar normal ou alto apesar de um déficit corporal grande: a acidose e a falta de insulina mantêm o potássio fora da célula. Quando a insulina começa, ela o devolve à célula em poucas horas e revela o déficit — é nessa fase que surgem as arritmias. Por isso a sequência importa: potássio primeiro, insulina depois.

Não iniciar insulina com potássio abaixo de 3,5 mEq/L

Consenso 2024 (antes, 3,3). Reponha primeiro, a 10 mEq/h. Depois, acrescente 20 a 30 mEq a cada litro de solução e mantenha a calemia entre 4 e 5 mEq/L.

Cetoacidose: o potássio muda durante o tratamento

Na admissão, a acidose e a falta de insulina podem dar hipercalemia; horas depois da insulina, o mesmo paciente pode estar hipocalêmico.

Antes da insulina — hipercalemia

Potássio deslocado para fora da célula: T apiculada mesmo com déficit corporal.

  • T alta e apiculada
  • Sem onda U
  • Não repor potássio enquanto > 5,0

Traçados esquemáticos gerados por computador (25 mm/s, 10 mm/mV) para estudo e comparação. Confirme sempre no ECG de 12 derivações do paciente.

Quando é só redistribuição

Em duas situações o potássio cai porque entrou na célula, e não porque saiu do corpo: o potássio corporal total está normal e o urinário, baixo. Repor como se houvesse déficit leva à hipercalemia de rebote quando o estímulo cessa. A reposição deve ser menor, com dosagens seriadas, e o foco é tratar o gatilho.

Paralisia periódica hipocalêmica

Redistribuição pura. Reposição cautelosa, em doses menores, com monitorização: há risco real de hipercalemia de rebote ao fim do episódio. Investigar tireotoxicose.

Crise asmática grave

A nebulização contínua com beta-2-agonista desloca potássio para dentro da célula. Dosar o potássio durante o tratamento; a queda é por redistribuição e costuma reverter com a suspensão.

Coração vulnerável: digitálico e insuficiência cardíaca

No miocárdio doente ou exposto a digitálico, uma hipocalemia que um coração saudável toleraria já basta para desencadear arritmia. A hipocalemia potencializa a toxicidade digitálica mesmo com nível sérico do fármaco na faixa terapêutica; na insuficiência cardíaca, o diurético de alça e o hiperaldosteronismo secundário mantêm a perda e o risco arrítmico é elevado. Nos dois casos, o alvo é mais alto.

Uso de digitálico

Alvo de potássio próximo de 4,0 mEq/L, correção mais ágil e monitorização cardíaca.

Insuficiência cardíaca

Manter potássio entre 4,0 e 5,0 mEq/L; preferir associar antagonista mineralocorticoide a repor potássio indefinidamente.

Fígado e rim

Fígado e rim pedem condutas opostas. Na cirrose, a hipocalemia aumenta a amoniogênese renal e pode precipitar encefalopatia hepática, por isso a correção deve ser precoce. Na doença renal crônica a hipocalemia é menos comum e a reposição tem risco real de hipercalemia iatrogênica — exceto na diálise peritoneal, em que a hipocalemia é frequente e se associa a maior mortalidade (KDIGO 2020).

Cirrose hepática

Corrigir de forma agressiva e precoce; revisar o esquema diurético e priorizar a espironolactona.

Doença renal crônica

Reduzir a dose em cerca de metade, dosar o potássio com mais frequência e reavaliar antes de cada etapa; na diálise peritoneal, dieta liberal em potássio e reposição oral.

Perdas múltiplas: realimentação, álcool e pós-operatório

Nestes cenários a hipocalemia raramente vem sozinha. Na realimentação, o potássio cai junto com fósforo e magnésio nos primeiros cinco dias de aporte calórico; no alcoolismo somam-se desnutrição, vômito, diarreia, hipomagnesemia e realimentação hospitalar; no pós-operatório, perdas por drenagem, aspiração nasogástrica e jejum prolongado. Tratar só o potássio costuma falhar.

Síndrome de realimentação

Dosar potássio, fósforo e magnésio diariamente, repor sem suspender a nutrição e administrar tiamina antes das calorias.

Alcoolismo

Corrigir magnésio e fósforo em conjunto; a hipocalemia isolada raramente responde.

Pós-operatório e íleo

Via endovenosa enquanto o trato não estiver disponível; o próprio íleo pode ser consequência da hipocalemia.

Erros comuns

Quase todos os erros na hipocalemia caem em dois grupos: repor sem entender a causa (magnésio não dosado, urina não colhida, hipertensão não investigada, diurético não ajustado) e repor sem respeitar a fisiologia (bolus, velocidade e concentração excessivas, soro glicosado, dose plena no rim que não excreta). Conferir esta lista antes de prescrever evita a maioria das reposições que falham ou que machucam.

  • Repor potássio sem dosar o magnésio — a causa número um de hipocalemia refratária.
  • Não colher o potássio urinário antes de iniciar a reposição, perdendo a chance do diagnóstico etiológico.
  • Administrar potássio em bolus endovenoso, com risco de parada cardíaca.
  • Diluir em soro glicosado na fase aguda, o que estimula a insulina e baixa ainda mais a calemia.
  • Ultrapassar 10 mEq/h em acesso periférico, gerando dor intensa e flebite.
  • Usar concentração acima de 40 mEq/L em veia periférica.
  • Esperar normalização com uma única etapa, ignorando que o déficit corporal é de centenas de miliequivalentes.
  • Repor agressivamente na paralisia periódica, provocando hipercalemia de rebote.
  • Iniciar insulina na cetoacidose com potássio abaixo de 3,5 mEq/L.
  • Manter dose plena de reposição em paciente com disfunção renal ou oligúria.
  • Não investigar hipertensão associada à hipocalemia, deixando passar hiperaldosteronismo primário.
  • Repor potássio indefinidamente em vez de ajustar o diurético ou associar um poupador.

Resumo do fluxo

A ordem dos passos não é burocracia: dosar o magnésio e colher a urina antes da primeira reposição são as duas etapas que não podem ser recuperadas depois. Em seguida, afastar a redistribuição evita tratar como déficit o que é só deslocamento, e só então a via e a velocidade são escolhidas.

  1. Confirmar e classificar

    Confirme o valor, classifique a gravidade e faça eletrocardiograma.

  2. DOSE O MAGNÉSIO

    E corrija-o em paralelo — sem ele, a calemia não sobe.

  3. Urina antes de repor

    Colha potássio e creatinina urinários antes de iniciar a reposição.

  4. Afastar redistribuição

    Insulina, beta-agonista, alcalose, realimentação e paralisia periódica.

  5. Definir a etiologia

    Combine potássio urinário, estado ácido-base e pressão arterial.

  6. Escolher a via

    Oral na forma leve a moderada com trato disponível; endovenosa se grave, sintomática ou com alteração no ECG.

  7. Respeitar os limites

    10 mEq/h em periférico, 20 mEq/h em central monitorizado, concentração até 40 mEq/L, nunca em bolus.

  8. Reavaliar e manter

    Reavalie o potássio após cada etapa, trate a causa e planeje a manutenção — ajuste do diurético, poupador de potássio ou dieta.

Magnésio antes do potássio — ou, melhor, junto com ele: é o detalhe que separa a reposição que funciona da reposição que se repete todos os dias.

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Aviso importante

Ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. Doses, diluições e velocidades de infusão devem ser conferidas antes da administração. Doses para adultos; ajuste por peso, função renal e contexto clínico. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço e as bulas vigentes — doses, velocidades e condutas devem ser sempre conferidas antes da aplicação.

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