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Hipercalemia

Hiperpotassemia • potássio sérico acima de 5,0 mEq/L

É o distúrbio eletrolítico que mata mais rápido — e o único em que o primeiro medicamento não baixa o potássio. O gluconato de cálcio compra minutos; a insulina e o salbutamol escondem o problema por horas; só a diálise, o quelante ou o rim tiram potássio do corpo. Confundir essas três camadas é o erro clássico.

Cálcio primeiro, sempreT apiculada e QRS largoDescarte a pseudo-hipercalemiaNão suspenda o iSRAA por reflexo
20 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Hipercalemia é o potássio sérico acima de 5,0–5,5 mEq/L; é o distúrbio eletrolítico com maior potencial de morte súbita.
  2. Antes de tratar um valor isolado, pergunte se ele é real — mas nunca adie o tratamento se o ECG estiver alterado.
  3. O tratamento tem três camadas com objetivos diferentes, iniciadas em paralelo: estabilizar (cálcio), deslocar (insulina, salbutamol) e eliminar (rim, quelante, diálise).
  4. Hipercalemia relevante quase sempre significa excreção comprometida: rim, aldosterona ou fármaco.

O que é hipercalemia

Hipercalemia é o potássio sérico acima de 5,0 a 5,5 mEq/L, conforme o corte adotado pelo laboratório. É o distúrbio eletrolítico com maior potencial de morte súbita: a progressão para fibrilação ventricular ou assistolia pode ocorrer em minutos, sem sintomas de aviso.

Duas particularidades organizam todo o raciocínio. A primeira é que o resultado pode ser falso — a pseudo-hipercalemia por hemólise da amostra, garroteamento prolongado ou leucocitose extrema é comum e leva a tratamentos desnecessários. A segunda é que o tratamento agudo tem três camadas com objetivos diferentes, e confundi-las é o erro mais frequente do tema.

O não reduz o potássio: ele protege o miocárdio enquanto as outras medidas agem. Insulina e salbutamol escondem o potássio dentro da célula por 4 a 6 horas. Só o rim, o quelante e a diálise removem potássio do corpo.

Faixas de gravidade

A classificação orienta a intensidade da resposta, mas há um princípio que a sobrepõe: qualquer alteração eletrocardiográfica atribuível transforma o caso em emergência, mesmo com valores intermediários. O inverso também vale — muitos pacientes com potássio alto crônico não têm alteração alguma.

Normal — 3,5 a 5,0 mEq/L

Faixa de referência. Em doente renal crônico, valores no limite superior exigem vigilância e revisão da prescrição.

Leve — 5,1 a 5,9 mEq/L

Habitualmente assintomática. Revisar dieta e fármacos, tratar a causa e reavaliar; raramente exige medida aguda.

Moderada — 6,0 a 6,4 mEq/L

Exige eletrocardiograma, monitorização e início das medidas de deslocamento e de eliminação.

Grave — a partir de 6,5 mEq/L

Ou qualquer valor com alteração no ECG. Emergência: cálcio, deslocamento e eliminação simultâneos, com monitorização contínua.

A velocidade de instalação pesa muito: um renal crônico dialítico pode tolerar 6,5 mEq/L sem alteração no traçado, enquanto uma subida aguda para 6,0 em paciente previamente normal pode cursar com alargamento do QRS. Trate o paciente e o eletrocardiograma, não apenas o número. Atualização: a UK Kidney Association (2023) e o ERC (2025) chamam de leve a faixa de 5,5 a 5,9 mEq/L; entre 5,1 e 5,4 o valor está acima da referência e pede revisão de causa, mas sem medida aguda.

Por que o coração para

O potássio extracelular define o potencial de repouso de membrana. Quando ele sobe, a membrana se despolariza parcialmente e os canais rápidos de sódio ficam inativados — a célula perde a capacidade de gerar e conduzir o potencial de ação.

  • Repolarização acelerada — produz a onda T apiculada, estreita e simétrica, o achado mais precoce.
  • Perda de excitabilidade atrial — achatamento e depois desaparecimento da onda P.
  • Condução lentificada — prolongamento do PR e alargamento progressivo do QRS.
  • Fusão QRS-T — a onda sinusoidal, que antecede a fibrilação ventricular e a assistolia.
  • Papel do cálcio — restaura o gradiente entre o potencial de repouso e o limiar, devolvendo excitabilidade sem alterar a calemia.

Onde o corpo perde o controle

  • Rim — responde por cerca de 90% da excreção, no túbulo coletor, dependente de aldosterona e de fluxo distal de sódio.
  • Reserva enorme — o rim normal tolera cargas muito altas de potássio; por isso a hipercalemia significativa quase sempre implica excreção comprometida.
  • Célula — a bomba sódio-potássio tampona variações agudas; insulina e estímulo beta-2 a estimulam.
  • Intestino — via secundária, que ganha importância na doença renal crônica avançada.
A consequência prática

Hipercalemia por ingesta isolada praticamente não existe com rim normal. Diante de um potássio alto, a pergunta obrigatória é: qual é o problema de excreção — função renal, aldosterona ou fármaco?

Contexto clínico

Doença renal

Presente na maioria dos casos graves; o risco cresce muito abaixo de 30 mL/min de filtração glomerular.

Fármacos

Inibidores do sistema renina-angiotensina, antagonistas mineralocorticoides e sulfametoxazol-trimetoprima lideram.

Mortalidade

Associação independente com mortalidade, sobretudo na insuficiência cardíaca e na doença renal crônica.

Falso-positivo

Pseudo-hipercalemia é responsável por parcela relevante dos resultados alterados na emergência.

Recorrência

Episódio prévio é o melhor preditor de novo episódio — o manejo crônico é parte do tratamento.

As três perguntas diante de um potássio alto

  1. O resultado é real?

    Procure hemólise, garrote prolongado, contração do punho, demora no processamento, leucocitose ou plaquetose extremas. Repetir a coleta é conduta — mas nunca adie o tratamento se houver alteração no ECG.

  2. Há alteração no eletrocardiograma?

    É o que define a urgência. Onda T apiculada, perda de P, alargamento do QRS ou bradiarritmia indicam cálcio imediato, sem esperar nova dosagem.

  3. Por que a excreção falhou?

    Função renal, volemia, aldosterona e prescrição. Sem responder a isso, o potássio volta a subir assim que a insulina perder efeito.

Revise a prescrição desde o primeiro minuto: inibidores da enzima conversora, bloqueadores do receptor de angiotensina, espironolactona, amilorida, anti-inflamatórios, sulfametoxazol-trimetoprima, heparina, betabloqueador e substitutos do sal aparecem em grande parte dos casos.

ECG primeiro, cálcio se alterado, deslocar e eliminar em paralelo — e só depois a investigação completa da causa.

Em 30 segundos

O essencial de causas

  1. Três mecanismos: excreção reduzida (o dominante), saída do potássio da célula e aporte excessivo.
  2. Aporte isolado raramente causa hipercalemia — quase sempre depende de excreção já comprometida.
  3. Os fármacos que bloqueiam o eixo renina-angiotensina-aldosterona são a causa medicamentosa mais comum.
  4. Pseudo-hipercalemia entra no diferencial de todo potássio alto sem causa plausível.

Os três mecanismos

Excreção reduzida, saída do potássio da célula e aporte excessivo. Este último raramente é causa isolada — quase sempre depende de excreção já comprometida. Na prática, o raciocínio útil é perguntar duas coisas: o rim está conseguindo eliminar, e há tecido lesado liberando potássio? Antes de tudo isso, porém, confirme que o valor é real — a pseudo-hipercalemia é frequente e evita tratamentos desnecessários.

MecanismoCausas principaisPista prática
Excreção reduzidaLesão renal aguda, doença renal crônica avançada, hipovolemia com baixo fluxo distal, hipoaldosteronismo hiporreninêmico (acidose tubular renal tipo 4, clássica na nefropatia diabética), insuficiência adrenal, uropatia obstrutiva e os fármacos que bloqueiam o eixo renina-angiotensina-aldosterona.É o mecanismo dominante. Creatinina, diurese e revisão da prescrição resolvem a maior parte dos casos.
Saída da célulaAcidose metabólica mineral, deficiência de insulina com hiperglicemia e hiperosmolaridade, betabloqueadores, intoxicação digitálica, succinilcolina, rabdomiólise, síndrome de lise tumoral, hemólise maciça, grandes queimaduras, exercício extenuante, paralisia periódica hipercalêmica.Costuma ser aguda e acompanhada de lesão tecidual — procure creatinoquinase, ácido úrico, fósforo e cálcio.
Aporte excessivoSubstitutos do sal à base de cloreto de potássio, suplementos, dieta muito rica em potássio, transfusão maciça de hemácias estocadas, nutrição parenteral, penicilina potássica em dose alta, ervas e sucos concentrados.Só produz hipercalemia relevante quando a excreção já está comprometida. Pergunte ativamente sobre "sal light" e suplementos.
Pseudo-hipercalemiaHemólise da amostra, garroteamento prolongado com contração do punho, punção difícil, demora no processamento, refrigeração inadequada, leucocitose acima de 100 mil, plaquetose acima de 500 mil, coleta acima de acesso com infusão de potássio, contaminação por EDTA (ordem errada dos tubos).Potássio alto sem causa plausível, sem alteração no ECG e em paciente assintomático.

Os fármacos que mais causam

A maioria dos fármacos implicados age no mesmo ponto: reduz a aldosterona ou bloqueia o canal de sódio do túbulo coletor, onde o potássio é secretado. Por isso o efeito é somatório — duas ou três drogas individualmente "seguras" bastam para elevar o potássio em quem tem filtração reduzida. A revisão da prescrição, incluindo o que é de venda livre, é parte obrigatória da investigação.

Inibidores do sistema renina-angiotensina

Inibidores da enzima conversora, bloqueadores do receptor de angiotensina e o sacubitril-valsartana. São a causa medicamentosa mais comum — e, ao mesmo tempo, fármacos que salvam vidas e não devem ser suspensos por reflexo.

Antagonistas mineralocorticoides

Espironolactona, eplerenona e a finerenona. Risco maior quando combinados a inibidores do sistema renina-angiotensina e a filtração glomerular reduzida.

Sulfametoxazol-trimetoprima

A trimetoprima bloqueia o canal epitelial de sódio como a amilorida — causa subestimada e frequente, sobretudo em doses altas e em idosos.

Anti-inflamatórios não esteroidais

Reduzem a renina e a filtração glomerular; efeito somado ao dos demais e frequentemente esquecido por serem de venda livre.

Heparina

Inibe a síntese de aldosterona, inclusive em dose profilática e com heparina de baixo peso molecular.

Substitutos do sal

O "sal light" é cloreto de potássio. É causa recorrente em cardiopatas e renais orientados a reduzir sódio — pergunte diretamente.

Outros implicados: inibidores de calcineurina (ciclosporina e tacrolimo), betabloqueadores não seletivos, digoxina em intoxicação, succinilcolina, pentamidina e imunoglobulina endovenosa.

Quem está sob maior risco

O paciente de risco quase sempre combina dois fatores: menos capacidade de excretar e alguma carga extra, seja de fármaco, de dieta ou de tecido lesado. Reconhecer esses perfis permite antecipar — pedir potássio antes de iniciar ou aumentar um bloqueador do eixo, e repetir a dosagem com mais frequência em quem já está no limite.

  • Doença renal crônica com filtração abaixo de 30 mL/min — o risco cresce de forma acentuada nessa faixa.
  • Nefropatia diabética — o hipoaldosteronismo hiporreninêmico da acidose tubular tipo 4 é característico.
  • Insuficiência cardíaca em terapia otimizada — combinação de inibidor do sistema renina-angiotensina com antagonista mineralocorticoide.
  • Idoso em uso de múltiplos fármacos — o efeito é somatório e frequentemente despercebido.
  • Lesão renal aguda oligúrica — qualquer aporte se acumula.
  • Síndrome de lise tumoral e rabdomiólise — liberação maciça de potássio intracelular.
  • Insuficiência adrenal — hipercalemia com hiponatremia e hipotensão deve levantar a hipótese.
  • Transfusão maciça — hemácias estocadas liberam potássio, sobretudo em transfusão rápida e em crianças.

Em 30 segundos

O essencial de clínica e ecg

  1. A hipercalemia costuma ser assintomática até o colapso; o achado que importa é eletrocardiográfico.
  2. Todo potássio ≥ 6,0 mEq/L — ou qualquer valor alto em paciente sintomático ou renal — exige ECG de 12 derivações imediato.
  3. A sequência clássica é T apiculada → perda de P e PR longo → QRS largo → onda sinusoidal → FV ou assistolia, mas a correlação com o número é fraca.
  4. QRS largo, bradicardia abaixo de 50 bpm e ritmo juncional são os achados que mais se associam a eventos graves.

Um distúrbio silencioso

A hipercalemia é frequentemente assintomática até o colapso. Quando há sintomas, são inespecíficos: fraqueza muscular tipicamente ascendente, parestesias, fadiga, palpitações e, nas formas graves, paralisia flácida com poupança relativa da musculatura craniana e respiratória.

O achado que realmente importa não é clínico, e sim eletrocardiográfico. Por isso a regra é simples: todo potássio acima de 6,0 mEq/L, ou qualquer valor elevado em paciente sintomático ou renal, exige eletrocardiograma imediato.

A primeira manifestação cardíaca pode ser fibrilação ventricular ou assistolia, sem pródromo. É justamente por isso que a monitorização é obrigatória nas formas moderadas e graves — no mínimo monitor contínuo com potássio ≥ 6,5 mEq/L, com ECG alterado, ou com 6,0–6,4 mEq/L em paciente instável ou com subida rápida prevista (UKKA 2023).

A progressão eletrocardiográfica

As alterações seguem uma sequência razoavelmente ordenada, mas a correlação com o valor sérico é frouxa: há pacientes com 7,5 mEq/L e traçado quase normal, e outros com 6,0 mEq/L e QRS alargado.

Inicial — onda T apiculada

Estreita, simétrica e de base estreita — diferente da T ampla e assimétrica da isquemia. Melhor vista nas precordiais.

Intermediário — perda da P e PR longo

Achatamento progressivo da P até seu desaparecimento, com prolongamento do intervalo PR e ritmo juncional.

Avançado — QRS largo e onda sinusoidal

Alargamento progressivo do QRS, fusão com a onda T formando a onda sinusoidal, e então fibrilação ventricular ou assistolia.

Da T apiculada ao colapso

Compare cada estágio com o ECG normal — o mesmo paciente pode pular etapas.

ECG normal (comparação)

Referência: P visível, PR e QRS normais, T de amplitude moderada e assimétrica.

  • Onda P presente antes de cada QRS
  • QRS estreito
  • T assimétrica, menor que o QRS nas precordiais

Traçados esquemáticos gerados por computador (25 mm/s, 10 mm/mV) para estudo e comparação. Confirme sempre no ECG de 12 derivações do paciente.

Um eletrocardiograma normal não exclui risco e não autoriza tranquilidade com potássio muito elevado: a sensibilidade do ECG para hipercalemia é baixa, embora a especificidade seja alta. Mas um traçado alterado é indicação absoluta e imediata de cálcio, sem esperar a repetição do exame.

Diagnósticos diferenciais no traçado

AchadoNa hipercalemiaDiferencial
Onda T amplaApiculada, estreita, simétrica e de base estreitaIsquemia hiperaguda: T larga, assimétrica e de base larga, com alterações regionais
QRS largoAlargamento difuso, sem morfologia típica de bloqueio de ramoBloqueio de ramo, ritmo ventricular, intoxicação por bloqueador de canal de sódio
Bradicardia com QRS largoRitmo juncional lento, sem onda P visívelBloqueio atrioventricular total, intoxicação por betabloqueador ou bloqueador de cálcio
Onda sinusoidalFusão QRS-T, pré-paradaPraticamente patognomônica no contexto adequado
Padrão de BrugadaFenocópia de Brugada pode ocorrer na hipercalemia graveSíndrome de Brugada verdadeira, que persiste após a correção
Supradesnível de STPadrão "pseudo-IAM" em V1–V2 na hipercalemia graveIAM com supra: alteração recíproca, dinâmica regional e persistência após corrigir o potássio

Em paciente renal crônico com bradicardia e QRS largo, hipercalemia deve ser a primeira hipótese — e o cálcio endovenoso pode ser administrado empiricamente enquanto o laboratório não volta.

Bradiarritmias da hipercalemia

O potássio alto lentifica o nó sinusal e o nó AV — e soma-se aos bloqueadores do nó.

Bradicardia sinusal

Supressão do nó sinusal; com betabloqueador ou bloqueador de cálcio, compõe a síndrome BRASH.

  • P antes de cada QRS
  • FC ≈ 45 bpm
  • QRS estreito

Traçados esquemáticos gerados por computador (25 mm/s, 10 mm/mV) para estudo e comparação. Confirme sempre no ECG de 12 derivações do paciente.

Síndrome BRASH e marca-passo

BRASH (bradicardia, insuficiência renal, bloqueador do nó AV, choque e hipercalemia) é a bradicardia refratária em que potássio moderado e bloqueador do nó se potencializam: trate o potássio, suspenda o bloqueador e dê cálcio — a atropina costuma falhar. Portadores de marca-passo não estão protegidos: com potássio acima de 7 mEq/L pode haver falha de captura e aumento do limiar (UKKA 2023).

Hipercalemia × hipocalemia no ECG

AchadoHipercalemiaHipocalemia
Onda TApiculada, estreita e simétricaAchatada, de baixa amplitude
Onda UAusenteProeminente, fundindo-se com a T
Onda PAchatada e depois ausenteAmplitude aumentada
QRSAlargamento progressivo até onda sinusoidalAlargamento apenas tardio
Arritmia típicaBradiarritmia, bloqueio, fibrilação ventricular e assistoliaTorsades de pointes e ectopia ventricular
Primeira medidaGluconato de cálcio endovenosoReposição de potássio e magnésio
Os dois lados do potássio

Mesmo traçado de 12 derivações, sentidos opostos na repolarização.

Hipercalemia

T alta, estreita e pontiaguda; P pequena.

  • T apiculada e simétrica nas precordiais
  • Sem onda U
  • P de baixa amplitude

Traçados esquemáticos gerados por computador (25 mm/s, 10 mm/mV) para estudo e comparação. Confirme sempre no ECG de 12 derivações do paciente.

Em 30 segundos

O essencial de diagnóstico

  1. O ECG vem antes de tudo: define a urgência e não depende da confirmação laboratorial.
  2. Na emergência, dose o potássio na gasometria enquanto o laboratório processa a amostra.
  3. Suspeita de artefato: repita com técnica adequada e envie soro e plasma pareados — diferença > 0,4 mEq/L confirma pseudo-hipercalemia.
  4. Função renal, gasometria, glicemia e marcadores de lise orientam o mecanismo e a escolha das medidas.

Investigação passo a passo

  1. Faça eletrocardiograma imediatamente

    Ele define a urgência e não depende da confirmação laboratorial.

  2. Avalie a plausibilidade do resultado

    Há causa que justifique? O paciente tem função renal preservada e nenhum fármaco implicado?

  3. Procure sinais de pseudo-hipercalemia

    Hemólise relatada, punção difícil, garrote prolongado, demora no processamento, leucocitose ou plaquetose extremas.

  4. Repita a coleta quando houver suspeita

    Com técnica adequada — sem atrasar o tratamento se o eletrocardiograma estiver alterado. Na emergência, o potássio da gasometria (arterial ou venosa) orienta a conduta enquanto o laboratório não libera.

  5. Revise a prescrição inteira

    Incluindo medicamentos de venda livre e substitutos do sal.

  6. Avalie a excreção

    Dose creatinina, ureia, sódio, gasometria, glicemia e avalie a diurese — a excreção comprometida é o mecanismo dominante.

  7. Procure lise celular no quadro agudo

    Creatinoquinase, ácido úrico, fósforo, cálcio e desidrogenase lática.

  8. Pense em insuficiência adrenal

    Hipercalemia com hiponatremia e hipotensão sem causa clara: dose cortisol.

Ferramenta — probabilidade de pseudo-hipercalemia

Marque o que estiver presente. A ferramenta pesa os fatores que produzem resultados falsamente elevados e cruza com o eletrocardiograma e a plausibilidade clínica. Nenhum resultado desta ferramenta autoriza adiar o tratamento diante de alteração eletrocardiográfica. Conte quantos fatores de cada grupo estão presentes:

Fatores FORTES (2 pontos cada)

  • Hemólise relatada pelo laboratório na amostra.
  • Punção difícil, garroteamento prolongado ou contração repetida do punho durante a coleta.
  • Leucocitose acima de 100 mil ou plaquetose acima de 500 mil.
  • Função renal preservada, sem fármaco implicado e sem causa plausível identificada.

Fatores FRACOS (1 ponto cada)

  • Demora no processamento ou transporte inadequado da amostra.
  • Coleta acima de acesso venoso com infusão contendo potássio.
  • Paciente completamente assintomático, com exame físico normal.
  • Discordância entre potássio do soro e do plasma, ou entre gasometria e bioquímica.
Pseudo-hipercalemia — leitura

Informe o ECG, a faixa de potássio e quantos fatores de cada grupo estão presentes.

Comece pelo eletrocardiograma e depois conte os fatores presentes.

Ferramenta de apoio. Para reduzir o falso-positivo, a nova coleta deve ser feita sem garrote ou com garroteamento breve, sem contração do punho, com agulha de calibre adequado e processamento rápido, respeitando a ordem dos tubos (EDTA por último). Confirmação: soro e plasma (heparina de lítio) pareados — soro − plasma > 0,4 mEq/L confirma pseudo-hipercalemia (UKKA 2023). Em leucemias com leucocitose extrema, até o plasma pode vir falsamente alto (pseudo-hipercalemia "reversa", agravada pelo tubo pneumático): prefira a gasometria levada em mãos.

O que pedir junto

Eletrocardiograma

O exame mais importante do tema e o que define a urgência. Repita após o tratamento.

Creatinina, ureia e diurese

Definem o mecanismo dominante e a viabilidade da eliminação renal.

Gasometria

Traz o potássio em minutos, identifica acidose metabólica — que contribui para a saída do potássio da célula — e orienta o uso do bicarbonato.

Glicemia

Necessária antes da insulina: com glicemia acima de 250 mg/dL, a glicose pode ser dispensada; abaixo de 126 mg/dL (7 mmol/L), o risco de hipoglicemia é maior.

Creatinoquinase, ácido úrico e fósforo

Rastreiam rabdomiólise e síndrome de lise tumoral quando o quadro é agudo.

Sódio e cortisol

Hipercalemia com hiponatremia e hipotensão levanta a hipótese de insuficiência adrenal.

Calculadoras úteis

Para a gasometria e a acidose associada, use o Interpretador de Gasometria e o Ânion Gap (AG = Na − (Cl + HCO₃); ex.: 138 − (110 + 14) = 14 mEq/L). Para converter mmol/L e mEq/L, o Conversor para Eletrólitos (para o potássio, 1 mmol/L = 1 mEq/L).

Em 30 segundos

O essencial de tratamento

  1. Três camadas iniciadas em paralelo: estabilizar (cálcio), deslocar (insulina + glicose, salbutamol) e eliminar (diurético, quelante, diálise).
  2. Cálcio: 30 mL de gluconato 10% em 10 min ou 10 mL de cloreto 10% em 5 min — protege por 30 a 60 min e não baixa o potássio.
  3. Insulina regular 10 U + 25 g de glicose; se a glicemia prévia for < 126 mg/dL, glicose 10% a 50 mL/h por 5 h e glicemia seriada por 6 h.
  4. Deslocar não é eliminar: dose o potássio em 1, 2, 4, 6 e 24 h e garanta a camada 3.

As três camadas do tratamento

Este é o conceito central do tema, e o que mais gera erro na prática. As medidas têm objetivos diferentes e devem ser iniciadas simultaneamente, não em sequência.

CamadaMedidaInícioO que faz
1. EstabilizarGluconato ou cloreto de cálcio1 a 3 minNão reduz o potássio. Restaura o gradiente entre o potencial de repouso e o limiar, protegendo o miocárdio por 30 a 60 minutos.
2. DeslocarInsulina com glicose; salbutamol inalatório; bicarbonato se houver acidose15 a 30 minEmpurra o potássio para dentro da célula. Efeito de 4 a 6 horas, com rebote depois — não remove potássio do corpo.
3. EliminarDiurético de alça; quelante de potássio; diáliseHorasÚnica camada que remove potássio do organismo. Sem ela, a hipercalemia retorna quando a insulina perde efeito.

O erro mais comum é parar na camada 2: o paciente recebe insulina, o potássio cai, todos se tranquilizam — e ele volta a subir 4 a 6 horas depois, muitas vezes na madrugada. Toda prescrição de insulina para hipercalemia deve vir acompanhada de um plano de eliminação.

Cálcio protege, insulina e salbutamol escondem, só rim, quelante e diálise removem.

Ferramenta — plano terapêutico

Informe os dados e a ferramenta monta as três camadas: indica o cálcio conforme o eletrocardiograma, define o deslocamento e escolhe a via de eliminação pela função renal e pela diurese. A segunda ferramenta ajusta glicose, insulina e bicarbonato; abaixo, o modelo de prescrição completo.

Classificação e as três camadas

Potássio, eletrocardiograma e função renal.

Informe o potássio, o eletrocardiograma e a função renal.
Glicose, insulina e bicarbonato

Glicemia antes da insulina e estado ácido-base.

Informe a glicemia e a gasometria.

A hipoglicemia é a complicação mais frequente do tratamento (cerca de 1 em cada 5 pacientes em séries recentes), com risco maior se a glicemia prévia for < 126 mg/dL, na doença renal e com doses repetidas. Reduzir a insulina para 5 U não diminuiu a hipoglicemia em estudo comparativo — a prevenção recomendada é a glicose 10% e a monitorização (UKKA 2023).

Sugestão de prescrição — hipercalemia grave ou com ECG alterado

1) Eletrocardiograma imediato e monitorização cardíaca contínua.
2) SUSPENDER todas as fontes de potássio: soluções endovenosas, suplementos, substitutos do sal e fármacos retentores.
3) CAMADA 1 — Gluconato de cálcio 10% 30 mL EV em 10 minutos (ou cloreto de cálcio 10% 10 mL EV em 5 minutos, de preferência em acesso central), com monitorização. Não reduz o potássio: protege o miocárdio por 30 a 60 minutos. Repetir se as alterações persistirem após 5–10 min ou retornarem. Não administrar na mesma via que o bicarbonato.
4) CAMADA 2 — Insulina regular 10 U EV + glicose 25 g (50 mL de glicose 50%) em 15 min; com glicemia ≥ 250 mg/dL, dispensar a glicose. Se glicemia prévia < 126 mg/dL: glicose 10% 50 mL/h por 5 horas.
Salbutamol 10 a 20 mg em nebulização (2 a 4 mL da solução 5 mg/mL), como adjuvante à insulina.
5) Bicarbonato de sódio 8,4% apenas se houver acidose metabólica, conforme o déficit e o protocolo.
6) CAMADA 3 — Com diurese: furosemida 40 a 80 mg EV, com volemia adequada e balanço; ciclossilicato de zircônio sódico 10 g VO de 8/8 h (até 72 h). Oligoanúria ou DRC avançada: acionar a NEFROLOGIA para hemodiálise.
7) Potássio em 1, 2, 4, 6 e 24 horas — o efeito do deslocamento termina e há REBOTE.
8) Glicemia capilar em 0, 30, 60, 90, 120, 180, 240, 300 e 360 min após a insulina.
9) Antes da alta: revisar fármacos com critério, orientar dieta e considerar quelante para preservar o inibidor do sistema renina-angiotensina.

Ferramenta de apoio à decisão, não prescrição automática. Ajuste ao cenário e confira a disponibilidade dos quelantes no seu serviço.

Rotas de tratamento

Cada rota abre o detalhamento: indicação, apresentação, dose, início de ação e cuidados — o botão "Ver detalhes" abre a ficha completa. Na hipercalemia grave, as rotas 1 e 2 correm ao mesmo tempo. Confira sempre o protocolo institucional e a bula vigente antes de prescrever.

Monitorização depois das camadas

Potássio

Em 1, 2, 4, 6 e 24 horas após o tratamento da forma moderada ou grave (UKKA 2023).

Glicemia

0, 30, 60, 90, 120, 180, 240, 300 e 360 min após a insulina — mesmo em quem recebeu glicose.

ECG e monitor

Repetir o ECG após o cálcio e manter monitor contínuo até potássio < 6,0 mEq/L e traçado normal.

Em 30 segundos

O essencial de manejo crônico

  1. Suspender iECA, BRA, sacubitril-valsartana ou antagonista mineralocorticoide após um episódio de hipercalemia se associa a mais mortalidade e eventos.
  2. A ordem atual é controlar o potássio para manter o fármaco: corrigir o corrigível, depois diurético, bicarbonato, quelante e iSGLT2.
  3. Reduzir ou suspender é o último recurso — com plano de reintrodução registrado.
  4. Ciclossilicato de zircônio sódico e patiromer permitem manter e titular o iSRAA.

O dilema do inibidor do sistema renina-angiotensina

Diante de um potássio de 5,4 mEq/L em paciente com insuficiência cardíaca ou doença renal crônica, o reflexo mais comum é suspender o inibidor da enzima conversora ou o antagonista mineralocorticoide. Esse reflexo custa vidas.

Os dados são consistentes: a suspensão ou a redução de dose desses fármacos após um episódio de hipercalemia se associa a maior mortalidade e mais eventos cardiovasculares e renais — o dano da retirada supera o risco do potássio elevado controlável. E o problema é frequente: quase metade dos médicos suspende o antagonista mineralocorticoide após um episódio, e uma parcela relevante reduz a dose do inibidor.

A orientação atual inverte a ordem: controle o potássio para manter o fármaco, em vez de retirar o fármaco para controlar o potássio. Reduzir a dose ou suspender deve ser o último recurso, com replanejamento de reintrodução assim que possível.

O que dizem as diretrizes

KDIGO 2024 (DRC): tratar a hipercalemia associada ao iSRAA com medidas para controlar o potássio, em vez de reduzir ou suspender o iSRAA. UKKA 2023: no doente agudo (sepse, hipovolemia, LRA), suspender temporariamente o iSRAA faz parte das "regras do dia de doença"; com potássio ≥ 6,0 mEq/L, suspender até a estabilização e reavaliar a reintrodução; com 5,5–5,9 mEq/L, aumentar a vigilância e corrigir as outras causas.

A escada de decisão

As diretrizes atuais organizam o manejo da hipercalemia em quem usa esses fármacos em três linhas sucessivas, com a suspensão apenas no final.

  1. Primeira linha — corrigir o corrigível

    Revise os fármacos que elevam o potássio e que não são o inibidor: anti-inflamatórios, sulfametoxazol-trimetoprima, heparina, betabloqueador não seletivo e suplementos.

  2. Substitutos do sal e dieta

    Investigue e suspenda os substitutos do sal à base de cloreto de potássio e revise a ingestão dietética com apoio de nutrição.

  3. Fatores agravantes

    Corrija hipovolemia, constipação, acidose metabólica e descompensação da doença de base.

  4. Segunda linha — medidas farmacológicas

    Otimize o diurético de alça ou tiazídico, corrija o bicarbonato quando houver acidose (bicarbonato sérico < 22 mEq/L na DRC) e considere um quelante de potássio.

  5. Quelantes modernos

    Permitem manter ou até titular para cima a dose do inibidor, aumentando a proporção de pacientes em dose-alvo.

  6. Inibidor de SGLT2

    Indicado na maioria desses pacientes, reduz o risco de hipercalemia grave (≈ 16% em metanálise de dados individuais de ensaios randomizados) sem aumentar a hipocalemia.

  7. Terceira linha — reduzir ou suspender

    Apenas quando as medidas anteriores falharam.

  8. Reintrodução

    Se houver suspensão, registre o plano de reintrodução e reavalie na consulta seguinte: a retirada definitiva por inércia é o desfecho a evitar.

Ferramenta — manter o inibidor ou reduzir

Ferramenta para o paciente estável, fora da emergência, em uso de inibidor do sistema renina-angiotensina ou antagonista mineralocorticoide. Informe os dados para estruturar a decisão entre manter, associar quelante ou ajustar a dose.

Escada de decisão do iSRAA

Decisão estruturada e papel do quelante.

Preencha os seis campos para ver a conduta sugerida.

Ferramenta de apoio para decisão ambulatorial. Não se aplica à hipercalemia grave ou com alteração eletrocardiográfica, que é emergência e segue o algoritmo das três camadas. Após qualquer ajuste, reavalie potássio e creatinina em 1 a 2 semanas.

Os quelantes disponíveis

AgenteInícioPerfilCuidados
1 a 6 hSeletivo para potássio e amônio; correção com 10 g 3x/dia por até 72 h, manutenção 5 g 1x/dia; não absorve água, com menos constipação.Carga de sódio (≈ 400 mg por 5 g) e risco de edema; hipocalemia se não titulado.
7 hTroca potássio por cálcio no cólon; 8,4 g 1x/dia; bom perfil de tolerância no uso crônico.Hipomagnesemia e constipação; espaçar 3 h de outros fármacos orais.
Horas a diasResina clássica e amplamente disponível no Brasil; opção quando os novos agentes não estão acessíveis.Início lento e eficácia aguda questionável; risco de necrose intestinal, sobretudo com sorbitol e no pós-operatório.

Nenhum quelante substitui as camadas 1 e 2 na emergência. O ciclossilicato de zircônio tem início mais rápido e foi incorporado aos protocolos de emergência (UKKA 2023, ERC 2025) como adjuvante, mas o cálcio e a insulina continuam sendo o que protege o paciente nos primeiros minutos. A UKKA 2023 deixou de recomendar a resina clássica no tratamento agudo.

Em 30 segundos

O essencial de cenários especiais

  1. Na PCR, hipercalemia é causa reversível: cálcio e bicarbonato em vias separadas, insulina com glicose e diálise precoce.
  2. No dialítico, a diálise é o tratamento definitivo — mas o cálcio vem antes se o ECG estiver alterado.
  3. Na cetoacidose, a insulina do protocolo corrige o potássio; comece a repor quando cair abaixo de 5,0 mEq/L.
  4. Rabdomiólise, lise tumoral e transfusão maciça liberam potássio de forma contínua: espere recorrência.

Parada cardiorrespiratória

Na parada, a hipercalemia é uma das causas reversíveis que mais vale lembrar: pense nela em todo renal crônico, esmagamento ou rabdomiólise que para sem outra explicação. Não há como esperar o laboratório — com suspeita razoável, o tratamento entra junto com a reanimação. Cálcio e bicarbonato precipitam quando se encontram no mesmo equipo, daí a exigência de vias separadas.

O que fazer diferente

Administrar cálcio endovenoso (cloreto 10% 10 mL) e bicarbonato 50 mEq durante a reanimação, em vias separadas ou com lavagem entre eles, associados a insulina com glicose. Considerar diálise durante a RCP refratária ou após o retorno da circulação.

Doença renal crônica dialítica

No dialítico a excreção é praticamente nula: o potássio sobe entre as sessões e, por adaptação crônica, a tolerância clínica costuma ser maior que a de quem faz hipercalemia aguda. A armadilha é tratar a máquina como a primeira medida — montar uma sessão leva tempo, e o miocárdio não espera.

Diálise é o tratamento definitivo, mas o cálcio vem antes se houver alteração no ECG, mesmo com a máquina disponível. As medidas de deslocamento servem como ponte. Reveja dieta, adesão e intervalo interdialítico; quelante pode reduzir a hipercalemia interdialítica.

Liberação contínua de potássio

Rabdomiólise, lise tumoral, esmagamento, grande queimado e transfusão maciça têm o mesmo problema de fundo: a fonte continua liberando potássio depois do primeiro tratamento. Um valor normalizado não encerra o episódio — a recorrência é a regra, e as dosagens precisam ser seriadas e frequentes.

Rabdomiólise e lise tumoral

Liberação contínua a partir do tecido lesado, com hiperfosfatemia e hipocalcemia associadas. Esperar recorrência e repetir dosagens com frequência. Cuidado com o cálcio, que pode agravar a precipitação com o fósforo — use apenas se houver alteração no ECG.

Grande queimado e esmagamento

Liberação maciça a partir do músculo lesado, muitas vezes antes da chegada ao hospital. Antecipar: monitorização precoce, dosagens seriadas e cálcio disponível à beira do leito. Evitar succinilcolina.

Transfusão maciça

Hemácias estocadas liberam potássio, com risco maior em transfusão rápida, em crianças e em bolsas antigas. Monitorizar potássio e cálcio iônico durante o protocolo; preferir bolsas mais recentes em transfusões rápidas e centrais.

Digitálico e síndrome BRASH

Nesses dois cenários a hipercalemia se soma a um bloqueio do nó atrioventricular, e o traçado fica pior do que o potássio isolado explicaria. Na intoxicação digitálica aguda, a hipercalemia é marcador de gravidade; na síndrome BRASH, a bradicardia refratária aparece mesmo com potássio só moderadamente alto. Em ambos, tratar apenas o número não basta.

Intoxicação digitálica

O tratamento específico é o fragmento Fab antidigoxina. O receio clássico do cálcio não se confirmou em séries retrospectivas, mas na dúvida administre-o diluído e lentamente, priorizando o antídoto.

Síndrome BRASH

Bradicardia refratária com insuficiência renal, bloqueador do nó AV e choque. Cálcio, tratamento do potássio, suspensão do bloqueador e suporte hemodinâmico; a atropina costuma falhar.

Cetoacidose diabética

Na cetoacidose, o potássio sérico pode estar alto na admissão apesar de um déficit corporal importante: a falta de insulina e a acidose mantêm o potássio fora da célula. A própria insulina do protocolo o empurra de volta — o risco real, horas depois, é a hipocalemia.

A insulina do próprio tratamento corrige a hipercalemia. Não use quelante nem outras medidas específicas; monitorize e comece a repor potássio quando cair abaixo de 5,0 mEq/L, mantendo-o entre 4 e 5 (consenso ADA/EASD 2024). Com potássio < 3,5, adie a insulina.

Causas hormonais e tubulares

Quando falta aldosterona — ou o túbulo não responde a ela — o potássio sobe de forma persistente, sem lesão tecidual e muitas vezes com acidose hiperclorêmica junto. Aqui as medidas agudas apenas ganham tempo: a correção depende de tratar o eixo hormonal ou o fármaco responsável.

Insuficiência adrenal

Hipercalemia com hiponatremia, hipotensão e hipoglicemia; hipoaldosteronismo é o mecanismo. Reposição de corticoide corrige o distúrbio; dose cortisol antes de iniciar, sempre que a estabilidade permitir.

Acidose tubular renal tipo 4

Hipoaldosteronismo hiporreninêmico, clássico da nefropatia diabética, com hipercalemia e acidose metabólica hiperclorêmica. Diurético de alça, bicarbonato de sódio e, em casos selecionados, fludrocortisona sob acompanhamento especializado.

Pós-transplante renal

Inibidores de calcineurina causam hipercalemia com acidose tubular, de forma dose-dependente. Ajustar nível sérico do imunossupressor, corrigir acidose e usar diurético; a suspensão do imunossupressor não é opção.

Erros comuns

Quase todos os erros na hipercalemia vêm de duas confusões: achar que o cálcio trata o potássio e achar que normalizar o exame encerra o problema. Os demais são de dose (cálcio e salbutamol subdosados) e de seguimento (fármacos retentores esquecidos, ou suspensos e nunca reintroduzidos).

  • Não fazer eletrocardiograma imediatamente diante de um potássio elevado.
  • Adiar o tratamento para repetir o exame em paciente com alteração no traçado.
  • Achar que o gluconato de cálcio reduz o potássio — ele apenas protege o miocárdio.
  • Subdosar o cálcio: 10 mL de gluconato 10% é um terço da dose equivalente recomendada hoje.
  • Parar na camada de deslocamento e não programar a eliminação, gerando rebote em 4 a 6 horas.
  • Prescrever insulina sem glicose em paciente normoglicêmico, ou sem monitorizar a glicemia depois.
  • Usar dose de salbutamol de crise asmática, muito inferior à necessária para deslocar potássio.
  • Prescrever bicarbonato de rotina, mesmo sem acidose metabólica.
  • Confiar na resina clássica como medida aguda, quando seu início é lento e a eficácia questionável.
  • Não revisar substitutos do sal, anti-inflamatórios e sulfametoxazol-trimetoprima.
  • Suspender o inibidor do sistema renina-angiotensina por reflexo, sem tentar as medidas anteriores.
  • Suspender o inibidor e nunca reintroduzi-lo, por inércia no seguimento.
  • Postergar a diálise em paciente anúrico com hipercalemia grave.

Resumo do fluxo

O fluxo segue sempre a mesma lógica de camadas: primeiro proteger o coração, depois empurrar o potássio para dentro da célula e, por fim, tirá-lo do corpo. O erro mais comum não está em nenhum passo isolado, mas em parar no meio — o deslocamento dura poucas horas, e sem eliminação programada o potássio volta.

  1. ECG imediato

    E monitorização contínua se o potássio for maior ou igual a 6,0 mEq/L com instabilidade, ou ≥ 6,5 mEq/L.

  2. Cálcio se o traçado estiver alterado

    Alteração no traçado ou instabilidade: 30 mL EV em 10 min (ou cloreto 10% 10 mL em 5 min), agora, sem esperar nova dosagem.

  3. Corte as fontes

    Suspenda imediatamente todas as fontes de potássio: soluções, suplementos, substitutos do sal e fármacos retentores.

  4. Camada 2 — desloque

    EV, associada a 10 a 20 mg em nebulização.

  5. Bicarbonato só com acidose

    Acrescente apenas se houver acidose metabólica.

  6. Camada 3 — elimine

    se houver diurese, e, na anúria ou refratariedade, .

  7. Antecipe o rebote

    Reavalie o potássio em 1, 2, 4, 6 e 24 horas.

  8. Glicemia e alta

    Monitorize a glicemia capilar por 6 horas (0, 30, 60, 90, 120, 180, 240, 300 e 360 min) e planeje o manejo crônico antes da alta.

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    Documento oficial
    Bulas vigentes de gluconato de cálcio 10%, cloreto de cálcio 10%, insulina regular, salbutamol, bicarbonato de sódio 8,4%, poliestirenossulfonato de cálcio (Sorcal®) e ciclossilicato de zircônio sódico (Lokelma®) registradas na Anvisa.

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