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Atlas de Oftalmologia • Pálpebras

Blefarite

Inflamação crônica da margem palpebral • anterior (estafilocócica, seborreica, Demodex) e posterior (disfunção meibomiana)

Inflamação crônica e recorrente da margem das pálpebras, com crostas nos cílios, vermelhidão, ardor e olho seco. Não tem cura definitiva: é controlada com higiene palpebral diária, e os medicamentos — antibióticos, anti-inflamatórios e acaricidas — entram conforme o tipo e a gravidade.

Margem palpebralCrônica e recorrenteEstafilococo, seborreia, DemodexHigiene palpebral
18–22 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça o achado

Imagem clínica

Blefarite: margens palpebrais hiperemiadas e espessadas, com crostas e escamas na base dos cílios. Toque para ampliar.

Principais achados
  1. 1
    Hiperemia e espessamento da margem palpebral
  2. 2
    Escamas, crostas e colaretes na base dos cílios
  3. 3
    Orifícios meibomianos obstruídos e secreção espessa
  4. 4
    Telangiectasias da margem (rosácea, disfunção meibomiana)
  5. 5
    Filme lacrimal espumoso e tempo de ruptura curto
  6. 6
    Perda, quebra ou desvio de cílios (madarose, triquíase)

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Blefarite é uma inflamação crônica da margem palpebral, uma das causas mais comuns de consulta oftalmológica.
  2. Anterior: base dos cílios (estafilocócica, seborreica, Demodex). Posterior: glândulas de Meibômio (disfunção meibomiana).
  3. Os sintomas são crônicos e flutuantes; a doença é controlada, não curada.
  4. Higiene palpebral diária é a base; medicamentos entram conforme o tipo e a gravidade.

O que é blefarite

A margem palpebral é colonizada por bactérias (sobretudo estafilococos), ácaros (Demodex) e banhada pela secreção das glândulas. Na blefarite, esse equilíbrio se perde: há proliferação bacteriana, reação às toxinas e aos lipídios alterados, e inflamação persistente.

O resultado é um ciclo: secreção anormal → inflamação → obstrução das glândulas → filme lacrimal instável → olho seco → mais inflamação. A Academia Americana de Oftalmologia (PPP 2024) enfatiza que o paciente precisa saber que a doença é crônica e que o tratamento é de longo prazo.

Blefarite é crônica: o tratamento controla os sintomas, e a higiene palpebral diária precisa continuar mesmo depois da melhora.

Classificação

A classificação anatômica orienta o exame e o tratamento. As formas se sobrepõem com frequência.

Anterior estafilocócica

Crostas duras e escamas fibrinosas em volta dos cílios; ulcerações ao removê-las; madarose, triquíase; mais em mulheres jovens.

Anterior seborreica

Escamas oleosas e moles; dermatite seborreica de couro cabeludo e face; mais em idosos.

Demodex

Colaretes (mangas cilíndricas) na base dos cílios; prurido intenso; ácaros ao microscópio.

Posterior (disfunção meibomiana)

Orifícios tampados, secreção espessa "em pasta de dente", telangiectasias; olho seco evaporativo; associação com rosácea.

Condições associadas

Rosácea

Forte associação com disfunção meibomiana; muitas vezes a pele é discreta.

Dermatite seborreica e atópica

Blefarite seborreica; atopia aumenta colonização estafilocócica.

Olho seco

Coexiste em boa parte dos pacientes.

Medicamentos

Isotretinoína, dupilumabe e outros causam disfunção meibomiana ou blefarite.

Lentes de contato

Intolerância e desconforto.

Cirurgia ocular

Blefarite aumenta o risco de endoftalmite: tratar antes de operar.

Em 30 segundos

O essencial de quadro clínico

  1. Sintomas bilaterais, crônicos e flutuantes, piores pela manhã (anterior) ou ao fim do dia (posterior).
  2. Estafilocócica: crostas duras, madarose, triquíase, ceratite marginal.
  3. Demodex: colaretes cilíndricos e prurido.
  4. Disfunção meibomiana: orifícios tampados, secreção espessa, telangiectasias, olho seco.

Sintomas

A intensidade dos sintomas nem sempre acompanha os sinais. Pacientes com poucos achados podem ter muito desconforto, e vice-versa.

Ardor

Queixa mais frequente.

Prurido

Sobretudo na margem e nos cantos; marcado no Demodex.

Corpo estranho

Sensação de areia; piora ao acordar.

Lacrimejamento

Reflexo à irritação; olhos grudados.

Fotofobia

Leve; intensa sugere ceratite.

Visão flutuante

Filme lacrimal instável; melhora ao piscar.

Sinais por tipo

Cada tipo deixa uma "assinatura" na margem. Saber reconhecê-las ajuda a escolher o tratamento.

Anterior

Estafilocócica

Crostas duras e escamas em volta dos cílios; ao retirar, pequenas ulcerações; cílios quebrados e desviados.

Patognomônico

Colaretes de Demodex

Mangas cilíndricas, translúcidas, que envolvem a base dos cílios como um "colarinho".

Posterior

Disfunção meibomiana

Orifícios com tampões ("capping"), secreção turva e espessa à pressão, telangiectasias e margem arredondada.

Rosácea ocular

A rosácea ocular pode preceder as lesões da pele ou ser a única manifestação. Combina disfunção meibomiana com telangiectasias da margem, hiperemia conjuntival e, nos casos graves, ceratite com vascularização e afinamento da córnea. Pergunte por rubor facial com calor, álcool e comidas condimentadas.

Rosácea ocular grave com ceratite e afinamento corneano exige tratamento sistêmico e acompanhamento próximo pelo oftalmologista.

Em 30 segundos

O essencial de diagnóstico

  1. Diagnóstico clínico, por história e biomicroscopia.
  2. Avaliar margem anterior, posterior, filme lacrimal, conjuntiva e córnea.
  3. Cílios com colaretes: pode-se retirar e examinar ao microscópio (Demodex).
  4. Biópsia se unilateral, assimétrica ou refratária (carcinoma sebáceo).

Exame na lâmpada de fenda

O exame segue a anatomia, da pele para a córnea. A PPP da AAO recomenda avaliar também a pele da face (rosácea), o filme lacrimal e a córnea.

  1. Pele e face

    Rosácea (eritema, telangiectasias, pápulas), dermatite seborreica, atopia.

  2. Margem anterior

    Hiperemia, escamas, crostas, colaretes, ulcerações, madarose, triquíase, poliose.

  3. Margem posterior

    Orifícios meibomianos (tampados, recuados), telangiectasias, irregularidade da margem.

  4. Expressão das glândulas

    Pressão suave na pálpebra inferior: secreção clara (normal), turva, granular ou em pasta (disfunção).

  5. Filme lacrimal

    Espuma no menisco; tempo de ruptura com fluoresceína (curto em disfunção meibomiana).

  6. Conjuntiva e córnea

    Papilas, hiperemia, ceratite puntata inferior, infiltrados marginais, flictênulas, vascularização.

Exames complementares

Microscopia de cílios

Epilação de cílios com colaretes e exame ao microscópio: contagem de Demodex.

Cultura da margem

Casos recorrentes ou refratários com inflamação anterior importante.

Meibografia

Imagem infravermelha das glândulas: atrofia e perda glandular.

Biópsia

Blefarite unilateral, refratária ou com perda localizada de cílios: excluir carcinoma sebáceo.

Diagnóstico diferencial

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Achado-chavePele da pálpebra descamativa
Como diferenciarAcomete a pele, não a margem; prurido; gatilhos de contato.
Achado-chavePrurido, papilas, sazonalidade
Como diferenciarMargem normal; quemose e papilas tarsais.
Olho seco por deficiência aquosa
Achado-chaveMenisco lacrimal baixo, Schirmer reduzido
Como diferenciarGlândulas meibomianas normais; pensar em Sjögren.
Achado-chavePápula umbilicada na margem
Como diferenciarConjuntivite folicular unilateral.
Achado-chaveEncurtamento de fundo de saco, simbléfaro
Como diferenciarConjuntivite cicatricial progressiva; biópsia com imunofluorescência.
Carcinoma sebáceo
Achado-chaveBlefarite unilateral refratária, madarose
Como diferenciarIdoso; espessamento localizado; biópsia.

Galeria clínica

Use a lâmpada de fenda mentalmente: base dos cílios, margem posterior, lágrima e córnea. Toque para ampliar.

Blefarite anterior com crostas

Margem vermelha e espessada com crostas aderidas à base dos cílios. Note cílios quebrados e falhas (madarose), sinais de inflamação crônica estafilocócica.

AnteriorCrostasMadarose

Colaretes de Demodex

Mangas cilíndricas translúcidas envolvendo a base de vários cílios. São patognomônicas da infestação por Demodex e não saem com uma limpeza simples.

DemodexColaretes

Disfunção meibomiana

Margem posterior com orifícios tampados e telangiectasias; à expressão, sai secreção espessa e turva. O filme lacrimal mostra espuma no menisco.

PosteriorMeibômioOlho seco

Infiltrado marginal estafilocócico

Infiltrado branco na periferia da córnea, separado do limbo por faixa transparente, na posição em que a margem toca a córnea. É reação de hipersensibilidade, não infecção.

ComplicaçãoCórneaHipersensibilidade

Em 30 segundos

O essencial de tratamento

  1. Explique que a doença é crônica: o objetivo é controle.
  2. Higiene palpebral diária (compressas mornas + limpeza da margem) para todos.
  3. Demodex: lotilaner 0,25% por 6 semanas (onde disponível) ou óleo de melaleuca.
  4. Disfunção meibomiana moderada a grave e rosácea: doxiciclina ou azitromicina oral.

Higiene palpebral

É o pilar do tratamento em todas as formas, recomendado pela PPP da AAO. Deve ser feita uma a duas vezes ao dia, de forma indefinida, e intensificada nas crises.

  1. Calor

    Compressa morna 5–10 min.

  2. Massagem

    Rolar o dedo em direção à margem.

  3. Limpeza

    Base dos cílios com gaze e solução própria.

  4. Regularidade

    Todo dia, mesmo sem sintomas.

Calor e massagem vigorosos devem ser evitados em pacientes com glaucoma avançado ou cirurgia filtrante; pacientes com neuropatia periférica ou idosos podem se queimar com compressas quentes demais.

Procedimentos no consultório

Termopulsação

Aquecimento e expressão das glândulas meibomianas por dispositivo.

Luz intensa pulsada

Reduz telangiectasias e inflamação na disfunção meibomiana e rosácea.

Microblefaroexfoliação

Remoção mecânica de crostas e biofilme da margem.

Rotas de tratamento

As rotas seguem o tipo predominante. A higiene palpebral continua em todas. Os esquemas são de referência (PPP AAO 2024) e variam entre serviços.

Seguimento

Reavaliar em semanas a poucos meses conforme a gravidade. Pacientes em corticoide tópico precisam medir a pressão intraocular. Antes de cirurgia intraocular, a blefarite deve estar controlada, pela associação com endoftalmite.

Em 30 segundos

O essencial de complicações

  1. Margem: hordéolos, calázios, madarose, triquíase, poliose, cicatriz.
  2. Córnea: ceratite puntata, infiltrados marginais, flictênulas, vascularização.
  3. Criança: blefaroceratoconjuntivite com risco de cicatriz e ambliopia.
  4. Olho seco evaporativo e intolerância a lentes de contato.

Complicações da blefarite

EstruturaComplicaçãoMecanismo / pista
GlândulasHordéolo, calázioObstrução e infecção das glândulas
CíliosMadarose, triquíase, polioseInflamação crônica dos folículos
MargemEspessamento, entalhes, cicatrizFibrose da margem
CórneaCeratite puntata inferiorToxinas estafilocócicas
CórneaInfiltrados marginaisHipersensibilidade a antígenos estafilocócicos; faixa clara junto ao limbo
Conjuntiva/córneaFlictênulasNódulo inflamatório no limbo; hipersensibilidade (estafilococo, tuberculose)
CórneaVascularização, afinamentoRosácea ocular e blefaroceratoconjuntivite graves

Blefaroceratoconjuntivite na criança

Em crianças, a blefarite pode cursar com fotofobia intensa, flictênulas, infiltrados e vascularização corneana. Muitas vezes é confundida com conjuntivite alérgica ou infecciosa. O tratamento usa macrolídeos (tetraciclinas são contraindicadas abaixo de 8 anos) e corticoide tópico controlado, com atenção à ambliopia.

Referências bibliográficas

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Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de referências clínicas reais e de representações anatômicas didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui a avaliação oftalmológica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. Esquemas de antibióticos orais e tópicos variam entre serviços; lotilaner pode não estar disponível no Brasil.

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