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Doença de Stargardt

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Doença de Stargardt

Distrofia macular de Stargardt • STGD1 • doença relacionada ao ABCA4 • fundus flavimaculatus

A distrofia macular hereditária mais comum, em geral autossômica recessiva por variantes no gene ABCA4. Começa na infância ou adolescência com perda visual central bilateral, às vezes com fundo de olho quase normal, e evolui com flecks amarelados e atrofia macular. A autofluorescência é o exame-chave; não há tratamento aprovado, mas moduladores do ciclo visual mostraram resultados em fase 3.

ABCA4 — autossômica recessivaInfância e adolescênciaAutofluorescênciaEvitar suplemento de vitamina A
15–18 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça o achado

Imagem clínica

Doença de Stargardt: atrofia macular central com aspecto de "bronze batido", cercada por flecks amarelados pisciformes; área ao redor do disco poupada. Toque para ampliar.

Principais achados
  1. 1
    Mácula com aspecto de "bronze batido" ou atrofia em olho de boi
  2. 2
    Flecks amarelados pisciformes no polo posterior
  3. 3
    Poupança da região peripapilar
  4. 4
    Coroide silenciosa na angiofluoresceinografia
  5. 5
    Autofluorescência: flecks brilhantes, atrofia escura
  6. 6
    OCT: afinamento foveal e perda da zona elipsoide

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Stargardt é a distrofia macular hereditária mais comum (cerca de 1 em 8.000–10.000 pessoas).
  2. Causa: variantes bialélicas no gene ABCA4 (autossômica recessiva).
  3. Perda visual central bilateral, simétrica, a partir da infância ou adolescência.
  4. Achados: bronze batido, flecks pisciformes, atrofia, poupança peripapilar, coroide silenciosa.

O que é doença de Stargardt

Karl Stargardt descreveu, em 1909, uma doença familiar de perda visual central em jovens com manchas amareladas na mácula. Hoje ela é entendida como a forma mais comum das doenças relacionadas ao ABCA4, um espectro que vai do fundus flavimaculatus de início tardio à distrofia de cones e bastonetes grave.

A gravidade depende da combinação de variantes: alelos "nulos" causam doença precoce e extensa; alelos hipomórficos, como o c.5603A>T (p.Asn1868Ile), associam-se a formas tardias e brandas, frequentemente com fóvea poupada.

Stargardt = ABCA4 + lipofuscina. Por isso o exame-chave é a autofluorescência e a orientação-chave é evitar suplementos de vitamina A.

Formas e genes

FormaGene / herançaComentário
STGD1 (clássica)ABCA4 — autossômica recessivaMais de 95% dos casos; espectro amplo de gravidade
Fundus flavimaculatusABCA4Início mais tardio, flecks difusos, mácula às vezes preservada
Início tardio com fóvea poupadaABCA4 (alelos hipomórficos)Atrofia parafoveal; acuidade preservada por anos
STGD3 (Stargardt-like)ELOVL4 — autossômica dominanteRara; sem coroide silenciosa típica
STGD4PROM1 — autossômica dominanteRara; maculopatia em olho de boi

Em 30 segundos

O essencial de quadro clínico

  1. Baixa visual central bilateral e simétrica, sem melhora com refração.
  2. Fotofobia, adaptação lenta ao escuro e discromatopsia são comuns.
  3. Fundo pode ser quase normal no início — a acuidade cai antes.
  4. Evolução: bronze batido → flecks → atrofia macular (olho de boi) → atrofia extensa.

Sintomas

A queixa costuma surgir na idade escolar: dificuldade para ler a lousa, aproximar-se da TV, piora do desempenho. A visão periférica é preservada, e por isso a criança se locomove bem, o que pode levar à suspeita equivocada de simulação.

Baixa visual central

Bilateral, progressiva; muitos chegam a 20/200.

Escotoma central

Fixação excêntrica com o tempo.

Fotofobia

Desconforto à luz intensa.

Adaptação ao escuro

Lenta (acúmulo no ciclo visual).

Cores

Discromatopsia nas formas avançadas.

Periferia

Preservada na maioria.

Evolução do fundo de olho

Inicial

Bronze batido

Reflexo foveal ausente e aspecto metálico, granular, da mácula; flecks escassos.

Intermediária

Flecks e olho de boi

Flecks pisciformes ao redor da mácula e atrofia central em anel.

Tardia

Atrofia extensa

Atrofia do EPR e da coriocapilar no polo posterior; flecks reabsorvidos.

Grupos eletrofisiológicos

O ERG de campo total separa três grupos com prognósticos diferentes. Pacientes podem migrar de grupo ao longo do tempo.

GrupoERGImplicação
1Campo total normal; ERG padrão (pattern) e multifocal alteradosDoença restrita à mácula; melhor prognóstico
2Disfunção generalizada de conesIntermediário
3Disfunção generalizada de cones e bastonetesDoença extensa; pior prognóstico

Lois N et al., Arch Ophthalmol 2001.

Em 30 segundos

O essencial de diagnóstico

  1. Autofluorescência: o exame mais útil para diagnóstico e seguimento.
  2. OCT: perda da zona elipsoide e afinamento da retina externa na fóvea.
  3. Angiografia (hoje pouco necessária): coroide silenciosa.
  4. Teste genético: duas variantes patogênicas em ABCA4.

Investigação

  1. História e heredograma

    Idade de início, consanguinidade, irmãos afetados.

  2. Acuidade, refração e visão de cores

    Baixa visual que não corrige; discromatopsia.

  3. Fundo de olho

    Bronze batido, flecks, atrofia, poupança peripapilar.

  4. Autofluorescência

    Flecks hiperautofluorescentes, atrofia hipoautofluorescente, fundo difusamente aumentado.

  5. OCT

    Perda da zona elipsoide, afinamento, depósitos hiper-refletivos na retina externa.

  6. ERG campo total, padrão e multifocal

    Grupos 1, 2 e 3.

  7. Painel genético

    ABCA4 e genes de distrofias maculares; teste de segregação nos pais.

Autofluorescência

Como a doença é de lipofuscina, a autofluorescência é o "mapa" de Stargardt: mostra flecks que brilham, áreas que escurecem quando o EPR morre e a característica poupança da região ao redor do disco. A área de autofluorescência "definitivamente reduzida" é o desfecho usado nos ensaios clínicos.

Achado característico

Autofluorescência em Stargardt

Atrofia central escura, flecks hiperautofluorescentes ao redor e faixa peripapilar poupada.

Diagnóstico diferencial

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Achado-chaveMaculopatia, fotofobia, discromatopsia
Como diferenciarERG muito alterado; muitos genes (inclusive ABCA4); sem flecks típicos.
Achado-chaveLesão macular amarela em criança
Como diferenciarGema de ovo; EOG anormal; BEST1 dominante.
Maculopatia por hidroxicloroquina
Achado-chaveOlho de boi
Como diferenciarAdulto em uso prolongado; perda parafoveal; sem flecks.
Achado-chaveAtrofia macular no idoso
Como diferenciarIdade, drusas; sem poupança peripapilar específica.
Achado-chaveCegueira noturna, campo tubular
Como diferenciarEspículas ósseas periféricas; ERG de bastonetes reduzido.
Ambliopia / simulação
Achado-chaveBaixa visual com fundo "normal"
Como diferenciarAutofluorescência e OCT normais; Stargardt mostra alterações.

Galeria multimodal

Compare a retinografia e a autofluorescência do mesmo olho: muitas lesões só ficam evidentes na autofluorescência. Toque para ampliar.

Atrofia macular com flecks

Mácula atrófica, de aspecto metálico, com flecks amarelados pisciformes ao redor. Note que a área próxima ao disco óptico está livre de lesões.

RetinografiaFlecksPoupança peripapilar

Autofluorescência

Área central escura (atrofia) e numerosos flecks brilhantes; alguns flecks antigos já escureceram. Esse é o exame usado para medir progressão.

AutofluorescênciaLipofuscina

OCT foveal

Afinamento da retina externa e perda da zona elipsoide no centro, com depósitos hiper-refletivos nas bordas. Em formas tardias, a fóvea pode estar preservada com perda parafoveal.

OCTZona elipsoide

Coroide silenciosa

Angiofluoresceinografia com fundo coroidiano escuro e vasos retinianos bem destacados — bloqueio pela lipofuscina no EPR.

AngiografiaDark choroid

Em 30 segundos

O essencial de conduta e pesquisa

  1. Não há tratamento aprovado no Brasil que altere a evolução.
  2. Evitar suplementos de vitamina A (retinol, betacaroteno, AREDS com betacaroteno).
  3. Óculos escuros/filtros contra luz intensa; não fumar.
  4. Reabilitação visual precoce, apoio escolar e aconselhamento genético.

Orientações práticas

As recomendações vêm de modelos experimentais e de consensos de especialistas: reduzir a carga de vitamina A e de luz sobre a retina pode desacelerar o acúmulo de bisretinoides. A dieta normal não precisa ser restringida; o cuidado é com suplementos.

Recomendar

  • Óculos escuros e chapéu em ambientes claros
  • Recursos de baixa visão (lupas, ampliação digital, leitores de tela)
  • Adaptações escolares e profissionais
  • Teste genético e aconselhamento

Evitar

  • Suplementos com vitamina A ou betacaroteno
  • Isotretinoína e outros retinoides sem discussão com o especialista
  • Tabagismo
  • Exposição solar intensa sem proteção

Tratamentos em pesquisa

As estratégias buscam reduzir a formação de bisretinoides, substituir o gene ou repor células perdidas. Pacientes devem ser informados sobre ensaios clínicos e registros de doenças hereditárias da retina.

EstratégiaExemplosSituação
Redução da entrada de vitamina A no olhoTinlarebant (antagonista da RBP4, oral)Fase 3 DRAGON positiva (redução de 36% no crescimento das lesões; dez/2025); pedido de registro previsto
Vitamina A modificadaGildeuretinol (vitamina A deuterada)Em estudos clínicos
Moduladores do ciclo visualEmixustatNão atingiu o desfecho primário em fase 3
Terapia gênicaVetores para ABCA4 (gene grande, desafio técnico)Fases iniciais
Terapia celularCélulas de EPR derivadas de células-troncoFases iniciais

Situação em outubro de 2026; nenhum aprovado pela Anvisa.

Seguimento

  • Revisão anual com acuidade, OCT e autofluorescência.
  • Avaliação de baixa visão e atualização dos recursos ópticos.
  • Vigiar neovascularização de coroide (rara), que responde a anti-VEGF.
  • Evitar trauma ocular em esportes de contato.

Em 30 segundos

O essencial de genética e família

  1. Herança autossômica recessiva: pais portadores, 25% de risco para cada filho.
  2. Portadores de uma variante em ABCA4 são comuns na população (cerca de 1 em 20).
  3. Mais de mil variantes descritas; algumas profundas em íntrons exigem sequenciamento completo.
  4. A combinação de variantes ajuda a prever a gravidade.

Aconselhamento genético

Confirmar duas variantes patogênicas em ABCA4 (em trans, comprovado pela análise dos pais) fecha o diagnóstico, orienta a família e é requisito para muitos ensaios clínicos. Como portadores são frequentes, filhos de um paciente com parceiro portador têm 50% de risco.

Pais

Geralmente portadores assintomáticos.

Irmãos

25% de chance de serem afetados; examinar.

Filhos do paciente

Portadores obrigatórios; afetados só se o outro genitor for portador.

Referências bibliográficas

  1. 1
    Artigo2017
    Tanna P, Strauss RW, Fujinami K, Michaelides M. Stargardt disease: clinical features, molecular genetics, animal models and therapeutic options. Br J Ophthalmol. 2017;101(1):25–30.
  2. 2
    Artigo2020
    Cremers FPM, Lee W, Collin RWJ, Allikmets R. Clinical spectrum, genetic complexity and therapeutic approaches for retinal disease caused by ABCA4 mutations. Prog Retin Eye Res. 2020;79:100861.
  3. 3
    Artigo2001
    Lois N, Holder GE, Bunce C, Fitzke FW, Bird AC. Phenotypic subtypes of Stargardt macular dystrophy-fundus flavimaculatus. Arch Ophthalmol. 2001;119(3):359–369.
  4. 4
    Artigo2016
    Strauss RW, Ho A, Muñoz B, et al.; ProgStar Study Group. The natural history of the Progression of Atrophy Secondary to Stargardt Disease (ProgStar) studies: design and baseline characteristics (ProgStar Report No. 1). Ophthalmology. 2016;123(4):817–828.
  5. 5
    Artigo2025
    Belite Bio. Resultados principais do estudo de fase 3 DRAGON (tinlarebant) em adolescentes com doença de Stargardt. Comunicado; dezembro de 2025.
  6. 6
    Livro-texto2025
    American Academy of Ophthalmology. Basic and Clinical Science Course (BCSC), Section 12: Retina and Vitreous. San Francisco: AAO; 2024–2025.
  7. 7
    Livro-texto2020
    Bowling B. Kanski’s Clinical Ophthalmology: A Systematic Approach. 9. ed. Elsevier; 2020.
  8. 8
    Revisão online2026
    EyeWiki — American Academy of Ophthalmology. Stargardt Disease. Acesso em 2026.

Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de referências clínicas reais e de representações anatômicas didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui a avaliação oftalmológica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. Não há tratamento aprovado para a doença de Stargardt no Brasil; informações sobre ensaios clínicos podem mudar rapidamente.

Atlas MedFoco de Oftalmologia • Conteúdo para educação médica. O diagnóstico e a conduta dependem da avaliação clínica individual.

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