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Meibomite

Disfunção das glândulas de Meibômio (DGM) • blefarite posterior • meibomian gland dysfunction

Inflamação crônica das glândulas meibomianas, que produzem a camada lipídica da lágrima. A secreção fica espessa, os orifícios entopem e a lágrima evapora rápido: é a principal causa de olho seco evaporativo. O tratamento combina calor, higiene palpebral e expressão com antibióticos de ação anti-inflamatória nos casos moderados a graves.

Margem palpebral posteriorOlho seco evaporativoExpressão glandular + meibografiaCalor, higiene e tetraciclinas/macrolídeos
16–20 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça o achado

Imagem clínica

Margem palpebral com orifícios meibomianos obstruídos e secreção espessa à expressão. Toque para ampliar.

Principais achados
  1. 1
    Orifícios meibomianos obstruídos ("tampões" ou capping)
  2. 2
    Secreção turva, granulosa ou em pasta à expressão
  3. 3
    Telangiectasias e espessamento da margem posterior
  4. 4
    Tempo de ruptura do filme lacrimal reduzido
  5. 5
    Espuma no menisco lacrimal
  6. 6
    Calázios e hordéolos internos de repetição

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. As glândulas meibomianas (25–40 na pálpebra superior, 20–30 na inferior) produzem os lipídeos que impedem a evaporação da lágrima.
  2. Na meibomite, a secreção fica espessa e os orifícios obstruem: a lágrima evapora e a superfície ocular inflama.
  3. É a causa mais comum de olho seco evaporativo; associa-se a rosácea, dermatite seborreica e idade.
  4. Tratamento crônico: calor + massagem + higiene; tetraciclinas ou azitromicina nas formas moderadas e graves.

O que é meibomite

O termo atual é disfunção das glândulas de Meibômio (DGM): uma anormalidade crônica e difusa das glândulas, em geral com obstrução terminal dos ductos e alteração da qualidade ou da quantidade da secreção. "Meibomite" enfatiza o componente inflamatório e é usada como sinônimo de blefarite posterior.

O meibum anormal tem ponto de fusão mais alto e mais ácidos graxos livres (produzidos por lipases bacterianas). Ele não se espalha bem, irrita a superfície e deixa a lágrima evaporar. A evaporação aumenta a osmolaridade e alimenta um ciclo de inflamação e dano à superfície ocular.

Meibomite é uma doença das glândulas, não só da pele da margem: tratar sem calor e expressão é tratar pela metade.

O ciclo da doença

A DGM se autoalimenta: obstrução leva a estase, estase favorece proliferação bacteriana e lipases, que pioram a secreção e inflamam a margem.

  1. Hiperqueratinização

    O epitélio do ducto descama e tampa o orifício.

  2. Meibum espesso

    Viscosidade alta, estase.

  3. Bactérias e lipases

    Ácidos graxos livres irritantes.

  4. Lágrima evapora

    Hiperosmolaridade, inflamação.

  5. Atrofia

    Perda glandular irreversível.

Epidemiologia e fatores de risco

A DGM é muito frequente e aumenta com a idade. O relatório do International Workshop on MGD (TFOS, 2011) mostrou prevalências bem maiores em populações asiáticas do que em caucasianas, e o TFOS DEWS II (2017) reconhece a DGM como causa principal de olho seco evaporativo.

Idade

Atrofia glandular progressiva; queda de androgênios.

Rosácea

Rosácea ocular acompanha boa parte dos casos de rosácea facial.

Dermatite seborreica

Forma "hipersecretora", margem oleosa.

Medicamentos

Isotretinoína (atrofia glandular), antiandrogênicos, anti-histamínicos.

Telas e lentes de contato

Piscar incompleto e menos frequente; uso de LC.

Demodex

D. brevis vive nas glândulas sebáceas e meibomianas.

Em 30 segundos

O essencial de quadro clínico

  1. Sintomas de olho seco: ardor, areia, fotofobia, olhos cansados, visão flutuante.
  2. Sinais: orifícios obstruídos, margem arredondada e vascularizada, secreção anormal.
  3. Forma hipossecretora/obstrutiva (mais comum) e hipersecretora (seborreica).
  4. Complicações: calázio, hordéolo interno, ceratite e flictênula.

Sintomas

Os sintomas costumam ser bilaterais, flutuam ao longo do dia e pioram com ar-condicionado, vento, leitura e telas. Nem sempre se correlacionam com os sinais: há DGM avançada pouco sintomática e vice-versa.

Ardor e queimação

Sintoma mais comum; pior ao acordar na forma inflamatória.

Corpo estranho

Sensação de areia, olhos pesados.

Visão que flutua

Melhora ao piscar; lágrima instável.

Lacrimejamento reflexo

Paradoxal: o olho seco evaporativo lacrimeja.

Fotofobia

Leve; intensa sugere ceratite associada.

Intolerância a lentes

Lentes de contato ficam desconfortáveis.

Sinais na lâmpada de fenda

Examine a margem com aumento médio, antes de instilar colírios. Compare as pálpebras superior e inferior e os dois olhos.

Margem

Orifícios obstruídos

Pontos elevados e esbranquiçados (capping) ou tampões de secreção solidificada sobre os orifícios.

Inflamação

Telangiectasias da margem

Vasos dilatados cruzando a margem posterior; margem arredondada e espessada.

Filme lacrimal

Espuma no menisco

Bolhas na lágrima do canto lateral e da margem inferior por saponificação dos lipídeos.

Classificação

O International Workshop on MGD separa a DGM por débito glandular. A forma de baixo débito (obstrutiva) é a mais frequente; a de alto débito corresponde à "meibomite seborreica", com margem oleosa e brilhante.

TipoAspectoAssociações
Baixo débito — obstrutivaOrifícios tampados, secreção espessa ou ausente, perda glandularIdade, rosácea, isotretinoína, lentes de contato
Baixo débito — hipossecretoraPouca secreção sem obstrução evidente; atrofiaIdade, antiandrogênicos, isotretinoína
Alto débito — hipersecretoraMargem oleosa, secreção abundante e clara, espumaDermatite seborreica, rosácea
CicatricialOrifícios arrastados para trás da linha de MarxPenfigoide, Stevens-Johnson, tracoma, queimaduras

Nelson JD et al., International Workshop on MGD, IOVS 2011.

Associações sistêmicas e locais

Rosácea ocular

Meibomite, telangiectasias da margem, hiperemia, calázios; nos graves, ceratite marginal, neovascularização e afinamento corneano. Pode preceder a rosácea facial, inclusive em crianças.

Demodex

Cilindros (colaretes) na base dos cílios indicam D. folliculorum; D. brevis habita as glândulas meibomianas e se associa a DGM e calázio.

Isotretinoína

Atrofia e disfunção meibomiana durante e após o tratamento da acne.

Crianças: blefaroceratoconjuntivite

Meibomite com calázios, flictênulas e infiltrados corneanos; risco de cicatriz e ambliopia. Doxiciclina é contraindicada abaixo de 8 anos.

Em 30 segundos

O essencial de diagnóstico

  1. Diagnóstico clínico, à lâmpada de fenda.
  2. Expressão glandular: avalia qualidade (0–3) e número de glândulas que liberam secreção.
  3. TRFL < 10 s e coloração da superfície mostram o impacto sobre a lágrima.
  4. Meibografia documenta a perda glandular; biópsia se unilateral e refratária.

Avaliação passo a passo

A ordem importa: testes menos invasivos primeiro, porque a fluoresceína e a manipulação alteram os seguintes.

  1. Questionário de sintomas

    OSDI ou DEQ-5; medicamentos (isotretinoína, anti-histamínicos), rosácea, telas, lentes de contato.

  2. Inspeção da face e da margem

    Rosácea, seborreia; margem anterior (crostas, colaretes) e posterior (orifícios, vasos, linha de Marx).

  3. Menisco e TRFL

    Altura do menisco; fluoresceína: ruptura do filme em menos de 10 s é anormal.

  4. Coloração da superfície

    Fluoresceína (córnea) e lissamina verde (conjuntiva): ceratite puntata inferior é típica.

  5. Expressão glandular

    Pressão digital suave ou com expressor no terço central da pálpebra inferior (8 glândulas): qualidade e expressibilidade.

  6. Eversão palpebral

    Calázios, concreções, papilas; descartar outras causas.

Graduação da secreção meibomiana

Uma escala simples, recomendada pelo International Workshop on MGD, ajuda a acompanhar a resposta ao tratamento.

GrauQualidade do meibumInterpretação
0Claro, fluidoNormal
1TurvoDGM leve
2Turvo com grumos (granuloso)DGM moderada
3Espesso, "pasta de dente"DGM grave

Somar a qualidade de 8 glândulas centrais da pálpebra inferior (0–24) é outra forma usada em estudos.

Achado característico

Secreção em pasta à expressão

Com pressão suave, saem cilindros espessos e opacos dos orifícios — em vez de gotas claras.

Exames complementares

Meibografia

Imagem infravermelha da pálpebra evertida: mostra glândulas encurtadas, tortuosas e áreas de perda (dropout), graduadas em escalas de meiboscore.

Interferometria

Estima a espessura da camada lipídica do filme lacrimal.

Osmolaridade lacrimal

Valores elevados ou diferença entre os olhos indicam olho seco.

NIBUT

Tempo de ruptura não invasivo com topógrafo ou dispositivos de superfície.

Exame

Meibografia: normal × atrofia

Glândulas longas e paralelas no normal; encurtadas, dilatadas e com áreas sem glândula na DGM avançada.

Diagnóstico diferencial

Várias doenças da superfície causam sintomas parecidos e muitas coexistem com a DGM. A margem palpebral é o que mais ajuda a separar.

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Achado-chaveCrostas e colaretes na base dos cílios
Como diferenciarMargem anterior; frequentemente associada à DGM.
Olho seco aquoso-deficiente
Achado-chaveMenisco baixo, Schirmer reduzido
Como diferenciarGlândulas meibomianas normais; pensar em Sjögren.
Achado-chavePrurido, papilas tarsais
Como diferenciarCoceira predomina; atopia; quemose.
Achado-chaveNódulo tarsal crônico
Como diferenciarComplicação focal da DGM; não é diagnóstico alternativo.
Achado-chavePregas de conjuntiva sobre a margem inferior
Como diferenciarPregas que interrompem o menisco; idosos.
Carcinoma sebáceo
Achado-chaveBlefarite unilateral refratária, madarose
Como diferenciarIdoso, assimetria, calázio recidivante: biópsia de espessura total.

Galeria

Use as legendas como roteiro: orifícios, vasos da margem, qualidade da secreção e efeito sobre a superfície ocular.

Orifícios meibomianos obstruídos

Fila de pontos esbranquiçados e elevados na margem posterior da pálpebra inferior: são os orifícios tampados por secreção solidificada. Note a margem arredondada e os vasos finos.

ObstruçãoMargem posterior

Expressão: secreção em pasta

Ao comprimir a pálpebra, saem cilindros opacos e espessos. Grau 3 de qualidade do meibum — DGM grave.

ExpressãoGrau 3

Rosácea ocular

Margem com telangiectasias intensas, hiperemia conjuntival e calázio. Procure eritema centrofacial e pápulas na face.

RosáceaTelangiectasias

Efeito na superfície

Fluoresceína com luz azul: ruptura precoce do filme lacrimal e ceratite puntata inferior — a consequência evaporativa da meibomite.

TRFL curtoCeratite puntata

Em 30 segundos

O essencial de tratamento

  1. Tratamento crônico: calor + massagem + higiene palpebral todos os dias.
  2. Lubrificantes (de preferência com componente lipídico) aliviam os sintomas.
  3. Moderada a grave: doxiciclina ou azitromicina oral; azitromicina tópica; corticoide tópico curto.
  4. Refratários: luz intensa pulsada, termopulsação, sondagem intraductal.

Medidas de base (todos os pacientes)

Explicar que é uma condição crônica e que a rotina precisa ser mantida é a parte mais importante do tratamento. Sem calor e expressão, o meibum espesso continua dentro das glândulas.

  1. Calor

    Compressa morna (ou máscara térmica) sobre as pálpebras fechadas por 5–10 minutos, 1–2 vezes ao dia, mantendo a temperatura.

  2. Massagem

    Logo após o calor, deslizar o dedo da base para a margem (de cima para baixo na superior, de baixo para cima na inferior).

  3. Higiene

    Limpar a margem com solução própria de higiene palpebral ou xampu neutro diluído.

  4. Ambiente

    Pausas nas telas, piscar completo, umidificação, evitar ar direto no rosto.

Ômega-3 oral: o estudo DREAM (2018) não mostrou benefício sobre placebo no olho seco moderado a grave. Pode ser discutido, mas não é base do tratamento.

Procedimentos no consultório

Luz intensa pulsada (IPL)

Pulsos na pálpebra inferior e região malar; reduz telangiectasias e inflamação. Várias sessões; útil na rosácea.

Termopulsação

Aquecimento da face interna da pálpebra com compressão controlada (ex.: LipiFlow), em sessão única.

Expressão manual

Expressão vigorosa com pinças após aquecimento; desconfortável, mas eficaz.

Sondagem intraductal

Abertura mecânica dos ductos obstruídos com sonda fina; casos selecionados.

Rotas de tratamento

Cada rota é um cenário clínico. As doses seguem diretrizes e estudos citados e podem variar; o nome de cada medicamento abre a ficha completa.

Seguimento

Reavaliar em 4–8 semanas: sintomas, qualidade do meibum, TRFL e coloração. A medicação oral é suspensa ou reduzida ao melhorar; as medidas de base continuam. Recaídas são esperadas e tratadas com novos cursos.

  • Manter compressa e massagem mesmo sem sintomas.
  • Tratar rosácea facial junto com o dermatologista.
  • Antes de cirurgia refrativa ou de catarata: controlar a DGM (melhora a biometria e reduz o risco de infecção).

Em 30 segundos

O essencial de complicações

  1. Calázio e hordéolo interno são as complicações focais mais comuns.
  2. Ceratite puntata, ceratite marginal e flictênulas na forma inflamatória.
  3. Rosácea ocular grave pode causar neovascularização e afinamento corneano.
  4. Atrofia glandular é irreversível.

O que a meibomite pode causar

Calázio

Granuloma lipogranulomatoso por secreção retida no tarso.

Hordéolo interno

Infecção aguda da glândula meibomiana.

Ceratite marginal

Infiltrados periféricos estéreis por hipersensibilidade a antígenos estafilocócicos.

Rosácea corneana

Neovascularização, afinamento e, raramente, perfuração.

Prognóstico

A doença é crônica e flutuante. Com adesão às medidas de base e cursos de medicação nas exacerbações, a maioria dos pacientes tem bom controle dos sintomas. O que não se recupera é o tecido glandular atrofiado — tratar cedo preserva função.

Referências bibliográficas

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    American Academy of Ophthalmology. Blepharitis Preferred Practice Pattern®. San Francisco: AAO; 2023.
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    Nelson JD, Shimazaki J, Benitez-del-Castillo JM, et al. The International Workshop on Meibomian Gland Dysfunction: report of the definition and classification subcommittee. Invest Ophthalmol Vis Sci. 2011;52(4):1930–1937.
  3. 3
    Artigo2049
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  4. 4
    Artigo2017
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    Dry Eye Assessment and Management Study Research Group. n-3 Fatty Acid Supplementation for the Treatment of Dry Eye Disease. N Engl J Med. 2018;378(18):1681–1690.
  6. 6
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    Kashkouli MB, Fazel AJ, Kiavash V, et al. Oral azithromycin versus doxycycline in meibomian gland dysfunction: a randomised double-masked open-label clinical trial. Br J Ophthalmol. 2015;99(2):199–204.
  7. 7
    Livro-texto2025
    American Academy of Ophthalmology. Basic and Clinical Science Course (BCSC), Section 8: External Disease and Cornea. San Francisco: AAO; 2024–2025.
  8. 8
    Livro-texto2020
    Bowling B. Kanski’s Clinical Ophthalmology: A Systematic Approach. 9. ed. Elsevier; 2020.

Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de referências clínicas reais e de representações anatômicas didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui a avaliação oftalmológica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. Doses de antibióticos orais e tópicos devem ser conferidas na bula e ajustadas ao paciente; corticoide tópico requer acompanhamento oftalmológico.

Atlas MedFoco de Oftalmologia • Conteúdo para educação médica. O diagnóstico e a conduta dependem da avaliação clínica individual.
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