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Atlas de Oftalmologia • Nervo Óptico

Morning glory disc

Anomalia de morning glory • síndrome de morning glory • disco em "ipomeia"

Anomalia congênita, quase sempre unilateral, em que o disco óptico aumentado fica no fundo de uma escavação em funil, com tufo glial central, anel de pigmento ao redor e vasos radiais retilíneos — lembrando a flor morning glory. Pode vir com encefalocele basal e anomalias das artérias cerebrais (moyamoya).

Tipo
Anomalia congênita do disco
Aspecto
Funil + tufo glial + raios
Mecanismo
Defeito mesodérmico/escleral
Pista sistêmica
Encefalocele, moyamoya
8–10 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça o achado

O nome vem da flor Ipomoea ("glória-da-manhã"): o centro branco é o tufo glial, a corola é a escavação em funil e as nervuras são os vasos que saem em raios pela borda. Três elementos fecham o diagnóstico: funil, tufo e raios.

Imagem clínica

Figura 1. Morning glory disc: escavação em funil com disco aumentado no fundo, tufo glial branco central, anel peripapilar de pigmento e alterações coriorretinianas, e cerca de 20 vasos estreitos e retilíneos saindo pela borda.

Roteiro de observação
  1. 1
    EscavaçãoCentral, profunda, em funil; o disco aparece aumentado (várias vezes o normal) no fundo.
  2. 2
    Tufo glialTecido branco-acinzentado cobrindo o centro do disco.
  3. 3
    VasosNumerosos, finos, retilíneos, em raios; difícil distinguir artérias de veias.
  4. 4
    BordaAnel elevado de pigmento e atrofia coriorretiniana ao redor; mácula às vezes "puxada" para o disco.

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Unilateral em quase todos os casos; mais comum em meninas.
  2. Visão em geral reduzida (muitas vezes 20/200 ou pior), com estrabismo.
  3. Investigar com RM e angio-RM: encefalocele basal transesfenoidal e moyamoya.
  4. Complicação ocular importante: descolamento de retina.

O que é

A anomalia de morning glory foi descrita por Kindler (1970). Acredita-se que derive de um defeito da esclera e do tecido mesodérmico na junção com o nervo óptico, permitindo que a parede do globo se projete para trás como um funil. Diferente do coloboma, a escavação é central e simétrica.

Um detalhe curioso: o disco pode apresentar movimentos contráteis durante o exame, atribuídos a tecido muscular liso heterotópico ou a variações de líquido sub-retiniano.

Investigação sistêmica

Criança com morning glory e defeitos de linha média da face (hipertelorismo, fenda labial ou palatina, nariz achatado) pode ter encefalocele basal transesfenoidal — que pode se apresentar como "massa nasal" e cuja biópsia ou cirurgia nasal desavisada pode ser desastrosa. Anomalias arteriais intracranianas (moyamoya, hipoplasia carotídea) aumentam o risco de AVC.

Morning glory ou coloboma?

Os dois produzem um disco grande e escavado. A posição da escavação e o padrão dos vasos são os melhores discriminadores.

AchadoAspectoComo diferenciar
Morning glory disc
AspectoFunil central, tufo glial, vasos radiais
Como diferenciarUnilateral; associação com encefalocele e moyamoya.
AspectoEscavação inferior, sem tufo
Como diferenciarVasos saem da borda superior; frequentemente bilateral; CHARGE.
Estafiloma peripapilar
AspectoEscavação profunda com disco normal no fundo
Como diferenciarSem tufo glial, vasos normais.
AspectoEscavação adquirida
Como diferenciarDisco de tamanho normal, progressão, PIO.

Aspectos do morning glory

Em cada imagem, identifique funil, tufo e raios. Depois, olhe a borda: é ali que nascem os descolamentos de retina.

Aspecto clássico

Funil central com disco aumentado, tufo glial branco e vasos retos saindo em raios pela borda pigmentada. Compare o tamanho com um disco normal: várias vezes maior.

ClássicoTufo glialVasos radiais

Anel de pigmento peripapilar

Borda elevada e irregular de pigmento e atrofia coriorretiniana circundando o funil. A mácula pode estar incorporada à borda, explicando a baixa visual.

PigmentoAtrofia coriorretinianaMácula

Descolamento de retina associado

Retina elevada a partir da borda da escavação. Os descolamentos podem ser serosos ou regmatogênicos, com roturas pequenas dentro ou junto ao funil.

ComplicaçãoDescolamentoBorda do funil

Comparação com o olho normal

Lado a lado, o disco normal do outro olho evidencia o tamanho do funil e o padrão radial dos vasos do olho afetado. A anomalia é quase sempre unilateral.

UnilateralComparaçãoTamanho

Neuroimagem

Exame

Encefalocele transesfenoidal e vasculopatia

RM sagital mostrando herniação de tecido pelo assoalho da sela para a nasofaringe; angio-RM com estreitamento de carótida interna e colaterais (moyamoya).

  • Defeito do esfenoide com herniação
  • Quiasma e hipófise deslocados
  • Estenose arterial ipsilateral

A criança costuma chegar por estrabismo, baixa visual unilateral ou leucocoria (o funil branco reflete a luz). Examine o fundo com dilatação e faça o exame sistêmico da face e do desenvolvimento.

Passo a passo

  1. Acuidade e refração

    Anisometropia (miopia no olho afetado) é comum; tratar ambliopia sobreposta quando houver potencial.

  2. Pupilas e motilidade

    DPAR no olho afetado; estrabismo sensorial.

  3. Fundo de olho dilatado

    Funil, tufo, raios; procurar descolamento e roturas na borda.

  4. OCT e ultrassom

    Profundidade da escavação, líquido sub-retiniano; ultrassom quando o fundo é difícil.

  5. Face e linha média

    Hipertelorismo, fenda labiopalatina, depressão da base do nariz, massa nasal pulsátil.

  6. RM + angio-RM

    Encefalocele basal, agenesia do corpo caloso, hipófise; estenose carotídea, moyamoya; avaliação endócrina quando indicada.

Como registrar

Modelo de registro

OE: disco óptico aumentado, situado no fundo de escavação em funil, com tufo glial central, cerca de 20 vasos retilíneos de distribuição radial e anel peripapilar de pigmento elevado. Retina aplicada, sem roturas visíveis. OD: disco normal. Acuidade OE conta dedos a 1 m; DPAR à esquerda; exotropia esquerda. Hipótese: anomalia de morning glory. Solicitada RM de crânio com angio-RM.

Registre a retina da borda em cada exame e oriente sinais de descolamento.

Associações

A maioria é esporádica e sem causa genética definida. As associações sistêmicas são o que torna a anomalia relevante além do olho.

Encefalocele basal transesfenoidal

Com defeitos de linha média da face e hipopituitarismo. Pode aparecer como massa na nasofaringe.

Vasculopatia cerebral

Moyamoya, hipoplasia ou estenose da carótida interna ipsilateral: risco de AVC isquêmico.

Síndrome PHACE

Hemangioma facial segmentar, anomalias de fossa posterior, arteriais, cardíacas e oculares (inclui morning glory).

Endócrinas

Deficiências hipofisárias, sobretudo com encefalocele ou anomalias de linha média.

Genética (raro)

Variantes em PAX6 descritas em casos isolados.

Diferencial da leucocoria por disco

O funil branco pode causar reflexo branco no teste do olhinho. Toda leucocoria exige excluir retinoblastoma.

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Achado-chaveMassa branca retiniana, calcificações
Como diferenciarLesão tumoral, não escavação; ultrassom e RM.
Achado-chaveÁrea branca inferior
Como diferenciarEscavação inferior com esclera visível.
Achado-chaveReflexo branco na pupila
Como diferenciarCatarata, Coats, persistência de vítreo primário, ROP.

Não há tratamento para a anomalia em si. O objetivo é maximizar a visão, detectar o descolamento e não perder as associações cerebrais.

O que fazer

SituaçãoConduta
Diagnóstico na criançaRM com angio-RM; endocrinologia se houver linha média alterada; óculos e tratamento de ambliopia quando houver potencial.
Massa nasal ou defeito de linha médiaNão biopsiar antes de imagem: pode ser encefalocele.
Descolamento de retinaRetinólogo: vitrectomia com tamponamento, às vezes com laser na borda do funil.
Visão monocularÓculos de policarbonato para proteger o olho bom.
Moyamoya / estenose arterialNeurologia e neurocirurgia: seguimento e revascularização quando indicada.

Referências bibliográficas

  1. 1
    Artigo2008
    Lee BJ, Traboulsi EI. Update on the morning glory disc anomaly. Ophthalmic Genet. 2008;29(2):47–52.
  2. 2
    Artigo1970
    Kindler P. Morning glory syndrome: unusual congenital optic disk anomaly. Am J Ophthalmol. 1970;69(3):376–384.
  3. 3
    Artigo1994
    Brodsky MC. Congenital optic disk anomalies. Surv Ophthalmol. 1994;39(2):89–112.
  4. 4
    Livro-texto2016
    Brodsky MC. Pediatric Neuro-Ophthalmology. 3. ed. New York: Springer; 2016.
  5. 5
    Livro-texto2025
    American Academy of Ophthalmology. Basic and Clinical Science Course (BCSC), Section 6: Pediatric Ophthalmology and Strabismus. San Francisco: AAO; 2024–2025.
  6. 6
    Livro-texto2020
    Bowling B. Kanski’s Clinical Ophthalmology: A Systematic Approach. 9. ed. Elsevier; 2020.
  7. 7
    Revisão online2026
    EyeWiki — American Academy of Ophthalmology. Morning Glory Disc Anomaly. Acesso em 2026.

Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de referências clínicas reais e de representações anatômicas didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui a avaliação oftalmológica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas.

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