MedFoco

Emergência & UTI • Avaliação inicial

Hipotermia e hipertermia

Alterações graves da temperatura corporal • avaliação inicial do adulto

Abordagem inicial do adulto com temperatura central extrema. O primeiro passo é medir certo; o segundo, separar febre de hipertermia; o terceiro, agir rápido: resfriar em minutos quem está superaquecido e reaquecer com cuidado quem está frio — sem esquecer a causa por trás do termômetro.

Temperatura centralImersão em água friaSistema suíço revisadoPCR hipotérmica e ECLS
14 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Temperatura é sinal vital: nos extremos, ela é ao mesmo tempo o problema e a pista para a causa.
  2. Hipertermia grave mata em minutos a horas pela lesão celular direta do calor; o tratamento é resfriamento físico imediato.
  3. Hipotermia grave mata por arritmia e PCR, mas o cérebro frio tolera bem a hipóxia — por isso a ressuscitação pode ser longa e bem-sucedida.
  4. A primeira hora segue o mesmo roteiro: ABCDE, medir a temperatura central, corrigir o extremo e procurar a causa.

O espectro das temperaturas extremas

O organismo mantém a temperatura central perto de 37 °C equilibrando produção e perda de calor. Quando esse equilíbrio falha — pelo ambiente, por uma droga, por uma doença endócrina ou por sepse — surgem os dois extremos, com faixas de gravidade bem definidas.

Faixa (temperatura central)CondiçãoO que esperar
> 40 °C + disfunção do SNCInsolação (clássica ou de esforço)Confusão, convulsão, coma; rabdomiólise, lesão renal e hepática, CIVD.
38,3–41 °CFebre (ponto de ajuste elevado)Responde a antitérmico; pense em infecção primeiro.
35–32 °CHipotermia leveTremor intenso, taquicardia, confusão leve, diurese fria.
32–28 °CHipotermia moderadaTremor cessa, rebaixamento, bradicardia, fibrilação atrial, onda J (Osborn).
< 28 °CHipotermia graveComa, hipotensão, bradipneia; risco alto de FV e assistolia, sobretudo < 24 °C.

Faixas da classificação por temperatura usada pela Wilderness Medical Society (2019) e pelo ERC. Sem termômetro confiável, estadie pela clínica (aba Hipotermia).

Por que os extremos machucam

O calor desnatura proteínas, rompe membranas e abre a barreira intestinal, desencadeando uma resposta inflamatória semelhante à sepse. O frio, ao contrário, lentifica tudo: condução cardíaca, metabolismo de drogas, coagulação e consciência — e protege o cérebro enquanto deprime o coração.

Calor extremo

  • Encefalopatia, convulsão e edema cerebral.
  • Rabdomiólise, hipercalemia e lesão renal aguda.
  • Lesão hepática (pico de transaminases em 24–72 h).
  • CIVD e síndrome de resposta inflamatória sistêmica.

Frio extremo

  • Bradicardia, fibrilação atrial, FV e assistolia.
  • Diurese fria (hipovolemia relativa) e hipotensão no reaquecimento.
  • Coagulopatia que o laboratório a 37 °C não mostra.
  • Metabolismo de drogas lento: acúmulo de doses.

As quatro perguntas da primeira hora

  1. Qual é a temperatura central de verdade?

    Sonda esofágica, retal ou vesical, com termômetro capaz de ler extremos. Sem medida confiável, estadie pela clínica.

  2. É febre ou hipertermia?

    Contexto (calor, esforço, droga nova, anestesia, tireoide), rigidez, clônus, pele seca ou sudorética e resposta ao antitérmico separam as duas.

  3. O que fazer agora com a temperatura?

    Resfriamento rápido na hipertermia; reaquecimento escalonado na hipotermia, com manuseio delicado e monitorização contínua.

  4. Qual é a causa e o que ela exige?

    Antibiótico na sepse, glicose e tiamina, hidrocortisona, levotiroxina, retirada do agente serotoninérgico ou neuroléptico, dantroleno, tionamida.

No calor, o tempo é o inimigo: resfrie antes de transportar ou investigar. No frio, a pressa é o inimigo: manuseie com delicadeza e não desista antes de reaquecer.

Em 30 segundos

O essencial de medir e diferenciar

  1. A sonda esofágica no terço distal é a medida de referência no paciente intubado ou em PCR.
  2. Retal e vesical são aceitáveis, mas atrasam durante mudanças rápidas — a retal é a padrão no resfriamento da insolação.
  3. Infravermelho (testa e ouvido), axilar e oral não servem para decidir conduta nos extremos.
  4. Febre responde a antitérmico; hipertermia não — e pede resfriamento físico e tratamento do mecanismo.

Onde e como medir

O ERC e a Wilderness Medical Society concordam: nos extremos, só a temperatura central guia decisões. Escolha o sítio pela situação e use termômetro que leia valores baixos (até cerca de 20 °C) no paciente frio.

SítioQuando usarLimitações
Esofágico (terço distal)Padrão de referência no paciente intubado ou em PCR; guia ECLS e reaquecimento interno.Exige via aérea protegida; sonda alta demais lê o ar aquecido da traqueia.
RetalPadrão prático na insolação (sonda flexível a 10–15 cm, contínua durante a imersão).Atrasa em relação ao núcleo em mudanças rápidas; fezes frias e exposição limitam no frio.
Vesical (sonda com termistor)UTI, reaquecimento e resfriamento prolongados.Depende de diurese; atrasa em oligúria.
Epitimpânico (termistor de contato)Ambiente pré-hospitalar, paciente com circulação.Não confiável com canal úmido ou frio, instabilidade ou PCR.
Infravermelho, axilar, oralTriagem de febre em paciente estável.Não use para estadiar hipotermia nem para guiar o resfriamento.

Termômetro clínico comum costuma parar em 34–35 °C: "35 °C" no visor pode ser 26 °C no paciente. Desconfie de valores no limite inferior do aparelho.

Febre × hipertermia

A distinção é fisiológica e muda a conduta: a febre é regulada, a hipertermia é descontrolada. Valores acima de 41 °C são incomuns na febre infecciosa e devem levantar a suspeita de hipertermia.

Febre

  • Ponto de ajuste hipotalâmico elevado por pirógenos.
  • Calafrio, vasoconstrição e "frio" na subida.
  • Raramente > 41 °C.
  • Responde a e trata-se a causa (infecção na maioria).

Hipertermia

  • Ponto de ajuste normal; produção ou ganho de calor supera a perda.
  • Contexto: calor, esforço, droga, anestesia, tireotoxicose.
  • Pode ultrapassar 41–42 °C.
  • Não responde a antitérmico: resfriamento físico + tratamento do mecanismo.

Armadilhas na medida e na interpretação

  • Usar termômetro de testa ou axilar no paciente comatoso, frio ou superaquecido.
  • Medir uma vez e não manter monitorização contínua durante resfriamento ou reaquecimento.
  • Atribuir hipertermia à "febre da infecção" e prescrever só antitérmico.
  • Esquecer que a temperatura medida após o transporte (ou após banho e ventilação) pode subestimar o pico — a insolação pode chegar com 39 °C e encefalopatia.
  • Interpretar gasometria e coagulograma sem lembrar que o laboratório os analisa a 37 °C.

Em 30 segundos

O essencial de hipertermia

  1. Insolação = temperatura central > 40 °C com disfunção do SNC, por calor ambiental (clássica) ou esforço (de esforço).
  2. Imersão em água gelada ou fria é o método mais rápido; pare com temperatura retal ≈ 39 °C.
  3. Droga nova, rigidez, clônus ou anestesia recente mudam o raciocínio: síndrome serotoninérgica, SNM, hipertermia maligna, toxíndromes.
  4. Tempestade tireoidiana entra no diferencial de todo paciente hipertérmico, taquicárdico e agitado.

Diagnóstico diferencial da hipertermia grave

Pergunte pelo contexto (onda de calor, exercício, droga nova ou aumento de dose, anestesia, uso de estimulante, tireoide) e examine tônus, reflexos, clônus, pupilas e pele. Esses poucos achados separam as principais causas.

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Insolação clássica
Achado-chaveIdoso, onda de calor, ambiente sem ventilação, comorbidades e drogas anticolinérgicas ou diuréticas.
Como diferenciarPele frequentemente seca e quente; instalação em horas a dias; sem rigidez.
Insolação de esforço
Achado-chaveJovem em exercício intenso (corrida, treino militar, trabalho braçal).
Como diferenciarColapso durante o esforço; sudorese pode persistir; rabdomiólise frequente.
Síndrome serotoninérgica
Achado-chaveClônus (induzível, ocular ou espontâneo), hiper-reflexia, midríase, diarreia.
Como diferenciarInício em horas após droga serotoninérgica; predomínio em membros inferiores; critérios de Hunter.
Síndrome neuroléptica maligna
Achado-chaveRigidez "em cano de chumbo", bradicinesia, CK muito elevada.
Como diferenciarInstalação em dias após antagonista dopaminérgico (ou retirada de levodopa); reflexos normais ou diminuídos.
Hipertermia maligna
Achado-chaveAnestesia com halogenado ou succinilcolina; hipercapnia precoce, rigidez de masseter.
Como diferenciarOcorre no centro cirúrgico ou na recuperação; imediato.
Achado-chaveCocaína, anfetaminas, MDMA: taquicardia, hipertensão, midríase, pele sudorética.
Como diferenciarAgitação intensa; sem clônus marcado; benzodiazepínico em doses generosas.
Achado-chavePele seca e quente, mucosas secas, midríase, retenção urinária, ruídos hidroaéreos reduzidos, delirium.
Como diferenciarA pele seca separa da simpatomimética; antidepressivos tricíclicos, anti-histamínicos, plantas.
Achado-chaveTaquicardia desproporcional, fibrilação atrial, insuficiência cardíaca, diarreia, icterícia.
Como diferenciarBócio, oftalmopatia, gatilho (infecção, cirurgia, iodo, suspensão de tionamida); escore de Burch-Wartofsky.
Achado-chaveFoco infeccioso, rigidez de nuca, petéquias, hipotensão.
Como diferenciarFebre verdadeira; culturas e antibiótico em até 1 hora se choque — não atrase pela investigação.

Outros: abstinência de álcool ou benzodiazepínico, retirada abrupta de baclofeno intratecal, salicilatos, lesão hipotalâmica (hemorragia pontina), estado de mal epiléptico.

Insolação clássica × de esforço

As duas formas compartilham a definição — temperatura central acima de 40 °C com disfunção do sistema nervoso central — e o tratamento: resfriamento rápido. Diferem no paciente, na velocidade de instalação e nas complicações.

Clássica (passiva)

  • Idosos, crianças, acamados, doença psiquiátrica, etilismo.
  • Ondas de calor; instalação em horas a dias.
  • Drogas que pioram: anticolinérgicos, diuréticos, betabloqueadores, antipsicóticos.
  • Desidratação, distúrbios eletrolíticos e infecção associada.

De esforço

  • Jovens saudáveis, atletas, militares e trabalhadores.
  • Instalação em minutos durante o exercício.
  • Rabdomiólise, hipercalemia, lesão renal, hipoglicemia e CIVD mais frequentes.
  • "Resfriar primeiro, transportar depois": imersão no local quando disponível.

Resfriamento: como fazer, metas e quando parar

  1. Comece já — passo crítico

    Resfriamento ativo supera o passivo (recomendação forte, SCCM 2025). Remova roupas e leve para ambiente fresco; não espere exames.

  2. Imersão em água gelada ou fria

    Água gelada (1–5 °C) ou fria (9–12 °C) até o tórax, cabeça e via aérea fora d’água, mexendo a água. Vale para insolação clássica e de esforço.

  3. Metas

    Taxa de resfriamento ≥ 0,155 °C/min e temperatura-alvo atingida em até 30 minutos do reconhecimento.

  4. Sem imersão possível

    Lona com água gelada (TACO), toalhas encharcadas em água gelada trocadas continuamente, gelo em todo o corpo, borrifar água e ventilar. Bolsas de gelo só em axilas e virilhas são insuficientes isoladamente.

  5. Monitorize

    Temperatura retal contínua, ECG, glicemia, consciência. Proteja a via aérea se convulsão ou coma.

  6. Quando parar

    Retire da imersão com temperatura retal de cerca de 39 °C (WMS 2024) para evitar hipotermia de rebote; continue monitorizando.

O que NÃO fazer

Não use (paracetamol, dipirona, AINE, salicilato) nem na insolação — a diretriz da SCCM (2025) recomenda contra o dantroleno e sugere evitar antipiréticos. Calafrio durante o resfriamento trata-se com , não interrompendo o resfriamento.

Hipertermia por drogas: SS, SNM, HM e toxíndromes

Em todas, a hipertermia nasce da atividade muscular e o calor produzido pelo músculo só para quando o músculo para. Benzodiazepínico é a base; sedação profunda com intubação e bloqueio neuromuscular não despolarizante é o resgate da hipertermia refratária (> 41 °C). Não use succinilcolina se houver rabdomiólise.

SíndromeGatilho e tempoExame neuromuscularTratamento específico
SerotoninérgicaISRS, IRSN, IMAO, tramadol, linezolida, triptanos, MDMA, azul de metileno; horas (geralmente < 24 h).Clônus, hiper-reflexia, tremor, hipertonia em membros inferiores; midríase, diarreia.Suspender o agente, , ; casos graves: sedação, intubação e paralisia.
Neuroléptica malignaAntipsicóticos (típicos e atípicos), metoclopramida, retirada de levodopa; dias.Rigidez em cano de chumbo, bradicinesia, reflexos normais ou reduzidos.Suspender o agente, suporte, benzodiazepínico; e nos casos moderados a graves.
Hipertermia malignaHalogenados e succinilcolina em suscetível (gene RYR1); minutos a horas.Rigidez generalizada ou de masseter, hipercapnia, taquicardia, hipercalemia.Suspender o agente, hiperventilar com O₂ a 100%, 2,5 mg/kg imediato.
SimpatomiméticaCocaína, anfetaminas, catinonas, MDMA; minutos a horas.Agitação, tremor; sem clônus marcado; pele úmida. titulado, resfriamento, tratar SCA e hipertensão com benzodiazepínico primeiro.
AnticolinérgicaTricíclicos, anti-histamínicos, antiparkinsonianos, plantas (trombeteira); horas.Tônus e reflexos normais; pele seca, retenção urinária, delirium.Benzodiazepínico, resfriamento, sondagem vesical; ECG (QRS largo nos tricíclicos).

Fisostigmina, antídoto clássico do delirium anticolinérgico, não é comercializada rotineiramente no Brasil; discuta com o centro de informação toxicológica (CIATox).

Ferramenta — critérios de Hunter para toxicidade serotoninérgica

Critérios de Hunter (Dunkley et al., 2003)

Na presença de um agente serotoninérgico, basta um dos critérios: clônus espontâneo; clônus induzível + agitação ou sudorese; clônus ocular + agitação ou sudorese; tremor + hiper-reflexia; ou hipertonia + temperatura > 38 °C + clônus ocular ou induzível. Sensibilidade de 84% e especificidade de 97% frente ao toxicologista.

Preencha os campos para interpretar os critérios de Hunter.

Ferramenta de apoio ao raciocínio clínico, baseada em Dunkley EJC et al., QJM 2003. Não substitui avaliação toxicológica; em dúvida, contate o CIATox.

Tempestade tireoidiana

Tireotoxicose descompensada com disfunção orgânica: hipertermia, taquicardia desproporcional (frequentemente fibrilação atrial), insuficiência cardíaca, agitação ou coma, diarreia e icterícia. O diagnóstico é clínico — não espere o TSH para tratar. O escore de Burch-Wartofsky ≥ 45 sugere tempestade; 25–44, tempestade iminente.

  1. Betabloqueio

    ou .

  2. Tionamida

    (ou ).

  3. Iodo

    ≥ 1 h depois da tionamida.

  4. Corticoide

    300 mg + 100 mg 8/8 h.

Em 30 segundos

O essencial de hipotermia

  1. Hipotermia é temperatura central < 35 °C; acidental (exposição) ou secundária (sepse, hipoglicemia, endócrina, intoxicação, SNC).
  2. Sem termômetro confiável, estadie pelo nível de consciência — sistema suíço revisado (ICAR MedCom, 2021).
  3. Manuseio delicado e posição horizontal: o coração frio fibrila com facilidade.
  4. Leve: reaquecimento passivo e ativo externo. Moderada a grave: ativo externo e interno. PCR ou instabilidade: ECLS.

Estadiamento: por temperatura e pela clínica

O sistema suíço original estimava a temperatura pela consciência e pelo tremor. A versão revisada (Musi et al., 2021, adotada pelo ERC) abandona o tremor como critério e passa a estimar o risco de PCR hipotérmica, que é o que muda conduta e destino.

Suíço original (temperatura estimada)Suíço revisado (AVPU)Risco de PCRWMS (2019)
Estágio 1 — consciente, com tremor (35–32 °C)"Alerta"BaixoLeve: 35–32 °C
Estágio 2 — consciência alterada, sem tremor (32–28 °C)"Voz" (inclui o confuso)ModeradoModerada: 32–28 °C
Estágio 3 — inconsciente (28–24 °C)"Dor" ou "Irresponsivo" COM sinais vitaisAltoGrave: < 28 °C
Estágio 4 — morte aparente (< 24 °C)"Irresponsivo" SEM sinais vitaisPCR hipotérmicaGrave/PCR

O tremor pode persistir abaixo de 32 °C e varia muito entre indivíduos; sua presença em geral indica temperatura > 30 °C. Verifique sinais de vida (pulso e, sobretudo, respiração) por até 1 minuto.

O sistema revisado só vale para hipotermia primária. Trauma, asfixia, intoxicação ou doença neurológica rebaixam a consciência por si e fazem o escore superestimar o risco — nesses casos, a temperatura central medida prevalece.

Ferramenta — sistema suíço revisado

Estadiamento clínico da hipotermia acidental (Revised Swiss System)

Use quando não houver temperatura central confiável. Nível de consciência pela escala AVPU: Alerta = Glasgow 15; Voz = Glasgow 9–14, incluindo o confuso; Dor/Irresponsivo = Glasgow < 9.

Preencha os campos para estimar o risco de PCR hipotérmica.

Baseada em Musi ME et al., Resuscitation 2021 (ICAR MedCom), adotada pelas diretrizes do ERC. Os níveis se sobrepõem: o sistema guia triagem e destino, não substitui o julgamento clínico.

O coração e o corpo frios

Abaixo de 32 °C surgem bradicardia sinusal, fibrilação atrial lenta, alargamento de PR, QRS e QT e a onda J de Osborn. Abaixo de 28 °C o risco de FV cresce, e abaixo de 24 °C a assistolia é comum. A bradicardia é fisiológica: não trate com atropina nem marca-passo enquanto o paciente estiver frio.

Manuseio delicado

Mova em bloco e na horizontal; evite deixá-lo de pé ou sentá-lo. Retire roupas molhadas cortando-as.

Diurese fria

Vasoconstrição gera diurese e hipovolemia; a vasodilatação do reaquecimento provoca hipotensão — repõe com fluidos aquecidos.

Queda pós-resgate (afterdrop)

A temperatura central pode continuar caindo após o resgate, quando sangue frio da periferia retorna ao núcleo.

Drogas acumulam

Metabolismo hepático lento: doses repetidas se acumulam e agem de uma vez no reaquecimento.

Reaquecimento: escolha pelo estágio

MétodoComoPara quem
PassivoRemover roupas molhadas, secar, isolar (cobertor, manta aluminizada), ambiente aquecido; o calor vem do próprio tremor.Hipotermia leve, paciente que treme e está estável.
Ativo externoAr forçado aquecido, cobertores elétricos ou bolsas de calor no tronco (não em extremidades), com cuidado para não queimar.Hipotermia leve sem tremor eficaz, moderada e grave (em associação).
Ativo interno minimamente invasivoFluidos IV aquecidos a 38–42 °C, O₂ umidificado e aquecido; lavagem vesical ou gástrica tem papel limitado.Moderada e grave, como complemento.
Ativo interno invasivoLavagem pleural ou peritoneal com fluido aquecido, cateter endovascular de controle de temperatura, hemodiálise.Grave com instabilidade quando ECLS não está disponível.
Extracorpóreo (ECLS)ECMO venoarterial (preferida à circulação extracorpórea convencional): reaquece e garante perfusão e oxigenação ao mesmo tempo.PCR hipotérmica e hipotermia com instabilidade refratária.

O ERC 2025 recomenda transferir para centro com ECLS o hipotérmico em PCR ou com fatores de risco para PCR iminente: FC < 45 bpm, PAS < 90 mmHg, arritmia ventricular ou temperatura central < 30 °C.

Hipotermia secundária: procure a causa

Hipotermia sem exposição clara — ou que não melhora com o reaquecimento — é doença de base até prova em contrário. Na sepse, a hipotermia é marcador de gravidade e associa-se a maior mortalidade que a febre.

Sepse

Idoso, imunossuprimido ou cirrótico com hipotermia: culturas e antibiótico em até 1 hora se choque.

Hipoglicemia

Glicemia capilar imediata; e no etilista ou desnutrido.

Coma mixedematoso

Hipotermia, bradicardia, hiponatremia, hipoventilação; antes de .

Insuficiência adrenal

Hipotensão refratária, hiponatremia, hipercalemia, corticoide crônico suspenso: .

Intoxicação

Etanol, sedativos, opioides, antipsicóticos e hipoglicemiantes; muitas vezes associada à exposição ao frio.

SNC e outras

AVC, TCE, lesão medular alta, queimaduras extensas, desnutrição e grandes infusões frias.

Em 30 segundos

O essencial de pcr nos extremos

  1. Na PCR hipotérmica, o frio protege o cérebro: sobreviventes com boa função neurológica após horas de RCP são descritos.
  2. ERC 2025: adrenalina só a partir de 30 °C (intervalo de 6–10 min entre 30 e 35 °C); após 3 choques sem sucesso, novas tentativas só acima de 30 °C.
  3. O desfecho depende do ECLS: transfira com RCP mecânica e decida pelo escore HOPE no hospital.
  4. Na PCR por hipertermia, o resfriamento ativo continua durante a RCP.

PCR hipotérmica: o que muda no ACLS

Confirme a PCR checando pulso e respiração por até 1 minuto — a bradicardia extrema e a bradipneia enganam. Se houver dúvida, use capnografia, ECG e ultrassom. Iniciada a RCP, as diferenças em relação ao algoritmo padrão são poucas, mas decisivas.

Temperatura centralAdrenalinaDesfibrilaçãoRCP
< 30 °CNão administrar (acumula e pode ser deletéria).Até 3 choques; se FV persistir, adiar novas tentativas até > 30 °C.Contínua; se impossível no resgate, intermitente abaixo de 28 °C.
30–35 °C com intervalo dobrado: a cada 6–10 min.Conforme algoritmo padrão.Contínua.
> 35 °CProtocolo padrão (a cada 3–5 min).Protocolo padrão.Contínua.

Recomendações do ERC 2025 (circunstâncias especiais). Siga também o protocolo da sua instituição e mantenha o foco em RCP de qualidade e no encaminhamento para ECLS.

RCP intermitente

Quando o resgate ou o transporte impedem RCP contínua, aceita-se alternar: abaixo de 28 °C, 5 minutos de RCP com pausas de até 5 minutos; abaixo de 20 °C, 5 minutos de RCP com pausas de até 10 minutos. Prefira dispositivo de compressão mecânica no transporte (Gordon et al., 2015; ERC).

"Ninguém está morto até estar quente e morto"

A frase resume uma fisiologia real: a cada grau perdido, o consumo cerebral de oxigênio cai, e a PCR que ocorre depois do resfriamento tem prognóstico muito melhor que a asfixia seguida de frio. Mas ela não é absoluta — há critérios de futilidade e um escore para decidir quem vai para o ECLS.

Favorece insistir e ECLS

  • PCR presenciada depois do resfriamento (hipotermia primária).
  • Temperatura central < 30–32 °C compatível com o tempo de exposição.
  • Escore HOPE ≥ 10% de probabilidade de sobrevida.
  • Imersão ou exposição sem asfixia prévia.

Sugere futilidade

  • Lesões incompatíveis com a vida, corpo congelado com via aérea obstruída por neve ou gelo.
  • Asfixia antes do resfriamento (soterramento em avalanche com via aérea obstruída, submersão).
  • Potássio muito elevado na admissão (marcador de morte celular e asfixia, componente do HOPE).
  • HOPE < 10%: o valor preditivo negativo é alto (cerca de 97% na validação).

PCR e instabilidade na hipertermia

Na PCR por insolação ou toxíndrome hipertérmica, siga o ACLS padrão sem interromper o resfriamento: gelo, toalhas geladas, fluidos frios e, quando possível, dispositivos de controle de temperatura. A hipertermia piora o prognóstico neurológico após o retorno da circulação.

  • Hipercalemia por rabdomiólise é causa reversível: trate com cálcio, insulina com glicose e diálise.
  • Na hipertermia maligna, continue o e trate a hipercalemia; evite bloqueadores de canal de cálcio junto com dantroleno.
  • Após o retorno da circulação, evite febre e hipertermia de rebote.

Em 30 segundos

O essencial de avaliação e exames

  1. ABCDE, monitorização, glicemia capilar e temperatura central contínua nos primeiros minutos.
  2. Anamnese de 60 segundos: exposição, esforço, drogas novas, anestesia, uso de estimulantes, tireoide, etanol.
  3. Exames procuram consequências (rabdomiólise, hipercalemia, lesão renal e hepática, CIVD) e causas (sepse, endócrina, toxicologia).
  4. Nenhum exame atrasa resfriamento ou reaquecimento.

Os primeiros dez minutos

A temperatura central é o sinal vital que define o problema, e o erro mais comum é confiar em termômetro axilar ou timpânico, que subestimam os extremos. Por isso a medida central contínua entra junto com o ABCDE, e o tratamento térmico começa antes de qualquer resultado de exame.

  1. ABCDE e monitorização

    Cardioscopia, oximetria (pode falhar por vasoconstrição no frio), pressão arterial, capnografia se intubado.

  2. Temperatura central — passo crítico

    Termômetro adequado, sonda retal ou esofágica, monitorização contínua.

  3. Glicemia capilar

    Hipoglicemia é causa e complicação tanto do frio quanto do calor.

  4. Iniciar o tratamento térmico

    Resfriamento por imersão ou reaquecimento escalonado, já na sala de emergência.

  5. Acesso e coleta

    Gasometria com lactato e eletrólitos, hemograma, função renal e hepática, CK, coagulograma, culturas se suspeita infecciosa.

  6. ECG de 12 derivações

    Onda J, bradiarritmias e FA no frio; taquiarritmias, QRS largo e hipercalemia no calor.

Anamnese e exame dirigidos

A causa quase sempre está na história, que costuma vir de terceiros: acompanhante, socorrista ou a caixa de remédios. Pergunte ativamente por medicamento novo, dose alterada ou suspensão abrupta e por anestesia recente, porque síndrome serotoninérgica, SNM e hipertermia maligna têm tratamento específico que a insolação não tem.

  • Exposição — tempo, ambiente, roupa molhada, imersão, onda de calor, ar-condicionado ausente.
  • Esforço — prova esportiva, treino, trabalho pesado.
  • Medicamentos — antidepressivos, antipsicóticos, antieméticos, opioides (tramadol), linezolida, triptanos, anticolinérgicos, diuréticos, betabloqueadores, hipoglicemiantes; mudança de dose ou suspensão (levodopa, baclofeno).
  • Anestesia recente — halogenado ou succinilcolina e história familiar de complicação anestésica.
  • Substâncias — álcool, cocaína, anfetaminas, ecstasy, sedativos.
  • Endócrino — hipertireoidismo conhecido, bócio, suspensão de tionamida, iodo recente; hipotireoidismo, corticoide crônico.
  • Exame — pele (seca × úmida), pupilas, tônus, reflexos e clônus, rigidez de nuca, foco infeccioso, sinais de trauma.

Exames que mudam conduta

Os exames respondem a duas perguntas: que dano a temperatura já causou e qual é a causa por trás dela. Vários resultados se comportam de forma diferente no calor e no frio, e alguns enganam quando lidos fora desse contexto.

ExameNa hipertermiaNa hipotermia
Gasometria, lactato e potássioAcidose metabólica, hipercalemia por rabdomiólise; hipercapnia precoce sugere hipertermia maligna.Interprete sem correção pela temperatura (alfa-stat). Potássio alto na PCR pesa contra ECLS (escore HOPE).
CK e mioglobina urináriaRabdomiólise (insolação de esforço, SNM, HM, toxíndromes).Rabdomiólise por imobilização prolongada.
Função renal e hepáticaLesão renal aguda; transaminases sobem nas primeiras 24–72 h.Lesão renal por hipoperfusão e rabdomiólise.
Coagulograma, plaquetas, fibrinogênioCIVD, que pode surgir após o resfriamento.Exame a 37 °C pode ser normal apesar de coagulopatia clínica.
GlicemiaHipo ou hiperglicemia.Hipoglicemia (etanol, sepse, desnutrição); hiperglicemia por resistência à insulina — não corrija agressivamente.
TSH e T4 livre, cortisolTireotoxicose (não aguarde para tratar).Coma mixedematoso e insuficiência adrenal.
Toxicologia, etanol, salicilato, paracetamolToxíndromes e associações.Etanol e sedativos.
Culturas, liquor, imagemInfecção do SNC e sepse; TC de crânio se trauma ou déficit focal.Sepse, TCE e AVC.

Lipase/amilase e enzimas hepáticas elevadas são comuns na hipotermia grave; ECG com onda J não é infarto — reavalie após o reaquecimento.

Modelo de registro

O registro precisa contar a história no tempo: temperatura com sítio e horário de cada medida, início e fim de cada intervenção térmica. É isso que orienta a equipe seguinte e sustenta a decisão entre resfriar, reaquecer ou indicar ECLS.

Evolução — alteração grave da temperatura

Paciente de __ anos, trazido(a) por __, encontrado(a) em __ (exposição: __; tempo estimado: __). Temperatura central: __ °C (sítio: esofágico/retal/vesical) às __h. Consciência: AVPU __ / Glasgow __. FC __ bpm, PA __ mmHg, FR __ irpm, SpO₂ __%, glicemia __ mg/dL. Exame: pele __; pupilas __; tônus __; reflexos/clônus __; sinais de trauma __. Hipótese: hipertermia (insolação clássica/de esforço, SS, SNM, HM, toxíndrome, tireotoxicose) / hipotermia (primária, estágio __ suíço revisado; secundária a __). Conduta: resfriamento por __ (início __h; T de parada __ °C às __h) / reaquecimento __ (passivo/ativo externo/interno/ECLS). Medicações: __. Exames solicitados: __. Destino: __. Reavaliação da temperatura a cada __ min.

Registre horários de início e fim do resfriamento ou reaquecimento e a temperatura em cada intervenção.

Em 30 segundos

O essencial de conduta

  1. Hipertermia: resfriar até ~39 °C em até 30 min, benzodiazepínico para agitação e calafrio, tratamento do mecanismo.
  2. é o antídoto da hipertermia maligna (2,5 mg/kg imediato) e adjuvante na SNM grave — não na insolação.
  3. Hipotermia: reaquecimento escalonado, fluidos aquecidos, manuseio delicado; ECLS para PCR ou instabilidade.
  4. Trate a causa secundária: , , , , antibiótico.

Destino

Insolação, toxíndromes hipertérmicas, tempestade tireoidiana e hipotermia moderada a grave pedem leito monitorizado, em geral UTI: as complicações (CIVD, lesão hepática e renal, arritmias do reaquecimento) aparecem nas horas seguintes.

UTI

Insolação, SS grave, SNM, HM, tempestade tireoidiana, hipotermia < 32 °C ou com instabilidade, coma mixedematoso.

Centro com ECLS

PCR hipotérmica ou instabilidade (FC < 45, PAS < 90, arritmia ventricular, T < 30 °C).

Observação

Exaustão pelo calor que normaliza rápido; SS leve (observar 6–12 h); hipotermia leve primária reaquecida.

Alta

Temperatura normal, exames sem lesão orgânica, causa esclarecida e ambiente seguro (avalie vulnerabilidade social no idoso).

Rotas de tratamento

Cada rota corresponde a um cenário da porta de entrada; o ícone de cada fármaco abre a ficha com apresentação, diluição, dose e cuidados. Os valores seguem apresentações usuais no Brasil — confira sempre o rótulo e o protocolo do seu serviço.

Referências bibliográficas

  1. 1
    Diretriz2025
    European Resuscitation Council. European Resuscitation Council Guidelines 2025: Cardiac Arrest in Special Circumstances (hipotermia acidental e hipertermia). Resuscitation. 2025.
  2. 2
    Artigo2015
    Gordon L, Paal P, Ellerton JA, et al. Delayed and intermittent CPR for severe accidental hypothermia. Resuscitation. 2015;90:46-49.
  3. 3
    Diretriz2021
    Musi ME, Sheets A, Zafren K, et al. Clinical staging of accidental hypothermia: The Revised Swiss System — Recommendation of the International Commission for Mountain Emergency Medicine (ICAR MedCom). Resuscitation. 2021;162:182-187.
  4. 4
    Diretriz2019
    Dow J, Giesbrecht GG, Danzl DF, et al. Wilderness Medical Society Clinical Practice Guidelines for the Out-of-Hospital Evaluation and Treatment of Accidental Hypothermia: 2019 Update. Wilderness Environ Med. 2019;30(4S):S47-S69.
  5. 5
    Artigo2022
    Paal P, Pasquier M, Darocha T, et al. Accidental Hypothermia: 2021 Update. Int J Environ Res Public Health. 2022;19(1):501.
  6. 6
    Artigo2018
    Pasquier M, Hugli O, Paal P, et al. Hypothermia outcome prediction after extracorporeal life support for hypothermic cardiac arrest patients: The HOPE score. Resuscitation. 2018;126:58-64.
  7. 7
    Diretriz2025
    Barletta JF, et al. Society of Critical Care Medicine Guidelines for the Treatment of Heat Stroke. Crit Care Med. 2025;53(2):e490-e500.
  8. 8
    Diretriz2024
    Lipman GS, et al. Wilderness Medical Society Clinical Practice Guidelines for the Prevention and Treatment of Heat Illness: 2024 Update. Wilderness Environ Med. 2024.
  9. 9
    Diretriz2021
    Roberts WO, Armstrong LE, Sawka MN, et al. ACSM Expert Consensus Statement on Exertional Heat Illness: Recognition, Management, and Return to Activity. Curr Sports Med Rep. 2021;20(9):470-484.
  10. 10
    Artigo2003
    Dunkley EJC, Isbister GK, Sibbritt D, et al. The Hunter Serotonin Toxicity Criteria: simple and accurate diagnostic decision rules for serotonin toxicity. QJM. 2003;96(9):635-642.
  11. 11
    Diretriz2011
    Gurrera RJ, Caroff SN, Cohen A, et al. An international consensus study of neuroleptic malignant syndrome diagnostic criteria using the Delphi method. J Clin Psychiatry. 2011;72(9):1222-1228.
  12. 12
    Diretriz2016
    Ross DS, Burch HB, Cooper DS, et al. 2016 American Thyroid Association Guidelines for Diagnosis and Management of Hyperthyroidism and Other Causes of Thyrotoxicosis. Thyroid. 2016;26(10):1343-1421.
  13. 13
    Diretriz2014
    Jonklaas J, Bianco AC, Bauer AJ, et al. Guidelines for the treatment of hypothyroidism: prepared by the American Thyroid Association Task Force on Thyroid Hormone Replacement. Thyroid. 2014;24(12):1670-1751.
  14. 14
    Documento oficial2024
    Cristália Produtos Químicos Farmacêuticos. Dantrolen IV (dantroleno sódico) — bula para o profissional de saúde. ANVISA, 2024.

Aviso importante

Ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional. Não substitui a avaliação médica presencial, o julgamento clínico, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. Doses, diluições e velocidades de infusão devem ser conferidas antes da administração. Em caso de divergência, prevalecem os protocolos institucionais do seu serviço, as bulas vigentes e a orientação do centro de informação toxicológica (CIATox).

MedFoco • Emergência & UTI — conteúdo educacional de apoio à decisão. O diagnóstico e a conduta dependem da avaliação clínica individual e dos protocolos da sua instituição.
Rolar para cima