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Criptococose

Cryptococcus neoformans e Cryptococcus gattii — leveduras encapsuladas

Micose sistêmica adquirida pela inalação de leveduras de Cryptococcus presentes em fezes secas de pombos, solo e madeira em decomposição. O pulmão é a porta de entrada, mas a forma que mata é a meningoencefalite, sobretudo no HIV avançado, em que a hipertensão intracraniana é a principal causa de morte precoce.

Meningoencefalite subagudaOportunista no HIVFezes de pombosHipertensão intracraniana
18–22 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Micose sistêmica por leveduras encapsuladas: C. neoformans e C. gattii.
  2. Adquirida pela inalação de leveduras do ambiente; não se transmite entre pessoas.
  3. A cápsula polissacarídica é o principal fator de virulência e a base do teste de antígeno.
  4. A meningoencefalite no HIV avançado é a forma mais letal; a hipertensão intracraniana mata cedo.

O que é criptococose

Criptococose é a micose sistêmica causada por leveduras do gênero Cryptococcus, principalmente C. neoformans e C. gattii. A infecção começa no pulmão, após a inalação de partículas do ambiente, e pode ficar latente por anos. Quando a imunidade celular cai, o fungo se dissemina e tem tropismo marcado pelo sistema nervoso central, causando a meningoencefalite criptocócica, principal causa de meningite em adultos com HIV em várias regiões do mundo.

Aves e árvores abrigam o fungo no ambiente, mas não há transmissão animal → humano nem pessoa a pessoa: o risco vem da poeira inalada.

Pessoa com HIV, cefaleia há semanas e CD4 baixo: criptococose até prova em contrário.

O agente

São leveduras arredondadas, com brotamento de base estreita, envoltas por uma cápsula polissacarídica espessa, rica em glicuronoxilomanana. A cápsula inibe a fagocitose e modula a resposta imune; também é ela que circula no sangue e no líquor como antígeno detectado pelo CrAg, e que aparece como halo claro na tinta da China.

As duas espécies diferem em ecologia e hospedeiro. C. neoformans predomina em imunossuprimidos e no HIV; C. gattii acomete com mais frequência imunocompetentes, forma criptococomas pulmonares e cerebrais e, no Brasil, é endêmico sobretudo no Norte e no Nordeste.

Agente etiológico

Cryptococcus na tinta da China

Levedura com cápsula espessa, vista como halo claro contra o fundo escuro.

  • Cápsula polissacarídica: principal fator de virulência e alvo do teste de antígeno.
  • Melanina (lacase) e crescimento a 37 °C também contribuem para a virulência.
C. neoformans em preparação com tinta da China — toque para ampliar.

C. neoformans

  • Fezes secas de pombos, solo urbano, madeira em decomposição.
  • Imunossuprimidos, sobretudo HIV avançado.
  • Meningoencefalite é a apresentação dominante.

C. gattii

  • Ocos e detritos de árvores, como eucaliptos.
  • Frequentemente imunocompetentes.
  • Criptococomas pulmonares e cerebrais; hidrocefalia.

Fisiopatologia: do alvéolo ao SNC

Leveduras pequenas, pouco encapsuladas no ambiente, alcançam o alvéolo e ali aumentam a cápsula. No imunocompetente, macrófagos ativados pela resposta Th1 contêm a infecção em granulomas, muitas vezes de forma silenciosa, com latência que pode durar anos.

Com a queda da imunidade celular, o fungo se dissemina pelo sangue e atravessa a barreira hematoencefálica. No espaço subaracnóideo, a grande quantidade de polissacarídeo capsular dificulta a reabsorção do líquor nas granulações aracnoides, o que explica a hipertensão intracraniana com pouca inflamação e, muitas vezes, sem hidrocefalia.

Fisiopatologia

Inalação → latência → disseminação

O desfecho depende da imunidade celular: contenção pulmonar no imunocompetente, disseminação e meningoencefalite quando o CD4 cai.

Fisiopatologia da criptococose — toque para ampliar.

Magnitude do problema

A meningite criptocócica continua entre as principais causas de morte em pessoas com HIV avançado, com letalidade que varia de 13% a 73% conforme o acesso a diagnóstico e tratamento. A OMS incluiu C. neoformans no grupo de prioridade crítica de sua lista de fungos patogênicos (2022). Fora do HIV, cresce a importância em transplantados, usuários de corticoides e biológicos e em pessoas com doença hepática, renal ou neoplasias hematológicas.

≈112 milMortes anuais por meningite criptocócica no HIV (estimativa 2020)
CD4 <100Faixa em que se concentra a meningite no HIV

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O essencial de transmissão e risco

  1. Via respiratória: inalação de leveduras em poeira de fezes de aves, solo e madeira.
  2. C. neoformans ↔ pombos; C. gattii ↔ eucaliptos e outras árvores.
  3. Sem transmissão pessoa a pessoa; transplante de órgão infectado é exceção rara.
  4. Risco de doença: HIV avançado, transplante, corticoides, biológicos, neoplasia hematológica.

Como ocorre a exposição

A fonte é ambiental. C. neoformans prolifera em excretas secas de pombos, ricas em compostos nitrogenados, acumuladas em telhados, sótãos, torres, praças e construções abandonadas. C. gattii vive em ocos e detritos de árvores, classicamente eucaliptos, mas também em outras espécies nativas.

O risco surge quando esse material seco é revolvido e vira poeira. As aves em si não adoecem de forma relevante e não transmitem o fungo diretamente; o pombo funciona como amplificador ambiental.

Ciclo ambiental

Fezes de pombos / árvores → poeira → inalação

Leveduras e basidiósporos aerossolizados alcançam o alvéolo; a doença pode surgir meses ou anos depois, por reativação.

  • Pombais, telhados e sótãos: limpeza de excretas secas sem proteção.
  • Obras e demolições: poeira de construções antigas com acúmulo de fezes de aves.
  • Áreas com eucaliptos e madeira em decomposição: fonte de C. gattii.

Saúde única

Criptococose não é zoonose no sentido estrito, mas é um exemplo claro de saúde única. Gatos, cães, cavalos, cabras e coalas adoecem pela mesma fonte ambiental que o ser humano; o gato, em especial, desenvolve doença nasal e cutânea e funciona como sentinela de exposição no domicílio. Controle de pombos em áreas urbanas e manejo seguro de excretas protegem pessoas e animais ao mesmo tempo.

Animal sentinela

Criptococose felina

Aumento de volume nasal, secreção e lesões de pele indicam exposição compartilhada.

Quem tem maior risco de doença

A exposição é ampla e a maioria das pessoas nunca adoece. O que define a doença é a imunidade celular: quanto menor o CD4 ou mais intensa a imunossupressão farmacológica, maior a chance de disseminação e de meningoencefalite. Todo paciente com criptococose sem fator de risco conhecido deve fazer sorologia para HIV e contagem de CD4.

  • HIV avançado: sobretudo CD4 <100 células/mm³; também abandono ou falha de TARV.
  • Transplante de órgão sólido: geralmente após o primeiro ano, em uso de inibidores de calcineurina.
  • Corticoides, biológicos e quimioterapia: anti-TNF, alemtuzumabe, fingolimode, ibrutinibe.
  • Outras condições: neoplasia hematológica, cirrose, doença renal crônica, sarcoidose, linfopenia CD4 idiopática, autoanticorpos anti-GM-CSF (associados a C. gattii).

Contexto brasileiro

No Brasil coexistem dois padrões. A criptococose oportunista por C. neoformans ocorre em todo o país, ligada ao HIV com diagnóstico tardio. A criptococose primária por C. gattii, em hospedeiros sem imunossupressão aparente, é endêmica no Norte e no Nordeste e acomete também crianças e adultos jovens, com meningoencefalite e criptococomas.

A criptococose não integra a lista nacional de notificação compulsória, mas há vigilância em estados e municípios. Siga o fluxo local e envie isolados para laboratório de referência quando solicitado.

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O essencial de quadro clínico

  1. Meningoencefalite subaguda: cefaleia progressiva, febre, vômitos, confusão.
  2. Sinais meníngeos podem faltar; hipertensão intracraniana é comum e grave.
  3. Pulmão: de nódulo assintomático a pneumonia difusa com insuficiência respiratória.
  4. Pele: pápulas umbilicadas tipo molusco sugerem doença disseminada.

Formas clínicas

O espectro vai da colonização ou nódulo pulmonar assintomático à meningoencefalite com coma. O hospedeiro define a apresentação: imunocompetentes tendem a ter nódulos pulmonares circunscritos, e imunossuprimidos, infiltrados difusos acompanhados de meningite. Qualquer isolamento em local estéril ou forma disseminada deve ser manejado como doença do SNC até prova em contrário.

Forma mais grave

Meningoencefalite

Curso subagudo, com cefaleia, febre, vômitos, confusão e sinais de hipertensão intracraniana.

Porta de entrada

Forma pulmonar

Nódulos, massas, consolidação ou infiltrado intersticial; pode ser achado incidental.

Sinal de disseminação

Forma cutânea

Pápulas umbilicadas, nódulos, úlceras ou celulite; no HIV, lembram molusco contagioso.

Meningoencefalite criptocócica

A queixa típica é cefaleia que se instala e piora ao longo de 1 a 4 semanas, com febre baixa, mal-estar, náuseas e vômitos. Rigidez de nuca está ausente em boa parte dos pacientes, porque a resposta inflamatória é pobre. Com a evolução surgem confusão, alteração de comportamento, diplopia por paralisia do VI nervo, perda visual, convulsões e coma.

No HIV avançado o quadro tende a ser mais agudo e com carga fúngica maior. Em C. gattii, criptococomas cerebrais e hidrocefalia são mais frequentes, e a perda visual pode ser marcante.

  • Hipertensão intracraniana: cefaleia intensa, vômitos, visão borrada, diplopia, papiledema.
  • Perda visual: por hipertensão intracraniana ou neurite óptica; pode ser definitiva.
  • Encefalite: confusão e rebaixamento, às vezes confundidos com quadro psiquiátrico.

Outros sítios

Praticamente qualquer órgão pode ser acometido na forma disseminada. Alguns sítios merecem lembrança porque mudam a conduta: a pele, que permite biópsia rápida; o olho, que pode perder a visão; e a próstata, que funciona como reservatório e explica recidivas.

  • Pulmão: nódulos, massas (criptococomas), consolidação, cavitação, derrame pleural; SDRA no imunossuprimido.
  • Pele: secundária à disseminação (mais comum) ou primária por inoculação direta (rara).
  • Olho: papiledema, neurite óptica, coriorretinite.
  • Osso e articulações: lesões osteolíticas, mais em vértebras.
  • Próstata, linfonodos, fígado, suprarrenal: na forma disseminada.
  • Fungemia: marcador de alta carga fúngica e pior prognóstico.

Sinais de gravidade e pior prognóstico

Alguns achados à admissão predizem maior mortalidade e devem acelerar o tratamento, a internação e o controle da pressão. O PCDT brasileiro destaca a combinação de pouca inflamação no líquor, rebaixamento de consciência e alta carga fúngica.

  • Rebaixamento do nível de consciência ou crise convulsiva.
  • Hipertensão intracraniana não controlada.
  • Leucócitos no líquor <20 células/mm³.
  • Alta carga fúngica: título de CrAg por fluxo lateral ≥1:160 (ou látex >1:1024), fungemia.
  • Neuroimagem com extensão ao parênquima (pseudocistos mucinosos).

A hipertensão intracraniana não controlada responde pela maioria das mortes nas duas primeiras semanas — pressão de abertura é medida obrigatória.

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O essencial de diagnóstico

  1. Punção lombar com pressão de abertura em toda suspeita de meningite.
  2. CrAg por fluxo lateral é o exame preferencial no líquor e no sangue.
  3. Tinta da China tem sensibilidade de 60–90%; cultura confirma em cerca de 7 dias.
  4. CrAg no sangue positivo no HIV avançado obriga a puncionar, mesmo sem sintomas.

Estratégia diagnóstica

Diante da suspeita, a punção lombar é o exame central: mede a pressão de abertura, que orienta o manejo, e fornece líquor para CrAg, tinta da China e cultura. A hipertensão intracraniana não contraindica a punção na criptococose; as contraindicações são coagulopatia significativa e sinais de lesão expansiva (excluindo paralisia do VI nervo), idealmente avaliados por tomografia.

Investigue também a extensão da doença: CrAg e hemocultura no sangue, imagem de tórax e, sempre que possível, RM de crânio. Quando a punção não for possível de imediato, o CrAg no sangue orienta o início do tratamento.

  1. Suspeita

    Cefaleia subaguda, febre, imunossupressão.

  2. Imagem se necessário

    TC se sinal focal, convulsão ou rebaixamento.

  3. Punção lombar

    Pressão de abertura + CrAg + tinta da China + cultura.

  4. Extensão

    CrAg e hemocultura no sangue; imagem de tórax.

Principais testes

Cada teste tem papel próprio. O CrAg é o mais sensível e o mais rápido; a cultura é indispensável para confirmar, identificar a espécie e testar sensibilidade em recidivas. A titulação do CrAg tem valor prognóstico na admissão, mas não deve ser usada para acompanhar resposta, porque o antígeno persiste por meses.

TesteOnde ajuda maisLimitações / interpretação
CrAg por fluxo lateral (LFA)Líquor, soro, plasma ou sangue total (polpa digital); resultado em ~10 minutos.Sensibilidade >98% e especificidade >99% no líquor. Permanece positivo por longo tempo após o tratamento.
CrAg por aglutinação em látexAlternativa quando não há LFA.Desempenho inferior ao LFA; falso-positivos com fator reumatoide.
Tinta da ChinaLíquor; rápida e barata.Sensibilidade de 60–90%, menor com baixa carga fúngica; negativa não exclui.
CulturaLíquor, sangue, escarro/LBA, urina, tecidos.Confirma e permite identificar espécie e sensibilidade; resultado em ~7 dias.
HistopatologiaPele, pulmão, linfonodo, lesões cerebrais.Mucicarmim e Fontana-Masson destacam cápsula e melanina.
Painéis moleculares do líquorComplementares onde disponíveis.Sensibilidade inferior ao CrAg; não substituem o antígeno.
Teste rápido

CrAg LFA

Fita imunocromatográfica: líquor, soro ou sangue de polpa digital.

Cultura

Colônias mucoides

Aspecto cremoso e brilhante pela cápsula polissacarídica.

Líquor e neuroimagem

O líquor costuma mostrar pressão de abertura elevada, frequentemente acima de 25 cmH₂O, com pleocitose linfocitária discreta, proteína aumentada e glicose baixa. No HIV avançado, a celularidade pode ser quase normal apesar de carga fúngica altíssima, o que é sinal de mau prognóstico, não de doença leve.

A neuroimagem pode ser normal. Os achados característicos são dilatação dos espaços perivasculares e pseudocistos gelatinosos nos núcleos da base, criptococomas (mais com C. gattii) e hidrocefalia.

Achado característico

Líquor na neurocriptococose

Pressão alta com pouca inflamação: o polissacarídeo capsular obstrui a reabsorção do líquor.

  • Pressão de abertura elevada; leucócitos baixos a moderados, com predomínio linfocitário.
  • Proteína aumentada, glicose reduzida, CrAg positivo.
Líquor na criptococose — toque para ampliar.
Achado de imagem

Pseudocistos gelatinosos

Espaços perivasculares dilatados nos núcleos da base, sem realce importante.

Achado de imagem

Criptococoma

Nódulo ou massa pulmonar ou cerebral, mais comum com C. gattii.

Rastreio de CrAg no HIV avançado

O antígeno aparece no sangue semanas antes dos sintomas neurológicos. Por isso, a OMS recomenda CrAg no sangue antes de iniciar ou reiniciar a TARV em adultos e adolescentes com CD4 <100 células/mm³, podendo estender para <200; o PCDT brasileiro indica o rastreio com CD4 ≤200 células/mm³ sem história prévia de criptococose. A ferramenta abaixo resume a conduta conforme o resultado.

CrAg no sangue: o que fazer

Pessoa vivendo com HIV com CD4 ≤200 células/mm³, sem criptococose prévia.

Selecione o resultado do CrAg e a situação da punção lombar.

Baseado no PCDT HIV Adultos — Módulo 2 (Ministério da Saúde) e nas diretrizes da OMS (2018/2022).

Diagnósticos diferenciais

No HIV avançado, a meningite subaguda tem três grandes suspeitos: criptococose, tuberculose e, como causa de lesão focal, toxoplasmose. A coinfecção é possível, e um diagnóstico não exclui o outro; por isso o líquor deve ser processado de forma ampla desde a primeira punção.

DiferencialPor que confundeO que ajuda a separar
Meningite tuberculosaMeningite subaguda com glicose baixa e proteína alta.CrAg negativo; teste molecular e cultura para micobactéria; ADA; espessamento basal na imagem.
NeurotoxoplasmoseCefaleia, febre e alteração neurológica no HIV com CD4 baixo.Lesões com realce anelar e efeito de massa; sorologia IgG; resposta ao tratamento empírico.
Meningite bacterianaFebre, cefaleia e meningismo.Curso mais agudo, neutrofilia no líquor, Gram e cultura.
Histoplasmose disseminadaMicose oportunista com doença pulmonar e meníngea.Antígeno de Histoplasma em urina/soro; CrAg negativo.
Linfoma primário do SNC e LEMPAlteração neurológica progressiva no HIV.Padrão de imagem, PCR para vírus JC ou EBV no líquor, biópsia.
Neoplasia pulmonarNódulo ou massa no imunocompetente (criptococoma).Biópsia com histologia e cultura; CrAg sérico.
Molusco contagioso e outras dermatosesPápulas umbilicadas no HIV.Biópsia de pele com pesquisa de fungos; CrAg sérico.

Na meningite do HIV avançado, processe CrAg, tinta da China, cultura para fungos e investigação de tuberculose na mesma amostra de líquor.

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O essencial de tratamento

  1. Meningoencefalite: indução, consolidação e manutenção — sempre com controle da pressão.
  2. HIV (OMS 2022): anfotericina B lipossomal 10 mg/kg dose única + 14 dias de flucitosina e fluconazol.
  3. Esquemas com flucitosina reduzem mortalidade; corticoide, acetazolamida e manitol não entram.
  4. TARV 4–6 semanas após o início do antifúngico; manutenção até CD4 recuperado e carga viral indetectável.

Como escolher a rota

A primeira pergunta é se há doença do SNC ou disseminada. Meningoencefalite, fungemia, isolamento em local estéril e pneumonia grave são tratados com o esquema completo em três fases; a doença pulmonar isolada leve e a antigenemia sem meningite são tratadas com fluconazol. Por isso toda criptococose exige punção lombar antes de decidir.

A segunda é o hospedeiro. No HIV, a OMS 2022 prioriza a dose única de anfotericina B lipossomal; em transplantados e em não-HIV, a diretriz global de 2024 prefere anfotericina lipossomal diária com flucitosina por pelo menos 2 semanas, prolongando a indução em C. gattii, criptococomas e no hospedeiro sem imunossupressão aparente. A terceira é a disponibilidade: as alternativas estão ordenadas na Rota 1.

O antifúngico mata o fungo; a punção lombar de alívio evita a morte por hipertensão intracraniana. As duas coisas começam no mesmo dia.

Rotas de tratamento

Cada rota é um cenário clínico. Abra só a rota em que o seu paciente está: a tabela mostra dose, frequência e duração de cada esquema, e o nome de cada medicamento abre a ficha completa. Opções do mesmo grupo são alternativas — escolha uma.

Monitoramento e prevenção de toxicidade

A toxicidade da anfotericina e da flucitosina é a principal barreira à indução completa. Hipocalemia, hipomagnesemia, lesão renal e anemia são previsíveis e, em grande parte, evitáveis com pré-hidratação e reposição programada de eletrólitos. A flucitosina se acumula na insuficiência renal e causa mielossupressão, por isso a dose acompanha a função renal.

O queComo fazer
Pré-hidratação1 L de SF 0,9% com 20 mEq de KCl em 2 h antes de cada infusão de anfotericina (OMS).
Potássio e magnésioKCl oral 8 mEq 2x/dia e magnésio oral durante a indução; dosar K e Mg no início e pelo menos 2–3x/semana (dia sim, dia não na diretriz global).
CreatininaBasal e 2–3x/semana. Se dobrar com desoxicolato: omitir uma dose, aumentar hidratação e trocar por formulação lipídica se persistir.
HemogramaBasal e semanal (OMS); 2x/semana com flucitosina pelo risco de neutropenia e plaquetopenia.
FígadoTransaminases basais e semanais com fluconazol em dose alta e flucitosina.
Nível de flucitosinaQuando disponível, sobretudo com disfunção renal (diretriz global 2024).
InteraçõesFluconazol eleva tacrolimo, ciclosporina, sirolimo, varfarina e fenitoína; rifampicina reduz o fluconazol.

Erros que matam

A mortalidade da meningite criptocócica depende tanto do que se deixa de fazer quanto do antifúngico escolhido. Os erros abaixo aparecem repetidamente em séries de casos e estão por trás de boa parte das mortes evitáveis.

  • Puncionar sem medir a pressão de abertura ou não repetir a punção quando a cefaleia volta.
  • Tratar hipertensão intracraniana com manitol, acetazolamida ou corticoide.
  • Iniciar TARV na primeira ou segunda semana da meningite.
  • Usar fluconazol isolado como indução quando há flucitosina ou anfotericina.
  • Suspender a manutenção antes da reconstituição imune.
  • Escalar antifúngico por CrAg persistentemente positivo sem cultura positiva.

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O essencial de cenários especiais

  1. HIV avançado: rastreio de CrAg, dose única de anfotericina lipossomal e TARV em 4–6 semanas.
  2. Transplantado: formulação lipídica e redução gradual da imunossupressão.
  3. Gestação: anfotericina; evitar flucitosina e fluconazol no 1º trimestre.
  4. Imunocompetente com C. gattii: indução prolongada e atenção a criptococomas e hidrocefalia.

O que muda em cada cenário

O esquema básico é o mesmo, mas o hospedeiro muda a formulação, a duração e os riscos. No HIV a preocupação é a IRIS e o momento da TARV; no transplante, as interações e a rejeição; na gestação, a teratogenicidade; no imunocompetente com C. gattii, a resposta lenta das lesões expansivas.

CenárioParticularidadeO que fazer diferente
HIV avançadoAlta carga fúngica, hipertensão intracraniana, IRIS. 10 mg/kg dose única + + ; TARV em 4–6 semanas; manutenção até CD4 >200 e carga viral indetectável.
Transplante de órgão sólidoNefrotoxicidade somada à dos inibidores de calcineurina; interações.Anfotericina lipídica + flucitosina; reduzir imunossupressão aos poucos; monitorar níveis de tacrolimo/ciclosporina.
Imunossupressão não-HIVDiagnóstico mais tardio; mortalidade frequentemente maior.Indução de 4–6 semanas; investigar causa de imunodeficiência.
C. gattii / imunocompetenteCriptococomas, hidrocefalia, perda visual.Indução 4–6 semanas; fluconazol 6–18 meses; cirurgia ou derivação quando indicado.
GestaçãoFlucitosina e fluconazol potencialmente teratogênicos.Anfotericina como base; azóis após avaliação individual, evitando o 1º trimestre.
CriançaDoença rara mesmo em áreas de alta carga.Doses por peso: fluconazol 12 mg/kg (máx. 800 mg), flucitosina 100 mg/kg/dia.
Insuficiência renalAcúmulo de flucitosina e fluconazol.Ajustar doses pela depuração de creatinina; preferir anfotericina lipídica; dosar flucitosina se possível.

HIV em destaque

No HIV, a meningite criptocócica é quase sempre uma doença de diagnóstico tardio do HIV ou de abandono da TARV. O rastreio de CrAg antes da TARV identifica a fase pré-sintomática, quando o oral ainda consegue impedir a meningite.

Instalada a meningite, o estudo AMBITION-cm mostrou que a dose única de 10 mg/kg com flucitosina e fluconazol não é inferior ao esquema anterior com desoxicolato, com menos anemia, hipocalemia e lesão renal. A TARV deve esperar 4–6 semanas.

Quando o rastreio não está disponível, a OMS recomenda profilaxia primária com fluconazol em CD4 <100 células/mm³. No Brasil, onde o CrAg LFA está incorporado ao SUS, a estratégia é rastreio + preemptivo, e não profilaxia primária.

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O essencial de seguimento e prevenção

  1. Avaliar diariamente febre, cefaleia e sinais de hipertensão intracraniana nas 2 primeiras semanas.
  2. Resposta se mede pela clínica e pela cultura — não pelo título de CrAg.
  3. Piora após a TARV: excluir recidiva (cultura) antes de diagnosticar IRIS.
  4. Prevenção: rastreio de CrAg, preemptivo, profilaxia secundária e menos poeira de fezes de aves.

Como acompanhar

Nas duas primeiras semanas, a avaliação é diária e foca na pressão intracraniana. Depois, o objetivo é garantir adesão ao fluconazol e reconstituição imune. O antígeno persiste por meses e o título não guia decisões: o que define falha microbiológica é a cultura.

  • Clínica diária na indução: febre, cefaleia, visão, nível de consciência.
  • Punção com pressão de abertura se sintomas recorrem; punção ao fim da 2ª semana para confirmar esterilização antes da TARV, quando possível.
  • Cultura positiva após 2 semanas: prolongar indução e checar adesão, interações e sensibilidade.
  • Não escalar tratamento por CrAg persistente, leveduras visíveis sem crescimento em cultura ou imagem residual estável.
  • HIV: CD4 e carga viral para decidir a suspensão da manutenção.

Recidiva ou IRIS?

A volta dos sintomas depois de uma melhora inicial tem duas explicações principais, com tratamentos opostos. A recidiva é crescimento do fungo e exige reindução; a IRIS é inflamação contra antígeno residual, com culturas negativas, e pede manter tudo e, às vezes, corticoide.

Recidiva

  • Cultura do líquor positiva.
  • Adesão ruim, interação ou resistência ao fluconazol.
  • Reiniciar indução; testar sensibilidade do isolado.

IRIS paradoxal

  • 1–2 meses após iniciar TARV.
  • Culturas negativas, mais inflamação no líquor.
  • Manter antifúngico e TARV; punções; corticoide se persistente.

Prevenção ambiental e ocupacional

A exposição ao fungo é comum e impossível de eliminar, mas é possível reduzir grandes inóculos. A orientação vale sobretudo para imunossuprimidos e para trabalhadores de limpeza urbana, construção e manutenção de telhados e torres.

  • Excretas de pombos: umedecer antes de remover, nunca varrer a seco; usar respirador PFF2/N95 e luvas.
  • Imunossuprimidos: evitar limpar pombais, sótãos e forros com acúmulo de fezes de aves.
  • Controle urbano de pombos: vedar acessos e não alimentar aves em áreas residenciais.
  • Animais domésticos: gato com lesão nasal ou cutânea crônica deve ser avaliado pelo veterinário.

Profilaxia no HIV

Depois de qualquer episódio de criptococose no HIV, o 200 mg/dia é mantido como profilaxia secundária. A suspensão só é segura quando a TARV restaurou a imunidade de forma sustentada; se o CD4 cair de novo, a profilaxia volta.

Manter

  • 200 mg/dia VO.
  • Por pelo menos 12 meses e até a reconstituição imune.

Quando suspender

  • PCDT: CD4 >200 células/mm³ e carga viral indetectável, assintomático.
  • Diretrizes internacionais: ≥12 meses, CD4 >100 e carga viral indetectável.
  • Reiniciar se CD4 <100.

Resumo do fluxo prático

Suspeite diante de cefaleia subaguda no imunossuprimido, faça punção lombar com pressão de abertura e CrAg, e investigue sangue e pulmão. Confirmada a doença do SNC, inicie a indução no mesmo dia — no HIV, 10 mg/kg dose única com e — e controle a pressão com punções diárias quando necessário.

Siga com fluconazol 800 mg/dia por 8 semanas e 200 mg/dia de manutenção, inicie a TARV entre 4 e 6 semanas e suspenda a profilaxia só com imunidade recuperada. Na antigenemia sem meningite, o fluconazol preemptivo evita a doença.

Referências principais

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    Diretriz2022
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    Diretriz2024
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    Diretriz2010
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Aviso importante

Material educacional de apoio à decisão clínica. Não substitui avaliação individualizada, protocolos institucionais, serviço de referência, infectologia, pediatria/obstetrícia nem consulta às bulas. Doses por peso, ajuste renal de flucitosina e fluconazol, eletrólitos durante a anfotericina, momento da TARV, gestação e pediatria devem ser conferidos antes da prescrição; a pressão de abertura deve ser medida em toda punção.

Conteúdo para educação médica. Condutas devem ser individualizadas e conferidas com protocolos oficiais, contexto epidemiológico e disponibilidade local.
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