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Guia de Zoonoses • Fungos

Esporotricose

Sporothrix brasiliensis, S. schenckii e espécies relacionadas — fungos termodimórficos de implantação

Micose de implantação causada por Sporothrix spp., adquirida por arranhadura, mordedura ou contato com secreções de gatos doentes ou por trauma com solo e material vegetal. No Brasil, a epidemia zoonótica por S. brasiliensis transformou uma “doença do jardineiro” em zoonose urbana de notificação compulsória.

Transmissão felinaMicose de implantaçãoItraconazol de escolhaNotificação compulsória
18–22 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Micose de implantação mais frequente do Brasil, por fungos termodimórficos do gênero Sporothrix.
  2. No Brasil predomina S. brasiliensis, transmitido sobretudo por gatos doentes.
  3. Forma linfocutânea é a mais comum; formas graves concentram-se em imunossuprimidos.
  4. Itraconazol cura a maioria; doença de notificação compulsória nacional desde 2025.

O que é esporotricose

Esporotricose é a micose de implantação causada por fungos do gênero Sporothrix. O fungo entra pela pele ou mucosa — por trauma com material vegetal ou por arranhadura, mordedura e secreções de animais — e costuma ficar restrito à pele, ao subcutâneo e aos linfáticos regionais. Em imunossuprimidos, pode atingir olhos, ossos, pulmões, SNC e evoluir para sepse.

No Brasil, a esporotricose deixou de ser sobretudo ocupacional: a transmissão felina por S. brasiliensis virou epidemia urbana em expansão.

Não há transmissão pessoa a pessoa. O risco vem do gato doente e do ambiente contaminado.

O agente

Sporothrix é termodimórfico. No solo e em culturas a 25 °C cresce como fungo filamentoso, com conídios em arranjo de “margarida”; nos tecidos, a 37 °C, vira levedura arredondada ou alongada, em forma de “charuto” ou navete. No gato, a carga fúngica nas lesões é enorme — daí o alto potencial de transmissão.

O antigo “complexo S. schenckii” foi desmembrado em espécies com perfis distintos. S. brasiliensis é a mais virulenta e tolera bem a temperatura corporal do gato (média de 39 °C), o que ajuda a explicar a epidemia felina; S. schenckii segue ligado à transmissão ambiental, e S. globosa predomina na Ásia.

Agente etiológico

Sporothrix spp.

Fungo termodimórfico: filamentoso no ambiente, leveduriforme no tecido.

  • S. brasiliensis: espécie emergente da epidemia zoonótica brasileira, mais virulenta.
  • S. schenckii: transmissão clássica por solo e plantas (sapronose).
  • Fluconazol, flucitosina e equinocandinas não inibem Sporothrix in vitro.
Micromorfologia do complexo Sporothrix schenckii — toque para ampliar.

Fisiopatologia: da inoculação ao trajeto linfático

Depois da implantação traumática, o fungo converte-se em levedura e forma, no ponto de entrada, o cancro de inoculação: pápula ou pústula que vira nódulo e pode ulcerar. Dias a semanas depois, nódulos surgem ao longo da drenagem linfática regional, no clássico aspecto em rosário.

Uma resposta mista Th1/Th17, com IFN-γ, TNF-α e IL-17, ativa macrófagos e neutrófilos e forma granulomas supurativos que contêm a infecção. Quando a imunidade celular falha — AIDS, etilismo, corticoide, imunobiológicos —, o fungo se dissemina por via hematogênica.

Fisiopatologia

Inóculo × virulência × imunidade

A quantidade e a profundidade do inóculo, a virulência e termotolerância da cepa e a resposta do hospedeiro definem se a doença será fixa, linfocutânea ou disseminada.

Ciclo e fisiopatologia da esporotricose — toque para ampliar.

Resposta eficaz

Granuloma supurativo contém o fungo na pele e nos linfáticos → formas cutâneas; às vezes reações de hipersensibilidade.

Imunidade celular deficiente

Alta carga fúngica, disseminação hematogênica para pele, olhos, ossos, pulmão e SNC; mortalidade alta na AIDS.

Incubação e evolução

O período de incubação depende da via. Na transmissão felina, a alta carga infectante encurta o intervalo para 1–2 semanas; na transmissão ambiental, ele vai de uma semana a meses. A evolução é subaguda ou crônica e, em geral, benigna — mas sem tratamento as lesões persistem por meses e podem deixar sequelas.

1–2 semanasIncubação típica na transmissão felina
1 semana a mesesIncubação na transmissão ambiental
60–70%Casos na forma linfocutânea

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O essencial de transmissão e risco

  1. Implantação traumática na pele ou mucosa; inalação é rara.
  2. Gato doente: arranhadura, mordedura, secreção de lesões e espirro na face.
  3. Ambiente: espinhos, palha, madeira, solo e vegetais em decomposição.
  4. Sem transmissão pessoa a pessoa.

Como ocorre a transmissão

Há duas rotas. Na sapronótica, clássica, o fungo do solo entra por trauma com espinhos, farpas, palha ou matéria vegetal — daí os apelidos “doença do jardineiro” e “da roseira”. Na zoonótica, hoje dominante no Brasil, o gato doente transmite por arranhadura, mordedura e contato com secreções de lesões.

As lesões felinas estão repletas de leveduras, e o gato com lesão nasal pode espirrar aerossóis que atingem a conjuntiva — por isso a forma ocular aumentou, sobretudo em crianças. Também já foram descritos casos ligados a tatuagem.

Ciclo de transmissão

Gato ↔ ambiente → humano

Gatos doentes, sem tutor ou com livre acesso à rua, brigam, se infectam e levam o fungo para casa. Cadáveres enterrados contaminam o solo e perpetuam o ciclo.

  • Arranhadura ou mordedura de gato: principal via no Brasil; mordedura implanta mais fundo (risco osteoarticular).
  • Secreções e espirro: contato com pele lesada ou mucosa ocular.
  • Material vegetal e solo: espinhos, farpas, palha, madeira, musgo.
  • Inalação de conídios: rara; causa a forma pulmonar primária.

Quem tem maior risco

O risco de infecção depende da exposição; o risco de doença grave, do hospedeiro. Quem cuida de gatos doentes sem proteção se infecta com facilidade, mas a disseminação se concentra em quem tem imunidade celular comprometida.

Maior exposição

  • Tutores e cuidadores de gatos doentes, sobretudo mulheres e donas de casa.
  • Crianças que acariciam gatos próximo à face.
  • Veterinários, auxiliares, protetores de animais e agentes de zoonoses.
  • Jardineiros, agricultores e floristas (via ambiental).

Maior gravidade

  • HIV/aids com CD4 <200 células/mm³ e carga viral alta.
  • Etilismo, diabetes, desnutrição, DPOC.
  • Corticoide crônico, anti-TNF, imunobiológicos, transplante, neoplasia hematológica.
  • Idosos: comorbidades, interações e fragilidade óssea.

Contexto brasileiro e notificação

A epidemia zoonótica começou no Rio de Janeiro no fim da década de 1990 e hoje está presente em quase todos os estados brasileiros e em países vizinhos. Os gatos mais acometidos são machos jovens, não castrados e com acesso livre à rua, em áreas com saneamento precário e quintais com matéria orgânica.

A Portaria GM/MS nº 6.734/2025 incluiu a esporotricose humana na Lista Nacional de Notificação Compulsória. Casos suspeitos e confirmados devem ser registrados semanalmente no e-SUS Sinan, por serviços públicos e privados, conforme a Nota Técnica nº 20/2025-CGTM/DATHI/SVSA/MS.

Caso humano a partir de gato doente: a vigilância recomenda investigar em até uma semana, para buscar outros casos e acionar o controle de zoonoses.

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O essencial de quadro clínico

  1. Linfocutânea (60–70%): cancro de inoculação + nódulos em rosário no trajeto linfático.
  2. Cutânea fixa (~25%): lesão única no ponto de inoculação, sem progressão linfática.
  3. Ocular, osteoarticular, pulmonar, SNC e sepse: raras, mais graves, ligadas à imunossupressão.
  4. Formas imunorreativas: eritema nodoso, eritema multiforme, Sweet e artrite reativa.

Classificação clínica

A Sociedade Brasileira de Dermatologia (2022) organiza a doença em seis grupos: cutânea, mucosa, osteoarticular, sistêmica, imunorreativa e mista. A separação importa porque cada grupo tem investigação e tratamento próprios — e não se deve confundir lesões múltiplas por vários inóculos com disseminação hematogênica.

GrupoApresentaçõesPista clínica
CutâneaLinfocutânea, cutânea fixa, inoculação múltipla.Áreas expostas: mãos, braços, face, pernas.
MucosaOcular (mais comum), nasal, outras.Conjuntivite granulomatosa, síndrome de Parinaud.
OsteoarticularArtrite, tenossinovite, osteomielite (até dois focos, por contiguidade).Mordedura, lesão em extremidade, dor desproporcional.
SistêmicaCutâneo-mucosa hematogênica, osteoarticular multifocal, pulmonar, neurológica, sepse.Imunossupressão, lesões em áreas protegidas, queda do estado geral.
ImunorreativaEritema nodoso, eritema multiforme, síndrome de Sweet, artrite reativa.Hipersensibilidade; costuma acompanhar formas brandas.
MistaCutânea + mucosa, + osteoarticular ou + imunorreativa.Sem disseminação hematogênica.

Adaptado de Orofino-Costa et al., An Bras Dermatol, 2022.

Lesões características

O cancro de inoculação surge dias a meses após o trauma como pápula ou pústula indolor que cresce, vira nódulo e pode amolecer, fistulizar e ulcerar (goma). Na forma linfocutânea, novos nódulos aparecem na drenagem regional; na fixa, a lesão fica única, às vezes verrucosa, com pequenas pápulas satélites.

Achado característico

Nódulos em rosário

Cancro na mão ou dedo e nódulos ascendendo pelo antebraço.

Achado característico

Cutânea fixa

Úlcera ou placa verrucosa única, sem progressão linfática.

Mucosa

Conjuntivite granulomatosa

Lesão vegetante na conjuntiva, com ou sem linfonodo satélite.

Imunorreativa

Eritema nodoso

Nódulos dolorosos nas pernas, sem fungo na lesão.

Formas mucosa e ocular

A conjuntiva é a mucosa mais atingida, por espirro do gato ou mão contaminada levada ao olho. O quadro típico é conjuntivite granulomatosa, com lesões vegetantes na conjuntiva palpebral ou bulbar e secreção purulenta. Com linfonodo pré-auricular ou submandibular, forma a síndrome óculo-glandular de Parinaud — frequentemente confundida com doença da arranhadura do gato.

Dacriocistite pode ficar como sequela. Uveíte, coroidite, retinite e endoftalmite são raras e, em geral, resultam de disseminação hematogênica no imunossuprimido: nesses casos, a doença é sistêmica e o fundo de olho é obrigatório.

Formas osteoarticular, pulmonar e neurológica

Depois da pele e das mucosas, ossos e articulações são os mais acometidos — por contiguidade, sobretudo após mordedura em mãos e pés, ou por via hematogênica, de forma multifocal, na AIDS. Pulmão e SNC são raros, mas graves e de diagnóstico difícil.

  • Osteoarticular: artrite, tenossinovite e osteomielite com dor, edema e limitação; poucos sinais flogísticos. Radiografe extremidades com dor desproporcional ou edema importante após mordedura.
  • Pulmonar primária: tabagista com DPOC, tosse por mais de 2 semanas e cavitação com fibrose — imita tuberculose.
  • Pulmonar multifocal: imunossuprimido com doença em outros órgãos, lesões geralmente não cavitadas.
  • Neuroesporotricose: meningite ou meningoencefalite crônica, com hidrocefalia; atinge até 14% dos casos zoonóticos associados à AIDS.
  • Sepse: progressão da doença sistêmica com disfunção orgânica, sobretudo na AIDS.

Formas imunorreativas

Até 13,5% dos pacientes com esporotricose zoonótica desenvolvem reações de hipersensibilidade a antígenos fúngicos circulantes: eritema nodoso, eritema multiforme, síndrome de Sweet e artrite reativa, poliarticular e migratória. Podem vir com febre, mal-estar, artralgia e mialgia, e ocorrem em geral em formas brandas e localizadas.

As lesões reativas não contêm o fungo e podem mascarar a lesão específica, discreta. O tratamento antifúngico continua; o manejo da reação está na Rota 10 da aba Tratamento.

Sinais de gravidade

A maioria dos pacientes trata em ambulatório. Os sinais abaixo indicam doença sistêmica ou de difícil manejo e mudam a conduta para investigação ampliada, internação e anfotericina.

  • Lesões numerosas em áreas protegidas de trauma (tronco, raiz das coxas, glúteos, maciço centrofacial).
  • Febre, emagrecimento, queda do estado geral.
  • Baixa de acuidade visual, dor ocular profunda (coriorretinite, endoftalmite).
  • Cefaleia refratária, convulsão, confusão ou déficit focal.
  • Dor óssea em vários locais, tosse crônica, dispneia.
  • HIV com CD4 baixo, imunobiológico, corticoide ou transplante.

Lesões extensas, recorrentes ou com sintomas sistêmicos: pesquise imunossupressão, inclusive HIV.

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O essencial de diagnóstico

  1. Diagnóstico clínico-epidemiológico permite iniciar o tratamento no contexto felino.
  2. Cultura (Sabouraud/Mycosel) é o padrão-ouro; pus é a melhor amostra.
  3. Exame direto e histologia têm baixa sensibilidade; corpos asteroides são raros.
  4. Cultura negativa isolada não descarta a doença.

Estratégia diagnóstica

Combine lesão compatível, exposição (gato doente, trauma com plantas ou solo) e material para micologia. Na atenção primária, colha swab de secreção ou biópsia e envie ao Lacen ou ao laboratório de referência, solicitando também hemograma, função hepática e renal antes do tratamento.

No contexto de transmissão felina, o Ministério da Saúde orienta iniciar o tratamento já com critério clínico-epidemiológico, sem esperar a cultura, e encaminhar os casos atípicos ao serviço de referência.

  1. Suspeita

    Lesão compatível + gato doente ou trauma vegetal.

  2. Coleta

    Pus, swab ou biópsia profunda para cultura.

  3. Tratar

    Iniciar por critério clínico-epidemiológico.

  4. Notificar

    e-SUS Sinan, caso suspeito.

  5. Rever

    Resultado da cultura e resposta clínica.

Níveis de evidência (Ministério da Saúde)

O Guia de Vigilância classifica o caso em possível, provável, provado ou descartado, cruzando três eixos: epidemiológico (trauma com plantas, solo ou gato), clínico (forma compatível) e laboratorial. Use a ferramenta para classificar.

Classificação do caso

Baseada no Quadro de níveis de evidência do Guia de Vigilância em Saúde (MS, 2024).

Selecione os dois campos.

Ferramenta educativa. Não substitui o julgamento clínico nem as definições de caso vigentes do e-SUS Sinan.

Principais testes

A cultura confirma; o resto ajuda. Biópsia em fuso, profunda até o subcutâneo, permite dividir o fragmento entre micologia, bacteriologia e micobactérias e histopatologia — útil quando a dúvida inclui leishmaniose, micobacterioses ou neoplasia.

TesteO que mostraLimitações
CulturaColônia em 5–8 dias a 25–28 °C; dimorfismo a 37 °C confirma o gênero.Observar até 30 dias; contaminação por fungos e bactérias.
Exame micológico diretoLeveduras ovais ou em charuto.Baixa sensibilidade em humanos; muito mais rendimento no gato.
Histopatologia (PAS, Grocott)Granuloma supurativo; leveduras em 20–30%; corpos asteroides.Não patognomônica; fungo abundante sugere imunossupressão ou outra micose.
Sorologia (ELISA SsCBF)Sensibilidade ~80%, especificidade ~90%; útil em formas sistêmicas e atípicas, também em líquor e líquido sinovial.Disponível só em centros de pesquisa.
PCR / sequenciamento / MALDI-TOFIdentifica a espécie (S. brasiliensis × S. schenckii).Métodos “in house”, não comerciais.
Teste de sensibilidadeCIM de itraconazol, terbinafina, posaconazol e anfotericina.Refratariedade nem sempre corresponde a CIM elevada.
Histopatologia

Leveduras em charuto

Arredondadas, ovais ou naviculares, brotamento estreito e desalinhado.

Achado característico

Corpo asteroide

Levedura envolta por material eosinofílico radiado (Splendore-Hoeppli).

Cultura

Colônia filamentosa

Membranosa, esbranquiçada, com halo enegrecido.

Investigação das formas extracutâneas

Na forma sistêmica e no imunossuprimido, avalie de rotina mucosas nasal e oral, fundo de olho, ossos, articulações, pulmões e SNC. Na AIDS com doença disseminada, a punção lombar precoce é rotina, mesmo sem meningismo — o líquor mostra pleocitose mononuclear, proteína alta e glicose baixa, e a cultura raramente cresce.

O rastreio ósseo na AIDS deve ser sistemático: cintilografia óssea ou, na falta dela, radiografia de ossos longos, mãos, punhos, pés e tornozelos. Na forma pulmonar, peça baciloscopia e teste para tuberculose junto da micologia de escarro.

Diagnósticos diferenciais

O principal diferencial no Brasil é a leishmaniose tegumentar, que também causa úlcera crônica e lesões em trajeto linfático (forma esporotricoide). Exposição a gato doente, evolução mais rápida e cultura fúngica positiva favorecem esporotricose.

DiferencialPor que confundeO que ajuda a separar
Leishmaniose tegumentarÚlcera crônica de borda elevada; forma esporotricoide.Área endêmica, IDRM, pesquisa de amastigotas, PCR.
Piodermite, ectima, celuliteNódulo e úlcera com secreção.Evolução aguda, dor, resposta a antibiótico.
Micobacterioses (M. marinum), tuberculosePadrão esporotricoide; cavitação pulmonar.Aquário/água; cultura e PCR para micobactérias.
NocardioseLesões linfocutâneas após trauma.Gram e cultura com bacilos ramificados.
Doença da arranhadura do gatoGato + adenopatia; síndrome de Parinaud.Sorologia/PCR para Bartonella; sem lesão vegetante crônica.
Cromoblastomicose, PCM, histoplasmosePlaca verrucosa; lesões mucocutâneas.Corpos muriformes; levedura multibrotante; cultura.
Carcinoma espinocelular, ceratoacantomaPlaca ou nódulo verrucoso crônico.Biópsia.

Na forma sistêmica: tuberculose, histoplasmose, PCM, criptococose, sífilis, toxoplasmose e linfoma.

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O essencial de tratamento

  1. Itraconazol é a 1ª escolha: 100–200 mg/dia (MS: 200 mg/dia) após a refeição, nas formas cutâneas e mucosas.
  2. Duração guiada pela cura clínica (em média 3 meses); o MS recomenda manter até 1 mês após a cura.
  3. Crianças: terbinafina ou iodeto de potássio nas formas leves; gestantes: calor local e crioterapia.
  4. Sistêmica, SNC e imunossuprimido grave: anfotericina B lipídica → itraconazol ≥12 meses.

Como escolher a rota

Três perguntas definem o esquema. Qual a forma clínica? Cutânea e mucosa tratam-se por via oral, em ambulatório; osteoarticular e pulmonar pedem mais tempo e dose; sistêmica e SNC começam com anfotericina. Quem é o paciente? Gestante, criança, idoso polimedicado e imunossuprimido mudam a droga ou a duração.

Quando parar? Pela cura clínica, nunca por tempo fixo nas formas cutâneas. Inicie com a menor dose eficaz e reavalie em pelo menos um mês antes de concluir que houve falha. As doses e a calculadora por peso estão em “Ver detalhes” de cada linha.

Forma clínica escolhe a droga; cura clínica decide quando parar; imunossupressão decide se haverá manutenção.

Critério de cura clínica

A cura é clínica: reepitelização completa, sem exsudação, crostas, infiltração, descamação ou eritema significativo. Fibrose, milia, cicatriz hipertrófica, eritema discreto, prurido e sensibilidade local não indicam doença ativa. As fontes divergem sobre manter o antifúngico depois disso.

Ministério da Saúde (2024)

Manter até 1 mês após o desaparecimento das lesões; rever 1–2 meses após suspender para alta por cura.

IDSA (2007)

Manter 2–4 semanas após a resolução de todas as lesões; total usual de 3–6 meses.

SBD (2022)

Manutenção após a cura é desnecessária: suspender ao atingir a cura clínica.

Rotas de tratamento

Cada rota é um cenário clínico. Abra só a rota em que o seu paciente está: a tabela mostra dose, frequência e duração de cada esquema, e o nome de cada medicamento abre a ficha completa. Opções do mesmo grupo são alternativas — escolha uma.

Monitoramento durante o tratamento

Consultas mensais até a cura bastam na maioria das formas cutâneas. O laboratório serve para segurança: o itraconazol pesa no fígado, nos lipídios e nas interações; o iodeto, na tireoide e no potássio; a anfotericina, no rim.

FármacoO que monitorar
ItraconazolHemograma, bioquímica, lipidograma e função hepática antes e 30 dias após iniciar; repetir só se alterados ou com queixas. Nível sérico nas formas viscerais, falha ou interação (IDSA: ≥1 µg/mL após ≥2 semanas).
TerbinafinaTransaminases e hemograma (neutropenia); suspender se hepatite.
Iodeto de potássioTSH, T4L, potássio e creatinina antes e após 1 mês; sinais de iodismo.
Anfotericina BCreatinina, potássio e magnésio a cada 24–48 h; reações infusionais.
ImunossupressoresTacrolimo e ciclosporina sobem muito com itraconazol — nível sérico rigoroso.

Cuidados locais e erros comuns

O curativo é simples: lavar com água e sabão, sem atrito, e ocluir as lesões abertas, trocando duas vezes ao dia. Óleo mineral ou vaselina líquida evitam que a gaze grude. Antissépticos e cremes não ajudam e podem causar dermatite de contato.

  • Corticoide tópico na lesão — reduz a imunidade local e aprofunda a lesão.
  • Fluconazol ou cetoconazol — baixa eficácia e recaídas.
  • Itraconazol manipulado em solução ou xarope — biodisponibilidade imprevisível.
  • Suspender antes da cura clínica — principal causa de recidiva.
  • Antibiótico tópico para infecção secundária — prefira antibiótico sistêmico.

Acesso aos medicamentos no SUS

O itraconazol 100 mg é garantido pelo Componente Estratégico da Assistência Farmacêutica (Cesaf). O Ministério da Saúde também fornece o complexo lipídico de anfotericina B para formas graves, disseminadas ou refratárias, e a anfotericina B lipossomal para casos com SNC ou falta do complexo lipídico.

Para as anfotericinas, o serviço envia a Ficha de Solicitação de Medicamentos Antifúngicos para Micoses Sistêmicas Endêmicas, com laudo de infecção fúngica recente e resultado do teste anti-HIV, ao e-mail micosessistemicas@saude.gov.br. Iodeto de potássio é manipulado; terbinafina e posaconazol não constam do fornecimento federal para esporotricose.

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O essencial de cenários especiais

  1. HIV/aids: doença sistêmica frequente, SNC em até 14% e mortalidade de ~30% nos casos graves.
  2. Gestação: métodos físicos; anfotericina só na forma grave; sem azóis e sem iodeto.
  3. Crianças: terbinafina ou iodeto de potássio; face e olho são sítios típicos.
  4. Idoso e transplantado: interações do itraconazol e redução de imunossupressores.

O que muda em cada cenário

O mesmo fungo pede condutas diferentes conforme o hospedeiro. A tabela reúne o que fazer de diferente; os esquemas completos estão nas rotas da aba Tratamento.

CenárioParticularidadeO que fazer diferente
HIV/aidsLesões disseminadas, meningite, endoftalmite, fungemia; pior prognóstico.Anti-HIV em todo caso extenso; PL, fundo de olho e rastreio ósseo; → e supressão até CD4 >200.
Gestação e lactaçãoAzóis teratogênicos; iodeto contraindicado.Calor local e criocirurgia; individualizada; anfotericina só na forma grave.
CriançasLesões em face e conjuntiva; quadros atípicos atrasam o diagnóstico. ou por faixa de peso; off-label nas moderadas/graves.
IdososPolifarmácia, fragilidade óssea, comorbidades.Revisar interações; tem menos interações.
Transplante, anti-TNF, corticoideRisco de forma sistêmica.Reduzir imunossupressores; dosar tacrolimo/ciclosporina com itraconazol.
Mulher em idade fértilAntifúngicos podem reduzir a eficácia do contraceptivo oral.Associar método de barreira.
Etilismo, diabetes, DPOCFormas pulmonares e disseminadas.Controle da doença de base e redução do álcool.

HIV em destaque

Na AIDS, Sporothrix se comporta como oportunista e pode ser doença definidora. Com CD4 baixo e carga viral alta, aparecem lesões cutâneas disseminadas, meningoencefalite, pneumonia, endoftalmite e fungemia, com mortalidade em torno de 30% nas séries brasileiras.

A conduta é investigar todos os órgãos, induzir com anfotericina lipídica e manter por pelo menos 12 meses, seguido de supressão. Atenção às interações com efavirenz, ritonavir e darunavir e ao risco de SIRI com meningite ao iniciar a TARV.

PVHA com esporotricose sistêmica: punção lombar de rotina, mesmo sem sinais meníngeos — a neuroesporotricose pode ser oligossintomática.

Exposição ocupacional

Veterinários, auxiliares, agentes de controle de zoonoses e trabalhadores rurais podem adquirir a doença no trabalho. Quando a relação ocupacional existir, a unidade de saúde deve comunicar a vigilância, para que o empregador adote EPIs e processos seguros. Não há profilaxia pós-exposição com antifúngico após arranhadura: lave com água e sabão e observe a lesão.

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O essencial de seguimento e prevenção

  1. Consultas mensais até a cura; rever 1–2 meses após suspender o tratamento.
  2. Notificar caso suspeito e confirmado no e-SUS Sinan (notificação semanal).
  3. Tratar o gato com veterinário, nunca abandonar; cremar ou incinerar cadáveres.
  4. EPI para manejar gatos doentes e para jardinagem.

Como acompanhar

O seguimento é clínico. Nas formas cutâneas, a maioria cura em 3–6 meses; reavalie mensalmente a reepitelização e a adesão, e reveja o paciente 1–2 meses após suspender para dar alta por cura. Nas formas sistêmica e do SNC, o seguimento é longo e envolve imagem e líquor.

  • Consultas mensais até a cura clínica.
  • Exames do antes e após 30 dias; repetir só se necessário.
  • Osteoarticular: reavaliar aos 6 meses para decidir suspensão ou prolongamento.
  • SNC: líquor a cada 3–6 meses até normalizar.
  • Sequelas: cicatrizes hipertróficas, discromias, perda de cartilagem nasal ou auricular, anquilose — podem exigir cirurgia reparadora.

Saúde Única: o gato e o ambiente

Tratar o paciente sem cuidar do gato mantém a fonte ativa. Oriente o tutor a levar o animal ao médico-veterinário: o gato é tratado com itraconazol, isolado ou associado ao iodeto de potássio, por meses, e deve ficar separado dos outros animais e das pessoas até a cura. Castração reduz brigas e saídas à rua.

Eutanásia fica restrita a animais com lesões extensas e sem possibilidade terapêutica. O cadáver nunca deve ir para o lixo comum nem ser enterrado: acondicione em saco branco leitoso com símbolo de risco biológico, mantenha refrigerado e encaminhe à incineração ou cremação.

Fonte de infecção

Esporotricose felina

Lesões ulceradas e crostosas em face, nariz e patas, com grande quantidade de leveduras. Sinais respiratórios e lesão nasal pedem tratamento mais longo.

Prevenção individual e ambiental

Não há vacina para humanos nem para gatos. A prevenção combina barreira física no contato com animais e plantas, limpeza do ambiente e educação em saúde — com participação da comunidade e do controle de zoonoses.

Pessoa

  • Luvas descartáveis, avental de manga longa, máscara N95/PFF2 e óculos ao tratar o gato.
  • Lavar mãos e antebraços após o manejo e após tirar as luvas.
  • Luvas e calçados em jardinagem e trabalho rural.
  • Lavar arranhadura ou mordedura com água e sabão e procurar atendimento se a lesão persistir.

Ambiente

  • Hipoclorito de sódio nas superfícies onde o animal doente ficou.
  • Limpeza periódica de quintais; remover entulho e matéria orgânica.
  • Guarda responsável: não abandonar, castrar, restringir acesso à rua.
  • Cadáveres: incineração ou cremação, nunca enterro.

Notificação

Desde a Portaria GM/MS nº 6.734/2025, todo caso suspeito ou confirmado de esporotricose humana é de notificação compulsória semanal no e-SUS Sinan, em serviços públicos e privados. A confirmação pode ser por critério laboratorial (cultura ou método molecular) ou clínico-epidemiológico. A notificação aciona a busca do animal-fonte e de outros casos humanos.

Surto (casos acima do esperado): investigação ativa, alerta a hospitais e profissionais da região e integração com vigilância ambiental e saúde do trabalhador.

Armadilhas

Os erros mais comuns vêm de tratar a lesão como bacteriana, de esperar a cultura para começar e de parar o antifúngico cedo. Quase todos se evitam perguntando pelo gato e definindo a cura pela pele, não pelo calendário.

ErroPor que é um problemaComo evitar
Ciclos de antibiótico para “piodermite”Atrasa o diagnóstico; a lesão progride.Perguntar sempre por gato doente e trauma vegetal.
Esperar a cultura para tratarCultura pode demorar e ser negativa.Iniciar por critério clínico-epidemiológico (MS).
Itraconazol com IBP ou em jejumAbsorção cai, parece falha.Após a refeição, com suco cítrico; sem antiácidos.
Suspender por tempo fixoRecidiva.Suspender pela cura clínica.
Corticoide na resposta paradoxalPiora a infecção.AINE ou iodeto de potássio.
Ignorar o gatoReinfecção e novos casos na casa.Encaminhar ao veterinário e ao controle de zoonoses.

Referências principais

  1. 1
    Documento oficial2024
    Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de Vigilância em Saúde, 6ª ed. revisada, vol. 2 — Esporotricose. Brasília: MS; 2024.
  2. 2
    Documento oficial2025
    Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 6.734, de 18 de março de 2025. Inclui a esporotricose humana na Lista Nacional de Notificação Compulsória de Doenças, Agravos e Eventos de Saúde Pública.
  3. 3
    Documento oficial2025
    Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 20/2025-CGTM/DATHI/SVSA/MS. Orientações para a notificação da esporotricose humana no e-SUS Sinan.
  4. 4
    Artigo2022
    Orofino-Costa R, Freitas DFS, Bernardes-Engemann AR, et al. Human sporotrichosis: recommendations from the Brazilian Society of Dermatology for the clinical, diagnostic and therapeutic management. An Bras Dermatol. 2022;97(6):757–777.
  5. 5
    Artigo2017
    Orofino-Costa R, Macedo PM, Rodrigues AM, Bernardes-Engemann AR. Sporotrichosis: an update on epidemiology, etiopathogenesis, laboratory and clinical therapeutics. An Bras Dermatol. 2017;92(5):606–620.
  6. 6
    Diretriz2007
    Kauffman CA, Bustamante B, Chapman SW, Pappas PG. Clinical practice guidelines for the management of sporotrichosis: 2007 update by the Infectious Diseases Society of America. Clin Infect Dis. 2007;45(10):1255–1265.
  7. 7
    Diretriz2021
    Thompson GR 3rd, Le T, Chindamporn A, et al. Global guideline for the diagnosis and management of the endemic mycoses: an initiative of the ECMM in cooperation with the ISHAM. Lancet Infect Dis. 2021;21(12):e364–e374.
  8. 8
    Artigo2011
    Barros MBL, Almeida-Paes R, Schubach AO. Sporothrix schenckii and sporotrichosis. Clin Microbiol Rev. 2011;24(4):633–654.
  9. 9
    Artigo2017
    Gremião IDF, Miranda LHM, Reis EG, et al. Zoonotic epidemic of sporotrichosis: cat to human transmission. PLoS Pathog. 2017;13(1):e1006077.
  10. 10
    Documento oficial2021
    Gremião IDF, Martins da Silva da Rocha E, Montenegro H, et al. Guideline for the management of feline sporotrichosis caused by Sporothrix brasiliensis and literature revision. Braz J Microbiol. 2021;52(1):107–124.
  11. 11
    Artigo2016
    Rodrigues AM, de Hoog GS, de Camargo ZP. Sporothrix species causing outbreaks in animals and humans driven by animal-animal transmission. PLoS Pathog. 2016;12(7):e1005638.
  12. 12
    Documento oficial2020
    Rossow JA, Queiroz-Telles F, Caceres DH, et al. A One Health approach to combatting Sporothrix brasiliensis: narrative review of an emerging zoonotic fungal pathogen in South America. J Fungi. 2020;6(4):247.
  13. 13
    Artigo2014
    Freitas DFS, Valle ACF, Silva MBT, et al. Sporotrichosis: an emerging neglected opportunistic infection in HIV-infected patients in Rio de Janeiro, Brazil. PLoS Negl Trop Dis. 2014;8(8):e3110.
  14. 14
    Diretriz
    World Health Organization. Mycetoma, chromoblastomycosis and other deep mycoses (doenças tropicais negligenciadas, inclui esporotricose). Genebra: WHO.

Aviso importante

Material educacional de apoio à decisão clínica. Não substitui avaliação individualizada, protocolos institucionais, serviço de referência, infectologia, pediatria/obstetrícia nem consulta às bulas. Gestação e lactação (sem azóis e sem iodeto), dose pediátrica, interações e nível sérico do itraconazol, função tireoidiana com iodeto e função renal com anfotericina devem ser conferidos antes da prescrição.

Conteúdo para educação médica. Condutas devem ser individualizadas e conferidas com protocolos oficiais, contexto epidemiológico e disponibilidade local.
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