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Atlas de Oftalmologia • Conjuntiva

Tracoma

Ceratoconjuntivite crônica por Chlamydia trachomatis • trachoma

Infecção conjuntival crônica e recorrente por Chlamydia trachomatis (sorotipos A–C), ligada à pobreza, à falta de água e de saneamento. Episódios repetidos na infância deixam cicatriz no tarso superior, que vira a pálpebra para dentro: os cílios arranham a córnea (triquíase) até a opacificação. É a principal causa infecciosa de cegueira no mundo — e é evitável.

Conjuntiva tarsalC. trachomatis A–CDoença negligenciadaEstratégia SAFE
16–20 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça o achado

Imagem clínica

Tracoma: pálpebra superior evertida com folículos e cicatriz no tarso; na fase tardia, cílios voltados para a córnea (triquíase). Toque para ampliar.

Principais achados
  1. 1
    Folículos no tarso superior (TF)
  2. 2
    Espessamento inflamatório do tarso que esconde os vasos (TI)
  3. 3
    Cicatriz tarsal — linha de Arlt (TS)
  4. 4
    Fossetas de Herbert no limbo superior
  5. 5
    Pannus vascular superior na córnea
  6. 6
    Entrópio, triquíase (TT) e opacidade corneana (CO)

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Infecção crônica e recorrente por C. trachomatis (sorotipos A, B, Ba e C).
  2. Transmissão por mãos, panos, secreções e moscas, em ambientes sem água e saneamento.
  3. Infecções repetidas → cicatriz tarsal → entrópio → triquíase → opacidade corneana.
  4. Graduação simplificada da OMS: TF, TI, TS, TT e CO; controle pela estratégia SAFE.

O que é tracoma

O tracoma é uma ceratoconjuntivite crônica causada pelos sorotipos oculares de Chlamydia trachomatis, diferentes dos sorotipos genitais (D–K) da conjuntivite de inclusão. A doença é endêmica em comunidades pobres, com pouca água, aglomeração e saneamento precário, e é uma das doenças tropicais negligenciadas priorizadas pela OMS para eliminação.

Cada episódio de infecção, em si, é parecido com uma conjuntivite folicular. O que torna o tracoma grave é a repetição ao longo de anos: a resposta imune crônica gera fibrose progressiva, e as consequências aparecem na vida adulta.

Tracoma não cega pela infecção, e sim pela cicatriz: o tarso contraído vira os cílios contra a córnea. Por isso prevenir a reinfecção na infância e operar a triquíase no adulto são as duas pontas do cuidado.

Epidemiologia

A maior carga está na África subsaariana, mas ainda há focos nas Américas, inclusive no Brasil, sobretudo em comunidades rurais, ribeirinhas e indígenas. A OMS considera a doença eliminada como problema de saúde pública quando a prevalência de TF em crianças de 1–9 anos fica abaixo de 5% e a de triquíase desconhecida pelo sistema de saúde, abaixo de 0,2% em adultos — e vários países já foram validados.

Crianças pré-escolares

Maior carga de infecção ativa; reservatório da comunidade.

Mulheres

Mais triquíase: contato próximo com crianças infectadas.

Pouca água

Rostos sujos favorecem transmissão.

Moscas

Musca sorbens pousa nos olhos e transporta secreção.

Aglomeração

Muitas pessoas dormindo no mesmo cômodo.

Áreas rurais

Acesso limitado a serviços de saúde.

Em 30 segundos

O essencial de quadro clínico

  1. Fase ativa (criança): folículos e inflamação no tarso superior, secreção.
  2. Fase cicatricial: linha de Arlt, fossetas de Herbert, pannus.
  3. Sequela: entrópio e triquíase com dor, fotofobia e lacrimejamento.
  4. Fim de linha: opacidade corneana e cegueira irreversível.

Da infecção à cegueira

A história natural se estende por décadas. Entender a sequência ajuda a reconhecer cada fase e a saber o que fazer em cada uma.

  1. Infecção ativa

    Folículos e espessamento do tarso superior, secreção mucopurulenta, olho vermelho. Pode ser pouco sintomática.

  2. Reinfecções

    Episódios repetidos mantêm a inflamação crônica durante a infância.

  3. Cicatrização

    Faixas e linhas brancas no tarso (linha de Arlt); fossetas de Herbert no limbo.

  4. Entrópio e triquíase

    O tarso encurta e vira a borda; os cílios tocam a córnea.

  5. Opacidade corneana

    Abrasão crônica, úlceras e infecções secundárias deixam leucoma e cegueira.

Sinais característicos

Limbo superior

Fossetas de Herbert

Pequenas depressões arredondadas no limbo superior, onde folículos límbicos cicatrizaram. Patognomônicas de tracoma.

Tarso superior

Linha de Arlt

Faixa cicatricial horizontal branca no tarso superior, paralela à borda palpebral.

Sintomas

Secreção

Mucopurulenta na fase ativa; atrai moscas.

Olho vermelho

Crônico, recorrente.

Sensação de corpo estranho

Intensa na triquíase.

Fotofobia

Lesão da córnea.

Lacrimejamento

Reflexo à abrasão.

Baixa visual

Opacidade corneana; irreversível.

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O essencial de diagnóstico

  1. Diagnóstico clínico com lupa (2,5×) e pálpebra superior evertida.
  2. Graduação pelo sistema simplificado da OMS (revisado em 2020).
  3. PCR para clamídia: vigilância pós-tratamento em massa e pesquisa.
  4. Diferenciar da conjuntivite de inclusão do adulto (sorotipos D–K).

Sistema simplificado de graduação da OMS

Os sinais são registrados independentemente — o mesmo olho pode ter mais de um. TF e TI indicam infecção ativa; TS, TT e CO, sequelas.

SinalDefiniçãoSignificado
TF — inflamação tracomatosa folicular≥ 5 folículos de ≥ 0,5 mm na área central do tarso superiorTracoma ativo; tratar
TI — inflamação tracomatosa intensaEspessamento inflamatório que oculta mais da metade dos vasos tarsais profundosTracoma ativo intenso; tratar
TS — cicatriz tracomatosaCicatriz facilmente visível na conjuntiva tarsal superiorSequela; risco de TT
TT — triquíase tracomatosa≥ 1 cílio da pálpebra superior tocando o globo, ou sinal de retirada recente de cíliosIndicar cirurgia
CO — opacidade corneanaOpacidade evidente que encobre parte da borda pupilarPerda visual; irreversível

Solomon AW et al., Bull World Health Organ 2020 (sistema simplificado revisado).

Como examinar

  1. Cílios e córnea

    Com o paciente olhando para frente, procurar cílios tocando o globo e opacidades sobre a pupila.

  2. Everter a pálpebra superior

    Com cotonete ou o polegar; luz e lupa 2,5×.

  3. Área central do tarso

    Contar folículos ≥ 0,5 mm; observar se os vasos profundos estão visíveis.

  4. Cicatriz

    Linhas ou faixas brancas; linha de Arlt.

  5. Limbo superior

    Fossetas de Herbert e pannus.

Diagnóstico diferencial

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Achado-chaveFolículos no fórnice inferior
Como diferenciarAdulto sexualmente ativo; sem cicatriz tarsal superior típica.
Achado-chaveFolicular aguda
Como diferenciarAutolimitada; folículos inferiores; não cicatriza.
Achado-chavePapilas gigantes no tarso superior
Como diferenciarPrurido; papilas (não folículos); Trantas.
Achado-chaveCicatriz conjuntival progressiva
Como diferenciarIdoso; encurtamento do fórnice inferior, simbléfaro; biópsia.
Achado-chavePálpebra inferior virada
Como diferenciarIdoso; sem cicatriz tarsal; pálpebra inferior.

Os cinco sinais da OMS

Use as legendas para treinar a graduação: onde olhar, o que contar e o que cada achado significa.

TF — folículos no tarso superior

Pálpebra superior evertida de criança com mais de cinco folículos de ≥ 0,5 mm na área central do tarso; os vasos profundos ainda são visíveis.

TFAtivoCriança

TI — inflamação intensa

Tarso espessado, avermelhado e infiltrado, escondendo mais da metade dos vasos tarsais profundos. Indica carga infecciosa alta.

TIAtivoIntenso

TS — cicatriz tarsal

Linhas e faixas brancas de fibrose no tarso superior, com a linha de Arlt paralela à borda. Sinal de infecções repetidas no passado.

TSCicatrizArlt

TT e CO — triquíase com opacidade

Cílios da pálpebra superior voltados para o olho, raspando a córnea, que mostra opacidade sobre parte da pupila. Indicação de cirurgia; a opacidade já é irreversível.

TTCOCirurgia

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O essencial de tratamento

  1. TF/TI: azitromicina oral em dose única (20 mg/kg, máx. 1 g).
  2. Alternativa: tetraciclina 1% pomada 2x/dia por 6 semanas (lactentes, gestantes conforme protocolo).
  3. Comunidades endêmicas: tratamento em massa anual (OMS).
  4. TT: cirurgia de rotação tarsal; epilação é paliativa.

Tratamento individual × coletivo

Tratar só a criança com TF não basta se a comunidade continua infectada. Por isso, onde a prevalência de TF em crianças de 1–9 anos é ≥ 5%, a OMS indica administração em massa de azitromicina, repetida anualmente, junto com as medidas F e E. No Brasil, o Ministério da Saúde conduz busca ativa e tratamento de casos e contatos.

Antibiótico trata a infecção; água, sabão e saneamento impedem que ela volte.

Rotas de tratamento

Cada rota é um cenário. Doses da OMS e do Ministério da Saúde; o nome do medicamento abre a ficha.

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O essencial de prevenção

  1. Estratégia SAFE: cirurgia, antibiótico, face limpa e melhoria ambiental.
  2. Lavar o rosto das crianças diariamente reduz a transmissão.
  3. Água, latrinas e destino do lixo reduzem moscas e reinfecção.
  4. Meta da OMS: eliminação como problema de saúde pública.

Estratégia SAFE

S — Surgery

Operar a triquíase para evitar a cegueira de quem já tem sequela.

A — Antibiotics

Azitromicina para casos e para comunidades endêmicas.

F — Facial cleanliness

Rosto limpo: menos secreção, menos moscas, menos transmissão.

E — Environmental improvement

Água acessível, saneamento, latrinas e manejo do lixo.

Referências bibliográficas

  1. 1
    Diretriz2025
    World Health Organization. Trachoma — fact sheet. Geneva: WHO; 2025.
  2. 2
    Artigo2020
    Solomon AW, Kello AB, Bangert M, et al. The simplified trachoma grading system, amended. Bull World Health Organ. 2020;98(10):698–705.
  3. 3
    Artigo2022
    Solomon AW, Burton MJ, Gower EW, et al. Trachoma. Nat Rev Dis Primers. 2022;8(1):32.
  4. 4
    Documento oficial2014
    Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Manual de vigilância do tracoma e sua eliminação como causa de cegueira. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2014.
  5. 5
    Livro-texto2020
    Bowling B. Kanski’s Clinical Ophthalmology: A Systematic Approach. 9. ed. Elsevier; 2020.
  6. 6
    Livro-texto2025
    American Academy of Ophthalmology. BCSC Section 8: External Disease and Cornea. San Francisco: AAO; 2024–2025.

Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de referências clínicas reais e de representações anatômicas didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui a avaliação oftalmológica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. Tratamento em massa e cirurgia de triquíase seguem protocolos dos programas nacionais de controle do tracoma.

Atlas MedFoco de Oftalmologia • Conteúdo para educação médica. O diagnóstico e a conduta dependem da avaliação clínica individual.
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