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Atlas de Histologia • Tecido Conjuntivo

Síndrome de Ehlers-Danlos

Síndromes de Ehlers-Danlos (SED) • Ehlers-Danlos syndromes (EDS)

Grupo de doenças hereditárias em que o colágeno — ou as enzimas que o processam — é defeituoso. O conjuntivo perde resistência à tração: pele hiperextensível e frágil, articulações hipermóveis e, na forma vascular, ruptura de artérias e vísceras.

Genes do colágenoFibras colágenasHipermobilidade articularForma vascular: ruptura arterial
15–18 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça a lesão

O defeito está nas fibrilas colágenas, que dão resistência à tração à pele, aos ligamentos e à parede dos vasos. A lesão típica é vista na microscopia eletrônica.

Histopatologia

Figura 1. Fibrilas colágenas da derme em microscopia eletrônica (corte transversal): à esquerda, normal, com fibrilas redondas e de diâmetro uniforme; à direita, síndrome de Ehlers-Danlos clássica, com fibrilas de diâmetro variável e contorno irregular em "couve-flor".

Principais achados
  1. 1
    Fibrilas colágenas de diâmetro irregular, algumas gigantes (ME)
  2. 2
    Contorno das fibrilas em "couve-flor" na forma clássica
  3. 3
    Feixes colágenos da derme mais finos e frouxos
  4. 4
    Derme fina, com vasos visíveis, na forma vascular
  5. 5
    Cicatrizes atróficas, largas e finas ("papel de cigarro")
  6. 6
    Microscopia óptica muitas vezes quase normal

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O essencial de visão geral

  1. Grupo de 13 subtipos (classificação internacional de 2017), com genes e heranças diferentes.
  2. Defeito em colágenos (I, III, V) ou em enzimas de processamento (lisil-hidroxilase, procolágeno peptidase).
  3. Tríade das formas comuns: pele hiperextensível, hipermobilidade articular, fragilidade tecidual.
  4. A forma vascular (colágeno III) é a mais grave: ruptura de artérias, intestino e útero.

O que é a síndrome de Ehlers-Danlos

Não é uma doença, e sim uma família de doenças hereditárias do tecido conjuntivo. Todas comprometem a montagem ou a estrutura do colágeno, a proteína que resiste à tração.

O tecido estica mais do que deveria e se rompe com menos força. Por isso pele, articulações e vasos são os alvos — os mesmos tecidos onde o colágeno faz o trabalho mecânico.

Marfan é doença da fibra elástica (fibrilina); Ehlers-Danlos é doença da fibra colágena. Uma estica e não volta; a outra estica demais e rasga.

Os subtipos que mais caem

Dos 13 subtipos, poucos concentram os casos e as questões de prova. Cada um tem um gene e um alvo característicos.

Hipermóvel

O mais comum; hipermobilidade generalizada, dor crônica, luxações. Gene ainda não identificado.

Clássica

Colágeno V (COL5A1/COL5A2). Pele muito hiperextensível, cicatrizes atróficas largas.

Vascular

Colágeno III (COL3A1). Pele fina e translúcida; ruptura arterial, intestinal e uterina.

Cifoescoliótica

Lisil-hidroxilase (PLOD1), autossômica recessiva. Hipotonia, cifoescoliose congênita, fragilidade ocular.

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O essencial de fisiopatologia

  1. A síntese do colágeno tem etapas dentro e fora do fibroblasto; cada subtipo atinge uma.
  2. Colágeno V regula o diâmetro das fibrilas de colágeno I: defeito → fibrilas irregulares.
  3. Colágeno III é abundante na parede de vasos, intestino e útero: defeito → ruptura.
  4. Mutações estruturais costumam ter efeito dominante negativo; defeitos enzimáticos são recessivos.

Síntese do colágeno e onde cada subtipo falha

Rever a síntese do colágeno explica a classificação. Os subtipos se encaixam em etapas diferentes desta sequência.

  1. Tradução

    Cadeias pró-α no retículo endoplasmático rugoso. Defeitos estruturais: COL5A1/2 (clássica), COL3A1 (vascular).

  2. Hidroxilação

    Prolinas e lisinas hidroxiladas (vitamina C como cofator). Lisil-hidroxilase: cifoescoliótica.

  3. Tripla hélice

    Três cadeias se enrolam; procolágeno segue pelo Golgi e é secretado.

  4. Clivagem extracelular

    Peptidases removem os propeptídeos. ADAMTS2: dermatosparaxe; sítio de clivagem do colágeno I: artrocalasia.

  5. Pontes cruzadas

    Lisil-oxidase (cobre) liga as moléculas e forma a fibrila resistente.

Efeito dominante negativo

O colágeno é trimérico. Se metade das cadeias produzidas é anormal, a maior parte das triplas hélices incorpora pelo menos uma cadeia defeituosa e é degradada ou fica fraca. Por isso uma única cópia mutada causa doença grave na forma vascular.

Na forma vascular, o colágeno III anormal fica retido no retículo endoplasmático dos fibroblastos: a parede de artérias e vísceras recebe pouco colágeno III funcional.

Do defeito molecular ao órgão

SubtipoGene / proteínaHerançaTecido mais afetado
ClássicaCOL5A1, COL5A2 / colágeno VADPele, articulações
HipermóvelDesconhecidoADArticulações, dor crônica
VascularCOL3A1 / colágeno IIIADArtérias, intestino, útero
CifoescolióticaPLOD1 (lisil-hidroxilase), FKBP14ARColuna, músculo, olho
ArtrocalasiaCOL1A1, COL1A2 (perda do sítio de clivagem)ADLuxação congênita do quadril
DermatosparaxeADAMTS2 (procolágeno N-peptidase)ARPele extremamente frágil

AD = autossômica dominante; AR = autossômica recessiva. Lista parcial dos 13 subtipos da classificação de 2017.

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O essencial de quadro clínico

  1. Pele: hiperextensível, macia ("aveludada"), frágil, com cicatrizes atróficas.
  2. Articulações: hipermobilidade, luxações e subluxações, dor crônica.
  3. Equimoses fáceis por fragilidade dos vasos pequenos.
  4. Forma vascular: rupturas espontâneas, muitas vezes como primeira manifestação.

Manifestações por sistema

A intensidade varia muito entre os subtipos e mesmo dentro de uma família. O exame começa pela pele e pelas articulações.

Pele

Estica muito e volta ao lugar; feridas com pequeno trauma; cicatrizes largas e finas em joelhos, cotovelos e fronte; pseudotumores moluscoides.

Articulações

Hipermobilidade generalizada; luxações de ombro, patela e mandíbula; entorses de repetição; artrose precoce.

Vasos pequenos

Equimoses fáceis com coagulograma normal; sangramento gengival.

Vascular e vísceras

Dissecção e ruptura de artérias médias, perfuração do cólon sigmoide, ruptura uterina na gestação.

Escore de Beighton

Quantifica a hipermobilidade em 9 pontos. Na SED hipermóvel, considera-se positivo a partir de 5 pontos em adultos (6 em crianças antes da puberdade e 4 acima de 50 anos).

ManobraPontos
Dorsiflexão passiva do 5º dedo além de 90°1 de cada lado
Polegar encosta no antebraço (flexão passiva)1 de cada lado
Hiperextensão do cotovelo além de 10°1 de cada lado
Hiperextensão do joelho além de 10°1 de cada lado
Palmas no chão com joelhos estendidos1

Forma vascular: sinais de alarme

A pele não é hiperextensível; é fina e translúcida, com veias visíveis no tórax. A hipermobilidade costuma limitar-se às pequenas articulações das mãos. O aspecto facial pode ser típico: nariz fino, lábios finos, olhos proeminentes.

  • Dor abdominal súbita: perfuração intestinal ou ruptura arterial.
  • Dissecção de artérias carótidas, vertebrais, ilíacas ou renais.
  • Fístula carótido-cavernosa espontânea.
  • Ruptura uterina ou arterial no terceiro trimestre e no parto.

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O essencial de histopatologia e diagnóstico

  1. O diagnóstico é clínico (critérios de 2017) e molecular.
  2. Teste genético confirma todos os subtipos, exceto o hipermóvel, que ainda não tem gene conhecido.
  3. Biópsia de pele com ME mostra fibrilas anormais, mas é inespecífica e não define o subtipo.
  4. Cultura de fibroblastos pode demonstrar colágeno III anormal na forma vascular.

Derme normal × Ehlers-Danlos

A derme reticular normal tem feixes colágenos grossos e entrelaçados. Na SED os feixes podem ser mais finos, frouxos e desorganizados, mas a diferença no HE costuma ser sutil. O tricrômico ajuda a avaliar a quantidade de colágeno.

Derme normal

  • Feixes colágenos grossos e entrelaçados
  • Fibrilas redondas, diâmetro uniforme (ME)
  • Espessura dérmica normal

Ehlers-Danlos

  • Feixes finos e frouxos
  • Fibrilas de diâmetro variável, "couve-flor" (ME)
  • Derme fina na forma vascular

Achados por técnica

TécnicaO que mostraValor
HEDerme às vezes fina; feixes delicadosBaixo; muitas vezes normal
Tricrômico de MassonColágeno em azul ou verde; quantidade e organizaçãoÚtil para comparar com controle
Microscopia eletrônicaFibrilas irregulares, compostas, em "couve-flor"Sugestivo; não define o subtipo
Cultura de fibroblastosSíntese e secreção de colágeno IIIApoio na forma vascular
Sequenciamento genéticoVariante patogênica no gene do subtipoPadrão-ouro (exceto hipermóvel)
Achado característico

Fibrilas em "couve-flor"

Na ME em corte transversal, fibrilas colágenas grandes, de contorno lobulado, ao lado de fibrilas pequenas: falha no controle do diâmetro pelo colágeno V.

Como fechar o diagnóstico

  1. História

    Luxações, cicatrização ruim, equimoses, rupturas; história familiar e mortes súbitas.

  2. Exame físico

    Extensibilidade da pele, cicatrizes, escore de Beighton, aspecto facial.

  3. Classificar

    Aplicar os critérios maiores e menores do subtipo suspeito (2017).

  4. Teste genético

    Painel de genes do conjuntivo; obrigatório na suspeita de forma vascular.

  5. Rastrear complicações

    Ecocardiograma e imagem arterial conforme o subtipo.

Diagnóstico diferencial

Várias doenças do conjuntivo cursam com hipermobilidade ou fragilidade. Ossos, olho e aorta ajudam a separá-las.

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Achado-chaveFibrilina-1; hábito longilíneo
Como diferenciarEctopia do cristalino, dilatação da raiz aórtica, aracnodactilia; pele não é hiperextensível.
Achado-chaveColágeno I
Como diferenciarFraturas com trauma mínimo, escleras azuladas, dentinogênese imperfeita.
Síndrome de Loeys-Dietz
Achado-chaveVia TGF-β
Como diferenciarTortuosidade arterial, úvula bífida, hipertelorismo; aneurismas difusos.
Hipermobilidade benigna
Achado-chaveBeighton alto sem doença
Como diferenciarSem fragilidade da pele, sem cicatrizes anormais, sem história familiar de complicações.
Cutis laxa
Achado-chaveDefeito das fibras elásticas
Como diferenciarPele pende em dobras e não volta (perde a elasticidade); na SED a pele estica e retorna.

Galeria histopatológica e clínica

Da fibrila ao paciente: veja como um defeito molecular aparece na lâmina e no exame físico.

Derme em tricrômico

Tricrômico de Masson, 100x. Compare a derme reticular normal, com feixes azuis grossos e entrelaçados, com a derme da SED, de feixes mais finos, frouxos e com espaços entre eles. Observe também a espessura total da derme.

TricrômicoPeleColágeno

Fibrilas colágenas na ME

Microscopia eletrônica de transmissão, corte transversal. Na SED clássica, as fibrilas variam muito de diâmetro e algumas têm contorno lobulado ("couve-flor"). No normal são círculos regulares do mesmo tamanho.

MEFibrilasColágeno V

Pele hiperextensível e cicatrizes

Pele do antebraço ou pescoço tracionada além do esperado, que volta ao lugar ao soltar. Ao lado, cicatrizes atróficas, largas e brilhantes no joelho ("papel de cigarro"). Liga clínica e histologia: colágeno fraco cicatriza mal.

ClínicaPeleCicatriz

Forma vascular: artéria rota

Parede arterial em HE e tricrômico, 100x: média fina e pobre em colágeno, com área de ruptura e hemorragia. A pele do mesmo paciente é fina, com veias visíveis — procure essa associação.

HEArtériaColágeno III
Exame físico

As manobras do escore de Beighton

Quinto dedo além de 90°, polegar no antebraço, hiperextensão de cotovelos e joelhos e palmas no chão: até 9 pontos.

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O essencial de tratamento

  1. Não há tratamento que corrija o colágeno: o cuidado é preventivo e de suporte.
  2. Fisioterapia de fortalecimento e estabilização articular é a base nas formas comuns.
  3. Cirurgias e suturas exigem técnica cuidadosa; cicatrização é lenta.
  4. Forma vascular: centro de referência, vigilância arterial e controle rigoroso da pressão.

Formas clássica e hipermóvel

O objetivo é reduzir luxações, dor e lesões de pele. A fisioterapia fortalece a musculatura que estabiliza as articulações frouxas; órteses ajudam em casos selecionados.

Fisioterapia

Fortalecimento, propriocepção, exercício de baixo impacto.

Proteção da pele

Proteção em joelhos e canelas em crianças; evitar traumas.

Feridas e suturas

Sutura em camadas, sem tensão, pontos mantidos por mais tempo.

Dor crônica

Abordagem multiprofissional; evitar dependência de opioides.

Forma vascular

Seguimento em centro especializado, com imagem arterial não invasiva periódica. Procedimentos invasivos (angiografia por cateter, endoscopias) têm alto risco de complicação e só são feitos com indicação clara. O celiprolol foi associado a menos eventos arteriais em ensaio clínico e é usado em alguns centros; a decisão é do especialista.

  • Carregar cartão ou relatório informando o diagnóstico.
  • Dor súbita abdominal, torácica ou cervical: emergência.
  • Evitar esportes de contato e esforço isométrico intenso.
  • Gestação: alto risco de ruptura uterina e arterial; planejamento obrigatório.

Aconselhamento genético

Nas formas autossômicas dominantes, cada filho tem 50% de risco; nas recessivas, os pais são portadores e o risco por gestação é de 25%. Identificar a variante na família permite testar parentes e orientar a vigilância.

Referências bibliográficas

  1. 1
    Livro-texto2021
    Kumar V, Abbas AK, Aster JC. Robbins & Cotran Patologia: bases patológicas das doenças. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2021.
  2. 2
    Livro-texto2023
    Junqueira LC, Carneiro J. Histologia Básica: texto e atlas. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2023.
  3. 3
    Livro-texto2021
    Ross MH, Pawlina W. Histologia: texto e atlas — correlações com biologia celular e molecular. 8. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2021.
  4. 4
    Livro-texto2017
    Alberts B, et al. Biologia Molecular da Célula. 6. ed. Porto Alegre: Artmed; 2017.
  5. 5
    Artigo2017
    Malfait F, Francomano C, Byers P, et al. The 2017 international classification of the Ehlers–Danlos syndromes. Am J Med Genet C Semin Med Genet. 2017;175(1):8–26.

Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de lâminas histológicas reais e de representações didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui o laudo anatomopatológico, a avaliação clínica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. Na forma vascular, condutas como uso de celiprolol e indicação de procedimentos são definidas em centro especializado.

Atlas Astrenmed de Histologia • Conteúdo para educação médica. O diagnóstico e a conduta dependem da avaliação clínica individual.
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