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Atlas de Oftalmologia • Íris

Hipópio

Hypopyon • nível de leucócitos na câmara anterior

Camada esbranquiçada de leucócitos e fibrina que se deposita, pela gravidade, na parte inferior da câmara anterior, formando um nível horizontal. Não é diagnóstico: é sinal de inflamação intraocular intensa. A primeira pergunta é sempre: é infeccioso (úlcera de córnea, endoftalmite) ou estéril (uveíte HLA-B27, Behçet)?

Tipo
Sinal inflamatório
Estrutura
Câmara anterior (ângulo inferior)
Mecanismo
Quebra da barreira hematoaquosa
Pista no exame
Medir a altura em mm
10–12 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça o achado

Compare a foto com o esquema. O hipópio fica sempre embaixo e tem a superfície horizontal: são células mais pesadas que o humor aquoso, sedimentadas no ângulo inferior. Se o nível for vermelho, é sangue (hifema).

Imagem clínica

Figura 1. Olho vermelho com nível esbranquiçado na câmara anterior inferior. Meça a altura, veja a córnea e pergunte por cirurgia, trauma e lente de contato.

Roteiro de observação
  1. 1
    MedirAltura do nível em milímetros, com o paciente sentado — é o parâmetro de seguimento.
  2. 2
    CórneaInfiltrado ou úlcera acima do hipópio = ceratite infecciosa até prova em contrário.
  3. 3
    SuperfícieNível reto e móvel (Behçet) × denso, com fibrina (HLA-B27, infecção).
  4. 4
    ContextoCirurgia ou injeção intravítrea recente, trauma perfurante, lente de contato, doença sistêmica.

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Hipópio = leucócitos sedimentados na câmara anterior inferior, com nível horizontal.
  2. Sempre indica inflamação intensa; a causa define o tratamento.
  3. Olho operado ou com úlcera de córnea: pensar primeiro em infecção.
  4. Sem infecção: uveíte anterior HLA-B27 (fibrinoso) e Behçet (móvel, pouco fibrinoso).

O que é hipópio

Hipópio (do grego hypo, "abaixo", e pyon, "pus") é o acúmulo visível de leucócitos na câmara anterior. Na classificação do grupo SUN, ele representa o grau máximo de celularidade: o número de células é tão grande que elas se depositam.

O sinal é o mesmo em causas muito diferentes. Uma úlcera bacteriana, uma endoftalmite pós-operatória e uma crise de uveíte HLA-B27 podem produzir níveis parecidos — a diferença está na córnea, na história e no fundo de olho.

Urgência oftalmológica

Hipópio com dor e baixa visual após cirurgia ou injeção intraocular (endoftalmite), com infiltrado corneano (ceratite infecciosa) ou após trauma perfurante exige oftalmologista no mesmo dia.

Hipópio, hifema ou pseudo-hipópio?

Outros materiais também fazem nível na câmara anterior. A cor e o contexto separam os principais.

AchadoAspectoComo diferenciar
Hipópio
AspectoNível branco-amarelado
Como diferenciarOlho inflamado; células e flare acima do nível.
AspectoNível vermelho (sangue)
Como diferenciarTrauma, neovascularização, pós-operatório; pode coexistir com hipópio (nível misto).
Pseudo-hipópio tumoral
AspectoNível branco em olho pouco inflamado
Como diferenciarRetinoblastoma (criança), leucemia e linfoma: pouca dor e pouca hiperemia; leucocoria ou doença sistêmica.
Triancinolona na câmara anterior
AspectoCristais brancos após injeção
Como diferenciarInjeção intravítrea recente de triancinolona; olho calmo, sem dor.
Material de cristalino
AspectoFragmentos brancos
Como diferenciarTrauma ou cirurgia com cristalino roto; uveíte facoanafilática.

Quatro apresentações do hipópio

Em cada foto, olhe primeiro o nível (altura, cor, superfície) e depois a córnea e a conjuntiva. É a córnea que separa o hipópio da úlcera do hipópio da uveíte.

Nível bem definido, córnea clara

Íris azul, pupila redonda e nível branco liso, de superfície reta, no ângulo inferior; injeção ciliar ao redor do limbo. Córnea sem infiltrado: o aspecto lembra uveíte anterior aguda — mas em olho operado recentemente seria endoftalmite até prova em contrário.

Nível lisoCórnea claraInjeção ciliar

Hipópio com fibrina e córnea turva

Córnea levemente opaca (edema), hiperemia difusa e hipópio com borda superior irregular, coberto por exsudato. Material fibrinoso não se desloca com a posição da cabeça; é comum na uveíte HLA-B27 grave e nas infecções.

FibrinaEdema de córneaInflamação intensa

Úlcera de córnea com hipópio

Infiltrado branco, denso e irregular na córnea superior e hipópio alto embaixo. É ceratite infecciosa (bacteriana ou fúngica) até prova em contrário: raspado para cultura antes do colírio e tratamento intensivo. O hipópio aqui costuma ser estéril.

Ceratite infecciosaInfiltradoCultura

Hiperemia intensa e quemose

Conjuntiva muito vermelha e edemaciada, com nível amarelado. Em paciente com cirurgia ou injeção intravítrea recente, dor e baixa visual, esse quadro é endoftalmite: perda do reflexo vermelho e vitreíte reforçam o diagnóstico.

QuemoseEndoftalmite?Urgência

Hipópios grandes são vistos com lanterna; os pequenos só na lâmpada de fenda ou na gonioscopia (hipópio angular). Examine com o paciente sentado e anote a altura.

Exame passo a passo

  1. História dirigida

    Cirurgia ou injeção intraocular (dias a semanas), trauma, lente de contato, episódios prévios de olho vermelho, aftas, lombalgia inflamatória, imunossupressão.

  2. Acuidade e reflexo vermelho

    Baixa visual importante e reflexo vermelho ausente sugerem vitreíte (endoftalmite).

  3. Medir o hipópio

    Altura em mm com a fenda vertical; observe se a superfície é lisa, se há fibrina e se o nível muda com a posição da cabeça.

  4. Córnea com fluoresceína

    Defeito epitelial e infiltrado (úlcera), precipitados ceráticos, edema.

  5. Pressão intraocular

    Pode subir (bloqueio por células, fibrina, sinéquias) ou cair (corpo ciliar inflamado).

  6. Segmento posterior

    Fundo sob midríase quando possível; se não houver visão do fundo, ultrassom B para vitreíte e descolamento.

Como registrar

Modelo de registro

OD: AV conta dedos a 1 m. Hiperemia conjuntival difusa 3+. Córnea com infiltrado central de 3 × 2 mm, defeito epitelial de 2,5 × 2 mm (fluoresceína +). Câmara anterior com células 4+ e hipópio de 1,5 mm, superfície regular. Pupila redonda. PIO 14 mmHg. Fundo não visível; US B sem vitreíte. Coletado raspado para Gram, KOH e culturas.

Modelo didático. Anote a altura do hipópio em toda consulta: ela mostra se o tratamento está funcionando.

Principais causas

Separe primeiro as infecciosas — que ameaçam a visão em horas — das inflamatórias estéreis. A presença de úlcera de córnea, cirurgia recente ou trauma perfurante muda tudo.

Ceratite infecciosa

Bactérias (Pseudomonas, estafilococo, pneumococo), fungos (trauma vegetal), Acanthamoeba. Infiltrado + defeito epitelial; usuário de lente de contato.

Endoftalmite

Pós-operatória (catarata, injeção intravítrea), pós-traumática ou endógena (sepse, cateteres, drogas IV). Dor, baixa visual, vitreíte.

Uveíte anterior HLA-B27

Aguda, unilateral, recorrente, com fibrina; espondiloartrites, doença inflamatória intestinal, artrite reativa e psoríase.

Doença de Behçet

Hipópio pouco fibrinoso, móvel, às vezes em olho pouco vermelho; aftas orais e genitais, vasculite retiniana.

Fármacos

Rifabutina (sobretudo com claritromicina/fluconazol), cidofovir, bisfosfonatos, injeções intraoculares (endoftalmite estéril).

Mascaradas (pseudo-hipópio)

Retinoblastoma em criança, leucemia, linfoma, melanoma necrótico; uveíte facogênica. Pense nelas quando o olho está pouco inflamado.

Diferencial pela clínica

Sugere infecção

  • Infiltrado corneano ou úlcera
  • Cirurgia ou injeção nos últimos dias/semanas
  • Trauma perfurante
  • Vitreíte e perda do reflexo vermelho
  • Imunossupressão, sepse

Sugere inflamação estéril

  • Episódios prévios semelhantes
  • Córnea transparente
  • Lombalgia inflamatória, aftas
  • Fibrina e sinéquias (HLA-B27)
  • Hipópio móvel (Behçet)

O hipópio desaparece quando a causa é tratada. A conduta abaixo é informativa: ela mostra o raciocínio do oftalmologista em cada cenário.

Conduta por cenário

CenárioConduta inicial
Úlcera de córnea com hipópioRaspado para Gram, KOH e culturas; colírios antibióticos fortificados ( + ) ou fluoroquinolona de alta frequência; se suspeita fúngica. Reavaliação diária.
Endoftalmite pós-operatória ou pós-injeçãoPunção de vítreo/humor aquoso para cultura e antibióticos intravítreos ( + ); vitrectomia em casos selecionados (no EVS, se a visão era só de percepção luminosa).
Uveíte anterior estéril (HLA-B27, Behçet)Excluir infecção; tópica intensiva e cicloplégico () para dor e prevenção de sinéquias. Behçet: tratamento sistêmico com reumatologia.
Pseudo-hipópio em criança ou olho pouco inflamadoNão puncionar às cegas; investigar retinoblastoma (ultrassom, oncologia ocular) ou doença hematológica.

Doses de referência nas fichas; seguir protocolo do serviço e resultado das culturas.

Não faça

  • Iniciar corticoide tópico isolado num hipópio com infiltrado corneano sem cultura e sem cobertura antimicrobiana.
  • Tratar como "conjuntivite" um olho vermelho e doloroso com nível branco na câmara anterior.
  • Atrasar o encaminhamento de dor e baixa visual nos primeiros dias após cirurgia de catarata ou injeção intravítrea.

Referências bibliográficas

  1. 1
    Livro-texto2025
    American Academy of Ophthalmology. Basic and Clinical Science Course (BCSC), Section 9: Uveitis and Ocular Inflammation. San Francisco: AAO; 2024–2025.
  2. 2
    Livro-texto2025
    American Academy of Ophthalmology. Basic and Clinical Science Course (BCSC), Section 8: External Disease and Cornea. San Francisco: AAO; 2024–2025.
  3. 3
    Diretriz2023
    American Academy of Ophthalmology. Bacterial Keratitis Preferred Practice Pattern. San Francisco: AAO; 2023.
  4. 4
    Livro-texto2020
    Bowling B. Kanski’s Clinical Ophthalmology: A Systematic Approach. 9. ed. Elsevier; 2020.
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    Artigo2005
    Jabs DA, Nussenblatt RB, Rosenbaum JT; Standardization of Uveitis Nomenclature (SUN) Working Group. Standardization of uveitis nomenclature for reporting clinical data. Am J Ophthalmol. 2005;140(3):509–516.
  6. 6
    Artigo1995
    Endophthalmitis Vitrectomy Study Group. Results of the Endophthalmitis Vitrectomy Study. Arch Ophthalmol. 1995;113(12):1479–1496.
  7. 7
    Livro-texto2021
    Gervasio KA, Peck TJ (eds.). The Wills Eye Manual. 8. ed. Wolters Kluwer; 2021.

Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de referências clínicas reais e de representações anatômicas didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui a avaliação oftalmológica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas. Doses de antimicrobianos intraoculares e colírios fortificados são de referência e devem seguir o protocolo do serviço.

Atlas MedFoco de Oftalmologia • Conteúdo para educação médica. O diagnóstico e a conduta dependem da avaliação clínica individual.
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