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Emergência & UTI • Avaliação inicial

Fraqueza aguda generalizada

Fraqueza verdadeira × astenia • localização neuromuscular • risco respiratório

Abordagem inicial do adulto que chega dizendo que "está fraco". A primeira tarefa é separar perda real de força de cansaço e mal-estar; a segunda é caçar o que mata rápido — potássio, glicose, falência respiratória neuromuscular, medula e tronco. Só então se localiza a lesão: neurônio motor superior, inferior, junção ou músculo.

Fraqueza verdadeira × asteniaPotássio, glicose e ECG primeiroRegra 20/30/40Localizar antes de tratar
14 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. "Fraqueza" é uma queixa ambígua: a primeira decisão é se há perda objetiva de força ou astenia com força preservada.
  2. Fraqueza verdadeira aguda é, até prova em contrário, neuromuscular ou metabólica — e pode evoluir para insuficiência respiratória em horas.
  3. Astenia generalizada é quase sempre sistêmica: sepse, anemia, desidratação, distúrbio hidroeletrolítico, endócrino, cardíaco ou medicamentoso.
  4. Em ambos os casos, glicemia, potássio e ECG vêm antes da investigação neurológica fina.

Uma palavra, muitas queixas

Na porta da emergência, "fraqueza" pode significar perda real de força, cansaço, sonolência, pré-síncope, dispneia aos esforços, dor que limita o movimento ou simplesmente "não estar bem". No idoso, é uma das apresentações mais comuns — e menos específicas — de doença aguda grave.

Por isso a avaliação começa por traduzir a queixa: o que, exatamente, o paciente deixou de conseguir fazer? Não consegue levantar da cadeira, pentear o cabelo, segurar o copo, engolir ou manter a cabeça erguida é fraqueza verdadeira; não tem disposição para fazer nada é astenia.

Fraqueza verdadeira (motora)

  • Perda objetiva de força em grupos musculares definidos
  • Tem padrão: proximal, distal, ascendente, descendente, cruzado, bulbar
  • Pode acompanhar arreflexia, nível sensitivo, ptose, disfagia
  • Raciocínio: localizar no sistema neuromuscular

Astenia / fadiga / mal-estar

  • Falta de energia, cansaço, "corpo mole"
  • Força segmentar normal quando testada contra resistência
  • Frequentemente com febre, palidez, desidratação, taquicardia
  • Raciocínio: procurar a doença sistêmica

Por que essa queixa merece respeito

A fraqueza generalizada é um sintoma de baixo valor diagnóstico isolado, mas carrega diagnósticos que matam em horas: hipercalemia com arritmia, hipoglicemia, falência respiratória por Guillain-Barré, crise miastênica ou botulismo, compressão medular, oclusão da artéria basilar. No idoso, a "fraqueza" é com frequência a única queixa de sepse, infarto, anemia grave ou hiponatremia.

Metabólica

Potássio, glicose, cálcio, magnésio e fósforo: diagnóstico em minutos, reversão em minutos.

Respiratória

Doenças neuromusculares matam pelo diafragma e pela via aérea — muitas vezes com SpO₂ normal até o fim.

Tempo-dependente

Medula comprimida e tronco ocluído perdem função de forma irreversível em horas.

As quatro perguntas da primeira hora

  1. É fraqueza verdadeira?

    Exame de força segmentar contra resistência, de proximal a distal, comparando lados. Força normal desvia o raciocínio para causa sistêmica.

  2. Há algo que mata agora?

    Glicemia, potássio, ECG, perfusão, sinais de sepse e, na fraqueza motora, reserva respiratória e proteção de via aérea.

  3. Onde está a lesão?

    Neurônio motor superior (encéfalo, tronco, medula), inferior (raiz, nervo), junção neuromuscular ou músculo.

  4. Para onde vai a trajetória?

    Fraqueza progressiva em horas a poucos dias, com envolvimento bulbar ou respiratório, define UTI — mesmo que o paciente "pareça bem" na chegada.

Na fraqueza neuromuscular, o paciente não fica cianótico antes de cansar: ele cansa, retém CO₂ e para. Meça a reserva respiratória — não espere pela saturação.

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O essencial de o que mata rápido

  1. Causas metabólicas (hipercalemia, hipocalemia, hipoglicemia, hipermagnesemia) se diagnosticam com glicemia, gasometria e ECG — e se revertem em minutos.
  2. Falência respiratória neuromuscular (Guillain-Barré, crise miastênica, botulismo) é a principal causa evitável de morte.
  3. Compressão medular e AVC de tronco/oclusão basilar são emergências tempo-dependentes de imagem.
  4. Sepse, anemia grave, insuficiência adrenal, rabdomiólise e intoxicações apresentam-se frequentemente como "fraqueza".

Diagnósticos que não podem esperar

Antes de localizar a lesão no sistema nervoso, afaste o que mata em minutos ou horas e tem tratamento imediato. Os distúrbios metabólicos se resolvem com glicemia capilar, gasometria e ECG à beira do leito; as doenças neuromusculares matam pela falência respiratória, que chega antes do que a fraqueza dos membros sugere; e medula e tronco são emergências de imagem em que o tempo define a recuperação.

DiagnósticoPista na chegadaO que fazer já
Pista na chegadaDoença renal, IECA/BRA, espironolactona, rabdomiólise; fraqueza ascendente flácida; T apiculada, QRS largo, bradicardia.
O que fazer já se ECG alterado, com , ; diálise se refratária.
Pista na chegadaDiuréticos, diarreia, vômitos, tireotoxicose; paralisia flácida proximal, onda U, arritmias.
O que fazer já com monitorização; repor ; na forma tireotóxica, potássio cauteloso e .
Hipoglicemia
Pista na chegadaSulfonilureia, insulina, etilismo, sepse; pode simular AVC com déficit focal.
O que fazer jáGlicemia capilar em todo paciente; IV e no etilista ou desnutrido.
Guillain-Barré com falência respiratória
Pista na chegadaFraqueza ascendente simétrica em dias, arreflexia, parestesias, diplegia facial, disautonomia.
O que fazer jáCVF e pressões seriadas (20/30/40), EGRIS, UTI; ou .
Crise miastênica
Pista na chegadaPtose, diplopia, disfagia, voz anasalada, fraqueza cervical, piora com infecção ou fármaco.
O que fazer jáVia aérea antecipada; ou ; suspender fármacos agravantes.
Botulismo
Pista na chegadaParalisia descendente simétrica com nervos cranianos primeiro (diplopia, disartria, disfagia), sem febre e com sensibilidade normal.
O que fazer jáNotificação imediata e sem esperar confirmação; vigilância respiratória.
Pista na chegadaParaparesia ou tetraparesia com nível sensitivo, retenção urinária, dor dorsal; câncer, anticoagulação, febre.
O que fazer jáRM de toda a coluna em caráter de urgência; na compressão metastática; neurocirurgia.
Pista na chegadaTetraparesia ou déficit cruzado com diplopia, disartria, vertigem, rebaixamento.
O que fazer jáProtocolo de AVC: angiotomografia e avaliação para reperfusão.

As causas sistêmicas que se disfarçam de fraqueza

Com força segmentar preservada (ou fraqueza difusa e pouco definida), o problema geralmente está fora do sistema nervoso. Estas causas são frequentes, graves e facilmente perdidas quando a equipe se concentra no exame neurológico.

Sepse

No idoso, fraqueza e queda podem ser a única queixa. Procure foco, taquipneia, hipotensão e lactato.

Anemia grave

Sangramento digestivo oculto: palidez, taquicardia, melena ao toque retal, hemoglobina na gasometria.

Insuficiência adrenal

Hipotensão, hiponatremia, hipercalemia, hipoglicemia, corticoide suspenso: sem esperar cortisol.

Rabdomiólise

Mialgia, urina escura, CK muito elevada; risco de hipercalemia e lesão renal. Hidratação vigorosa.

Hipermagnesemia

Sulfato de magnésio, laxantes e antiácidos na doença renal: arreflexia, hipotensão, depressão respiratória.

Intoxicações

Organofosforados e carbamatos (síndrome colinérgica e intermediária), sedativos, lítio, álcool tóxico.

Infarto agudo do miocárdio, hiponatremia, hipercalcemia, hipotireoidismo grave, desidratação e polifarmácia completam a lista de causas comuns de "fraqueza" no idoso. ECG e eletrólitos fazem parte da avaliação mínima.

Sinais de alarme na fraqueza motora

Estes sinais indicam que o processo está avançando para a musculatura respiratória e bulbar ou que a lesão está na medula. Qualquer um deles muda o local de atendimento, a frequência de reavaliação e o limiar para proteger a via aérea.

  • Progressão em horas ou piora visível durante a permanência na emergência.
  • Sinais bulbares: disfagia, engasgo com saliva, voz anasalada ou fraca, disartria.
  • Fraqueza cervical (flexão do pescoço) — correlaciona-se com fraqueza diafragmática.
  • Respiração paradoxal, taquipneia, uso de musculatura acessória, frases curtas, tosse ineficaz.
  • Nível sensitivo, retenção urinária ou anestesia em sela — pensar em medula.
  • Disautonomia: flutuação de pressão, arritmias, íleo — comum na Guillain-Barré grave.
  • Pupilas dilatadas ou pouco reativas com paralisia descendente — pensar em botulismo.

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O essencial de avaliação inicial

  1. Estabilização e investigação caminham juntas: ABC, glicemia, ECG e gasometria venosa com eletrólitos nos primeiros minutos.
  2. A anamnese define o tempo de instalação, o padrão de progressão, os gatilhos (infecção, alimento, fármaco, vacina) e as medicações.
  3. O exame neurológico dirigido — força segmentar, reflexos, sensibilidade, nervos cranianos e fatigabilidade — localiza a lesão.
  4. Na fraqueza neuromuscular, a avaliação respiratória é parte do exame, não um passo posterior.

Os primeiros dez minutos

Estabilização e investigação andam juntas: glicemia, ECG e gasometria venosa com eletrólitos identificam em minutos as causas que se corrigem na própria sala. Na fraqueza motora, a reserva respiratória é medida já nesta fase, porque é ela que define o risco imediato.

  1. Monitorização e ABC

    Cardioscopia, oximetria, PA. Avalie se o paciente protege a via aérea: engole saliva? tosse com força? fala frases inteiras?

  2. Glicemia capilar

    Imediata, em todos. Hipoglicemia pode causar fraqueza focal ou generalizada.

  3. ECG de 12 derivações

    Procure sinais de hipercalemia (T apiculada, QRS alargado, bradicardia) e hipocalemia (onda U, QT longo), bloqueios e isquemia.

  4. Gasometria venosa com eletrólitos

    Potássio, sódio, cálcio iônico, glicose, lactato, pH e hemoglobina em minutos. Hipercapnia na gasometria arterial é sinal tardio de falência.

  5. Reserva respiratória

    Na fraqueza motora, meça capacidade vital forçada e pressão inspiratória máxima (NIF) à beira do leito; repita de forma seriada.

  6. Acesso e coleta

    Hemograma, função renal, magnésio, fósforo, CK, TSH, culturas se febre; beta-hCG em idade fértil.

  7. Tratar o reversível

    Glicose, potássio, cálcio, hidrocortisona na suspeita de crise adrenal, antibiótico na sepse — sem esperar a investigação neurológica.

Paciente com fraqueza motora, sinais bulbares e tosse ineficaz não deve sair da sala de emergência para exame de imagem sem plano de via aérea e acompanhamento.

Anamnese dirigida

A velocidade de instalação e o padrão de progressão estreitam o diferencial mais do que qualquer exame complementar. Pergunte ativamente pelos gatilhos e pela lista de medicamentos: infecção recente, conserva caseira ou um antibiótico novo podem ser a resposta, e o paciente raramente os menciona espontaneamente.

  • Velocidade de instalação — segundos a minutos (vascular), horas (metabólica, tóxica, compressão), dias (Guillain-Barré, botulismo, miosite), semanas (doença crônica descompensada).
  • Padrão de progressão — ascendente (Guillain-Barré, hipercalemia), descendente com nervos cranianos primeiro (botulismo, variante faringo-cérvico-braquial), flutuante e pior ao fim do dia (miastenia).
  • Gatilhos — infecção respiratória ou diarreia nas 4 semanas anteriores, conserva caseira ou embutido, exercício intenso, refeição rica em carboidratos (paralisia periódica), picada, pesticida.
  • Medicações — diuréticos, IECA/BRA, espironolactona, insulina, sulfonilureia, estatina, corticoide (uso e suspensão), sulfato de magnésio, aminoglicosídeo, fluoroquinolona, macrolídeo, betabloqueador.
  • Sintomas associados — dor dorsal, retenção urinária, diplopia, disfagia, mialgia, urina escura, palpitações, perda de peso, febre.
  • Antecedentes — câncer (compressão medular), miastenia conhecida, doença renal, tireotoxicose, etilismo, HIV, gestação.

Exame neurológico dirigido

O objetivo do exame é localizar a lesão no eixo motor, e não descrevê-la por completo. Força segmentar, reflexos e sensibilidade definem o nível; nervos cranianos, fatigabilidade e respiração definem o risco. Um exame dirigido e repetido vale mais do que um exame exaustivo feito uma única vez.

Força segmentar

Escala MRC 0–5 em seis grupos bilaterais (abdução do ombro, flexão do cotovelo, extensão do punho, flexão do quadril, extensão do joelho, dorsiflexão do tornozelo) = escore-soma 0–60. Inclua flexão cervical.

Reflexos

Arreflexia sugere nervo periférico (ou fase aguda de lesão medular); hiper-reflexia e Babinski, neurônio motor superior; preservados na junção e no músculo.

Sensibilidade

Nível sensitivo = medula. Parestesias distais = nervo. Sensibilidade normal com fraqueza pura = junção, músculo ou corno anterior.

Nervos cranianos

Ptose, oftalmoparesia, pupilas, paralisia facial bilateral, disfagia e disartria mudam o diferencial e o risco respiratório.

Fatigabilidade

Ptose que piora com o olhar sustentado para cima por 30–60 s, fraqueza que piora com repetição: junção neuromuscular.

Respiração

Contagem em uma única expiração, tosse, voz, respiração paradoxal (abdome entra na inspiração), uso de acessórios.

Lesão medular aguda e AVC extenso podem se apresentar com flacidez e arreflexia nas primeiras horas ("choque medular"). Nível sensitivo e disfunção esfincteriana desfazem a confusão com Guillain-Barré.

Modelo de registro

Evolução — fraqueza aguda

Queixa: fraqueza há ___ (instalação em ___ horas/dias), padrão ___ (ascendente/descendente/proximal/flutuante). Gatilhos: infecção recente ___; alimento/conserva ___; medicações ___. Exame: força MRC (soma) ___/60; flexão cervical ___; reflexos ___; sensibilidade ___ (nível sensitivo: sim/não); nervos cranianos ___; fatigabilidade ___; esfíncteres ___. Respiratório: FR ___; tosse ___; deglutição ___; CVF ___ mL (___ mL/kg); NIF ___ cmH₂O; PEmáx ___ cmH₂O; gasometria ___. Exames: glicemia ___; K ___; Mg ___; Ca ___; P ___; CK ___; ECG ___. Localização provável: ___. Hipótese principal: ___. Conduta: ___. Reavaliação respiratória a cada ___ h. Destino: ___.

Em 30 segundos

O essencial de localização e causas

  1. Neurônio motor superior: padrão piramidal, nível sensitivo ou sinais corticais/tronco — pense em AVC, compressão medular, mielite.
  2. Neurônio motor inferior: arreflexia, parestesias distais, progressão ascendente — pense em Guillain-Barré.
  3. Junção neuromuscular: ptose, diplopia, disfagia e fatigabilidade com sensibilidade normal — miastenia, botulismo, magnésio, organofosforado.
  4. Músculo: fraqueza proximal simétrica com reflexos preservados — distúrbios de potássio, rabdomiólise, miosite.

O mapa da fraqueza

Cada nível do eixo motor deixa uma assinatura própria nos reflexos, na sensibilidade e na distribuição da fraqueza. Combinar esses três achados localiza a lesão na maioria dos pacientes, e a localização define o exame seguinte: RM na medula, líquor e ENMG no nervo, anticorpos e teste de fatigabilidade na junção, CK no músculo.

NívelReflexosSensibilidadePadrão típicoPistas
Neurônio motor superior (encéfalo, tronco, medula)Aumentados, Babinski (podem estar abolidos na fase aguda)Nível sensitivo (medula) ou hemi-hipoestesiaHemiparesia, paraparesia, tetraparesiaEsfíncteres, dor dorsal, sinais de tronco, rebaixamento
Neurônio motor inferior (raiz, nervo)Diminuídos ou abolidosParestesias e hipoestesia distaisAscendente, distal > proximal, diplegia facialDor lombar radicular, disautonomia
Junção neuromuscularNormais (abolidos no botulismo e na hipermagnesemia graves)NormalOcular, bulbar, cervical e proximal; flutuanteFatigabilidade, ptose, diplopia, pupilas (botulismo)
MúsculoNormais ou pouco reduzidosNormalProximal e simétrico (cinturas)Mialgia, urina escura, CK elevada, distúrbio de potássio

O corno anterior da medula (poliomielite, mielite flácida aguda por enterovírus/arbovírus) dá fraqueza assimétrica, arreflexia e sensibilidade normal — um quinto padrão, raro, mas importante em surtos.

Reflexos e sensibilidade são as duas perguntas que mais localizam: arreflexia com parestesias = nervo; sensibilidade normal com fatigabilidade = junção; nível sensitivo = medula.

Neurônio motor superior: encéfalo, tronco e medula

Fraqueza dos quatro membros por lesão central significa tronco encefálico ou medula cervical. Pense em oclusão da artéria basilar (com sinais de tronco, rebaixamento, diplopia) e em mielopatia aguda — compressiva (metástase, hematoma epidural em anticoagulado, abscesso epidural, hérnia), inflamatória (mielite transversa, neuromielite óptica) ou vascular (infarto medular, com dor súbita e dissociação sensitiva).

  • Compressão metastática: dor dorsal que piora deitado em paciente oncológico precede o déficit; motricidade perdida há mais de 48 h raramente se recupera.
  • Abscesso epidural: febre, dor dorsal e déficit; usuário de drogas IV, diabético, procedimento espinhal recente.
  • Hematoma epidural: anticoagulação, punção ou anestesia neuroaxial recente.
  • Mielite transversa: instalação em horas a dias, nível sensitivo, disfunção esfincteriana; RM com lesão intramedular.

Neuromuscular periférico: nervo, junção e músculo

Fora do sistema nervoso central, a pergunta prática é quem vai precisar de via aérea e quem tem antídoto ou tratamento específico. Guillain-Barré, crise miastênica e botulismo ameaçam a respiração; organofosforado, hipermagnesemia e paralisia periódica têm causa identificável e reversível; rabdomiólise e miopatias pedem CK e proteção renal.

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Síndrome de Guillain-Barré
Achado-chaveFraqueza ascendente simétrica, arreflexia, parestesias, dor lombar; nadir em até 4 semanas.
Como diferenciarLíquor com dissociação albuminocitológica (pode ser normal na 1ª semana); eletroneuromiografia. Variante Miller Fisher: oftalmoplegia, ataxia, arreflexia.
Miastenia gravis (crise)
Achado-chavePtose e diplopia flutuantes, disfagia, fraqueza cervical; piora com infecção, cirurgia, fármacos.
Como diferenciarReflexos e sensibilidade normais; anticorpos anti-AChR/anti-MuSK; estimulação repetitiva. Não aguarde exames para proteger a via aérea.
Botulismo
Achado-chaveDescendente, simétrico, nervos cranianos primeiro; boca seca, pupilas dilatadas, constipação; afebril e lúcido.
Como diferenciarAlimento suspeito, outros casos, ferida, uso de toxina. Diagnóstico clínico — o soro não espera a confirmação laboratorial.
Organofosforado / carbamato
Achado-chaveSíndrome colinérgica (miose, secreções, bradicardia, fasciculações); síndrome intermediária 24–96 h depois, com fraqueza cervical, proximal e respiratória.
Como diferenciarExposição a pesticida; colinesterase reduzida. para os efeitos muscarínicos — não reverte a fraqueza nicotínica.
Achado-chaveArreflexia, hipotensão, bradicardia, depressão respiratória; sulfato de magnésio, laxante, doença renal.
Como diferenciarMagnésio sérico; reflexos somem perto de 12 mg/dL. e diálise se grave.
Achado-chaveParalisia flácida proximal ao acordar ou após refeição rica em carboidrato/exercício; homem jovem; tireotoxicose.
Como diferenciarPotássio baixo por desvio intracelular, TSH; risco de hipercalemia de rebote com reposição agressiva.
Rabdomiólise
Achado-chaveMialgia, fraqueza proximal, urina escura; esforço, trauma, imobilização, fármacos, drogas, hipertermia.
Como diferenciarCK geralmente > 5 vezes o limite superior; urina com heme sem hemácias; potássio, fósforo e creatinina.
Miopatia inflamatória / tóxica
Achado-chaveFraqueza proximal subaguda; lesões cutâneas (dermatomiosite); estatina, corticoide, imunoterapia oncológica.
Como diferenciarCK, autoanticorpos, ENMG e biópsia em sequência eletiva. Miosite por inibidor de checkpoint pode associar-se a miocardite e a quadro miastênico.

Astenia sem perda de força: causas sistêmicas

Quando a força segmentar está preservada, o paciente descreve cansaço, e não paresia. A investigação passa a ser sistêmica, e as causas são comuns e graves: infecção, anemia, distúrbios hidroeletrolíticos e endócrinos, infarto silencioso e medicamentos.

GrupoCausasPista
InfecciosaSepse, pneumonia, infecção urinária, dengue e outras arboviroses, COVID-19Febre ou hipotermia, taquipneia, foco, lactato
HematológicaAnemia aguda ou grave, hemólisePalidez, melena, hemoglobina na gasometria
HidroeletrolíticaDesidratação, hiponatremia, hipercalcemia, hipofosfatemiaPerdas, diuréticos, câncer (cálcio), realimentação (fósforo)
EndócrinaInsuficiência adrenal, hipo ou hipertireoidismo, hiperglicemiaHipotensão, Na baixo e K alto; TSH; glicemia
CardiovascularInfarto (sobretudo no idoso e no diabético), arritmia, insuficiência cardíacaECG, troponina
Medicamentosa / tóxicaSedativos, anti-hipertensivos, betabloqueador, opioides, lítio, álcoolRevisão de prescrição, nível sérico

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O essencial de exames e risco respiratório

  1. Glicemia, eletrólitos (K, Na, Ca, Mg, P), CK, função renal, gasometria e ECG formam o pacote mínimo de toda fraqueza aguda.
  2. Na fraqueza neuromuscular, capacidade vital forçada e pressões respiratórias máximas medem a reserva melhor que a SpO₂.
  3. Regra 20/30/40: CVF < 20 mL/kg, PImáx mais fraca que −30 cmH₂O, PEmáx < 40 cmH₂O ou queda > 30% predizem falência respiratória.
  4. Na Guillain-Barré, o EGRIS estima na admissão o risco de ventilação mecânica na primeira semana.

Exames de primeira linha

ExameO que procurarO que muda
Glicemia capilarHipoglicemia, hiperglicemia graveGlicose IV imediata; investigar cetoacidose e estado hiperosmolar.
ECGT apiculada, QRS largo, onda P achatada (K alto); onda U, QT longo (K baixo); bloqueios; isquemiaCálcio IV imediato se alterações de hipercalemia.
Gasometria (venosa e, se fraqueza respiratória, arterial)K, Na, Ca iônico, lactato, pH; PaCO₂Hipercapnia na doença neuromuscular é sinal tardio — indica suporte ventilatório.
Eletrólitos completosPotássio, magnésio, cálcio, fósforo, sódioHipomagnesemia perpetua hipocalemia; hipofosfatemia grave causa fraqueza e falência respiratória.
CKRabdomiólise (geralmente > 5 vezes o limite superior), miositeHidratação, controle de potássio e função renal.
Função renal, hemograma, TSHLesão renal, anemia, tireotoxicoseParalisia periódica tireotóxica; anemia grave; ajuste de doses.
Urina tipo IHeme positivo sem hemáciasSugere mioglobinúria.
Culturas, lactato, beta-hCGSepse; gestaçãoAntibiótico precoce; ajuste de condutas e de fármacos.

Exames direcionados pela localização — RM de coluna, angiotomografia, punção lombar, eletroneuromiografia, anticorpos — entram depois da estabilização e não devem atrasar o tratamento empírico.

Medir a reserva respiratória

Na fraqueza neuromuscular, o pulmão está normal; quem falha é a bomba. A hipoxemia e a hipercapnia aparecem tarde, frequentemente pouco antes da parada. Por isso a monitorização se faz com medidas mecânicas seriadas: capacidade vital forçada (CVF, em mL/kg de peso ideal) e pressões inspiratória e expiratória máximas (PImáx/NIF e PEmáx).

A fraqueza facial pode impedir a vedação no bocal e falsear medidas baixas — use máscara facial ou peça ajuda da fisioterapia. Tendência importa mais que o valor isolado.

< 20 mL/kgCapacidade vital forçada
−30 cmH₂OPImáx (NIF) mais fraca que este valor
< 40 cmH₂OPEmáx (força da tosse)
> 30%Queda em relação à medida anterior

Ferramenta — regra 20/30/40 na fraqueza neuromuscular

Regra 20/30/40 — risco de falência respiratória

Critérios de Lawn e colaboradores (Arch Neurol, 2001), derivados de pacientes com Guillain-Barré e extrapolados na prática para outras doenças neuromusculares agudas. Qualquer critério presente indica alto risco de evolução para ventilação mecânica: UTI e discussão de intubação eletiva.

Preencha os campos com as medidas à beira do leito para ver a interpretação.

Ferramenta de apoio. A decisão de intubar é clínica: fadiga, hipercapnia, hipoxemia, secreções que não consegue eliminar e instabilidade autonômica também indicam suporte ventilatório.

Ferramenta — EGRIS na síndrome de Guillain-Barré

Erasmus GBS Respiratory Insufficiency Score (EGRIS)

Escore de Walgaard e colaboradores (Ann Neurol, 2010) que estima, na admissão, a probabilidade de ventilação mecânica na primeira semana. Pontuação de 0 a 7. A diretriz EAN/PNS 2023 recomenda avaliar o risco respiratório na admissão com a versão modificada (mEGRIS) e de forma seriada.

Preencha os três itens para calcular o EGRIS.

Escore-soma MRC: força de 0 a 5 em seis grupos bilaterais (abdução do ombro, flexão do cotovelo, extensão do punho, flexão do quadril, extensão do joelho e dorsiflexão do tornozelo). O EGRIS não substitui as medidas seriadas de CVF e pressões respiratórias.

Em 30 segundos

O essencial de conduta

  1. Trate primeiro o que reverte em minutos: hipoglicemia, hipercalemia, hipocalemia grave, hipermagnesemia e crise adrenal.
  2. Na doença neuromuscular, intube de forma eletiva quando a reserva cai — sem succinilcolina na denervação, rabdomiólise ou hipercalemia.
  3. Guillain-Barré que não deambula: 0,4 g/kg/dia por 5 dias (até 2 semanas) ou (até 4 semanas). Corticoide não é indicado.
  4. Crise miastênica: suporte ventilatório, plasmaférese ou imunoglobulina e suspensão de fármacos agravantes; botulismo: soro antibotulínico precoce e notificação imediata.

Via aérea na doença neuromuscular

A intubação planejada, com o paciente ainda compensado, é mais segura que a de emergência no paciente hipercápnico e exausto. A ventilação não invasiva pode ser usada com cautela na crise miastênica sem disfunção bulbar importante e sem hipercapnia grave, mas tende a falhar na Guillain-Barré, que progride e tem disautonomia.

Succinilcolina: evitar

  • Hipercalemia conhecida ou suspeita
  • Rabdomiólise
  • Denervação ou imobilidade prolongada (Guillain-Barré, lesão medular, AVC com dias de evolução)
  • Miastenia: resistência imprevisível ao efeito

Rocurônio: preferido

  • 1–1,2 mg/kg na sequência rápida
  • Na miastenia há sensibilidade aumentada: a dose usual de sequência rápida pode prolongar a paralisia por horas — monitore o bloqueio e tenha sugamadex disponível
  • Antecipe instabilidade autonômica: vasopressor e atropina prontos

Disautonomia na Guillain-Barré grave causa bradicardia extrema e assistolia durante aspiração traqueal e intubação. Monitorização contínua e à mão.

Conduta por síndrome

SíndromeMedidas imediatasDestino
HipercalemiaCálcio se ECG alterado, insulina + glicose, salbutamol; remover fontes; diálise se refratária ou lesão renal graveLeito monitorizado; UTI se ECG alterado ou refratário
Hipocalemia / paralisia periódicaKCl IV monitorizado, magnésio; forma tireotóxica: potássio cauteloso e propranololMonitorização cardíaca até K > 3,0 e força recuperada
Guillain-BarréCVF/NIF seriadas, EGRIS, imunoglobulina ou plasmaférese, profilaxia de TEV, analgesiaUTI se risco respiratório, disfunção bulbar ou disautonomia
Crise miastênicaVia aérea, plasmaférese ou imunoglobulina, suspender fármacos agravantes, tratar infecçãoUTI
BotulismoSoro antibotulínico precoce, notificação imediata, vigilância respiratóriaUTI
Compressão medularRM de toda a coluna em até 24 h (antes se déficit progressivo), dexametasona na metastática, neurocirurgia/radioterapiaCentro com neurocirurgia
RabdomióliseCristaloide para diurese de 200–300 mL/h, corrigir K, evitar nefrotóxicosInternação; UTI se K alto, acidose ou anúria
Fármacos que pioram a junção neuromuscular

Na miastenia e no botulismo, evite aminoglicosídeos, fluoroquinolonas, macrolídeos, magnésio IV, betabloqueadores e bloqueadores neuromusculares em doses usuais. Se indispensáveis, use com monitorização respiratória.

Rotas de tratamento

Cada rota reúne um cenário clínico; o ícone ao lado de cada fármaco abre a ficha com apresentação, diluição, dose e cuidados. Valores de apresentações usuais no Brasil — confira sempre o rótulo disponível no seu serviço.

Em 30 segundos

O essencial de cenários especiais

  1. No idoso, "fraqueza" é apresentação frequente de sepse, infarto, anemia, hiponatremia e efeito de medicamento.
  2. Na gestante e no puerpério, lembre hipermagnesemia iatrogênica, hipocalemia por hiperêmese e AVC.
  3. No paciente oncológico, dor dorsal com fraqueza é compressão medular até prova em contrário.
  4. Fraqueza "funcional" é diagnóstico de inclusão, com sinais positivos — nunca de exclusão apressada.

Idoso e etilista ou desnutrido

Nestes pacientes a "fraqueza" raramente é neurológica primária: costuma ser a apresentação de uma doença sistêmica ou de um déficit metabólico acumulado. O erro comum é aceitar o rótulo de fraqueza inespecífica sem a avaliação mínima, ou corrigir apenas o distúrbio mais visível.

Idoso

Sepse, infarto silencioso, anemia, hiponatremia, hipercalcemia, polifarmácia, desidratação. Erro: rotular como "fraqueza inespecífica" sem ECG, eletrólitos e procura de foco.

Etilista / desnutrido

Hipocalemia, hipomagnesemia, hipofosfatemia, hipoglicemia, Wernicke, rabdomiólise. Erro: dar glicose e esquecer tiamina e a reposição de fósforo e magnésio.

Gestante, puérpera e paciente oncológico

Na gestante e na puérpera, pense em hipermagnesemia por sulfato de magnésio, hipocalemia na hiperêmese, AVC e trombose venosa cerebral e Guillain-Barré pós-parto. Na paciente em uso de magnésio, o erro é esquecer de checar reflexos patelares e diurese, os primeiros sinais de toxicidade.

Paciente oncológico

Considere compressão medular, hipercalcemia, síndrome miastênica de Lambert-Eaton e miosite por imunoterapia. Não espere o déficit motor completo para pedir RM.

Paciente de UTI e usuário de drogas IV

Nos dois cenários, a explicação mais óbvia (o pulmão no doente crítico, a intoxicação no usuário de drogas) costuma esconder uma causa neuromuscular ou espinhal tratável. Examine a coluna, os nervos cranianos e a força antes de aceitá-la.

Paciente de UTI

Polineuromiopatia do doente crítico, hipofosfatemia na realimentação, bloqueio neuromuscular residual. Erro: atribuir falha de desmame apenas a causas pulmonares.

Usuário de drogas IV

Abscesso epidural, botulismo de ferida, rabdomiólise. Erro: atribuir a fraqueza à intoxicação sem examinar a coluna e os nervos cranianos.

Erros comuns na abordagem inicial

A maioria destes erros vem de subestimar a velocidade da doença neuromuscular ou de usar o marcador errado para medir a reserva respiratória: a saturação cai tarde, quando a falência já se instalou.

  • Usar a saturação de oxigênio como marcador de reserva respiratória na doença neuromuscular.
  • Liberar o paciente com Guillain-Barré inicial porque "ainda anda" — a progressão é em horas a dias.
  • Usar succinilcolina na hipercalemia, na rabdomiólise ou após dias de denervação.
  • Repor potássio agressivamente na paralisia periódica tireotóxica e causar hipercalemia de rebote.
  • Esquecer o magnésio na hipocalemia refratária.
  • Atrasar o soro antibotulínico à espera de confirmação laboratorial.
  • Prescrever fluoroquinolona, aminoglicosídeo ou magnésio IV ao paciente miastênico.
  • Confundir choque medular (flácido, arreflexo) com Guillain-Barré — procure o nível sensitivo.
  • Rotular como funcional sem exame completo, glicemia, eletrólitos e ECG.

Destino e transição de cuidado

O destino é definido pela trajetória, não pela foto da chegada: um paciente que ainda anda pode estar em franca progressão. A reserva respiratória, a função bulbar e a velocidade de piora decidem entre UTI, enfermaria monitorizada e alta.

UTI

Critério 20/30/40, EGRIS alto, disfunção bulbar, disautonomia, crise miastênica, botulismo, hipercalemia com ECG alterado refratária.

Internação monitorizada

Fraqueza motora progressiva sem critério de UTI, distúrbios eletrolíticos em correção IV, rabdomiólise.

Alta possível

Astenia com causa benigna identificada e tratada, força normal, exames tranquilizadores e retorno garantido.

Fraqueza motora aguda sem diagnóstico definido não é diagnóstico de alta: é um quadro que precisa de reavaliação seriada de força e de reserva respiratória.

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