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Atlas de Oftalmologia • Íris

Criptas da íris

Criptas de Fuchs • iris crypts

Pequenas depressões ovais ou em losango no estroma da íris, onde a camada anterior falta e se vê o tecido mais profundo. Ficam junto ao colarete e na periferia, variam muito entre pessoas e são anatomia normal. Interessam ao clínico por dois motivos: sumir (atrofia, edema, tumor) e indicar uma íris mais fina, ligada a menor risco de fechamento angular.

Tipo
Variante anatômica normal
Estrutura
Estroma anterior da íris
Determinação
Genética (ex.: SEMA3A)
Pista no exame
Criptas apagadas = algo mudou
6–8 min de leitura Atualizado em outubro de 2026

Reconheça o achado

Compare a foto com o esquema. A íris não é lisa: tem colarete (o anel em zigue-zague), criptas (buraquinhos no estroma) e sulcos de contração (dobras circulares na periferia).

Imagem clínica

Figura 1. Íris com criptas bem visíveis: aberturas escuras, ovais, de bordas nítidas, enfileiradas junto ao colarete e espalhadas na periferia.

Roteiro de observação
  1. 1
    OndeJunto ao colarete (criptas maiores) e na periferia, perto da raiz.
  2. 2
    FormaOvais ou em losango; o fundo é mais escuro (estroma profundo e epitélio).
  3. 3
    QuantidadeDe quase nenhuma a dezenas; costuma ser simétrica entre os olhos.
  4. 4
    CompararCriptas apagadas num setor ou num olho só merecem explicação.

Em 30 segundos

O essencial de visão geral

  1. Criptas são depressões normais do estroma anterior da íris, sem significado patológico.
  2. Número e forma são herdados; mais visíveis em íris claras.
  3. Mais criptas se associam a íris mais fina e que perde mais volume ao dilatar.
  4. Criptas apagadas num setor ou num olho podem indicar atrofia, edema, nevo ou tumor.

O que são as criptas

A face anterior da íris é coberta por uma camada de fibroblastos e melanócitos (camada de borda anterior). Nas criptas, descritas por Fuchs, essa camada falta e o humor aquoso entra em contato direto com o estroma mais profundo, de aspecto mais escuro e trabecular.

A quantidade de criptas é uma característica individual, com forte componente genético: estudos de associação genômica relacionaram a frequência de criptas a variantes do gene SEMA3A, envolvido na orientação axonal durante o desenvolvimento.

Cripta é anatomia. O que tem valor clínico é a assimetria: um olho, ou um setor, que perdeu o desenho que o outro conserva.

Criptas e fechamento angular

Em estudos com OCT de segmento anterior em olhos asiáticos, íris com mais criptas eram mais finas e perdiam mais volume ao dilatar. Isso faz sentido mecânico: uma íris volumosa que não "esvazia" na midríase empurra a periferia contra o ângulo. A observação é promissora para estimar risco, mas ainda não substitui a gonioscopia.

Muitas criptas

  • Íris mais fina
  • Maior redução de volume ao dilatar
  • Associação com menor risco de ângulo fechado

Poucas criptas, íris escura e espessa

  • Íris mais espessa na periferia
  • Menor redução de volume
  • Mais atenção à gonioscopia

O desenho normal e quando ele some

As duas primeiras imagens mostram variações normais. As duas últimas mostram situações em que o desenho das criptas desaparece — e por quê.

Muitas criptas em íris clara

Íris azul com criptas grandes junto ao colarete e várias menores na periferia. Variante normal; o estroma profundo aparece mais escuro no fundo de cada cripta.

NormalÍris claraColarete

Íris castanha com poucas criptas

Superfície mais lisa e homogênea, com sulcos de contração na periferia. Também normal: íris escuras costumam ter estroma mais denso e criptas menos evidentes.

NormalÍris escuraSulcos

Criptas apagadas por inflamação crônica

Íris de aspecto liso e "lavado", sem criptas, num olho com uveíte crônica (como a de Fuchs), comparada ao outro olho com desenho preservado. A perda do relevo indica atrofia do estroma.

AtrofiaAssimetriaUveíte

Criptas apagadas sobre um nevo

Lesão pigmentada plana em que as criptas desaparecem dentro dos limites da mancha: sinal de que a lesão ocupa o estroma (nevo), diferente da sarda, que deixa o desenho intacto.

NevoEstromaLesão

Use a lâmpada de fenda com iluminação difusa e depois feixe oblíquo; compare sempre os dois olhos, com pupilas de tamanho semelhante.

Exame passo a passo

  1. Iluminação difusa

    Visão geral do relevo: colarete, criptas, sulcos.

  2. Feixe oblíquo

    Mostra a profundidade das criptas e elevações (nevo, nódulos).

  3. Comparação entre os olhos

    Assimetria de relevo é mais importante que o número absoluto de criptas.

  4. Retroiluminação

    Criptas não transiluminam; defeitos que transiluminam indicam perda do epitélio posterior (pigmentar, herpes, albinismo).

  5. Contexto

    Uveíte prévia, glaucoma agudo, herpes, lesões pigmentadas.

Como registrar

Modelo de registro

AO: íris azuis com arquitetura preservada, criptas numerosas junto ao colarete e na periferia, simétricas; sem atrofia setorial, sem lesões pigmentadas, sem defeitos de transiluminação.

Modelo didático. Em achado normal, basta registrar "arquitetura preservada e simétrica".

Quando o relevo da íris muda

As criptas não adoecem, mas a perda ou a distorção do relevo da íris é uma pista. Pense nestas causas quando um olho perde o desenho que o outro conserva.

Uveíte crônica

Atrofia do estroma e íris lisa (uveíte de Fuchs, herpes); às vezes nódulos e sinéquias.

Crise de fechamento angular

Atrofia setorial em espiral após isquemia da íris; pupila irregular.

Edema e neovascularização

Íris "inchada" e lisa; vasos finos na superfície (rubeose).

Infiltração e tumores

Nevo difuso, melanoma, leucemia: o estroma ocupado perde as criptas.

Diferencial

CondiçãoAchado-chaveComo diferenciar
Defeitos de transiluminação
Achado-chaveÁreas que brilham na retroiluminação
Como diferenciarPerda do epitélio pigmentado (síndrome de dispersão pigmentar, herpes, albinismo); criptas não brilham.
Achado-chaveBuraco de espessura total
Como diferenciarVê-se o reflexo vermelho através do orifício.
Achado-chaveMancha que apaga as criptas
Como diferenciarÁrea pigmentada com limites; acompanhar com foto.
Heterocromia
Achado-chaveCor diferente
Como diferenciarMuda a cor; o relevo pode estar preservado ou atrófico.

Referências bibliográficas

  1. 1
    Artigo2011
    Larsson M, Duffy DL, Zhu G, et al. GWAS findings for human iris patterns: associations with variants in genes that influence normal neuronal pattern development. Am J Hum Genet. 2011;89(2):334–343.
  2. 2
    Artigo2014
    Sidhartha E, Gupta P, Liao J, et al. Assessment of iris surface features and their relationship with iris thickness in Asian eyes. Ophthalmology. 2014;121(5):1007–1012.
  3. 3
    Artigo2016
    Chua J, Thakku SG, Tun TA, et al. Iris crypts influence dynamic changes of iris volume. Ophthalmology. 2016;123(10):2077–2084.
  4. 4
    Artigo2016
    Edwards M, Cha D, Krithika S, Johnson M, Parra EJ. Analysis of iris surface features in populations of diverse ancestry. R Soc Open Sci. 2016;3(1):150424.
  5. 5
    Livro-texto2025
    American Academy of Ophthalmology. Basic and Clinical Science Course (BCSC), Section 2: Fundamentals and Principles of Ophthalmology. San Francisco: AAO; 2024–2025.
  6. 6
    Livro-texto2021
    Remington LA. Clinical Anatomy and Physiology of the Visual System. 4. ed. Elsevier; 2021.

Fontes das imagens

As imagens deste atlas têm finalidade educacional e foram produzidas a partir de referências clínicas reais e de representações anatômicas didáticas.

Parte delas pode ter sido editada ou aprimorada digitalmente para destacar as estruturas e os achados descritos no texto.

Aviso importante

Material educacional. Não substitui a avaliação oftalmológica, os protocolos institucionais nem a consulta às bulas.

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